E .
o ilustrador HAROLD ROBERT MILLAR (1869-1940)
Um livro que encantou gerações em todo o mundo.
NESBIT
P
ublicada pela primeira vez em 1907, esta obra conta as aventuras de três irmãos que, durante as férias escolares na Inglaterra do começo do século XX, encontram um castelo encantado a que não faltam os costumeiros fantasmas, além de sortilégios e encantamentos assustadores. Um lago, bosques e estátuas de mármore, torres brancas e torreões criam um clima de conto de fadas que é confirmado quando os três encontram, num labirinto, uma princesa adormecida. A princesa conta que aquele lugar é cheio de encantamentos, mas as crianças resistem a acreditar. Então ela lhes mostra os tesouros do castelo, incluindo um anel da invisibilidade, e logo os quatro, numa série de aventuras e perigos, descobrem que o anel tem muitos outros poderes mágicos...
a tradutora MÁRCIA SOARES GUIMARÃES nasceu em
Belo Horizonte, onde vive. Formou-se em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais, mas seu interesse maior sempre foi por línguas estrangeiras. Tem certificados de proficiência em francês e inglês e fez cursos nos EUA. Morou algum tempo na Inglaterra, país pelo qual é apaixonada e que visita sempre que pode. Foi professora de inglês por mais de vinte anos e, hoje, é tradutora e revisora. Para ela, traduzir O castelo encantado foi uma viagem fascinante no tempo, no espaço e na imaginação.
o l e t s O ca ado t n a c en EDITH NESBIT (1858-1924), escritora e
O castelo encantado
foi um artista gráfico e ilustrador escocês. Embora tenha feito trabalhos para adultos, é mais conhecido por suas ilustrações de livros infantis. Ilustrou fábulas e contos de fadas, como O livro de ouro das fadas, O livro de diamante das fadas e O livro de rubi das fadas. Também ilustrou livros de muitos autores britânicos de sua época, incluindo Robert Louis Stevenson e Rudyard Kipling. Millar tinha uma forte relação de trabalho com E. Nesbit e foi chamado de “o mais empático e talvez o mais talentoso de seus ilustradores”. Seu trabalho era conhecido pelo traço impecável, pela perspectiva e pela atenção aos detalhes. Sua formação em Engenharia Civil lhe foi muito útil na criação de castelos e moradias de fadas.
Leia também: • 25 contos de Machado de Assis • Kim • Memórias de um burro • O diário de Gian Burrasca • Cuore • O cão dos Baskerville • Viagens de Gulliver • A escrava Isaura • A ilha do tesouro • A volta ao mundo em 80 dias • As aventuras de Tom Sawyer
• Clara dos Anjos • Alice no País das Maravilhas • Alice através do espelho • Peter Pan • O Mágico de Oz • Heidi, a menina dos Alpes (2 vol.) • As mais belas histórias (2 vol.) • Pollyanna • Pollyanna moça
ISBN 978-85-513-0476-1
E . ILUSTRAÇÃO:
Nes bit HAROLD
9 788551 304761
tradução: Márcia Soares Guimarães
R.
MILLAR
poetisa inglesa, publicou suas histórias infantis sob o pseudônimo de E. Nesbit. Muito conhecida e respeitada no Reino Unido, influenciou importantes autores da atualidade, como J. K. Rowling, autora da série Harry Potter. Nesbit escreveu ou colaborou com mais de sessenta livros de ficção para crianças, muitos deles adaptados para o cinema e para a televisão. Criou um novo gênero de aventuras de encantamento, histórias divertidas e fabulosas com lugares comuns e cotidianos como cenário. Em linguagem direta, clara e inovadora, ela consegue combinar, de forma encantadora, a fantasia e o cotidiano de muitos jovens e crianças, inaugurando assim uma nova forma de escrever literatura infantil. Alguns de seus livros mais conhecidos são Cinco crianças e um segredo, Aventuras dos caçadores de tesouros, As crianças da estrada de ferro, A cidade mágica e O jardim maravilhoso, entre muitos outros.
