Domingos Pellegrini UM ROMANCE DE
MULHERES ESMERALDAS
Copyright © 2018 Domingos Pellegrini Copyright © 2018 Editora Gutenberg
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editora
revisão final
Silvia Tocci Masini
Samira Vilela
editora assistente
capa
Carol Christo
Diogo Droschi (Sobre imagem de Gustavo Frazão/Shutterstock)
assistente editorial
Andresa Vidal Vilchenski
diagramação
Waldênia Alvarenga
preparação
Sonia Junqueira revisão
Silvia Tocci Masini
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
Pellegrini, Domingos Mulheres esmeraldas : romance / Domingos Pellegrini. -- 1. ed. -Belo Horizonte : Gutenberg Editora, 2018. ISBN 978-85-8235-519-0 1. Ficção brasileira I. Título. 18-14799
CDD-869.3
Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura brasileira 869.3 Maria Alice Ferreira - Bibliotecária - CRB-8/7964
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Domingos Pellegrini
MULHERES ESMERALDAS ROMANCE
O garimpo
Romance, ele sussurra acordando com sol nos olhos, azul quase faiscante na janela, romance precisa antes de tudo ser escrito, e hoje, sem falta, vai começar a escrever, os garimpeiros podem esperar. Pouco antes de acordar, estava no mesmo sonho de sempre: uma mulher, de quem só vê o alto da cabeça, se atrapalha com o zíper de suas calças, tentando abrir e não conseguindo, dizendo que zíper mais complicado, o tesão acabando, aí ele acorda. Para seu amigo Maurílio, a interpretação é óbvia: – Você está procurando uma mulher esperta, meu chapa! Ele levanta da cama úmida de suor, se assustando com a baita teia de aranha, mas é só o mosquiteiro, e pisando em latas de cerveja vai ligar a tevê sem imagem, só chuvisca fanhosa: – Vamos chegando às últimas semanas de 1984, mas o sentimento nacional é de que o Brasil vai entrando numa nova era, com seu primeiro presidente eleito depois de vinte e quatro anos de regime militar, o mineiro Tancredo Neves... Suspira fundo, falando sim, eu suspiro, senão eu piro; depois toma banho e se veste, enfia o caderno de notas num envelope plástico e bota no peito a máquina fotográfica, o gravador cabe no bolso da jaqueta, enquanto o cantil vai enganchado no cinto, o boné na cabeça; já teve insolação em reportagem de campo por esquecer o boné. Talvez por tudo isso, quando dá com a loira no corredor ela lhe olha de cima até embaixo, decerto pensando ser turista ou ecologista com tanta tralha. Ele dá bom dia, ela não responde, chaveando a porta do quarto para sair. (N.A.: O autor usa apenas “porque” e jamais “por que” porque não vê porque, além de também dispensar algumas pontuações por obviedade desnecessárias.)
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Ele espera, para ir atrás dela vendo seu andar, mas ela espera olhando a porta, belo pescoço. Então ele passa e vai para o café, ela atrás pisando tão leve que ele não ouve, apesar de, ele olha, ela estar de botinas. No salão do café, o hoteleiro vem cheio de sorrisos por baixo do bigodão, com um potinho de manteiga gelada para ele e dois ovos cozidos para ela, mimos especiais do Hotel Ouro Fino. Passando pelo bigodão a mesma mão que pegou pães, pergunta se ele gostou do vinho, voltando rapidinho para a cozinha sem esperar resposta. Vinho? Ele ainda arrota cerveja, e apoia a testa nas mãos esperando o café, que deveria vir antes dos pães, não? Assim também cochilou no aeroporto de Campo Grande, para, em Cuiabá, pegar o Fokker que roncou furioso até Alta Mata, só mata lá embaixo, às vezes clareira de cidadezinha, cozinhando no mormaço sob a tampa azul do céu. Na pista cascalhada de Alta Mata, as rodas espirraram pedregulhos a bater na fuselagem, e alguém falou isso parece tiro, mas outro disse não, tiro é diferente. Olha no caderno se anotou isso, anotou. E, aberta a porta do avião, entraram um calorão com cheiro de capim e um menino ligeiro com galinha viva amarrada pelos pés. O menino abriu a cortina da cabine do piloto, entrou e voltou sem a galinha, e só depois, sorrindo desculposamente, a aeromoça deixou saírem os passageiros. Ele revê as anotações. Num sol de esquentar os cabelos, caminhou para o aeroporto, um barracão de madeira com telas nas janelas, mais parecia um grande galinheiro. O piso do saguão estava coberto de pó de serra, e lá fora os táxis esperavam torrando ao sol em ilhas de lama na rua empoçada. Uma crosta de poeira, grossa e dura de velha, cobria o painel de um Mercedes, e, a caminho da cidade, ouvia-se um ronco distante mas furioso; o taxista explicou: eram tratores alargando a clareira da cidade, e uma grande árvore tombou lá na beirada da floresta. Sentiu cheiro forte de alho e o taxista, que dirigia fumando, disse que era de paus-d’alho derrubados, então ele sentiu fome. As ruas eram de terra mas largas como avenidas, o carro desviando de poças e atoleiros. As casas pareciam boiar no lamaçal, uma aqui e outra lá, entre terrenos baldios com capoeira crescendo, e, em calçadas 6
embarreadas, lojas tinham caixas de som sobre tijolos e mercadorias em varais, de sutiãs a linguiças, anotou para um dos cenários de sua reportagem. (Não anotou que, no primeiro hotel, onde o saguão tinha quadros de queimadas e enormes vasos de flores de plástico, tirou da mochila uma das três revistas que trazia para isso mesmo, mostrou-se na pequena foto no índice, mostrou a carteirinha de repórter especial da Playboy, esperando que, como sempre, funcionasse mais que carteira de Polícia Federal, para enfim dizer que gostaria de se hospedar ali porém não podia: ia passar semana num garimpo, precisava de nota de estadia em hotel. Pode ficar com a revista, falou, e toda dúvida sumiu da cara do sujeito, encheu nota fiscal no dobro do valor, carimbou, entregou dizendo vai com Deus e se enfiou na revista. Deus topa tudo, ele anota agora.) Depois pegou outro táxi e mandou tocar para qualquer hotel barato de garimpeiros, e o taxista falou o Ouro Fino, onde ele logo descobriria o travesseiro tão fino que precisava ser dobrado, o sabonete fininho que duraria dois banhos, a toalha de quase transparente finura... Perguntou ao hoteleiro se tinha vinho, claro que não tinha. Mas ele tinha um plano, resolveu tomando banho: pelas manhãs começaria a escrever o romance, à tarde conversaria pelos bares para anotar histórias de fabulosos garimpos e enriquecidos garimpeiros, misturando com paixões e alucinações inventadas, para voltar já com a “reportagem” toda anotada, faltando apenas redigir. Deus escreve certo principalmente nas entrelinh... estava anotando quando bateram na porta. Era o hoteleiro com garrafa e sorriso vitorioso debaixo do bigodão: – Consegui vinho pro senhor, oferta da casa! Ele agradeceu muito, fechou a porta, olhou a garrafa: era um vinho, se assim podia ser chamado, rosado e licoroso, até o papel do rótulo era grosso. Abriu com saca-rolha do canivete, cheirou e despejou na privada. Pegou na mochila o saco plástico para colocar roupa suja, encheu com meia dúzia de latas num bar vizinho, voltou furtivamente, tomou a primeira lata gelada, a segunda fria, a terceira fresca, as outras mornas entre arrotos e bocejos diante da tevê chuviscando. A última anotação: como será que dormem nos garimpos neste calorão? 7
De repente ergue o olhar do caderno, esperando flagrar o olhar da loira, mas ela só encara a xícara. Ele luta para passar a manteiga gelada no pão murcho e, olhando como ela come com gosto e com graça os ovos, lembra que está com fome porque não jantou. Pede ovos também, com bacon e tomate, o hoteleiro pergunta se pode botar cebola, ele fala alto: – Passe pela horta com a frigideira e bote o que quiser. Mas ela não ri, talvez nem ouviu, só olhando para o prato; mas assim ele pode olhar bem: é bonita que só, corpo esguio mas com todas as curvas, pele rosada, cabelos tão curtinhos quanto pontudinho o nariz. Claro que não é dali, embora até pareça, com essas calças e camisas de homem, botinas embarreadas. Puta decerto não é, com essa redoma de respeito em volta. Talvez sapatona, se não parecesse tão feminina, e certo é só que está sozinha, chaveou o quarto. De repente, ela ergue o olhar para ele mas volta a baixar para o prato, um olhar firme e calmo, sem medo nem pressa e bem azul. Ela acaba os ovos, toma mais café. O hoteleiro traz os ovos dele, pergunta se ela quer mamão, entregando meio papaia ainda com sementes. Ela tira as sementes com a colher, come o mamão a colheradas, devagar e pensativa, os olhos azuis pairando longe. Ele come os ovos, lambe o prato com pão e começa a comer sua metade do mamão, esperando ela olhar de novo. Mas ela não olha, raspa a casca do mamão, lambendo a colher com sensual inocência, depois toma água degustando cada gole e vai para o quarto. Volta logo com chapéu panamá e mochila nas costas, saindo sem olhar, e ele vai espiar da porta: ela caminha reta pela rua, embarreando as botinas sem desviar das poças e barreiros. De repente olha para trás, decerto é daquelas que se sentem olhadas. Ele dá com a mão, ela continua reta pela rua de barro. Ele pergunta ao hoteleiro quem é ela. – É garimpeira – responde o bigodudo com naturalidade. Ele pergunta de algum garimpo por perto para conhecer. Tem vários, diz o bigodão, é só pegar um táxi. – O garimpo dessa dona aí é perto? É, mas esse ele não pode visitar: – É garimpo de mulher, homem não pode entrar. 8
