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O papel social do historiador

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O PAPEL SOCIAL DO HISTORIADOR Da cátedra ao tribunal Olivier Dumoulin

COLEÇÃO HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA


Coleção

HISTÓRIA & HISTORIOGRAFIA Coordenação

Eliana de Freitas Dutra

Olivier Dumoulin

O papel social do historiador Da cátedra ao tribunal

Tradução

Fernando Scheibe


Copyright © 2003 Éditions Albin Michel Copyright © 2017 Autêntica Editora

Título original: Le Rôle social de l'historien de la chaire au prétoire

Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

coordenadora da coleção história e historiografia

revisão

Eliana de Freitas Dutra

Lívia Martins

editora responsável

projeto gráfico

Rejane Dias

Diogo Droschi

editora assistente

capa

Cecília Martins tradução do prefácio

Alberto Bittencourt (Sobre foto de Sanchai Khudpin/shutterstock)

Fernando Scheibe

diagramação

revisão da tradução

Waldênia Alvarenga

Vera Chacham

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Dumoulin, Oliver O papel social do historiador : da cátedra ao tribunal / Oliver Dumoulin ; tradução Fernando Scheibe. -- 1. ed. -- Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2017. -- (Coleção História & Historiografia) Título original: Le Rôle social de l'historien de la chaire au prétoire ISBN 978-85-8217-682-5 1. Historiografia - Aspectos políticos - França 2. Historiadores - França I. Título II. Série. 17-00877

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Agradecimentos

Eles vão em primeiro lugar para Hélène Monsacré e Delphine Ayral, por terem assumido esta empreitada e pela tenacidade que manifestaram diante de um autor meio adormecido, a fim de ajudá-lo a levar a bom termo este trabalho. Vão também para Richard Figuier, que foi o primeiro a pôr fé neste projeto, e para os historiadores que aceitaram responder minhas perguntas nos primeiros momentos da investigação: François Bédarida, André Burguière, Sonia Combe, Claudio Ingerflom, Annie Lacroix-Riz, Emmanuel Le Roy Ladurie, Gérard Noiriel, Joanna Pomian, Antoine Prost, Madeleine Rebérioux, René Rémond, Jean-Pierre Rioux, Henry Rousso e Félix Torres. Eles foram consultados, durante o inverno de 1996-1997, por seu papel eminente na profissão, sua participação em expertises históricas, por terem prestado depoimentos em processos, intervindo em algumas das polêmicas aqui descritas ou por suas atividades como consultores. A natureza dos indícios procurados (a justificação pública) me levou, a maior parte do tempo, a utilizar essas entrevistas para elaborar hipóteses e não como fonte oral. Estendem-se ainda aos diversos colegas que foram me trazendo recortes de jornal recolhidos em suas leituras cotidianas e que foram essenciais aqui. Penso especialmente em Francis Python e em seus colegas da Universidade de Friburgo, onde dei aula por um semestre. Finalmente, agradeço a minha esposa, Ninon, por seu apoio confiante e sua paciência na revisão do texto.


INTRODUÇÃO

Uma pista

Na manhã do dia 2 de abril de 1998, o júri popular de Bordeaux dá seu veredicto; o pior foi evitado, a sentença não foi pronunciada no dia 1º de abril e Maurice Papon não é considerado irresponsável. Desse “último” ricochete do drama de Vichy, tudo parece dito. Os comentadores muitas vezes precederam a sentença para analisar no calor da hora1 um processo que manteve a imprensa na expectativa, paralisada e obrigada a lhe consagrar uma meia página, ou uma página inteira, dia após dia, apesar da monotonia e mesmo, em certas circunstâncias, da mediocridade dos debates. Diante desse tribunal, que as partes civis e a defesa designaram como tribunal da História, testemunhas de um tipo peculiar, experts de uma espécie singular foram citados a comparecer: os historiadores. Estranhas testemunhas, em verdade. Por não conhecerem o acusado, não podem ser consideradas como testemunhas de moralidade;2 por não terem como atestar um contato efetivo com a realidade sensível dos fatos e dos atos incriminados, também não podem ser designadas como testemunhas materiais. Nenhuma memória visual, nenhuma memória auditiva poderia aqui ajudá-las a esclarecer os jurados. Do que são testemunhas essas testemunhas que só conhecem os rastros indiretos da experiência? E com que direito seriam experts esses experts a que nenhuma lista de experts históricos adjuntos aos tribunais confere essa qualidade? Sua capacidade ROUSSO, Henry. La Hantise du passé [A obsessão pelo passado]. Paris: Textuel, 1998.

