“
Ohlsson vai se juntar a Jo Nesbø nas listas de thrillers imperdíveis!
”
Booklist
INDESEJADAS S É R I E
F R E D R I K A
B E R G M A N
— V O L U M E
1
Kristina Ohlsson INDESEJADAS tradução de sérgio pereira couto
2a edição
Copyright © Kristina Ohlsson 2009 Publicado mediante acordo com a Salomonsson Agency Copyright da tradução © 2014 Editora Nemo/Vestígio
Título original: Askungar
Todos os direitos reservados pela Editora Nemo. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
gerente editorial
revisão
Arnaud Vin
Amanda Pavani Eduardo Soares
editor assistente
Eduardo Soares
capa e diagramação
Carol Oliveira
assistente editorial
Jim Anotsu revisão da tradução
Rogério Bettoni
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
Ohlsson, Kristina Indesejadas / Kristina Ohlsson ; tradução Sérgio Pereira Couto. -- 2. ed. -- São Paulo : Vestígio, 2017. Título original: Askungar ISBN 978-85-8286-391-6 1. Ficção policial e de mistério 2. Ficção sueca I. Título. 14-03146
CDD-839.73
Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção policial e de mistério : Literatura sueca 839.73
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Para Thelma
PARTE I Pistas falsas
SEGUNDA-FEIRA
Por alguma razão, toda vez que deixava os pensamentos soltos, ele se lembrava, mais cedo ou mais tarde, daquele prontuário – o que geralmente acontecia à noite. Ele estava deitado na cama, imóvel, olhando para o teto, onde uma mosca se movia. Nunca teve uma relação muito boa com o escuro e o repouso. Era como se fosse subtraído de suas defesas no momento em que o sol desaparecia e a fadiga e a escuridão viessem se arrastando e o abraçassem. O desamparo era algo totalmente contrário à sua natureza. Havia passado grande parte da vida se precavendo, se preparando. Apesar de anos de treinamento, achava extremamente difícil se preparar para dormir. A prontidão exigia vigília. Estava acostumado a ficar acordado e não se entregar ao cansaço que tomava conta de seu corpo quando se negava o descanso. Percebeu que já havia passado muito tempo desde a última vez que acordara durante a noite com o próprio choro. Havia passado muito tempo desde a última vez que as lembranças o magoaram e o despertaram. Nesse sentido, ele havia progredido bastante em sua tentativa de encontrar paz. Ainda assim. Se fechasse bem os olhos, e se tudo ao redor estivesse totalmente, totalmente quieto, ele a veria bem na sua frente, veria a silhueta corpulenta dela se sobressaindo do fundo sombrio e se aproximando dele. Devagar, devagar, do jeito que ela sempre andava. A lembrança do cheiro dela ainda lhe provocava náuseas. Carregado, doce e sujo. Impossível respirar. Como o aroma dos livros velhos na biblioteca. Ele ainda conseguia ouvir: “Seu teimoso inútil”, sibilava a voz. “Vagabundo imprestável”. Depois ela o agarrava e apertava com força. As palavras eram sempre seguidas pela dor e pela punição. Pelo fogo. A memória do fogo ainda estava lá, presente em algumas partes de seu corpo. Ele gostava de passar o dedo sobre a cicatriz e saber que tinha sobrevivido. Quando bem pequeno, achava que era punido porque fazia alguma coisa errada. Então tentava, seguindo sua lógica infantil, fazer tudo certo. Desesperado, obstinado. E, mesmo assim, tudo acabava dando errado. 11
Só entendeu melhor quando cresceu. Simplesmente não havia nada que fosse certo. Não eram apenas suas ações que estavam erradas e precisavam de punição, mas sim toda a sua essência e existência. Era punido por existir. Se ele não existisse, Ela jamais teria morrido. “Você nunca devia ter nascido!”, gritava ela na cara dele. “Você é mau, mau, mau!” O choro que se seguia, que sobrevinha ao fogo, tinha sempre de ser silencioso. Silencioso, silencioso, para que ela não ouvisse. Porque, se ouvisse, ela voltaria. Sempre voltava. Ele se lembrou de que ficou angustiado durante muito tempo por causa dessa acusação. Como poderia aceitar uma condição da qual era culpado, segundo o que ela dizia? Como poderia pagar pelo que fizera, ou compensar o próprio pecado? O prontuário. Tinha ido ao hospital onde Ela estava internada e lido o prontuário para ela. Principalmente para entender com mais clareza a gravidade de seu crime. Ele já era maior de idade nessa época. Maior de idade, mas eternamente em dívida, como resultado de suas más ações. O que encontrou no prontuário, no entanto, e de maneira totalmente imprevisível, fez com que deixasse de ser um devedor e se tornasse um homem livre. Com a libertação, veio