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Roteiros de radioteatro durante e depois da Segunda Grande Guerra (1943 a 1947)

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Roteiros de radioteatro

DURANTE E DEPOIS DA

Segunda Grande Guerra (1943-1947)

ANTONIO

CALLADO

Roteiros INÉDITOS em livro

organização

Daniel Mandur Thomaz


organização e introdução crítica

Daniel Mandur Thomaz

Roteiros de radioteatro

DURANTE E DEPOIS DA

Segunda Grande Guerra (1943-1947)

ANTONIO CALLADO


Copyright © 2018 Herdeiros de Antonio Callado Copyright © 2018 Autêntica Editora Direitos de reprodução gentilmente cedidos pela British Broadcasting Corporation (BBC). Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora. A fotografia da capa e a fotografia da página 287 foram gentilmente cedidas para esta edição pelo Arquivo-Museu de Literatura Brasileira (AMLB) da Fundação Casa de Rui Barbosa. editora responsável

capa e projeto gráfico

Maria Amélia Mello

Diogo Droschi

editora assistente

diagramação

Rafaela Lamas

Guilherme Fagundes

revisão

Carla Neves Mariana Faria Miriam de Carvalho Abões

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil

Callado, Antonio, 1917-1997 Roteiros de radioteatro durante e depois da Segunda Grande Guerra (1943-1947) / Daniel Mandur Thomaz (organização e introdução crítica). -- 1. ed. -- Belo Horizonte : Autêntica, 2018. Bibliografia. ISBN 978-85-513-0295-8 1. Callado, Antonio, 1917-1997 - Apreciação crítica 2. Guerra Mundial, 1939-1945 3. Literatura brasileira 4. Peças teatrais 5. Rádio - Programas 6. Radioteatro - Roteiros I. Thomaz, Daniel Mandur. II. Título. 17-08843

CDD-869.2

Índices para catálogo sistemático: 1. Radiodrama : Roteiros : Literatura brasileira 869.2 2. Radioteatro : Roteiros : Literatura brasileira 869.2

Rio de Janeiro Rua Debret, 23, sala 401 Centro . 20030-080 Rio de Janeiro . RJ Tel.: (55 21) 3179 1975

www.grupoautentica.com.br

Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465 4500

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Introdução

Os dezenove roteiros de radioteatro – ou radiodrama – que fazem parte deste volume foram escritos entre 1943 e 1947 pelo jornalista, romancista e dramaturgo Antonio Callado, para serem transmitidos, em sua grande maioria, pela Seção Brasileira da BBC na Inglaterra. As peças foram escritas durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e nos anos que se seguem imediatamente a ela, e revelam um esforço notável por parte do autor em produzir sentido estético e histórico sobre a presença brasileira no conflito, assim como sobre a posição do Brasil no arranjo geopolítico e cultural do conturbado mundo de então. São, por um lado, reflexo do processo de formação do jovem Callado e de suas ideias e noções estéticas e, por outro, das formas em uso entre as produções da BBC, que o escritor aprendeu e reproduziu enquanto esteve em Londres a serviço da companhia. Antonio Callado embarcou para a Inglaterra em 1941, aos 24 anos, para trabalhar na Seção Brasileira da BBC, então parte do Serviço Latino-americano. Seu contrato inicial era de seis meses. Callado acabou ficando por seis anos, entre 1941 e 1947. Ele passou vários meses do ano de 1945 em Paris, trabalhando para a Radiodiffusion Française, mas ao fim do ano já estava de volta a Londres. Embora tenha começado a trabalhar como redator da BBC em 1941, seus roteiros mais antigos datam de 1943 e isso se dá por algumas razões. A Seção Brasileira da BBC nasceu como parte do Serviço Latinoamericano, criado em 1938. As transmissões até 1943 ocorriam em xifopagia, ou seja, os textos eram transmitidos em espanhol e português simultaneamente, com trechos lidos primeiro em um idioma e depois 7


