quanto vender objetos ou mercadorias quaisquer, e com base na mesma tradição rotineira que só exige do comerciante e do comprador o gesto de troca do dinheiro contra a mercadoria, gesto que se acompanha, em geral, de algumas frases de polidez.
Pensamos, de início, que a fé que pomos na venda de livros, podemos pô-la em todos os atos quotidianos; podemos exercer não importa qual comércio, não importa qual profissão, com uma satisfação que é, em certos momentos, verdadeiro lirismo. O ser perfeitamente adaptado à sua função, e que trabalha em harmonia com os outros, experimenta uma plenitude que se torna facilmente exaltação quando está em relação com homens situados no mesmo plano de vida que ele; assim que pode comunicar e fazer sentir o que experimenta, ele se multiplica, ergue-se acima dele mesmo e se esforça para ser tão poeta quanto pode; essa elevação, essa ternura, não é o estado de graça em que tudo se ilumina de um sentido eterno? Mas se todo homem consciente pode exaltar-se quanto a seu ofício e apreender as relações admiráveis que o ligam à Sociedade, quais não serão nossos sentimentos, no nosso caso de livreiros, que, antes de qualquer pensamento de ganho e de trabalho baseado nos livros, gostamos deles com entusiasmo e acreditamos no poder infinito dos mais belos!
”
Adrienne Monnier
Adrienne Monnier
O tradutor: Júlio Castañon Guimarães traduziu, entre outras obras, Fragmentos do Narciso e outros poemas, de Paul Valéry (Ateliê, 2013), e, para a Autêntica, Horas italianas, de Henry James, e A parte maldita, de Georges Bataille (2013). É autor de Por que ler Manuel Bandeira (Globo, 2008) e de Entre reescritas e esboços (Topbooks, 2010).
“Vender livros parece a certas pessoas tão banal
RUA DO ODÉON
Adrienne Monnier (1892-1955), parisiense, foi livreira, editora, organizadora de encontros culturais e figura influente na cena modernista na Paris dos anos 1920 e 1930. Fundou em 1915, em Paris, na rua do Odéon, a livraria La Maison des Amis des Livres, que funcionava também como biblioteca de empréstimo, sendo frequentada por importantes intelectuais da época. Publicou livros de algumas dezenas de autores e as revistas literárias Le Navire d’Argent e La Gazette des Amis des Livres, ambas de curta duração, tendo ainda difundido algumas outras revistas, como a Littérature, publicada pelos surrealistas Breton, Aragon e Soupault.
ISBN 978-85-8217-613-9
9 788582 176139
tradução
Júlio Castañon Guimarães
A rua do Odéon, em Paris, foi endereço de duas célebres livrarias durante algumas décadas da primeira metade do século XX: Shakespeare & Company, da norte-americana Sylvia Beach, e La Maison des Amis des Livres, que pertencia a Adrienne Monnier, autora deste livro. De 1915 a 1951, a livraria de Monnier foi um importante ponto de encontro para muitos intelectuais da época, como Paul Valéry, André Gide, Jean Cocteau, André Breton, Philippe Soupault, Louis Aragon e Léon-Paul Fargue. O local funcionava também como editora, tendo lançado, sobretudo, livros de novos poetas. Mas uma de suas publicações em especial teve grande repercussão: a primeira edição em francês do romance Ulisses, de James Joyce, em 1929. Os textos que compõem Rua do Odéon constituem uma espécie de relato fragmentado da trajetória dessa livraria e de suas várias atividades, entre elas o empreendimento de tradução do Ulisses. E, além disso, discorrem, de forma vívida e afetuosa, sobre alguns de seus frequentadores, como é o caso de Walter Benjamin. Autorretrato de uma mulher apaixonada, culta e que soube reunir em torno de si um fascinante grupo de intelectuais, este livro é, acima de tudo, uma homenagem à literatura.
