G U I L L AU M E P R É VO S T
Um mistério que somente o maior gênio do Renascimento poderá desvendar
G U I L L AU M E P R É VO S T
Um mistério que somente o maior gênio do Renascimento poderá desvendar
t r a d u ç ã o: Fernando Scheibe
Copyright © 2000 Éditions NiL, Paris Copyright © 2018 Editora Gutenberg Título original: Les sept crimes de Rome
Todos os direitos reservados pela Editora Gutenberg. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
editora
capa
Silvia Tocci Masini
Diogo Droschi (sobre imagens de Homem Vitruviano. Leonardo da Vinci, 1490. Basílica e Praça de São Pedro, Vaticano – Roma. Gravura por Jean Barbault. Século XVIII).
assistente editorial
Andresa Vidal Vilchenski preparação
diagramação
Sonia Junqueira
Larissa Carvalho Mazzoni
revisão
Renato Potenza Rodrigues Samira Vilela
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Prévost, Guillaume Leonardo da Vinci e os sete crimes de Roma : Um mistério que somente o maior gênio do Renascimento poderá desvendar -- / Guillaume Prévost ; tradução de Fernando Scheibe. -- 1.ed. -- Belo Horizonte : Editora Gutenberg, 2018. Título original: Les sept crimes de Rome. ISBN 978-85-8235-548-0 1. Papas 2. Ficção 3. Sinais e símbolos 4. Sociedades secretas 5. Ficção policial e de mistério I. Título.
18-20238
CDD-843.0872
Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção policial: mistério 843.0872 Cibele Maria Dias - Bibliotecária - CRB-8/9427
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Quarenta anos se passaram, e hoje eu também sou um velho. Quarenta anos desde aquela promessa, feita ao mestre Leonardo, de só romper o silêncio às vésperas de minha morte. Há quarenta anos a mantenho, e agora é chegado o momento. Esta noite mandei trazer todas as velas que havia na casa, coloquei a poltrona e a mesa perto da grande janela e proibi que me incomodassem de agora em diante. O pequeno Lúcio trará minhas refeições e meus medicamentos. Quanto ao resto, veremos. Talvez eu tenha demorado demais... Juro só dizer aqui o que realmente aconteceu. Juro não dissimular nada do que pude escutar ou pensar naquela época. Juro que não pintarei os bons melhores do que eram, nem tornarei os maus piores do que foram. Juro, por fim, se minha memória permitir, contar a mais exata verdade sobre o caso que ocupou Roma no inverno de 1514, e sobre o qual apenas alguns poucos homens souberam o quanto ameaçou o coração da cidade e, talvez, o coração de toda a cristandade. Hoje, não temo mais nada dos outros.
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CAPÍTULO 1
Q
uando toda essa onda de crimes de horror realmente começou? Pois só mais tarde percebi quão longe suas raízes venenosas se embrenhavam na história da cidade. Mas, para o jovem romano que eu era então, como para todos os habitantes da cidade, o primeiro alerta rasgou o céu como um raio na manhã de 20 de dezembro de 1514. Naquela manhã, Flavio Barberi, filho do capitão de polícia Barberi e um dos meus amigos mais queridos, bateu à porta da pequena casa em que morávamos, minha mãe e eu, na Via del Governo Vecchio. O sol mal acabara de nascer e meu espanto foi ainda maior ao ver sua longa silhueta saltitando sob o pórtico, como que tomada de uma excitação que ele não conseguia conter. – Guido – disse ele –, algo terrível aconteceu na coluna, venha comigo! Mal tive tempo de vestir o casaco e o capuz, de dar uma olhada para o andar de cima, rezando para que minha mãe não tivesse escutado, e ele já me arrastava correndo através das ruelas desertas que levavam ao Corso. Algo terrível na coluna... 9
Quando meu pai ainda era vivo, morávamos mais ao norte, numa bela casa perto da Igreja de Santa Maria do Campo de Marte. A Coluna de Marco Aurélio e a praça que a rodeava ficavam ali do lado, e esse era o lugar preferido de nossas brincadeiras de criança. Eu tinha, portanto, dificuldade em imaginar o que poderia ter acontecido num lugar tão familiar, algo que justificasse me chamarem tão cedo. Mas quando perguntei a Flavio sobre isso, ele se contentou em balançar a cabeça e apertar o passo. Talvez seu pai tivesse sido chamado para pôr ordem em uma briga de vagabundos? Ao chegarmos à praça pela Via dei Burrò, compreendi que se tratava de algo muito mais sério. Cerca de trinta pessoas estavam reunidas em volta da coluna, a maioria em roupas de festa, com estranhas máscaras de animais penduradas na barriga. Algumas mulheres colocavam as mãos na