– Elas não deixam? O bigodudo faz que não ouviu. – Hem, mestre, elas não deixam? Nem elas nem a polícia, o homem se afasta resmungando. Ele tira a escova do bolso, no sanitário escova os dentes numa pia que foi branca um dia, sai do hotel no sol ardido mas sem nem sentir mais o calor: é repórter desde o jornalzinho do colégio e, quando começa uma reportagem, vai movido pelo tesão, vai que vai, só pensando no que vai perguntar, em que tom vai escrever, como vai juntar realidade e ficção, e vai também andando reto entre as poças e os barreiros. E o romance? A loira ativou o repórter, o escritor pode esperar. Entra no primeiro bar, pede uma cerveja para se ambientar, como diria Maurílio, e pergunta se alguém ali é garimpeiro, não, um é escriturário esperando abrir o cartório, outro bancário aguardando abrir o banco, o terceiro é vendedor de loteria, o senhor pode ficar rico levando um bilhete. Ele pergunta do tal garimpo de mulher e todos sabem mais ou menos onde é, mas também avisam que não se pode ir lá. O bancário até baixa a voz: – Se for, não volta, desce o rio boiando... Ele vai urinar na capoeira de um terreno, falando sozinho: – Você pode ter nas mãos, cara, uma reportagem de verdade. Mesmo que não seja para a Playboy, para algum dos grandes jornais. É chegar com tudo escrito, até as legendas das fotos. Querem? É tanto, toma lá, dá cá, pronto. Duas reportagens numa viagem só, isso sim, seria um presente de Natal. Então vai combinar preço com taxista, já avisando que vai precisar de recibo em dobro, quando de longe vê ela entrando no hotel, curvada com a mochila cheia. Ele deixa o taxista falando sozinho e ruma para lá. Ela está falando com o hoteleiro, mas se calam quando ele entra. Vai direto ao assunto, diz que é repórter da Playboy e quer visitar seu garimpo. – Não recebemos visitas – ela encara com toda a calma dos olhos azuis, na voz uma pontinha de sotaque. – Inglesa? – Norte-americana. Com licença. 9
Ela vai para o quarto, ele vai atrás dizendo que a revista pode pagar bem, principalmente por reportagem com boas fotos. Ela abre a porta e fala olhando através dele, como só por gentileza: – Não, obrigada. Com licença. Entra fechando a porta, ele bota o pé. Então ela abre a porta olhando bem para ele, e vai dizer alguma coisa mas ele não deixa, diz que a revista pode pagar bem mesmo: – Você pode ficar surpresa de saber quanto. Ela mantém o olhar azulmente frio: – Não sou atriz nem modelo, com licença – e vai fechando a porta de novo, de novo ele enfia o pé, mas o hoteleiro aparece na ponta do corredor, ele tira o pé, ela bate a porta. Ele vai sentar no sofazinho da recepção, vê as mãos tremendo, fala respirando forte: – A frieza dela te ferveu. Mas é mais que isso. Já brigou com amigos jornalistas por dizerem quem diria, um repórter tão premiado como você, acabar em revista de mulher pelada. Alguns são burocratas de gravata mas ainda se acham revolucionários, a serviço de um jornalismo “progressista”, conforme um que tem emprego público, onde escreve de manhã notícias oficiais que joga no lixo do jornal onde também trabalha à tarde. Outros se acham tão puros que dão piedosos conselhos, que ele manda enfiar onde nunca bate sol, e em festa do sindicato fica sozinho num canto. Repórter de revista de mulher pelada... Já nem responde mais quando alguém pergunta quanto ganhou fulana ou sicrana para posar pelada, e alguns perguntam até se tem telefone delas. Mas nunca ninguém falou como essa loira com aquele olhar frio, nem atriz nem modelo, com licença. Fica respirando fundo, meio que suspirando, até as mãos pararem de tremer. Prepara a máquina com vingativo cuidado, murmurando aqui também é um país livre, moça, onde todo mundo pode fotografar todo mundo. Regula o foco da máquina para a porta do corredor e se acomoda na poltrona ensebada para esperar a manhã toda se preciso for – mas ela logo sai do quarto, enterrando o chapéu na cabeça, e ele levanta; bate a primeira foto quando ela passa pela porta. Bate a segunda quando ela caminha para ele, para pedir com sorriso torto e olhar frio: posso ver sua máquina? Em bobeira instantânea, ele 10
entrega a máquina e ela, com ligeireza profissional, tira o filme e enfia no bolso da camisa, devolve a máquina agradecendo com outro sorriso maquinal e já passando por ele. Que aí lhe pega o braço dizendo ei, devolve meu filme, e ela tenta livrar o braço, ele aperta, então ela lhe dá no meio das pernas um chute rápido, seco e duro, de quem sabe bem o que faz, e ele faz o que com isso se faz, dobra os joelhos e se ampara numa cadeira, ela já saiu ligeira. O hoteleiro ri – Eu avisei, essa mulherada!... – enquanto ela entra num táxi e já parte. Sentindo cada passo, ele vai para o quarto, deita e fica tempo ouvindo as risadas lá no salão, o hoteleiro contando para outros... E o quarto é ainda mais quente de dia, mas, mesmo suando de escorrer, ele cochila, as pernas dobradas, os joelhos quase no peito feito feto. A regredir, a lembrar porque está ali e, como diz o editor, a focar mais e fofocar menos. As risadas dos garimpeiros ecoam longe, vão sumindo, ele está no silêncio da redação da Playboy, olhado por todas aquelas mulheres dos cartazes – em pé diante da mesa do novo subeditor, que bate palminhas dizendo meu Deus, de onde esse homem tira essas pautas?! – Um tesão de garimpo! Só o título já me deixa excitado! – batendo mais palminhas o subeditor da machista Playboy, que, mesmo sentado, consegue ser saltitante; irônico mundo, pernilongo. O pernilongo zune no ouvido, ficou dentro do mosquiteiro, mas deixa de zumbir para ele ouvir o sub lendo a pauta (que ele escreveu de ressaca meia hora antes da reunião, quatro linhas datilografadas ali mesmo): Um tesão de garimpo: um texto entre a reportagem e a ficção sobre os sonhos eróticos dos garimpeiros, suas lembranças de farras e orgias, com aquele tempero etc. Como assim, com aquele tempero? o sub pergunta, mas o editor fala tudo bem, ele bota isso em toda pauta. O sub diz nossa, era só curiosidade, né, afinal não é receita pra ter tempero. – E é a pauta mais curta que já vi... – Mas os menores frascos – ele se ouve falando com doce voz – só conterão fiascos e fracassos? O pernilongo passeia, ele estapeia. Estica o braço para fora do mosquiteiro, enfia a mão na mochila sabendo exatamente onde achar o isqueiro, os olhos ainda fechados mas a boca já em meio sorriso. 11
O sub entrega a passagem e o dinheiro da viagem em envelope aberto – mas ele rasga no bico, cortando as orelhas do coelho ali impresso, e o gesto bruto arrepia o sub. Ele enfia a passagem na mochila, o dinheiro nos bolsos, metade na jaqueta e metade nas calças. O sub atento: – Não vai conferir? – Não – ele assina o recibo na palma da mão – você já conferiu. O pernilongo zunindo. É bom, diz com voz profissional o sub, você saber que só tem um hotel três estrelas em Alta Mata, então uma reserva é o mínimo que... Vou fazer uma reportagem com garimpeiros, ele fala com a melhor voz que consegue, então vou ficar num hotel de garimpeiros. O editor diz tudo bem, ele sabe o que faz, e que seja reportagem de ganhar prêmio. O editor sempre fala isso, mas o sub se assanha dizendo queira Deus, queira Deus, e ele emenda queira o senhor, então, providenciar meu reforço de diária. Os olhinhos do sub piscam arregalados: ué, como pode pedir reforço de diária se ainda nem chegou ao destino? Faz o que ele diz, depois ele presta contas, o editor fala pegando o telefone, sinal de que seu tempo ali terminou, mas o editor ainda fala tapando o fone: – Vê se traz coisa quente lá desse garimpo, hem, coisa quente! O pernilongo zunindo. Ele vai para o elevador e o sub vai atrás esfregando as mãos, aí fica apertando o botão do elevador. Fala que admira um repórter que, quase no Natal, sai assim para reportagem de semana na A-ma-zô-nia! Mas, baixa a voz para perguntar, o que o chefe quis dizer com “coisa quente”? Bastante peito, bunda e buceta, nada que te interesse – ele fala já entrando no elevador, o sub rindo escandalizado, ai, você é terrível!... Terrível é pernilongo zunindo, pode custar uma noite de sono. Então ele acende o isqueiro de repente, a chama no máximo, para enxergar e queimar o bichinho no ar; e ouve o chiadinho, como no conto de Hemingway que leu rapazola, resolvendo então ser escritor. Fica com o isqueiro aceso feito tocha, sorrindo vitorioso, depois enfia no mesmo lugar na mochila. Fecha de novo os olhos. Tudo em ordem, dormir. Último suspiro do dia, e a mãe: – Você suspira demais, meu filho, isso é cansaço, precisa ir ao médico! 12
