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O Potomak - Precedido de Prospecto 1916

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JEAN COCTEAU O Potomak

tradução

Wellington Júnio Costa


JEAN COCTEAU O Potomak precedido de Prospecto 1916 Romance

p r e fá c i o e t r a d u ç ã o

Wellington Júnio Costa


Copyright © 2013 Éditions Stock Copyright © 2019 Autêntica Editora Título original: Le Potomak Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos ou em cópia reprográfica, sem a autorização prévia da Editora.

Livro publicado com permissão do Comité Jean Cocteau.

editoras responsáveis

capa

Rejane Dias Cecília Martins

Diogo Droschi (sobre fotografia de Jean Cocteau, 1923, Gallica Digital Library, e imagem da página 50 deste livro.)

revisão

Lúcia Assumpção Bruna Emanuele Fernandes

diagramação

Waldênia Alvarenga

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Cocteau, Jean, 1889-1963. O Potomak : precedido de Prospecto 1916 : romance / Jean Cocteau; prefácio e tradução de Wellington Júnio Costa. – 1. ed. – Belo Horizonte : Autêntica, 2019. Título original: Le Potomak. ISBN 978-85-513-0598-0 1. Ficção francesa I. Costa, Wellington Júnio. II. Título. 19-25995

CDD-843

Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura francesa 843 Maria Alice Ferreira - Bibliotecária - CRB-8/7964

Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465 4500 www.grupoautentica.com.br

São Paulo Av. Paulista, 2.073, Conjunto Nacional, Horsa I 23º andar . Conj. 2310-2312 Cerqueira César 01311-940 . São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468


Prefácio Wellington Júnio Costa

Jean Cocteau, na criação desta obra bastante fragmentada, revela-nos as idas, vindas e reflexões de um narrador sem nome, autor de um álbum de desenhos sobre a história de seres antropófagos, os Eugenes, que devoram o casal Mortimar. Sozinho ou na companhia de uma amiga, o narrador visita um aquário no subsolo da praça da Madeleine, onde o monstro Potomak, que inspira poesia, está exposto. Antes dos anos 1910, Jean Cocteau já se expressava por meio do desenho e da literatura. Mas foi em 1913-1914, numa surpreendente ruptura do seu estilo literário, que, abandonando as influências simbolistas, ele se aproximou dos “modernos” e mesclou as linguagens do desenho e da literatura, para compor este primeiro romance. A obra, que esperou o fim da Primeira Guerra Mundial para ser publicada em 1919, é, na verdade, um “carrefour” das artes, já que várias linguagens artísticas nela se encontram: música, teatro, dança, poesia, cinema, fotografia, arquitetura, pintura e desenho. A presença da música no romance emoldura a obra com as duas cartas endereçadas ao compositor Igor Stravinsky, mas também pontua o enredo nas cenas em que 7


os personagens ouvem canções ao gramofone, quando escutam e tocam piano ou, ainda, pela inserção de letras de música no corpo do romance e da legenda “música” e das notas de partitura desenhadas no “Álbum dos Eugenes”. O teatro, a dança e a poesia aparecem no texto e no “Álbum dos Eugenes”, em desenho, e nas legendas, enquanto o cinematógrafo é mencionado na primeira carta a Stravinsky e a fotografia e a arquitetura são apenas evocadas no livro. Não são raras as passagens em que Cocteau descreve o processo do desenho e o lugar da imagem na sua composição. Em uma espécie de plano da obra, o autor nos revela a gênese da sua criação e atesta sua preocupação em estabelecer uma relação efetiva entre as duas linguagens – desenho e escrita. Às vezes, é pela descrição do ato de desenhar ou pintar que Cocteau se interessa, mesmo que em uma cena imaginada como uma metáfora da vida, assim como seria, também, para um escritor o ato de escrever. Em outros momentos, Cocteau se concentra na sua própria produção gráfica, descrevendo por antecipação os personagens do “Álbum dos Eugenes”. Sua própria obra visual não é, no entanto, a única descrita em O Potomak. Em uma carta endereçada ao seu amigo narrador, o personagem Persicairo conta o dia em que visitou o escritor Pygamon e, na sala de espera, viu um retrato de Baudelaire, pintado por Manet. Então, Persicairo compara alguns detalhes da pintura aos de outro quadro de Manet, Lola de Valence. A existência de tal retrato não seria impossível, já que Manet realmente realizou desenhos e gravuras que representam o grande poeta. Uma dessas gravuras faz parte da coleção que pertenceu a Jean Cocteau e encontra-se, hoje, na Maison Jean Cocteau, em Milly-la-Forêt. 8


