Guacira Lopes Louro
Um corpo estranho Ensaios sobre sexualidade e teoria queer
aRgOs
Guacira Lopes Louro
Um corpo estranho Ensaios sobre sexualidade e teoria queer
3ª edição revista e ampliada
aRgoS
Copyright © 2004, 2018 Guacira Lopes Louro Copyright © 2004, 2018 Autêntica Editora
Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
coordenador da coleção argos
capa
Rogério Bettoni
Diogo Droschi (Sobre cartografia interior nº 9, acetato e fotografia a cor tipo C – 1995 de Tatiana Parcero)
editoras
Cecília Martins Rafaela Lamas
diagramação
revisão
Waldênia Alvarenga
Vera Lúcia Simoni de Castro Cecília Martins
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Louro, Guacira Lopes Um corpo estranho / Guacira Lopes Louro. -- 3. rev. amp. -- Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2018. -- (Argos) Bibliografia. ISBN 978-85-513-0390-0 1. Educação 2. Identidade de gênero 3. Identidade sexual 4. Sexo (Psicologia) 5. Teoria Queer I. Título. II. Série. 18-15005
CDD-306.43
Índices para catálogo sistemático: 1. Teoria Queer : Sociologia 306.43 Iolanda Rodrigues Biode - Bibliotecária - CRB-8/10014
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Apresentação
Na primavera de 2003, Um corpo estranho se apresentava como um conjunto de ensaios sobre sexualidade e teoria queer. O livro provavelmente intrigava. Queer era, então, uma expressão pouco conhecida. Atrelada à sexualidade, talvez sugerisse encrenca, incômodo e curiosidade. Hoje as coisas podem se mostrar um pouco diferente. Queer parece ter ganhado visibilidade. É provável que continue provocando curiosidade e desconfiança, mas agora circula na mídia, assumido por uns, repudiado por outros. Aparece eventualmente numa novela, numa exposição de arte, causa escândalo aqui ou ali. Talvez ainda se encontre restrito a certos espaços e grupos. Talvez transite com desenvoltura apenas entre alguns ativistas, intelectuais, artistas. Ainda deve parecer, para muitos, uma coisa estranha. E é mesmo! Queer costuma ser o rebelde, o mal-comportado. Não importa se estamos falando de um indivíduo ou de um grupo, de um movimento ou de um pensamento, tudo
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ou todos que se revelem ou se reconheçam como queer se mostram, de algum modo, “estranhos”, afinal é parte da sua “natureza” desacatar normas e perturbar cânones. Nesta nova edição, retomo os ensaios de 2003 e acrescento outros. Tal como antes, tomo emprestado conceitos, estratégias e figuras teóricas sem a pretensão de explicar ou descrever a teoria. Assumo que queer pode ser tudo que é estranho, raro, esquisito. O que desestabiliza e desarranja. Queer pode ser o sujeito da sexualidade desviante, o excêntrico que não deseja ser “integrado” ou “tolerado”. Pode ser, também, um jeito de pensar e de ser que não aspira o centro nem o quer como referência; um jeito de pensar e de ser que desafia as normas regulatórias da sociedade, que assume o desconforto da ambiguidade, do “entre lugares”, do indecidível. Neste livro, busco tirar proveito da irreverência e da disposição antinormalizadoras do movimento e do pensamento queer e apostar no seu potencial político para pensar para além da sexualidade. Jogo com a ambiguidade do termo e com as (im)possibilidades de sua tradução. Experimento pensar a educação e as marcas do corpo, ensaio um diálogo com Foucault, apelo ao queer para pensar o próprio pensamento. Poderia, com certeza, ousar mais. Não chego a subverter a forma do livro ou da escrita (o que teria sido muito mais queer), mas me arrisco a mexer em certezas e verdades. Multiplicidades vão se intrometer no que é binário. Incoerências irão se mostrar produtivas. Conhecimento e ignorância se avizinham. O belo e o grotesco se embaralham.
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Certamente se encontra, aqui, mais questões do que respostas; suspeitas em vez de soluções. O livro faz um convite ou um desafio para pensar o impensável. É claro que tudo isso é arriscado. Mas a segurança enfim... ela espanta o queer. Porto Alegre, outono de 2018.
