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Argonautas

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Maggie Nelson

Argonautas

ArgOs

t ra d u ç ão

Rogério Bettoni


Maggie Nelson

Argonautas

tradução:

Rogério Bettoni

ArgOs


Copyright © 2015 by Maggie Nelson Copyright © 2017 Autêntica Editora Título original: The Argonauts Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

coordenador da coleção argos

capa

Rogério Bettoni

Diogo Droshi (sobre imagem de Arctic Ice [Shutterstock])

editoras responsáveis

Cecília Martins Rafaela Lamas

diagramação

Waldênia Alvarenga

revisão

Aline Sobreira

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Nelson, Maggie Argonautas / Maggie Nelson ; tradução Rogério Bettoni. -- Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2017. -- (Coleção Argos) Título original: The Argonauts. ISBN 978-85-513-0248-4 1. Famílias 2. Identidade de gênero 3. Minorias sexuais - Famílias 4. Nelson, Maggie, 1973- - Família 5. Teoria Queer I. Título. II. Série. 17-05003

CDD-306.8508664

Índices para catálogo sistemático: 1. Família : Estudos de gênero : Teoria queer : Memórias 306.8508664

Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465 4500 www.grupoautentica.com.br

Rio de Janeiro Rua Debret, 23, sala 401 Centro . 20030-080 Rio de Janeiro . RJ Tel.: (55 21) 3179 1975

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Outubro, 2007. Os ventos de Santa Ana passam arrancando longas tiras brancas da casca dos eucaliptos. Eu e uma amiga resolvemos almoçar ao ar livre, nos entregando à sorte de alguma árvore solta. Ela me sugere tatuar as palavras a difícil na frente dos dedos como lembrete dos possíveis frutos que minha pose escondia. Em vez disso, as palavras Eu te amo saltam da minha boca como feitiço quando você me fode por trás pela primeira vez, minha cara esmagada contra o piso do seu úmido e fascinante apartamento de solteiro. Você tinha um Molloy na cabeceira e um monte de caralhos no banheiro, dentro do box abandonado e mal iluminado. Tem como ficar melhor? O que te dá prazer?, você perguntou, até conseguir uma resposta. Antes de nos conhecermos, passei a vida acreditando que o inexpressável está contido – inexprimivelmente! – no expressado, como dizia Wittgenstein. Essa ideia tem menos efeito do que outra, Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar, mas, para mim, é mais profunda. De um jeito bem literal, seu paradoxo define por que escrevo, ou por que me sinto capaz de continuar escrevendo. Pois não alimenta ou exalta qualquer angústia que porventura a gente sinta quando incapaz de expressar, em palavras, aquilo que delas escapa. Pois não pune o que pode ser dito por aquilo que, por definição, não pode ser. Tampouco exagera imitando um aperto na garganta: Ah, o que eu não diria fossem as palavras boas o suficiente. Palavras são boas o suficiente.

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É inútil culpar a rede por ter buracos, diz minha enciclopédia. A gente pode varrer o chão batido de uma igreja vazia até tirar toda a poeira, e ao mesmo tempo manter o brilho espetacular dos vitrais no teto. Porque nada que a gente diz pode desgraçar o espaço de Deus. Já falei disso em outro lugar. O que tento dizer agora é diferente.

Ludwig Wittgenstein

Não demorei a descobrir que você também se prendeu durante toda uma vida à convicção de que as palavras não são boas o suficiente. E, como se não bastasse, que corroem tudo que é bom, tudo que é real, tudo que é fluxo. Tivemos várias discussões por causa disso – discussões acaloradas, não maldosas. Quando nomeamos alguma coisa, você disse, nunca mais a vemos do mesmo jeito. Tudo que não podemos nomear se desfaz, se perde, morre. Você chamou esse aspecto específico da nossa mente de “função enformadora”. Disse que a aprendeu não se afastando da linguagem, mas mergulhando nela – na tela, em conversas, no palco, na página. Seguindo o raciocínio de Thomas Jefferson e as igrejas, argumentei em prol da abundância, da mudança caleidoscópica, do excesso. Insisti que as palavras faziam mais do que nomear. Li para você o início de Investigações filosóficas. Laje, gritei, laje! Durante um tempo, achei que eu tinha ganhado. Você concordou que devia haver um ser humano ok, um animal humano ok, mesmo que esse ser humano usasse a linguagem, mesmo que por usar a linguagem estivesse de algum modo definindo sua condição humana – mesmo que a própria condição humana significasse destruir e incendiar a preciosa diversidade de um planeta inteiro, levando junto seu futuro, nosso futuro.

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Mas eu também mudei. Pensei de novo nas coisas inomináveis, ou pelo menos nas coisas cuja essência é centelha, fluxo. Reafirmei a tristeza da nossa provável extinção, e a injustiça da extinção dos outros, provocada por nós. Parei de repetir, presunçosa, que Tudo que pode ser em geral pensado pode ser pensado claramente e me perguntei, mais uma vez, se tudo pode ser pensado. E você, o que quer que argumentasse, nunca fingia ter um aperto na garganta. Na verdade, você corria pelo menos a uma volta na minha frente, deixando um rastro de palavras no caminho. Como eu haveria de te alcançar (com o que quero dizer: como você poderia me querer?)? Um ou dois dias depois da minha declaração de amor, hoje de uma vulnerabilidade brutal, eu te mandei o trecho de Roland Barthes por Roland Barthes em que Barthes descreve como o sujeito que diz “Eu te amo” se parece com “o Argonauta que renova seu navio durante a viagem, sem lhe mudar o nome”. Assim como as partes do Argo são trocadas com o tempo sem que o barco deixe de se chamar Argo, o significado de “Eu te amo” deve ser renovado a cada uso da frase pelo amante, pois “a própria tarefa do amor e da linguagem consiste em dar a uma mesma frase inflexões sempre novas”. Eu achava o trecho romântico. Você o interpretou como um possível recuo. Pensando bem, acho que era as duas coisas. Você abriu um furo na minha solidão, eu lhe disse. Era uma solidão útil, talvez criada em torno de uma sobriedade recente, de longas caminhadas pelas travessas de Hollywood cobertas de buganvílias, chegando até o clube YMCA para depois voltar, de idas e vindas dirigindo pela Mulholland para matar as noites intermináveis e, é claro, de surtos maníacos de escrita, aprendendo a não interpelar ninguém. Mas havia chegado A R GO N AU TA S | 9