Como se não bastassem as descrições de técnicas e obras, Jean Cocteau embaralha as categorias conceituais de relação entre a literatura e as outras artes, apresentandonos uma passagem intrigante do “Álbum dos Eugenes”. Recompostos, após terem sido devorados pelos Eugenes, os Mortimar veem a camareira entrar pela porta do quarto com um jarro de água quente para o banho deles. Com o seu desenho, Cocteau evoca uma pintura de Degas, mas é a legenda que, nesse caso, funcionando também como um balão de história em quadrinho, tornará a citação evidente. O mais curioso, no entanto, é quando a legenda deixa de simplesmente nomear o desenho ou expor a fala dos personagens desenhados para dar espaço a um comentário do narrador de O Potomak ao seu amigo Persicairo. É o que acontece na legenda que acompanha o último desenho do álbum. Quando a relação entre imagem e palavra, em O Potomak, não se dá na coexistência de um desenho e um texto escrito, ela se faz presente, também, por meio do que a teórica francesa Liliane Louvel chamou de “arranjo estético ou artístico”. Isto é, a composição dos objetos da cena descrita revela uma intenção de efeito visual estético, como a composição de uma natureza morta. Cabe observar, ainda, que Cocteau nos surpreende visualmente ao publicar seu primeiro romance fazendo um uso intenso de vários recursos tipográficos (caixa-alta; itálico; tamanhos diferenciados de fonte; asteriscos e notas de rodapé; aspas; números e travessões; pequenas estrelas entre notas e fragmentos; organização em listas; frases que, antes de chegar ao fim da linha, continuam na linha abaixo; textos em versos; estrutura de carta; recuo; espaços em 9


branco e várias páginas em formato italiano), além dos desenhos que compõem o “Álbum dos Eugenes”. Com efeito, este livro parece fornecer-nos várias pistas para compreendermos as relações possíveis entre o visível e o legível, mas não nos facilita a tarefa, pois potencializa a complexidade dessa relação. É o que atestam estudiosos da obra de Jean Cocteau: Patrick Mauriès afirma que O Potomak é um esboço da estilística posterior do autor; Kihm, Sprigge e Behar defendem que os Eugenes desse livro dariam a Cocteau a oportunidade de sonhar com um tipo de vasta síntese das experiências e preocupações humanas; Serge Linarès considera que esta obra é o resgate do imaginário infantil do autor, que o teria conduzido à expressão do seu eu múltiplo, poeta e desenhista. Enfim, Emboden e Clark não hesitam em afirmar que os desenhos de O Potomak estão entre os mais potentes de sua época e que este livro é indispensável para que se compreenda a gênese do pensamento coctaliano.

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PROSPECTO

1916


Escrevo estas linhas um ano depois de O Potomak. Impossível que eu acrescente mais um prefácio a este livro que já é um, acompanhado ele mesmo de muitos outros. Eu desejaria, então, um sistema de encadernação que permitisse não abrir ou fechar o volume por essas notas, úteis na proa e na popa, mas juntá-las ao seu redor, como o envelope espesso de prospecto que consolida uma especialidade. * gabinete central

De tanto me machucar, viver duplamente, sair jovem de uma multidão de armadilhas onde outras se precipitam, cabeça baixa, na maturidade, tomar a ducha escocesa dos ambientes, às vezes esperar horas, sozinho, em pé, minha luz apagada, parlamentares do desconhecido, eis-me algo totalmente máquina, totalmente antena, totalmente Morse. Um estradivário dos barômetros. Um diapasão. Um gabinete central dos fenômenos. * 13


