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A gangue dos sonhos

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LUCA DI FULVIO

A gangue sonhos dos

ROMANCE


LUCA DI FULVIO

A gangue sonhos dos

ROMANCE

TRADUÇÃO

REGINALDO FRANCISCO


Copyright © 2011 Bastei Lübbe AG Copyright da tradução © 2019 Editora Vestígio

Título original: La gang dei sogni

Todos os direitos reservados pela Editora Vestígio. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

editor responsável

revisão

Arnaud Vin

Eduardo Soares

editor assistente

capa

Eduardo Soares

Diogo Droschi (sobre imagem de Bert Hardy / Stringer / Getty Images)

assistente editorial diagramação

Pedro Pinheiro

Larissa Carvalho Mazzoni

preparação

Sonia Junqueira

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil

Di Fulvio, Luca A gangue dos sonhos / Luca Di Fulvio ; tradução Reginaldo Francisco. -- 1. ed. -- São Paulo : Vestígio, 2019. Título original: La gang dei sogni. ISBN 978-85-54126-27-8 1. Estados Unidos - Emigração e imigração 2. Ficção italiana 3. Gangues - Nova York I. Francisco, Reginaldo II. Título. 19-24789

CDD-853

Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura italiana 853 Iolanda Rodrigues Biode - Bibliotecária - CRB-8/10014

A VESTÍGIO É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA São Paulo Av. Paulista, 2.073 . Conjunto Nacional Horsa I . 23º andar . Conj. 2310-2312 Cerqueira César . 01311-940 . São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468

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PRÓLOGO


1 Aspromonte, 1906-1907

no começo, eram dois vendo-a crescer. A mãe e o patrão. Uma com apreensão, o outro com sua luxúria indolente. Porém, antes que virasse mulher, a mãe tinha achado um jeito para que o patrão não olhasse mais para ela. Quando a menina tinha 12 anos, a mãe extraiu um suco denso das sementes de papoula, como tinha aprendido com as mais velhas. Fez a menina beber o suco e, quando a viu tonta, cambaleando, colocou-a no ombro, atravessou a estrada poeirenta que passava diante do barraco onde moravam – dentro das terras do patrão – e chegou a um leito seco de rio onde sabia que havia um velho carvalho morto. Quebrou um galho grosso, rasgou a roupa da menina, bateu com uma pedra pontiaguda na sua testa – onde sabia que sairia muito sangue –, estendeu-a com cuidado, numa posição desajeitada, no fundo do leito seco do rio – como se tivesse rolado pela escarpa, caindo da árvore morta – e deixou-a lá, colocando em cima dela o galho que havia quebrado. Em seguida, voltou para o barraco, esperou os homens voltarem do campo enquanto cozinhava uma sopa de cebola com toicinho, e só então disse a um dos filhos homens para ir procurar Cetta, sua menina. Disse que a tinha visto ir brincar perto do carvalho morto e começou a reclamar, resmungando com o marido que aquela menina era uma maldição, que não parava quieta, que tinha o diabo no corpo e a cabeça vazia, que não podia lhe dar uma tarefa que no meio do caminho ela já tinha esquecido e que não servia para nada em casa. O marido a xingou, disse para calar a boca e saiu para fumar. E ela – enquanto o filho atravessava a estrada em direção ao carvalho morto – voltou para a cozinha e continuou mexendo a sopa de cebola com toicinho no caldeirão, o coração pulando no peito. 13