em outro, o que tornava a transmissão certamente cansativa para os ouvintes. Em novembro de 1943, a Seção Brasileira ganhou mais independência e mais programas, o que certamente se devia ao fato de que, em 1942, o Brasil entrara na guerra do lado dos Aliados. O programa Rádio Magazine, que veiculava os radiodramas de Callado, foi criado nessa época e ia ao ar nas noites de sexta-feira.1 Além disso, em 1943, Callado casa-se com sua primeira esposa, a funcionária de carreira da BBC Jean Maxine Watson, o que dá a ele o direito de trabalhar mais horas para a companhia. Isso graças à mudança em sua situação legal de permanência e trabalho na Inglaterra, possibilitada pelo matrimônio com uma cidadã britânica. Nos arquivos da BBC, encontramos um memorando interno, em inglês, reservado à administração, que afirma o seguinte: “O Sr. Callado, por intermédio de seu recente casamento, entra na categoria de artistas e locutores com parentesco com um membro do corpo de funcionários da companhia [...] Na prática, não se deve introduzir nenhuma restrição ao número de compromissos [de prestação de serviço] acima da média do que ele já tem atualmente”.2 Assim, com maior demanda de produção e a possibilidade de trabalhar mais horas para a companhia, Callado produzirá a partir de então peças para serem encenadas e transmitidas pelo rádio, além das traduções dos noticiários de guerra que vinha fazendo desde 1941. A análise, edição e publicação de tais peças é resultado de uma pesquisa que se iniciou em maio de 2014 nos Arquivos da BBC em Reading, Reino Unido, quando encontrei duas pastas seladas com o nome A. C. Callado, repletas de cartas, memorandos e recibos. Rastreando os recibos e as notas do departamento de copyright da BBC, pude localizar traduções, crônicas e peças radiofônicas que Callado produziu durante sua estada na Inglaterra e que tinham sido até então ignoradas por historiadores, críticos e biógrafos. Esse levantamento foi complementado com incursões aos arquivos pessoais de Callado, Ver: LEAL FILHO, Laurindo Lalo. Vozes de Londres: Memórias Brasileiras da BBC. São Paulo: Edusp, 2008. p. 43.

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Nos arquivos da BBC em Reading, Reino Unido: A.C. TALKS 1942-1962 [Livre tradução do inglês].

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doados à Fundação Casa de Rui Barbosa por Ana Arruda Callado. Da triangulação entre o material encontrado nos arquivos da BBC e nos arquivos da Casa de Rui Barbosa, nasceu a seleção das dezenove peças aqui apresentadas pela primeira vez em forma impressa para o público brasileiro. O interesse dessas peças se constitui, sobretudo, em três aspectos: estético, crítico e histórico. As que foram incluídas nesta publicação possuem dimensão literária, e sua leitura pode ser proveitosa não apenas para apreciadores da obra de Antonio Callado, ou simpatizantes de teatro ou radiodramas de forma geral, mas também para leitores não iniciados no universo da crítica especializada. Para os críticos e os estudiosos da produção literária de Antonio Callado, as peças têm um apelo profundo: trata-se das primeiras experiências ficcionais do autor, revelando o aspecto formativo de seus anos ingleses. Para historiadores e estudiosos da comunicação, estas peças são preciosas fontes primárias, com potencial para abrir novas rotas de pesquisa sobre a participação de intelectuais brasileiros na Segunda Guerra Mundial e nos mecanismos de propaganda britânica durante o conflito. A organização dos roteiros neste volume seguiu critério cronológico, com o intuito de proporcionar ao leitor não apenas um sentido de evolução temática e estilística do autor, mas também amostras de distintos momentos da Segunda Guerra Mundial, contextualizados em boa parte das peças. Temos, por exemplo, a ocupação francesa, tematizada em Jean e Marie; um balanço do conflito no ano de 1943, desenvolvido em Revista do ano; a atuação da RAF e o esforço de guerra, em Ainda mais Força Aérea; e uma sátira dos instrumentos de propaganda nazista cheia de elementos metalinguísticos, em Tristeza do Barão de Munchausen. Além disso, Callado faz inúmeras referências à tradição literária e científica brasileira e europeia, como em Santos Dumont, Lord Byron e a Grécia, Correio Braziliense, O exílio de Frédéric Chopin, Charles Dickens ou O mistério de Edwin Drood, e O poeta de todos os escravos, essa última tendo como protagonista o poeta Castro Alves. Somam-se aos temas já referidos, peças que se aventuram por enredos históricos ligados diretamente à formação política, social e da identidade cultural 9


