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Chapadão do bugre

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MÁRIO PALMÉRIO

Chapadão do Bugre


MÁRIO PALMÉRIO

Chapadão do Bugre


Copyright © Herdeiros de Mário Palmério Copyright © 2019 Autêntica Editora Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

editora responsável

capa

Maria Amélia Mello

Diogo Droschi sobre imagem de Maureen Bisilliat, Instituto Moreira Salles.

editoras assistentes

Cecília Martins Rafaela Lamas

Foto do autor na contracapa: Acervo O Globo, João Roberto Ripper.

revisão

Imagem da guarda: Acervo Memorial Mário Palmério, fac-símile do Glossário Palmeriano.

Miriam de Carvalho Abões Rejane Dias dos Santos

diagramação

Larissa Carvalho Mazzoni

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil

Palmério, Mário, 1916-1996 Chapadão do Bugre / Mário Palmério. -- 13. ed. -- Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2019. ISBN 978-85-513-0329-0 1. Ficção brasileira I. Título. 17-11717

CDD-869.3

Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura brasileira 869.3

Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465 4500 www.grupoautentica.com.br

São Paulo Av. Paulista, 2.073, Conjunto Nacional, Horsa I 23º andar . Conj. 2310-2312 Cerqueira César . 01311-940 São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468


A minha mãe

A Rachel de Queiroz Afonso Pena Júnior Antonio Houaiss Cavalcanti Proença Nelson de Faria Célia e Poty

A Daniel Pereira – Beléu – meu Editor e meu Amigo


cavaleiro e montada

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1 A montaria mal se encostara à cerca de limão-brabo, e o cavaleiro já desapeava. Vazou a tronqueirinha, rumando direito para a janela de frente da meiágua. Chamou: – João, ô João da Preta! Teve de bater mais uma vez com o argolão da taca e chamar de novo: – João, ô João da Preta! Sou eu, é o José de Arimatéia! A mulher foi quem veio ver à porta, mesmo assim sem arredar de todo a escora. Meia tirinha só de confiança na fresta mal aberta: – Seu Isé? – Sou eu sim. Anda logo, que a friagem aqui no tempo... Siá Preta acabou de abrir a porta, e o cavaleiro entrou. Treme-soprava: – Viajinha danada de fora de horas... Qu’é de o João? Recebeu o aviso? Descalço, encolhido num resto de poncho companheiro, João da Preta apareceu. Mal salvou, e foi dizendo: – Recebi de-tardezinha. Seu Valério foi quem trouxe. Quer baldear agora, ou dilata um tico pro café? E antes que o outro resolvesse: – Vigia a mulher já na cozinha. Fogo de sabuco esquenta de vereda... Não, não carecia tanta pressa – José de Arimatéia calculava. Havia saído com muita folga do Sassafrás, e a besta rompera bem o trecho até ao 11


porto, apesar do nevoeiro que fechava o rio e a serra. E haveria de seguir assim rendosa, conhecedora que era do meio eito apenas de subida do outro lado, do porto à fazendinha do Pinhé, onde morava seu Valério. Sem que o dono da casa oferecesse, José de Arimatéia apanhou o guampo no prego da parede e chocalhou-o. Sentiu o sacolejo da cachaça, e virou o chifre na boca. – Quer soprar também um pouco no berrante, hem João? – perguntou, passando o guampo. João da Preta bebeu uma golada, e ajeitou na cara boa um risinho oferecido: – Se atira para adonde, nessas horas? Mas o viajante não informou. Tampouco pagou a risadinha, ocupado em contraesfregar as mãos. Fechado de natural, mais ainda lhe amarravam o rosto a aba descida do chapéu e a gola alta da capa. João da Preta não insistiu, que conhecia de sobejo José de Arimatéia: bom de coração e convivência, mas homem de prosa reduzida, reservado por demais. Paciência: seu Isé não iria mesmo, ali naquele instante, delatar nada da viagem, mas ele, o preto velho, acabaria ficando a par de tudo, mais hoje mais amanhã. Era na meiaguinha do porto que os peões do Sassafrás costumavam se arranchar; vinham comer da comidinha de siá Preta, se demoravam horas conversando, abriam a alma com a velha e ele... – cansados de saber que os dois eram gente de fiança, colocados já de indústria ali na balsa pelo seu Americão. Podia andar hoje sem préstimo, a vista ruim, o coração inventando de acelerar justo na hora em que mais precisava do desempenho dele...; mas camarada fiel, merecedor... – João da Preta se reconhecia. A mulher tossia na cozinha, na labuta com o fogo de sabugo e palha. João da Preta, enrolado no poncho e acocorado no chão, via o frio chegar cada vez mais apertado, avançando de parelha com a noite. Sim, todos paravam no Paiol Queimado, somente ali é que atravessavam o rio. Desde os tempos de passagem a nado, quando não havia ainda a balsa mandada colocar pelo seu Americão Barbosa, era ele, o João da Preta, quem conduzia os cavaleiros até ao barranco do outro lado. Via, então, quando quebravam mão esquerda ou mão direita, tomavam o tronco mais batido da boiadeira ou se sumiam pelo capoeirão dos pés-da-serra 12


