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Sob águas escuras

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R O B E RT B RY N DZ A

tradução de

Marcelo Hauck


´ Prologo

Outono de 1990

E

ra uma noite fria no final do outono quando desovaram o corpo na pedreira desativada. Eles sabiam que o local era isolado, e a água, muito profunda. O que não sabiam é que estavam sendo observados. Chegaram protegidos pelo manto da noite, logo depois das três da manhã – passaram de carro diante das casas no limite da vila, percorreram o terreno deserto coberto de cascalho onde as pessoas que faziam caminhada estacionavam os carros e entraram no enorme parque. Com o farol apagado, o carro seguia aos solavancos pelo terreno irregular, que se transformou em uma trilha e não demorou para ser envolto de ambos os lados por uma mata densa. A escuridão era espessa e abafada e a única luz ali se infiltrava pela copa das árvores. O motor do carro, nada discreto durante o percurso, parecia rugir e a suspensão rangia ao sacolejar de um lado para o outro. Eles diminuíram a velocidade e pararam quando as árvores se dividiram e a pedreira cheia de água tornou-se visível. O que eles não sabiam era que um idoso solitário vivia perto da pedreira em um chalé abandonado que quase havia sido engolido pelo matagal. Ele estava do lado de fora olhando para o céu e maravilhandose com sua beleza quando o carro se aproximou da beirada e parou. Desconfiado, o velho se escondeu atrás dos arbustos e ficou observando. Com frequência, a garotada da região, viciados e casais em busca de emoção apareciam ali à noite e ele sempre conseguia afugentá-los. A lua irrompeu brevemente em meio às nuvens quando as duas figuras desceram do carro, pegaram algo grande no porta-malas e carregaram na direção do barco a remo na beirada da água. A primeira pessoa entrou no barco e, quando a segunda lhe passou o grande pacote, algo na maneira 9


como ele arqueou e desabou fez o idoso se dar conta, com horror, de que era um corpo. Ouvia-se o suave som dos remos deslizando na água. Ele colocou a mão na boca. Sabia que podia desviar o olhar, mas não conseguia. O barulho dos remos na água cessou quando o barco chegou ao centro do lago. Uma lasca da lua apareceu novamente através de uma fresta nas nuvens e iluminou as ondulações que se afastavam do barco. O idoso prendeu a respiração, observando as duas figuras conversarem e ouvindo os murmúrios rítmicos de suas vozes. Então houve silêncio. O barco deu uma guinada e um deles quase caiu sobre a borda. Quando estabilizaram, levantaram o pacote e o jogaram na água com um sonoro “tchibum” e o ruído de correntes. A lua saiu de trás das nuvens, e o brilho forte do luar tornou visível o barco e o local onde o pacote havia sido jogado, iluminando a água violentamente agitada ao redor da embarcação. Nesse momento, o velho conseguiu enxergar as duas pessoas no barco e teve uma visão clara de seus rostos. Ele soltou o ar. Não aguentava mais prender a respiração. Suas mãos tremiam. Não queria problemas, tinha passado a vida inteira evitando-os, mas parecia que a encrenca sempre dava um jeito de encontrá-lo. Uma brisa fria agitou algumas folhas secas aos seus pés, e ele sentiu uma coceira forte nas narinas. Antes que pudesse impedir, deu um espirro que ecoou pela pedreira. No barco, as cabeças se levantaram depressa, virando e procurando nas margens. Então o viram. O velho se virou e saiu correndo, mas tropeçou na raiz de uma árvore e caiu no chão, perdendo o fôlego. No fundo das águas da pedreira desativada estava tranquilo, frio e muito escuro. Puxado pelo peso das correntes, o corpo afundou rapidamente, afundou e afundou até pousar com um baque surdo na congelante lama macia. Ela descansaria quieta e serena ali durante muitos anos, quase em paz. Mas em cima, na terra seca, o pesadelo estava apenas começando.