Enquanto esperava, escutou, como toda tarde, o carro do patrão passando em frente ao barraco e buzinando duas vezes – porque, como ele dizia, as meninas gostavam muito. E de fato Cetta, toda tarde, ainda que havia mais de um ano a mãe a tivesse proibido de sair de casa para cumprimentar o patrão, atraída por aquele som, aproximava-se da janela e espiava para fora. E ela, a mãe, podia ouvir a risada do patrão se perdendo na poeira levantada pelo carro. Porque Cetta – todos diziam, mas o patrão com frequência demais – era mesmo uma menina bonita e certamente viraria uma bela moçona. Quando ouviu o filho que tinha ido em busca de Cetta voltar gritando, de longe, a mãe não parou de mexer a sopa de cebola com toicinho. Mas a respiração ficou presa na garganta. E ouviu o filho falando com o pai. E ouviu os passos pesados do pai descendo os três degraus de madeira já pretos como carvão. E só depois de vários minutos ouviu o marido berrando seu nome e o da filha. Então a mãe deixou a sopa no fogo e finalmente correu para fora. O marido carregava no braço a pequena Cetta, com o rosto sujo de sangue, as roupas rasgadas, largada como um farrapo de pano nas mãos calejadas do velho pai. – Escute, Cetta – disse à filha no dia seguinte, depois que todos tinham ido trabalhar no campo. – Você já está ficando grande e pode entender bem quando falo com você, assim como pode entender bem, olhando nos meus olhos, que eu sou capaz de fazer o que vou te falar agora. Se não seguir à risca as minhas ordens, eu te mato com estas mãos. – Em seguida, pegou uma corda e amarrou no ombro esquerdo da filha. – Levanta – ordenou, e esticou a corda até a virilha, de modo que a menina era forçada a ficar curvada, e amarrou-a na coxa esquerda. – Isso vai ser um segredo só meu e seu – disse. Depois, pegou de uma gaveta um vestidinho largo, de flores desbotadas, que tinha costurado com uma peça de retalho velho, e enfiou na menina. O vestido cobria com perfeição a corda. E era para isso que a mãe o tinha planejado e costurado. – Você vai dizer que a queda te aleijou. Pra todo mundo, até pros seus irmãos – explicou. – Vai ficar com esta corda por um mês, pra se acostumar, depois eu desamarro, mas você vai continuar andando como se ainda estivesse com ela. Se não fizer isso, primeiro vou amarrar de volta, e 14


depois, se experimentar andar reta de novo, eu te mato com estas mãos. E quando o patrão passar aqui em frente à tarde com o carrão dele e buzinar, você vai correr pra cumprimentar. Aliás, já vai esperar lá fora, na estrada, pra ele te ver bem. Entendeu o que eu disse? A menina assentiu. Então a mãe pegou o rosto da filha entre as mãos ossudas e ressequidas e olhou-a com amor e uma desesperada determinação. – Na sua barriga não vai crescer um bastardo – disse. Antes do outono, o patrão parou de buzinar quando passava em frente ao barraco, resignado com a ideia de que Cetta estivesse aleijada para sempre. E quando o inverno estava à porta, mudou até mesmo o caminho. Perto do verão, a mãe disse à filha que podia começar a sarar. Devagar, para não levantar suspeitas. Cetta tinha 13 anos e tinha se desenvolvido. Mas aquele ano passado como aleijada um pouco a tinha aleijado. E nunca mais conseguiu, mesmo adulta, andar realmente ereta. Aprendeu a camuflar o defeito, mas não se endireitou mais. O seio esquerdo era um pouco menor que o direito, o ombro esquerdo um pouco mais caído que o direito, a coxa esquerda um pouco mais atarracada que a direita. E a perna toda que, ao longo daquele ano, ela tinha arrastado sob o ombro também tinha se enrijecido, ou os tendões tinham se endurecido, de modo que a garota parecia um pouco coxa.

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2 Aspromonte, 1906-1907

depois que a mãe tinha dito à filha que podia começar a se curar da falsa doença, Cetta tinha tentado se endireitar. Mas às vezes a perna esquerda adormecia ou parava de obedecer. E para acordá-la ou fazê-la obedecer de novo, só restava a Cetta voltar a dobrar o ombro que a corda da mãe tinha deixado caído. E então, naquela posição de aleijada, era como se a perna lembrasse seu dever e não precisava mais ser arrastada. Naquele dia, Cetta estava no campo colhendo trigo. Com ela, a pouca distância – uns mais à frente, outros mais atrás – estavam a mãe, o pai e os irmãos, de cabelos escuros como os seus. E também aquele outro meio-irmão, que era quase loiro, filho da sua mãe e do patrão. Aquele meio-irmão ao qual nem a mãe nem o pai tinham jamais dado um nome e que todos, em família, chamavam simplesmente de “o outro”. – Na sua barriga não vai crescer um bastardo – tinha-lhe repetido a mãe aquele ano inteiro. Tinha-a deixado meio aleijada para que o patrão tirasse os olhos de cima dela. E pelo menos o patrão tinha ido fuçar em outro lugar. Cetta estava suada. E cansada. Usava um vestido comprido com alcinhas. A perna esquerda afundava na terra mesquinha, queimada pelo sol. Quando viu o patrão mostrando suas terras para um grupo de amigos, não deu importância. Sentia-se segura agora. O patrão caminhava gesticulando. Talvez contasse quantos lavradores trabalhavam para ele, pensou Cetta, e parou com uma mão na cintura, olhando para o grupo. Lá estava a terceira mulher do patrão, com um chapéu de palha na cabeça e um vestido de um azul que Cetta nunca tinha visto nem no céu. E, com ela, outras duas mulheres, provavelmente esposas dos homens que conversavam com o patrão. Uma era jovem e bonita, a outra era gorda e não dava para saber quantos anos tinha. Os dois homens eram tão diferentes um do outro quanto o 16