Aos dezenove anos, alguns me festejaram por tolice, minha juventude me defendia junto aos outros. Tornei-me ridículo, desperdiçador, tagarela, tomando minha tagarelice e meu desperdício como eloquência e prodigalidade. * Aqui se encontram os espetáculos russos – essas grandes festas podiam desnortear um jovem. Elas ajudaram na minha troca de pele. Atrás de uma casca rica demais, minhas narinas experimentavam a seiva. A dedicatória de O Potomak o prova. O formidável sucesso do balé russo permanece como um exemplo dos mal-entendidos modernos. Enquanto ele se libertava de um atoleiro de graças, seu público, incapaz de acompanhá-lo, considerava-o em baixa. Foi assim que exigências de ordem material levaram o Sr. Serge de Diaghilev a encenar A sagração da primavera diante de um público para o qual ela não era destinada, e que se queixou a justo título. Um odor de sacristia e a pompa de Igreja incomoda o neófito para o qual sua cela reserva uma alegria mais despojada. Além disso, esse luxo mantém o respeito divino nos corações fracos. Aqui, um odor de bastidor, isto é, de devassidão, atirando moscas, embaralhava a boa pista. Era difícil, confessemos, acompanhar o crescimento, ouvir a árvore crescer, através desse burburinho. A trupe russa me ensinou a desprezar tudo o que ela jogava para os ares. Essa fênix ensina que é preciso queimar-se vivo para renascer; esses números de circo se juntam às catacumbas. 14


Há circunstâncias em que é corajoso se dedicar a um culto ainda suspeito, enquanto outros cultos lhe oferecem uma exploração garantida. Dessa crisálida multicolorida veio ao mundo Stravinsky. * as lamentações de antígona

Campo. Seine-et-Oise. Banho de sol. Em forte dose, o sol não selecionado dispara um feixe de raios; um bronzeia a epiderme, o outro ata os músculos. Eu era, então, boi, como depois de um saco de areia na nuca, embrutecido. Eu inscrevia: meu nariz cintila escuro, a sós com o sol; é um mundo. (À direita, se fecho o olho esquerdo, à esquerda, se fecho o olho direito.) Depois desses primeiros sintomas, os que sucederam merecem mais que os anotemos. Como eu estava melhor, tornei-me lúcido. Uma lucidez de planta e de animal. Tarefas me apareceram. Eu tinha subido rapidamente a escala dos valores oficiais; distingui o quanto a escala era curta, estreita, cheia de gente. Aprendi a escala dos valores secretos. Ali, nós nos afundamos sozinhos, em direção ao diamante, ao grisu. Essa operação não ocorreu sem dor. Se me chegavam, do fundo, ritmos vagos, purificando minha superfície até intrigar os mais hostis, minha superfície pálida não ficava sem afundar ali algumas raízes. Eu já tinha, em O Potomak, tentado o probo, mas a contragosto. Eu escavava túneis. A frase:“Eu poderia ter feito La Marseillaise ou Plaisir d’amour: escrevi este livro” revela uma resignação. O mineiro se enfia nas trevas. Eu gritava aos quatro ventos as lamentações de Antígona. 15


* estética do mínimo

Então, invadiu-me a mais violenta reação contra o pitoresco. Fiquei doente com isso e vou explicar como. Esse batismo um pouco violento, mas salubre, me deixa marcas. Distingo, aí, as forças que dirigem o meu trabalho. O mal só veio do excesso, a exemplo de muitos antídotos. * No campo, sobre a cabeceira da minha cama, na parede, reencontro uma frase rabiscada: “Castores! Nobres arquitetos, quero construir para mim uma casa inevitável”. Essa frase marca o início da crise. Uma noite, eu ouvi camaradas rirem do poema de uma americana. Ora, esse rádio-telegrama atingia rapidamente meu coração. “Jantar é Oeste”, decide simplesmente Gertrude Stein, no meio de uma página branca. Um só epíteto deveria bastar para o sonho, uma leve batida de ombro, uma seta de orientação. O que ofuscava esse grupo, a farsa americana, pareceu-me, ao contrário, uma prova de confiança. Mais que uma ruína, já me tocava o novo, deixando o porto, acabado, em direção ao risco. O novo atrelado ao mistério, eu ficava em volta, antes que a célula de uma escolha o restringisse. Virgindade do dia seguinte, qual ontem enrugado te iguala? Eu contemplava a juventude dos homens e das coisas com amor. Um navio, eu o preferia no seu estaleiro, Bonaparte na sua caserna, Davi ordenhando uma cabra, Cristóvão Colombo em Palos, Simbá ainda em casa. 16


