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Constituição de 1988 ampliou o direito de todos à educação; no entanto, o dever do Estado não foi cumprido. Passamos
a ter um direito proclamado, mas não necessariamente efetivado. A proclamação já significou uma mudança nas políticas educacionais entre as diferentes esferas de governo. O direito passou a ser conquistado na prática das ações desenvolvidas principalmente por iniciativas do poder local. Na ocasião, propostas de educação
LEIA TAMBÉM, DA COLEÇÃO ESTUDOS EM EJA
de jovens e adultos (EJA) foram implementadas por prefeituras
ALFABETIZAR LETRANDO NA EJA – FUNDAMENTOS TEÓRICOS E PROPOSTAS DIDÁTICAS Telma Ferraz Leal, Eliana Borges Correia de Albuquerque, Artur Gomes de Morais (Orgs.)
dos jovens e dos adultos à educação, contribuindo para o processo
DIÁLOGOS NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS Leôncio Soares, Maria Amélia Giovanetti, Nilma Lino Gomes (Orgs.)
consideradas do campo democrático que reconheciam o direito de configuração das políticas direcionadas a esse público. Era o momento de compreender quais elementos e matrizes estavam orientando as políticas emergentes de EJA nos municípios. Ganham expressão, nesse momento, os sujeitos como portadores de direitos.”
EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS O QUE REVELAM AS PESQUISAS Leôncio Soares (Org.) EDUCAÇÃO E SEUS ATORES EXPERIÊNCIAS, SENTIDOS E IDENTIDADES Geraldo Leão, Isabel de Oliveira e Silva SUJEITOS DA EDUCAÇÃO E PROCESSOS DE SOCIABILIDADE – OS SENTIDOS DA EXPERIÊNCIA Leôncio Soares, Isabel de Oliveira e Silva (Orgs.) Mais livros no site www.grupoautentica.com.br
TRAJETÓRIAS COMPARTILHADAS DE UM EDUCADOR DE JOVENS E ADULTOS
Professor titular da Universidade Federal de Minas Gerais. Graduado em Letras (1981), mestre em Educação pela mesma universidade e doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (1995). Foi professor visitante na Universidade Federal de Pernambuco em 2002-2003. Realizou pós-doutorado na Universidade Federal Fluminense em 2006 e na Northern Illinois University, EUA, em 2012 e 2013. Pesquisa e publica na área de Educação, com ênfase em Educação de Jovens e Adultos, abordando a política educacional, a formação docente, a escolarização de jovens e adultos e a história da educação.
ESTUDOS EM
ESTUDOS EM
LEÔNCIO SOARES
Leôncio Soares
TRAJETÓRIAS COMPARTILHADAS DE UM EDUCADOR DE JOVENS E ADULTOS
ISBN 978-85-513-0448-8
www.autenticaeditora.com.br
9 788551 304488
ESTUDOS EM
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O que é um memorial? O que significa voltar ao passado e dele selecionar acontecimentos, fatos, circunstâncias, impressões – numa palavra: memórias – para entendê-los à luz do presente? Magda Soares, em seu memorial Metamemória – memórias, apropria-se da bela figura do “risco do bordado”, de Autran Dourado, e a assume como mote para analisar sua travessia de uma educadora. É exatamente isto: quando o bordado está pronto, o “risco” que orientou sua composição não mais existe; é preciso redescobri-lo. Assim é a vida: para entendê-la, é preciso lembrar os acontecimentos, narrar os fatos, recordar as circunstâncias, tornar presentes as impressões. Fazer o “desenho” de como nos formamos, ou de como fomos formados. Tempo de infância, na família e na escola. Tempo da adolescência e da juventude, abrindose para o mundo da cultura, da religião, do trabalho e da política. Tempo de adulto, na via profissional. Tudo a seu tempo, misturado. Esta é a composição que Leôncio nos revela em seu memorial: sua trajetória individual, mas compartilhada. Muitos outros devem ter feito caminhos parecidos. Seu valor: rico exemplo de uma geração, situada e datada. A importante descoberta de um Brasil preso às amarras de uma feroz ditadura, pouco mediada pela escola, mais aberta na universidade, pelo que permitia para além do ensino. Corajosamente mediada pelas igrejas. Ricamente revelada pela música e pelo teatro de protesto. Sua vida profissional se fez por um processo de descobertas coerente ao logo do tempo. Sua contribuição é significativa, principalmente por ter ocorrido em uma área pouco valorizada: a educação de jovens e adultos, nela compreendida a formação de seus futuros profissionais.