eram suas mulheres. Um era jovem e magro, comprido e fraco como o caule do trigo quando se dobra sob o peso da espiga madura. O outro era um homem de meia-idade, com bigodes grandes, costeletas densas fora de moda e cabelos cor de palha. Tinha ombros largos e um peito parrudo e imponente, como um velho boxeador. Apoiava-se num bastão. E do joelho direito saía outro pedaço de madeira. Uma perna postiça. – Trabalha, aleijada! – gritou o patrão, ao perceber que Cetta olhava para eles, depois se virou para os dois homens e riu com eles. Cetta se encurvou e, arrastando a perna que tinha adormecido, voltou a caminhar na sua fileira de trigo. Depois de alguns passos, virou-se de novo na direção do patrão e percebeu que o homem da perna de pau estava parado, separado dos outros, olhando para ela. Passado algum tempo, Cetta viu-se tão perto do grupo que conseguia escutar do que falavam. E ela também – mas, ao contrário deles, sabendo do que se tratava – ouvia aquela batida ritmada que os estava deixando curiosos. Espiando com o canto dos olhos, viu os homens afastando o trigo cortado e rindo, ao perceber o que provocava aquele som tão particular. As mulheres, que tinham acudido à cena, fingiram embaraço, sufocaram uns risinhos maliciosos com as mãos cobertas com luvas de renda branca. Depois todos se afastaram novamente, porque já era quase hora do almoço. Só o homem da perna de pau tinha ficado olhando. Encarava as duas tartarugas que se acasalavam, com os pescocinhos enrugados esticados no ar e as carapaças batendo uma na outra e produzindo aquele toc toc toc ritmado. O homem da perna de pau olhava os dois animais, depois encarava Cetta e sua perna coxa, depois baixava o olhar para a própria perna artificial. Cetta notou que ele tinha uma pata de coelho pendurada no colete. Num instante o homem saltou em cima de Cetta, derrubou-a no chão, levantou sua saia, arrancou a calcinha de algodão e, imaginando sua perna de pau batendo contra a perna defeituosa da camponesa – enquanto a gorda gritava o nome do marido pelos campos de trigo porque já estava com pressa de comer; enquanto a mãe e o pai e os irmãos morenos de Cetta, e também “o outro”, aquele menos moreno, continuavam o trabalho, a poucos passos das duas tartarugas que se acasalavam –, agarrou-a com avidez, mostrando-lhe o que fazem um homem e uma mulher quando querem imitar os animais. Depois que a mãe tinha dito à filha para começar a sarar, lentamente, para não levantar suspeitas, Cetta tinha precisado acertar as contas com 17


aquele ano passado como aleijada. E quando, depois do acasalamento das tartarugas, com quase 14 anos, se viu grávida, até mesmo a barriga ia inchando mais para a esquerda que para a direita, como se pendesse para aquele lado inutilmente aleijado. O menino nasceu extraordinariamente loiro. Podia-se pensar que era filho de normando, não fossem aqueles olhos pretos como piche, lânguidos e profundos, que loiro nenhum poderia esperar ter. – Ele vai ter um nome – disse Cetta ao pai, à mãe, aos irmãos morenos e àquele que todos chamavam de “o outro”. E como, loiro daquele jeito, lembrava o Menino Jesus do presépio, Cetta deu ao filho o nome de Natale.

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