– Mãe, estou cansado mas é de ouvir conselho. – E sempre bebendo, bebendo, dá dor no coração ver você beber assim! – Mas ao menos, mãe, fígado não dói. Três batidas na porta. É o hoteleiro todo risonho, achou mais uma garrafa de vinho: – E é daquele mesmo que o senhor gostou tanto! Ele agradece tanta gentileza, o bigodudo pede desculpas pela freguesa, é moça muito direita, quando faz compras na cidade sempre fica no hotel, muito direita mesmo; só que muito brava também, o pessoal já conhece e ninguém mexe não. O sorriso por trás do bigodão: – O senhor facilitou... – Ela é dona do tal garimpo? O sorriso fecha, o homem resmunga que disso não sabe, do tal garimpo não sabe nada, e já se vai. Ele senta na cama com a garrafa nas mãos, a dor subindo pela barriga, as pernas ainda meio bambas. Abre a garrafa, mal tendo força de puxar o saca-rolha, e bebe um gole no gargalo. É pior do que esperava; cospe na privada, despeja a garrafa, deita de novo e fica de olhos fechados muito tempo, até sentir fome. Levanta falando você errou, cara, dói mas você errou, fotografando de perto contra a vontade da pessoa, errou. E não adianta ficar com raiva, será apenas raiva de si mesmo – mas, também, nem por isso vai deixar de checar o tal garimpo de mulher. Concentrando-se em andar direito para não mancar, sai do hotel sem olhar para ninguém e vê numa lojinha tripés de teleobjetiva; se for o caso, baterá fotos do tal garimpo de longe. Antes, dará uma chegada só com a câmera de mão, que é que pode perder? Mas só depois de acertado o preço é que o taxista previne: – Te deixo perto do garimpo, daí tem um trecho a pé. Paga metade adiantado, marca a saída para o dia seguinte bem cedinho. Almoça tucunaré, tomando cerveja com gelo no copo, garantem que é gelo de água mineral. No restaurante não tem vinho, mas em casa, diz o garçom, tem e do bom, pode ir buscar se ele quiser. Tinto ou branco, ele pergunta, e o garçom sorri já vitorioso: 13
– Nem um nem outro, é rosado e docinho, não tem quem não goste! Um dia alguém deve ter chegado ali com caminhão de vinho rosado licoroso. Ele agradece, diz que, por especulação médica, só pode tomar tinto. Ora, o garçom tenta, rosado é meio tinto, não é? Ou, diz ele, não é nem branco nem tinto, sinto muito. Para compensar a decepção do homem, pede a primeira das três caipirinhas para o almoço e, depois de comer, pede nota no dobro do valor. Enquanto espera, anota no caderno, não para a reportagem, para o romance: que anda cansado daquele apartamento, daquela rua, daquele pedaço de São Paulo ou até cansado do Brasil, tanta burrice querendo ser esperteza, e ele mesmo talvez seja exemplo disso. Ainda se acha com saudade da Alemanha de vez em quando, até dos invernos e das feijoadas dos exilados. Lá conheceu a primeira mulher, lá deixou de ser comunista, recorreu ao jornalismo para não passar fome, sofreu gostoso, como dizia Maurílio, porque, apesar de tudo, tudo lá parecia que podia acontecer. Na rua, o céu já todo escureceu com gordas nuvens, e começa a chover. Numa barraquinha de zinco ardente, onde se lê Sucos Gelados, um menino pergunta o que ele vai querer, pede suco de cupuaçu. Na sua estufa de zinco o menino sua feliz. Tudo vem de Deus, diz a mãe. Em vez de escrever o romance pela manhã, só perdeu tempo com a loira de olhos frios mas, apanhando, percebeu que deve mesmo esquecer por ora Um tesão de garimpo, para amanhã ir para onde aponta o imprevisto – um garimpo de mulheres que (se Deus bem quiser, porque Deus também pode mal querer, como diz a mãe) lhe dará uma reportagem de verdade. Entretanto, se existe um Grande Plano, funciona para não deixar que escreva o romance. Sempre aparece alguma coisa pelas manhãs, geralmente uma ressaca, e agora, quando não tem vinho por perto e tempo de sobra para a reportagem, podia simplesmente sentar e escrever o romance – mas como um repórter da Playboy ignorará um garimpo de mulheres e, principalmente, uma mulher para quem se ajoelhou? E depois desse suco tão denso decerto vai passar a tarde dormindo. Quando vê, o menino olha espantado para ele, está murmurando palavrões em alemão. 14
No hotel, pede para telefonar, só tem telefone na portaria, com o hoteleiro ali e vários garimpeiros deixando de ouvir a televisão chuviscosa para prestar atenção no repórter da revista de mulher pelada. Olham sua máquina e suas roupas e comentam abertamente. Ele disca a cobrar, fala ao editor que tudo vai bem, está de partida para vários garimpos, numa semana estará de volta – talvez com duas reportagens. – Outra de garimpo? No mesmo ano, não! Esqueceu, a Playboy não repete mulheres nem reportagens. Então, se escrever também a reportagem Garimpo de mulher, sairá só no ano seguinte, sem adiantamento e nenhuma despesa de viagem, afinal ele já está ali. O editor, com a pressa profissional: – Se já tem uma reportagem na mão, volte logo, não passe de semana que você sai muito caro, e traga só notas fiscais, não me venha com recibos à mão em papel de embrulho! Ele conta até seis como sempre, como fazia com as granadas de barro quando menino, e o editor pergunta se ele ainda está na linha. – Estou. Mais alguma coisa? – Boa sorte aí. Às vezes te invejo. – Porque só às vezes? – É sério, você é repórter mesmo, deve ser dos últimos. Deus te ajude. Ninguém deve ter a agenda mais cheia que Deus, anota depois de desligar, os garimpeiros a cochichar alto devido à tevê também alta, ouve preibói várias vezes. Não tiram os olhos dele e então, muito sério, continua a anotar no caderno ali no balcão de cimento, com pose e floreios de caneta: Que bom, o menino em mim se nega a morrer. Põe a mão na testa pensativo, morde a caneta, os homens em cochichação. Anota mais alguns rabiscos, eles cochicham assanhados; e ele diz ao hoteleiro que, tendo mais alguma garrafa daquele vinho, sirva por favor aos cavalheiros. Vai para o quarto ouvindo o bigodudo contar aos outros o chute no saco que ele recebeu, a arriada que deu, todos ouvindo num religioso silêncio, depois gargalhadas. No quarto, suspira fundo, está resolvido: – Você não vai mais para esse maldito garimpo, vai escrever o romance logo cedinho. 15
Escova os dentes, cai na cama arrotando tucunaré com vodca e cupuaçu, e começa a chover. Mais um dia perdido, ido, do, o, quando menino brincava com as palavras para dormir. A mãe: – Se você não bebesse no almoço, não perdia a tarde dormindo! Dormindo, mindo, do, o. A janela está escura quando acorda, deve mesmo ter dormido a tarde toda, mas, quando olha pela janela, o dia amanhece no horizonte da floresta: dormiu a tarde toda e a noite inteira! Toma banho, toma café, volta para o quarto sentindo velhas pontadas na coluna. O hoteleiro bate na porta, o táxi espera, na janela um céu todo azul – e na coluna aquela dorzinha. Então tira roupas da mochila, também uma das duas Playboy restantes, mas não alivia muito o peso. Tem de levar a máquina, várias lentes, bastante filme; cada foto pode valer uma boa grana se a reportagem sair também noutras Playboy do mundo. No balcão do café enfia meia dúzia de bananas na mochila e bota nas costas para sentir o peso, continua pesada mas vai para a rua assim mesmo, a coluna dando suas pontadinhas. – Isso é falta de mulher, meu camarada! – diz Maurílio – A falta de enrijecimento abaixo amolece a coluna acima! O táxi roda por larga e lisa estrada de terra, bicho metálico ronronando, ele inclina bem o assento, recosta fundo, cochila. Cochila no travado trânsito de São Paulo, o táxi parado na chuva, os vidros embaçados, o rádio noticiando futebol; até que paga e sai na chuva. Anda se molhando até em casa, avenidas e viadutos, só parando para conhaque num bar onde pede saco plástico, embrulha a carteira e continua pela chuva. Quando chega, está todo ensopado – e o apartamento também. Apartamento não é casa, diz a mãe, querendo dizer que não é lar. Minha casa é onde estou no momento, diz Maurílio. E ali está Maurílio dormindo de boca aberta no sofá, a garrafa de vodca deitada no carpê molhado, a água vem da banheira transbordando. Ele fecha a torneira. Deixa os sapatos pingando pendurados nas maçanetas, anda descalço por todos os cômodos, uma lâmina de água cobre tudo, pilhas de revistas 16