Outros títulos da coleção 25 contos de Machado de A ssis
Clara dos A njos
Nádia Battella Gotlib
Lima Barreto
Kim
A lice no País das Maravilhas
Joseph Rudyard Kipling
Lewis Carroll
Memórias de um burro
A lice através do espelho
Condessa de Ségur
Lewis Carroll
O diário de Gian Burrasca
Peter Pan
Vamba
J. M. Barrie
Cuore
O Mágico de Oz
Edmondo de Amicis
L. Frank Baum
O cão dos Basker ville
Heidi, a menina dos A lpes (2 vol.)
Arthur Conan Doyle
Viagens de Gulliver
Johanna Spyri
Jonathan Swift
A s mais belas histórias (2 vol.)
A escrava Isaura
Andersen, Grimm, Perrault
Bernardo Guimarães
Pollyanna
A ilha do tesouro
Eleanor H. Porter
Robert Louis Stevenson
Pollyanna moça
A volta ao mundo em 80 dias
Eleanor H. Porter
Júlio Verne
A s aventuras de Tom Saw yer Mark Twain
E. Nesbit ILUSTRAÇÃO: HAROLD R. MILLAR
o l e t s O ca ado encant
2º EDIÇÃO
Tradução e notas: Márcia Soares Guimarães
Copyright desta edição © 2019 Autêntica Editora Copyright da tradução © 2013 Márcia Soares Guimarães Título original: The Enchanted Castle Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora. edição geral
Sonia Junqueira edição de arte e projeto gráfico
Diogo Droschi ilustrações
H. R. Millar revisão
Helen Rose Resende do Carmo Eduardo Soares diagramação
Christiane Morais de Oliveira capa
Larissa Carvalho Mazzoni
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Nesbit, E., 1858-1924. O castelo encantado / E. Nesbit ; ilustração Harold R. Millar ; tradução e notas Márcia Soares Guimarães. -- 2. ed. -- Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2019.
Título original: The enchanted castle. ISBN 978-85-513-0476-1
1. Ficção - Literatura infantojuvenil I. Millar, Harold R. II. Guimarães, Márcia Soares. III. Título. 18-23149
CDD-028.5
Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura infantojuvenil 028.5 2. Ficção : Literatura juvenil 028.5 Iolanda Rodrigues Biode - Bibliotecária - CRB-8/10014
Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465 4500 www.grupoautentica.com.br
São Paulo Av. Paulista, 2.073, Conjunto Nacional Horsa I . 23º andar . Conj. 2310-2312 Cerqueira César . 01311-940 . São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468
Para Margaret Ostler com amor de E. Nesbit
CAPÍTULO 1
Eram três irmãos – Jerry, Jimmy e Kathleen. O nome de Jerry era Gerald, e não Jeremiah, caso você tenha pensado que era; o nome de Jimmy era James; e Kathleen nunca era chamada pelo nome, de jeito nenhum, mas de Cathy, ou Catty, ou Menina Cat, quando seus irmãos estavam satisfeitos com ela, e Maluquete Cat, quando não estavam. Estudavam em uma escola de uma pequena cidade no oeste da Inglaterra – é claro que os dois garotos em uma escola e a garota em outra, porque o hábito sensato de meninos e meninas estudarem na mesma escola ainda não é tão comum quanto 1 eu espero que seja um dia. Os três costumavam passar os sábados e os domingos na casa de uma solteirona bondosa, mas era uma daquelas casas onde é impossível 1
Este livro foi escrito em 1907, época em que meninos e meninas estudavam em escolas diferentes. Essas escolas eram internatos, o que quer dizer que os alunos só iam para suas casas nas férias. (N.T.)
