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O país que não teve infância

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seleção e organização

Ana Arruda Callado

O país que não teve infância

As sacadas de

ANTONIO

CALLADO

Crônicas políticas INÉDITAS em livro


seleção e organização

Ana Arruda Callado

O país que não teve infância As sacadas de

ANTONIO CALLADO C R Ô N I C A S

P O L Í T I C A S


Copyright © 2017 Herdeiros de Antonio Callado Copyright © 2017 Autêntica Editora Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora. A imagem de capa foi gentilmente cedida para esta edição pelo Arquivo-Museu de Literatura Brasileira (AMLB) da Fundação Casa de Rui Barbosa.

editora responsável

capa e projeto gráfico

Maria Amélia Mello

Diogo Droschi

editora assistente

diagramação

Rafaela Lamas

Larissa Carvalho Mazzoni

revisão

Miriam de Carvalho Abões Renata Silveira

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil

Callado, Antonio, 1917-1997 O país que não teve infância : as sacadas de Antonio Callado / [organização Ana Arruda Callado]. -- 1. ed. -- Belo Horizonte : Autêntica, 2017. ISNB: 978-85-513-0186-9 1. Crônicas brasileiras 2. Ditadura - Brasil 3. Política - Brasil 4. Reforma agrária - Brasil I. Callado, Ana Arruda. II. Título. 17-01768

CDD-869.8 Índices para catálogo sistemático: 1. Crônicas : Literatura brasileira 869.8

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Apresentação Ana Arruda Callado*

Antonio Callado deu ao pequeno livro no qual escreve um ensaio sobre a “reforma agrária brasileira, a qual nunca foi feita” o título de Entre o deus e a vasilha. E explica que o tomou emprestado de Eça de Queirós. Em uma carta fictícia, em que afirma estar voltando de uma longa viagem ao Brasil, onde nunca esteve, Eça afirma: “Um artista pode moldar o barro inerte que tem sobre a tripeça e fazer dele, à vontade, uma vasilha ou um deus. [...] Tenho a impressão de que o Brasil se decidiu pela vasilha”. A primeira edição do livrinho é de 1985, quando Callado já não era mais colaborador da revista paulista IstoÉ, mas de certa maneira o autor mantém no ensaio o tom pouco esperançoso das crônicas semanais que publicou, de 1978 a 1982, na coluna “Sacada”. No final, já tentando ser otimista em relação ao país que amava, Callado faz um apelo ao presidente então eleito, Tancredo Neves, para que, afinal, faça a reforma agrária tão necessária. Mas, antes que o livro fosse impresso, a notícia da internação hospitalar de Tancredo surpreende o Brasil todo e pega Callado à saída de um teatro. Ali ouve de sua amiga Fernanda Montenegro a frase: “O Brasil não tem Nascida em Recife, Pernambuco, em 19 de maio de 1937, Ana Arruda Callado é doutora em Comunicação e Cultura pela UFRJ. Jornalista, escritora e educadora, ganhou o Prêmio Luiz Beltrão de Ciências da Comunicação 2004, na categoria Maturidade Acadêmica, concedido pela Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares (INTERCOM). Membro titular do Pen Clube do Brasil e da Academia Carioca de Letras, é autora de sete biografias de mulheres: Dona Maria José; Jenny – amazona, valquíria e vitória-régia; Adalgisa Nery; Maria Martins; Lygia, a recordista; Darcy, a outra face de Vargas; e Bertha Ribeiro, e de uma novela policial, Uma aula de matar.

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sossego, Callado”. Era o fecho perfeito para a história que ele escrevera – e foi acrescentado ao ensaio. Não se assuste o leitor com esta introdução, achando que aqui vai ler apenas textos desesperançados, sombrios. É verdade que, no final da década de 1970 e início da seguinte, o Brasil não atravessava lá grande fase. Havia um início de abertura, mas as trevas da ditadura ainda não haviam se dissipado. Tanto que, em 15 de agosto de 1979, Callado dava a sua crônica o título de “Abertura presa no gargalo”. Muitos outros aspectos da personalidade do autor, porém, vão se revelando nestes textos. A começar pelo título de duplo sentido que ele escolheu para a coluna. As sacadas dos casarões das grandes famílias, aquelas com avô, tias e primos a que Antonio Callado tanto se refere em seus romances. O saudosismo do menino criado em uma delas e que guardava em casa, com orgulho, as esporas de gala e as medalhas ganhas pelo bisavô marechal. Mas havia o outro lado, o escritor antenado com seu tempo, com as gírias, com as necessidades dos jovens, com as mudanças do mundo. Sacou? A religião é outra presença permanente na obra de Callado e não poderia estar ausente das crônicas de IstoÉ. Entre os patriotas que ele destaca, como Bernardo Sayão, Barbosa Lima Sobrinho, Alceu Amoroso Lima – sim, porque ele mesmo era um patriota, qualificação lamentavelmente tão fora de moda – estão os bispos e padres que se opuseram ao regime militar. E aos assassinados ele dá o nome de mártires. Os amigos voltando do exílio, a permanente admiração por artistas e intelectuais como Oscar Niemeyer, Portinari, Paschoal Carlos Magno, Mário Pedrosa, Nise da Silveira e, principalmente, a defesa dos indígenas e de suas culturas, tudo isso poderá ser visto pelo leitor das crônicas aqui selecionadas. Enquanto colaborador da IstoÉ, Callado fez uma viagem a Angola, em 1980, a convite do ministério da Cultura angolano, e passou o segundo semestre de 1981 como Visiting Professor na Universidade de Columbia, Nova York. Mas o Brasil continuava com ele, até porque os dois cursos que ele foi convidado a proferir em Nova York tinham como temas “A imprensa no Brasil” e “Os cinco pilares da literatura brasileira” 10


