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Sangue Frio

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R O B E RT B RY N DZ A

tradução de

Marcelo Hauck


Copyright © 2017 Robert Bryndza Copyright © 2019 Editora Gutenberg Título original: Cold Blood

Todos os direitos reservados pela Editora Gutenberg. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

editora

capa

Rejane Dias

Alberto Bittencourt (sobre imagens de Henry Steadman)

editora assistente

Carol Christo

diagramação

Guilherme Fagundes

assistente editorial

Andresa Vidal Vilchenski preparação e revisão

Carol Christo Samira Vilela

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Bryndza, Robert Sangue Frio / Robert Bryndza ; tradução Marcelo Hauck. -- 1.ed. -- Belo Horizonte : Editora Gutenberg, 2019. Título original: Cold Blood ISBN 978-85-8235-580-0 1. Ficção inglesa I. Hauck, Marcelo. II. Título. 19-25555

CDD-823

Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura inglesa 823 Iolanda Rodrigues Biode - Bibliotecária - CRB-8/10014

A GUTENBERG É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA

São Paulo Av. Paulista, 2.073, Conjunto Nacional, Horsa I 23º andar . Conj. 2310-2312 . Cerqueira César 01311-940 . São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468 www.editoragutenberg.com.br

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CAPÍTULO 1

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

A

Detetive Inspetora Chefe Erika Foster protegia os olhos da chuva forte enquanto ela e a Detetive Inspetora Moss se apressavam por South Bank, um calçadão que acompanhava a margem sul do rio Tâmisa, em Londres. A maré estava baixa e deixava marcas marrons no lodo, nos tijolos e no lixo que emporcalhava o leito exposto do rio. No bolso da comprida jaqueta preta, o rádio de Erika fez um ruído metálico e ela escutou a policial na cena do crime perguntar sua localização. Ela o pegou e respondeu: – Aqui é a Inspetora Foster. Estamos a dois minutos daí. Ainda era hora do rush matinal, mas o dia permanecia escuro devido à soturna neblina que pairava. Apertaram o passo e deixaram para trás a alta sede da IBM e o pálido e atarracado prédio da ITV Studios. Ali, o South Bank fazia uma curva fechada para a direita antes de alargar-se até uma alameda margeada de árvores que levava ao National Theatre e à Hungerford Bridge. – É lá embaixo, chefe – afirmou Moss diminuindo a velocidade, sem fôlego. No leito exposto do rio, três metros abaixo, um pequeno grupo de pessoas se reunia em uma praia artificial de areia clara, enfiada em uma esquina onde o South Bank curvava para a direita. Erika massageou as costelas apalpando o local em que sentia uma fisgada. Ela, com seus 1,82m, era muito mais alta do que Moss, e o curto cabelo louro havia grudado na cabeça por causa da chuva. – Devia pegar leve no cigarro – comentou Moss, olhando para ela de baixo para cima, tirando mechas ruivas do rosto. Tinha as bochechas gorduchas coradas devido à corrida e o rosto coberto por um amontoado de sardas. 9