brincar. Você conhece esse tipo de casa, não? Tem alguma coisa nela que faz com que a gente mal consiga conversar quando os donos se afastam, e brincar, ali, parece pouco natural, artificial. Por isso, as crianças ficavam ansiosas pela chegada das férias, quando iriam pra casa e passariam o dia inteiro juntas, em uma casa onde brincar era natural e conversar era possível, e onde os campos e as florestas de Hampshire, um condado no sudeste da Inglaterra, eram cheios de coisas interessantes pra fazer e pra ver. A prima Betty também iria, e tinham feito planos. Como as férias dela chegaram mais cedo, a menina foi antes deles para Hampshire. Mas, assim que chegou, apresentou sintomas de sarampo, de modo que Gerald, Jimmy e Kathleen não puderam ir pra casa de jeito nenhum. Você pode imaginar como os três se sentiram. A ideia de passar sete semanas na casa da Senhorita Hervey era impensável, e eles escreveram pra casa dizendo isso. As cartas surpreenderam muito os pais das crianças, pois sempre tinham achado que elas adoravam ir pra casa da querida Senhorita Hervey. Entretanto eles eram “muito sensatos a esse respeito”, como disse Jerry, e depois de muitas cartas e telegramas, ficou acertado que os garotos passariam as férias na escola de Kathleen, de onde todas as meninas já tinham partido, e as professoras também, com exceção da professora francesa. – Será melhor do que ficar na casa da Senhorita Hervey – disse Kathleen, quando os garotos apareceram pra perguntar à professora francesa quando seria conveniente eles irem. – Além disso, nossa escola não é nem metade tão feia quanto a de vocês. Nossas mesas são forradas com toalhas e temos cortinas nas janelas; e a escola de vocês só tem lousas, carteiras e tinteiros – continua Kathleen. Depois que os dois foram empacotar suas coisas, Kathleen enfeitou todos os quartos como pôde, com flores em copos de geleia – principalmente cravos-de-defunto, porque não havia muita coisa além disso no jardim atrás da escola. Havia gerânios no jardim da frente, e sapatinhos-de-vênus e lobélias; mas, é claro, essas as crianças não tinham permissão pra apanhar. – Precisamos de algum tipo de diversão nas férias – disse Kathleen, depois que acabaram de tomar chá e ela já tinha ajeitado as roupas dos meninos nas cômodas, sentindo-se adulta e cuidadosa, pois havia colocado os diferentes tipos de roupas ordenadamente, em pequenas pilhas, dentro das gavetas. – Podemos escrever um livro. 10
– Você não conseguiria – disse Jimmy. – Eu não quis dizer “eu”, é claro – disse Kathleen, um pouco magoada –, eu quis dizer “nós”. – Muito cansativo – disse Gerald, sem entusiasmo. – Se nós escrevêssemos um livro – Kathleen insistiu – sobre como realmente são os interiores das escolas, as pessoas leriam e saberiam como somos inteligentes. – Mas provavelmente nos expulsariam – disse Gerald. – Não, vamos brincar de alguma coisa ao ar livre... bandido e mocinho, ou alguma coisa desse tipo. Não seria ruim se a gente achasse uma caverna e pusesse algumas coisas dentro e fizesse nossas refeições lá. – Não tem caverna alguma – disse Jimmy, que adorava contradizer todo mundo. – Além disso, sua preciosa Mademoiselle, a professora francesa, não vai deixar nós sairmos sozinhos, certamente não vai. – Isso é o que veremos – disse Gerald. – Vou falar com ela, como se fala de pai pra filho. – Assim? – Kathleen apontou pra ele com ar crítico, e Gerald se olhou no espelho. – Escovar os cabelos e as roupas e lavar o rosto e as mãos é tudo o que nosso herói deve fazer agora – disse Gerald, e foi agir de acordo com o que tinha dito. Foi um garoto muito elegante, moreno, magro e de aparência atraente que bateu à porta da sala onde Mademoiselle lia um livro de capa amarela e pensava em desejos fúteis. Gerald sempre conseguia, rapidamente, parecer interessante, um feito bastante útil pra quem está lidando com adultos estranhos. Pra isso, ele abria bem os olhos acinzentados, permitia que os cantos da boca murchassem, assumindo uma leve expressão de súplica, parecida com aquela do Pequeno Lorde Fauntleroy2 – que, a propósito, agora deve ser um velhinho ridículo e chato. – Entrez! – disse Mademoiselle, com um estridente sotaque francês. Então ele entrou. 2