(que para Callado eram: Machado, Alencar, Euclides, Guimarães Rosa e Clarice Lispector). Na catedral de St. Patrick, se deliciou com um concerto de música barroca mineira. Em Angola, conheceu o escritor Pepetela, então vice-ministro da Educação, que lhe contou ter lido Quarup em plena guerrilha contra os portugueses. E ficou encantado com o esforço do país para preservar as línguas regionais, ágrafas, dandolhes um alfabeto. Pensou logo nas línguas de nossos povos indígenas, em desaparecimento, claro. Observador atento da realidade, o autor das sacadas se dirigia com frequência também para os países vizinhos, para a América Latina tantas vezes padecente dos mesmos problemas que nosso país. As ditaduras do Chile, Argentina e Uruguai estão também nas crônicas, da mesma maneira que em seu romance Sempreviva, publicado em 1981, no qual denuncia a Operação Condor. Enfim, Antonio Callado era um só: pai, marido, amigo, jornalista, dramaturgo, romancista, cronista, suas preocupações e crenças não mudavam. E neste livro a que a Autêntica Editora agora dá à luz, o leitor poderá, ao fruir seus textos, estar com ele, conversar com ele. Tenham um bom papo.

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“Há uma zona na Paraíba – a do açude de Pilões – que é provavelmente a terra mais sem lei do Brasil. Vai para trinta anos que manda lá, com métodos de gângster, um aventureiro que é hoje deputado federal, Jacó Frantz. De quando em quando a União, tímida, intenta um processo anêmico contra esse grileiro instalado em terras públicas. Frantz está tão entediado dessa luta em que ganha sempre, sem maior esforço, que já pouco aparece por lá. Contenta-se em saber que sua terra de adoção continua atrasada e submissa.” Callado assim escrevia em 1959, em reportagem para o Correio da Manhã. No ano seguinte, esta e outras matérias que fez sobre a situação rural no Nordeste foram publicadas em livro com o título Os industriais da seca e os “galileus” de Pernambuco e o subtítulo Aspectos da luta pela reforma agrária no Brasil. Desde então sua luta pela propriedade justa da terra nunca esmoreceu. Nem sua decisão de apontar os erros do país.

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A China já tem muralha. Agora é a nossa vez O nosso gigante anda se mexendo muito na cama

Apesar de só ter escrito sobre a China umas poucas páginas, inti-

tuladas A grande Muralha da China, um certo escritor judeu nascido em Praga, então capital da Boêmia, cultor do idioma alemão, passou a ser, nos dias que correm, meu sinólogo preferido. Esse escritor, Franz Kafka (1883-1924), apreendeu de tal forma a essência do tema chinês, que escreveu sobre a muralha como se tivesse sido um dos seus construtores. Quando se erguia a muralha, todos os chineses trabalhavam nela. Preparavam-se para essa carreira futura começando a erigir no jardim do colégio, com seixos, uma espécie de muro que o professor, em seguida, arrasava colérico com o pé para mostrar aos meninos como trabalhavam mal. Assim, desde a mais tenra idade, os colegiais aprendiam que boas muralhas, capazes de conter a marcha de invasores, começavam a partir de sólidos alicerces. Muito tempo depois da morte de Kafka, um imperador chinês, o camarada Mao, retomou na China os planos da Coluna Prestes, fazendo uma longa marcha, também conhecida como a marcha da coluna que deu certo. Contra a coluna maoísta não houve muralha que funcionasse, o que prova, e isto é de suma importância, que, como supunha Kafka, a muralha não se destinava a conter coisa nenhuma e sim a conter, por dentro, os chineses. A última frase do imperador. A muralha era erguida em seções que aos poucos iam se completando (ou que não se completavam nunca, pois havia trechos que ficavam por fazer) na esperança de que, como na Belém-Brasília, um dia se encontrassem a frente norte e a frente sul. 17