Eu ia ver a saída dos alunos do primário e das jovens datilógrafas. Eu até compartilhava a melancolia dos pais, para os quais, por uma estranha lei de perspectiva, aqueles que eles veem crescer se distanciam. * o peso de papel de cristal

Esta poltrona, sua estampa de estilo e seu veludo escolhido entre todos forçam um olho livre. Eu decidi romper. Um peso de papel de cristal torna-se, para mim, arte e conforto. Eu me surpreendia de ter preferido os tecidos, móveis e potes, onde se escondem a poeira e a saciedade. Para mim, ele não era mais de cristal… um cubo… seis faces… um peso de papel… não. Mas uma encruzilhada de infinitos, um carrossel de silêncios. Como aqueles que encostam a orelha em uma concha para ouvir o mar, eu aproximava meu olho desse cubo e pensava descobrir, ali, Deus. * a lista, o muro e o fio de prumo

Os meus poetas foram: Larousse, Chaix, Joanne,Vidal de la Blache. Meus pintores: o cartazeiro. A menor impulsão bastando à minha preguiça de lambão. Nesta data, eu anotava (O Potomak, p. 141): “A maior obra-prima da literatura é sempre um dicionário em desordem”. Um dia, a lista de personagens de Peer Gynt me transtornou. Eu me lembro de ter lido e relido essa lista que se desenrola de um campesinato ao colosso de Memnon. Sem ousar 17


conhecer a peça, eu gostava de Solveig e dos Novelos. Em torno deles, que espetáculo feérico eu imaginava? Neve. As cenas, exceto quatro, me decepcionaram. Eu me lembro também de, em Platão, ter encontrado prazer, saltando Sócrates, nos monossílabos de Alcibíades. * Obcecado, em suma, por associações e possibilidades, ocorria-me ver com perturbação, em pleno sol, um muro liso de mármore. O mármore foi tão usado para o nu juvenil, que a simples matéria me afetando, eu tinha a impressão de que esse muro estivesse se exibindo. Então, minha pele seguia o ritmo obscuro das meninges. Eu desejava praticar a educação paralela dos sentidos. Algumas músicas ruins, nós as suportamos. Eu as imaginava no campo dos odores; desmaiava. * Na direção de uma dama das antípodas, o fio de prumo tornou-se minha locomoção favorita. * o trombadinha

A medula das samambaias, em corte, simula uma águia. Assim são os raios do cinematógrafo, o feixe de lua, carregado de atores e paisagens, que não se vê, os libera, em corte, na tela. Nada me excitava mais que esse mistério. De volta à minha poltrona, eu olhava o filme na sua fonte, a loja de chapa onde o amolador dos silêncios afia os raios mais ou menos pálidos segundo o que eles contêm: uma árvore, um vestido, uma carta ou um cavalo branco. 18


Eu decifrava esses cativos, procurava surpreender a dimensão inédita em que o drama se encena durante o trajeto da lâmpada até a parede. Sobre as nossas cabeças, um mundo invisível atravessa a sombra sob a forma de cones que se movem e se desenvolvem indefinidamente, a menos que uma parede os denuncie. Assim, eu supunha uma cena. O trombadinha, travestido de eletricidade, escapa pela lucarna do fundo da sala, que vira as costas; mas ele se esmaga contra o edifício da frente. Todo mundo o vê… o detetive se lança… Então, o trombadinha mergulha à esquerda, no vazio que enquadra a parede reveladora. Esses bastidores do vazio foram, para mim, outro enigma. Eu negligenciava por essas imaginações o próprio espetáculo no qual eu gostei tanto de Nova York, Rio Jim, Fantômas, do capitão Scott, do aquário dos boxeadores em câmera lenta, do olho da mosca e do desabrochar instantâneo de uma rosa. * a vitória do príncipe rataplan

