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O quarto de Jacob

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Virginia Woolf O quarto de Jacob

Organização, tradução e notas: Tomaz Posfácios: David

Tadeu

Bradshaw, Lúcia Leão, Stuart N. Clarke


Virginia Woolf O quarto de Jacob

P O S FÁC I O S

David Bradshaw Lúcia Leão Stuart N. Clarke O RG A N I Z AÇ ÃO, T R A DU Ç ÃO E NO TA S

Tomaz Tadeu


O quarto de Jacob

.7.


I “Assim, naturalmente”, escreveu Betty Flanders, enterrando os saltos do sapato mais fundo na areia, “não houve outro jeito a não ser partir.” Lentamente vertendo da ponta da pena dourada, a tinta azulclara dissolveu o ponto final; pois ali a pena empacou; seus olhos se fixaram, e as lágrimas lentamente se acumularam. A baía inteira tremeu; o farol oscilou; e ela teve a ilusão de que o mastro do pequeno iate do sr. Connor estava envergando como uma vela de cera ao sol. Ela deu uma ligeira piscadela. Acidentes eram coisas terríveis. Deu outra piscadela. O mastro estava reto; as ondas estavam regulares; o farol estava de pé; mas a mancha se espalhara. “... outro jeito a não ser partir”, leu ela. “Bem, se Jacob não quer brincar” (a sombra de Archer, o filho mais velho, atravessava o papel de carta e parecia azul sobre a areia, e ela sentia frio – já era três de setembro), “se Jacob não quer brincar” – que mancha horrível! Deve estar ficando tarde. “Onde está esse menino irritante?”, disse ela. “Não consigo vê-lo. Vá correndo atrás dele. Diga-lhe para vir de uma vez.” “... mas, felizmente”, rabiscou, ignorando o ponto final, “tudo parece satisfatoriamente ajeitado, ainda que estejamos apertados como arenques num barril e obrigados a não fazer uso do carrinho de bebê, que a senhoria muito naturalmente não vai permitir....” Assim eram as cartas de Betty Flanders ao capitão Barfoot – com muitas páginas, manchadas de lágrimas. Scarborough fica a mil e duzentos quilômetros da Cornualha: o capitão Barfoot está em Scarborough: Seabrook está morto. Lágrimas faziam todas as dálias .9.


do jardim ondular em ondas rubras e a estufa de vidro reverberar em seus olhos, e salpicavam a cozinha de facas brilhantes, e faziam a sra. Jarvis, a mulher do reitor, pensar, na igreja, enquanto a melodia do hino tocava e a sra. Flanders se inclinava sobre a cabeça de seus menininhos, que o casamento é uma fortaleza e as viúvas vagam solitárias pelos campos abertos, juntando seixos, colhendo umas palhas douradas, solitárias, desprotegidas, pobres criaturas. A sra. Flanders estava viúva fazia dois anos. “Ja–cob! Ja–cob!”, gritou Archer. “Scarborough”, escreveu a sra. Flanders no envelope, sublinhando com uma linha grossa; era sua terra natal; o centro do universo. Mas e o selo? Ela vasculhou a bolsa; depois segurou-a com a boca para baixo; depois vasculhou o colo, tudo tão vigorosamente que Charles Steele, de chapéu panamá, deteve o pincel. Tal como as antenas de algum inseto irritável, ele nitidamente tremia. Ali estava aquela mulher se mexendo – na verdade, preparando-se para se levantar – que droga! Deu uma ligeira pincelada negro-violeta na tela. Pois a paisagem o exigia. Estava pálida demais – cinzas dissolvendo-se em lavandas, e uma estrela ou uma gaivota branca muito limpidamente suspensa – pálida demais como sempre. Os críticos diriam que estava pálida demais, pois ele era um homem desconhecido fazendo exposições obscuras, o queridinho dos filhos das senhorias, usando uma cruz na corrente do relógio e se dando por muito satisfeito se elas gostassem de seus quadros – o que ocorria com muita frequência.

“Ja–cob! Ja–cob!”, gritou Archer.

Exasperado com o barulho, embora adorasse crianças, Steele remexeu nervosamente nos montículos escuros de sua paleta. “Vi teu irmão – vi teu irmão”, disse, balançando a cabeça, quando Archer passou por ele devagar, arrastando sua pá e fazendo cara feia para o velho de óculos. . 10 .