Little Lord Fauntleroy é um livro de 1886, escrito pela inglesa Frances Hodgson Burnett, sobre um garoto americano que estava sempre muito bem-vestido e era extremamente bem-educado. No Brasil, foi publicado nos anos 1960 com o título O Pequeno Lorde. (N.T.) 11
– Eh bien?3 – ela disse, meio impaciente. – Espero não estar incomodando – disse Gerald, parecendo muito inocente e inofensivo. – Não está – ela disse, com a voz um pouco mais suave. – O que deseja? – Pensei que deveria vir cumprimentá-la – disse Gerald –, porque a senhorita é a dama da casa. E estendeu a mão, que havia acabado de lavar e ainda estava úmida e vermelha. Ela a apertou. – Você é um rapazinho muito bem-educado – ela disse. – Absolutamente – negou Gerald, mais bem-educado do que nunca. – Sinto muito pela senhorita. Deve ser terrível ter que cuidar de nós nas férias. – De maneira alguma – afirmou, por sua vez, Mademoiselle. – Tenho certeza de que vocês são crianças bem-comportadas. A expressão no rosto de Gerald a convenceu de que ele e os outros estavam tão próximos de ser anjos quanto isso é possível, sem deixarem de ser humanos. – Nós vamos tentar – falou decidido. – Posso fazer alguma coisa por vocês? – perguntou, gentilmente, a professora e governanta francesa. – Oh, não, obrigado – disse Gerald. – Não queremos lhe trazer problemas de maneira nenhuma. E eu estava pensando que seria mais tranquilo para a senhorita se amanhã nós passássemos o dia ao ar livre, no bosque, e levássemos o nosso jantar; alguma coisa fria, a senhorita entende? Pra não incomodar o cozinheiro. – Você é muito atencioso – falou Mademoiselle friamente. Então os olhos de Gerald sorriram: eles tinham a habilidade de fazer isso quando seus lábios estavam bem sérios. Mademoiselle percebeu e riu, e Gerald riu também. – Seu danadinho! – ela disse. – Por que não dizer de uma vez que vocês querem ficar livres de vigilância, sem fingir que é a mim que pretendem agradar? – É preciso ser cauteloso com adultos – Gerald falou –, mas também não é totalmente fingimento. Nós não queremos incomodá-la... e não queremos que a senhorita... 3
O que é? (em francês no original). (N.T.) 12
– Seu danadinho! – ela disse.
– Incomodar-me... que nada! Os pais de vocês permitem esses dias ao ar livre, no bosque? – Oh, sim! – disse Gerald, honestamente. – Então não serei mais megera do que seus pais. Vou falar com o cozinheiro. Está contente? – Muito! – disse Gerald. – Mademoiselle, a senhorita é uma chérie.4 – Uma chérie muito legal. E não se arrependerá. Há algo que possamos fazer pela senhorita? Enrolar o novelo de lã, ou achar seus óculos, ou...? – Ele pensa que eu sou uma avó! – disse Mademoiselle, rindo mais do que nunca. – Então vão e não sejam mais travessos do que devem.
– Então, teve sorte? – os outros perguntaram. – Está tudo certo – disse Gerald com indiferença. – Eu falei com vocês que estaria. O bom rapaz ganhou o respeito e a admiração da governanta estrangeira, que em sua juventude tinha sido a beldade do seu humilde vilarejo. 4
Querida (em francês no original). (N.T.) 13