cabeça, e os homens olhavam aturdidos para o céu. Guardas armados cercavam o monumento como se temessem que algo escapasse dali. O mais estranho era aquele silêncio que paralisava a todos. – Lá em cima – murmurou Flavio. Levantei a cabeça, crente de que veria, como sempre, a longa espiral de pedra cinza com desenhos das vitórias de Marco Aurélio contra os germanos e, no topo, a trinta metros de altura, a estátua do conquistador a cavalo. Mas, para minha grande surpresa, o imperador não estava sozinho em sua montaria: alguém estava na garupa, com os braços em volta de seu pescoço. Alguém ou, talvez devesse dizer, o que restava de alguém: um corpo nu, vermelho de sangue, horrivelmente decapitado. Uma espada curta estava enfiada em suas costas, como uma flecha no meio de um alvo. Àquela distância, não dava para distinguir se o corpo pertencia a um homem ou a uma mulher. – O que estão esperando? – eu disse. – Há uma escada nessa coluna, é preciso subir e tirar dali essa abominação. – Meu pai saiu em busca das chaves – respondeu Flavio. – Mas é preciso encontrar o oficial encarregado delas, e temo que, a esta hora... Além disso, se corri até sua casa é porque o mais interessante 10
ainda está por vir: supõe-se que o autor desse... dessa coisa ainda esteja ali dentro. – Dentro? – Sim, houve uma festa aqui ontem à noite, no Palácio Marcialli. Os músicos tocaram na praça, e um grande número de convidados dançou a noite inteira. Alguns chegaram mesmo a dormir em tendas ao pé da coluna – ele apontou para um bolo de cobertores grosseiros jogados um pouco mais adiante. – Segundo essas pessoas, ninguém poderia ter saído pela porta sem ser visto. É possível, portanto, que o rato ainda esteja em seu buraco. Não tive tempo de manifestar minhas dúvidas, pois uma pequena tropa de cavaleiros, conduzida pelo pai de Flavio, irrompeu entre nós.Todo mundo recuou para o Palácio Marcialli, tremendo à ideia do que se iria descobrir. Um homem magro e calvo, que eu via pela primeira vez, abriu a porta do monumento com uma enorme chave que tirou de sua bolsa e saiu rapidamente. O capitão Barberi fez um sinal para dois de seus soldados entrarem com as armas em punho. Ficamos esperando que alguma coisa acontecesse, com o coração batendo forte, o olhar indo e vindo entre a base e o topo da coluna. Mas os dois homens logo apareceram lá no alto, na plataforma que servia de base para a estátua: – Não há vivalma na escadaria, capitão. Um murmúrio de alívio, mas talvez também de decepção, se ergueu da multidão. Dois outros guardas se lançaram então pela passagem para tirar aquele macabro fardo do imperador. – Venha – disse Flavio, me puxando pela manga. Tivemos de nos acotovelar um pouco para conseguir chegar até seu pai, que estava numa acalorada discussão com o oficial das chaves: – E ninguém mais tem acesso a esse molho de chaves? – Ninguém, capitão. – E você não notou se as chaves andaram sumindo nos últimos tempos, ou se alguém as pegou emprestadas? – Elas nunca deixam esta bolsa, que fica trancada com as outras no cofre do meu quarto. 11
Impulsivo como se é naquela idade, não pude me impedir de dar um passo adiante e intervir: – Não existem cópias que alguém poderia ter pegado? Minha pergunta pareceu incomodar o oficial, que me fulminou com um olhar cheio de raiva. Felizmente, o pai de Flavio me acudiu: – Não se altere, oficial, este é Guido Sinibaldi, filho do antigo chefe de polícia de Roma. Ele herdou do pai o gosto pelos enigmas e, quem sabe, um pouco do talento.Você pode responder para ele como se fosse para mim. Ele me cobria com um olhar afetuoso, e o outro não ousou se esquivar: – Existem cópias das chaves das colunas, assim como de todos os edifícios de que sou encarregado, é claro. Mas elas estão no Castelo de Santo Ângelo, ainda mais bem guardadas do que em minha casa. O Castelo de Santo Ângelo... Se alguém queria se apoderar dessas chaves, parecia de fato mais lógico tentar roubá-las do oficial do que da fortaleza do papa. Nesse momento, os quatro guardas saíram da coluna e um frisson de pavor percorreu novamente a assistência: eles carregavam nos ombros um corpo horrivelmente decapitado e trespassado pelo que parecia ser uma adaga. Assim que o colocaram no chão, de lado, fizemos um círculo em volta do despojo: tratava-se incontestavelmente de um homem, mais para jovem, a julgar pelo vigor de seus músculos, e inteiramente endurecido. Sua pele, azulada pelo frio, estava recoberta de sangue em todo o torso. A ferida no pescoço era abominável, mistura de carne vermelho-escuro e de cartilagens moídas recobertas por uma película translúcida. Deve ter sido necessária uma força sobre-humana para cortar os ossos do pescoço com tanta violência. Apesar do frio, um cheiro nauseabundo já exalava do cadáver. Vários soldados fizeram um gesto de repulsa e, guiado por não sei que instinto, me aproveitei do estupor deles para deslizar até a coluna. Como imaginava, o interior era bastante sombrio e úmido, com um forte odor de salitre e de lugar fechado. Uma escada de 12