“Ali – perto da rocha”, resmungou Steele, com o pincel entre os dentes, espremendo o tubo de ocre natural e com os olhos pregados nas costas de Betty Flanders. “Ja–cob! Ja–cob!”, gritou Archer, após um segundo, ainda caminhando devagar. A voz era de uma tristeza extraordinária. Purificada de qualquer corpo, purificada de qualquer paixão, soltando-se no mundo, solitária, sem resposta, rebentando contra as rochas – assim ela soava. Steele franziu a testa; mas estava satisfeito com o efeito do preto – era exatamente esse toque que aglutinava o resto. “Ah, pode-se aprender a pintar aos cinquenta! Vejam Ticiano...”, e, assim, tendo encontrado a tonalidade certa, olhou para o alto e viu, horrorizado, uma nuvem sobre a baía. A sra. Flanders se levantou, bateu num lado e outro do casaco para tirar a areia e pegou o guarda-sol preto.

A rocha era uma daquelas rochas tremendamente sólidas, marrons, ou melhor, pretas, rochas que emergem da areia como algo primitivo. Áspera, com rugosas conchas de lapa e esparsamente coberta de mechas de algas secas, um menininho tem que afastar bem as pernas e, efetivamente, sentir-se bastante heroico, antes de chegar ao topo. Mas ali, bem no topo, há um buraco cheio de água, com um fundo arenoso; com uma bolha gelatinosa grudada no lado e alguns mexilhões. Um peixe passa disparado. A franja de algas castanho-amareladas tremula, e um caranguejo de carapaça opalina tenta vir à tona — “Ah, um caranguejo gigante”, murmurou Jacob — e começa sua jornada no fundo arenoso apoiado em débeis pernas. Agora! Jacob mergulhou a mão. O caranguejo era frio e muito leve. Mas a água estava grossa de areia e, assim, engatinhando no fundo, estava prestes a saltar, segurando o balde à sua frente, quando viu, estirados, inteiramente rígidos, lado a lado, os rostos muito vermelhos, um homem e uma mulher enormes. Um homem e uma mulher enormes (era dia de meio-feriado) estavam estirados, imóveis, lado a lado, com a cabeça em cima de lenços, a poucos passos do mar, quando duas ou três gaivotas roçaram graciosamente as ondas que chegavam, indo pousar perto de seus sapatos. . 11 .


Os grandes rostos vermelhos deitados em cima das bandanas ergueram os olhos na direção de Jacob. Jacob baixou os seus na direção deles. Segurando o balde com muito cuidado, Jacob então saltou deliberadamente e se afastou em passinhos rápidos, descontraído no começo, mas cada vez mais ligeiro, à medida que as ondas vinham espumando em sua direção e ele tinha que se desviar para evitá-las, e as gaivotas levantaram voo à frente dele e se foram, planando, e pousaram de novo um pouco mais adiante. Uma enorme mulher preta estava sentada na areia. Ele correu na sua direção. “Babá! Babá!”, gritou, as palavras saindo, soluçadas, no ápice de cada arquejo. As ondas chegavam ao redor dela. Ela era uma rocha. Estava coberta com algas que estalam quando apertadas. Ele estava perdido. Ali ele se plantou. O rosto se recompôs. Estava prestes a berrar quando, caída no meio dos gravetos pretos e da palha, sob o penhasco, ele viu uma caveira completa – a caveira de uma vaca, talvez, uma caveira ainda com os dentes, talvez. Soluçando, mas distraído, ele correu para longe, cada vez mais longe, acabando por tomar a caveira nos braços.

“Ali está ele”, gritou a sra. Flanders, contornando a rocha e cobrindo a distância toda da praia em poucos segundos. “O que é que ele pegou? Larga isso, Jacob! Põe no chão agora mesmo! Alguma coisa horrível, tenho certeza. Por que não ficou perto de nós? Garotinho danado! Agora larga isso. Agora venham, vocês dois”, e ela se virou ligeiro, pegando Archer por uma mão e buscando o braço de Jacob com a outra. Mas ele escapuliu e pegou a queixada da ovelha, que estava solta. Sacudindo a bolsa, agarrando firme o guarda-sol, segurando a mão de Archer e contando a história da explosão de pólvora na qual o coitado do sr. Curnow perdera o olho, a sra. Flanders subiu às pressas a íngreme ruazinha, consciente o tempo todo, nas profundezas de sua mente, de algum desconsolo sepultado. Ali, na areia, não muito longe dos amantes, jazia a velha caveira da ovelha sem a queixada. Lavada, branca, varrida pelo vento, polida pela areia, não havia pedaço de osso mais impoluto em toda a costa da Cornualha. O cardo-marítimo brotaria pelos buracos dos olhos; ela se desfaria em pó, ou algum jogador de golfe, golpeando . 12 .