1

THOMAS, Yan. La vérité, le temps, le juge et l’historien [A verdade, o tempo, o juiz e o historiador]. Le Débat, n. 102, nov./dez. 1998, p. 29.

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de aconselhar o presidente do júri, em matérias que escapam à competência jurídica deste, ainda não foi demonstrada. Finalmente, esses experts examinam tudo, exceto o dossiê de que não podem ter conhecimento, salvo aqueles que estiveram envolvidos no processo de instrução.3 Esses experts, que não são experts, testemunham, portanto, aquilo de que não foram testemunhas. E, no entanto, nos primeiros dias de novembro, segundo o advogado de Papon, Jean-Marc Varraut, o processo assumiu a forma de um colóquio de historiadores. Todas as variedades da tribo foram convidadas a se expressar: os grandes especialistas estrangeiros, louvados e criticados por essa mesma razão, o figurão recentemente entronizado como especialista do período por suas expertises na matéria, especialistas reconhecidos cujos trabalhos formam os estudantes, um estreante armado com sua tese, o historiador local e, finalmente, o historiador acadêmico: René Rémond, Robert Paxton, Philippe Burrin, Michel Berges, Jean-Pierre Azéma, Henri Amouroux, Marc-Olivier Baruch... na desordem, o leitor reconhecerá os seus. E, não fosse por sua recusa, os depoimentos de Henry Rousso, Maurice Rajsfus e Denis Peschanski teriam vindo engrossar ainda mais o caldo desse colóquio, que só chegou a termo com os depoimentos de historiadores intimamente ligados à queixa inicial, Michel Berges e Maurice Delarue, ex-delegado de polícia que se tornou historiador, coautor da única expertise histórica em curso de instrução (1985), mais tarde invalidada pela decisão de anulação do Supremo Tribunal. Nesse momento do processo, a importância de depoimentos de historiadores explica que desenhos, fotos e caricaturas coloquem em plena luz os homens que costumam viver à sombra dos arquivos: na primeira página do jornal Le Monde, os retratos de Jean-Pierre Azéma, Philippe Burrin ou de Robert Paxton se tornam, pelo tempo de uma audiência, tão midiáticos quanto o de René Rémond ao final dos debates eleitorais do canal France 2. ROUSSO (1998, p. 103): “Encarregados de informar os jurados a respeito de acontecimentos que estes não conheciam, os historiadores estavam na verdade na mesma situação que seus ‘alunos’ de um só dia: não apenas a maior parte deles não tinha vivido naquela época como também, assim como os jurados, eles eram os únicos a não conhecer o dossiê, já que este só é acessível aos magistrados, aos advogados, às partes civis e ao acusado”.

