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Tarzan, o rei da selva

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a v l e s a d i e or

EDGAR RICE BURROUGHS Tradução: Luis Reyes Gil


Edgar Rice Burroughs

Tradução: Luis Reyes Gil


Copyright © 2017 Autêntica Editora Título original: Tarzan of the Apes Fonte: www.gutenberg.org

Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

edição geral

Sonia Junqueira revisão

Maria Theresa Tavares capa

Alberto Bittencourt (sobre ilustração de Mirella Spinelli) diagramação

Guilherme Fagundes

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Burroughs, Edgar Rice, 1875-1950 Tarzan, o rei da selva / Edgar Rice Burroughs ; tradução Luis Reyes Gil. -- 1. ed. -- Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2017.

Título original: Tarzan of the Apes ISBN 978-85-513-0274-3

1. Literatura infantojuvenil I. Título.

17-06237

CDD-028.5

Índices para catálogo sistemático: 1. Literatura infantil 028.5 2. Literatura infantojuvenil 028.5

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Sumário Capítulo II Capítulo III Capítulo IV Capítulo V Capítulo VI Capítulo VII Capítulo VIII Capítulo IX Capítulo X Capítulo XI Capítulo XII Capítulo XIII Capítulo XIV Capítulo XV Capítulo XVI Capítulo XVII Capítulo XVIII Capítulo XIX Capítulo XX Capítulo XXI Capítulo XXII

Em alto-mar......................................... 7 A casa na selva .................................. 17 Vida e morte...................................... 25 Os macacos........................................ 31 O macaco branco............................... 37 Lutas na selva.................................... 43 A luz da razão ................................... 49 O caçador do alto das árvores ........... 59 Homem e homem............................... 65 O fantasma do medo ......................... 73 “O Rei dos Macacos”......................... 79 A razão do homem............................. 87 Da própria espécie............................. 95 À mercê da selva ...............................107 O deus da floresta.............................115 “Muito impressionante”....................119 Enterros............................................127 A selva cobra seu preço.....................137 O chamado do primitivo...................147 Hereditariedade................................157 A aldeia da tortura............................167 O grupo de buscas............................173 Capítulo XXIII Somos todos irmãos...........................183 Capítulo XXIV O tesouro perdido.............................191 Capítulo XXV O posto avançado do mundo............199 Capítulo XXVI O auge da civilização.......................209 Capítulo XXVII O gigante de novo.............................219 Capítulo XXVIII Conclusão ........................................231 Capítulo I


N.E. Ao longo da narrativa, percebe-se, em diferentes momentos, manifestações preconceituosas do narrador, sobretudo em relação aos homens negros que fazem parte da trama e à superioridade quase “mágica” do homem branco europeu de linhagem nobre. A esse respeito, é importante considerar a época em que foi escrito este livro, publicado em 1914, quando tal atitude era geral e quase “institucionalizada”.


Capítulo I

EM ALTO-MAR

S

oube desta história por meio de alguém que não tinha nenhum motivo particular para contá-la, a mim ou a quem quer que fosse. Talvez deva creditar o início dela à influência sedutora de um bom vinho sobre o meu narrador, e o resto desta estranha história à minha incredulidade durante os dias que se seguiram. Quando meu falante anfitrião percebeu que havia me contado muita coisa e que eu me inclinava a duvidar, seu tolo orgulho assumiu a tarefa iniciada pelo bom vinho, e então ele desencavou comprovações na forma de um bolorento manuscrito e de frios registros oficiais da Administração Colonial Britânica, a fim de dar sustentação a muitos dos principais aspectos desta singular narrativa. Não posso afirmar que a história seja verdadeira, porque não testemunhei os acontecimentos relatados, mas o fato de eu, ao contá-la, ter adotado nomes fictícios para os principais personagens, já é evidência suficiente da minha crença sincera de que possa ser verdadeira. As páginas amareladas, mofadas, do diário de um homem falecido há muito tempo e os registros da Administração Colonial encaixam-se perfeitamente com a narrativa do meu anfitrião; portanto, transmito a vocês a história do jeito que eu, com muito esforço, consegui montá-la a partir dessas várias fontes. Se não a acharem crível, no mínimo haverão de concordar comigo que se trata de uma história única, impressionante e interessante. A partir dos registros da Administração Colonial e do diário do homem falecido, ficamos sabendo que um certo jovem nobre inglês – vamos chamá-lo de John Clayton, Lorde Greystoke – recebeu a incumbência de fazer uma investigação particularmente delicada das condições de uma colônia britânica na costa ocidental da África. Sabia-se que, ali, outra potência europeia vinha recrutando os simples habitantes nativos para o seu exército local, empenhado apenas em extrair, de forma violenta, a borracha e o marfim das tribos selvagens ao longo do Congo e do Aruwimi. Os nativos da colônia britânica queixavam-se de que muitos de seus homens jovens eram atraídos por meio de promessas mirabolantes, 7


