Introdução de G I L L I A N F L Y N N A U T O R A D E G A R OTA E X E M P L A R
“Uma leitura impossível de largar.”
STEPHEN KING
MICHELLE McNAMARA
M I C H E L L E
M c N A M A R A
TRADUÇÃO: LUIS REYES GIL
Copyright © 2018 Tell Me Productions, Inc. Copyright © 2018 Editora Vestígio
Título original: I’ll Be Gone in the Dark Todos os direitos reservados pela Editora Vestígio. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
gerente editorial
revisão
Arnaud Vin
Eduardo Soares
editor assistente
adaptação de capa original
Eduardo Soares
Diogo Droschi (sobre capa de Faber. Fotografia: © Ed Freeman / Getty)
assistente editorial
Pedro Pinheiro
diagramação
Guilherme Fagundes
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
McNamara, Michelle, 1970-2016 Eu terei sumido na escuridão / Michelle McNamara ; tradução Luis Reyes Gil. -- 1. ed. -- São Paulo : Vestígio, 2018. Título original: I'll be gone in the dark ISBN 978-85-8286-472-2 1. Investigação de assassinato em série - Califórnia (Estados Unidos) I. Título. 18-16746 CDD-364.1523209794
Índices para catálogo sistemático: 1. Assassinatos em série : Califórnia : Estados Unidos : Criminologia 364.1523209794 Cibele Maria Dias - Bibliotecária - CRB-8/9427
A VESTÍGIO É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA São Paulo Av. Paulista, 2.073, Conjunto Nacional, Horsa I 23º andar . Conj. 2310-2312. Cerqueira César . 01311-940 São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468 www.grupoautentica.com.br
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Nada de mordomo, empregada, nem de sangue na escada. Nenhuma tia excêntrica, jardineiro ou amigo da família sorrindo no meio das bugigangas e do assassinato. Apenas uma casa suburbana com a porta da frente aberta E um cachorro latindo para um esquilo, e os automóveis Passando. O cadáver bem morto. A esposa na Flórida. Avalie as pistas: o espremedor de batatas num vaso, A fotografia rasgada de um time de basquete metodista, Espalhados junto com comprovantes de pagamento na sala; Uma carta de fã para Shirley Temple não enviada, O button do Hoover na lapela do falecido, O bilhete: “Não vejo problema em ter sido morto desse jeito”. Não admira que o caso continue sem solução, Ou que o investigador, Le Roux, tenha enlouquecido completamente, E fique sentado sozinho num quarto branco, de roupa branca, Gritando que o mundo inteiro enlouqueceu, que as pistas Não levam a nada, ou levam a muros tão altos que seu topo não pode ser visto; Gritando todos os dias da guerra, gritando que nada tem solução. – Weldon Kees, “Clube do Crime”
ataques do estuprador da área leste
(Junho de 1976 a julho de 1979) Norte da Califórnia Ataca 50 mulheres em sete condados
Sacramento
1 18 de junho de 1976 – Rancho Cordova Uma mulher de 23 anos (identificada neste livro como “Sheila”) é estuprada em sua cama por um intruso mascarado. Será o primeiro ataque de dezenas, por ity um homem que viria n Ca ser conhecido na mídia e no rso Ca judiciário como “Estuprador da Área Leste”.
2 1~ ~~ 3
São Francisco
SACRAMENTO
~ CONTRA 4 5 COSTA ~
Oakland
2 5 de outubro de 1976 – Citrus Heights O Estuprador da Área Leste ataca pela quinta vez, visando uma dona de casa de 30 anos, Julie Miller*. O estuprador espera o marido da vítima sair para o trabalho e entra minutos depois. O filho de 3 anos de idade da vítima permanece no quarto dela durante todo o suplício.
San Jose
101
5
3 28 de maio de 1977 – Parkway – Sul de Sacramento Fiona Williams*, de 28 anos, e o marido Phillip são vítimas do EAL em seu 22o ataque conhecido – o sétimo ataque em que o homem está presente durante o incidente.