Minha fraqueza era acreditar que este mundo é inteligível a todos. Uma tarantela de Chopin, eu a apelidava: Vitória do Príncipe Rataplan. O Príncipe Rataplan, o seu pequeno exército esperneia com polainas brancas. Bolas de alcaçuz, um soldado morto com a mão no coração e o céu encarneirado sobre um outeiro. Era, para mim, a evidência. Eu queria não somente que a sua imagem surgisse para todos dessas gentis notas galopantes, mas, ainda, pedir 19


ao pianista “A Vitória do Príncipe Rataplan”, e que, desprevenido, ele tocasse, para mim, o trecho. Sofri uma semana com essa Épinal individual. Que se tenha podido reconhecer ali dançarinas se ramificando até os mais profundos mal-entendidos humanos, isso me fazia mergulhar na solidão. * os rostos

Perto desse fenômeno de imobilidade louca que não suporta mais o lapso indispensável para ir, gozar e voltar, eu me hipnotizava, menos solitário, com os rostos. O encontro de um rosto bastava ao meu amor. Um rosto se tornava tudo para mim: Nápoles, as Pirâmides, uma fuga de Bach, Dostoiévski. Os olhares se desabafam sobre esses violinos de osso, bombeados, fechados, fendidos, delicados. Mesmo os medindo no micrômetro, sabia-se o abismo de sua dimensão interna? Havia lá dentro: árvores, janelas, parques, embarcadouros, hotéis, navios, ursos, teatros, órgãos, quartos, automóveis, estrelas, cortejos, famílias, gramados, estações, frutas, nuvens, aeroplanos, locomotivas, templos, arranha-céus, estâncias, jardins zoológicos, rios, ondas, lagos, bibliotecas, estátuas, orquestras, mais peixes do que o oceano pode conter, o céu de pássaros, o nada de astros. E eles eram tão magros. Pareciam nada saber do mundo e sempre se esbarrar nele. Eles obstruíam o mundo e a gente se machucava com eles. Gostei bastante desses rostos que passam, essas caixas cheias de universo. * 20


Havia uma campeã de tênis Nausícaa, o mensageiro do elevador: uma personagem feérica, a patinagem do Dante, e a pequena Andrômeda vendia Paris-Sport diante da boca morna do metrô. * augias

Eu resumo este tumulto de silêncio que sucede à minha barulheira ao inverso desses barulhos que invadem um jovem, repentinamente livre, após uma educação provinciana. Somente agora, reencontro a Quietude (Relativa) E me dou conta das riquezas que produz uma limpeza de Augias. Essas hecatombes de bibelôs, esses autos de fé de papeladas chicoteiam a moleza, lavam a alma, fortalecem os músculos e tiram da penumbra uma neve, na qual se desperta bem, na qual se respira bem, na qual se digere bem, na qual se julga bem. * a viagem em direção à esquerda

Então, eu estava doente, doente como depois de uma vacina, mas doente. Eu tinha febre. Acreditava que estava ficando louco e me consolava, pensando que uma vidraça separa os meus mais caros poetas dos loucos, e que, se para os loucos o fio se rompeu, o fio dos poetas estava no seu ponto de tensão extremo, antes de se romper. Eu sabia que por um nada a dissociação estrambólica do louco poderia ser emocionante e por um nada estrambólica a dissociação emocionante do poeta. 21


Certas noites, eu ficava ingenuamente aterrorizado pela minha inteligência, sabendo que se o artista metamorfoseia tudo em ouro, ele não saberia privar-se de orelhas de burro. Eu tateava as minhas têmporas, mexia nos meus cabelos, procurava orelhas de burro. Eu as encontrava na minha falta de cultura e na minha própria pretensão. Elas me ajudavam a dormir novamente. Eu previa um livro: O viajante em direção à esquerda. Depois de O Potomak, aplicação consciente de uma arquitetura, para o bem ou para o mal, outrora cegamente conduzida. A gente poderia ter acompanhado, menos vagamente, a descoberta de uma América. Contar essa viagem é impossível, infelizmente! Seria preciso escrevê-la na época. Teria sido para toda uma juventude um itinerário para ganhar tempo. * o fogo de artifício

