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Inventamos ou erramos

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Coleção Educação: Experiência e Sentido

Simón Rodríguez

Coordenadores: Jorge Larrosa e Walter Kohan

No Brasil, Simón Rodríguez é um ilustre desconhecido. Suas obras não foram traduzidas para o português e têm sido muito pouco lidas nestas terras. Em certo sentido, não parece um dado menos importante que, nas paragens de Paulo Freire, Simón Rodríguez – que deu um sustento filosófico notável à educação popular no século XIX e talvez seja o primeiro idealizador e realizador de uma escola popular de verdade, absoluta, sem condições – quase não tenha sido lido no Brasil. Acreditamos que é necessário impulsionar essa leitura e confiamos que a tradução da antologia que apresentamos aqui seja um dos primeiros passos de um caminho muito mais extenso.

Mestre, andarilho, ímpar em sua maneira de viver e entender o mundo, Simón Rodríguez foi sobretudo um pensador original. Sua abundante produção está atravessada pela defesa da causa social: em vez de proclamar a liberdade e a igualdade de forma abstrata, ele as coloca como base para a transformação da economia e da organização social, criando, por meio da educação, os cidadãos das novas repúblicas.

ISBN 978-85-8217-862-1

9 788582 178621

www.autenticaeditora.com.br

Simón Rodríguez

Maximiliano Durán Walter Kohan

Inventamos ou erramos

Simón Rodríguez nasceu em Caracas em 1769. Órfão, foi criado pelo presbítero Carreño em sua casa. Em 1791, foi professor de ensino fundamental da escola municipal de Caracas. Em 1794 escreveu o relatório Reflexiones sobre el estado actual de la escuela de primeras letras. Em 1795, o texto foi rejeitado pelas autoridades da cidade e o professor apresentou a renúncia de seu cargo. Por aqueles dias Rodríguez iniciou uma viagem que durou mais de 25 anos pela América Central, do Norte e Europa, percorrendo Jamaica, Estados Unidos, França, Alemanha, Itália, Rússia e Inglaterra. Trabalhou como professor de ensino fundamental e fez amizade com Andrés Bello e Simón Bolívar. Em 1823, retornou à América para colaborar na causa da independência da coroa espanhola. Foi chamado por Bolívar e nomeado Ministro de Educação da nascente república da Bolívia. Nesse país criou um dos projetos mais originais e radicais de educação popular na América. Contudo, a escola de Rodríguez foi fechada, e o professor continuou viajando pelo Chile, Equador e Peru. Sempre trabalhou como professor e publicou diversos escritos. Esgotado e doente, morreu em 1854, na periferia do povoado do Amotape, no Peru.

O objeto do autor, tratando das Sociedades americanas, é a educação popular e por popular.... entende.... geral

Inventamos ou erramos

instruir não é educar Nem a Instrução pode ser equivalente à Educação Ainda que Instruindo se Eduque Como prova de que ao acumular conhecimentos, diferentes da arte de viver, nada se tem feito para formar a conduta social – veem-se os muitos sábios mal educados, que povoam o país das ciências. Um filólogo pode falar de estratégia com propriedade e não ser, por isso, soldado. Tampouco são meios de generalizar nem podem suprir os contínuos atos de publicação que se fazem ensinando em Escolas, Colégios e Universidades, nem os de divulgação que se fazem pela imprensa o que não é geral sem exceção não é verdadeiramente público e o que não é público não é social


Coleção Educação: Experiência e Sentido

Simón Rodríguez

Inventamos ou erramos

Tradução

Cinthia Fernandes Apresentação e notas

Maximiliano Durán Walter Kohan


Copyright © 2016 Autêntica Editora Título original: Inventamos o erramos Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora. coordenadores da coleção educação: experiência e sentido

revisão

Aline Sobreira

Jorge Larrosa Walter Kohan

capa

Rejane Dias

Alberto Bittencourt (sobre foto de Augusto Pessoa de pintura rupestre na Serra da Capivara)

editora assistente

diagramação

Cecília Martins

Larissa Carvalho Mazzoni

editora responsável

revisão técnica

Maximiliano Durán Simone Berle Walter Kohan

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Rodríguez, Simón, 1769-1854. Inventamos ou erramos / Simón Rodríguez ; tradução Cinthia Fernandes ; apresentação e notas Maximiliano Durán, Walter Kohan. -- 1. ed -- Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2016. -- (Coleção Educação : Experiência e Sentido) Título original: Inventamos o erramos. ISBN 978-85-8217-862-1 1. Educação - Filosofia 2. Rodríguez, Simón, 1769-1854 I. Durán, Maximiliano. II. Kohan, Walter. III. Título. IV. Série. 16-01931