99
Fresno
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Visalia
6 ~ TULARE
4 28 de outubro de 1978 – San Ramon A contagem oficial chega a 40 quando o EAL ataca outro casal: Kathy*, de 23 anos, e o marido, David*. 5 9 de dezembro de 1978 – Danville Esther McDonald*, 32 anos, é acordada à noite, amarrada e estuprada, tornando-se a 43ª vítima do EAL.
os roubos e disparos do saqueador de visalia (Abril de 1974 a dezembro de 1975)
SANTA BARBARA
Bakersfield
7 ~ ~~ 8 e
a violência do original night stalker
Santa Barbara
(Outubro de 1979 a maio de 1986)
9 ~
VENTURA
7 1o de outubro de 1979 – Goleta O Original Night Stalker ataca um casal durante uma malsucedida invasão de casa; o casal escapa.
Ventura
8 30 de dezembro de 1979 – Goleta O ONS mata o Dr. Robert Offerman e Debra Alexandria Manning.
Los Angeles
9 13 de março de 1980 – Ventura O ONS mata Charlene e Lyman Smith.
Anaheim Irvine
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ORANGE
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6 Visalia Exploração de um possível vínculo com as várias invasões e o assassinato de Claude Snelling.
48 km
Copyright do mapa © 2017 Springer Cartographics
10 19 de agosto de 1980 – Dana Point O ONS mata Keith e Patrice Harrington. 11 6 de fevereiro de 1981 – Irvine O ONS mata Manuela Witthuhn. 12 27 de julho de 1981 – Goleta O ONS mata Cheri Domingo e Gregory Sanchez. 13 5 de maio de 1986 – Irvine O ONS mata Janelle Cruz.
PERSONAGENS
VÍTIMAS Vítimas de estupro Sheila* (Sacramento, 1976) Jane Carson (Sacramento, 1976) Fiona Williams* (Sul de Sacramento, 1977) Kathy* (San Ramon, 1978) Esther McDonald* (Danville, 1978)
Vítimas de homicídio Claude Snelling (Visalia, 1978)** Katie e Brian Maggiore (Sacramento, 1978)** Debra Alexandria Manning e Robert Offerman (Goleta, 1979) Charlene e Lyman Smith (Ventura, 1980) Patrice e Keith Harrington (Dana Point, 1980) Manuela Witthuhn (Irvine, 1981) Cheri Domingo e Gregory Sanchez (Goleta, 1981) Janelle Cruz (Irvine, 1986) *
Pseudônimo. Nunca associado de maneira conclusiva ao Assassino do Golden State.
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INVESTIGADORES Jim Bevins – investigador, Departamento do Xerife do Condado de Sacramento Ken Clark – detetive, Escritório do Xerife de Sacramento Carol Daly – detetive, Departamento do Xerife do Condado de Sacramento Richard Shelby – detetive, Departamento do Xerife do Condado de Sacramento Larry Crompton – detetive, Departamento do Xerife do Condado de Contra Costa Paul Holes – criminalista, Departamento do Xerife do Condado de Contra Costa John Murdock – chefe, Laboratório de Criminalística do Xerife, Condado de Contra Costa Bill McGowen – detetive, Departamento de Polícia de Visalia Mary Hong – criminalista, Laboratório de Criminalística do Condado de Orange Erika Hutchcraft – investigadora, Escritório Distrital da Promotoria do Condado de Orange Larry Pool – investigador, Countywide Law Enforcement Unsolved Element (CLUE) [“Autoridade Policial do Condado para Casos Não Solucionados”], Departamento do Xerife do Condado de Orange Jim White – criminalista, Departamento do Xerife do Condado de Orange Fred Ray – detetive, Escritório do Xerife do Condado de Santa Barbara
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EU TEREI SUMIDO NA ESCURIDÃO
INTRODUÇÃO ANTES DO ASSASSINO DO GOLDEN STATE , o “estado dourado” da Califórnia, havia a garota. Michelle vai falar dela: a garota, arrastada até o beco que sai da Pleasant Street, assassinada e largada num monte de lixo. A garota, uma jovem de vinte e poucos anos, morta em Oak Park, Illinois, a algumas quadras de onde Michelle foi criada – numa movimentada casa de católicos irlandeses. Michelle, a mais nova de seis irmãos, assinava as entradas de seu diário como “Michelle, a Escritora”. Ela contou que o assassinato despertou nela o interesse pelas histórias de crimes reais. Nós duas teríamos formado um belo par (embora talvez um par