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A silenciosa inclinação das águas

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S E N S

A silenciosa inclinação das águas R O M A N C E


A L E X

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A silenciosa inclinação das águas –

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Copyright © 2019 Alex Sens Copyright © 2019 Autêntica Editora Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora. EDITORAS RESPONSÁVEIS

Rejane Dias Cecília Martins PREPARAÇÃO

Samira Vilela REVISÃO

Bruna Fernandes CAPA

Diogo Droschi (sobre imagem de Sakda Tiew/Shutterstock) DIAGRAMAÇÃO

Larissa Carvalho Mazzoni

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Sens, Alex A silenciosa inclinação das águas : parte 1 / Alex Sens. – 1. ed. – Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2019. ISBN 978-85-513-0516-4 1. Ficção brasileira I. Título. 19-24779

CDD-B869.3

Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura brasileira B869.3 Iolanda Rodrigues Biode - Bibliotecária - CRB-8/10014

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1. A morte

Magnólia estava na cama, sentada sobre as próprias pernas, e ainda não tinha saboreado completamente o primeiro gole de um Tokaji húngaro quando a palavra “aborto” colou em seu palato como pequenos cristais ácidos e escuros de sedimento. Num gesto distraído, quase automático, pousou a taça na mesa de cabeceira, puxou para cima a camisa azul de linho e levou a mão esquerda à barriga, onde três meses atrás nadava seu filho de dois meses – ou, como os médicos costumam dizer com uma sensibilidade glacial, um feto de oito semanas. No dia do aborto, entorpecida por um alívio que não sentia há muitos anos, ela tinha ficado animada com a possibilidade de finalmente abrir aquele vinho dourado, presente de seu chefe, mas o caráter comemorativo seria tão ofensivo para Herbert quanto atirar em sua cara uma placenta suja de sangue. A gestação nunca seria mais prazerosa do que aquela garrafa, do que aquele vinho, disso ela tinha certeza agora, apesar do desconforto inesperado. E se o alívio que sentira na época havia soado como um chute no saco do marido, que isso não fosse apenas uma metáfora, mas que significasse na prática uma esterilidade permanente entre eles. De maneira perfeita, o sol formara um imenso adesivo amarelo na parede do quarto, como um lembrete de que ainda não passava das oito horas da manhã, flambando a consciência 11


de Magnólia em giros delicados e enjoativos, até que ali, na concha sombria que era a foz entre os pensamentos e os lábios, o álcool evaporasse, restando apenas a massa tartárica de sua vergonha. Tudo por causa do horário e porque se culpava um pouco (só um pouco) por fazer algo tão simples e bom de forma secreta – afinal, tinha esperado Herbert ir trabalhar para abrir o vinho escondido sob a cama, não tinha? Magnólia podia ser uma intérprete mordaz dos defeitos alheios, podia julgar em silêncio, como sempre fizera por trás das abas largas dos seus chapéus de feltro ou de gordas taças cheias de vinho. No entanto, era como uma criança com transtorno mental aprendendo a andar quando a interpretação tinha de ser dos próprios defeitos, dos próprios tropeços, daquela vida da qual estava cansada de viver cansada. Magnólia atribuía o poder do vinho e sua fuga indomável para os prazeres não só à sua duvidosa autoindulgência, mas também a uma necessidade de se libertar do comum. Ter um segredo a mais ou a menos, ser feliz por algo que causasse tristeza no outro… não via essas coisas como crimes. E, diferente de um pequeno comensal dentro de sua barriga, uma taça de vinho não transformaria seu corpo em uma bolha flácida de fadiga cheia de estrias. Os pensamentos sobre a gravidez vinham como parentes indesejados após um almoço de domingo: sem avisar. Mas o que os tornara suportáveis durante as últimas semanas foi exatamente a indiferença com que Magnólia os recebia. Quando e se por algum motivo começavam a incomodá-la, conseguia desviar o foco de sua atenção – bebia outra taça de vinho, limpava todos os livros das estantes da sala, procurava por uma nova luminária na internet, comia sorvete direto do pote com a porta da geladeira aberta ou, impassível diante dos próprios julgamentos e de uma ousadia que no fundo lhe provocava um prazer diabólico, se masturbava. Raramente vinham os orgasmos, porque no meio do caminho a imagem do feto ainda não formado lhe provocava repulsa, angústia e um pouco de ódio. Retirava os dedos do meio das pernas como se estivessem cobertos de merda, corria 12