– conhecia assim do destino deles. E os peões de seu Americão Barbosa voltavam sempre, raros os que deixavam de voltar; ligeiros uns, mais retardados outros – esses últimos em geral os que traziam boas histórias compridas de contar. Se os levava à outra margem, ia buscá-los também, fosse a hora que fosse, andasse o mau-tempo que andasse. Conhecia de cor o grito de cada um – o aboio alto e cantado que soltavam para pedir a balsa: Chico Doido, Lico, seu Hirondino... De um deles, de especial, foi que o balseiro achou de indagar agora: – E seu Arcanjo, tem visto ele? Como que saindo do outro mundo, José de Arimatéia respondeu: – Hem? Ah, o Arcanjo... Não, já faz tempo que eu não vejo. E só. Levantou-se do tamborete e despendurou outra vez o guampo, bebendo mais um gole avantajado. Despropósito de trago, que teve de ressoprar, num estrebuchão de beiços, o fogo da bebida. O frio aumentava. O rio já amanhecia com os barrancos esbranquiçados de orvalho, a água vagarosa e fumacenta – certeiros sinais de geada lá pela primeira lua de junho. O trânsito das comitivas pelo Porto do Paiol Queimado crescia por essa temporada, época em que voltavam do pantanal. Um dia repontavam, boiada trás boiada, ror de gado atropelado pelas marchas de muitos meses, desfeito pela dura maceguinha sem sustância do chapadão. Com as comitivas, vinha a peleja para os pobres de siá Preta e seu João – cismava José de Arimatéia. Fornecer comida a que horas da noite, o porto atravancado de camaradagem e tropa, os currais entupidos de boi – a balsa num ir-e-vir sem descanso. Mas os dois velhos se conformavam: bastantinha criação no terreiro, a lavourinha do gasto bem ali no fresco do barranco... E seu Americão Barbosa protegia: da Fazenda do Sassafrás vinha de tudo: rapadura e o café-em-coco, banha, o sal, querosene. Farinha e sabão-de-cinza, até o azeite de candeia, isso a danada da siá Preta, ela mesma, é quem fazia. O café demorava, e José de Arimatéia começou a sentir a friagem subir-lhe pelo couro grosso das botas e empapar-lhe o revesso da capa de lã. Se no porto o tempo andava assim tirano, quanto mais depois de escalado o espigão – a ventania a galopar, solta de tudo, pelos ermos da chapada! Bem ainda que, naquela noite, ia ter casa de telha onde pousar, a conversa boa de seu Valério Garcia, cana picada e milho à vontade para 13


a besta... Do Pinhé para diante, porém, tirante a morada de seu Arcanjo e a fazenda de seu Torquato, os pousos costumavam ser na imundície dos ranchos de gente largada ao-deus-dará, mal vivendo tal-qual bicho naquele abandonado fim de mundo; e ter de precisar, também, sabe lá Deus quantas vezes, de ficar escondido o dia inteiro, o pobre do animal peado no meio do mato, curtindo sede e comendo de embornal... E seu Americão Barbosa inventara ainda, desta feita mais carrancudo e severo que nunca nos decretos: “– Só me viaje de noite! Só me viaje escoteiro!”. Moído na hora, recendeu o café. Ao descer para a rebaixa da meiágua, José de Arimatéia teve de se encurvar para não bater a cabeça no telhado; de sombreiro e capa agauchada, mais corpulento ainda parecia, quase que enchendo, ele só, o acanho da cozinha. Tomou o café e pediu, quando a velha lhe preparava a garrafinha de viagem: – Bota metade só no meio-litro, siá. De café, dá e muito. Acabo de inteirar o resto com o estoque do guampo do seu João... Lhe pago depois, companheiro, e lhe pago com cachaça lá do... Calou-se, porém, a tempo. Não, nada diria. Cabeça já ruça de tudo, mas boa ainda, o cabreiro do preto velho... Pura astúcia dele aquilo de jogar o verde, vir com a perguntazinha inocente pelo seu Arcanjo... Era dizer que ia passar pela Barra Limpa, onde morava o Arcanjo, e a novidade não sairia nunca mais da lembrança do João da Preta. E seu Americão Barbosa repetira muito a ladainha: “– E para amigo nenhum, para ninguém, seu José de Arimatéia, me delate o seu destino!”. O patrão devia de saber porque regia assim o mandado; podia ser sistemático por demais da conta, cheio de modas e exagero, mas a verdade era que peão nenhum do Sassafrás se arrependia de cumprir à risca tais ordens e conselhos. Homem engraçado! Seu Americão Barbosa tratava todo mundo a sim-e-não, mas em certas horas falava muito, minuciava; e gostava de obrigar o camarada a repetir depois, feito menino de escola, as explicações que recebia, para ver se o cujo havia mesmo aprendido a lição. Tirava também sempre a prova: disfarçava de satisfeito, dava por acabada a conversa, distraía e até dispensava o coitado... Num repente, porém, rompia com acessos de perguntação: “– Qual é mesmo o nome do senhor seu pai? Qual a graça do fazendeiro onde o senhor falhou com o gado? Por conta de que patrão viageia agora?” Pura inventação de modas de seu Americão: o nome do 14