CDD-370.1

Índices para catálogo sistemático: 1. Educação : Filosofia 370.1 apoio

Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465-4500

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Rio de Janeiro Rua Debret, 23, sala 401 Centro . 20030-080 Rio de Janeiro . RJ Tel.: (55 21) 3179 1975

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Sumário

Apresentação 7 Por que ler Simón Rodríguez? Para que traduzi-lo para o português? Por que Inventamos ou erramos? Maximiliano Durán, Walter Kohan 1794 31 Reflexões sobre os defeitos que corrompem a Escola de Primeiras Letras de Caracas e meios de alcançar sua reforma por uma nova instituição 1830 47 O Libertador do Meio-Dia da América e seus companheiros de armas, defendidos por um amigo da causa social 1840 69 Luzes e virtudes sociais 1842 123 Sociedades americanas 1848 195 Extrato sucinto da minha obra Sobre a Educação Republicana 1850-1851 209 Conselhos de amigo, dados ao Colégio de Latacunga


Apresentação Por que ler Simón Rodríguez? Para que traduzi-lo para o português? Por que Inventamos ou erramos?

Maximiliano Durán Walter Kohan (tradução de Julia Krüger)

No Brasil, Simón Rodríguez é um ilustre desconhecido. Suas obras não foram traduzidas para o português e têm sido muito pouco lidas nestas terras. Em certo sentido, não parece um dado menos importante que, nas paragens de Paulo Freire, Simón Rodríguez – que deu um sustento filosófico notável à educação popular no século XIX e talvez seja o primeiro idealizador e realizador de uma escola popular de verdade, absoluta, sem condições – quase não tenha sido lido. Acreditamos que é necessário impulsionar essa leitura e confiamos que a tradução da antologia que apresentamos aqui seja um dos primeiros passos de um caminho muito mais extenso. A seguir, apresentaremos brevemente a vida e a obra de Simón Rodríguez e a antologia que aqui traduzimos.

Uma vida com luz própria A figura de Simón Rodríguez costuma ser imediatamente associada à de Bolívar. Há razões significativas para isso. Em particular, há três feitos que costumam ser destacados. Rodríguez 7


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foi tutor de Bolívar quando este era um menino rico e órfão, ambos foram companheiros de viagem na Europa e, finalmente, Rodríguez foi, durante menos de um ano, uma espécie de ministro da Educação de Bolívar na Bolívia. Como a figura de Bolívar adquiriu muito mais peso histórico nas crônicas, a vida de Rodríguez costuma ser apresentada publicamente em relação à do Libertador. Nesse sentido, talvez o epíteto de “mestre do Libertador” seja a referência mais usada para se referir a sua vida e obra: desde os primeiros textos dedicados ao seu pensamento até as últimas produções, é possível encontrar essa referência. De fato, o primeiro livro dedicado exclusivamente a sua biografia tem como título El maestro del Libertador (Lozano Y Lozano, 1913.)1 A partir desse trabalho pioneiro, a tradição que veio depois assumiu essa relação. Sem deixar de reconhecer a significativa relação entre ambos, essa caracterização ofusca um pouco a figura de Dom Simón, que tem uma vida e uma potência que vai muito mais além da sua relação com Bolívar.2 Do nosso ponto de vista, essa apresentação não somente é discutível, como também reduz muito a figura e o pensamento do mestre. A linha de leitura que afirmamos aqui tem muitos antecedentes: de fato, os textos de Lasheras (2004), Castellanos (2007) e Briggs (2010) valorizam e centram sua atenção no pensamento de Rodríguez em sua singularidade, abordando-o para além de sua relação com Bolívar. Embora reconheçam a relação que o mestre teve com o Libertador e a importância de sua designação Os primeiros trabalhos nos quais se faz referência a Simón Rodríguez datam de fins do século XIX (Lastarria, 1885; Amunátegui, 1876; Rojas, 1979). No entanto, todos eles estão dedicados a outras figuras ou formam parte de uma obra coletiva. O texto de Lozano y Lozano tem a particularidade de ser o primeiro livro voltado inteiramente ao mestre caraquenho.