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Viajantes pós-modernos
Ao final do filme Deus é brasileiro, de Cacá Diegues, ouvimos Taoca dizer: “A vida é um porto onde a gente acaba de chegar é nunca”. Nesse filme, Deus, cansado de tanto trabalho, vem à terra para procurar um santo que fique em seu lugar enquanto ele tira férias. Na procura desse santo, ele sai viajando pelo interior do Brasil, na companhia de Taoca, um cara malandro mas “gente boa”, que Ele vê logo ao chegar. O filme trata dessa viagem, das pessoas que eles encontram, dos lugares por onde passam e de transformações que acontecem não apenas com o rapaz, mas com o próprio Deus. É um “filme de estrada” (road movie). Não por acaso, faz lembrar de um outro, mais antigo, também dirigido por Diegues: Bye bye Brasil. Realizado em 1978, Bye bye Brasil tratava de mudanças. Conforme seu diretor, o filme pretendia falar de mudanças profundas “no coração e no estômago do país”. Em Bye bye, uma trupe meio desengonçada, formada por um mágico cigano, uma bailarina e um motorista,
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aos quais se juntam um sanfoneiro e sua mulher grávida, sai pelas estradas do Norte e do Nordeste brasileiros, numa viagem que não tem paradeiro nem destino, sintetizada nas palavras do mágico: “a gente só se equilibra em movimento...”. A imagem da viagem é frequentemente evocada na Literatura e na Educação. Ela é recorrente nas novelas de formação (Bildungsroman). Conforme Jorge Larrosa (1998, p. 65), essas novelas tradicionalmente contam “a própria constituição do herói através das experiências de uma viagem que, ao se voltar sobre si mesmo, ‘con-forma’ sua sensibilidade e seu caráter, sua maneira de ser e de interpretar o mundo”. Nessas narrativas clássicas, há uma espécie de entrelaçamento entre a viagem exterior e uma viagem interior, como diz o autor, e, nesse processo, o viajante vai formando sua “consciência, sensibilidade e caráter”. Os filmes de estrada guardam pontos de contato com essas narrativas (Lopes, 2002). Nesse gênero de filme, o personagem ou os personagens estão em trânsito, em fuga ou na busca de algum objetivo frequentemente adiado e, ao longo do caminho, veem-se diante de provas, encontros, conf litos. Ao se deslocarem, também se transformam e essa transformação é, muitas vezes, caracterizada como uma evolução. Quero recorrer à ideia de viagem para construir minha argumentação. Para que possa desenvolver a lógica que pretendo, é preciso, no entanto, abandonar qualquer pressuposto de um sujeito unificado que vá se desenvolvendo de modo linear e progressivo, na medida em que, pouco a pouco, em etapas sucessivas, supera obstáculos, interioriza
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conhecimentos e entra em contato com pessoas ou leituras. Diferentemente da tradição humanista, não suponho que, gradativamente, o herói vá tomando “posse de si mesmo” (Larrosa, 1996). A imagem da viagem me serve na medida em que a ela se agregam ideias de deslocamento, desenraizamento, trânsito. Na pós-modernidade, parece necessário pensar não só em processos mais confusos, difusos e plurais mas, especialmente, supor que o sujeito que viaja é, ele próprio, dividido, fragmentado e cambiante. É possível pensar que esse sujeito também se lança numa viagem, ao longo de sua vida, na qual o que importa é o andar, e não o chegar. Não há um lugar de chegar, não há destino pré-fixado, o que interessa é o movimento e as mudanças que se dão ao longo do trajeto. Como acontece com os personagens de Diegues, o motivo da viagem se altera no meio do caminho; uma vez alcançado, o objetivo deixa de ser importante e se converte em outro; os sujeitos podem até voltar ao ponto de partida, mas são, em alguma medida, “outros” sujeitos, tocados que foram pela viagem. Por certo também há, aqui, formação e transformação, mas num processo que, ao invés de cumulativo e linear, caracteriza-se por constantes desvios e retornos sobre si mesmo, um processo que provoca desarranjos e desajustes, de modo tal que só o movimento é capaz de garantir algum equilíbrio ao viajante. *** O recurso literal e metafórico da viagem é usado por James Clifford (1997) para pensar as culturas como locais