ao banheiro e os esfregava ainda nua, ou com as calças nos joelhos, diante do espelho. Quando se permitia encarar o reflexo amortecido por um orgasmo tão abortado quanto a criança, sentia uma terrível autopiedade com a qual não gostava de conviver. Passava a mão já limpa sobre a barriga, dedilhava o umbigo e a virilha, virava de lado e admirava o mesmo perfil mantido há mais de vinte anos, exceto por uma costela mais aparente, uma pele mais branca e o surgimento de meia dúzia de pintas herdadas da mãe. Se Magnólia pudesse se premiar, com certeza seria pelo constante cuidado com a forma física – sem nunca cair para o lado amargamente neurótico da linhaça dourada. Esse era seu trunfo. Com dificuldade, quase como se estivesse em câmera lenta, ela esticou o braço e apanhou a taça, bebendo dois goles maiores. O vinho húngaro desceu mais doce que o desejado, estava quente demais para a bebida, mas havia cansado de esperar pela ocasião especial. Conseguir acordar ainda viva era uma ocasião especial. No entanto, as texturas da vida e da morte vinham se confundindo cada vez mais desde o ano anterior, e às vezes ela despertava se sentindo tão leve e feliz que pensava estar morta. Finalmente. Ao mesmo tempo, abrir os olhos fingidamente fechados de sono depois de ouvir Herbert deixar o apartamento com o conhecido tilintar de chaves apenas porque havia uma garrafa de vinho embaixo da cama… bem, isso começava a se manchar de constrangimento quando ela pensava na história do irmão. Não sabia ao certo se Orlando chegara a guardar ou ainda guardava suas garrafas de uísque sob a cama, mas a felicidade em razão de um pouco de álcool antes das oito horas da manhã não deixava Magnólia mais tranquila nem menos triste. Sim, era inegável e deliciosamente boa aquela noção de liberdade, de ter o apartamento todo para si e, acima disso tudo, de poder beber o quanto quisesse sem o olhar emburrado do marido. Herbert parecia até menos controlador, se ela parasse para analisar seu comportamento. Podia envolvê-la e repreendê-la com um único olhar, como 13


um pai mal-humorado que não sabe como agir diante de uma criança que avança sobre uma barra de chocolate, mas era só isso. A expressão verbal não vinha, e, com um rápido exercício de respiração, ele era capaz de desviar os olhos para que Magnólia descobrisse por si mesma o que seria melhor para ela. Não conseguia precisar exatamente em que dia e em que momento Herbert dera início a essa nova personalidade, como se ele fosse programado por um botão que, por azar, ela não o tinha flagrado girando. No entanto, era cristalina a época da mudança, e isso foi na semana que se seguiu à notícia da gravidez. E se por um lado Magnólia tinha gratidão a um deus qualquer, no qual não acreditava, pelo aborto sofrido em novembro, por outro amargava a pouca felicidade do marido quando, aos 42 anos, ela anunciou com os olhos arregalados, entrando na sala e jogando sua bolsa no sofá, que estava grávida. Talvez o modo como dissera tivesse sido tão maldoso quanto depositar um cubo de gelo dentro da cueca de Herbert, mas não acreditava muito nessa hipótese. Ele não queria ser pai e sabia que ela não queria ser mãe. A notícia, apesar de desenhar no rosto dele um sorriso menos autêntico que preocupado, formando de novo aqueles traços tão belos em torno de seus olhos escuros, ficara suspensa entre os dois, um pouco acima de suas cabeças apoiadas no sofá, como um fantasma de dúvida e medo. Não comemoraram, apesar de um abraço estranho do tipo que se dá em alguém no velório de um desconhecido. Não fizeram planos, não conversaram sobre isso naquele instante, nem comentaram que nome a criança teria caso fosse menina ou menino. Foi só depois do aborto que Magnólia pensou nisso tudo, como uma espécie de vingança contra si mesma. Não tendo mais o objeto, podia construí-lo à sua maneira, embora aquele, especificamente, fosse mais interessante, e quem sabe até perfeito, enquanto permanecesse desconstruído. Na verdade, ao deixar cair a bolsa no sofá enquanto dava a grande notícia, pensava também ter deixado cair junto qualquer fragmento de amor que pudesse sentir por aquela outra vida não planejada. 14