estranho). Na mesma época, no começo da minha adolescência, lá em Kansas City, Missouri, eu também queria ser escritora, embora tenha adotado no meu diário um apelido um pouco mais pretensioso: Gillian, a Grande. Como Michelle, cresci numa família irlandesa numerosa, frequentei escola católica e cultivei um fascínio pelo escuro. Li A Sangue-Frio, de Truman Capote, quando tinha 12 anos, numa cópia barata de segunda mão, e isso iria iniciar minha obsessão de toda a vida por crimes reais. Adoro ler sobre crimes reais, mas sempre tive consciência de que, como leitora, estou na realidade escolhendo ser uma consumidora das tragédias de outras pessoas. Portanto, como qualquer consumidora responsável, tento ser criteriosa nas minhas escolhas. Leio apenas o melhor: escritores que sejam obstinados, perspicazes e humanos. Era inevitável que encontrasse Michelle. Sempre achei que o aspecto menos valorizado de um grande escritor de crimes reais é a humanidade. Michelle McNamara teve uma misteriosa capacidade de entrar na mente não só dos assassinos, mas também dos 13
policiais que os perseguiram, das vítimas que foram destruídas, e do rastro de dor deixado para os parentes. Quando adulta, virei uma visitante regular de seu notável blog, True Crime Diary [“Diário do Crime Real”]. “Por que você não escreve para ela?”, meu marido insistia. Ela era de Chicago; eu moro em Chicago; as duas éramos mães que passavam uma quantidade pouco saudável de tempo revirando pedras nos lados escuros da humanidade. Eu resisti às sugestões do meu marido – acho que o mais perto que cheguei em termos de conhecê-la foi me apresentar a uma tia dela num evento de livraria – ela me passou seu telefone, e eu mandei a Michele uma mensagem de texto, dizendo algo tão pouco próprio de escritores como “Você é incrível!!!”. A verdade é que eu não tinha certeza se queria conhecer essa escritora – sentia que ela estava um nível acima de mim. Eu crio personagens; ela tinha que lidar com fatos, ir até onde a história a levasse. Ela tinha que ganhar a confiança de investigadores desconfiados, cansados, encarar montanhas de documentos que poderiam conter aquela única informação crucial, e convencer famílias e amigos arrasados a remexer em velhas feridas. Ela fazia isso com um encanto particular, escrevendo à noite enquanto a família dormia, num quarto com um monte de cartolinas da filha espalhadas, anotando com giz de cera colorido os códigos penais da Califórnia. Sou uma horrível colecionadora de assassinos, mas não tinha conhecimento do homem que Michelle iria apelidar de Assassino do Golden State, até ela começar a escrever sobre esse pesadelo, responsável por cinquenta agressões sexuais e pelo menos dez assassinatos na Califórnia nas décadas de 1970 e 1980. Este era um caso que esfriara havia décadas; testemunhas e vítimas haviam se mudado ou falecido ou sumido; o caso abrangia várias jurisdições – tanto no sul como no norte da Califórnia – e envolvia uma miríade de arquivos criminais que não contavam com os benefícios das análises de DNA ou de laboratório. São poucos os escritores que levariam isso adiante, e menos ainda os que fariam isso bem. A obstinação de Michelle em perseguir esse caso foi impressionante. Num exemplo típico, ela localizou no site de um brechó no estado do Oregon um par de abotoaduras que haviam sido roubadas de uma cena de crime em Stockton, Califórnia, em 1977. Não só isso; ela podia também lhe dizer que “nomes de menino que começam com N eram relativamente raros, aparecendo apenas uma vez na lista dos cem nomes mais 14
EU TEREI SUMIDO NA ESCURIDÃO