pai do peão era outro, falso também o do fazendeiro, de mentira o tal pouso do gado... E mais coisas que nasciam só mesmo na cabeça de seu Americão Barbosa ou na do gerente dele, o seu Clodulfo: até aprender a descosturar e costurar de novo, sem deixar sinal, certas emendas do arreio, para guardar escondidos, ali dentro, dinheiro e recados de importância. Peão de estima, empregado de confiança, na Fazenda do Sassafrás, era quem melhor decorava de cabeça essas malícias, passando por aprovado logo no primeiro ensaio; e quem sabia ver e escutar calado, sem nunca ir comentar adiante o percebido. “– Orelha em pé, olho vivo, e bico calado: essa, a reza de corpo fechado de mais valência...” – seu Americão Barbosa não se cansava de ensinar. Enquanto soltava a mula, José de Arimatéia via o preto descer o lajeado de pedras do barranco. Sombra só, restinho à-toa do que tinha sido antes o João da Preta, todos falavam. Hoje-em-dia, um traste: doente do coração, os pés inchados, as mãos sem mais o competente governo, a vista mal-mal dando para desenvolver o servicinho de baldear gente a pé e cavaleira... – José de Arimatéia se compadeceu. Bem que podia mentir, inventar uma direção qualquer para a viagem, iludir a curiosidade do João da Preta – nenhum mal havia em contar uma lereia para o pobre do coitado... Resolveu: – Amanhã ou depois, devo de estar de volta... Lhe trago então uma rapadura e uma cabaça cheia lá do engenho do seu Valério... Avisado de véspera, João da Preta deixara a balsa dormir no jeito, os casqueiros no lugar, tudo pronto para o embarque. O cavaleiro entrou, a besta douradilha logo atrás – essa a mesquinhar orelhas, apalpando astuciosa o estivado dos pranchões. Mas, com um tapa sacudido que o balseiro lhe estalou nas ancas, o animal perdeu preceito e avançou: trotejou ligeiro, castanholando a quatro mãos a ferragem nova no assoalhado do canoão. – Ei, Camurça! – gavou entusiasmado João da Preta. Solta pelo varejeiro, a balsa começou a fugir de través, carregada pelo rio. Foi rodando, foi rodando, descansadona e bandoleira, até que se sumisse no esfumaçado da neblina. *** 15


Que diferença da Camurça daqueles outros tempos! – pensava José de Arimatéia, ao sentir o passo largo da besta pelo carreiro pedregoso dos primeiros lançantes da serra. Uma toada só, no plaino e na subida! Por debaixo da capa, as rédeas iam soltas por entre as mãos cruzadas e em descanso no cabeço redondo da boa sela viajeira. Cinco anos, quase cinco anos já passados! Não, não mais adiantava querer evitar, repelir aquelas lembranças que vinham sempre, principalmente quando podia estar assim, sozinho com Camurça, a caminhar no escuro e no silêncio. E tão claras, que era como se estivesse vivendo de novo na Fazenda do Capão do Cedro, trotejando como antigamente em frente à comprida fila das casinhas da colônia do engenho, nas horas de depois da janta ou nos dias de domingo... – o pessoal mais velho nas janelas, as moças e a rapaziada a subir e descer pelo trecho largo da estrada que, ali, era como uma rua principal. Camurça, adomadinha de pouco, mas já apreciada e cobiçada por tudo o que era peão da fazenda e até da redondeza. Novinha, mas já convencida e semostradeira, espirituosa e luxenta por demais... E ele, José de Arimatéia, estimado, prosperando no serviço, respeitado. E, da noite para o dia, de instantâneo, aquele mau-sucesso, a vida demudada por completo – assim como um redemunho formado de repentino para arrasar com tudo, carregar com ele mais Camurça e jogá-los em terra estranha, em meio de gente desconhecida. Hoje, tudo, tudo tão diferente! A serra se empinava, começava a apertar o mau-tempo, e José de Arimatéia teve de abaixar mais ainda por sobre os olhos a aba do chapéu para protegê-los das unhas geladas da ventania. Diabo ia ser mas era nas outras noites, quando ganhasse o chapadão – calculava. Mas esqueceu-se logo do que estava para vir, tão teimosas lhe vinham à cabeça suas passadas lembranças. Até que chegasse à fazendinha do Pinhé, onde já esperava por ele seu Valério Garcia – e iam ser ainda umas boas três horas de frio e vento – em outra coisa não haveria de pensar o cavaleiro a não ser na quadra antiga da vida no Capão do Cedro – o povo da colônia do engenho de açúcar, o povo do sobradão da sede, o velho Tonho Inácio...

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