Em 14 de julho de 1913, nós tivéramos, em MaisonsLaffitte, um fogo de artifício oferecido pelo senhor Gould. Oh! O rico fogo de artifício! Hidras de ouro se arrancaram do solo, pá… boca de carpa, explode um estuário estrelado. Espanava-se o colchão no céu. O arcanjo dá um tiro de revólver em um monstro do Ouest-État; ele urra e foge. Uma jiboia de ouro gigante se de sa grega com um último suspiro de bengala. Imagine o que me podia oferecer de devaneio um espetáculo assim, em plena crise. 22


Quando voltei para casa, esse fogo de artifício tornou-se uma guerra. E houve a guerra. Logo, em 1º de agosto, a guerra colocou fim a todo tratamento ao sol e foi uma explicação satisfatória para os transtornos de um jovem barômetro carregado de temporal. * página típica

Eu sou parisiense, falo parisiense, pronuncio parisiense. Gosto de Bara, Viala, do tambor de Arcole. Eu corri para me engajar de corpo e alma. Rogaram-me para eu ter paciência. Passei o mês como um basbaque a me acalmar, a julgar, a compreender, a escrever. Dessas notas que eu queimo, conservo uma página típica: “Quatro dias nós fomos zeladores. Esse nivelamento por baixo era bem frágil.Ah! Tratava-se de patriotismos da arte! Mas o zelador nunca sobe, é preciso descer. Eu teria queimado todos os livros. Paraíso materno. Três palavras, três cores, ao som de ‘Lampiões’. Um jovem alemão se desperta em Heidelberg: poderíamos ser ele. Que cruel melancolia! Era preciso aproveitar uma remada que traz o lodo, usar o meu velho atavismo das cavernas. Pouco a pouco o lodo cai novamente. Eu não aguento mais.A guerra começa. Retorno ao silêncio dos livros. Lá é alto demais para que o biplano blindado alcance, profundo demais para que, ao fogo unânime, o geógrafo delimite. Meu mundo que me expulsa do outro mundo, onde, sozinho, soluço e me orgulho. Eu fechei a porta. Zaratustra me fala de eternidade. Escuto tocar Bach e assino a paz no meu coração.” 23


* a guerra

Falemos imediatamente da guerra. Eu não relatarei setembro, outubro e novembro de 1914, quando acompanhei, como motorista de ambulância, uma vitória humilde e sublime. O doloroso e o engraçado estavam, ali, estreitamente misturados um ao outro, como no rosto em lágrimas das virgens de Giotto, às quais um nada seria necessário para que soltassem uma gargalhada. As peripécias eram ajuntadas apenas pelo odor de carniça. Como descrever essas paisagens, tão diferentes que, somente quatro ou cinco dias depois de termos acampado ali, me ocorreu de reconhecer uma taberna onde eu havia almoçado outrora a passeio? (Havia correntes do golfo de fenol e de gangrena gasosa.A gangrena é um almíscar adocicado, infecto, um crepúsculo de odor sobre os campos.) A ousadia e a fadiga desse turismo foram uma droga contra as reflexões pessoais. Eu constatava, não julgava. * herr ebel

Depois de um artigo do jornal Le Mot, de 1º de maio de 1915, no qual eu me divertia em estender a mão aos erros que Eugene ressalta e sempre ressaltará, no qual eu empregava esse micróbio de alma para zombar do nosso chauvinismo e do militarismo prussiano, no qual eu mostrava a medida em que se podem vendar os olhos com todo o mundo, tendo o cuidado de levantar a borda do 24