pedra em espiral, que ocupava a maior parte do espaço, projetava para o topo seus cerca de 200 degraus. Sua base formava uma espécie de abrigo onde dois homens poderiam ficar agachados facilmente. O chão estava marcado por grandes manchas escuras, poças do sangue da vítima. Mas nenhuma arma ou objeto traía a presença do assassino. A mão do capitão Barberi pousou de repente sobre meu ombro: – E então, o que pensa o nosso jovem médico? Encarei-o um pouco constrangido: – Queira desculpar essa audácia, capitão, a curiosidade foi mais forte. Não ignoro que... – Não tem problema – ele disse. – O homem foi morto aqui mesmo, você concorda? Estava me preparando para responder quando meus olhos, já habituados às trevas, notaram alguma coisa atrás dele: – Parece que tem um desenho nessa parede, capitão, olhe... Ele abriu um pouco mais a porta para aumentar a iluminação, e descobrimos juntos uma inscrição que provavelmente fora traçada com um dedo embebido em sangue fresco: “EUM QUI PECCAT...” “Aquele que peca...” – Isso não me diz nada – declarou o pai de Flavio, franzindo as sobrancelhas. – Não, nada que valha... Reli o que escrevi até agora de uma sentada e devo reconhecer que não fiquei muito insatisfeito. Foi mesmo assim, dessa maneira brutal, que tomamos conhecimento daquilo que se tornaria, para muitos, a encarnação sangrenta do Maligno. Mas percebo também que certa faceta desse relato poderia parecer obscura a meu leitor se eu não lhe fornecesse, desde já, algumas informações suplementares. Sobretudo no que tange à indulgência do capitão Barberi para comigo, indulgência que, e só ela, pode explicar minha presença no coração dessa tormenta. 13
Ela se devia, sem dúvida, ao fato de que meu pai foi por treze anos o chefe de polícia de Roma, tendo assegurado, durante esse período, a paz em toda a cidade. Ele sempre desempenhou sua função com honestidade e competência, tendo resolvido alguns casos delicados – os tempos não eram melhores do que agora –, que outros em seu lugar, sem dúvida, teriam abandonado. Até a população acabara por confiar nele. Mas, numa manhã de 1511, quando perseguia um criminoso, ele entrou na estalagem do Cão, no Campo dei Fiori. Nunca se soube exatamente o que aconteceu ali. Um tiro foi disparado, e meu pai caiu morto no meio das mesas. Seu assassino conseguiu fugir por uma janela. Ao lado de meu pai se encontrava o fiel Barberi, então seu ajudante, que nunca perdoou a si mesmo por não ter conseguido defendê-lo. Eu acabava de completar dezoito anos. Minha família não tinha fortuna alguma – prova suficiente da integridade de meu pai –, minha mãe teve de deixar a bela casa do Campo de Marte e nos instalamos, ela e eu, no modesto alojamento da Via del Governo Vecchio. A partir de então, ela me proibiu de seguir a carreira das armas a que eu aspirava. Perdera o pai, não queria perder o filho também. Resolvi então me tornar médico e me inscrevi na universidade da cidade, onde grandes professores como Bartolomeo de Pisa e Accoramboni de Perúgia, ambos ligados ao serviço do papa, ministravam seus cursos. O ensino me agradou e creio ter me tornado depois um médico bem razoável. Mas essa não é a questão. Nos três anos que se seguiram, Barberi permaneceu muito próximo à nossa família, tomando a seu encargo minha educação e meu conforto até mais do que seria necessário. Certo inverno, chegou mesmo, sem dizer palavra, a pagar as contas de nossos fornecedores até que minha mãe recebesse a pequena herança a que tinha direito. Não seria exagero dizer que ele se sentia em débito pela morte de meu pai. Daí, creio, aquela fraqueza que o levaria a me deixar agir à vontade e mesmo, às vezes, a fazê-lo em seu nome: ele desempenhou um papel fundamental na guinada que minha vida deu naquelas semanas.
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