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Introdução

Por fim, esse fórum de historiadores, que toca na questão da natureza de um processo que tem a história como material, se vê duplicado na imprensa de opinião por aqueles cuja ausência em Bordeaux permite que se expressem com toda liberdade: Michaël Marrus, Denis Peschanski, Eberhard Jaëckel. Mas, consultando os diários e semanários, logo percebemos um mal-estar relacionado à ambiguidade de um estatuto incerto. As recusas de testemunhar falam por si mesmas; Henry Rousso escreve ao presidente do tribunal: “Não condeno o processo, mas adoto a mesma atitude que adotei quando certas partes civis do processo Touvier me pediram para testemunhar. Aquilo que se espera dos historiadores – preencher as lacunas devidas ao fato de que os jurados não viveram aquela época, restituindo um contexto – é a meu ver uma responsabilidade esmagadora”.4 Sua carta e depois um livro lhe permitem recusar a aplicação de seus trabalhos a um indivíduo singular, a sujeição de sua pesquisa às regras do questionamento jurídico e, por fim, a deformação e a utilização abusiva de suas conclusões num contexto que não é o do mundo da pesquisa.5 Mas se trata de uma evasão, de um simples fechamento covarde no calor confortável das bibliotecas e dos arquivos? É claro, muitos são aqueles que não podem jurar que testemunharão “sem ódio”,6 mas essa desculpa ainda não foi invocada. Na realidade, o espaço dado aos historiadores instaura um duplo debate. No quadro do processo, essa onipresença inicial dos historiadores remete à necessidade de remediar o deficit de experiência do júri que não viveu o período concernido. Os conhecimentos por vestígios dos historiadores supririam então a falta de compreensão daquele que não viveu os fatos: “O historiador é uma testemunha. A evidência o

WEILL, Nicolas. Le dilemme des historiens cités à comparaître [O dilema dos historiadores convocados a comparecer]. Le Monde, 16 out. 1997, p. 8, citação da carta endereçada por Henry Rousso ao presidente do tribunal.

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“Deux historiens refusent de témoigner” [Dois historiadores se recusam a testemunhar], Libération, 15 out. 1997. Os argumentos são desenvolvidos no livro já citado La Hantise du passé.

VIDAL-NAQUET, Pierre. Ce qui accable Papon [O que incrimina Papon], entrevista realizada por Josette Alia, Le Nouvel Observateur, 23-29 out. 1997, p. 57. Maurice Rajsfus, “Il y a quelque indécence à faire témoigner un fils de déporté” [Há certa indecência em fazer testemunhar um filho de deportado], ver o artigo de Nicolas Weill no Le Monde, 16 out. 1997.

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dizia, a justiça o repete.”7 A afirmação simétrica implica que os contemporâneos, por natureza, estariam dotados de compreensão: viver basta para compreender; axioma que dá o que pensar – lembremos por exemplo do retorno dos emigrados em 1815. Os advogados de Paul Touvier e de Maurice Papon insistiram muito nesse aspecto, e muitas vezes com argumentos semelhantes aos de Henry Rousso sobre a ausência de qualificação dos historiadores como testemunhas. O debate desenha uma outra topografia; implica uma reflexão dos historiadores sobre o papel que a sociedade lhes atribui e, em última instância, obriga-os a definirem eles próprios o sentido de suas intervenções, a natureza da tarefa que cumprem, o papel social que justifica que a sociedade sustente uma atividade de aparência tão inútil. Antes do processo Papon, os processos de Klaus Barbie e de Paul Touvier e a instrução do caso de René Bousquet já tinham desenhado os contornos dessa nova interrogação do historiador sobre o sentido de sua missão. Por certo, a tribo concernida reúne apenas uma parte mínima da vasta corporação dos historiadores: os historiadores da contemporaneidade, especialistas em Vichy e/ou na Segunda Guerra Mundial. Mas as questões suscitadas encontram eco para além do domínio destes. Pois esses processos, nascidos da lei sobre a imprescritibilidade dos crimes contra a humanidade, não colocam apenas o historiador em cena, como testemunha ou como expert, eles também geram outras formas de intervenção. No caso do processo Papon, o “livro azul”, resultado da expertise anulada em 1987, e, decerto ainda mais, a expertise feita fora do quadro judicial – mas amplamente considerada durante o processo – oferecem ilustrações espetaculares do fenômeno. No momento em que a instrução ia pela primeira vez consultar o grande júri sobre o caso de Paul Touvier, o cardeal Decourtray anuncia publicamente, em 29 de junho de 1989, que uma comissão de historiadores foi constituída com a função de lançar toda luz possível, com a devida independência, sobre a ajuda concedida pela Igreja da França a Paul Touvier durante os anos em que este viveu fora da lei. Essa comissão, de que participam François Bédarida, Bernard Comte, CHALANDON, Sorj. L’Histoire pour témoin [A História por testemunha]. Libération, 5 nov. 1997, p. 15.