do Brasil, como em A Eterna Descoberta do Brasil, América, 15 de novembro, “Cavalcade Carioca”, Rui, o professor de República e O recado de D. Pedro. Incluída nesse campo está também Le Visage du Brésil, peça representativa dos meses de 1945 em que Callado trabalhou na Radiodiffusion Française, retornando depois à Inglaterra e lá ficando até 1947. Durante o processo de edição desta coletânea, optei por traduzir para o português todas as indicações de cena e de sonoplastia das peças, originalmente em inglês, ou francês, no caso de Le Visage du Brésil. Embora tenha em consideração que as peças são importantes fontes primárias de pesquisa, optei por revisá-las de acordo com as normas ortográficas vigentes, de maneira a tornar a leitura viável para o grande público. Por serem transmitidas durante a guerra, as peças passavam também por censura prévia, e o nome do censor aparecia sempre indicado no cabeçalho dos roteiros. Em todos eles o nome era o de W. A. Tate, funcionário anglo-brasileiro do Serviço Latinoamericano que chegou à companhia pouco antes de Callado. No cabeçalho das peças, aparece também o nome do produtor M. C. K. Ould, funcionário da companhia.3 Nos roteiros originais há alguns cortes e marcas de edição do conteúdo que antecedem sua leitura e transmissão. Embora seja impossível saber se esses cortes foram fruto da edição do próprio Callado ou do censor, o que podemos afirmar com segurança é que as passagens cortadas não possuem nenhum sentido político particular, indicando tratar-se apenas de trabalho editorial. No entanto, mantive-as entre colchetes e em itálico, para que pesquisadores e críticos possam ter notícia dos processos de revisão e editoração que acompanharam os textos, sem que isso atrapalhe sua leitura e apreciação. É interessante ressaltar que algumas das peças que estavam nos arquivos da BBC tiveram cópias mimeografadas por Callado e podem ser encontradas nos seus arquivos pessoais, na Fundação Casa de Rui 3

Para mais informações sobre o staff do Serviço Latino-americano, ver: LEAL FILHO, Laurindo Lalo. Vozes de Londres: Memórias Brasileiras da BBC. São Paulo: Edusp, 2008; e BEZERRA, Elvia. Meu diário de Lya. Rio de Janeiro: Top Books, 2002.

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Barbosa. A diferença, no entanto, é que lá os roteiros encontram-se sem a data de transmissão pela BBC. Como muitas das cópias que estão no Brasil foram classificadas como “sem data” (s/d), a publicação desta coletânea serve também ao esforço de datação e classificação arquivística desses documentos, contribuição que presto com satisfação aos pesquisadores brasileiros e aos arquivistas da Fundação Casa de Rui Barbosa. Além disso, Callado reaproveitou posteriormente alguns desses roteiros para retransmiti-los no Brasil, por isso, sua classificação em arquivo traz geralmente a data de sua retransmissão, e não a de sua transmissão original pela BBC. Um exemplo disso é o roteiro Lord Byron e a Grécia. Nos arquivos da Fundação Casa de Rui Barbosa ele é datado como tendo sido transmitido pela Rádio Globo em 7 de setembro de 1947, quando Callado já havia retornado ao Brasil, mas, pelos recibos que encontrei na BBC, descobri que a peça foi transmitida pela BBC originalmente em 16 de setembro de 1943. Nos casos raros em que não foi possível determinar com precisão a data da peça, utilizei elementos do próprio texto, como referências a acontecimentos da guerra ou eventos políticos, para determinar a provável data da transmissão, o que ressalto em nota de rodapé. Gostaria também de chamar a atenção para o fato de que as peças possuem uma linguagem que se coaduna com a sensibilidade dos anos 1940. Há, ocasionalmente, expressões sexistas e epítetos raciais, mantidos apenas em consideração à dimensão histórica e documental do texto. Deve-se, portanto, ler essas passagens com capacidade crítica, entendendo-as no contexto histórico em que estão inseridas e à luz de uma perspectiva capaz de avaliar suas nuances ideológicas e identitárias. Em conjunto, os roteiros revelam um interessante esforço de síntese e uma tentativa de representação da identidade brasileira. O tom algo ufanista presente em algumas peças é marca de um momento em que as sensibilidades nacionais estavam afloradas. Callado foi certamente tocado pela tonalidade nacionalista das transmissões britânicas, que tinham o intuito de mobilizar os ânimos e o moral da população diante do esforço de guerra e dos bombardeios que atingiam 11