a força e a reparação. Encontrou uma vida renovada, além de novas e importantes questões para responder. A pergunta não era mais como poderia recompensar outra pessoa. Agora se perguntava como ele mesmo seria recompensado. Deitado no escuro, ele abriu um leve sorriso e virou a cabeça de lado, olhando para a nova boneca que escolhera. Pensou – jamais teria certeza, mas pensou – que aquela duraria mais do que as outras. Ela não precisava lidar com o passado, como ele fizera. Ela só precisava de uma mão firme, da mão firme dele. E de muito, muito amor. Um amor especial, capaz de guiá-la. Afagou as costas dela com bastante cuidado. Por engano, ou talvez porque de fato não conseguia ver as lesões que havia provocado nela, sua mão passou bem em cima de uma das contusões mais recentes. A mancha, como um lago escurecido, adornava-lhe uma das omoplatas. Ela acordou de súbito e se virou para ele. Tinha os olhos vidrados de medo: nunca sabia o que a escuridão lhe guardava. – Está na hora, boneca. Já podemos começar. Seu rosto delicado se abriu num sorriso bonito e sonolento. – Começamos amanhã – sussurrou ele. E se deitou de costas de novo, fixando o olhar na mosca do teto. Desperto e alerta. Sem descanso. 12
TERÇA-FEIRA
A primeira criança desapareceu em meados daquele verão de chuvas ininterruptas. Tudo começou numa terça-feira, um dia estranho que poderia ter passado como outro qualquer, mas ficou marcado como aquele que mudaria profundamente a vida de muitas pessoas. Entre elas, Henry Lindgren. Era a terceira terça-feira de julho, e Henry cumpria um turno extra no trem expresso X2000, de Gotemburgo a Estocolmo. Ele trabalhava há tantos anos como fiscal da companhia ferroviária SJ que sequer se dava ao trabalho de imaginar o que seria dele quando chegasse o dia da aposentadoria compulsória. Sozinho do jeito que era, o que faria com tanto tempo só para si? Talvez tenha sido a percepção de Henry para os detalhes que o tenha feito posteriormente se lembrar tão bem da jovem mulher que perderia a filha naquela viagem. A jovem ruiva que usava uma blusa de linho verde e uma sandália aberta, revelando as unhas pintadas de azul. Se Henry e a esposa tivessem tido uma filha, provavelmente ela se pareceria com essa jovem – afinal, sua esposa era a mais ruiva das ruivas. A filhinha da jovem ruiva, no entanto, não se parecia em nada com a mãe, notou Henry ao conferir a passagem das duas logo que o trem deixou a estação de Gotemburgo. Os cabelos da menina eram de um castanho bem escuro e formavam ondas leves, quase artificiais, que quebravam suavemente sobre seus ombros e caíam para a frente, enquadrando o rosto. Sua pele era mais escura que a da mãe, mas os olhos eram grandes e azuis. Pequenas sardas se amontoavam no alto do nariz, tornando seu rosto menos parecido com o de uma boneca. Henry sorriu quando passou por ela, e recebeu de volta um sorriso tímido. Para Henry, a menina parecia cansada. Ela virou o rosto e olhou pela janela. – Lilian, tire os sapatos se quiser colocar os pés no banco. – Henry ouviu a mulher dizer enquanto se virava para conferir o bilhete de outro passageiro. 15
Quando olhou de novo para elas, a menina já havia tirado as sandálias roxas e encolhido as pernas, sentando-se sobre elas. As sandálias continuaram no chão depois que ela desapareceu. A viagem de Gotemburgo a Estocolmo foi tumultuada. Muita gente havia viajado para a segunda maior cidade da Suécia para assistir à apresentação de um grande artista no Estádio Ullevi. Agora, na manhã seguinte, elas voltavam no trem em que Henry trabalhava. Primeiro, Henry teve problemas no vagão cinco, onde dois rapazes vomitaram no banco: estavam de ressaca por causa da noitada anterior no Ullevi, e Henry teve de sair correndo para buscar produtos de limpeza e um pano úmido. Quase ao mesmo tempo, duas garotas mais novas começaram a brigar no vagão três: uma loira acusou uma morena de tentar roubar seu namorado. Henry tentou em vão apaziguar a briga, e a viagem só voltou a ficar tranquila quando eles passaram por Skövde – os arruaceiros dormiram e Henry tomou uma xícara de café com Nellie, que trabalhava no vagãorestaurante. Quando voltou, Henry percebeu que a moça ruiva e sua filha, Lilian, também dormiam. A partir daí, a viagem continuou sem incidentes até quase chegar a Estocolmo. O auxiliar Arvid Melin anunciou que o trem já estava próximo de Flemingsberg, a uns vinte quilômetros da capital. O maquinista havia sido avisado sobre um