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Introdução

Jean-Pierre Azéma e Yves Durand, é presidida por René Rémond. Suas conclusões são apresentadas em 1992 sob o título Paul Touvier e a Igreja: relatório da comissão histórica instituída pelo cardeal Decourtray.8 Dessa experiência de história sob encomenda de uma instituição e com fins práticos, já que se trata de identificar o grau de responsabilidade da Igreja nas manobras que esconderam Paul Touvier da justiça de seu país, os participantes da comissão tiram conclusões que lançam uma luz diferente sobre a significação da atividade e da produção do historiador. François Bédarida, na véspera da publicação, sublinha o caráter excepcional da empreitada: “O cardeal Decourtray se lançou num empreendimento sem precedentes”. A aventura é, segundo ele, uma experiência de laboratório para os historiadores.9 Bédarida desvela o triplo desafio – científico, cívico e religioso – da investigação e, sobretudo, revela uma verdadeira transformação da missão do historiador ao final do artigo. Se o método é qualificado de clássico, se o trabalho coletivo surge como inovador, a raridade está em outro aspecto: “Numa época gulosa de expertises, de auditorias, o trabalho do historiador se impõe no domínio reservado ao contabilista, ao psicólogo, ao jurista”,10 a todos esses saberes que conjugam uma face acadêmica e uma face profissional, uma teoria e uma prática. E François Bédarida retoma a fórmula de Étienne Borne no jornal La Croix, de 24 de janeiro de 1992: o historiador cria um novo espaço entre o público e o privado, inaugurando uma nova forma de arbitragem e de informação pelo saber. Assim, a comissão de experts em história transporia esse fosso essencial entre a ciência e a ação que levava Max Weber a expulsar a política dos anfiteatros e das salas de aula, esses lugares onde é fácil demais demonstrar sua coragem partidária a oponentes condenados ao silêncio.11 A clivagem é aqui superada, já que o teatro da ação se torna simultaneamente o do saber. Paul Touvier et l’Église: Rapport de la commission historique instituée par le cardinal Decourtray. Paris: Fayard, 1992.

8

BÉDARIDA, François. L’affaire Touvier et l’Église: spectroscopie d’un historien [O caso Touvier e a Igreja: espectroscopia de um historiador]. Le Débat, n. 70, maio/out. 1992, p. 209-221.

9

Bédarida (1992).

10

WEBER, Max. La vocation du savant. In: Le savant et la politique. Paris: Plon, 1959, p. 97 [Edição brasileira: A ciência como vocação. In: Ciência e política: duas vocações. Tradução de Leonidas

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O papel social do historiador: da cátedra ao tribunal