lenço, o personagem de Herr Ebel – um Eugene de primeira grandeza – inspirou um artigo de Maurice Barrès1: “Um soldado alemão ferido faz a Jean Cocteau, que cuidava dele, confidências, e esses cochichos febris em um leito de hospital guardam um eco do grande delírio dos deuses na véspera da guerra. Nesse texto inesquecível, vê-se o minuto em que o sonho secular se transformou em ação, em que o movimento obscuro da alma terminou em um gesto terrível. Agosto de 1914, a sonâmbula segurou seu punhal. Os cinco filhos pobres da nação alemã partem para decapitar e oferecer em holocausto aos seus deuses o filho único da nação francesa. O rumor das florestas… etc.” Charles Maurras, Péladan, La Revue hebdomadaire retomam o motivo. Gide havia descoberto uma planta Eugene, em Varengeville. Stravinsky estima que o olho da mulher Eugene comporta várias facetas, e eu me zango comigo mesmo por não ter citado J.-É. Blanche, vulgo doutor Blanche, pois ele pôde, com quinze anos de intervalo, seguir Aubrey Beardsley nas tomadas com o Venusberg e me seguir. Dieppe, cidade úmida, cidade bege, propícia à incubação. Nos mesmos passeios, Henry de Tannhäuser encontrava o jovem doente, e os ‘Eugenes’ me avisaram sobre os acontecimentos hediondos dos quais seríamos testemunhas. carta de j.-é. blanche à senhorita t...

À Senhorita T..., 15 de agosto. “A Senhorita se lembra do mal-estar que nos causaram os ‘Eugenes’ quando, depois da meia-noite, nós nos decidíamos a subir para os nossos quartos…

Écho de Paris, 2 de agosto de 1915.

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…A nossa sonâmbula, durante as longas noites de outono, tirava um sistema do mundo da bolsa cheia de pavor, que os ‘Eugenes’ carregam com suas mãos de arpão… A Senhorita se lembra desses papa-defuntos, crocodilos, larvas, desses mudos que espalhavam, no cômodo, o mal-estar e a inquietação do pesadelo? Esses ruminantes, essas máquinas de moer, de serrar, de abocanhar tudo com suas mandíbulas são os pais da Virgem de Nuremberg, noiva de ferro, o instrumento de suplício teutão, entomológico, confuso e cruel do ultra-Reno. O livro devia ser lançado em agosto... Eu escondo esses croquis alucinantes e proféticos. Não teríamos mais defesa que esta família Mortimar, que outro desenho representa com chapéus tiroleses, inocentemente apoiados na amurada, face ao Mont Blanc, em um barco, pelo qual a horda dos carnívoros passou? Esses ‘Eugenes’, minha cara, a Senhorita nãos os reconhece? Eles estão na nossa porta?” Cahiers d’un artiste, jul./nov., 1914. * perspectivas

Que os Mortimar se reencarnem, sabendo um pouco do que não lhes diz respeito, mas não o bastante para que isso lhes seja útil, devolvidos como indigestos por um estômago habituado a alimentos mais pesados, eis o que eu não procuro vender como imagens de guerra, e do feio desenho final eu não tiro nenhuma profecia. Simplesmente preocupado com perspectivas, eu me surpreendo, aos poucos, com as coincidências que se estabelecem entre uma guerra pequena, já que eu desempenho, nela, um 26


papel medíocre, e uma grande guerra, já que dela eu fui o teatro. Esse egoísmo é boa solidariedade. Quem se debruça sobre si ajuda os outros, revela, divulga, toca em Deus. * troppmann

Subo sem saltar os degraus e este livro não representa nada de decisivo, mas um trecho de curva, com o que ele comporta de fresca atrapalhada no caminho para um método. Eu me submeti aos atavismos, aos professores e aos tziganos, mas pouco importa, pois, lentamente, por bem ou por mal, um destino nobre se engendra nas profundezas. Eu não chego de tamancos, como um Rothschild, mas de escarpins que deformam o pé e mil moças-flores de Alcazar nessa estrada através do pior. Segui crápulas, imbecis, príncipes! Descalço-me e me escovo. A infância toca o céu das poesias. Ressuscitei minha infância. Destruí os meus ídolos. Cada dia, sufocando ou poupando atavismos, assassinei ou roubei sete membros da minha família, como Troppmann. Nesse jogo, degolam-se pombas. Assim como em certas fotografias minhas, acho que tenho um ar antropométrico. * o segredo de confundir

Aos doze anos, morre-se de orgulho. Mas, infelizmente, a beleza interior não lança todo o seu buquê, como um rosto. Esse desejo maldito de uma imediata remuneração de forças confusas me dava uma timidez arredia, uma angústia de outrem. Tivesse eu querido um letreiro, 27


que um lis crescesse na minha boca, que um anjo aparecesse segurando a minha mão; uma prova qualquer – eu procurava o segredo de confundir. * calcas