Osmar Fávero
Professor emérito de Educação da UFF
Coleção Estudos em EJA
Leôncio Soares
TRAJETÓRIAS COMPARTILHADAS DE UM EDUCADOR DE JOVENS E ADULTOS
Copyright © 2019 Leôncio Soares Copyright © 2019 Autêntica Editora
Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
coordenador da coleção estudos em eja
capa
Leôncio Soares
Alberto Bittencourt (Sobre ilustração de Angga Dwi Iriyanto/Shutterstock)
editoras responsáveis
Rejane Dias
diagramação
Cecília Martins
Larissa Carvalho Mazzoni
revisão
Samira Vilela
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Soares, Leôncio Trajetórias compartilhadas de um educador de jovens e adultos / Leôncio Soares -- Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2019 -- (Coleção Estudos em EJA). Bibliografia. ISBN 978-85-513-0448-8 1. Educação de Jovens e Adultos 2. Educadores - Brasil 3. Ensino Pesquisa 4. Pesquisa educacional 5. Professores - Formação 6. Sociologia educacional I. Título. II. Série. 18-21832
CDD-374.007
Índices para catálogo sistemático: 1. Educação de jovens e adultos : Formação de professores 374.007 Maria Paula C. Riyuzo - Bibliotecária - CRB-8/7639
Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465 4500
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Prefácio
A ideia de publicar este texto surgiu durante a escrita do memorial que apresentei como requisito ao concurso de professor titular na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais. O retorno de alguns colegas1 que haviam lido os rascunhos me incentivou a pensar em uma publicação após o ritual da defesa. Entre outros comentários, diziam do significado que poderia ter para a leitura dos estudantes universitários na medida em que a escolha pela educação acontece em meio ao preparo acadêmico na universidade associado à participação social. Mergulhei fundo no que havia vivido na juventude. A sessão de defesa foi um instigante momento de trabalho, e procurei incorporar ao texto comentários e sugestões apresentadas Agradeço aos colegas que tiveram a disponibilidade e o cuidado ao ler o texto do memorial em construção e que, com isso, me despertaram para a concretização deste livro: Ana Maria de Oliveira Galvão, Artur Morais, Marcus Taborda e Fernanda Rodrigues Silva.
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pelos membros da banca.2 Outro fator que contribuiu para essa decisão foi a procura contínua, por parte de colegas do ensino superior, por textos apresentados em sessões de defesa de professor titular. Desde 2013, a carreira dos docentes nas instituições de ensino superior passou a estimular o acesso à classe de professor titular e, com isso, cresceu o interesse pela leitura de textos em formato de memorial para fins de promoção. Um terceiro aspecto se refere ao modo como a minha trajetória se mescla com a construção do campo da educação de jovens e adultos no Brasil nas últimas décadas.
Meus agradecimentos aos professores Osmar Fávero, Miguel Arroyo, Eliane Dayse Furtado e Bruno Pucci, pela leitura cuidadosa e pelo diálogo estabelecido durante a apresentação do memorial.