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Por questões de espaço e interesse aqui nos limitamos simplesmente a delinear os aspectos mais salientes da questão, sem entrar a fundo nela. Para uma abordagem mais detalhada, ver Mendoza (1954), Durán (2011; 2012) e Kohan (2013).

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em Chuquisaca como uma espécie de ministro da Educação, consideram que fazer a sua produção e sua biografia dependerem das de Bolívar é inadequado e injusto. Na verdade, essa linha de leitura começa com o próprio Rodríguez, que adota uma posição semelhante diante de uma pergunta de Paul Marcoy sobre sua identidade. Segundo conta a história, Paul Marcoy se encontra com um velho esfarrapado perdido em um lugar recôndito da América. O viajante é surpreendido pelo perfeito francês do velho e pela sua erudição. Depois de iniciada a conversação, se dá conta de que esse ancião é ninguém menos que Simón Rodríguez. Surpreso pelo encontro inesperado, pergunta-lhe: “O senhor é Simón Rodríguez? O senhor é o mestre do Libertador?”. Ao que o ancião se limita a responder: “Assim é, entre outras coisas fui o mestre do Libertador”.3 Aqui nos interessa apresentar essas “outras coisas” que Rodríguez foi, além de mestre de Bolívar. Sem desconhecer a particular relação com Bolívar que teve durante sua vida, queremos narrar outros aspectos de sua biografia e seu pensamento: aqueles que, no nosso entender, são os mais interessantes, potentes e criativos. Nas próximas seções nos proporemos percorrer alguns aspectos relativos a seu nascimento, seu trabalho e sua militância política. Por se tratar de uma apresentação, que o leitor não espere uma análise exaustiva nem acabada. Trata-se simplesmente de apontar alguns aspectos introdutórios da aventura rodriguiana. Para isso dividimos este texto em três breves seções. A primeira delas conta os primeiros anos de Rodríguez na América. A segunda faz referência à sua estadia na Europa. E, finalmente, dedicamo-nos a seus anos de maturidade, seu percurso pelo continente americano desde o seu retorno da Europa até a sua morte. O episódio encontra-se relatado nas Obras completas de Simón Rodríguez, em suas edições de 1999 e 2001.

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Infância e juventude de Simón Rodríguez Sabemos pelo registro de batismo que Simón Rodríguez nasceu em 28 de outubro de 1769. Durante muitos anos seu nascimento foi motivo de controvérsia para a historiografia venezuelana. De acordo com esse registro, o menino batizado era um enjeitado. Passou seus primeiros anos sob os cuidados do presbítero Carreño. Em 1791 é apresentado pelo professor Guillermo Pelgrón ante as autoridades da cidade para sucedê-lo no cargo de professor de Primeiras Letras da cidade. Desempenha esse trabalho até 1795. Em 1794, a pedido das autoridades, faz a leitura de uma série de textos que chegam da Espanha com o objetivo de realizar um relatório sobre a escola de Caracas. O primeiro trabalho escrito do mestre de que temos conhecimento é produto dessa leitura. O título completo do relatório é Reflexiones sobre los defectos que vician la escuela de primeras letras de Caracas y medios de lograr su reforma por un nuevo establecimiento (Reflexões sobre os defeitos que viciam a escola de Primeiras Letras de Caracas e meios de alcançar sua reforma por um novo estabelecimento) (Rodríguez, 1999, v. 1, p. 39).4 Em 1795 o projeto de Rodríguez apresentado no ano anterior é aprovado pelo Conselho de Caracas, mas rejeitado pela Audiência. Nesse mesmo ano, a pedido de seu tutor, Carlos Palacios, o menor Simón Bolívar ingressa na escola de Primeiras Letras regida por Rodríguez, e alguns meses depois Rodríguez apresenta a renúncia do seu cargo de professor da escola. O Conselho aceita sua renúncia e entrega um certificado relativo à sua boa conduta e trabalho. Esse A tradição acadêmica costuma assinalar esse primeiro texto como o ponto de partida de um pensamento homogêneo, revolucionário, republicano e antimonárquico. No entanto, uma leitura detalhada lança uma interpretação diferente sobre ele. Ao longo do texto é possível observar elementos comuns com o pensamento ilustrado espanhol, mais precisamente com os pensamentos de Anduaga, Rubio e Campomanes. Para maior profundidade sobre o tema, ver Ruiz (1990) e Lasheras (2004).