– Não acredito que ela alguma vez tenha sido. É séria demais – disse Kathleen. – Ah! – disse Gerald. – Isso é porque você não sabe como lidar com ela. Não foi séria comigo. – Olha só, que impostor você é, hein? – disse Jimmy. – Não, sou um dip... como é que chama isso? Alguma coisa parecida com embaixador. “Dipsoplomata”... é isso que eu sou. O fato é que nós conseguimos o nosso dia e, se não encontrarmos uma caverna nele, meu nome não é Robinson Crusoé.5 Mademoiselle, menos séria do que Kathleen jamais a tinha visto, conduziu o jantar, que consistia em pães com melado, preparados horas antes, e agora mais duros e secos do que qualquer outra comida que você puder imaginar. Gerald foi bastante bem-educado: entregou-lhe manteiga e queijo, e insistiu para que ela provasse o pão com melado. – Eca! É como areia na boca, uma secura! É possível que isso agrade vocês? – Não – disse Gerald –, não é possível, mas garotos bem-educados não fazem comentários sobre a comida! Ela riu, mas depois desse dia não houve mais pão com melado para o jantar. – Como você faz isso? – Kathleen sussurrou, admirada, quando disseram boa noite. – Oh, é muito fácil quando você consegue que um adulto acredite em você. Vão ver: depois disso, ela vai concordar com tudo o que eu pedir. Na manhã seguinte, Gerald acordou cedo e colheu um pequeno buquê de cravos cor-de-rosa que achou escondidos entre os cravos-dedefunto. Amarrou as flores com uma fita preta de algodão e pôs sobre o prato de Mademoiselle. Ela sorriu e pareceu bem graciosa enquanto prendia as flores no cinto. – Você acha digno – perguntou Jimmy mais tarde – subornar as pessoas com flores e outras coisas, passando o sal para elas durante as refeições, pra que deixem você fazer o que quer? – Não é isso – disse Kathleen, imediatamente. – Sei o que Gerald quer dizer, só que eu nunca penso essas coisas a tempo. Veja, se quer 5
Famoso personagem náufrago que dá nome ao romance escrito em 1719 pelo inglês Daniel Defoe (1660-1731). 14
que adultos sejam legais com você, o mínimo que pode fazer é ser legal com eles e pensar em pequenas coisas pra agradá-los. Eu mesma nunca penso em nada. O Jerry pensa; é por isso que todas as velhas senhoras gostam dele. Não é suborno. É uma espécie de honestidade, como se estivesse pagando pelas coisas. – Bem, de qualquer forma – disse Jimmy –, deixando a questão moral de lado, temos um dia incrível pra curtir no bosque. E tiveram mesmo. A larga High Street, quase tão calma como uma rua de sonho, mesmo naquela movimentada hora da manhã, estava coberta pelos raios de Sol; as folhas brilhavam, refrescadas pela chuva da noite anterior, mas a rua estava seca, e o pó cintilava como diamantes. As belas casas antigas, firmes e fortes, pareciam estar se aquecendo com o brilho do Sol e gostando disso. – Mas tem algum bosque? – Kathleen perguntou enquanto passavam pela praça do mercado. O bosque não tem muita importância – disse Gerald, pensativo. – Certamente, vamos encontrar alguma coisa. Um dos meus amigos me contou que o pai dele disse que, quando era menino, tinha uma pequena caverna debaixo do bosque, em uma ruela perto da Salisbury Street; mas ele disse também que havia um castelo encantado lá, então talvez a caverna também não existisse. – Se tivéssemos cornetas – disse Kathleen – e soprássemos com muita força durante todo o caminho, poderíamos encontrar um castelo mágico. – Se você tiver dinheiro pra desperdiçar com cornetas... – falou Jimmy, com desprezo. – Bem, acontece que eu tenho! – disse Kathleen. E as cornetas foram compradas em uma pequena loja que tinha uma vitrine cheia de um emaranhado de brinquedos e doces e pepinos e maçãs azedas. O som longo e alto de cornetas ecoou na tranquila praça no final da cidade, onde ficam a igreja e as casas das pessoas mais importantes. Mas nenhuma das casas se transformou em castelo encantado. Então, os três irmãos caminharam ao longo da Salisbury Street, que estava muito quente e empoeirada, por isso concordaram em tomar uma das garrafas de refrigerante. 15