e que poucos, se é que algum, voltavam para suas famílias. Os ingleses da África diziam ainda que aqueles pobres negros eram mantidos praticamente escravos, pois depois que seu prazo de alistamento expirava, os oficiais brancos aproveitavam-se de sua ignorância e os faziam servir vários anos mais. Em resumo, a Administração Colonial nomeou John Clayton para um novo posto na África Ocidental Britânica, com instruções confidenciais centradas em uma exaustiva investigação do tratamento injusto dispensado aos súditos britânicos negros pelos oficiais de uma potência europeia amiga. Mas a razão de sua nomeação tem pouco a ver com a história, pois ele nunca chegou a realizar a investigação – na verdade, sequer chegou ao seu destino. Clayton era o tipo de inglês que gostamos de associar aos mais nobres monumentos de feitos históricos, como aqueles que retratam mil vitórias em batalhas: um homem forte e viril, no aspecto mental, moral e físico. Em estatura, estava acima da média; tinha olhos claros, traços regulares e fortes; seu porte era o de alguém robusto com saúde perfeita, resultado de anos de treinamento militar. A ambição política o tinha levado a procurar a transferência do exército para a Administração Colonial, e por isso o vemos, ainda jovem, encarregado de uma delicada e importante missão a serviço da Rainha. Quando lhe foi atribuída essa missão, ficou ao mesmo tempo exultante e alarmado. A promoção pareceu-lhe uma merecida recompensa por seu serviço dedicado e inteligente, e também um degrau para postos de maior importância e responsabilidade. Mas, por outro lado, havia se casado com a honorável Alice Rutherford, havia apenas três meses, e foi justamente a ideia de levar essa jovem para os perigos e o isolamento da África tropical que o deixou alarmado. Em consideração à esposa, pensou em recusar a missão, mas ela não concordou. Ao contrário, insistiu para que aceitasse e a levasse junto. Mães e irmãos e irmãs, e tias e primos, todos expressaram suas diversas opiniões sobre o assunto, mas a história silencia a respeito do que eles podem ter aconselhado. Sabemos apenas que, numa clara manhã de maio de 1888, John, Lorde Greystoke, e Lady Alice partiram de Dover rumo à África. Um mês depois, chegaram a Freetown, onde contrataram um pequeno barco, o Fuwalda, que iria levá-los ao destino final. Neste ponto, Lorde Greystoke e Lady Alice sumiram dos olhos e do conhecimento dos homens. Dois meses depois de terem levantado âncora e saído do porto de Freetown, meia dúzia de navios de guerra britânicos vasculharam o 8


