Skip to main content

Flor de açafrão

Page 1

Guacira Lopes Louro

Flor de aรงafrรฃo Takes Cuts Close-ups

aRgoS


Guacira Lopes Louro

Flor de aรงafrรฃo Takes Cuts Close-ups

aRgoS


Copyright © 2017 Guacira Lopes Louro Copyright © 2017 Autêntica Editora

Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

coordenador da coleção argos

capa

Rogério Bettoni

Diogo Droschi ([Shutterstock])

editoras responsáveis

diagramação

Cecília Martins Rafaela Lamas

Waldênia Alvarenga

revisão

Aline Sobreira

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Louro, Guacira Lopes Flor de açafrão : takes, cuts, close-ups / Guacira Lopes Louro. -1. ed. -- Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2017. -- (Coleção Argos) ISBN 978-85-513-0250-7 1. Ensaios brasileiros 2. Estudos de gênero 3. Sexualidades 4. Teoria queer I. Título II. Série. 17-05002 CDD-869.4 Índices para catálogo sistemático: 1. Ensaios : Literatura brasileira 869.4

Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465 4500 www.grupoautentica.com.br

4 | A R GOS

Rio de Janeiro Rua Debret, 23, sala 401 Centro . 20030-080 Rio de Janeiro . RJ Tel.: (55 21) 3179 1975

São Paulo Av. Paulista, 2.073, Conjunto Nacional, Horsa I 23º andar . Conj. 2301 . Cerqueira César . 01311-940 São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468


Mil botões

Chega de saudade direção:

Laís Bodanzky

Brasil, 2007

Passa pouco das 4h30 da tarde, o dia está claro, mas os preparativos para o baile já são evidentes. O jovem DJ reclama da namorada: pede que ela se mexa logo e que o ajude com os equipamentos de som. Num táxi estacionado, com parte do corpo dentro e parte fora, uma velha mulher termina de calçar o sapato de festa. Seu companheiro, aborrecido, reclama por ela não estar pronta. Finalmente os dois sobem as escadas com dificuldade, ajudados por um amigo, o andar cauteloso da idade agravado pelo pé enfaixado do velho. Outros passos ansiosos se seguem. São mulheres e homens, quase sempre de “meia idade”, que chegam, em pequenos grupos ou sozinhos, ao salão de danças. As mulheres, com trajes coloridos mais ou menos extravagantes ou decotados. Os homens, de mangas de camisa ou de paletó. Todos prontos para o baile. A câmera passeia pelo salão e pela pista de dança. Em close, mostra detalhes das mesas, copos, bolsas... Vemos rostos enrugados e sorridentes, mãos envelhecidas e manicuradas. Acompanhamos a ansiedade e o burburinho, retalhos de 9


conversas, o reencontro de conhecidos e os passos hábeis dos pares que já circulam. Assim se inicia Chega de saudade, filme de Laís Bodanzky, que narra uma noite num salão de danças paulistano. Apenas uma noite, provavelmente semelhante a tantas que se espalham pelos salões de cidades brasileiras, feita de pequenos dramas, histórias banais, expectativas, sonhos, desencantos e prazeres. Para quem olha de fora, esse parece ser um dos muitos “bailes da saudade” que reúnem homens e mulheres supostamente nostálgicos de outros tempos. Convidados a entrar e participar do baile, somos surpreendidos pela vitalidade e energia, pela ansiedade e gozo dos frequentadores. Eles e elas ali estão buscando parceria, seduzindo, cantando, rindo, dançando e também sofrendo decepções e tristezas. Proibidas de usar calças compridas pelas normas do salão, as mulheres exibem vestidos e saias esvoaçantes, acentuam maquiagem e penteados. Os homens se mostram sedutores, distribuindo elogios, gentilezas, f lores e agrados. Marcas de gênero que talvez possam parecer quase clichês e que vêm sendo inscritas e reiteradas nos seus corpos há muitos anos. Uma pretensa naturalidade oculta o caráter construído e continuamente reiterado da inscrição dessas marcas. Como diria Judith Butler, o gênero se constitui em “um conjunto de atos repetidos no interior de um quadro regulatório altamente rígido”, um processo do qual não se pode precisar o início e muito menos o fim. É isso que se vê por aqui. Os parceiros desse baile mobilizam aparatos, dispositivos e gestos, refazem ou repetem dizeres, modos, movimentos que aprenderam 10 | A R GOS


como legítimos para o feminino e para o masculino pelas normas de nossa cultura. É verdade que corpos e comportamentos, maneirismos e gestos mudam, fazem-se um pouco diferentes a cada geração e em cada um dos múltiplos grupos sociais ou de pertencimento, mas as possibilidades de ensaios e reinvenções não devem escapar desse tal quadro regulatório, em que a heterossexualidade é compulsória. Escapar desse regime implicaria se arriscar no “domínio da abjeção”, como diz Butler, e os parceiros desse baile, aparentemente, não ousam tal transgressão. Suas ousadias, se é que se pode assim denominá-las, são de outra ordem. Essa gente resiste à acomodação, à bonança, recusa a suposta assexualidade que se pretende atribuir aos mais velhos. Na contracorrente dessa representação, mostram seus corpos, gingam, atraem, beijam-se, tocam-se. A sensualidade está por toda parte: nos olhares, nas falas, nos rostos colados, nos passos e pernas que se entrecruzam, nos corpos que se encostam e se embalam. Algumas mulheres agrupadas próximo às mesas aparentam a ansiedade de adolescentes à espera do par. Outras se movem sedutoramente ao ritmo das músicas. Nem mesmo o garçom escapa de suas investidas. Duas ou três tentam puxá-lo para a dança, e uma delas, mais atrevida, agarra-lhe a bunda com gosto. Os homens tiram as mulheres para dançar e, às vezes, cantarolam em seus ouvidos as letras das canções. Aproveitam os versos para dar um recado ou fazer uma sugestão amorosa. Elas usam o mesmo recurso, tomam emprestadas dos poetas populares rimas de sedução e anunciam: “Sei que eu sou bonita e gostosa / E sei que você me olha e me quer / MIL B OTÕ E S | 11