comuns nas décadas de 1930 e 1940, época em que o dono original das abotoaduras provavelmente teria nascido”. Veja bem, isso sequer é uma pista que leve ao assassino; é uma pista que leva às abotoaduras que o assassino roubou. Essa dedicação aos detalhes era típica. Escreve Michelle: “Uma vez, passei uma tarde vasculhando todos os detalhes possíveis a respeito de um membro da equipe de polo aquático da turma de 1972 da Escola Secundária Rio American, porque na foto do anuário ele aparecia esbelto e com panturrilhas grossas” – um possível traço físico do Assassino do Golden State. Muitos escritores que deram suor e sangue reunindo tal volume de pesquisa podem se perder nos detalhes – estatísticas e informação tendem a deixar de lado a humanidade. Os traços que fazem da pessoa um pesquisador incansável com frequência estão em oposição às nuances da vida. Mas Eu terei sumido na escuridão, além de um belo trabalho de divulgação de informações, é também um retrato de época, lugar e pessoa. Michelle dá vida às subdivisões da Califórnia que ficam junto a plantações de laranja, novos conjuntos habitacionais insossos que faziam das vítimas as estrelas de seus próprios filmes de suspense chocantes, as cidades que viviam à sombra das montanhas e ganhavam vida uma vez por ano com as milhares de tarântulas frenéticas que saíam em busca de parceiros para acasalar. E as pessoas, ah, meu Deus, as pessoas – ex-hippies ainda esperançosos, ou recém-casados em sua labuta, ou uma mãe e uma filha adolescente discutindo a respeito de liberdade e responsabilidade e trajes de banho, sem saber que faziam isso pela última vez. Fui fisgada desde o início, e Michelle também, ao que parece. Sua caçada de muitos anos, atrás da identidade do Assassino do Golden State, cobrou um duro preço: “Tenho um grito permanentemente preso na minha garganta agora”. Michelle faleceu durante o sono aos 46 anos de idade, antes que pudesse terminar este livro notável. Você encontrará relatos de casos de colegas dela, mas a identidade do Assassino do Golden State – quem era ele – permanece sem solução.* A identidade dele não me importa minimamente. Quero que seja capturado; não me importa quem seja. Olhar para o rosto de um homem desses é um anticlímax; atribuir-lhe *
Ver Nota à edição brasileira, p. 319. [N.E.]
INTRODUÇÃO
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algum nome, mais ainda. Sabemos o que ele fez; qualquer informação adicional inevitavelmente parecerá trivial, vaga, um clichê: “Minha mãe foi cruel comigo. Odeio mulheres. Nunca tive família ...” E assim por diante. Quero saber mais a respeito de pessoas de verdade, completas, não a respeito de sujos detritos humanos. Quero saber mais a respeito de Michelle. À medida que ela detalhava sua busca por esse homem sombrio, eu me vi procurando pistas a respeito dessa escritora que tanto admiro. Quem era a mulher em quem confiei o suficiente para acompanhar esse pesadelo? Como era ela? O que a tornou assim? O que lhe deu esse encanto? Num dia de verão, eu me vi no trajeto de vinte minutos da minha casa em Chicago até Oak Park, até o beco onde “a garota” foi encontrada, onde Michelle, a Escritora, descobriu sua vocação. Só quando cheguei é que entendi por que estava ali. Era porque estava numa busca própria, na minha perseguição a essa notável perseguidora do escuro. – Gillian Flynn Autora de Garota exemplar
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EU TEREI SUMIDO NA ESCURIDÃO
PRÓLOGO NAQUELE VERÃO, PERSEGUI O ASSASSINO EM SÉRIE À NOITE, instalada no quarto de brinquedos da minha filha. No essencial, eu imitava a rotina da hora de deitar de uma pessoa normal. Escovava os dentes. Vestia o pijama. Mas depois que meu marido e minha filha caíam no sono, ia para o meu espaço de trabalho improvisado e ligava o laptop, essa escotilha de 15 polegadas de largura e infinitas possibilidades. Nosso bairro, a noroeste do centro de Los Angeles, é muito tranquilo à noite. Às vezes o único som era o do clique do mouse conforme eu chegava cada vez mais perto das entradas de casas de homens que eu não conhecia, usando o Street View do Google Maps. Eu raramente me mexia, mas dava saltos de décadas com uns poucos toques de teclas. Anuários de colégios. Certidões de casamento. Fotos de arquivos