– Nós podemos carregar o refrigerante tanto dentro de nós quanto dentro da garrafa – disse Jimmy. – E podemos esconder a garrafa e pegá-la na volta. Pouco tempo depois, chegaram a um lugar onde a estrada, como Gerald definiu, subitamente se dividia em duas. – Isso parece aventura – falou Kathleen. Tomaram a estrada da direita, e quando o caminho se bifurcou de novo, viraram para a esquerda, o que era bastante justo, como disse Jimmy; depois para a direita e depois esquerda e assim por diante, até ficarem completamente perdidos. – Completamente – disse Kathleen. – Que beleza! As árvores se curvavam sobre suas cabeças, e as encostas da estrada eram altas e cheias de arbustos. Já havia bastante tempo que tinham parado de soprar as cornetas. Era muito cansativo continuar fazendo aquilo quando não havia ninguém pra ficar aborrecido com o barulho. – Oh! – Jimmy falou de repente. – Vamos nos sentar um pouco e comer uma parte do nosso jantar. Sabem como é, podemos chamar de almoço – acrescentou, de maneira persuasiva. Os três se sentaram junto da cerca viva e comeram as groselhas vermelhas maduras que deveriam servir de sobremesa. Enquanto estavam sentados, descansando e desejando que suas botas não estivessem tão apertadas, Gerald recostou-se nuns arbustos. Alguma coisa atrás deles cedeu à pressão das suas costas, e o menino quase caiu pra trás. Então ouviram o som de alguma coisa pesada caindo. – Oh, caramba! – disse Jerry, sentando-se de novo bruscamente. – Tem um buraco ali. Tinha uma pedra atrás dos arbustos em que eu estava recostado e ela simplesmente se foi! – Queria que fosse uma caverna – disse Jimmy. – Mas é claro que não é. – Se soprarmos as cornetas, talvez seja – disse Kathleen, e apressadamente soprou a sua. Gerald enfiou a mão através dos arbustos. – Não sinto nada, só ar – falou. – É apenas um buraco cheio de nada. Os outros dois puxaram os arbustos pra trás: havia mesmo um buraco na encosta. – Vou entrar – afirmou Gerald. – Oh, não faça isso! – disse sua irmã. – Acho melhor você não entrar. Pode ter cobras! 16
– Acho que não – disse Gerald. Inclinou-se um pouco e riscou um fósforo. – É uma caverna! – gritou, e pôs o joelho sobre a pedra coberta de musgos onde tinha se sentado, subiu nela e... desapareceu. Em seguida, fez-se um silêncio de tirar o fôlego. – Você está bem? – Jimmy perguntou. – Estou. Venham! É melhor vocês colocarem os pés primeiro... tem uma pequena descida. – Sou a próxima – falou Kathleen, e entrou; os pés primeiro, como recomendado, balançando descontroladamente no ar. – Cuidado! – disse Gerald na escuridão. – Vou ficar te olhando. Ponha os pés pra baixo, garota, não é pra cima. Não adianta tentar voar aqui... não tem espaço. Ele ajudou: puxou com força os pés da irmã e a segurou sob os braços. Ela ouviu o barulho das folhas secas sob suas botas e se preparou pra receber Jimmy, que entrou com a cabeça primeiro, como alguém mergulhando em um mar desconhecido. – É uma caverna! – exclamou Kathleen. – Os jovens exploradores – narrou Gerald, tampando o buraco da entrada com os ombros –, no início cegos pela escuridão da caverna, nada podiam ver... – Escuridão não cega – falou Jimmy. – Queria que tivéssemos uma vela – disse Kathleen. – Cega sim – discordou Gerald. – Nada podiam ver. Mas seu valente líder, com os olhos acostumados à escuridão enquanto as formas desengonçadas dos outros tampavam a entrada, tinha feito uma descoberta. – Oh, o que é? – os dois estavam acostumados com o jeito de Gerald contar uma história e encená-la ao mesmo tempo, mas algumas vezes preferiam que o irmão não falasse tanto, e de um jeito tão parecido com um livro, nos momentos mais emocionantes. – E não revelou o terrível segredo a seus seguidores antes de cada um ter dado a sua palavra de honra de que ficariam calmos. – Vamos ficar calmos, sem dúvida – disse Jimmy, impaciente. – Bom, então – disse Gerald, deixando de repente de ser um livro e virando um garoto –, tem uma luz ali... olhem atrás de vocês! Olharam. E tinha. Uma sombra cinza-claro nas paredes marrons da caverna e uma sombra em um tom de cinza ainda mais claro, cortada 17
Jimmy pôs a cabeça primeiro.