Eu sou uma fera de pele macia / Cuidado, garoto! Eu sou perigosa”. Sozinho, um homem grande e gordo, alegre e suado, dança toda noite. “Ninguém quer dançar com ele. É o Gambazão, que se enche de perfume porque tem cheiro ruim”, explica Elza para a amiga. Alheio a comentários, ele parece se divertir, contente em rodar em torno de si mesmo. “Figurinha carimbada do baile”, Elza expressa toda sua disposição para a dança e para o prazer. Insinua-se para um “coroa enxuto”, depois para um grupo de homens, movendo-se sensualmente, sem conseguir, no entanto, a resposta pretendida. Acompanha com inveja as mulheres que bailam e, por fim, rende-se à alternativa de pagar por um dançarino de aluguel.1 Seu rosto marcado fica então radiante, aberto num largo sorriso. Elza se torna bonita, o corpo girando em movimentos graciosos e passos experientes. Ela se admira, aprecia seus próprios movimentos e os do parceiro. O fim da música parece sacudi-la e, antes de entregar ao rapaz o dinheiro contratado, ela o agarra e o beija, num gesto quase desesperado. Depois chora. A energia parece escoar de seu corpo. Eudes desloca-se pelo salão e pelo bar com a desenvoltura própria de quem está “no seu chão”. Conhece todo mundo, distribui atenções a velhos amigos e agrados às mulheres, em particular a Marici, parceira constante de outros bailes: “Você faz muita falta. Sem você este baile é uma noite sem sua estrela mais brilhante, e eu, um marinheiro sem sua estrela-guia, à deriva no salão”, diz ao vê-la chegar. A antiga cumplicidade e uma promessa de intimidade marcam a troca de olhares e a conversa dos dois: 12 | A R GOS


– Minha filha e minha netinha já saíram lá de casa. Tô sozinha. – Então, se depois a gente quiser tomar aquele cappuccino, não vai estar incomodando ninguém. – É. Não vai estar incomodando ninguém...

Sedutor e hábil nas palavras e nos gestos, Eudes parece absolutamente à vontade no salão. Mas acaba surpreendido e encantado pelo frescor da jovem namorada do DJ Marquinhos. É Marici quem lhe apresenta Bel, que parece um pouco deslocada naquele lugar. A fragilidade da garota aciona no homem, imediatamente, o desejo de tomar conta dela. Eudes assume ares de cicerone e protetor, introduz a garota no salão, ensina-a a dançar, serve-lhe bebida, sussurra elogios e carrega nas gentilezas. Bel parece ter poucas referências para esses gestos e esse comportamento. Seus códigos de aproximação e de jogos amorosos com os homens são provavelmente distintos. Isso não impede (muito pelo contrário) que ela se sinta tocada pela sedução de Eudes. A simpatia que os reúne se desenvolve em conversas e danças durante toda a noite. O encontro perturba os parceiros que foram momentaneamente abandonados: a diferença de idade, que fascina Eudes e envolve Bel, provoca repulsa em Marquinhos e ressentimento em Marici. Algumas amigas procuram dar apoio a Marici: “O Eudes tem uma queda toda especial por você. Se você intima ele, ele vem comer aqui, na sua mão”. Ao que ela responde: “Marilena, mulher funciona com mil botões, tem vários disjuntores. Pra ligar tem que saber mexer. Se mexer na chave errada, tudo desarma. Homem não. Homem é uma chave só, geral. Sabe, daquele tipo: toing! MIL B OTÕ E S | 13


Basta um rabo de saia novo para perder o rumo de casa”. Uma amiga replica: “Eu se fosse você ligava todos os seus botõezinhos e ia desligar a chave geral do Eudes”. O diálogo resume e reafirma, de modo irônico, o senso comum que divide o mundo, inexoravelmente, em dois universos, masculino e feminino, atribuindo a cada um qualidades específicas. Magoada, mas assumindo um ar superior, Marici positiva, de algum modo, a diferença feminina. Sua argumentação ecoa fragmentos de discursos psicanalíticos e religiosos que atribuem à mulher mistério, complexidade e uma sexualidade difusa, em oposição ao homem, focado na sexualidade genitalizada. Os “mil botões” seriam indicativos de um gozo feminino mais amplo; mas sua fala também permite pensar que cabe ao outro (ao homem, supostamente) a responsabilidade de saber “mexer” com habilidade nesses “disjuntores”, senão tudo “desarma”. Um sentimento de identidade feminina aproxima essas mulheres, reunidas na manifestação de solidariedade e simpatia à companheira rejeitada, e é justamente na contraposição com o masculino que esse sentimento pode se construir. É na diferença que se constitui a identidade, por isso, para afirmar marcas da feminilidade, será necessário lidar com marcas da masculinidade, para recusá-las e rejeitá-las. Ao compartilhar suas experiências, dores e vitórias, essas mulheres criam e recriam laços, apagando ou escondendo, pelo menos por algum tempo, outras diferenças que possam ter. Os lugares tradicionais de gênero são retomados: “Homem de salão não presta... Você deixa ele solto demais”, dizem as amigas. Marici justifica: “Na gaiola ele não canta”. 14 | A R GOS


www.autenticaeditora.com.br www.twitter.com/autentica_ed www.facebook.com/editora.autentica


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Flor de açafrão by Grupo Autentica - Issuu