Acabo de sofrer uma recaída. Ainda saio vencedor dessa necessidade de glória, contágios e epidemias. Receita: Não ler mais os jornais. Fugir do contato com humanos para esquecer o que há de mim neles, pois um longo hábito familiar dos falsos valores considerados como justos me envenena. Eu sabia o erro da natureza, o homem tão engraçado sobre suas patas traseiras, engajado até a loucura neste vaudeville biológico, o progresso, filho odioso do homem e sem mais nada de umbilical, a guerra e o amor inevitáveis (mas ineptos o relógio para se esperar e o canhão para se matar), a necessidade, tão longe, tão adiantada em um erro tão pleno, de ter o melhor relógio, ô meu amante! E ô, minha França! O melhor canhão, e que haverá sempre gente que diz isso e outros que dizem aquilo, e nisso isso e aquilo, e naquilo aquilo e isso, e que é a grande tristeza e a grande beleza do mundo. O melhor ainda era a arte, nascida convencionalmente mágica desde a alvorada. O resto ia, vinha, flutuava, mancava, até desencorajar o piloto. É igual, será preciso que eu recobre as forças, que eu não recite o papel de Calcas em Troilo: “Eu deixei bens certos e reais para me expor a uma fortuna duvidosa; rompi com tudo o que o tempo, as relações, o hábito e 28


a carreira tinham combinado e tornado familiar à minha natureza; e ao me expatriar pela justiça, eu me tornei novo no mundo, estrangeiro e solitário”. * em linha reta

Voltemos aos Mortimar, aos Eugenes. O livro dormia no “Mercure de France” por causa da guerra, e se eu fosse encontrar Alfred Vallette eu não falava dele, temendo sofrer a tentação dos retoques.2 Um grande retoque, e o livro desmorona. Certo de que uma verdade se depreende das contradições, das buscas, das rupturas de equilíbrio sinceras e contínuas, eu poderia ter batizado este livro: A arquitetura cega, ou O acrobata sonâmbulo, ou Prova dos 9, ou Uma filosofia da desordem. Eu me condenaria por oferecer um sistema para preguiças. Minha cabeça continha o labor viscoso de uma colmeia. * críticas

A virtuosidade leva ao lugar-comum. O lugarcomum exerce um encantamento. Eu conheci virtuosos que seguiram essa inclinação. Parecia-me que eles repetiam com enternecimento para si mesmos: “Eu, Rothschild, tomo sopa com os pobres!” 2

O Potomak estava inteiramente composto no “Mercure”, de onde, com as dificuldades de guerra atrasando sua impressão, eu pude transportálo à SLDF (Société Littéraire de France), graças à gentileza de Vallette. 29


Ora, se cansado de sua própria fonte, abebera-se em praça pública, ocorre, ao contrário, que uma forma que se procura faça fugir do lugar-comum certa afetação fatigante. É a minha principal crítica contra o estilo deste livro. Um estilo rococó. * Os desenhos: preciso de coragem para deixar sessenta e duas vinhetas sem graça na superfície de uma obra profunda como o indivíduo. Essas regatas provocam a natação em detrimento do escafandro. Acrescento algumas pranchas novas. Fórmula menos tola. Não que eu exalte a sua excelência, mas o ponto de encontro mais exato entre o mal-estar Eugene e a linha. As feiuras de Uma história que, para acabar bem, termina ainda pior me chocam e eu teria sido seduzido a retomar tudo, se essa feiura canhestra, paralela, por exemplo, a tais “versos livres” do texto, não fosse o livro mesmo e a prova do que ele prova. * o potomak

Mais uma palavra.Voltei ao aquário do Potomak. Não se anuncia nenhuma reabertura, mas o cartaz: FECHADO POR CAUSA DE PENHORA, desaparece sob outro novo: MAISON FRANÇAISE FECHADA POR CAUSA DE

MOBILIZAÇÃO Um bandido muito mau escreveu em cima: PROCURO UM AMIGO SÉRIO. 30


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O Potomak - Precedido de Prospecto 1916 by Grupo Autentica - Issuu