Atlântico Sul para obter algum indício deles ou de seu pequeno barco, e não demorou para que encontrassem o naufrágio nas praias de Santa Helena, o que convenceu o mundo de que o Fuwalda havia afundado com todos a bordo. A busca, então, foi encerrada, embora mal tivesse começado; mesmo assim, a esperança ainda resistiu vários anos nos corações mais desejosos. O Fuwalda, um bergantim de cerca de cem toneladas, era uma embarcação do tipo que vemos com frequência no comércio litorâneo do mais distante Atlântico sul, com suas tripulações formadas pela escória do mar: assassinos não enforcados e bandidos de todas as cores e nacionalidades. O Fuwalda não era exceção. Seus oficiais eram valentões de pele escura, que odiavam e eram odiados pela tripulação. O capitão, embora marinheiro competente, mostrava-se brutal no trato com seus homens. Conhecia ou, pelo menos, usava apenas dois argumentos ao lidar com eles – uma malagueta e um revólver –, e tampouco é provável que aquele agrupamento heterogêneo que ele contratara fosse capaz de entender outra linguagem. Assim, após o segundo dia da partida de Freetown, John Clayton e sua jovem esposa testemunharam cenas no convés do Fuwalda que jamais acreditaram que pudessem ocorrer fora das ilustrações de histórias sobre o mar. Foi na manhã do segundo dia que se forjou o primeiro elo da sucessão de circunstâncias que resultaria na vida de uma pessoa, até então não nascida, que não teria paralelo na história do homem. Dois marinheiros limpavam o convés do Fuwalda, o primeiromestre cumpria seu turno e o capitão havia parado para conversar com John Clayton e Lady Alice. Os homens trabalhavam atrás do pequeno grupo, que estava de costas para eles. Os marinheiros foram se aproximando, até que um deles ficou logo atrás do capitão. Se tivesse simplesmente passado longe do grupo, esta estranha narrativa não teria sido registrada. Mas, nesse exato instante, o capitão virou-se para se afastar de Lorde e Lady Greystoke, e, ao fazer isso, tropeçou no marinheiro e caiu estendido no convés, derrubando o balde e ficando todo encharcado de água suja. Por um instante a cena foi cômica; mas só por um instante. Rogando mil pragas pavorosas, com o rosto vermelho de ódio e humilhação, o capitão voltou a ficar em pé e, com um poderoso murro, derrubou o marinheiro no convés. O homem era baixinho e já idoso, o que acentuou a brutalidade daquele ato. O outro marinheiro, porém, não era velho nem 9


baixinho: imenso como um urso, com bigodes pretos densos e um robusto pescoço de touro assentado entre ombros massudos. Ao ver o companheiro cair, agachou-se e, com um grunhido abafado, saltou sobre o capitão, fazendo-o cair de joelhos com um único e potente murro. O rosto do capitão passou de vermelho a branco, pois aquilo era uma sublevação, e ele já enfrentara e subjugara motins em sua brutal carreira. Antes mesmo de se levantar, puxou um revólver do bolso e disparou à queima-roupa na grande montanha de músculos que se erguia à sua frente. No entanto, apesar de sua rápida reação, John Clayton foi quase tão rápido, e a bala que era dirigida ao coração do marinheiro acabou se alojando na perna dele, pois Lorde Greystoke desviou o braço do capitão assim que viu a arma brilhar ao sol. Houve uma troca de palavras entre Clayton e o capitão, o primeiro manifestando sua indignação com a violência com que era tratada a tripulação, e deixando claro que não iria tolerar nada desse tom enquanto ele e Lady Greystoke estivessem a bordo. O capitão estava prestes a dar uma resposta irada, mas, pensando melhor, virou as costas, furibundo, de cara amarrada, e caminhou em direção à popa. Preferiu não contrariar um oficial inglês, já que o poderoso braço da Rainha brandia um instrumento de punição que ele era capaz de prever e de temer: a Marinha inglesa, com seu poder de longo alcance. Os dois marinheiros se levantaram, o homem mais velho ajudando seu companheiro ferido a se erguer. O grandalhão, conhecido entre seus companheiros como Black Michael, avaliou com cuidado a perna ferida e, concluindo que conseguiria suportar seu peso, voltou-se para Clayton e dirigiu-lhe um tosco agradecimento. Embora o tom fosse rabugento, suas palavras evidentemente eram sinceras. Mal havia concluído sua breve fala e já virou as costas e saiu mancando em direção ao castelo de proa, com a evidente decisão de cortar logo qualquer conversa adicional. Eles não o viram de novo por vários dias, e o capitão tampouco concedeu-lhes mais do que o mais mal-humorado dos grunhidos quando era obrigado a falar com eles. Continuaram fazendo todos as refeições na cabine do capitão, como antes do infeliz acontecimento; mas este fazia questão de que suas obrigações nunca lhe permitissem comer na mesma hora que os demais. Os outros oficiais do barco eram sujeitos rudes, analfabetos, mas de nível um pouco acima da turba bandida que intimidavam, e estavam muito satisfeitos em evitar o contato social com o refinado nobre inglês 10