e jornais se encharcando na área de serviço, a coleção de suas reportagens; talvez já sinal de uma velha vida ficando para trás, mas na hora ele não percebe. Abre a geladeira, foram-se quase todas as cervejas mas um pé de alface continua ali murcho de esperanças. Volta ao banheiro, joga no chão molhado as roupas molhadas, deita na banheira; a água jorra em cascata para fora, como sempre quis fazer menino, só falta o barquinho. Fecha os olhos. Quando abre, Maurílio está ali, só de cueca, com casaco de inverno europeu, já uma lata espumando na mão, procurando seu copo para brindar: – Cadê teu vinho? – Não estou bebendo. – Tá doente? Quero brindar. – A que? – Ao teu astral, meu irmão: chega em casa e se joga na banheira, olha que maravilha! A mãe terá um ataque se vir o apartamento. Maurílio senta na privada com olhar longe; talvez pose, talvez lembrando mesmo do Chile, ou do México, Europa, Angola. O último dos exilados. Ainda falando de Lênin como de um santo, embora beber tenha sido o que mais fez pela Revolução. Em partidinhos clandestinos foi assaltante de bancos, dirigiu até caminhão sem ter carteira de motorista, foi segurança de notórios procurados, transportou malas de dinheiro, foi babá de nenês de mães encarceradas, enfermeiro de vaidades doentias, tudo enfrentando desde que não tivesse de aguentar “reunião de mais de hora” e, em seguida, não faltasse bebida. Guerrilhando com os cubanos em Angola antes de se tornar o último exilado a voltar para o Brasil, Maurílio virou lenda a andar de lado devido à tortura, conforme uns, ou devido à cirrose, conforme outros, a viver “uma lua aqui, outra lá”, uma semana com cada ex-exilado que consiga encontrar, rolando por todo o Brasil e se tornando entendido em sotaques e pratos típicos. E sempre deixando na pia da cozinha, no fogão e sobre a geladeira, louça suja entre latas e garrafas. – Maurílio, porque aquela calcinha na geladeira? – Pra você, companheiro, uma lembrancinha. Veio uma dona me entrevistar, o último dos exilados, coisa e tal, acabamos na tua cama, 17
mas nem precisa trocar lençol que ela era limpinha. Só que acabou a vodca, meu chapa, não tem mais? Ele sai da banheira, tira uma garrafa do cesto de roupa suja, Maurílio diz que só não procurou ali. Ele vai para o quarto, chapinhando no carpê, e só então Maurílio nota o alagamento, com seus altos sapatos para neve, manchados de gordura ainda da Alemanha. Toca a campainha. Ele veste o roupão, abre a porta, e a síndica nem dá boa noite, diz que está vazando água no apartamento de baixo. Ele diz que o problema será resolvido sem falta e volta para dentro. Maurílio vai atrás tropeçando em latas e pedindo desculpas, entre bicadas na vodca e na cerveja, enquanto ele vai enfiando roupas e tralha na mochila. A síndica entra curiosa e olha tudo muito espantada, os quadros, as fotos, as mil lembranças de viagem e os discos enfileirados no rodapé, as capas com marca de umidade subindo do carpê. Maurílio pergunta se pode ajudar em alguma coisa, já com outra lata espumando na mão e, com a outra mão, despejando vodca da garrafa na boca sem tocar os lábios no gargalo, uma das coisas duramente aprendidas, como diz, “no congelante exílio europeu”. – Quer que enxugue teus discos, companheiro? – abrindo os braços, cerveja espirrando na parede – Eu enxugo teus discos! Amanhã! – bebendo na lata – Enxugo todos os teus discos! – bebendo na garrafa, ligando a tevê e deitando no sofá. A síndica passeia o espanto pelo apartamento, murmurando que nunca viu tanta água! – Mas o pior já passou – ele pega pelo braço levando para a porta – Agora só tende a secar – e deixa a mulher lá fora com beijo na mão, ela fica olhando a mão enquanto ele fecha a porta. Veste-se, abre a gaveta da escrivaninha e sente o bafo de Maurílio sobre o ombro, olhando a papelada na gaveta. – Vai sair de novo, companheiro? – Vou viajar. Se resolver ir embora, devolve a chave pra minha mãe. – Vai pra onde? – Alta Mata, na Amazônia. Maurílio não se espanta e ele repete que é na Amazônia. 18
– Tem de ser em algum lugar, né, companheiro – e bebe na lata e bebe na garrafa – Então lá coma tucunaré com pirão e beba pinga com mel, não tem nada igual pro tesão. Ele anota a frase, pode botar na boca de um garimpeiro real ou imaginário. Maurílio pergunta que papelada é essa na gaveta, e ele pela primeira vez conta a alguém, são anotações para um romance que tenta escrever. Maurílio pega uma das folhas amareladas como se fosse um rato morto. – E tá tentando faz tempo, hem, companheiro? Ele pega a mochila, a jaqueta, o cantil e sai. Da porta, Maurílio pergunta quando vai voltar, não responde. No elevador, ainda ouve o último dos materialistas dialéticos, como se diz, entretanto gritando para o fosso: – Vai com Deus, companheiro! No aeroporto, liga para a mãe: – Dá uma olhada no apartamento, mas lembra que tem amigo meu lá. – Aquilo não é amigo, é um aproveitador! – ela parece morder o telefone – Você não tem mais amigos, meu filho, não para em casa, mulher pra todo lado, bebida em todo canto, você devia casar de novo, porque eu vejo que você vive infeliz! Você está onde? – No aeroporto. Só quero que a senhora dê uma chegada no apartamento, mãe, só isso. A senhora vai ver porque. – Aquele animal vai ficar lá até quando? – Ele é uma boa pessoa, mãe, conversa com ele pra conhecer. – Só o bafo me derruba. Vai com Deus, meu filho. Você volta antes do Natal, não é? Ele desliga. “Vai com Deus”; lembra a quadrinha que recitava menino antes de dormir: com Deus me deito, com Deus me levanto, com a graça de Deus e do Espírito Santo. Mas o táxi trepida tanto que o taxista fala acorda aí pra não quebrar o pescoço, e ele vê que a estrada larga e lisa virou estradinha estreita e buraquenta. Ali é entrada de garimpo de barranco, aponta o taxista, lá adiante tem muito garimpo de rio, e vai apontando garimpos até a estradinha acabar diante duma capoeira. Retorno daqui, diz o taxista, volto no fim do dia. Ele só tem de atravessar a capoeira, entrar na mata e seguir o riacho. 19
– Mas cuidado com essa mulherada, hem, diz-que até já mataram gente aí... Ele bota a mochila nas costas, sentindo a dor, e vai pela trilha na capoeira alta. O sol subiu, a capoeira mormaceia ainda encharcada de chuva, e quando chega à mata já está todo suado. A sombra das árvores seria um frescor se a mata não fosse abafada, tanto que só ouve o rumor do riacho quando já está na grota onde a água corre entre pedras. Avança com cuidado para não escorregar na terra úmida, nas pedras lisas, a mochila pesando nas costas, a máquina balançando no peito; afastando galhos e se desenroscando de cipós; até que, de repente, está com uma carabina na cara. – Pode ir voltando, meu chapa. É uma mulata alta e larga, roliça sem cintura, com botas de borracha e bermudas, os peitões quase rompendo o sutiã debaixo da camisa de homem. Ele fala bom dia, estou procurando o garimpo de mulher. – Então o nome já diz: não é pra homem. Mas ela olha a máquina fotográfica, ele diz que é repórter, só quer conhecer o garimpo, e ela diz ih, seu moço, tem tantos outros garimpos por aí... Engatilha a carabina, os dois canos como olhos escuros focando seu peito. – E cansei de conversa, pode ir voltando. Mas ele diz que não vai voltar: – É terra do Estado, a senhora não tem o direito de me tirar daqui. Ela balança a cabeça dizendo baixinho é primeira vez que me chamam de senhora, pois é: – A gente tem mesmo que cair fora daqui, garimpo envelhece... – Deixa ele – fala outra voz. Ele vira, é a loira, com seu chapéu panamá e agora calças de fuzileiro com manchas de camuflagem, botas de borracha e camiseta sem sutiã, os mamilos cutucando o pano. Os olhos, ele bem vê agora, são do azul claro dos ingleses, e o olhar continua frio. Só então vê também que ela é levemente vesga, parece que só um olho olha para ele, o outro parece olhar de lado, desconfiado ou pensando. – Você é mesmo da Playboy, é? – ela empina o nariz para perguntar, levantando do rosto a sombra do chapéu, aí aparecem sardas claras, como tinha a primeira namorada do menino. 20