policiais. Vasculhava milhares de páginas de arquivos policiais da década de 1970. Ficava matutando em cima de relatórios de autópsias. Não achava nada demais fazer isso rodeada por meia dúzia de bichos de pelúcia e por um conjunto de bongôs cor de rosa. Encontrara meu local de pesquisa, tão privado quanto o labirinto de um rato. Toda obsessão precisa de um espaço próprio. O meu estava cheio de papéis com desenhos para colorir, nos quais eu fazia anotações com giz de cera colorido a respeito dos códigos penais da Califórnia. Era por volta de meia-noite do dia 3 de julho de 2012, quando abri um documento que eu compilara, listando todos os itens singulares que ele roubara ao longo dos anos. Havia me aventurado um pouco em metade dessa lista: becos sem saída. O item seguinte a pesquisar era um par de abotoaduras roubadas de Stockton, Califórnia, em setembro de 1977. Nessa época, o Assassino do Golden State, como eu acabei chamando-o, ainda não se graduara como assassino. Era um estuprador em série, conhecido 17
como o Estuprador da Área Leste, que atacava mulheres e meninas nos seus quartos, primeiro na parte leste do Condado de Sacramento, depois fazendo incursões em comunidades do Central Valley e nos arredores de East Bay, em São Francisco. Era jovem – entre 18 e 30 anos –, caucasiano e atlético, capaz de escapar saltando cercas altas. Seu alvo preferido eram casas de apenas um andar, localizadas a dois lotes da esquina em um bairro tranquilo de classe média. Usava sempre uma máscara. Precisão e autopreservação eram os traços que permitiam identificá-lo. Quando escolhia uma vítima, costumava entrar na casa com antecedência, quando não houvesse ninguém lá, examinava as fotos da família, assimilava o arranjo. Desativava as luzes da varanda e destravava as portas de vidro corrediças. Tirava as balas das armas. Proprietários das casas, despreocupados, fechavam portões deixados abertos; fotos que ele tivesse mudado de lugar eram colocadas de volta, e atribuía-se isso à bagunça normal do dia a dia. As vítimas dormiam sossegadas até que o facho da lanterna as obrigasse a abrir os olhos. Ficavam ofuscadas, desorientadas. Mentes sonolentas arrastavam-se, e depois aceleravam. Uma figura que elas não conseguiam ver manejava a luz, mas quem, e por quê? Seu medo encontrava a direção quando ouviam a voz, descrita como um sussurro gutural entredentes, abrupto e ameaçador, embora algumas vítimas notassem um lapso ocasional e a variação para um tom mais agudo, um tremor, um gaguejar, como se o estranho mascarado no escuro estivesse escondendo não só o rosto mas também uma instabilidade brusca que nem sempre conseguia disfarçar. O caso Stockton em setembro de 1977, quando ele roubara as abotoaduras, foi seu vigésimo terceiro ataque, e aconteceu após um intervalo de verão muito bem delimitado. Os ganchos da cortina raspando no varão acordaram a mulher de 29 anos de idade em seu quarto, na região noroeste de Stockton. Ela levantou a cabeça do travesseiro. As luzes do pátio de fora emolduraram a silhueta junto à porta. A imagem evaporou quando o facho da lanterna encontrou seu rosto ofuscando-a; uma energia poderosa correu em direção à cama. Seu último ataque havia sido no fim de semana prolongado do Memorial Day [o feriado nacional celebrado na última segunda-feira de maio, em homenagem aos militares mortos em combate]. Era 1h30 da madrugada da terça-feira depois do Labor Day [celebrado nos Estados Unidos na primeira segunda-feira de setembro]. O verão terminara. Ele estava de volta. 18