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Apresentação

certificado é o último documento escrito no qual se faz referência à presença de Rodríguez na cidade de Caracas. Por esse motivo pensamos que sua partida da Venezuela não se realizou antes desse ano e provavelmente não muito depois.5

O percurso europeu Em 1801, depois de passar pela Jamaica e pelos Estados Unidos, chegou à França. Abre uma escola em Bayona, onde ensina castelhano e inglês. Traduz do francês Atala, de Chateaubriand, junto a Fray Teresa Mier. De lá se muda para Paris, onde trabalha outra vez como professor de escola. Em 1804 se encontra novamente com Bolívar. Juntos iniciam um trajeto a pé que os levará, entre outras cidades, a Roma, na Itália. Lá, em cima do Monte Sacro, Bolívar enuncia sua promessa de não descansar até libertar o continente americano do domínio espanhol. Depois, ambos os personagens se separam: Bolívar vai para a América, e Rodríguez continua no velho continente. De acordo com as distintas biografias de Rodríguez, o mestre teria viajado pela Alemanha, Áustria, Polônia, Rússia e Inglaterra entre 1806 e 1823. Em todos esses países teria trabalhado como professor de escola. A imensa maioria dos escritos dedicados à vida e à obra de Rodríguez data a partida de Caracas em 1797. Todos eles coincidem em apontar que os motivos da sua partida obedecem ao seu caráter de conspirador político no Complô da Guaira. A única razão de peso a que se recorre para sustentar essa ideia é a palavra de Rodríguez. De acordo com o que o mestre narra a O’Leary, ele deve fugir de Caracas pelo seu papel em uma junta conspiratória. Ao mesmo tempo, sinaliza que no momento de sua partida consegue ver os corpos executados de seus companheiros. Para nós isso é pouco provável. Em primeiro lugar porque nos documentos do Arquivo Histórico Nacional da Venezuela sobre a conspiração não há referência alguma ao mestre. E em segundo lugar porque a palavra de Rodríguez não coincide com os fatos documentados. Dada a gravidade do delito, agiu-se com muitíssima celeridade e eficácia. Diante de qualquer dúvida as pessoas eram processadas. No entanto, destacamos que durante o processo não se recorreu à tortura, e as primeiras execuções foram realizadas em 1799.

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Provavelmente chega a Londres no início de 1821. Lá se encontra com Andrés Bello. Juntos abrem uma escola de Primeiras Letras. Bello lembra o método engenhoso e divertido com o qual Rodríguez ensinava as crianças a ler e a escrever (Amunátegui, 1876). É interessante destacar que esse período da vida de Rodríguez é o menos documentado. Com exceção de sua entrada na França, da tradução de Atala e de algumas referências que aparecem em poucas cartas, carecemos de dados certos sobre sua vida durante esses anos. Em função disso, só podemos dizer que Rodríguez foi um viajante incansável e que durante todo esse período ganhou a vida como professor de escola.

Retorno à América Em 1823 Rodríguez chega a Cartagena com o propósito de levar adiante um projeto político educativo inédito na América. Recorda esse feito em uma carta dirigida a Francisco de Paula Otero em 10 de março de 1832. Lá escreve: “Eu deixei a Europa para me encontrar com Bolívar; não para que me protegesse, mas para que fizesse valer minhas ideias a favor da causa. Essas ideias eram e serão sempre: empreender uma educação popular, para dar ser à república imaginária que rola nos livros e nos congressos” (Rodríguez, 2001, p. 160-161). Na cidade de Bogotá abre a primeira escola dedicada a dar partida ao seu projeto. No lugar onde anteriormente funcionava um hospício, o professor cria Casa da Indústria Pública, onde recebe crianças pobres e abandonadas. A escola dura pouco tempo aberta. Em 1825 acontece seu reencontro com o Libertador. Juntos começam uma viagem até a atual Bolívia. Com o título de diretor de Ensino Público de Ciências Físicas, Matemáticas e de Artes,6 A nomeação encontra-se no Arquivo da Casa Natal do Libertador, seção Juan Francisco Martín, t. XLI.