o Reino Unido. Por outro lado, a distância da terra natal e as saudades do Brasil certamente despertaram no autor um amor fervoroso pelo seu país, como revelou em diferentes entrevistas.4 Outro elemento a ser considerado é o contexto institucional no qual os roteiros foram produzidos. A British Broadcasting Company (BBC), criada na Inglaterra em 1922, se expandiu internacionalmente dez anos depois, em 1932, com o Empire Service, transmitindo em ondas curtas conteúdo em inglês para os territórios do Império Britânico. Em 1938, num movimento ousado de expansão internacional, a BBC lança um serviço em árabe para o Oriente Médio e, logo em seguida, em espanhol e português para a América Latina. O Empire Service é renomeado como BBC Overseas Service em 1939 e até 1942 já havia serviços transmitindo em ondas curtas em praticamente todas as línguas europeias, além de inúmeras línguas faladas na Ásia e no Oriente Médio, como o persa (1940), o malaio (1941) e o mandarim (1941). Esse expansionismo radiofônico teve razões muito pragmáticas desde o início. No caso do serviço em árabe, tratava-se de se contrapor às transmissões da rádio italiana instalada em Bari, que transmitia em árabe para o Oriente Médio. Itália e Alemanha já transmitiam para a América Latina em português e espanhol, o que impunha ao Reino Unido uma considerável desvantagem geopolítica.5 A guerra de propaganda radiofônica entre britânicos, de um lado, e italianos e alemães, do outro, começou, portanto, ainda em 1938, um ano antes do início formal da Segunda Guerra Mundial. É nesse contexto que se inserem as peças de radiodrama escritas por Callado a partir de 1943. Há ali um duplo esforço: estético e Ver: LEITE, Ligia Chiappini. Quando a pátria viaja: uma leitura dos romances de Antonio Callado. Havana: Casa de las Americas,1984 e RIDENTI, Marcelo. A guerrilha de Antonio Callado. In: KUSHNIR, Beatriz (Org.). Perfis cruzados: trajetórias e militância política no Brasil. Rio de Janeiro: Imago, 2002. p. 23-53.

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Ver: MANSELL, Gerard. Let Truth Be Told: 50 Years of BBC External Broadcasting. Londres: Weidenfeld & Nicolson, 1982; e CURRAN AND SEATON. Power without Responsibility: The Press and Broadcasting in Britain. Londres: Routledge, 1991.

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político. As peças trazem elementos de erudição histórica e literária, em parte porque o autor se formava intelectualmente enquanto as escrevia; trazem também uma busca por compreender o papel do Brasil num mundo em rearranjo rápido e violento; e trazem, por fim, um engajamento com a causa antinazista, que por razões institucionais e geopolíticas se confunde frequentemente com um pendor pró-britânico. O engajamento político e certa anglofilia, aliás, serão traços definidores da identidade intelectual de Antonio Callado e que o acompanharão até o fim. No seu obituário, publicado na revista IstoÉ em fevereiro de 1997, esses dois elementos aparecem de forma taxativa já no título, “Um gentleman indignado”, fazendo referência ao mesmo tempo à sua formação intelectual anglófila e ao seu contundente posicionamento político como intelectual.6 As peças aqui reunidas têm potencial para lançar uma luz nova sobre a produção de Antonio Callado, sobretudo, levando em consideração três aspectos: datação, temática e estilo. Em primeiro lugar, a simples descoberta desses radiodramas dos anos 1940 significa um choque com as cronologias oficiais, que mostram a estreia de Callado na literatura como tendo se dado apenas nos anos 1950, com a peça de teatro O fígado de Prometeu, de 1951, e o romance Assunção de Salviano, de 1954. Isso se dá porque os biógrafos e estudiosos da obra de Callado, até então, haviam se dedicado muito pouco ao trabalho de investigação nos arquivos, produzindo análises que se baseavam apenas em seus romances publicados e em entrevistas.7 Além disso, um aspecto constantemente ignorado pela fortuna crítica de Callado é o papel de seus anos na Inglaterra para o desenvolvimento de sua temática. Uma análise prévia dos radiodramas encontrados, sistematizada em outra publicação, mostra que vários dos elementos temáticos que o autor desenvolverá ao longo de sua 6