Quanto ao caso Touvier, ele enraíza ainda mais uma visão renovada da missão do historiador, de um historiador que se torna testemunha na justiça em razão de sua expertise histórica. De fato, quando do processo, o presidente do tribunal pede a René Rémond para esclarecer os jurados, enquanto a acusação cita François Bédarida como testemunha expert para descrever o sentido do engajamento da Milícia. Mas a entrada triunfal do historiador como expert no tribunal é contestada; o defensor de Paul Touvier invoca a ausência de valor das provas históricas diante de um tribunal.12 Sem tirar ainda qualquer conclusão sobre o caso Touvier, aponto que ele empurra numa direção já tomada os dois historiadores citados acima. Cobertos de honras, tendo ocupado por muito tempo postos-chave da profissão de historiador, René Rémond e François Bédarida, através de artigos e prefácios, desenvolvem um discurso sobre a responsabilidade do historiador, sobre sua função social, sobre sua atitude diante de uma demanda social que, muitas vezes em busca da identidade, solicita o historiador em detrimento da dimensão universal de sua procura pela verdade. Essa reflexão acaba por atribuir um papel considerável ao historiador e a sua obra. Esses escritos ressoam como apologias pro domo da atividade do historiador no seio do corpo social, às quais faria eco uma sobrevalorização social do direito do historiador a manejar o gládio de uma justiça retrospectiva. No jornal Libération, Dominique Kalifa lança como uma evidência: “A repressão da Comuna, a justiça de Vichy ou da guerra da Argélia tiraram proveito sobretudo do peso crescente das questões de memória e das funções de juiz atribuídas ao historiador.”13 Mas esse efeito da demanda social resulta também das pretensões dos historiadores segundo Gérard Noiriel: Hegenberg e Octany Silveira da Mota. Campinas: Cultrix, 2011]. “É de fato cômodo demais demonstrar corajosamente suas convicções num lugar onde os assistentes, e talvez os oponentes, estão condenados ao silêncio.” Notas de audiência de Anne Brunel – a quem agradeço –, que estava cobrindo o processo para a emissora de rádio France-Culture.

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KALIFA, Dominique. Le juge et l’historien [O juiz e o historiador]. Libération, quinta-feira, 27 dez. 2001, p. 17. Resenha do livro de Jean-Claude Farcy, L’Histoire de la justice française de la Révolution à nos jours [A história da justiça francesa da Revolução aos nossos dias]. Paris: PUF, 2001.

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Introdução

A ideia de que um historiador é antes de tudo um expert ou um juiz tende a se difundir. Aliás, uma parte dos historiadores do tempo presente se esforça para confirmar essa imagem. [...] Essa deriva, que não se restringe à França, provoca um sentimento de mal-estar, compartilhado por um grande número de historiadores do tempo presente, mal-estar que torna urgente a abertura de um debate sobre a “função social do historiador”.14

Embora não concorde com as apreciações de Gérard Noiriel, minha pergunta é a mesma que a dele: a justificação da atividade do historiador estaria num momento de virada? A justificação e a operação historiográfica

Esse desvio inicial ilustra a relação primordial que o historiador, como todo ator social, mantém com a legitimação de sua atividade, com sua justificativa para fazer parte do corpo social. Maître à penser, boca da verdade, desmitificador, conselheiro dos príncipes, formador da juventude, educador, defensor da pátria... pouco importam as funções evocadas, todas remetem a uma utilidade e, apesar das aparências, a ideia da arte pela arte, do simples prazer de pesquisar, raramente é evocada. Mesmo quando descreve os momentos de êxtase do cientista, inteiramente agarrado à sua descoberta como Vênus à sua presa, Max Weber não conclui que esta seja a finalidade social da atividade: “Se estamos enquanto cientistas à altura de nossa tarefa, podemos então obrigar o indivíduo a se dar conta do sentido último de seus próprios atos, ou ao menos ajudá-lo a tanto.”15 Para compreender as transformações da escrita da história hoje, parto então da hipótese de que ela mantém uma relação obscura, mas comprovada, com aquilo que os historiadores raramente evocam ao termo de sua atividade científica: a razão de ser social de sua atividade. Sob as denominações de “tarefa do historiador”, “missão do historiador”, “função social do historiador”, “papel social do historiador”, “responsabilidade do historiador” reside a ideia de que este cumpre uma função preciosa, específica e incomparável, que não NOIRIEL, Gérard. Les Origines républicaines de Vichy [As origens republicanas de Vichy]. Paris: Hachette, 1999, p. 10.

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Weber (1959, p. 100).