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de moradia e de passagem, para ref letir sobre viajantes e nativos, turistas ou migrantes compulsórios, para pensar sobre os sujeitos que podem (ou não) viajar, para pluralizar sentidos e significados das viagens, para falar sobre raízes e rotas, sobre as formas como os “dentros” e “foras” de uma comunidade são “mantidos, policiados, subvertidos, cruzados”, para contar sobre zonas de fronteira. Suas ref lexões permitem pensar para além das culturas ditas exóticas, das tribos ou dos grupos aos quais os etnógrafos costumam dedicar tanta atenção; elas permitem pensar muitos outros deslocamentos na contemporaneidade. Uma viagem é definida, no dicionário, como um deslocamento entre lugares relativamente distantes e, em geral, se supõe que tal distância se refira ao espaço, eventualmente ao tempo. Mas talvez se possa pensar, também, numa distância cultural, naquela que se representa como diferença, naquele ou naquilo que é estranho, no “outro” distanciado e longínquo. A metáfora da viagem interessa-me para ref letir não apenas sobre os percursos, as trajetórias e o trânsito entre lugares/culturas ou posiçõesde-sujeito, mas, também, para ref letir sobre partidas e chegadas. Importa-me o movimento e também os encontros, as misturas, os desencontros. Quem viaja realiza um aprendizado que, hoje, se dá não por acúmulo ou etapas (nascimento-infânciajuventude-maturidade-velhice-morte) mas por epifanias e momentos, em que os tempos se mesclam incessantemente, desmistificando um aprendizado pela experiência cronológica, idealizadora da maturidade (Lopes, 2002, p. 177).
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A viagem transforma o corpo, o caráter, a identidade, o modo de ser e de estar... Suas transformações vão além das alterações na superfície da pele, do envelhecimento, da aquisição de novas formas de ver o mundo, as pessoas e as coisas. As mudanças da viagem podem afetar corpos e identidades em dimensões aparentemente definidas e decididas desde o nascimento (ou até mesmo antes dele). A declaração “É uma menina!” ou “É um menino!” também começa uma espécie de “viagem”, ou melhor, instala um processo que, supostamente, deve seguir determinado rumo ou direção. A afirmativa, mais do que uma descrição, pode ser compreendida como uma definição ou decisão sobre um corpo. Judith Butler (1993) argumenta que essa asserção desencadeia todo um processo de “fazer” desse um corpo feminino ou masculino. Um processo que é baseado em características físicas que são vistas como diferenças e às quais se atribui significados culturais. Afirma-se e reitera-se uma sequência de muitos modos já consagrada, a sequência sexo-gênero-sexualidade. O ato de nomear o corpo acontece no interior da lógica que supõe o sexo como um “dado” anterior à cultura e lhe atribui um caráter imutável, a-histórico e binário. Tal lógica implica que esse “dado” sexo vai determinar o gênero e induzir a uma única forma de desejo. Supostamente, não há outra possibilidade senão seguir a ordem prevista. A afirmação “é um menino” ou “é uma menina” inaugura um processo de masculinização ou de feminização com o qual o sujeito se compromete. Para se qualificar como
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um sujeito legítimo, como um “corpo que importa”, no dizer de Butler, o sujeito se verá obrigado a obedecer às normas que regulam sua cultura (Butler, 1999). Apesar de tudo isso, a sequência é desobedecida e subvertida. Como não está garantida e resolvida de uma vez por todas, como não pode ser decidida e determinada num só golpe, a ordem precisará ser reiterada constantemente, com sutileza e com energia, de modo explícito ou dissimulado. Mesmo que existam regras, que se tracem planos e sejam criadas estratégias e técnicas, há aqueles e aquelas que rompem as regras e transgridem os arranjos. A imprevisibilidade é inerente ao percurso. Tal como numa viagem, pode ser instigante sair da rota fixada e experimentar as surpresas do incerto e do inesperado. Arriscar-se por caminhos não traçados. Viver perigosamente. Ainda que sejam tomadas todas as precauções, não há como impedir que alguns se atrevam a subverter as normas. Esses se tornarão, então, os alvos preferenciais das pedagogias corretivas e das ações de recuperação ou de punição. Para eles e para elas a sociedade reservará penalidades, sanções, reformas e exclusões. *** Um trabalho pedagógico contínuo, repetitivo e interminável é posto em ação para inscrever nos corpos o gênero e a sexualidade “legítimos”. Isso é próprio da viagem na direção planejada. O processo parece, contudo, sempre incompleto, ele demanda reiteração, é afeito a instabilidades, é permeável aos encontros e aos acidentes. Efeitos das instituições, dos