Ele mostra a carteirinha da revista, conta como vai ser a reportagem Um tesão de garimpo, e como ficará interessante se também garimpeiras contarem seus sonhos e fantasias e... Ela quase sorri mas não, como se ele e sua história não valessem nem isso. – Sonhos e fantasias, é? – Ou nem precisam falar nada, só bato umas fotos. As duas trocam um divertido olhar. – Só umas fotos? – Eu só quero fazer uma reportagem bonita. – Se é sobre garimpo – fala a mulata – não pode ser bonita. – Quem sabe... – a loira olha através dele – Mal não vai fazer. Então vem. A mulata abre boca de espanto, balbuciando mas, mas, mas a loira vai pela trilha e, indo atrás, ele vê uma bem formatada bunda e um 38 em coldre atrás do cinto. A mulata vai resmungando que tomara ela saiba o que está fazendo, elas já têm problema demais pra arranjar mais um, até que a loira corta: – Para de resmungar, Dita, parece velha. A mulata se cala, passarinhos debocham. A trilha acaba numa clareira onde o riacho se espalha em açudes de terra e cascalho. Nas beiradas da clareira, varais de roupa e de charque se estendem entre barracas. De um rancho de troncos de palmeira, coberto de palmas, sai fumaça com cheiro de comida caseira. Vê também um forno de barro, como o da vó quando era menino, mas não perde de vista a loira a falar baixo com a mulata, com gestos de discussão. Deve ter uns trinta anos, mas peitos de quem nunca amamentou, ou será virgem ou é sapatona. E estão com cabelos molhados, deviam estar tomando banho no riacho quando ele apareceu. Entre todos os truques do jornalismo, os melhores são os mais simples, ser humilde, tratar com respeito, olhar nos olhos, trocar favores ou gentilezas, não esquecer o nome da pessoa. Então, quando a mulata deixa a carabina numa barraca e vem até ele, pede com voz doce: me mostra o garimpo, Benedita. Garante que só baterá foto de quem quiser, depois mandará cópias. Enquanto isso, lá no rancho a loira fala com a cozinheira e sua ajudante, apontando para ele. Hem, Benedita, 21
ele pede docemente, me mostra o garimpo que eu vou te agradecer pra sempre, vou pedir por você sempre que rezar. – E você reza muito? – Nunca, mas pelo menos não sei mentir. Ela ri bonito com os dentões brancos. – Tá certo, preibói – o maldito apelido aparece onde quer que vá – Vou te mostrar um garimpo de mulher. Ela mostra os barrancos derrubados com pás e picaretas, os montes de cascalho, as bateias, a valeta de madeira por onde a lama escorre até peneiras cobertas de estopa, para reter o ouro em pó; um garimpo como os outros, diz a mulata. Ele pergunta se nos outros garimpos as barracas também são limpas assim, os colchonetes com lençóis, fronhas nos travesseiros. Ela ri, dizendo pois é, coisas de mulher, e que só ali ele também verá máscaras de gás, apesar de todo garimpo depurar ouro com mercúrio. – Porque garimpeiro é bicho burro, preibói, só querem ver ouro, não veem os perigos. Dita mostra ainda que, ao lado do rancho, um bambu verte água de mina numa pia de pedras, então elas têm água potável sem precisar comprar bujões de água mineral como nos outros garimpos. E também têm uma privadinha coberta sobre uma fossa, com paredes de zinco e piso de tábuas, coisa que só garimpo grande tem, fala com orgulho. Finalmente mostra, com mais orgulho, os motores a diesel para bombear água do riacho, entendida: – Fui caminhoneira, preibói. – Antes ou depois de casar? – ele aponta a aliança. – Depois. Ele morreu. Então é só fazer duas ou três perguntas condoídas e ela conta como o marido morreu, até com detalhes porque viajavam juntos, ele caminhoneiro e ela sem filhos; tinha até aprendido a dirigir o caminhão para ele dormir. Quando ele morreu, ela resolveu continuar, ser caminhoneira, pensando ser uma entre poucas, depois espantada de ver tantas outras rodando pelo Brasil. – E não teve medo? – Medo, preibói, só tive de passar fome e não honrar a herança de meu homem. 22
Um dia, esperando uma carga para voltar a São Paulo, conheceu Méri (a loira então tem um nome) no Hotel Ouro Fino (ainda sente a dor no saco). As duas conversaram jantando, Méri contou que tinha um garimpo para tocar, precisava de gente e também de dinheiro. – Então vendi o caminhão e botei o dinheiro na mão dela. – Porque? – ele olha nos olhos. Ela olha como se ele fosse criança: – Porque?! Pra ficar rica, preibói, ou você acha que alguém gosta disso?! – E ficou rica? – Não, mas um dia quem sabe? – mentindo porque falou desviando os olhos. Ele pergunta se Méri é nome ou apelido, achando que deve ser Mary, mas é Mariane. Lá no rancho ela bate colher em frigideira, chamando para o almoço, e ele murmura ela é ex-militar. Dita, admirada, pergunta como ele sabe. Vão para o rancho, onde a cozinheira Donana é uma índia enrugada e gorda mas de cabelos negros e compridos, botando sem pressa os panelões na mesa de tábuas sobre cavaletes, e aparecem mais duas mulheres. Uma é clara de cabelo grisalho e curto, andar de homem, cara de homem, jeito de homem. Esta é a Portuguesa, Dita apresenta, e a mulher nem olha, pegando comida. A outra é uma linda mulata miúda, café-com-leite, mais leite que café, cabelos finos e brilhantes encaracoladinhos – e com as mesmas botas de borracha de todas, de bermudas mas camisa aberta, aparecem os peitinhos. Mariane lança um olhar e ela se abotoa sorrindo; uma pinta mexe na bochecha. Esta é Pintinha, Mariane apresenta, dizendo que ele é da Playboy. – A revista de mulher arreganhada? – Pintinha tem voz doce. Mariane cochicha com Portuguesa, Pintinha começa a fazer poses enquanto pega comida. – Essa máquina aí é só enfeite, preibói? Não deixa de ser um cenário interessante. Os pratos são de alumínio, as botas vermelhas estão embarreadas, a mata verdeja ao fundo e ele começa a fotografar. Já fotografou de perto bichos selvagens e longínquas paisagens andinas, alpinistas em cume nevado e mineiros em mina escura, até debaixo d’água já fotografou, tubarões entre bancos 23
de corais, mas nunca, apesar de repórter da “revista de mulher pelada”, nunca fotografou uma mulher fazendo poses. Começa a ficar excitado com Pintinha. Pega também um meio-corpo de Dita rindo com o prato nas mãos. Depois, a cozinheira Donana com seu sorriso bom, a negra cabeleira lisa de guarani e seu pacífico olhar; e sua ajudante Cida, outra mulata, quieta feito uma planta, só olhando para baixo. Pintinha amarra as fraldas da camisa, deixando à mostra a cintura fina e a bundinha redonda enchendo as bermudas curtas, e faz pose com cada uma das outras, menos Mariane e Portuguesa que vão discutir longe. Quando voltam, Portuguesa pega o prato frio e come brava; Mariane some. De repente Portuguesa levanta o olhar do prato e, com voz de homem, pergunta se ele tem uma identidade qualquer. Ele mostra a carteirinha de repórter, mostra sua foto na revista; ela continua a comer, Pintinha pega a revista. – É você mesmo, preibói, mas de barba. – É foto de arquivo, usam sempre a mesma. Remoçou, disseram os poucos amigos quando cortou a barba, remoçou. Cortou, disse, porque a barba passou a ter mais fios brancos que negros, só ele mesmo sabendo que junto cortou a Revolução, a guerrilha, o sonho de fazer História com as mãos. Vontade de dizer remocei não, mudei, mas não disse, agora diz: – Esse não sou mais eu, mudei. – É, diz Pintinha, eu menina era tão feinha. Dita ri, voltando a encher o prato, e Donana bota um prato nas mãos dele, tão quente que queima os dedos. Tem o cheiro de comida da vó; feijão de caldo grosso, arroz macio e soltinho, carne cozida, mandioca, e as primeiras verduras que vê em Alta Mata. – Da horta da Cida – Dita aponta lá uns canteiros, Cida sorri orgulhosa e envergonhada, a única de vestido, tão comprido que chega às canelas, o cabelo curtinho como um capacete negro, noviça amazônica. – Você é de Minas, não é, Cida? Ela levanta olhar de espanto: – Comé que o senhor sabe? – Pelo jeito. Me chame de você. 24