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distingue nem o pesquisador nem o professor. É claro que a fórmula que escolhi se inspira num texto célebre de Lyautey16 que, entre as três autoridades invocadas para justificar a noção de “dever social”, cita, ao lado de Eugène Melchior de Vogüé e Albert de Mun, o historiador emblemático da época: Ernest Lavisse. Nesse texto, o futuro marechal esboça um quadro edificante das aptidões do oficial: Se existe um quadro, na acepção militar do termo, capaz por natureza de exercer uma ação mais ampla que os outros e ser o primeiro a se compenetrar da necessidade e da urgência do dever social [...], é o corpo dos 20.000 oficiais franceses [...], ele é, portanto, um maravilhoso agente de ação social. [...] Sua solicitude faz dele um justiceiro, confere-lhe o papel de árbitro ideal. Ele tem valor de exemplo, pacifica as relações de classe pelo laço que estabeleceu com as camadas inferiores, disciplina os espíritos.

O tateio de Lyautey, que evoca sucessivamente o dever social e a ação social para terminar nos papéis, como nos “jogos de papéis”, esclarece tanto quanto perturba. Portanto, o título deste livro deve tudo a Lyautey; obrigado, marechal! Contudo, esse título não brilha por sua originalidade; depois do artigo do militar, ao menos dois outros livros submeteram à crítica a interação do cientista com seu entorno social evocando seu papel neste: já em 1940 o do sociólogo polonês Florian Znaniecki,17 e, no início dos anos 1970, o de Joseph Ben-David.18 Esses ilustres precedentes, assim como uma leitura atenta de Lyautey e uma reflexão semântica inicial, mostram de que maneira a questão colocada se distingue de uma investigação sobre a missão, a função ou as responsabilidades do historiador – de que não levantei “Du rôle social de l’officier, dans le service militaire universel” [Sobre o papel social do oficial no serviço militar universal], extraído de La Revue des Deux Mondes, 15 mar. 1891, reed., Paris, Librairie académique Perrin, 1894. O artigo teve uma influência duradoura que o prestígio ulterior de Lyautey certamente contribuiu para estender.

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ZNANIECKI, Florian. The Social Role of the Man of Knowledge [O papel social do intelectual]. Nova York: Columbia University Press, 1940.

17

BEN-DAVID, Joseph. The Scientist’s Role in Society: a Comparative Study. Chicago: Chicago University Press, 1984, XXVI (reed. 1971). [Edição brasileira: O papel do cientista na sociedade: um estudo comparativo. Tradução de Dante Moreira Leite. São Paulo: Pioneira, 1974].

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Introdução

uma bibliografia exaustiva. A dimensão transcendente da missão não tinha lugar no sistema de referências deste livro; a função implica a restrição de um lugar determinado num sistema simbólico ou científico; e o debate, hoje recorrente, sobre as responsabilidades do historiador acaba descambando para uma compreensão moral ou ética do trabalho do historiador. Em contrapartida, o papel é escolhido no seio do teatro social; pode-se mudar, pode-se variar sua interpretação – um mesmo ator assume às vezes diversos papéis. Sem jogar por mais tempo com as facilidades do termo, o fato é que ele traz a lume a plasticidade da questão. Trata-se de uma atribuição reversível, cambiante, subordinada às contingências da história, objeto de história. Mesmo as reflexões mais aprofundadas tratam a definição do historiador como uma categoria fixa, sem realmente pôr em causa o papel que o historiador atribui a si mesmo como ator social.19 Paul Ricœur escreve: “A história tem a seu cargo os mortos de outrora de que somos os herdeiros. Toda a operação histórica pode ser tomada por um ato de sepultura”;20 por mais legítima que seja essa descrição fundamental e intrínseca da atividade histórica, não pretendo mais que captar os avatares, as máscaras que os historiadores vestiram para interpretar a função essencial e invariável que o filósofo lhes atribui. O papel do historiador, do social scientist, do estudioso, varia mesmo que seus procedimentos e as formas de sua arte possam permanecer idênticos. E esse papel por vezes fugaz engendra seus efeitos próprios, a ponto de modificar as bases epistemológicas e deontológicas da empreitada historiadora. O presente livro se baseia nessa hipótese de trabalho. Para ficar no domínio da historiografia francesa, a onipresença de uma questão que afugentava Charles Seignobos se impõe. Ao final de suas Doze lições sobre a história, Antoine Prost consagra um capítulo inteiro a uma “função social ambígua” e designa a missão do historiador: superar o desafio da sentimental febre comemorativa MOONEY-MALVIN, Patricia. Professional Historians and the Challenge of Redefinition [Historiadores profissionais e o desafio da redefinição]. In: GARDNER, James B.; LAPAGLIA, Peter S. (Ed.). Public History: Essays fom the Field [História pública: ensaios do campo]. Malabar, Flórida: Krieger Publishing Company, 1999, p. 5-22.