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CAPÍTULO 1 Sexta-feira, 28 de outubro de 2016

A

Detetive Inspetora Chefe Erika Foster cruzou os braços por cima do volumoso colete salva-vidas para se proteger do vento gelado, desejando estar com um casaco mais grosso. O pequeno bote inflável da Unidade Naval da Polícia Metropolitana sacodia pela água da pedreira Hayes, arrastando atrás de si um transponder, um aparelho que examinava as profundezas. A pedreira desativada ficava no centro do Parque Hayes, uma área de 225 acres de mata e pântano, ao lado da vila de Hayes, nos arredores de South London. – A profundidade da água é de 23,7 metros – informou a Sargenta Lorna Crozier, supervisora de mergulho. Ela estava encurvada diante de uma tela preta na parte da frente do bote, onde os resultados do sonar eram exibidos em escuros tons roxos que floresciam ao longo da tela como um hematoma. – Então vai ser difícil recuperar o que estamos procurando? – perguntou Erika, notando o tom desanimador da colega. – Trabalhar em qualquer lugar com profundidade maior que 30 metros é difícil – confirmou Lorna. – Meus mergulhadores só podem ficar períodos curtos lá embaixo. Um lago ou canal geralmente tem uns dois metros de profundidade. Mesmo com a maré alta, o Tâmisa tem 10 ou 12 metros. – Pode existir qualquer coisa lá embaixo – disse o Detetive Sargento John McGorry, que estava espremido no pequeno assento de plástico ao lado de Erika. Ela acompanhou o olhar do jovem que fitava a superfície tremulante da água. A visibilidade devia ser de no máximo uns 60 centímetros antes de se transformar em um redemoinho de sombras. – Você está tentando sentar no meu colo? – repreendeu Erika quando ele se inclinou na direção dela para dar uma olhada pela beirada. – Desculpe, chefe – ele riu, ajeitando-se no banco. – Assisti a um programa no Discovery Channel. Sabia que só 5% do solo do mar é 11


mapeado? O oceano ocupa 70% da superfície da Terra, isso quer dizer que 65% do planeta, excluindo a terra firme, são inexplorados... Na beira da água, a 20 metros dali, aglomerados de juncos mortos balançavam ao sabor da brisa. Um grande caminhão de apoio estava estacionado na margem gramada e, ao lado dele, uma pequena equipe de apoio preparava o equipamento de mergulho. Os coletes salva-vidas alaranjados eram os únicos pontos coloridos naquela desbotada tarde de outono. Atrás deles, arbustos ressecados e espinhentos estiravam-se em uma mistura de diferentes tonalidades de cinza e marrom e, um pouco mais afastado, havia um conjunto de árvores sem folhas. O bote chegou ao limite da pedreira e diminuiu a velocidade. – Dando meia-volta – avisou o Agente Barker, um jovem policial sentado ao leme do motor de popa. Ele fez uma curva fechada, de modo que virassem e atravessassem o lago pela sexta vez. – Você acha que alguns dos peixes ou das enguias lá embaixo podem ter crescido e chegado a... tipo, superproporções? – perguntou John, virando-se para Lorna, com os olhos ainda brilhando de entusiasmo. – Já vi uns lagostins de água doce bem grandes quando mergulhava. Só que essa pedreira não é afluente, então o que quer que exista aqui foi colocado – respondeu Lorna, sem tirar os olhos da tela do sonar. – Fui criado aqui na região, em St. Mary Cray, e lá perto de casa havia um petshop que, pelo que diziam, vendia filhotes de crocodilo... – John foi baixando o tom de voz e olhou de novo para Erika, com os olhos um pouco arregalados. Ele era sempre otimista e gostava de uma conversa, e Erika até que conseguia lidar com isso. Mas mesmo assim, ainda tinha pavor de trabalhar com John no turno da manhã. – Não estamos procurando crocodilos, John. Estamos procurando dez quilos de heroína em um contêiner à prova d’água. – Desculpe, chefe – disse John, olhando de volta para ela e balançando a cabeça. Erika conferiu o relógio. Eram quase 3h30. – Quanto vale isso por aí, dez quilos? – perguntou o Agente Barker de seu lugar ao lado do leme. – Quatro milhões de libras – respondeu Erika, passando mais uma vez os olhos pelas informações na tela do sonar. Barker assobiou: 12