por uma linha escura, indicavam que depois de uma curva na parede havia luz do dia. – Atenção! – falou Gerald. Pelo menos foi isso que ele quis dizer, embora o que realmente disse tenha sido “Afastem-se!”, falando como um soldado. Os outros obedeceram mecanicamente. – Vocês vão ficar parados, de pé, prestando atenção, até eu dizer “marcha lenta!”; então, vão avançar cautelosamente, em fila indiana, seguindo seu líder e herói, tomando cuidado para não pisar nos mortos e feridos. – Queria que você não fizesse isso! – falou Kathleen. – Não tem nenhum – disse Jimmy, procurando a mão dela no escuro. – Ele só quer dizer pra tomarmos cuidado pra não tropeçarmos nas pedras e nas outras coisas. Nesse momento, ele encontrou a mão de Kathleen e ela gritou. – Sou só eu – falou Jimmy. – Pensei que acharia bom se eu segurasse a sua mão, mas você é como todas as outras garotas. 18
Os olhos deles tinham começado a se acostumar com a escuridão, e puderam ver que estavam em uma caverna de pedra áspera, que seguia direto por uns três ou quatro metros e depois virava à direita, de repente. – Morte ou vitória! – declarou Gerald. – Então, agora... marcha lenta! Avançou cautelosamente, abrindo caminho em meio à terra solta e às pedras que formavam o chão da caverna. – Uma saída, uma saída! – Gerald gritou, quando fez a curva. – Que maravilha! – Kathleen deu um longo suspiro ao sair da caverna para a luz do Sol. Jimmy saiu em seguida. O túnel estreito acabava em um arco arredondado, coberto de samambaias e trepadeiras. Os três atravessaram o arco em direção a uma vala funda e estreita, com paredes de pedras cobertas de musgos; das gretas cresciam mais samambaias e capim alto. Árvores crescendo no topo das encostas arqueavam pra frente os galhos que os raios do Sol atravessavam, criando manchas de luz com brilhos diferentes no chão, e fazendo a vala parecer um corredor verde-dourado com telhado. O caminho, que era de lajes cinza-esverdeadas com pilhas de folhas acumuladas, era uma ladeira íngreme. No final, havia outro arco arredondado, bem escuro por dentro, e acima dele erguiam-se rochas, capim e arbustos. – Parece o lado de fora de um túnel de trem – falou James. – É a entrada do castelo encantado – disse Kathleen. – Vamos soprar as cornetas. – Calem-se! – Gerald falou. – O valente capitão, reprovando a tagarelice boba dos seus subordinados... – Não estou gostando disso! – Jimmy estava revoltado. – Achei que ia gostar. Gerald recomeçou: – ...dos seus subordinados, ordenou que seguissem com cautela e em silêncio, porque, depois de tudo, podia ter alguém por perto e o outro arco podia ser um depósito de gelo6 ou ter algo perigoso. – O quê? – Kathleen perguntou, ansiosa. – Ursos, talvez – disse Gerald prontamente. 6
Construção usada na época para conservar gelo, parcial ou totalmente subterrânea. (N.T.) 19
– Não existem ursos fora de jaulas... pelo menos, não na Inglaterra – disse Jimmy. – Marcha rápida! – foi a única resposta de Gerald. Marcharam. Debaixo das folhas úmidas acumuladas, o chão era cheio de pedras, e os garotos caminhavam arrastando os pés. No arco escuro, pararam. – Tem degraus pra baixo – falou Jimmy. – É um depósito de gelo – falou Gerald. – Não vamos – disse Kathleen. – O nosso herói – falou Gerald –, que nada temia, levantou o ânimo dos seus desprezíveis servos, dizendo que estava muito animado pra continuar e que eles poderiam fazer o que quisessem. – Se for pra insultar – falou Jimmy –, você pode seguir sozinho. E acrescentou: – Assim, não! – É parte do jogo, seu bobo! – Gerald explicou, gentilmente. – Você pode ser o capitão amanhã. Então, é melhor parar de falar agora e começar a pensar nos nomes que vai nos dar quando for a sua vez. Desceram os degraus bem devagar e com muito cuidado. Uma pedra de formato semelhante a um teto curvo formava um arco sobre suas cabeças. Gerald riscou um fósforo e, nesse momento, o três descobriram que o último degrau não tinha beirada e era, na verdade, o começo de um túnel que ia para a esquerda. – Isso vai nos levar de volta pra estrada – disse Jimmy. – Ou pra debaixo dela – disse Gerald. – Nós descemos onze degraus. Continuaram a andar, seguindo o líder, que ia bem devagar, “por causa do medo de degraus”, como ele explicou. O túnel era muito escuro. Então, um pouquinho da luz do dia começou a aparecer e foi ficando cada vez mais clara, até que os garotos chegaram a outro arco, que dava vista para uma cena tão parecida com a de um livro que tinham sobre a Itália que eles mal conseguiam respirar. Simplesmente, andaram pra frente em silêncio, observando tudo atentamente. Uma pequena alameda de ciprestes, que ia se alargando, levava a um terraço de mármore amplo e muito branco sob a luz do Sol. Piscando os olhos, as crianças apoiaram os braços no balaústre largo e plano e observaram. 20
– É a entrada do castelo encantado.
www.autenticaeditora.com.br www.twitter.com/autentica_ed www.facebook.com/editora.autentica