– Você devia pegar leve nos chocolates – disparou Erika. – Estou fazendo isso. Diminuí para um no café da manhã, um no almoço e um no jantar. – Estou fazendo a mesma coisa com o cigarro – sorriu Erika. Chegaram a uma escada de pedra que levava ao Tâmisa. A maré havia manchado os degraus em alguns pontos, e os dois últimos estavam escorregadios por causa das algas. A praia tinha quatro metros de largura e terminava abruptamente onde a suja água marrom passava agitada. Erika e Moss sacaram seus distintivos e a aglomeração de pessoas se separou para deixá-las atravessar, indo em direção ao local onde uma policial voluntária tentava proteger uma grande mala surrada de tecido marrom meio enterrada na areia. – Tentei levar todo mundo lá pra cima, senhora, mas não quis abandonar a cena – disse a jovem levantando o rosto para olhar Erika através da chuva. Era pequena e magra, mas tinha uma centelha de determinação nos olhos. – Está sozinha? – perguntou Erika, olhando para a mala no chão. Através de um rasgo em uma ponta projetavam-se dois dedos inchados. Ela confirmou com um gesto de cabeça e explicou: – O outro policial voluntário que está em serviço comigo teve que ir ver um alarme que disparou em um dos prédios comerciais. – Isso não está certo – zangou-se Moss. – Os policiais voluntários devem trabalhar sempre em dupla. Você está terminando o turno da noite no centro de Londres sozinha? – Ok, Moss... – começou Erika. – Não, não tem nada ok, chefe. Essas pessoas são voluntárias! Por que não podem contratar mais policiais? – Entrei para a equipe de voluntários para ganhar experiência e me tornar policial de carreira... – Temos que evacuar esta área antes que percamos todas as chances de conseguir provas periciais – interrompeu Erika. Moss concordou com um movimento de cabeça e, junto à policial voluntária, começou a pastorear as pessoas estupefatas na direção da escada. Erika percebeu que, na ponta da pequena praia, ao lado do muro alto, dois pequenos buracos estavam sendo cavados por um homem mais velho com um poncho colorido. Ele estava indiferente às pessoas e à chuva e seguia cavando. Erika sacou o rádio e convocou todos os guardas na 10


vizinhança. Houve um silêncio agourento. Ela viu que o homem com o poncho colorido ignorava Moss e continuava cavando. – Preciso que vá para lá, que suba a escada de novo – disse Erika, afastando-se da mala na direção dele. O homem levantou o rosto para a detetive e continuou a alisar o monte de areia, que estava encharcado pela chuva. – Com licença. Você. Estou falando com você. – E quem é você? – perguntou ele imperiosamente, olhando-a de cima a baixo. – Detetive Inspetora Chefe Erika Foster – respondeu, mostrando o distintivo. – Isto aqui é a cena de um crime. E você precisa sair. Agora. Ele parou de cavar e mostrou-se quase comicamente insultado. – Você tem permissão para ser tão grossa? – Quando as pessoas obstruem a cena de um crime, tenho, sim. – Mas essa é a minha única renda. Tenho permissão para exibir as minhas esculturas de areia aqui. Tenho permissão da Câmara Municipal de Westminster. Ele vasculhou dentro do poncho e pegou uma carteirinha plastificada com sua foto, que ficou rapidamente salpicada de chuva. Uma voz ressoou no rádio de Erika: – Aqui é o Agente Warford, com o Agente Charles... – Ela viu dois jovens policiais seguindo apressados em direção à aglomeração de pessoas na escada. – Coordene com a Inspetora Moss. Quero o South Bank fechado quinze metros em todas as direções – explicou ela pelo rádio, e em seguida o enfiou de volta no bolso. O homem ainda segurava a autorização. – Pode guardar isso aí. – Você é muito desagradável – disse, olhando para ela com os olhos semicerrados. – Sou mesmo, e seria muito desagradável ter que prender você. Agora anda, vai lá pra cima. Ele ficou de pé lentamente. – É assim que você fala com uma testemunha? – O que você testemunhou? – Eu desenterrei a mala quando estava cavando. – Ela estava enterrada na areia? – Parcialmente. Não estava ali ontem. Cavo aqui todo dia, a areia muda com a maré. 11