– Podemos supor que o contêiner foi mesmo jogado deliberadamente? Erika fez que sim e explicou: – Jason Tyler, o cara sob custódia, estava esperando as coisas se acalmarem antes voltar para pegar... Ela não acrescentou que só podiam mantê-lo sob custódia até meia-noite. – Sério mesmo que ele achava que ia conseguir recuperá-lo? Somos uma equipe de mergulho experiente e estamos com dificuldade de resgatar esse negócio – disse Lorna. – Com quatro milhões no esquema? Acho, sim, que ele ia voltar para tentar resgatar – retrucou Erika. – Estamos com esperança de encontrar as digitais dele nas camadas do plástico usado para embalar o conteúdo do interior. – Como vocês descobriram que ele jogou aqui? – perguntou mais uma vez o Agente Barker. – A esposa dele – John respondeu. O Agente Barker o olhou de um jeito que somente outro homem poderia entender, e assobiou de novo. – Espera aí! Acho que tem alguma coisa aqui, desligue o motor – Lorna pediu, inclinando-se para se aproximar ainda mais da tela minúscula. Uma figura negra brilhou no meio das tonalidades roxas. O Agente Barker desligou o motor de popa e o silêncio que tomou conta foi interrompido apenas pelo barulho da água que ainda estava agitada ao redor do bote. Ele se levantou e juntou-se a ela. – Estamos examinando uma área de quatro metros em cada lateral do bote – disse Lorna, movendo a pequena mão sobre a mancha na tela. – Então a escala está correta – concordou Barker. – Você acha que é o contêiner? – perguntou Erika, com a esperança crescendo no peito. – Pode ser – Lorna respondeu. – Ou pode ser uma geladeira velha. Não vamos ter certeza até chegarmos lá embaixo. – Você vai mergulhar hoje? – Erika perguntou, tentando manter o otimismo. – Vou ficar em terra firme hoje. Mergulhei ontem e temos que ter períodos de descanso. – Onde vocês estavam ontem? – perguntou John. – Rotherhithe. Tivemos que resgatar um suicida no lago da reserva natural. 13


– Uau! Encontrar um corpo no fundo da água deve ser um negócio muito mais bizarro. Lorna fez que sim com um gesto de cabeça e disse: – Fui eu que o encontrei. A três metros de profundidade. Estava fazendo a busca com visibilidade zero, de repente encostei as mãos em dois calcanhares, fui tateando para cima e cheguei às pernas. Ele estava em pé lá no fundo. – Cruz credo. Em pé, debaixo d’água? – John estava horrorizado. – Isso acontece... tem a ver com a composição do gás no corpo e o progresso da decomposição. – Deve ser fascinante. Só estou na força policial há alguns anos. Esta é a minha primeira vez com uma equipe de mergulho – comentou John. – Encontramos toneladas de coisas horríveis. O pior é quando você acha um saco de filhotinhos – acrescentou o Agente Barker. – Filhos da mãe. Sou policial há 25 anos e todo dia fico sabendo de uma coisa nova que mostra o quanto as pessoas podem ser doentes. – Erika percebeu que todos se viraram para ela por um instante, e notou que todos tentavam, mentalmente, descobrir sua idade. – E esse troço aí? Com que rapidez conseguem trazer isso para cá? – ela perguntou, direcionando a atenção deles de volta para a tela do sonar. – Acho que vamos marcar o local com uma boia e dar mais uma examinada no lago – respondeu Lorna, movendo-se para a lateral do bote e preparando uma pequena boia alaranjada com um peso amarrado a uma linha. Ela jogou o peso, que rapidamente desapareceu dentro da água profunda e escura, restando apenas a cordinha fina pendurada na beirada. Deixaram a boia flutuando, o Agente Barker ligou o motor de popa e eles recomeçaram a se movimentar pela água. Pouco mais de uma hora depois, eles já haviam feito a cobertura de toda a superfície da pedreira e identificado três possíveis anomalias. Erika e John tinham desembarcado para se aquecer. Estava começando a escurecer naquele dia do final de outubro e eles reuniram-se ao lado do caminhão da equipe de mergulho, servindo-se de copos de isopor cheios de chá enquanto observavam a equipe trabalhar. Lorna estava na margem, segurando uma das extremidades de uma pesada corda chamada vergueiro. A corda entrava na água, percorria o fundo da pedreira, voltava à superfície e estendia-se seis metros depois 14