O silêncio de Herbert, como Magnólia dissera para ele no dia do aborto, também havia sido responsável por sufocar a criança – ou o feto, como ele havia chamado, com a mesma frieza dos médicos, o filho que já nem existia. Ela deixou a camisa aberta enquanto dava goles mais curtos. Precisava ver a barriga permanente, o corpo inalterado, fazia questão disso enquanto pudesse beber. Se as emoções continuavam perigosas e oscilantes em sua mente, pântano viscoso com águas escuras das quais ninguém saía o mesmo, o corpo se mantinha. E, invariavelmente, um sempre teria influência sobre o outro, por isso o número monstruoso de pequenas cicatrizes – em menor quantidade se comparadas às internas. Naquele momento, quando terminou a primeira taça, quase com um suspiro, Magnólia não sentiu mais nada. Abotoou a camisa que era de Herbert (ainda tinha o cheiro almiscarado do seu perfume, e ela já nem lembrava mais por que a vestia), colocou a taça no chão e deitou outra vez, arrumando os lençóis e esperando que aquele dia já terminasse e que fosse menos quente. Era urgente não só a chegada dele, mas da noite, quando enfim conheceria, durante um jantar marcado e remarcado, com a primeira reserva feita num restaurante italiano antes da passagem do ano, aquela que lhe vinha tirando o sono – e às vezes até a vontade de beber. Ou seria de viver? Agora ela sorria porque uma coisinha ordinária, um detalhe simples, faria toda a diferença caso Herbert voltasse e a visse deitada assim na cama, de calcinha e camisa, quase uma ninfeta. A pele lisa e clara como casca de ovo (talvez igualmente frágil), as pernas longas, o convite para aquele corpo muito mais novo que a sua idade – ela sabia que eram os anos de vinho; se não fossem eles, teria a aparência acabada de um borderline comum. Herbert a amaria outra vez daquele jeito, com o mesmo calor e a mesma fome insaciável de onze anos atrás. De repente, o tempo esmagou seu sorriso, aquele casamento de mais de uma década tombou sobre seus lábios, dando a Magnólia uma expressão que lembrava um derrame. Ela estava sozinha, podia 15


fazer o que quisesse, inclusive aquilo: uma careta. Voltar a ser a menina que fazia caretas no espelho. Era divertido agir assim depois de adulta, ninguém via, ninguém veria. Não que tivesse nojo do casamento, que estivesse cansada, mas doía acreditar que tinha se passado tanto tempo. E o número de anos era muito maior que o de traições, então não tinha do que se envergonhar, a não ser quando voltava a sentir por Herbert o mesmo amor maternal que nunca teria por um filho. Quando se amavam profundamente, quando olhavam nos olhos um do outro sem nenhum apelo, quando pareciam mais íntimos que antes, esse era o momento de sentir o ranço da culpa, de tentar afastar o rosto dele com as mãos e chorar até que perdesse as forças, deixando-o confuso naquela distância intocável a que o submetia. Magnólia sabia como manipular as pessoas, mas não era intencionalmente que chorava diante de Herbert, pelo menos não de forma consciente. E só não o deixava porque, mesmo durante um período de ódio, se conhecia o suficiente para saber que voltaria a amá-lo. Sem perceber, manteve a mão sobre a barriga. Quando rolou para fora da cama, Magnólia pegou a taça, fechou a garrafa de vinho e levou ambas até a cozinha. Estava descalça, mas o alívio do chão frio durou pouco porque fazia muito calor – tinha vontade de ficar inconsciente até o fim do dia só de imaginar a temperatura dali a duas ou três horas, quando sentiria vontade de almoçar um prato de salada de palmito com um copo de água gelada. Exceto pela cozinha, cujo piso inteiro era feito de tábuas largas e amendoadas de madeira de demolição, dando um ar rústico ao lugar, o chão do apartamento era todo coberto por réguas avermelhadas de cabreúva, embora nos últimos anos o cuidado com a madeira tivesse diminuído e já fossem visíveis os pontos desbotados, riscados e outros tantos manchados. Magnólia amava o apartamento com evidente orgulho: suas reproduções de Malevich e Lissitzky, seus tapetes persa, as estantes e os gaveteiros de jacarandá, suas cadeiras estilo Selig, onde podia passar horas 16