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Apresentação

abre uma escola na cidade de Chuquisaca que altera e transforma a realidade educativa do lugar e da época. O Colégio de Órfãos e Meninos Carpinteiros é uma escola completamente diferente das escolas conhecidas na América e, talvez, no mundo. Essa escola se caracteriza por receber a todos os meninos e meninas da cidade em qualidade de iguais. Diferentemente do resto das escolas americanas, que recebiam seus alunos de acordo com sua origem social, econômica e étnica, a escola de Rodríguez aceitava a todos como iguais, sem condições.7 De acordo com seu ponto de vista, a escola é para todos, porque todos são cidadãos e iguais. As autoridades veem com receio a instituição e o proceder de Rodríguez. Decididos a manter as hierarquias sociais, econômicas e políticas dos tempos da colônia, dispersam uma série de rumores e comentários maliciosos sobre a pessoa do mestre e seu trabalho. Como produto disso, Rodríguez se distancia do presidente Sucre e renuncia ao seu cargo. Sem trabalho nem dinheiro, dá início a um caminhar que o leva por diversos países andinos. Entre 1826 e 1854, viaja pela Bolívia, Chile, Equador e Peru. Assim como na Europa, em todos os lugares por onde passa abre escolas e trabalha como professor. Sempre acompanhado por dois baús nos quais

O mundo escolar dos primeiros anos do século XIX encontra-se caracterizado por uma educação hierárquica e diferenciada. Em todo o continente existem diversos tipos de instituição educativa que recebem os distintos grupos sociais e étnicos estruturados a partir das reformas borbônicas. Assim, é possível falar de escolas para crianças brancas ricas, escolas para crianças brancas pobres, escolas que aceitam mestiços, outras que aceitam as crianças pobres das comunidades originárias e escolas que recebem a nobreza dos povos originários. Inclusive há instituições formativas da infância abandonada. Cada instituição é pensada, desenhada e desenvolvida em função da casta à qual é dirigida. A escola para crianças brancas órfãs é diferente da escola de crianças pobres, e esta, por sua vez, é distinta da das crianças dos povos originários pobres. Todas elas se diferenciam a partir da população que acolhem. Seus conteúdos e objetivos são completamente diferentes. Em seu interior se forma o enquadramento social da colônia desde os setores mais altos até os mais baixos. Para mais detalhes, ver os trabalhos de García Sánchez (2005) e Escobari de Querejazu (2009; 2012).

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guarda seus escritos, percorre muitos países andinos, comunicando sua ideia de uma escola para todos. Vive praticamente na miséria. Nunca aceita esmolas, apenas pede trabalho. Eventualmente consegue publicar seus escritos, sem muito sucesso. Exausto e muito doente, chega ao povoado de Amotape. O padre do povo pensa que é um herege e não o deixa entrar. Deve ficar em uma cabana abandonada nos arredores do lugarejo. Acompanha-o Camilo Gómez, que durante a manhã pede a presença do padre diante do leito do mestre, que se encontra agonizando. Dá uma última aula, que permanece um mistério como boa parte de sua vida, e morre nesse mesmo dia, 28 de fevereiro de 1854.

O valor de uma vida militante Simón Rodríguez pode ser caracterizado de múltiplas formas: gênio, louco, mestre inigualável, companheiro de Bolívar, viajante infatigável e republicano fervoroso. Em toda a extensa bibliografia dedicada à sua vida e sua obra nos encontramos com todas essas qualidades. Os autores que exploram e estudam a vida do professor se detêm nelas e nos oferecem um quadro bastante acabado da sua biografia política e intelectual. De acordo com eles, Rodríguez é um mestre genial (que beira à loucura) que através de uma peregrinação incansável pela América e pela Europa se propôs a transmitir suas ideias relativas à educação e ao sistema republicano. Nessa viagem costumam ser destacados muitos companheiros. Talvez o mais importante de todos eles seja Bolívar, tanto que com a morte deste Dom Simón só é reconhecido e valorizado como “o mestre do Libertador”. Todos os trabalhos que consegue logo depois da sua experiência falida em Chuquisaca se devem à sua relação com Bolívar. Antigos companheiros de armas do Libertador que se tornaram políticos ou ricos latifundiários se compadecem da morte desse viajante esfarrapado. Alguns deles emprestam-lhe alguma quantidade insignificante de dinheiro, e outros oferecem um ou outro emprego. A vida de 14