e sua senhora; portanto, os Clayton passavam a maior parte do tempo por conta própria. Isso correspondia muito bem ao seu desejo, mas também isolavaos da vida no pequeno barco, de modo que não mantinham contato com os acontecimentos diários que, em breve, iriam culminar em uma sangrenta tragédia. Havia entre a tripulação aquela atmosfera indefinível que pressagia o desastre. Para os Clayton, tudo parecia seguir como antes; mas havia uma contracorrente que os levava para algum perigo desconhecido que ambos pressentiam, embora não falassem a respeito. No segundo dia depois de Black Michael ter sido ferido, Clayton apareceu no convés exatamente a tempo de ver o corpo sem forças de um dos membros da tripulação sendo carregado para baixo por quatro de seus companheiros, enquanto o primeiro mestre, com uma pesada malagueta na mão, olhava com raiva para o pequeno grupo de irados marinheiros. Clayton não fez perguntas – nem era preciso –, e no dia seguinte, à medida que o perfil de um navio de guerra britânico crescia no horizonte distante, ele quase decidiu que pediria para ser colocado a bordo junto com Lady Alice, pois crescia seu temor de que sua permanência no tenebroso Fuwalda só pudesse resultar em algum dano. Por volta de meio-dia, já estavam próximos do barco britânico o suficiente para serem ouvidos, mas quando Clayton ia pedir ao capitão para colocá-los a bordo, o óbvio ridículo de tal pedido de repente ficou escancarado. Que razão poderia ele dar ao comandante do navio de sua majestade para querer voltar na direção da qual acabava de vir?! E se dissesse que dois marinheiros insubordinados haviam sido maltratados por seus oficiais? Iriam rir à socapa e atribuir o motivo de ele querer deixar o navio a uma coisa apenas: covardia. John Clayton não pediu para ser transferido para o navio de guerra britânico. Mais para o final da tarde, viu o grande vulto desaparecer no horizonte, não antes de ter percebido aquilo que confirmou seus maiores temores, e que o fez maldizer o orgulho que o impedira de buscar a segurança para sua jovem esposa algumas horas antes, quando essa segurança ainda estava ao alcance – uma segurança agora perdida para sempre. No meio da tarde, o velho marinheiro baixinho, que havia sido derrubado pelo capitão alguns dias antes, apareceu no convés e foi até onde Clayton e sua esposa estavam, junto à amurada, observando o perfil do grande navio de guerra cada vez menor. O velho estava polindo os metais do barco, e quando chegou ao lado de Clayton, disse, baixando o tom de voz: 11