lendo, e o sofá de couro vermelho, o grande jarro de vidro azul com talheres Werkstätte, o divã água-marinha Eric Berthès que Herbert arrematara num leilão e que não servia para nada a não ser embelezar a área das janelas com suas cortinas cor de cera, todas aquelas coisas e mais um pouco que conseguira reunir nos últimos vinte anos, com e sem o marido. Entretanto, no verão, as cores de que mais gostava, como cereja, vinho, avelã, chocolate e café (mistura essa que daria um ótimo bolo, em sua opinião), e todas aquelas texturas, o caráter elegante do apartamento, inclusive os trechos de parede onde sobressaíam lascas e bolhas de umidade, tudo isso parecia aumentar o calor no verão. Definitivamente, era a estação em que Magnólia se sentia mais disposta às imprecações para trocar tudo aquilo por uma tenda fresca em alguma ilha governada por ventos fortes com perfume de cravo e flor-de-laranjeira. Tudo o que mais queria agora era ser chamada para um novo curso em algum país frio da Europa, algo distante e mais tradicional do que a viagem para a Nova Zelândia feita em 2013 – a viagem que já tinha quase seis anos, mas que ainda a incomodava depois da briga com Orlando e com o caso estúpido que mantivera por doze dias com um australiano possessivo. Antes que o rosto do homem retornasse com nitidez, ela bebeu dois copos de água em goles exagerados, como se assim pudesse afogar parte da sua memória. Na sala de estar, voltou a pensar na luminária ideal que vinha desejando. Uma luminária sóbria e ao mesmo tempo diferente, curiosa, que combinasse com o estilo dos móveis. Algo como o modelo industrial de pêndulo do sueco Johan Petter Johansson, com o metal levemente envelhecido e as juntas articuladas cromadas. Uma peça única, era isso o que precisava. Estava virando uma espécie de saga, de novela ou, melhor, de peregrinação a busca pela luminária perfeita. Talvez ainda piorasse se o desejo vazasse para outros cantos do apartamento e invadisse a área dos escritórios, por exemplo: afinal, tanto ela quanto Herbert precisavam de novas luminárias sobre suas 17