Wittgenstein


a hora do furo na minha solidão. Sinto que posso me entregar por completo sem ter de me entregar, sussurrei em sua cama no porão. Quando se extrai o máximo da própria solidão, esse é o prêmio que se recebe.

Alguns meses depois, passamos o Natal num hotel no centro de São Francisco. Eu tinha reservado nosso quarto pela internet na esperança de que a reserva e o tempo que passaríamos no quarto fariam você me amar para sempre. Acabou que a diária tinha sido barata porque o hotel passava por uma reforma inacreditavelmente desagradável, além de estar cravado bem no meio do centro das drogas que é Tenderloin. Não importa – tínhamos outras coisas com que nos ocupar. O sol atravessava os buracos da persiana esfarrapada, mal ocultando os pedreiros que batiam martelo do lado de fora enquanto nós nos ocupávamos do lado de dentro. Só não me mate, eu disse quando você tirou o cinto de couro, sorrindo.

Tentei de novo depois do Barthes, dessa vez com o trecho de um poema de Michael Ondaatje: Beijando a barriga beijando teu barco de pele cicatrizado. A história é aquilo em que tu viajaste e carregas contigo Tivemos nós a nossa barriga beijada por estranhos que o outro desconhece quanto a mim abençoo cada um que te beijaste aqui

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Não enviei o trecho porque eu tivesse de algum modo conquistado essa serenidade. Enviei-o desejando que um dia eu pudesse – que um dia eu tivesse menos ciúmes e conseguisse olhar, sem sentir desgosto ou desunião, o nome e o rosto de outrem tatuados na sua pele. (No início, fizemos uma visita romântica à clínica de estética Dr. Tattoff, na Wilshire Boulevard, radiantes com a perspectiva de renovar sua pele removendo as tattoos. O preço e a possibilidade de a tinta nunca sair por completo nos decepcionou.)

Depois do almoço, minha amiga que havia sugerido a tatuagem de a difícil me leva até o escritório e propõe procurarmos seu nome no Google. Ela quer ver se descobrimos na internet com qual pronome você prefere que eu te chame, pois apesar ou devido ao fato de dividirmos na cama todos os nossos momentos livres e já falarmos em morar sob o mesmo teto, eu não consigo perguntar. Em contraposição, aprendi rapidamente a evitar os pronomes. O segredo é treinar o ouvido a não dar atenção sempre que escutar o nome da pessoa. Você precisa aprender a se abrigar nos becos sem saída da gramática, a relaxar na orgia da especificidade. Aprender a aceitar que existe uma instância além do Dois, precisamente quando se tenta constituir uma união – nupcial, inclusive. As núpcias são o oposto de um casal. Cessam de existir as máquinas binárias: pergunta-resposta, masculino-feminino, homem-animal, etc. Isso poderia ser o que é uma conversa – simplesmente o traçado de um devir. Por mais que a gente se especialize numa conversa desse tipo, até hoje me é quase impossível reservar uma passagem de avião ou resolver alguma coisa com o departamento de recursos humanos em nosso nome sem ser atingida por uma rápida vergonha ou desorientação. Não que a vergonha ou a desorientação sejam minhas – é mais como se eu me irritasse ou sentisse vergonha pela pessoa que não para de tirar conclusões A R GO N AU TA S | 11

Gilles Deleuze/ Claire Parnet


erradas e precisa ser corrigida, mas que não pode ser corrigida porque as palavras não são boas o suficiente. Como as palavras podem não ser boas o suficiente? Deitada no chão do escritório e entregue à paixão, olho de lado para minha amiga que vai rolando na tela um massacre radiante de informações elogiosas que não quero ver. Quero a sua versão que ninguém mais vê, tão íntima que a terceira pessoa não se faça sequer necessária. “Olha, aqui tem uma frase do John Waters dizendo que ‘ela é muito boa-pinta’. Acho que você deveria usar ‘ela’. Afinal, é o John Waters.” Isso foi há anos, digo, desviando os olhos do chão. Hoje pode ser diferente. Durante a escrita de By Hook or By Crook, seu filme sobre a amizade entre duas lésbicas masculinizadas – duas butches –, você e Silas Howard decidiram que os personagens se tratariam por “ele”, mas que no mundo lá fora, na sociedade e entre autoridades, as pessoas as tratariam por “ela”. Não é que tudo seria perfeito se o mundo soubesse adequadamente o pronome que os personagens preferiam. Porque se as pessoas de fora os tratassem usando “ele”, seria um tipo diferente de “ele”. As palavras mudam de acordo com quem as fala; não há remédio para isso. Não basta introduzir palavras novas (boi, cisgênero, andro-fag) e começar a reificar seus significados (embora nisso obviamente exista poder e pragmatismo). É preciso também prestar atenção à multiplicidade de usos possíveis, de contextos possíveis, as asas com que cada palavra pode voar. Como quando você sussurra Você é só um buraco, deixa eu te encher inteira. Como quando eu digo marido.

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