– Sim senhor. Portuguesa lava o prato a tapas na pia de pedra, bebe água da bica na palma da mão, vai se enfiar numa barraca. – Porque ela tem raiva de mim? – Ela tem raiva do mundo, preibói. Não vai tirar mais foto? – Deixa o rapaz comer, Pintinha – Donana sorri com os dentes miúdos de índia, ele pergunta se é guarani. – Como que você sabe, rapaz? – Obrigado pelo rapaz. – Você é adivinho, preibói? – Dita pergunta séria. – O seu caminhão era Mercedes – ele arrisca, é o caminhão mais vendido no país, e ela fica um tempo de boca aberta antes de falar: – Ele é adivinho. – Então adivinha quantos anos eu tenho – Donana sorri com a cara sem idade das índias de meia idade; tanto pode ainda ter quarenta e tantos como mais de sessenta, então ele arrisca cinquenta e sete, ela também fica olhando admirada para ele. Um tiro abafado na mata. – É a chefe caçando, preibói – Pintinha aponta os varais de charque, e ele fica sabendo que está comendo cutia. Méri corre as cevas à tarde, explica Dita, quando as cutias comem antes de se entocar para a noite, mas hoje foi mais cedo. Mariane aparece com cutia de quase três palmos de comprimento, já sangrada; pendura num varal amarrando ligeiro as patas, lava as mãos e faz seu prato, sem ao menos dar um olhar. – Quem é francês? – ele arrisca – Seu pai ou sua mãe? Ela então também lhe dá um olhar admirado: – Minha mãe. Como soube? – A frigideira é francesa. Vê então seu primeiro sorriso, curto e claro feito um flash; mas acaba logo e ela vai com o prato para uma barraca. Mal ela entra na barraca, Pintinha abre a camisa, botando as mãos na cintura e erguendo os peitinhos: – E as fotos, preibói? Donana diz é louca, essa menina é louca. Cida baixa os olhos, Dita come com seu apetite caminhoneiro. Esse mundo é que é louco, 25
ele fala, e deixa o prato para fotografar. Pintinha nasceu modelo, sabe posar brincando; ri jogando a cabeça para trás, mexe os ombros, cobre um peitinho com o chapéu de palha, o outro suspenso na outra mão como uma fruta. Deve ser quase três da tarde, o sol ainda alto demais, mas ela ergue o rosto já sem ele pedir, assim tirando as sombras dos olhos, e mantém cada pose enquanto ele regula cada foto. – Já posou alguma vez? – Muitas vezes, preibói, pra espelho de motel... Essa menina é louca, repete Donana. Ele vai pelo garimpo a bater fotos de Pintinha. Mariane sai da barraca, as outras se juntam em volta enquanto ela lava o prato, e discutem de novo, ela e Portuguesa, depois cada uma vai para um lado, ela volta a sumir entre uma foto e outra. O sol já sombreia a clareira mas o calor continua, a máquina escorrega nas mãos suadas, enquanto ele bate três filmes de Pintinha, variando cenários, o colorido das barracas ao fundo, ou a mata, os montes de cascalho. Também não precisa pedir para ela tirar a camisa, fazer poses com pá e picareta, até com a fálica mangueira de ar comprimido. Mal clica uma foto, ela já começa a posar para a seguinte. Ele esqueceu das outras, esqueceu do calor mas, quando para, estão pingando suor, e só então ela percebe: – Não faz mal suada assim, preibói? – Vão gostar mais ainda. – Você vai ganhar dinheiro com isso, né, preibói, mas e eu?! Dita ri: – Pode ser louca mas não é boba. Ele avisa que, antes de tudo, precisa mostrar as fotos à revista; e só depois, sendo aprovadas, ela vai tratar de dinheiro com outra pessoa, o subeditor. Pintinha ouve com atenção. – Ele é um tesão como você, preibói? – Baita macho. Ela fica tranquila, uma revista de moral como a Playboy não publica fotos sem contrato: – Senão depois a pessoa pede o que quer na Justiça... Agora me diga seu nome completo e número da identidade. Só depois repara que Pintinha ainda não comeu, faz agora o prato. O rancho tem fogão a gás mas a comida foi feita em fogão a lenha, decerto 26
para poupar botijão, não deve ser fácil levar até ali. Tudo simples mas organizado, tudo limpo, tudo em ordem, coisa mesmo de militar. Ele anota, Pintinha pergunta, ainda de camisa aberta, os peitinhos soltos: – Então eu tenho jeito pra isso? Donana já descasca legumes para a janta, diz que ela tem mas é fogo no rabo. Cida cuida da horta, as outras não estão à vista, o garimpo já todo sombreado pelo sol deitando na mata. Pintinha aponta um casal de araras a voar junto cruzando o céu da clareira: – Sinal de casamento, sabia? Ele não dá importância mas anota, depois diz que vai se lavar no riacho, pega a mochila, vai para a mata. Deus, fotografou horas seguidas! O táxi já deve estar esperando. Mandará o contrato de Pintinha ao Hotel Ouro Fino, o melhor agora é se mandar logo, até porque a mata já começa a penumbrar, e então começa a quase correr pela trilha, só parando para beber numa mina que jorra de bambu espetado em barranco. Deixa a mochila na trilha, bebe agachado e, quando levanta, a mochila não está mais ali. Está pendurada no ombro de Mariane, ao pé duma árvore imensa, Dita ao lado com carabina e o sorriso dos dentões brancos: – Que vergonha, moço... Respiram descansadas, já deviam estar ali esperando por ele. Ele diz que não ia fugir, a revista não publica mesmo fotos sem contrato, é que agora tem um táxi esperando e... – Vai até o táxi, Dita – Mariane comanda – Diz que ele vai pernoitar aqui – e sem nem olhar para ele: – Dá dinheiro pra ela pagar a corrida. – Isso é sequestro, sabia? É crime. Ela deixa nos pés dele a mochila e agacha ali na quase escuridão, encara envesgando, pensando longe, mas logo foca nele e fala sorrindo: – É que a gente precisa de um favor. Você fica com as fotos, não precisa pagar nada, mas faz um favor. – Que será...? – Primeiro – já sem sorrir – paga a corrida. Ora, se não é sonho, ele resmunga, pode ser no mínimo interessante, e dá a Dita o dinheiro, pedindo que diga ao taxista que amanhã pega recibo. 27
– E que o táxi volte amanhã cedo – Mariane emenda, Dita vai rindo. Mariane aponta para o garimpo – Vamos? – com a mão no cabo do revólver na cintura, e ele vai adiante dela pela trilha.
Anoitece e as barracas, com lamparinas dentro, parecem balões na clareira escura. Ao lado do rancho Cida empilha paus e Donana acende fogueira. Ele fala a Pintinha que não ia fugir, simplesmente tinha um táxi esperando e... – Fique frio – ela sorri cúmplice – Na carreira tudo se ajeita. – Vocês estão é de miolo mole – Portuguesa fala furiosa indo para sua barraca, Mariane vai atrás. Discutem baixo, mas lamparina projeta sombras das mãos na barraca, uma dando de dedo na cara da outra a se explicar com as mãos abertas. Até que Portuguesa sai da barraca e some na escuridão, Mariane vai atrás pisando duro, devem conhecer as trilhas mesmo no escuro. Ele suspira, Pintinha diz nossa, como você suspira, menino, precisa duma massagem, e senta a seu lado num caixote. Ele tira da mochila as bananas do Hotel Ouro Fino, dá a Donana, diz que a comida dela lembra a de sua falecida vó. Deve ser por causa das panelas de ferro, diz ela soprando o fogo, depois com olhos úmidos de fumaça: – Você é um bom moço, Deus te ajude. Ele anota, tanta gente falando em Deus nesta viagem, talvez coisa para o romance. Fecha o caderno, suspira falando ao fogo: – Eu só queria saber porque a chefe quer que eu pouse aqui... Dita já voltou do táxi e ri: – Quem sabe ela gamou em você, preibói... Vocês suspiram igualzinho, sabia? – Brincadeira – sopra Pintinha – Ela nem gosta de homem... – e Dita ri ainda mais. Mariane e Portuguesa voltam, ele diz que está achando tudo isso muito esquisito, mas de uma coisa podem ter certeza: – Só morto deixo esses filmes aqui. 28