mesas. Desde a nova pintura dos cômodos, um tom de amareloambrosia que substituiu o branco gelo, quase tudo o que ainda tinham parecia suplicar para ser trocado. Foi necessário algum tempo para que Magnólia percebesse o que estava se tornando: uma dona de casa meio fútil, embora feliz, preocupada com a decoração. Se antes a aparência do apartamento parecia uma extensão dos seus gostos pessoais em um mundo particular (e um pouco das características de Herbert, tinha de admitir a contragosto), uma coisa mais natural e viçosa, como se não tivesse havido nenhum trabalho para ela, como se o ambiente fosse o que fosse porque nascera assim, agora parecia um desafio manter essa aparência de maneira harmônica, mas sobretudo sentir-se satisfeita com ela, sem aquela vontade febril de mudar os móveis de lugar a cada quinze dias. Sara teria gostado de ajudá-la, saberia realçar de maneira única cada metro quadrado do apartamento. Ela própria tinha de dar um jeito tanto no lugar quanto na vida, mas não faria nada até que o interfone tocasse. Diante do apartamento vazio e de uma crise de ansiedade iminente, Magnólia tirou a camisa, atirou-a sobre o sofá e ficou só de calcinha na sala. Era libertador não precisar de um sutiã. Era libertador – voltou a pensar na gestação – não precisar usar calcinhas com elástico. Quando tinha seus períodos de inchaço, eram as calcinhas que indicavam um caminho mais cuidadoso, refeições mais leves e um desejo, mais do que uma necessidade, de caminhar pelo bairro. Ela detestava academias, nunca seria o tipo de mulher que cultua o físico como objetivo de vida, mas sim aquele com o qual se sentisse bem enquanto estivesse dentro dos padrões de sua própria admiração. Magnólia espiou através das janelas da sala. Tinha uma confiança cega em sua discrição, mas não nos moradores do prédio que ficava do outro lado do quarteirão, embora mostrar os seios para desconhecidos não fosse a pior coisa do mundo. Ligou o aparelho de som que Herbert lhe dera no ano em que se conheceram, um modelo grafite da JVC, e começou a 18


inventar uma dança enjoativa ao som de “You Don’t Own Me”. Depois de dançar com os braços erguidos, como se estivesse mergulhada nas águas da voz irritante de Lesley Gore, pegou outra vez a garrafa de vinho e bebeu direto do gargalo. Com o calor e a graduação alcoólica do Tokaji, ela sentiu como se todo o verão escorresse por sua garganta, incendiando seu corpo e pedindo que continuasse a dançar. Abriu espaço na sala sobre o tapete, afastando poltronas e a mesa de centro, e dançou abraçada à garrafa, o vidro quase fresco depositado entre os seios e o embalo da música abrindo um novo portal de prazeres únicos no coração de Magnólia. Quando a canção foi substituída por “It’s My Party”, não viu razão para não estar feliz. Não conseguia sentir nada ruim, não precisava. Era a sua festa particular, o seu mundo. A manhã era toda dela, podia morder com força sua polpa e deixar vazar seu caldo doce e alcóolico de liberdade. Herbert estava trabalhando, chegaria só no fim da tarde; seu corpo continuava o mesmo, não tinha mais por que se preocupar com um filho, e automaticamente sua mão deslizou pela barriga outra vez. Deixou a garrafa de vinho no chão, voltou a pensar na luminária. Queria muito mais a luminária do que o filho, isso era incontestável, e hoje, agora, nesse instante, não sentia vergonha disso. Foi então que parou de se balançar, pegou a garrafa outra vez e a colocou ao lado do aparelho. Desligando-o com o dedo indicador, ouviu outra vez o silêncio pulsar no apartamento. Era um silêncio opressivo que finalmente conseguiu arrancar dela uma única lágrima. Lesley Gore era a cantora favorita de Elisa durante a adolescência. A irmã costumava inventar coreografias exageradas e caricatas de suas músicas para as apresentações especiais da escola. Magnólia ligou novamente o aparelho de som, selecionou “You Don’t Own Me” mais uma vez e aquela sensação de que as coisas podiam dar certo voltou. A sensação de que a manhã e a tarde eram dela retornou com mais força e mais viço. Elisa estava morta há seis anos, nunca mais poderia criticá-la, embora 19


ela fosse permanecer para sempre naquelas músicas, maculando o presente e cutucando a memória com os espinhos de pelúcia cor-de-rosa de sua tão irritante serenidade. Magnólia podia dançar, podia se demorar, podia chorar – afinal eram suas férias e ela merecia aproveitá-las como bem quisesse. Ela podia inclusive forçar uma realidade perfeita, resolvida, só não podia estar mal quando a tarde chegasse e seu chefe tocasse o interfone, cheirando à ansiedade, bufando com urgência, para provar aquele vinho quente no suor da sua cama e no calor da sua pele.

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