a bola nalgum dia bonito, levantaria alguma poeira – Não, mas não em casa alheia, pensou a sra. Flanders. É uma grande aventura vir com crianças para tão longe. Não há homem nenhum para ajudar com o carrinho de bebê. E Jacob tão difícil de lidar; tão obstinado já. “Jogue fora, querido, por favor”, disse, ao chegarem na estrada; mas Jacob se esquivava dela; e com o vento que se levantava, ela tirou o alfinete da touca, olhou para o mar e voltou a espetá-lo. O vento se levantava. As ondas mostravam aquele desconsolo, como algo vivo, persistente, à espera do açoite, de ondas antes de uma tempestade. Os barcos de pesca adernavam à beira da água. Uma pálida luz amarela se projetou pelo mar púrpura; e se extinguiu. O farol fora aceso. “Venham”, disse Betty Flanders. O sol ardia no rosto deles e dourava as enormes amoras que tremulavam pelo meio da sebe e que Archer tentava colher enquanto passavam. “Não fiquem para trás, meninos. Vocês não têm nenhuma muda de roupa sobrando”, disse Betty, levando-os de arrasto e observando com incômoda emoção a terra tão luridamente exposta, com súbitos lampejos de luz dos viveiros dos jardins, com uma espécie de variação entre o amarelo e o negro, contra esse ardente pôr do sol, essa espantosa agitação e vitalidade da natureza, que mexia com Betty Flanders e fazia com que pensasse em responsabilidade e perigo. Ela segurou forte a mão de Archer. E foi em frente, arrastando-se ladeira acima. “O que foi que eu pedi para você lembrar?” perguntou. “Não sei”, respondeu Archer. “Bom, nem eu”, disse Betty, com humor e simplicidade, e quem pode negar que esse esquecimento, quando combinado com exuberância, bom senso, crendices da vovó, atitudes imprevisíveis, momentos de espantosa ousadia, humor e sentimentalismo – quem pode negar que, sob esses aspectos, qualquer mulher é melhor do que qualquer homem? Bem, Betty Flanders, para começar. Ela estava com a mão na cancela do jardim. “A carne!” exclamou, baixando a tranca. Esquecera a carne. Ali estava Rebecca à janela.

. 13 .


O despojamento da sala de entrada do quarto da frente da sra. Pearce ficava inteiramente à mostra às dez horas da noite quando um potente lampião a óleo era posto no meio da mesa. A impiedosa luz derramava-se sobre o jardim; atravessava todo o gramado; iluminava o balde de brinquedo e um áster púrpura e atingia a sebe. A sra. Flanders deixara sua costura em cima da mesa. Ali estavam seus grandes carretéis de algodão branco e seus óculos de aro de aço; o agulheiro; a lã marrom enrolada em volta de um velho cartão postal. Ali estavam os juncos e os exemplares da Strand; e o linóleo cheio de areia dos sapatos dos meninos. Um pernilongo disparou de uma ponta à outra da sala e esbarrou no globo do lampião. O vento fustigava a janela com certeiros golpes de chuva, que reluziam prateados ao atravessarem a luz. Uma folha solitária batia apressadamente, persistentemente, na vidraça. Havia um furacão no alto-mar.

Archer não conseguia dormir. A sra. Flanders inclinou-se sobre ele. “Pense nas fadas”, disse Betty Flanders. “Pense nos lindos, lindos pássaros, acomodando-se em seus ninhos. Agora feche os olhos e veja a velha mamãe-pássaro com uma minhoca no bico. Agora vire-se e feche os olhos”, murmurou, “e feche os olhos.” A casa parecia cheia de gorgolejos e correntezas; a cisterna transbordava; a água borbulhava e chiava e corria pelos canos e escorria janela abaixo. “O que é toda essa água correndo?”, murmurou Archer. “É apenas a água do banho escoando”, disse a sra. Flanders. Alguma coisa estalou lá fora. “Mas aquele navio não vai afundar?”, perguntou Archer, abrindo os olhos. “Claro que não”, disse a sra. Flanders. “Já faz tempo que o capitão foi dormir. Feche os olhos, e pense nas fadas, dormindo profundamente debaixo das flores.”