problema de sinalização no último trecho para a Estação Central de Estocolmo, então eles chegariam com uns cinco ou dez minutos de atraso. Enquanto esperavam em Flemingsberg, Henry percebeu que a moça ruiva havia saído rapidamente do trem, sozinha. Ele a observou discretamente pela janela do compartimento minúsculo no vagão seis, reservado para os ferroviários. Viu-a dando alguns passos firmes pela plataforma, até chegar do outro lado, onde havia menos gente. Ela tirou uma coisa da bolsa; seria um telefone celular? Henry imaginou que a criança estivesse dormindo no banco. Com certeza ela estava dormindo agora há pouco, quando o trem passou trovejando por Katrineholm. Henry suspirou. Que raios estava fazendo? Espionando mulheres atraentes? Desviou o olhar e começou a resolver um jogo de palavras cruzadas num exemplar da revista semanal Året Runt. Ele se perguntaria de vez em quando o que teria acontecido se tivesse continuado a observar aquela mulher na plataforma. Era inútil que tanta gente tentasse convencê-lo de que não tinha como saber de nada, ou tentasse convencê-lo de que ele não devia se martirizar. Henry estava e continuaria convicto de que sua ânsia de resolver o passatempo destruíra a vida de uma jovem mãe. Não havia nada que pudesse fazer para reverter as coisas. 16
Henry ainda estava de olho na revista quando ouviu a voz de Arvid no sistema de alto-falantes. Todos os passageiros deveriam voltar para seus lugares. O trem já estava pronto para seguir viagem até Estocolmo. Depois disso, ninguém se lembraria de ver uma mulher correndo atrás do trem. Mas ela deve tê-lo feito, porque, apenas alguns minutos depois, Henry recebeu uma chamada urgente na cabine. Uma jovem que estava sentada com a filha no banco seis, vagão dois, ficou para trás na plataforma de Flemingsberg quando o trem partiu de novo, e agora estava num táxi se dirigindo à Estação Central de Estocolmo. Sua filha estava sozinha no trem. – Que droga! – disse Henry quando desligou. Por que será que ele nunca conseguia delegar uma tarefa sequer sem que algo desse errado? Por que será que nunca tinha um momento de paz? Ninguém pensou em parar o trem numa estação intermediária, pois faltava pouco para o destino final. Henry saiu ligeiro para o vagão dois e percebeu que a mulher que perdeu o trem talvez fosse a ruiva que ele observou na plataforma, pois reconheceu a menina, que estava sentada sozinha. Falou pelo celular com a central e disse que a menina estava sozinha, mas que não havia necessidade de preocupá-la com as notícias da ausência da mãe antes do trem chegar a Estocolmo. Todos concordaram, e Henry prometeu cuidar pessoalmente da criança quando o trem parasse. Pessoalmente. Uma palavra que ficaria martelando em sua cabeça durante muito tempo. Assim que o trem passou pela estação Söder, ao sul de Estocolmo, as garotas no vagão três começaram a brigar e gritar de novo. Henry escutou o som do vidro se estilhaçando no momento em que a porta entre os vagões dois e três se abriu e um passageiro mudou de vagão. Teve de deixar a menina dormindo sozinha. Agitado, pegou o rádio e gritou para Arvid do outro lado da linha. – Arvid, venha agora para o vagão três! O colega não respondeu. O trem parou com seu ruído característico, parecido com a respiração pesada e ofegante de uma pessoa mais velha, antes que Henry conseguisse separar as duas jovens. – Piranha! – berrou a loira. – Sua puta! – respondeu a amiga. – Que comportamento horroroso – disse uma senhora mais velha que acabara de se levantar para pegar a mala no compartimento superior. Henry foi se esgueirando rapidamente entre as pessoas que começavam a fazer uma fila no corredor para descer do trem e gritou por cima dos ombros: – Façam o favor de sair do trem agora mesmo, as duas! 17
Já estava voltando para o vagão dois quando falou com elas. Desejou que a menina não tivesse acordado. Afinal de contas, ele não tinha se distanciado tanto. Henry foi abrindo caminho pelo corredor, trombando com diversas pessoas enquanto fazia o curto trajeto de volta, e era capaz de jurar que não havia saído dali por mais de três minutos. Contudo, a quantidade de minutos, por menor que fosse, não mudava nada. Quando chegou ao vagão dois, a menina que dormia não estava mais lá. As sandálias roxas ainda estavam no chão. E todas aquelas pessoas que viajaram sob a proteção de Henry Lindgren desde Gotemburgo até Estocolmo começaram a sair do trem.
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