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Ele agora ia atrás de casais. A vítima feminina tentara explicar o mau cheiro do seu agressor ao policial que fazia o relatório. Ela se esforçava para identificar o odor. Disse que não era cheiro de falta de banho. Não vinha de debaixo do braço dele, ou da sua respiração. O melhor que a vítima conseguiu dizer, anotou o policial em seu relatório, foi que parecia um cheiro de nervoso, que emanava não de alguma zona em particular do corpo dele, mas de todos os seus poros. O oficial perguntou se ela poderia ser mais específica. Ela disse que não. O fato era que não se tratava de nenhum cheiro que ela já tivesse sentido antes. Como em outros casos em Stockton, ele resmungava que precisava de dinheiro, mas ignorava dinheiro vivo que encontrasse bem diante dele. O que queria daqueles que violava eram coisas de valor pessoal: alianças de casamento gravadas, carteiras de motorista, moedas comemorativas. As abotoaduras, relíquias de família, tinham um estilo incomum para a década de 1950, e um monograma com as iniciais N.R. O relator oficial havia feito um desenho esquemático delas à margem do relatório policial. Curioso como eram peculiares. Por meio de uma pesquisa na internet descobri que nomes de menino que começam com N eram raros, aparecendo apenas uma vez na lista dos cem nomes mais comuns nas décadas de 1930 e 1940, quando o dono original das abotoaduras provavelmente teria nascido. Googlei uma descrição das abotoaduras e apertei Enter no meu laptop. Você precisa ter muita ousadia para achar que é capaz de decifrar um caso complexo de um assassino em série, que uma força tarefa representando cinco jurisdições da Califórnia, com ajuda do FBI, não tem sido capaz de solucionar, especialmente quando o trabalho de detetive que você faz é, como o meu, do tipo autodidata. Meu interesse por crimes tem raízes pessoais. O assassinato não esclarecido de uma vizinha quando eu tinha 14 anos despertou um fascínio por casos não solucionados. O advento da internet transformou meu interesse numa ocupação ativa. Depois que os registros públicos foram disponibilizados online e que foram inventadas ferramentas de busca sofisticadas, entendi de que maneira uma cabeça cheia de detalhes de crimes podia interagir com uma barra de pesquisa vazia, e em 2006 criei um site chamado True Crime Diary. Quando minha família vai dormir, faço uma viagem no tempo e reformato evidências estagnadas, usando tecnologia do século XXI. Começo clicando, vasculhando a internet atrás de pistas PRÓLOGO
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digitais que as autoridades talvez tenham deixado de fora, passando um pente fino em listas telefônicas digitalizadas, anuários, e vistas de cenas de crime no Google Earth: um poço sem fundo de potenciais pistas para o investigador de laptop que existe hoje no mundo virtual. Compartilho minhas teorias com os leais frequentadores do meu blog. Tenho escrito sobre centenas de crimes não resolvidos, envolvendo desde assassinos que usam clorofórmio a padres homicidas. O Assassino do Golden State, porém, é o que mais me consumiu. Além das cinquenta agressões sexuais no Norte da Califórnia, foi responsável por dez assassinatos sádicos no sul do estado. Este foi um caso que se estendeu por uma década e acabou mudando a lei sobre DNA no estado. Nem o Assassino do Zodíaco, que aterrorizou São Francisco no final da década de 1960 e início da de 1970, nem o Night Stalker [“Perseguidor Noturno”], que fez os californianos do sul trancarem suas janelas nos anos 1980, foram tão ativos. No entanto, o Assassino do Golden State foi pouco reconhecido. Não tinha um nome sugestivo até eu cunhar um. Atacava em diferentes jurisdições da Califórnia, que nem sempre compartilhavam informações ou se comunicavam bem entre elas. Quando os testes de DNA revelaram que crimes antes tidos como não relacionados eram obra do mesmo homem, havia transcorrido mais de uma década desde seu último assassinato conhecido, e sua captura não era mais prioridade. Ele voou abaixo do radar, à solta e não identificado. Mas ainda aterrorizava suas vítimas. Em 2001, uma mulher em Sacramento atendeu o telefone na mesma casa em que havia sido atacada 24 anos antes. “Lembra quando a gente brincou?”, sussurrou um homem. Ela reconheceu a voz na hora. As palavras dele fizeram-na