– Senhor, vai haver confusão aqui com a tripulação, pode anotar o que eu disse, senhor. Vai ter confusão. – O que está dizendo, meu bom amigo? – perguntou Clayton. – O senhor não viu o que aconteceu? Não viu aquele capitão dos infernos e os oficiais dele arrebentando a cabeça de um dos membros da tripulação? Duas cabeças arrebentadas ontem e três hoje. O Black Michael já está bom de novo, e não é de ficar quieto, ah, ele não é; pode anotar o que eu disse, senhor. – Está dizendo, amigo, que a tripulação pensa em se amotinar? – perguntou Clayton. – Motim! – exclamou o velho marinheiro. – Motim! Eles querem matar, senhor, pode anotar o que eu disse. – Quando vai ser? – Será logo, senhor; será logo, mas não vou dizer quando, e já falei demais, mas o senhor agiu bem no outro dia, então achei melhor avisá-lo. Mas fique de bico calado, e quando ouvir tiros desça e fique lá. Isso é tudo, fique de bico calado, se não vão enfiar uma bala nas suas costelas, e anote o que eu disse, senhor – o velho continuou a polir os metais do barco e foi se afastando dos Clayton. – Belo panorama temos pela frente, Alice – disse Clayton. – Você deveria avisar o capitão imediatamente, John. Talvez assim a confusão possa ser evitada – disse ela. – Suponho que sim, mas, por motivos puramente egoístas, estou quase tentado a “manter o bico calado”. Seja lá o que eles vierem a fazer, seremos poupados, em reconhecimento à minha defesa do Black Michael, mas se eles descobrirem que eu os traí, não terão compaixão. – Você tem um dever a cumprir, John, e é no interesse da autoridade investida. Se não advertir o capitão, será cúmplice do que vier a acontecer, como se tivesse ajudado a conceber o complô e o tivesse levado adiante com a própria cabeça e as próprias mãos. – Você não está entendendo, querida – replicou Clayton. – É em você que estou pensando: é nisso que vejo meu primeiro dever. Foi o capitão que criou essa situação para si mesmo, então por que devo arriscar sujeitar minha esposa a horrores impensáveis ao fazer uma tentativa talvez inútil de salvá-lo da própria loucura violenta? Você não faz ideia, querida, do que pode acontecer se esse bando de degoladores assumir o controle do Fuwalda. – Dever é dever, John, e não há argumentos sofisticados que possam mudar isso. Eu serei uma esposa de pouco valor para um lorde inglês se 12


ele deixar de cumprir um dever por minha causa. Percebo o perigo que pode decorrer disso, mas posso enfrentá-lo junto com você. – Bem, então vamos fazer do seu jeito, Alice – respondeu ele, sorrindo. – Pode ser um exagero de nossa parte. Embora eu não goste de como as coisas estão indo a bordo deste barco, talvez elas não estejam tão mal assim. Quem sabe o velho marinheiro estivesse apenas dando voz aos desejos de seu coração perverso, em vez de falar de coisas concretas. Motins em alto-mar podem ter sido comuns há uma centena de anos, mas em 1888 é uma das coisas menos prováveis de acontecer. Veja! Lá vai o capitão para sua cabine. Se eu tenho que avisá-lo, é bom que cuide logo dessa estúpida tarefa, pois tenho pouco estômago para falar com esse grosseirão. Dizendo isso, foi andando despreocupado em direção à escadaria que o capitão acabara de subir, e no instante seguinte já batia à sua porta. – Pode entrar – grunhiu a voz rouca do mal-humorado comandante. Quando Clayton entrou e fechou a porta, prosseguiu: – O que quer aqui? – Vim aqui relatar o resumo de uma conversa que ouvi hoje, porque achei que, embora ela talvez não signifique nada, é bom que o senhor fique de sobreaviso. Em síntese, os homens estão com a intenção de se amotinar e matar. – Isso é mentira! – gritou o capitão. – E se você estiver interferindo de novo na disciplina deste barco ou se metendo em assuntos que não lhe dizem respeito, poderá sofrer as consequências e se dar muito mal. Para mim não faz diferença que você seja um lorde inglês. Eu sou o capitão deste navio, e de agora em diante é bom você não ficar metendo o nariz nos meus negócios. O capitão havia chegado a um tamanho frenesi de raiva que seu rosto ficou quase púrpura, e ele berrou as últimas palavras já no limite de sua voz, dando ênfase às suas observações com um sonoro murro na mesa, dado por um de seus imensos punhos, enquanto brandia o outro na frente do rosto de Clayton. Greystoke não mexeu um fio de cabelo, ficou apenas olhando para aquele homem exaltado, sem se alterar. – Capitão Billings – disse ele pausadamente –, se me permite a franqueza, não posso deixar de observar que o senhor é um perfeito imbecil. Dito isto, virou as costas e deixou o capitão, com a calma indiferença que lhe era peculiar e que, com certeza, era calculada para acentuar a ira de um homem da classe de Billings, mais do que o faria uma profusão de impropérios. 13