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discursos e das práticas, o gênero e a sexualidade guardam a inconstância de tudo o que é histórico e cultural, por isso às vezes escapam e deslizam. Faz-se necessário, então, inventar práticas mais sutis para repetir o já sabido e reconduzir ao “bom” caminho os desviantes. Por certo os próprios sujeitos estão empenhados na produção do gênero e da sexualidade em seus corpos. O processo, contudo, não é feito ao acaso ou ao sabor de sua vontade. Embora participantes ativos dessa construção, os sujeitos não a exercitam livres de constrangimentos. Uma matriz heterossexual delimita os padrões a serem seguidos e, ao mesmo tempo, paradoxalmente, fornece a pauta para as transgressões. É em referência a ela que se fazem não apenas os corpos que se conformam às regras de gênero e sexuais, mas também os corpos que as subvertem. Eventualmente, em vez de serem repetidas, as normas são deslocadas, desestabilizadas, derivadas, proliferadas. Aventureiros ou desviantes, seduzidos ou empurrados por quaisquer razões, há aqueles e aquelas que se desviam das regras e da direção planejada . Deixam de se conformar ao “sistema de uma heterossexualidade compulsória e naturalizada” (Sara Salih, 2012, p. 71). Desencaminham-se, desgarram-se, inventam alternativas. Ficam à deriva – no entanto, torna-se impossível ignorá-los. Paradoxalmente, ao se afastarem, fazem-se ainda mais presentes. Não há como esquecê-los. Suas escolhas, suas formas e seus destinos passam a marcar a fronteira e o limite, indicam o espaço que não deve ser atravessado. Mais do que isso, ao ousarem se construir como sujeitos
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de gênero e de sexualidade precisamente nesses espaços, na resistência e na subversão das “normas regulatórias”, eles e elas parecem expor, com maior clareza e evidência, como essas normas são feitas e mantidas. Não indago por que tais sujeitos cruzam as fronteiras. Não pretendo descobrir suas intenções e propósitos, nem lhes atribuir o caráter de revelação ou de descoberta. É verdade que a metáfora da viagem parece supor um sujeito que detém o privilégio de perambular livremente, de ir e de vir. No entanto, não podemos esquecer que há aqueles que são empurrados para as viagens. Clifford (1997) nos faz ref letir sobre quem é ou quem pode ser viajante; ele nos recorda aqueles que fazem travessias e deslocamentos compelidos por circunstâncias alheias ou motivos externos (criados, guias, migrantes, exilados...); ele nos lembra que as viagens são significadas distintamente por gênero, por classe, por raça. Também as viagens plenas de aventuras de que falam as novelas de formação sofrem dessas marcas. Elas são invariavelmente empreendidas por homens, não por mulheres. E homens brancos. Portanto, também aqui a metáfora da viagem precisa ser relativizada. Os sujeitos que cruzam as fronteiras de gênero e de sexualidade talvez não “escolham” livremente essa travessia, podem se ver movidos para tal por muitas razões, podem atribuir a esse deslocamento distintos significados. Podem, tal como quaisquer outros viajantes, ver sua travessia restringida, repudiada ou ampliada por suas marcas de classe, de raça ou por outras circunstâncias de sua existência. Sua viagem talvez possa se caracterizar como um ir e voltar livre e descompromissado