Apresentação

Rodríguez depois da sua separação de Bolívar, em 1825, só foi miséria, esquecimento e ostracismo. Cabe perguntar por que se distanciam, por que Rodríguez fica na Bolívia e não acompanha Bolívar até o Peru. A história oficial sustenta que Bolívar manda Rodríguez levar adiante um plano de educação popular intimamente ligado à nova Constituição da República. O artigo 13, que se refere à cidadania no novo Estado, declara que o acesso a ela se dá pelo alfabetismo e pelo emprego dos indivíduos. Ou seja, cidadão boliviano é todo aquele que sabe ler e escrever e que ganha a vida com um emprego alheio à servidão pessoal. A exigência dessas duas condições para o acesso à cidadania é onde se joga, ao nosso entender, a verdadeira emancipação da América no século XIX. Xavier Albó (2006) sustenta que a Independência, alcançada em 1825, só consegue a emancipação política em relação à Espanha, porém, mais além da evidente mudança política, a sociedade mantém sua estrutura colonial. Comunidades fortemente corporativas e hierarquicamente ordenadas continuaram com seus privilégios durante todo o século XIX. Nesse contexto, a participação política, segundo seu ponto de vista, fica condicionada ao pertencimento a um desses grupos. Nessa mesma linha, Guanchéz de Méndez (2005) sustenta que a Constituição de 1826 pode ser considerada como uma tentativa de mudar essa situação e introduzir elementos modernos vinculados ao liberalismo político. Em sua perspectiva, a intenção de Bolívar é construir uma sociedade “produto de uma associação livre de indivíduos iguais, unidos mediante suas funções, seus costumes, seus hábitos e atitudes” (Guanchéz De Méndez, 2005, p. 12). Segundo a autora, a Constituição de 1826 abre um espaço político inédito que dialoga com a participação igualitária dos indivíduos própria do novo sistema político que se pretende estabelecer. De acordo com essa leitura, o projeto de Rodríguez seria uma ferramenta funcional para a incorporação plena da grande 15


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maioria dos indivíduos nascidos dentro do território boliviano à vida cidadã. Grande parte dos estudos realizados até o momento sustentam que a escola de Chuquisaca é concebida como uma grande máquina de cidadania, na qual são oferecidas às pessoas as habilidades necessárias para se tornarem cidadãs. O projeto de educação popular, tal como descreve Rodríguez na Defesa de Bolívar, propõe-se a alfabetizar a população e ensinar a ela um ofício a partir do qual possa ganhar a vida (Rodríguez, 1999, v. 2, p. 356). A presença de Rodríguez na Bolívia ficaria justificada em função de seu dever e seu compromisso para com o projeto bolivariano de uma nova república. Independentemente da vontade de acompanhar seu amigo, companheiro e aluno, Rodríguez teria ficado na Bolívia para levar adiante um projeto educativo intimamente ligado a um projeto político. Essa interpretação subordina a figura do mestre à do Libertador, já que Rodríguez trabalharia principalmente para fazer cumprir a vontade de Bolívar. Nesse sentido, Rodríguez ficaria na Bolívia e se separaria do Libertador para realizar o programa político deste último. Para nós existe outra interpretação possível. Rodríguez fica na Bolívia por seu caráter de militante da educação popular. Militante e educação popular são dois conceitos que regem sua vida e seu pensamento a partir de 1823.8 Talvez sejam os elementos mais emblemáticos de sua vida e de seu pensamento. Ambos podem se alinhar a outros, tais como: militante-vida, educação popular-pensamento, pensamento-vida. Vamos nos deter brevemente nos conceitos de militante e educação popular. O primeiro orienta e compromete toda a vida de Rodríguez segundo uma experiência que assume como nova e transformadora da realidade: uma nova aparição que altera e transfigura a realidade onde irrompe. Como se pode observar, Data em que chega à América, depois de mais de 20 anos na Europa.