Assim, embora o capitão pudesse ter se arrependido de sua fala precipitada caso Clayton tivesse tentado argumentar com ele, seu estado de espírito estava agora irrevogavelmente assentado nos moldes em que Clayton o deixara, e a última chance de ambos atuarem juntos em busca de um entendimento havia se perdido. – Bem, Alice – disse Clayton, ao se juntar à esposa –, eu poderia ter poupado minhas palavras. O sujeito se mostrou muito ingrato. Quase saltou em cima de mim como um cão raivoso. Ele e seu maldito barco velho que se danem, pouco me importa; e até que possamos nos ver a salvo dessa coisa, quero gastar minhas energias cuidando do nosso bem-estar. E acho que o primeiro passo para isso é irmos até nosso camarote procurar meus revólveres. Lamento agora que tenhamos deixado as armas maiores e a munição lá embaixo, junto com nossa bagagem. Encontraram seus aposentos em uma bagunça completa. As roupas das gavetas e malas estavam espalhadas por todos os cantos do camarote, e até as camas estavam reviradas. – Evidentemente, alguém estava mais ansioso do que nós em relação aos nossos pertences – disse Clayton. – Vamos dar uma boa olhada, Alice, e ver se está faltando alguma coisa. Uma busca cuidadosa revelou que nada havia sido levado, a não ser os dois revólveres de Clayton e o pequeno suprimento de munição que ele reservara. – São as coisas que eu mais queria que tivessem deixado aqui – disse Clayton –, e o fato de terem vindo buscar exatamente isso, e somente isso, não deixa de ser bastante sinistro. – O que devemos fazer, John? – perguntou a esposa. – Talvez você tivesse razão quando disse que o melhor seria manter uma posição neutra. Se os oficiais forem capazes de evitar um motim, não há o que temer, mas se os amotinados conseguirem vencer, nosso único fio de esperança está no fato de não termos tentado impedi-los ou contrariá-los. – Você está certa, Alice. Vamos nos manter à distância. Enquanto arrumavam o camarote, Clayton e a esposa, simultaneamente, viram a ponta de um pedaço de papel aparecendo por debaixo da porta. Quando ele se agachou para tentar descobrir o que era, surpreendeu-se ao ver que o papel estava sendo enfiado para dentro do quarto, ou seja, havia alguém do lado de fora fazendo isso. Avançou rápido e silencioso, mas quando alcançou a maçaneta para abrir a porta, a mão da esposa pousou em seu punho. – Não, John – cochichou ela. – Eles não querem ser vistos, então é melhor não vê-los. Não esqueça que estamos tentando nos manter neutros. 14


Clayton sorriu e tirou a mão da maçaneta. Ficaram ambos em pé, olhando o pequeno pedaço de papel ser introduzido até ficar totalmente visível no chão do quarto. Então Clayton agachou-se e pegou-o. Era um pedaço de papel branco, meio sujo, dobrado em quatro. Ao abri-lo, viram que continha uma mensagem tosca, escrita de modo quase ilegível, e com muitas evidências de que seu autor não era alguém acostumado a escrever. Traduzida, era uma advertência aos Clayton para que não relatassem o sumiço dos revólveres, nem reportassem o que o velho marinheiro havia dito, sob pena de serem mortos. – Imagino que o melhor é ficarmos quietos – disse Clayton com um sorriso amarelo. – Pouco mais podemos fazer do que sentar aqui e esperar pelo que venha a acontecer.

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