“Pensei que ele não ia adormecer nunca – com um furacão desses”, sussurrou para Rebecca, que se inclinava sobre uma espiriteira no quartinho ao lado. O vento soprava forte lá fora, mas a pequena . 14 .


chama da espiriteira queimava silenciosamente, um livro em pé servindo de anteparo entre ela e o berço. “Ele tomou bem a mamadeira?”, murmurou a sra. Flanders, e Rebecca fez que sim com a cabeça, indo até o berço e ajeitando a coberta, e a sra. Flanders se inclinou sobre o bebê e o contemplou ansiosamente, vendo que dormia, mas com a testa franzida. A janela sacudia, mas Rebecca se esgueirou como um gato, travando-a com um calço. As duas mulheres murmuravam por sobre a espiriteira, tramando a eterna conspiração do psiu e das mamadeiras limpas, enquanto o vento se enfurecia e dava um puxão repentino nas tramelas baratas. As duas se viraram para dar uma espiada no berço. Seus lábios estavam contraídos. A sra. Flanders atravessou o quarto, indo até o berço. “Dormindo?”, sussurrou Rebecca, espiando o berço. A sra. Flanders fez que sim com a cabeça. “Boa noite, Rebecca”, murmurou a sra. Flanders, e Rebecca chamou-a de senhora, embora elas fossem conspiradoras tramando a eterna conspiração do psiu e das mamadeiras limpas.

A sra. Flanders havia deixado a espiriteira queimando na sala da frente. Ali estavam seus óculos, sua costura; e uma carta com o carimbo postal de Scarborough. Ela também não havia fechado as cortinas. A luz irradiava sua chama pelo gramado; derramava-se por sobre o baldinho verde das crianças com a listra dourada em volta e o áster que tremulava violentamente ao seu lado. Pois o vento se lançava ao longo da costa, arremetia contra os montes e saltava, em súbitas rajadas, para o alto de seu próprio dorso. Como se esparramava pelo vilarejo no vale! Como as luzes pareciam piscar e tremular diante de sua fúria, luzes no porto, luzes nas janelas dos dormitórios lá no alto! E, revolvendo ondas negras à sua frente, se precipitava pelo Atlântico, sacudindo para cá e para lá as estrelas sobre os navios. Houve um clique na sala da frente. O sr. Pearce apagara a espiriteira. O jardim apagou. Não passava de um terreno escuro. Cada centímetro estava encharcado de chuva. Cada fiapo de grama estava dobrado pela chuva. Pálpebras tinham sido cerradas pela chuva. Deitando-se de costas não se veria nada a não ser desordem e confusão – nuvens dando voltas e voltas, e alguma coisa sulfurosa e tingida de amarelo na escuridão. . 15 .


No quarto da frente, os meninos tinham deixado os cobertores de lado e estavam deitados debaixo dos lençóis. Estava quente; muito úmido e abafado. Archer estava todo estendido, com um braço jogado por cima do travesseiro. Estava com o rosto vermelho; e, quando a pesada cortina se agitou um pouco, ele se virou e meio que abriu os olhos. Na verdade, o vento remexeu a toalhinha da cômoda, deixando entrar um pouco de luz, de modo que a aguda quina da cômoda se tornou visível, estendendo-se reta até o topo, onde uma forma branca sobressaía; e uma listra prateada mostrou-se no espelho. Na outra cama, junto à porta, Jacob jazia adormecido, profundamente adormecido, profundamente inconsciente. A queixada da ovelha com os grandes dentes amarelados jazia a seus pés. Ele a tinha jogado, com um pontapé, contra a guarda de ferro da cama. Lá fora a chuva caía a prumo e com mais força à medida que o vento diminuía nas primeiras horas da manhã. O áster caíra por terra. O balde de brinquedo estava cheio até a metade com a água da chuva; e o caranguejo de carapaça opalina circulava lentamente pelo fundo, tentando, com suas débeis patas, subir pela lateral inclinada; tentando mais uma vez, e caindo, e tentando uma vez e outra mais.

. 16 .


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