da margem. O barco encontrava-se ancorado ao lado da primeira boia indicadora e o Agente Barker estava a bordo, cuidando para que a outra ponta do vergueiro permanecesse esticada. Tinham se passado 10 minutos desde que dois mergulhadores entraram na água. Eles começaram nas pontas opostas do vergueiro e seguiram fazendo a busca no fundo da pedreira até se encontrarem no meio. Ao lado de Lorna, outro membro da equipe de mergulho estava agachado próximo a uma unidade de comunicação do tamanho de uma maleta. Erika ouvia as vozes dos mergulhadores que se comunicavam pelos rádios em suas máscaras de mergulho. – Visibilidade zero, nada ainda... Devemos estar quase nos encontrando no meio... – foi o que informou uma vozinha pelo rádio. Erika deu um trago nervoso no cigarro eletrônico e a luz vermelha na ponta brilhou. Ela soltou uma baforada de vapor branco. Já fazia três anos que ela tinha sido transferida para a delegacia de Bromley, mas ainda tentava encontrar seu lugar e se encaixar na nova equipe. Ficava a apenas alguns quilômetros de Lewisham, a antiga região onde havia trabalhado, em South London, porém ainda estava se acostumando com a enorme diferença que alguns quilômetros podem fazer entre os arredores de Londres e a fronteira com o condado de Kent. Ele tinha uma atmosfera de cidadezinha do interior. Erika levantou o rosto e olhou para John, que estava a 20 metros, falando ao telefone, e sorrindo enquanto conversava. Sempre que tinha a oportunidade, ligava para a namorada. Um momento depois, ele finalizou a ligação e se aproximou. – Os mergulhadores ainda estão procurando? Erika fez que sim antes de dizer: – Nenhuma notícia é melhor do que notícia ruim... Mas se eu tiver que soltar aquele merdinha... O merdinha em questão era Jason Tyler, um traficante sem muita importância que tinha ascendido rapidamente e agora controlava a rede do tráfico que cobria a região de fronteira entre South London e Kent. – Mantenha a corda esticada, está ficando frouxa... – ressoou a voz do mergulhador pelo rádio. – Chefe? – John chamou, meio sem jeito. – Oi? – Era a minha namorada, Monica, no telefone... Ela... nós, queríamos convidar você para jantar. 15


Erika o encarou, mantendo um olho em Lorna, que puxou o vergueiro para esticá-lo um pouco mais. – O quê? – perguntou ela. – Falei muito de você para a Monica... Só coisa boa, é claro. Desde que começamos a trabalhar juntos, aprendi uma porrada de coisa; você fez o trabalho ficar muito mais interessante. Me fez querer ser um detetive melhor... Enfim, Monica ia adorar fazer a lasanha dela para você. É muito boa. E não estou falando isso só por que ela é minha namorada. É boa mesmo... – a voz dele minguou. Erika estava olhando fixamente para o espaço de 20 metros entre Lorna, na margem, e o barco na água. Escurecia rapidamente. Ela acreditava que os mergulhadores deviam estar prestes a se encontrar no meio e isso, caso acontecesse, significaria que não encontraram nada. – Então, o que me diz, chefe? – John, estamos bem no meio de um caso grande – ela o repreendeu. – Não precisa ser hoje à noite. Algum dia. A Monica ia adorar te conhecer. E se você quiser convidar alguma outra pessoa, tudo bem. Existe um Sr. Foster? Erika se virou para ele. A detetive sabia que vinham fazendo fofoca sobre ela na força policial nos últimos anos, então ficou surpresa por John não saber. Ela já ia responder, mas foi interrompida por um grito emitido pela equipe de apoio na beira da água. Eles se apressaram na direção de Lorna e do policial que estava agachado ao lado da unidade de comunicação. Ouviram um dos mergulhadores dizer: – Tem alguma coisa embrulhada debaixo da lama... Preciso de ajuda se tiver que tirá-la daqui... Como estou de tempo? – perguntou a vozinha antes de ser cortada pelo ar frio, e houve uma interferência, que Erika percebeu ser causada pelas bolhas que saíram do respirador quando o policial respondeu ao mergulhador que estava a nove metros de profundidade. Lorna virou-se para Erika: – Acho que encontramos.

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