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ou pode se constituir num movimento forçado, numa espécie de exílio. De um modo ou de outro, esses sujeitos escapam da via planejada. Extraviam-se. Põem-se à deriva. Podem encontrar uma nova posição, um outro lugar para se alojar ou se mover ainda outra vez. Atravessam fronteiras ou adiam o momento de cruzá-las. Muitos permanecem referidos à via mestra, mesmo que pretendam recusá-la e “partir pra outra”... Sua recusa nem sempre é crítica, contundente ou subversiva; por caminhos transversos, sua recusa pode acabar reforçando as mesmas regras e normas que pretendeu negar. Há também os que se demoram na fronteira, aqueles e aquelas que se abandonam no espaço “entre” dois ou mais lugares, que se deixam ficar numa espécie de esquina ou encruzilhada. Algo parecido com o que acontece aos membros de grupos culturais permanentemente em trânsito, sobre os quais se pergunta “não tanto o ‘de onde você é?’, mas o ‘entre onde você está’?” (Clifford, 1997, p. 37). A fronteira é lugar de relação, região de encontro, cruzamento e confronto. Ela separa e, ao mesmo tempo, põe em contato culturas e grupos. Zona de policiamento é, também, zona de transgressão e subversão. O ilícito circula ao longo da fronteira. Ali os enfrentamentos costumam ser constantes, não apenas e tão somente através da luta ou do conf lito cruento, mas, também, sob a forma da crítica, do contraste, da paródia. Quem subverte e desafia a fronteira apela, por vezes, para o exagero e para ironia a fim de tornar evidente a arbitrariedade das divisões, dos limites e das separações. Por isso a paródia
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que arremeda os “nativos” do “outro” lado, que embaralha seus códigos com os “deste lado”, que mistura e confunde as regras, que combina e distorce as linguagens é tão perturbadora. Ela se compraz da ambiguidade, da confusão, da mixagem. Para as fronteiras constantemente vigiadas dos gêneros e da sexualidade, a crítica paródica pode ser profundamente subversiva. Em sua “imitação” do feminino, uma drag queen pode ser revolucionária. Como uma personagem estranha e desordeira, uma personagem fora da ordem e da norma, ela provoca desconforto, curiosidade e fascínio. De que material, traços, restos e vestígios ela se faz? Como se faz? Como fabrica seu corpo? Onde busca as referências para seus gestos, seu modo de ser e de estar? A quem imita? Que princípios ou normas “cita” e repete? Onde os aprendeu? A drag escancara a construtividade dos gêneros. Perambulando por um território inabitável, confundindo e tumultuando, sua figura passa a indicar que a fronteira está muito perto e que pode ser visitada a qualquer momento. Ela assume a transitoriedade, ela se satisfaz com as justaposições inesperadas e com as misturas. A drag é mais de um. Mais de uma identidade, mais de um gênero, propositalmente ambígua em sua sexualidade e em seus afetos. Feita deliberadamente de excessos, ela encarna a proliferação e vive à deriva, como um viajante pós-moderno. Talvez seja uma espécie de nômade e, se assim for, dela se poderia dizer que só tem “estadia provisória, via de passagem. Seu próprio território é construído constantemente pelo movimento” (Peixoto apud Lopes, 2002, p. 183).
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O nômade é uma ficção política e uma “figuração”, ele se distingue do migrante e do exilado (Braidotti, 2002). Para Rose Braidotti, o migrante tem um “itinerário” de deslocamento entre sua terra natal e um outro lugar que o recebe. Seu processo é o de recorrer a seus valores de origem, ao mesmo tempo em que tenta se adaptar aos do lugar de acolhida. O exilado, por sua vez, é obrigado a se separar, radicalmente, do lugar de origem e a ele não pode retornar. Mas ambos, migrante e exilado, lidam com lugares de algum modo fixos. “O nômade, por outro lado, se posiciona pela renúncia e desconstrução de qualquer senso de identidade fixa [...] o estilo nômade tem a ver com transições e passagens, sem destinos predeterminados ou terras natais perdidas” (Braidotti, 2002). “Os nômades estão sempre no meio”, eles “não têm passado, nem futuro, têm apenas devires”, “não têm história, apenas a geografia” (Deleuze; Parnet, 1998, p. 41). É possível recorrer a essas representações para pensar, também, os sujeitos transgressivos de gênero e sexualidade. Esses sujeitos, frequentemente, recusam a fixidez e a definição das fronteiras e assumem a inconstância, a transição e a posição “entre” identidades como intensificadoras do desejo. Viajantes pós-modernos, muitas vezes, extraem mais prazer da mobilidade e da “passagem” do que propriamente da “chegada” a um outro lugar ou ao lugar do “outro”. Sentem-se à vontade no movimento. A transição, o processo, o percurso podem se constituir, no fim das contas, em sua experiência mais vital ou mais “autêntica”. A personagem Agrado, do filme Tudo sobre minha mãe, de Pedro Almodóvar, expressa fortemente essa posição.