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RICŒUR, Paul. La Mémoire, l’histoire, l’oubli. Paris: Le Seuil, 2000, p. 648-649. [Edição brasileira: A história, a memória, o esquecimento. Tradução de Alain François. Campinas: Ed. Unicamp, 2000].

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e transformá-la em tentativa racional de explicação para preparar o amanhã.21 Gérard Noiriel, por sua vez, ao descrever a crise da história, faz do questionamento da função social do historiador o ponto onde concepções antagônicas da história se enfrentam; a “função social” se inscreve explicitamente no índice analítico do livro. Para ele, distinguir o historiador do jornalista é distinguir suas funções sociais; esclarecer os lugares de investimento dos historiadores da contemporaneidade equivale a avaliar suas respostas à demanda social.22 Todo o trabalho de Gérard Noiriel legitima a história como atividade de saber apoiada sobre uma tradição e portadora de uma utilidade específica. Sua releitura atenta de Apologia da história demonstra a que ponto Marc Bloch associa constantemente a justificação pelo reconhecimento do grupo dos pares e a justificação do trabalho pelo público (ensino), já que a história, no final das contas, deve permitir viver melhor. Como declarava Georges Duby: “Nosso papel é levar nossos contemporâneos a verem as coisas de maneira mais distanciada, ou seja, liberá-los de uma parte de sua própria angústia, tirá-los da aflição em que se encontram”.23 Num registro diferente, um número inteiro da revista Diogène sobre a responsabilidade social do historiador se abre com um artigo de François Bédarida sobre o assunto.24 E um dos balanços mais bem informados e mais sintéticos sobre a historiografia francesa dos dois últimos séculos se fecha com uma sequência que se tornou clássica. Abocanhada pelo momento memorial da sociedade francesa, a historiografia estaria sendo solicitada por uma demanda social crescente relacionada com a busca da identidade. Sacudida por essa solicitação, a profissão estaria perdendo o senso dos limites entre o campo dos estudos e o da disputa política. A contaminação dos campos midiáticos e políticos seria o sinal dessas dúvidas sobre a função ou o papel social do historiador. A descrição 21

PROST, Antoine. Douze leçons sur l’histoire. Paris: Le Seuil, 1996, p. 305-306 [Edição brasileira: Doze lições sobre a história. Tradução de Guilherme João de Freitas Teixeira. Belo Horizonte: Autêntica, 2009]. NOIRIEL, Gérard. Sur la “crise” de l’histoire [Sobre a “crise” da história]. Paris: Belin, 1996.

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CATINCHI, Philipe-Jean. Georges Duby, l’histoire et le style [Georges Duby, a história e o estilo]. Le Monde, 7 jul. 1995.

23

BÉDARIDA, François. Praxis historienne et responsabilité [Práxis historiadora e responsabilidade]. Diogène, n. 168 (La Responsabilité sociale de l’historien), out./dez. 1994.