lembrar de algo que ele dissera em Stockton, quando a filha de 6 anos de idade do casal levantou para ir ao banheiro e deparou com ele no corredor. Ele estava a cerca de seis metros de distância dela, um homem com uma máscara marrom de esqui e luvas pretas de lã, e sem calças. Ele tinha um cinto com uma espécie de espada nele. “Estou fazendo umas brincadeiras com sua mãe e seu pai”, ele disse. “Venha me assistir.” O que me fisgou foi que o caso parecia ser solucionável. Sua área de destroços era ao mesmo tempo muito grande e muito pequena; ele fizera muitas vítimas e deixara muitas pistas, mas em comunidades relativamente restritas, facilitando a prospecção de dados de potenciais suspeitos. Senti-me logo arrastada pelo caso. A curiosidade virou um 20
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apetite intenso. Entrei na perseguição, absorvida por uma febre de cliques que conectava meu ímpeto de fazer conexões com uma descarga prazerosa de dopamina. Não era só eu. Encontrei um grupo de pesquisadores empenhados, que criaram um mural de mensagens online para trocar pistas e teorias a respeito do caso. Deixei de lado quaisquer julgamentos que pudesse ter feito e segui a conversa deles, ao todo vinte mil posts. Filtrei e excluí os de gente esquisita com motivos duvidosos e me concentrei nos verdadeiros perseguidores. Às vezes aparecia no mural de mensagens uma pista, como a imagem de um adesivo de um veículo suspeito, visto perto do ataque, uma pequena contribuição coletiva de detetives sobrecarregados de trabalho que ainda estavam tentando resolver o caso. Não o considero um fantasma. Minha fé estava num erro humano. Ele deve ter cometido algum erro em algum ponto do caminho, eu ponderava. Naquela noite em que fiquei pesquisando as abotoaduras, eu já vinha com aquela obsessão pelo caso havia quase um ano. Gosto de blocos de notas amarelos, especialmente as dez primeiras páginas mais ou menos, quando tudo parece fluente e promissor. O quarto de brinquedos da minha filha estava cheio desses meus blocos de notas amarelos preenchidos pela metade, um hábito perdulário e que refletia meu estado mental. Cada bloco era uma linha de investigação que começava e empacava. Procurei conselho com detetives aposentados que haviam trabalhado no caso, muitos dos quais acabei considerando meus amigos. Sua ousadia já havia sido minada, mas isso não impediu que incentivassem a minha. A caçada para encontrar o Assassino do Golden State, que abrangeu quase quatro décadas, parecia menos uma corrida de revezamento do que um grupo de fanáticos amarrados numa corda e tentando escalar uma montanha impossível. Os caras mais velhos tiveram que parar uma hora, mas insistiam em que eu fosse em frente. Eu me queixei com um deles dizendo que me sentia como se estivesse atirando para todos os lados. – Meu conselho? Atire para um lado só – disse ele. – Atire até acabar a munição. Os itens roubados eram o lado para o qual eu vinha atirando. Eu não estava otimista. Minha família e eu estávamos indo para Santa Monica para o fim de semana do Quatro de Julho. Eu ainda não havia feito as malas. A previsão do tempo não animava. Então eu vi, numa PRÓLOGO
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imagem no meio de centenas de outras que eram carregadas na tela do meu laptop, o mesmo estilo de abotoadura do desenho esboçado no arquivo policial, com as mesmas iniciais. Chequei várias vezes o desenho tosco do policial com a imagem no meu computador. Estavam sendo vendidas por oito dólares num brechó de uma cidadezinha do Oregon. Comprei na hora, pagando quarenta dólares pela entrega expressa, no dia seguinte. Fui pelo corredor até meu quarto. Meu marido já dormia. Sentei na beirada da cama e fiquei olhando fixo para ele até que abriu os olhos. – Acho que encontrei o cara – eu disse. Meu marido nem precisou perguntar quem era o tal “cara”.
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