– Bem – Portuguesa fala com a voz de homem – nisso a gente pode dar um jeito. Mariane pega a mochila e a máquina: – Por enquanto ficam comigo. Vá se lavar. – Vai ter churrasco – Pintinha estende a mão – Vem! Já é noite fechada, vai pela escuridão levado pela criatura mulher e menina. – Já tomou banho no escuro? Vou te esfregar todinho... Entram na mata, ele vai sem ver nada, levado pela mão firme mas fina, devem usar luvas na garimpagem. Só quando já se ouve o riacho ela acende a lanterna, surge a água correndo entre pedras, e ele segura a lanterna enquanto ela tira a roupa. – Quer que tire a sua também? Ouvem vozes e ela apaga a lanterna, começa a se lavar sussurrando: – A chefe não gosta de brincadeira... Mariane aparece com Dita e outra lanterna, mas apaga e nada fala, só fica ali no escuro enquanto Pintinha se lava em silêncio, ouvem a água e os cricris da mata. De repente ele sente, na escuridão, Pintinha lhe apalpando a perna, a coxa, indo para o meio das pernas, mas aí pega dele a lanterna e fala até logo. A lanterna de Pintinha vai pela mata, Mariane acende a sua e facha nele: – Não vai tomar esse banho? – Pode apagar essa lanterna? – Desculpe – ela apaga a lanterna. Ele deixa a roupa nas pedras secas, deita entre pedras na água corrente e fecha os olhos; só abre quando ela acende de novo a lanterna: – Eu tenho mais o que fazer. – É mesmo? – ele fica em pé pelado e ela desliga a lanterna – O que vocês fazem aqui à noite? Ela diz que também vai tomar banho, dá a lanterna para ele voltar. Ele se veste molhado, volta, vê que as outras mexem nas barracas, enfiando roupas em mochilas. Donana fincou ao lado da fogueira dois espetos, a cutia cortada em metades, e mandiocas sobre pedras também beiram o fogo. Uma a uma as mulheres vão sentando em caixotes ali em redor, Mariane com os cabelos molhados, ruborizada pela fogueira, 29
e os olhos, ele vê, evitando os dele. Ele tenta de novo falar das fotos, não dão qualquer atenção. Só Portuguesa fala que ele devia fotografar é a puta que pariu. – Vou levar a sugestão. Não vão me devolver os filmes? – Claro – Mariane sorri – Claro. Quer limonada? Ele diz que preferia um vinho, Donana diz que o garimpo tem vinho de açaí e lhe dá uma garrafa com líquido negro. Só agora ele vê que estão todas vestidas da cabeça aos pés. – Roupas de festa? Não, diz Mariane, é para evitar mosquito de malária, e ele chega mais perto do fogo. Enche uma caneca com o tal vinho de açaí, vendo agora, contra o clarão do fogo, que a garrafa está cheia de coquinhos. Bica um gole, dois, de gole em gole acaba bebendo a caneca, afinal estão em redor de uma bela fogueira e foi um bom dia de trabalho. Sente que a bebida faz efeito quando pirilampos passam a piscar lépidos em redor, as estrelas piscando mágicas, a noite parecendo pulsar. Comem a cutia roendo os ossos, lambuzando as mãos. O tal vinho de açaí dá um morno esquentamento e ele começa a falar, falar, primeiro respondendo perguntas de Pintinha, depois continuando a falar talvez pelo sangue italiano, o vinho, a clareira no alto cheia de estrelas piscantes e rodeada de escuridão cricante. Pintinha lhe pega na coxa, pergunta como é lá por dentro a revista Preibói. Se admira de saber que a redação é num salão com divisórias, em cada salinha – que chamam de baia, como em estábulos – um ou dois sujeitos escrevendo ou diagramando, na maioria bichas. – Pois quem entrega bar pra bêbado cuidar? Sultões só entregavam haréns aos cuidados de eunucos... Dita ri sua risadona, Mariane faz que não ouve, Donana abre mandiocas assadas, despeja melado por cima, é a sobremesa igualzinha vó fazia. Ele enche mais uma vez a caneca, pega o gravador, com voz meio mole explica como será Um tesão de garimpo, garimpeiros contando suas farras e sonhos de riqueza – então porque elas não falam também? O que farão se ficarem milionárias de um dia para outro? – Não coloco os nomes verdadeiros de vocês, só pseudônimos, nomes de guerra. Hem? 30
Portuguesa cospe na fogueira e vai para a barraca. Pintinha pega o microfone, ele liga o gravador, ela fala com graça solene: – Bom, eu – pausa, risos – eu, quando ficar rica do garimpo, quero, primeira coisa, um homem bonito e gostoso apaixonado por mim. Dita rindo ao fundo: – Isso dinheiro não compra, menina! – Então eu queria uma casa com piscina, uma fazenda cheia de bicho e de árvore, principalmente de fruta, e rio limpinho com cascata, e outra casa na praia com uma varandona assim pro mar, com vento o dia inteiro que eu nunca mais quero abafamento! E ia ficar lá olhando o mar até passar aquele homem bonito e gostoso que apaixonasse por mim... Ele sente suor escorrendo no rosto, tão perto da fogueira na noite quente, não passa uma brisa pela clareira e o vinho de açaí esquenta ainda mais; então, para se afastar um pouco, tropeça quase caindo na fogueira e é amparado por Mariane, os olhos azuis a um palmo. Senta de novo, vendo que as línguas do fogo parecem falar... Mas quem fala é Dita, pegando o gravador e, com olhar perdido na fogueira, dizendo que queria era um caminhão zerinho, melhor do que já teve, e um homem como o que teve, o que é impossível, melhor seria se fosse ele mesmo. – Pois não é pra sonhar? Então. Eu e ele de novo rodando por aí como antes, onde tinha só uma árvore a gente estendia uma rede, uma ponta na árvore, outra no caminhão. Tomei banho de caneca pelo Brasil inteiro, lavei tanta roupa batendo em pedra de riacho que nem minha mãe, mas nunca fui tão feliz! Quando diziam que ele era louco de fazer tanta viagem comprida, ele sempre dizia é que eu viajo com minha mulher. A gente morava numa casinha de fundo e, quando viajava, a vizinha da frente abria nossas janelas de dia, pra não mofar, e pagava as contas de luz e água. Quando a gente chegava, primeira coisa que ele fazia era pegar os recibos com ela e pagar, depois fazia churrasco e convidava os vizinhos. Pintinha pega o microfone – Sonha pra frente, Dita, não pra trás! – e passa a Donana. – Saúde e paz, filho – a voz redonda de Donana – Saúde e paz é só o que eu quero, pra mim como pra todos deste mundo. Devolve o gravador, Pintinha bota no colo de Cida, que estava olhando o fogo mas ouvindo tudo com meio sorriso, ele esteve olhando 31
muito para Cida porque ela está ao lado de Mariane. Cida quer devolver o gravador, pegando com muito cuidado, mas Mariane diz falaí, Cida, o que você quer da vida. – Sim-senhora, eu quero voltar pra casa. Deve ter pouco mais de vinte anos mas idade mental de menina, não faz nada sem ser mandada por Mariane ou Donana. Pega comida, Cida, vai se lavar, Cida, cuidado que isso tá quente, Cida, agora devolve o gravador, Cida – e ela devolve, ele pega, bota na mão de Mariane, ela desliga. Pintinha: – Fala aí, chefinha, vai voltar pros Estados Unidos? Mariane olha bem para ela e Pintinha baixa a cabeça; mas continua com a mão na coxa dele. Ele pergunta que favor vão querer pelas fotos, Mariane comanda Pintinha: – Vai buscar umas pedras. Pintinha some na escuridão, o vinho sobe, a lua incha, a noite pulsa. Pintinha volta, bota na sua mão umas pedras meio esverdeadas, Mariane pergunta se já conhecia esmeralda bruta. – Mas vocês não garimpam ouro? Também, diz Mariane, mas acharam um veio de esmeraldas. Agora precisam sair dali com aquilo, para vender em São Paulo ou no Rio por bom preço, talvez até já lapidando por lá antes de vender. E ele entra na história, ela explica com repentino sorriso, porque precisam alugar um carro, no dia seguinte, para tomar avião em Porto Velho, Rondônia; ele pode ir até lá com elas. Ele pergunta porque Porto Velho. – Você vai querer saber todos os porques, não é? – É, e também porque Dita não dirige o carro se dirigia caminhão? Mariane suspira fundo, encara com os olhos frios, como se admirada de seu desentendimento: – Nós não precisamos de você como motorista, mas um homem junto vai facilitar tudo, principalmente sendo jornalista... dessa revista. – E se eu não tivesse aparecido aqui? E porque não vendem algumas pedras e vão de avião? E do que ou de quem querem fugir? – Quem falou em fugir? Ele se cala, ela fala juntando as mãos em rendição: – É, nós temos um sócio, mas ele já levou mais do que devia. 32
Supondo que seja verdade, ele fala, não tem nada a ver com isso, só quer os filmes, podem até deixar em custódia com a polícia, pegará quando a revista pagar o combinado. Ela volta a olhar piedosamente, e com voz cansada diz que não é caso de dinheiro. Pintinha tirou a mão da sua coxa e Donana e Dita se olharam quando falou em polícia, então pergunta porque estão com medo da polícia. Dita fala que ele é mesmo adivinho, Pintinha fala então adivinha a cor da minha calcinha. – Garimpo aqui não tem polícia – Mariane fala com voz firme mas o corpo se inclinando em súplica – Problema de garimpo se resolve em garimpo. Nós pagamos a esse sócio, durante dois anos, metade de todo o ouro, meu caro. – Então ele nem sabe que vocês acharam esmeraldas, minha cara? Ela suspira e sorri, inclina-se mais, o braseiro entre eles. Os brasileiros são muito desconfiados, diz, talvez porque medem os outros pelo modo como se veem: – Eu acredito em confiança. Acredito em gente. Confie na gente. Ou te parece que somos gente ruim? Olham todas para ele, até Cida, as estrelas começando a se mexer, ou é o céu que se mexe devagar, quase balançando. Donana deitou nas brasas as bananas, o cheiro é o mesmo das bananas assadas pela vó por último no forno de barro, depois de ter assado leitoa e pães. Porque está lembrando tanto da vó? – E eu nem uso calcinha, preibói. Então diz pra mim – Pintinha lhe penteia a nuca com os dedos – Não vai ajudar a gente? Ele diz que é tudo muito esquisito e tenta levantar, cai sentado no chão. Dita ajuda a se botar de pé, mãos firmes como de homem. Muito esquisito, ele repete, e Mariane diz que ele parece o gravador, sempre se repetindo. – Muito engraçada – ele cambaleia – Muito engraçada. Dita ri, ri, até Cida ri, as estrelas giram no cheiro doce de banana assada. Ainda ouve Mariane dizer que amanhã explica tudo, e Donana: – Com fé em Deus vai dar tudo certo. Deus; ele está girando como nas primeiras bebedeiras da vida, ainda rapazola tomando sangria de vinho, mais vinho que água, na caneca 33