Por outro lado, mesmo nos trechos em construção, o trabalho provava depois ter decorrido em vão, pois as águas do degelo carregavam o que já fora feito, como na Transamazônica. O importante é que os chineses, então todos pedreiros, migravam dos mil recantos do império, aquecidos pelo ideal de construir para o irmão um muro, melhor como proteção do que um teto, uma casa. O país só pensava na unidade. “Ombro a ombro formavam todos um anel de irmãos, uma corrente de sangue que não se confinava mais aos limites estreitos da circulação num corpo só, e que sim, ao contrário, fluía docemente, e a si mesma refluía, através das infindáveis léguas da China.” Esta unidade em torno da muralha era indispensável, porque tantas são as ditas léguas da China que Pequim e, em Pequim, o imperador são impossíveis de conhecer. Uma insistente parábola corre a China inteira. O imperador, em seu leito de morte, mandou um recado especial para você. Na câmara da morte todos os cortesãos viram quando o mensageiro se ajoelhou à cabeceira do leito, ouviu o que murmurava o monarca e repetiu no real ouvido os termos da mensagem. Tudo dito e entendido, o valente e infatigável correio imperial parte para bater à porta do súdito, à nossa porta, mas são tais as multidões a vencer que, durante o resto da vida, o mensageiro luta para sair dos mil aposentos do primeiro palácio, morrendo, portanto, ele e a mensagem, antes de chegar aos umbrais do segundo palácio. O resultado, diz Kafka, é que os chineses não sabem que imperador, de que dinastia, reina no momento. “Imperadores mortos há muito tempo assumem o poder em nossas aldeias. Batalhas há muito travadas e olvidadas nos cobrem de angústia e dor, pois são novas para nós.” Torre de Babel do socialismo. O grande remédio é construir a muralha. E, de quando em quando, explicá-la. Uma das histórias correntes ao tempo da construção, por exemplo, dizia que o erro dos que tinham tentado erguer Babel não era aquele que comumente se alega, o do orgulho de querer chegar ao céu. O erro estava nos alicerces. Segundo Kafka, o autor dessa tese “asseverava que, pela primeira vez na história da humanidade, a grande muralha ia dar à torre de Babel as 18


fundações necessárias. Primeiro, portanto, a muralha, e depois a torre. O livro, naquele tempo, andou de mão em mão, mas confesso que até hoje não percebi como é que o autor concebia a torre. De que maneira iria a muralha, que não formava sequer um círculo, mas apenas uma espécie de quarto de círculo, constituir o alicerce da torre? Só se podia entender a torre de uma forma espiritual. Mas, nesse caso, por que fazer a muralha propriamente dita, algo tão concreto, resultado do trabalho de miríades de seres humanos?”. Neste momento, no mundo do socialismo, a China parece empenhada em colocar, em cima de uma muralha que se constrói penosamente, dia após dia, um mundo inteiro, e sobretudo um país devastado pela cupidez de outras nações, como o Vietnã, uma grotesca torre de pagode. Muralha no Brasil. Em termos de Brasil, a moral da história é que o gigante acorda de um longo sono e começa a se espreguiçar, faz muita tolice, quebra muita louça. O Brasil ainda continua ferrado no sono, mas também vai construindo muralha. São as fronteiras do país. O Brasil tem descuidado tudo, menos a fixação dos limites pátrios. Nomes como os de Alexandre de Gusmão, Rio Branco e Nabuco estão aí, para não me deixarem mentir. O que nem eles sabiam, e nós continuamos por saber, é para que queremos um país tão grande, de fronteiras tão definidas. Outro ponto curioso de comparação é que os brasileiros do interior, a massa, o povão, também não sabem qual é o imperador que nos governa. Tanto Maria Conceição D’Incao e Mello, em seu livro sobre os boias-frias, como Verena MartinezAlier e Armando Boito Júnior, quando escreveram “1974: Enxada e Voto”, comprovaram a defasagem que viça entre as massas rurais. Falam do imperador D. Pedro, na abolição feita por “Santa Isabel” e chegam até Getúlio. Em 1974, Martinez-Alier e Boito Júnior não encontraram no interior boia-fria de São Paulo quem soubesse da Revolução de 1964. Estavam ainda na de 1932. Mas não há de ser nada. O gigante brasileiro anda se mexendo muito na cama ultimamente. Quando ele acordar, salve-se quem puder. 14 de março de 1979 19


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