Um gentleman indignado – Antonio Callado morre aos 80 anos como exemplo de integridade intelectual. IstoÉ, 05 fev. 1997.

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Uma exceção a isso é a fotobiografia publicada por Ana Arruda Callado, que menciona a cópia do roteiro de “Cavalcade Carioca” que se encontra nos arquivos da Fundação Casa de Rui Barbosa. Ver: CALLADO, Ana Arruda. Antonio Callado: Fotobiografia. Recife: Cepe, 2013. 13


obra já aparecem nos roteiros dos anos 1940.8 Assim, analisando esses radiodramas em comparação com sua obra posterior, é possível entender melhor seu processo de formação intelectual, seu papel como intelectual brasileiro em plena Segunda Guerra Mundial e a influência de seus anos ingleses no desenvolvimento de sua temática. A análise deste material também abre uma trilha para se pensar sobre a contribuição que a linguagem do rádio e a cultura pop dos anos 1940 forneceram para a escrita de Callado. Afinal, textos críticos e biográficos já apontaram para a influência do cinema e até mesmo dos quadrinhos na obra do autor, uma vez que ele trabalhou como tradutor de quadrinhos para o jornal O Globo em fins dos anos 1930, junto com o colega Nelson Rodrigues.9 A partir desta seleção de roteiros, no entanto, fica claro que a influência da linguagem do rádio e da estrutura das peças transmitidas pela BBC devem ser levadas em consideração para se pensar a escrita do autor. Nos arquivos da BBC, foi possível encontrar inúmeras traduções feitas por Callado de radiodramas escritos originalmente em inglês, o que atesta que o autor aprendeu a estrutura e o modo de escrita dos roteiros apresentados pela companhia e os utilizou como modelo para suas próprias peças. Esses modelos de narrativa e diálogo tiveram impacto sobre a dramaturgia que Callado desenvolveu a partir dos anos 1950. Julgamos também que o momento da publicação destes textos inéditos é extremamente oportuno. Em 2017, comemorou-se o centenário do nascimento de Antonio Callado (1917-1997). Em 2018, se comemoraram os oitenta anos da fundação da Seção Brasileira da BBC, já que a primeira transmissão em português para a América Latina deu-se em 15 de março de 1938. Além disso, em 2019, haverá certamente uma série de programas, livros e debates sobre os Ver: THOMAZ, Daniel Mandur. Stepping onto an unknown island: the forgotten radio scripts of Antonio Callado. In: Portuguese Studies Review 23, 1 (2015):129 [Trent University, Canada]. O tema também é tratado em minha tese de doutorado, desenvolvida na Universidade de Oxford, Reino Unido, com financiamento da CAPES.

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Ver: MARTINELLI, Marcos. Antonio Callado: Um Sermonário à Brasileira. São Paulo: Annablume, 2006. p. 45

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oitenta anos do início da Segunda Guerra Mundial, sem dúvida, um dos fenômenos históricos e geopolíticos mais relevantes do mundo contemporâneo. Por fim, o nosso desejo é o de que a publicação destas peças sirva não apenas para entreter o público, o que por si só já seria uma grande missão, mas também para trazer à baila um importante material histórico com potencial de pesquisa excepcional. Em última instância, esperamos que as peças aqui reunidas possam renovar o ímpeto de críticos e estudiosos para repensar a obra de Callado, esse grande escritor, jornalista e brasileiro, cuja vida e obra misturam-se de maneira fascinante com a própria história do Brasil e do mundo durante o conturbado século XX. Oxford, Reino Unido, 8 de janeiro de 2018 Daniel Mandur Thomaz

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