de lata para a mãe não ver a mistura tão vermelha, como as brasas ali, a última visão é das brasas pulsando entre as cinzas. Acorda com cócegas no ouvido, é Pintinha. – Você dorme bonito que nem nenê, preibói, mas o táxi já deve estar esperando. Estão numa barraca, ela só de calcinhas azuis, os peitinhos pontudos. – Você não disse que não usa calcinhas? – Não pra trabalhar, preibói, mas pra viajar. Vamos? Ele levanta, esperando dor de cabeça, mas não, e também sumiu a velha dor na coluna. Bebe metade do cantil, enquanto ela se veste dando as instruções da chefe: o táxi já deve estar esperando, para ele ir com Portuguesa alugar um carro na cidade, dizendo que é para visitar garimpos, e voltarão depois de fazer as compras. Ela dá uma lista de compras, água mineral, bolachas, salame, frutas, queijo. – Mas que isso? Vou virar babá de vocês? Pintinha fica na ponta dos pés, pega sua cabeça com as duas mãos e beija leve na boca, depois fala, olhando nos olhos com safada inocência: – Confia, preibói. Ele suspira fechando os olhos, vendo e ouvindo a vó: – Melhor do que fazer o que o coração manda é fazer o que a alma pede. Sai da barraca e, no céu azul, uma nuvenzinha diz que vai crescer, vai virar nuvens escuras e à tarde vai chover como todo dia na Amazônia. Mariane está arrumando mochila, pergunta se ele entendeu tudo, fala pedindo com os olhos: – Depois te conto o resto, você vai entender. Faça, a vó repete, o que a alma pede. Toma café com mandioca e melado, vendo que estão todas de mochilas prontas e malas fechadas. Sente-se leve. Donana guardou uma banana assada para ele, como a vó fazia; ele chegava suado de brincar na rua, já noite, todos já tinham jantado, então levava sermão da mãe, tinha de tomar banho antes de comer o prato guardado no forno, tampado por outro prato com banana assada por cima. Só pode ser gente boa quem guarda banana assada 34
para alguém, e então ele pega a mochila, enche o cantil e, antes de ir para a mata, estende a mão diante de Mariane: – Dinheiro para as compras... minha cara. Ela aponta a Portuguesa que já vai indo para a mata. Boa sorte, Mariane sorri envesgando, olhando através dele, talvez já vendo o que ele ainda desconhece, mas ele vai. Na beira da mata dá uma última olhada no garimpo de mulher, os varais vazios, a chaminé do rancho sem fumaça. Portuguesa não abre a boca até o táxi, e ele nada fala. Andando na frente dele, com roupas largas, a mulher parece um homem mesmo. Ele senta na frente no táxi, e o taxista logo quer saber do garimpo de mulher, ele desconversa. O homem tenta puxar conversa com Portuguesa, que continua sem abrir a boca, uma mala ali no banco de trás. Em Alta Mata, ele paga a corrida pedindo recibo, o taxista fica tão ofendido que ele nem pede valor a mais. Portuguesa diz para ele pegar logo o que tiver de pegar no hotel, e vai para bar em frente. Ele entra no hotel e, duma janela, vê que ela toma um guaraná família. O hoteleiro bigodudo diz viva, estava pensando nele: – Porque – fala baixo com a mão na boca – naquele garimpo até já morreu gente, sabia? – Não diga! – Fiquei preocupado com o senhor. Lá no bar, Portuguesa enche copo alto de uísque e despeja na garrafa de guaraná. – Conhece aquela dona? O bigodudo olha, mente que não conhece. Ele pergunta onde alugam carro. – Vou conhecer outros garimpos. – Faz bem. Naquele volte não. Pega as coisas no quarto, a mochila pesa e faz lembrar da coluna, é a primeira vez que a dor começa e passa sem piorar. Será o vinho de açaí? Paga o hotel, pedindo notas a mais também das refeições que não comeu, e vai encontrar Portuguesa. Sem olhar para ele como sempre, ela só fala agora vai alugar o carro que eu espero aqui. Ele bate continência, desce a rua, andando entre as poças até que desiste, tantas que se emendam, anda reto molhando os tênis. 35
Num galpão, uma placa torta: Alugam-se carros. O bigodudo do hotel já telefonou, mas mesmo assim ele tem de encher ficha, mostrar carteira de motorista, que o atendente diz estar vencida, mas ele bota duas notas no balcão e fica tudo resolvido. O sujeito pergunta quando vai devolver o carro, ele pergunta se pode devolver noutra cidade; não pode. Fala que então devolve em dois ou três dias, e senta ao volante murmurando que, bem, vó, seguindo a alma seu neto agora tem dois problemas, pegar de volta as fotos no garimpo e devolver o carro em Alta Mata, mas este será problema para um super subeditor. Pega Portuguesa no bar, ela senta atrás e vai triturando balas de hortelã, ele ouve cada bala quebrar nos dentes. O Supermercado Eldorado é um barracão sem janelas onde duas caixas se abanam com leques chineses. Ele faz as compras da lista, inclusive absorventes femininos, paga, Portuguesa lá no carro. Ele enche o porta-malas, pergunta o caminho, ela aponta, e irá apontando a cada esquina, cada encruzilhada de estrada, sem abrir a boca até pararem onde a estradinha acaba perto do garimpo. Ele vá para o garimpo, Portuguesa manda, ela vai esperar ali no carro. Da capoeira ele olha para trás, ela bebe no gargalo da garrafona de guaraná. Isso lembra de urinar ao entrar na mata, e ainda não acabou quando Pintinha aparece arregalando os olhos: – Que coisa linda! Ele vira de costas, ela abraça por trás e pega. Quando ele acaba de urinar, está duro e ela fala vira, ele vira e ela agacha pegando com uma mão e com a outra já tentando lhe abrir a fivela do cinto. Então ouvem vozes, ela levanta num pulo, e ele está fechando o zíper quando aparecem Mariane e Dita com malas e mochilas. A mochila de Pintinha está na trilha, ela pega ligeirinha. – Achei o preibói, chefinha. Mariane olha o chão molhado de urina, continua pela trilha. As outras passam com malas e mochilas, Donana só com bolsa de couro, sorrindo: – Então vamos embora, eu sempre tive fé que um dia a gente ia. Pintinha estende a mão: – Vamos, bem? Ele não dá a mão, vai pela capoeira suando debaixo de um céu já com nuvens. No carro, Portuguesa continua sentada enquanto Mariane 36
enfia bagagem no porta-malas. Depois Mariane abraça e beija Cida e Dita e Donana, que diz vai com Deus, minha filha, boa sorte; até São Paulo, diz Dita, e Mariane: se Deus quiser. Depois ela senta no banco da frente, Portuguesa sai, abre o porta-malas, Dita fecha com safanão: – Tá metade aí, sim, taí! Pelo retrovisor ele vê as duas discutindo, ouve a palavra metade várias vezes. Mariane sai do carro, afasta Dita, abre o porta-malas tapando a visão dele. Remexem na bagagem. Mariane volta por um lado do carro, Portuguesa pelo outro. Pintinha senta atrás com Portuguesa. – Pode tocar – Mariane comanda, acenando para as outras ali na beira da estradinha. – Elas vão ficar aí?! – Elas sabem se virar. Vai. Ele continua parado. Por favor, ela pede suspirando e olhando em frente, vai. Ele dá a partida, também suspirando fundo; Pintinha fala nossa, vocês parecem que vão explodir! – A vida é bonita, gente! Pelo retrovisor ele vê Donana, Cida e Dita começando a andar pela estradinha, Dita com sua mochila nas costas e na mão uma mala igual a do bagageiro. Mormaço já sobe das poças e atoleiros, a estradinha coberta de lama, e a roupa fede dois dias de uso, colando de suor. O dia está tão quente que a janela parece bafejar para dentro do carro. A vida é linda, ele fala, e Deus é brasileiro, e eu devo estar ficando louco; e Pintinha: – Cuidado, quem fala sozinho perdeu o caminho.
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