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Apresentação

essa ideia de militância supõe três aspectos: a) reconhecer uma aparição no mundo, b) considerar essa aparição uma novidade que transforma a realidade de maneira positiva e c) repensar toda a realidade a partir dos efeitos que essa aparição produz nela. A vida de Rodríguez é uma vida militante que sustenta a educação popular como ideia filosófica. Vejamos em que consiste esse outro conceito. Rodríguez abre uma escola inédita na América. Na cidade de Chuquisaca o Colégio de Meninos Órfãos e Carpinteiros recebe todos os meninos e meninas em qualidade de iguais,9 se diferenciando assim das escolas até então conhecidas. A igualdade na escola é declarada como princípio, e não como um objetivo a ser alcançado. Em seu interior, a igualdade se afirma e é praticada sem condições. A afirmação de uma realidade igualitária cancela, dentro da escola, a desigualdade que impera na cidade. Diferentemente das sociedades estamentais próprias da colônia e dos primeiros anos da República, a escola de Rodríguez abre um novo caminho para se transitar, uma nova realidade. Nesse espaço qualquer um tem igual valor a qualquer outro, e nenhuma pessoa vale mais do que outra, para além da sua idade, do seu gênero, da sua classe... Assim se cria, na escola, uma nova cena política, pratica-se uma nova política, em que o que interessa é a igualdade de todos ou uma totalidade de iguais, e não a posição que se ocupa dentro dela. A novidade da escola de Chuquisaca é tão radical que nenhum saber pedagógico da época pode nomear o que acontece

Existe um velho preconceito relativo à inclusão dos setores populares em instituições educativas do império espanhol. De acordo com este, as escolas eram espaços exclusivamente reservados para os setores altos da sociedade. No caso do território americano, ao menos em teoria, isso era falso. Existiam distintos tipos de escola primária destinados especificamente a cada uma das castas. Em outras palavras, havia escolas para brancos ricos, brancos pobres, nobreza dos povos originários, o comum dos povos originários e mestiços.

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em seu interior: de fato não há referências a essa instituição através de um léxico pedagógico. Assim, as autoridades da cidade se dirigem a ela como prostíbulo, bordel e lugar de perdição. A nova realidade afirmada é pedagogicamente inominável, além de social e politicamente inadmissível e intolerável. Lá se diluem as desigualdades que estruturam a sociedade hierarquizada. Essa afirmação de uma instituição igualitária é um perigo que deve ser conjurado. O risco de um contágio da igualdade como axioma não deve subsistir. Devido a isso, a escola é fechada em poucos meses. O mestre é consciente da novidade ocorrida. Sua escola é completamente diferente do resto. Nesse sentido, escreve: “as fundações são todas piedosas... – umas para enjeitados – outras para órfãos – outras para meninas nobres – outras para filhos de militares – outras para inválidos... em todas se fala de caridade: não se fizeram pelo bem geral, senão pela salvação do fundador ou pela ostentação do Soberano” (Rodríguez, 1999, v. 2, p. 358). Para ele, os saberes da escola institucionalizada não servem para dar conta do que acontece em Chuquisaca, precisamente porque seu projeto é algo completamente novo para a conjuntura política e social. Segundo suas próprias palavras: “o estabelecimento que se empreendeu na Bolívia é social, sua combinação é nova, em uma palavra é a República” (Rodríguez, 1999, v. 2, p. 358). Necessita criar um conceito para aquilo que, até aquele momento, escapa a toda nomeação do escolar. Talvez nesse sentido se poderia ler seu chamado à filosofia. Em Sociedades americanas ele escreve: “a instrução pública, no século XIX, pede muita filosofia: o interesse geral está clamando por uma reforma e... a América está [sendo] chamada, pelas circunstâncias, a empreendê-la” (Rodríguez, 1999, v. 1, p. 234). A escola necessita de filosofia, não como ama e senhora de uma racionalidade explicativa dela própria ou da realidade, mas como criação conceitual que pensa nela mesma e nos problemas que ela enfrenta. Educação popular é a criação conceitual que tenta pensar 18


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os problemas derivados da incorporação à instituição escolar de todas as crianças como iguais; é a maneira como a filosofia, assinada por Simón Rodríguez, pensa a igualdade como princípio fundante de uma escola para todos os habitantes de uma sociedade republicana. À diferença de outros projetos que reivindicam a educação popular, Rodríguez a afirma como conceito filosófico, ou seja, para pensar o impensável que ele mesmo inventa, na realidade e no pensamento: uma escola de iguais para todos. A escola de Rodríguez, insuportável para os que sustentam o estado de coisas, foi demolida. Sua criação conceitual sobrevive, de forma potente, para questionar e refletir sobre a atual realidade educativa da América Latina. Atualidade de Simón Rodríguez, da educação popular, da filosofia em situação educativa, da necessidade de pensar e pensarmo-nos, de forma militante, o que nos faz ser o que somos para, quem sabe, poder ser de outra maneira.