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É Sonia Maluf quem chama atenção para o momento em que Agrado descreve para uma plateia de teatro o processo de construção de seu corpo e a quantidade de silicone que carrega. Nesse momento, a travesti afirma que o que tem de mais autêntico é exatamente o silicone, ou seja, aquilo que diz, do modo mais material possível, da sua intervenção sobre seu próprio corpo. Argumenta Maluf: O desejo travesti é o de tornar-se outro, mas o que Agrado assinala em seu discurso é mais o processo de tornar-se do que o produto final da mudança. Ao apontar para o silicone (e não para o seio simplesmente), ela aponta para o processo, para o movimento inscrito nesse corpo (Maluf, 2002, p. 149).
Personagens que transgridem gênero e sexualidade podem ser emblemáticas da pós-modernidade. Mas elas não se colocam, aqui, como um novo ideal de sujeito. Não se pretende instaurar um novo projeto a ser perseguido, não há intenção de produzir uma nova referência. Nada seria mais anti-pós-moderno. A visibilidade e a materialidade desses sujeitos parecem significativas por evidenciarem, mais do que outros, o caráter inventado, cultural e instável de todas as identidades. São significativas, ainda, por sugerirem concreta e simbolicamente possibilidades de proliferação e multiplicação das formas de gênero e de sexualidade. Na viagem que empreendem ao longo da vida, alguns sujeitos deixam-se tocar profundamente pelas possibilidades de toda ordem que o caminho oferece. Entregam-se aos momentos de “epifania”. Saboreiam intensamente o inesperado, as sensações e as imagens, os encontros e os
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conf litos, talvez por adivinharem que a trajetória em que estão metidos não é linear, nem ascensional ou constantemente progressiva. Suas aventuras podem, no entanto, parecer especialmente arriscadas e assustadoras quando se inscrevem no terreno dos gêneros e da sexualidade – afinal essas são dimensões tidas como “essenciais”, “seguras” e “universais” que, supostamente, não podem/não devem ser afetadas ou alteradas. Por isso o efeito e o impacto das experiências desses sujeitos é tão fortemente político – o que eles ousam ensaiar repercute não apenas em suas próprias vidas, mas nas vidas de seus contemporâneos. Esses sujeitos sugerem uma ampliação nas possibilidades de ser e de viver. Acolhem com menos receio fantasias, sensações e afetos, e insinuam que a diversidade pode ser produtiva. Indicam que o processo de se “fazer” como sujeito pode ser experimentado com intensidade e prazer. Fazem pensar para além dos limites conhecidos, para além dos limites pensáveis. Afetam, assim, não só seus próprios destinos, mas também certezas, cânones e convenções culturais. Como os personagens de Diegues, esses viajantes pósmodernos deslocam-se sem “porto de chegar”, gozando e sofrendo as sensações da viagem. Nas novelas de formação, o protagonista, a princípio, “necessita de um impulso que o coloque em movimento. E esse impulso vem geralmente de um viajante” (Larrosa, 2002, p. 59). Como viajantes da pós-modernidade, aqueles e aquelas que experimentam a proliferação dos gêneros e da sexualidade podem representar esse impulso para o movimento. O viajante interrompe a comodidade, abala a segurança, sugere o desconhecido, aponta para o estranho,
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o estrangeiro. Seus modos talvez sejam irreconhecíveis, transgressivos, distintos do padrão que se conhece. Seu lugar transitório nem sempre é confortável. Mas esse pode ser também, em alguma medida, um lugar privilegiado que lhe permite ver (e incita outros a ver), de modo inédito, arranjos, práticas e destinos sociais aparentemente universais, estáveis e indiscutíveis. Não se trata, pois, de tomar sua figura como exemplo ou modelo, mas de entendê-la como desestabilizadora de certezas e provocadora de novas percepções. “Mestre do negativo”, como diz Larrosa, este viajante “não ensina nada, não convida a ser seguido, simplesmente dá a distância e o horizonte, o ‘não’ e o impulso para se caminhar” (Larrosa, 2002, p. 60).
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