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Introdução
Escrever este texto foi uma experiência prazerosa de revisitar o passado até aqui. Inicialmente, de forma cronológica, evoquei os momentos mais significativos que vinham à mente segundo os ciclos da vida: infância, juventude e vida adulta. Em seguida, buscando fazer uma anamnese, procurei escarafunchar a memória para encontrar aquilo que se encontrava arquivado no pensamento. Tive García Márquez como um dos grandes inspiradores para que este inventário fosse aqui registrado. Ao escrever Viver para contar (2003), ele selecionou acontecimentos, pessoas e lugares que, ao serem narrados, foram construindo o enredo de sua vida. Em certa passagem do livro, o autor descreve uma viagem de ônibus na qual esteve conversando por cerca de duas horas com um jovem. Quando o jovem desceu, como em uma descoberta inusitada, García Márquez nos conta surpreso que, na conversa travada com o rapaz, contou-lhe várias experiências vividas ao longo dos anos, e que aquele, ao contrário, falou-lhe dos muitos projetos que tinha em mente para serem vividos. 9
Trajetórias compartilhadas de um educador de jovens e adultos
Ao escriturar este inventário, ao exercitar a seleção dos fatos analisando os vestígios e os rastros de minha história, desenhei uma cartologia que é uma produção de mim. Provavelmente, ao fazer uma reminiscência e me deparar com acontecimentos que estavam esquecidos no fundo do baú, devo ter feito escolhas que justifiquem o porquê de ter trazido alguns à baila e mantido outros no esquecimento. A opção por escrever este texto advém do interesse em (re)visitar o caminho trilhado observando os elementos teórico-metodológicos que foram emergindo no percurso, particularmente em relação ao campo de conhecimento em que tenho construído a minha trajetória: a Educação de Jovens e Adultos (EJA). Foi objetivo do memorial, nesse sentido, perceber quais conceitos foram ressignificados e quais passos foram se redefinindo. Há certa tendência – por parte de alguns pesquisadores – de fazer uma reflexão sobre sua produção, uma pausa para pensar a respeito do que já se fez. Cito aqui as publicações Metamemória (2001), de Magda Soares; Itinerário de leitura de um sociólogo da educação (1991), de André Petitat; e A educação popular na escola cidadã (2002), de Carlos Brandão, nas quais os autores se dedicaram ao exercício do “pensar sobre” o que escreveram. Florestan Fernandes (1977) também é uma inspiração por sua trajetória de vida. Por isso o interesse em ver novamente, em revisitar o que se fez, observando o que se passava ao lado na história. Espero que a (re)construção dessa trajetória possa contribuir, de algum modo, para os estudos do registro e da memória da constituição do campo da EJA no Brasil. Organizei o texto em cinco partes. Primeiramente reconstruo os primeiros anos de minha formação, destacando as instâncias mais significativas nesse processo, como a escola e a cidade. Depois focalizo outros espaços formativos, como os movimentos sociais, os grupos da Igreja Católica, as produções culturais da época, os cursos de graduação, mestrado, 10
Introdução
doutorado e as primeiras experiências profissionais, particularmente na área de educação e na EJA. A seguir, dedico-me à análise de minha atuação como professor e pesquisador na UFMG, inicialmente na educação básica e, mais tarde, na graduação e na pós-graduação. Posteriormente, relato a minha atuação em outras universidades, nas condições de professor visitante e de pós-doutorando. Por fim, revisito elementos de minha trajetória que julgo importantes no próprio processo de configuração do campo da EJA no Brasil. Procurei desenvolver neste texto as minhas trajetórias pessoal e acadêmica, nas quais fui me constituindo professor e pesquisador. Muitas vezes, essas trajetórias estão entrelaçadas aos contextos social, econômico, político e cultural do país e ao próprio processo de constituição da EJA. Dado o longo período, optei por um desenho cronológico, com pausas para aprofundamentos nas etapas que considerei mais relevantes.
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Os primeiros anos de socialização/ formação: escola e cidade
Faço parte da geração que viveu a juventude em um momento em que a sociedade foi silenciada pela ditadura militar. Festejei, nas ruas, o tricampeonato mundial de futebol, conquistado no México, sem ter muita noção do que se passava nos bastidores da política no Brasil. Cantava sem ter noção – Eu te amo meu Brasil, eu te amo, meu coração é verde, amarelo, branco, azul-anil.3 Só quando li O que é isso, companheiro? (1979),4 de Fernando Gabeira, pude compreender que, enquanto uns se divertiam, outros eram barbaramente torturados nos quartéis. Lembro-me muito bem quando, em um clube esportivo, ouvi pela primeira vez “Pra não dizer que não falei das flores”,5 de
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A música “Eu te amo, meu Brasil”, composta por Dom & Ravel e gravada pelo conjunto Os Incríveis, tinha o tom ufanista e foi muito utilizada pelo governo militar em eventos cívicos.
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O livro foi lançado em 1979; nele, Gabeira procurou compreender os sentidos de suas experiências.