Inventamos ou erramos na obra conservada de Simón Rodríguez Simón Rodríguez foi um escritor inveterado. Contudo, sua militância e seu modo de entender a escrita como uma dimensão da vida fizeram com que tivesse dificuldades para publicar o que escreveu. Além disso, um baú com a grande maioria de seus escritos pegou fogo no Equador, de modo que conservamos somente uma parte dessa escrita abundante. A seguir mostramos uma listagem sintética com suas principais publicações. A obra que aqui apresentamos, Inventamos ou erramos, é uma antologia de todos os escritos conservados de Simón Rodríguez, com exceção do seu epistolário, da tradução ao espanhol de Atala, de Chateaubriand, de textos independentes como “Informe presentado a la Intendencia de la Providencia de Concepción de Chile por Ambrosio Lozier, Simón Rodríguez y Juan José Arteaga, nombrados para reconocer la ciudad de Concepción y 19


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sus cercanias después del terremoto del 20 de febrero de 1835” e de alguns artigos escritos em jornais de Arequipa e Lima.10 Para esta tradução foi tomada como base a edição de Monte Ávila (Caracas, 2004) e, quando necessário, cotejamos com o texto das Obras Completas (Caracas: Presidencia de la República, 1999). Segue-se uma cronologia topológica dos textos que compõem Inventamos ou erramos:

Caracas 1794. Reflexiones sobre los defectos que vician la Escuela de Primeras Letras de Caracas y medios de lograr su reforma por un nuevo establecimiento.

Arequipa 1828. Pródromo11 de Sociedades americanas en 1828. Cómo serán y cómo podrían ser en los siglos venideros. En esto han de pensar los americanos, no en pelear unos con otros. 1830. El Libertador del Mediodía de América y sus compañeros de armas, defendidos por un amigo de la causa social. 1830. Observaciones sobre el terreno de Vincocaya con respecto a la empresa de desviar el curso natural de sus aguas y conducirlas por el río Zumbai al de Arequipa.

Lima 1830. Tenta publicar Sociedades americanas en 1828 em cadernos por assinatura. Por falta de meios econômicos abandona o projeto. O epistolário foi publicado sob o título de Cartas (Caracas: Ediciones de la Universidad Nacional Experimental Simón Rodríguez, 2001), e o restante, nas diferentes edições das Obras completas (Caracas: Presidencia de la República, 1954, 1999 e 2001).

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Segundo Simón Rodríguez, as aberturas dos textos podem ser: prólogo, de um drama; prefácio, de um livro; proêmio, de um tratado. De acordo com ele, os três preparam a exposição do autor. Mas se a matéria é muito complexa, o escrito preliminar é um pródromo, isto é, um escrito precursor, que anuncia e apresenta o quadro completo da ideia do autor (Rodríguez, 1999, v. 1, p. 263).

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Apresentação

Concepción 1834. Introdução a Luces y virtudes sociales, junto com um prólogo em que Rodríguez responde às supostas objeções ao Pródromo de Sociedades americanas en 1828. A publicação foi pensada para sua distribuição periódica. Só se realizou a primeira entrega de 28 páginas sob a proteção de José Antonio Alemparte.

Valparaíso 1840. Luces y virtudes sociales. Exclui três páginas e o prólogo da edição anterior. Não obstante, agrega 50 páginas novas. 1840. Extrato da Defensa de Bolívar. 1840. Extrato da Introdução de Sociedades americanas en 1828. 1840. Publica no El Mercurio, do Chile, 11 artigos sobre política. Tais textos levam o nome geral de “Partidos”.

Lima 1842. Publica a obra completa Sociedades americanas en 1828 na Imprenta del Comercio, propriedade de J. Monterola. 1843. Circulam seis números de um trabalho intitulado “Criticas de las providencias del gobierno”.

Bogotá 1849. Aparece no Neo-Granadino, de Bogotá, “Extracto sucinto de mi obra sobre educación republicana”. 1954. Cem anos depois da morte de Rodríguez, publica-se Consejos de amigo dados al Colegio de Latacunga.

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