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Introdução

de Christian Delacroix estabelece legitimamente a ligação entre essas hipotecas que agem sobre a justificação do papel social do historiador.25 A posição cética de Paul Veyne, para quem a imparcialidade do historiador só se realiza com a condição de “já não se propor fim algum exceto o de saber por saber”26 parece única hoje. Essa justificação através de um papel, e a responsabilidade que decorre dele, não comporta apenas servidões, também implica prerrogativas; quando Henry Rousso invalida de antemão as abordagens dos não historiadores no que diz respeito a Vichy, ele o faz em nome do ofício, da ética e da responsabilidade do historiador na difusão dos saberes e dos conhecimentos e de sua avaliação científica.27 O papel social do historiador parece justificar uma atividade a priori inútil, gratuita, que nada se distinguiria daquela do antiquário, do colecionador de curiosidades, se não lhe fosse reconhecida uma função. O papel é indissociável da vontade de justificação na ordem da cidade cívica, embora não deixe de ser discutido na ordem da cidade do saber. A tensão está no coração do tema abordado. Este livro pretende, portanto, apreender e reunir os sintomas convergentes que trazem à luz a estreita relação existente entre a justificação e a produção dos historiadores. Basta nascerem “Os encontros da história em Blois”, no outono de 1998, e a questão do papel do historiador se impõe para justificar a empreitada. No quadro da investigação, pouco importam os arcanos dessa criação, a sede de prestígio de Jack Lang, seu gosto sincero pela história e, finalmente, a concorrência com o festival dos geógrafos em Saint-Dié; verifica-se que uma das questões primordiais colocadas ao conselheiro científico permanente dos encontros, o historiador da antiguidade Maurice Sartre, reconduz à questão: “A criação do festival de história proporcionará aos historiadores a oportunidade de afirmar para o grande 25

DELACROIX, Christian; DOSSE, François; GARCIA, Patrick. Les Courants historiques en France [As correntes históricas na França]. Paris: Armand Colin, 2000. VEYNE, Paul. Comment on écrit l’histoire. Essai d’épistémologie. Paris: Le Seuil (1. ed. 1971), 1978, p. 51 [Edição brasileira: Como se escreve a história: Foucault revoluciona a história. Tradução de Alda Baltar e Maria Auxiliadora Kneipp. Brasília: Ed. UnB, 1982], citação retomada também por Noiriel (1996).

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CONAN, Éric; ROUSSO, Henry. Vichy, un passé qui ne passe pas [Vichy, um passado que não passa]. Paris: Fayard, 1994.

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público seu papel na sociedade atual?”.28 A resposta de Maurice Sartre remete às ambivalências da questão; hesita entre a denúncia dos perigos da história oficial e a celebração da história como preparação para os confrontos regulados da palavra democrática. “Não há ditadura onde a história seja livre. Ao contrário, nos Estados democráticos, a pesquisa histórica suscita debate e controvérsia e participa a seu modo do debate democrático.”29 E, meio a esmo, o processo Papon, a polêmica sobre o Livro negro do comunismo ou a comemoração do centenário do caso Dreyfus se impõem como exemplos. O historiador parece aqui reduzido ao papel de antídoto aos maus usos da história ou ao de pedagogo das regras da cidade. A especificidade de seu papel social se apaga totalmente quando se trata de presidir ao batismo de uma empreitada que celebra as virtudes e o valor da história para o público. O alerta final de Maurice Sartre atesta uma consciência aguda do eco social crescente dos historiadores e de uma verdadeira desconfiança quanto a suas consequências: “Uma república dos historiadores seria tão perigosa quanto uma república dos juízes. O festival pode assim se tornar a oportunidade de refletir sobre o lugar da história em nossas sociedades modernas. Mesmo que muitas vezes seja desagradável, é preciso de vez em quando se olhar no espelho”.30 O medo das responsabilidades inerentes ao sucesso do discurso dos historiadores é justificado?

Les Rendez-vous de l’histoire, n. 1, 16-18 out. 1998, publicação do Centre européen de promotion de l’histoire.

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Les Rendez-vous de l’histoire, n. 1, 16-18 out. 1998. Les Rendez-vous de l’histoire, n. 1, 16-18 out. 1998.

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