– Por que cava aqui todo dia? – Sou artista e faço esculturas de areia – disse ele, de forma pomposa. – Geralmente, fico ali. Faço uma sereia sentada no alto de uma pedra e um peixe pulando, faz muito sucesso com... – Você encostou na mala ou mexeu em alguma coisa? – questionou Erika. – É claro que não. Parei quando vi... quando vi que a mala estava rasgada e que havia... dedos saindo... Erika viu que ele estava com medo. – Ok. Sobe lá pro calçadão, precisaremos colher o seu depoimento. Os dois agentes e a policial voluntária haviam passado a fita de isolamento no calçadão. Moss se juntou a ela quando o senhor saiu cambaleante na direção da escada. Elas eram agora as duas únicas pessoas na praia. Colocando luvas de látex, aproximaram-se da mala. Os dedos projetados pelo buraco no tecido marrom estavam inchados e tinham as unhas enegrecidas. Moss tirou delicadamente a areia para expor o zíper enferrujado. Erika precisou dar várias puxadas delicadas, mas ele cedeu e a mala acabou abrindo ao movimento do zíper. Moss se aproximou para ajudar e, devagar, elas levantaram a parte de cima. Um pouco de água escorreu e o corpo nu de um homem revelou-se comprimido lá dentro. Moss afastouse de costas, colocando o braço no nariz. O fedor de carne apodrecida e água parada atingiu o fundo da garganta de ambos. Erika fechou os olhos por um momento, reabrindo-os em seguida. Os membros eram brancos e musculosos. A carne estava sebosa e começava a despedaçar, deixando os ossos expostos em alguns lugares. Erika suspendeu o torso delicadamente. Enfiada por baixo, havia uma cabeça com cabelo preto ralo. – Nossa, ele foi decapitado – exclamou Moss, apontando para o pescoço. – E cortaram as pernas para que coubesse aqui dentro – finalizou Erika. O rosto intumescido e espancado era irreconhecível. Uma língua inchada e preta projetava-se entre grandes lábios roxos. Ela pôs o torso gentilmente de volta sobre a cabeça e fechou a mala. – Precisamos da perícia aqui embaixo. Depressa. Não sei quanto tempo temos até a maré subir de novo.

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CAPÍTULO 2

U

ma hora depois, o patologista e sua equipe estavam na cena do crime. A chuvarada continuava a cair e a neblina tinha ficado mais densa, ocultando o topo dos prédios ao redor. Apesar da chuva, pessoas se aglomeravam em ambas as pontas da fita de isolamento para olhar, estupefatas, uma grande barraca branca da perícia que havia sido erguida sobre o corpo na mala. Seu brilho agourento contrastava com a água turva, que corria veloz. Estava quente dentro da barraca. Apesar do frio, as luzes fortes no espaço pequeno faziam a temperatura disparar. Erika e Moss tinham vestido macacões azuis e estavam com o Patologista Forense Isaac Strong, que encontrava-se agachado ao lado da mala com dois assistentes e o fotógrafo pericial. Isaac era um homem alto e esbelto. Os delicados olhos castanhos e as finas sobrancelhas pinçadas eram as únicas coisas que permitiam sua identificação através do capuz e da máscara. – O que pode nos dizer? – perguntou Erika. – O corpo está na água há um tempo, olhe esta descoloração amarela e verde na pele – disse ele apontando para o peito e o abdômen. – A temperatura baixa da água reduziu a velocidade da decomposição... – Isso aí é a decomposição em velocidade reduzida? – disse Moss, colocando a mão na máscara. Fizeram silêncio por um momento, todos encarando o corpo nu espancado, atentos a como os pedaços haviam sido perfeitamente organizados ali dentro: uma perna em cada lado do torso, as articulações dos joelhos dobradas na direção do canto superior direito e do inferior esquerdo, os braços cruzados sobre o peito e a cabeça decapitada enfiada por baixo. Uma assistente de Isaac abriu o zíper de um bolsinho no interior da tampa da mala e retirou um pequeno ziplock transparente contendo uma aliança de casamento, um relógio e uma correntinha masculina dourada. Ela o suspendeu à luz com os olhos arregalados acima da máscara. 13