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Lançada em 1968, a música teve sua execução proibida durante anos, após se tornar um hino de resistência do movimento civil e estudantil que fazia oposição à ditadura militar. 13
Trajetórias compartilhadas de um educador de jovens e adultos
Geraldo Vandré. Estava com minha turma de escola em uma quadra de esportes e, ao nosso lado, uns rapazes mais velhos passavam, de ouvido a ouvido, um antigo gravador Philips com a música que fora proibida de tocar nas estações de rádio. Ficamos interessados em saber o que de tão misterioso eles escutavam de forma velada. A formação que eu tinha na escola não abordava temas sociais e, quando eles surgiam, eram para ressaltar a tranquilidade em que o país vivia. Recordo-me de uma aula de ciências em que um comboio do exército passou pela rua da escola, e o professor convidou-nos a olhar pela janela aquela demonstração de “tranquilidade”. Ele dizia que ocorrera uma revolução inédita, sem derramamento de sangue, e que o país seguia em paz. Anos mais tarde, li a narrativa do que se passou nos anos 1970 no livro Sangue de Coca-Cola (2004),6 de Roberto Drummond. Vivi momentos contraditórios na juventude. Cursei o antigo primário e o ginasial em uma mesma escola pública de São Paulo. Durante os oito anos de escolaridade, quase não tenho registro de ter tido minha curiosidade aguçada. Havia uma ausência generalizada de discussão e debates em sala, e o centro cívico existente na escola era para apresentação de rituais do calendário escolar. Lembro-me de estar submetido a uma disciplina rigorosa e da imagem do professor de educação física, que fazia questão de nos impor um comportamento exemplar com exercícios pesados em caso de insubordinação ou brincadeiras. Tive aulas de educação moral e cívica, cujo conteúdo era conhecer e aprender a cantar os hinos – como o Hino Nacional Brasileiro, o Hino da Independência, o Hino da Proclamação da República e o Hino da Bandeira. Problematizar as letras dos hinos, explorar alguma contradição entre o que 6
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Publicada em 2004, a obra apresenta um romance instigante que trata da realidade brasileira durante a ditadura militar, misturando realidade e ficção.
Os primeiros anos de socialização/formação: escola e cidade
se cantava e a realidade que vivíamos, foram processos que somente mais tarde eu iria aprender. Tenho em mente que, nos arredores onde eu morava, além do pequeno comércio conhecido tradicionalmente, formado por bazares, vendas, empórios, açougues, bares e padarias, havia salões de beleza, igrejas protestantes, cursos de datilografia e uma sala de curso supletivo. A curiosidade de entender o que se passava naquele espaço comercial pequeno, cheio de carteiras, com um quadro negro à frente e, na entrada, um biombo e cartazes com os dizeres do curso, e, principalmente a palavra escrita na placa – SUPLETIVO –, aguçava o meu interesse sobre de que ele se tratava. Era um tempo de negação do direito dos adultos à educação. Quem precisasse, desejasse ou se interessasse em continuar os estudos, teria de pagar por isso. Mal sabia eu que, bem mais tarde, iria me dedicar a trabalhar exatamente com aqueles sujeitos que, tendo interrompido ou sendo excluídos dos estudos na juventude, voltavam às escolas em busca de conhecimento e escolarização. Dos oito anos de escolaridade, uma experiência me marcou muito. Tínhamos o professor de educação artística, Luiz Carlos, que propunha experiências diferenciadas em suas aulas. Alguns colegas eram indiferentes e até reclamavam das propostas desafiadoras que ele fazia. Outros achavam aquela aula distinta das demais, pois éramos levados a experimentar, a ousar, a criar sem ter de acompanhar o que os livros traziam. Em uma dessas aulas, fomos trabalhar com folha de papel almaço, tinta nanquim e água. A atividade consistia em fazer qualquer desenho na folha utilizando o nanquim e, em seguida, molhála com água. À medida que a água ia se espalhando na folha, o desenho ia sendo alterado a ponto de ganhar novas formas diferentes da ideia original. Para alguns, isso não fazia o menor sentido, não passava de uma tarefa com certa bagunça na sala. Para outros, o fato de o desenho proporcionar o surgimento 15