– Podem ser os pertences dele, mas cadê as roupas? – disse Erika. – É como se ele tivesse sido empacotado, não desovado. Tem identidade? – acrescentou, esperançosa. O fotógrafo inclinou-se para a frente e tirou duas fotos. Eles piscaram ao flash. A assistente de Isaac procurou no bolso com a mão enluvada. Respondeu que não com um movimento de cabeça. – O desmembramento do corpo dessa maneira, com essa precisão e com a inserção dos pertences, demonstra planejamento – comentou Isaac. – E por que deixar os pertences com o corpo? Por que não ficar com eles? É como se a pessoa que fez isso estivesse de zoeira – falou Moss. – Isso me faz achar que pode ser algo relacionado ao submundo do crime organizado ou do tráfico, mas descobrir isso é com vocês – disse Isaac. Erika assentia quando um dos assistentes suspendeu o corpo e o fotógrafo tirou uma foto da cabeça decapitada. – Ok, pra mim já deu – informou o fotógrafo. – Vamos tirar o corpo daqui – disse Isaac. – Temos o problema da maré. Erika olhou para baixo e viu que uma das pegadas começava a sumir na água turbulenta. Um jovem de macacão apareceu na entrada da barraca com um saco preto em uma maca. Erika e Moss saíram e observaram Isaac e os assistentes abrirem o zíper, separarem as laterais e suspenderem cuidadosamente a mala na direção da maca. Mas ela travou um metro acima da areia e os assistentes quase perderam o equilíbrio. – Espera aí, para, para, para! – exigiu Erika, entrando novamente na barraca. Uma lanterna foi apontada para a parte inferior da mala, que não parava de pingar. Um pedaço de corda clara tinha ficado agarrado no tecido, que começava a esticar e puir sob o peso do corpo lá dentro. – Tesoura, rápido – ordenou Isaac. Uma tesoura esterilizada foi rapidamente desembalada e entregue a ele. O patologista se abaixou, cortou a corda e permitiu que terminassem de suspender a mala, que se desintegrou ao ser colocada na maca. Isaac devolveu a tesoura e a corda, que foram empacotadas e etiquetadas. Em seguida, fecharam o zíper do saco preto, envelopando a mala. – Eu entro em contato quando terminar a autópsia – avisou Isaac. Ele saiu assim que os dois assistentes começaram a levar a maca, empurrando-a desajeitadamente pela areia e deixando rastros profundos. 14


Erika e Moss entregaram os macacões, subiram para o calçadão de South Bank e viram Nils Åkerman, o chefe da perícia forense, que tinha acabado de chegar com sua equipe de cinco peritos. Eles agora tentariam recolher provas periciais no local. Erika olhou de volta para a água invadindo a praia e duvidou que teriam alguma sorte. Nils era um homem alto e magro, com olhos azuis penetrantes que nesse dia estavam um pouco raiados de sangue. Ele parecia de saco cheio. – Ótimo clima para patos – comentou ele, cumprimentando-as ao passar. Nils falava um inglês excelente com um leve sotaque sueco. Guarda-chuvas foram entregues para Erika e Moss, que ficaram observando Nils e sua equipe moverem-se pela praia cada vez menor. A água estava a menos de trinta centímetros da barraca e passava por ela em alta velocidade, avolumada pela chuva. – Nunca entendi o senso de humor dele. Está vendo algum pato? – Acho que ele quis dizer que os patos iriam gostar desse clima, e quem disse que era uma piada? – Mas ele falou como se fosse uma piada. É o senso de humor sueco, já ouvi dizer que é muito esquisito. – Ok, vamos nos concentrar – disse Erika. – A mala pode ter sido desovada mais acima no rio e ficado agarrada na corda ao ser levada pela maré. – São quilômetros de margem de rio onde ela pode ter sido jogada – comentou Moss. – Erika suspendeu o olhar para os prédios e para o outro lado da água turbulenta. Uma barcaça passava por ali com seu motor barulhento, arrotando fumaça preta, e dois táxis aquáticos da Thames Clipper fatiavam seu caminho pela maré na direção oposta. – Este seria um lugar bem idiota pra se se jogar um corpo – concluiu Erika. – Os escritórios têm vista pra cá 24 horas por dia. E a pessoa teria que carregá-lo por South Bank, passar por todos os bares e escritórios, por câmeras de segurança e testemunhas. – Idiotice é o que os idiotas fazem. Pode ser um lugar pertinente para uma pessoa que se acha fodona desovar um corpo. Tem um monte de ruazinhas sem movimento pelas quais ela poderia desaparecer – discordou Moss. – Isso não está ajudando. – É, chefe, mas não devemos subestimar quem fez isso. Ou deveria dizer “des-subestimar”? Erika revirou os olhos: – Anda, vamos comer um sanduba e voltar para a delegacia. 15


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