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de novas imagens, outras formas, muitas delas abstratas, produzia uma sensação ainda não vivida de criação original, sem ser copiada. O professor Luiz Carlos propôs a um grupo frequentar um curso de Artes em uma reconhecida escola paulista, a Fundação Armando Álvares Penteado (Faap),7 onde ele também lecionava. Por que essa experiência marcou profundamente a minha adolescência? Éramos estudantes de uma escola pública em um bairro distante, na zona norte de São Paulo, e ter que se deslocar uma vez por semana para uma região do outro lado da cidade, em um bairro de classes média e média alta, como é o Pacaembu, já seria uma aventura social. Eram visíveis as marcas que carregávamos pela nossa origem de classe popular. Não tenho lembranças de ter vivido situações de preconceito, mas muito provavelmente elas ocorreram. O curso era diferente de tudo que eu já havia experienciado. No início de cada sessão era apresentada uma proposta de arte a ser trabalhada. O curso previa atividades distintas em cada uma das sessões, que eram ministradas por diferentes professores. Recordo-me do cuidado que alguns tinham de saber se todos os alunos haviam entendido o que era para fazer. Em seguida, sempre em grupo, pegávamos o material de artes que estava disponível com certa fartura e trabalhávamos a ideia a ser apresentada. Lembro-me das diferenças que havia entre nossas roupas, nossa linguagem, o modo de estar naquele ambiente e a liberdade para falar, sugerir, discordar e discutir cada trabalho. Nosso grupo era mais tímido, mais calado, menos ousado, mais “obediente”, “comportado” – afinal, estávamos em terras alheias. Somente mais tarde fui entender os contrastes sociais que ali estavam presentes. É uma instituição paulista renomada, de caráter filantrópico, fundada em 1947, que investe em cultura por meio do Museu de Arte Brasileira, do Teatro e da Biblioteca.
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O ponto que mais me marcou foi a experiência de, após cada apresentação, o grupo ter de avaliar o próprio trabalho. Aquela foi uma novidade muito grande para nós que, até então, só tínhamos a experiência de sermos avaliados por nossos professores. Os docentes da Faap perguntavam se tínhamos conseguido atingir o que havíamos pensado durante a elaboração do trabalho ou se alteraríamos/acrescentaríamos algo depois de apresentado. Sem ter muita noção naquele momento, fui compreender mais tarde que, talvez, aquela tenha sido minha primeira experiência de pensar, refletir sobre a prática, avaliá-la e refazê-la se necessário ou desejado. Posteriormente fui entender que ali estavam expostos alguns ingredientes que auxiliariam na passagem da consciência ingênua para a consciência crítica, conceitualmente desenvolvida por Paulo Freire (1979). Ao escrever este texto quero homenagear, em nome do professor Luiz Carlos – que não tenho ideia de por onde anda –, todos aqueles e aquelas que, no exercício do magistério, contribuíram para despertar a curiosidade, o senso crítico, o experimentar e o ousar durante nossos anos de escola básica em pleno regime ditatorial. Vejo que foi em uma experiência fora da escola onde eu estudava, diferente dos conteúdos escolares tradicionais, como o ensino da língua, da matemática, das ciências naturais, da geografia e da história, que senti minha criatividade sendo aguçada para pensar, sentir e fazer além da realidade que se fazia presente. Nesse período, participei do surgimento dos movimentos de jovens na igreja católica. No entanto, a linha seguida na paróquia que eu frequentava não se diferenciava do ambiente da escola. A experiência na igreja possibilitou encontros, jogos e horas dançantes no espaço disponibilizado para a juventude do bairro. Somente alguns anos mais tarde eu conheceria e me tornaria participante ativo de uma igreja que, identificada à teologia da libertação, fez, no contexto da América Latina, a 17
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“opção preferencial pelos pobres”, como desenvolverei em outro momento deste texto. Vivenciar tudo isso em um período de transição, tanto físico − como a passagem da minha adolescência − quanto político e educacional – a busca pela liberdade de pensar, falar e se posicionar nos “anos de chumbo”, que reverberavam no sistema educacional através da obediência às regras do silêncio e do ensino de conteúdos escolares tradicionais que, muitas vezes, obrigava-nos a decorar matérias sem o seu real entendimento –, proporcionou-me o desejo, na juventude e na fase adulta, de democratizar a educação. Para isso, me vali posteriormente dos recursos propiciados pelo fim da ditadura por meio de uma política democrática que, com o término da censura, ampliou e favoreceu o acesso à educação de qualidade para a população.
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