RUA DO ODÉON
Adrienne Monnier
Tradução
Júlio Castañon Guimarães
Copyright © Éditions Albin Michel 1960, 1989, 2009 Copyright © 2017 Autêntica Editora Título original: Rue de l’Odéon Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
editora responsável
capa
Rejane Dias
Diogo Droschi (sobre imagem de © Roger-Viollet)
editora assistente
Cecília Martins
diagramação
Waldênia Alvarenga
revisão
Dila Bragança de Mendonça
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Monnier, Adrienne, 1892-1955. Rua do Odéon / Adrienne Monnier ; tradução Júlio Castañon Guimarães. -- 1. ed. -- Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2017. Título original: Rue de l’Odéon Bibliografia. ISBN 978-85-8217-613-9 1. Autores franceses 2. Livreiros e vendas de livros - França - Biografia 3. Livreiros e vendas de livros - França - Paris - História - Século 20 4. Livros e leitura 5. Monnier, Adrienne, 1892-1955 6. Paris - França Vida intelectual - Século 20 I. Título. 16-02490
CDD-920.72
Índices para catálogo sistemático: 1. França : Paris : Livreiras : Memórias autobiográficas 920.72
Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465 4500
Rio de Janeiro Rua Debret, 23, sala 401 Centro . 20030-080 Rio de Janeiro . RJ Tel.: (55 21) 3179 1975
www.grupoautentica.com.br
São Paulo Av. Paulista, 2.073, Conjunto Nacional, Horsa I 23º andar . Conj. 2301 . Cerqueira César . 01311-940 São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468
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47 49 73 79 121 127 139 147 151 161 163 167
179 185 205 211
Nota do editor Primeira parte: Os amigos dos livros La maison des amis des livres Prefácio ao catálogo da biblioteca de empréstimo Carta a Édouard Dujardin Os gabinetes de leitura Elogio do livro pobre Segunda parte: Rua do Odéon Uma lembrança de Alfred Vallette Lembranças da outra guerra Raymonde Linossier Memorial da rua do Odéon Valéry na rua do Odéon Fargue Léautaud meu vizinho Passagem de Rilke A tradução de Ulisses Beckett, primeiro tradutor de “Anna Livia Plurabelle” Hemingway liberta a rua do Odéon Walter Benjamin Terceira parte: Outras lembranças A Mercure vista por uma criança Lembranças de Londres Homens italianos Seu último texto
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Adrienne Monnier e La Maison Des Amis Des Livres Paul Claudel Jacques PrĂŠvert Saint-John Perse S. M. Eisenstein Michel Cournot Pascal Pia Yves Bonnefoy
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Bibliografia
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Nota do editor
Na primavera de 1954, Adrienne Monnier redigiu esta nota autobiográfica, para servir de trama a uma série de conversas televisionadas. Nascida a 26 de abril de 1892, em Paris, onde sempre vivi. Pai do Jura e mãe da Savoie. Meu pai era funcionário do correio; seu serviço o obrigava a ficar fora de Paris dois dias a cada quatro; quando estava fora, minha mãe ia todas as noites ao teatro, levando suas duas filhas pequenas, desde que haviam completado sete e oito anos. Admirávamos sobretudo De Max e Sarah Bernhardt. Assisti, com onze anos, à representação de Pelléas et Mélisande [Peleás e Melisanda]; Debussy e Maeterlinck tornaram-se meus deuses. Estudos até o diploma colegial, que obtive com dezoito anos. Logo a seguir, viagem à Inglaterra onde consegui um lugar para trabalhar numa casa, em troca de moradia e alimentação, a fim de aprender inglês. Fiquei lá por nove meses: três meses em Londres, em uma família, e dois trimestres em uma escola de Eastbourne. Ao voltar, aprendi estenodatilografia para conseguir um trabalho de secretária literária. Aos vinte anos, tive a oportunidade de entrar nos Annales, como secretária de Yvonne Sarcey. Fiquei três anos com ela, muito ligada a sua pessoa, mas pouco interessada pelo academismo da Universidade dos Annales. (Aqui se situa meu encontro com Pierre Reverdy, que ainda não havia publicado nada.) 7
No início de 1914, ocorreu a grande catástrofe da estrada de ferro de Melun; meu pai quase morreu lá; deslocou o quadril e a pele do crânio foi arrancada; refez-se bem, mas ficou manco. Por essa ocasião, recebeu uma indenização que ele me deu para que eu pudesse abrir uma livraria – pois eu sonhava em ser livreira, na margem esquerda. Abri minha loja, na rua do Odéon, n. 7, a 15 de novembro de 1915. Para a história dos primórdios da livraria, ver “Lembranças da outra guerra” e o “Memorial da rua do Odéon”. Os escritores que aí mencionei eram e continuam a ser os meus preferidos. A seguir, liguei-me à obra de Henri Michaux, que admiro muito; Antonin Artaud; Jacques Prévert; Michel Leiris – dou muita importância a este último. Deixei com imenso pesar a rua do Odéon. Fiquei lá por trinta e seis anos (de 1915 a 1951). Fui obrigada a sair por causa de um reumatismo infeccioso que me ameaçava de paralisia; foi contido com grande dificuldade; fiquei muito cansada e fui obrigada a me cuidar. Preparo atualmente as lembranças de minha vida de livreira – já que as Gazettes, no conjunto, estão bastante distantes do que foi minha atividade essencial; mas contêm reflexões, importantes para mim, nas quais tentei exprimir minha “filosofia”, o que faz às vezes para mim de sabedoria e de religião, ver em particular “A natureza da França” e o n. 1 de La Gazette des Amis des Livres. Minha distração predileta é sempre o teatro; sigo assiduamente os espetáculos de Jean Vilar e de Jean-Louis Barrault. Passo todos os verões nos Déserts (Savoie), na aldeia natal de minha mãe. Adrienne Monnier, vítima de uma doença incurável, suicidou-se em 19 de junho de 1955. 8
Este livro está conforme suas últimas vontades. Sob o título “Os amigos dos livros”, reuniram-se na primeira parte os textos de Adrienne Monnier que têm a ver com o nascimento de sua vocação e com o exercício de sua profissão. Sua doutrina está contida na apresentação da Maison des Amis des Livres,1 que ela escreveu em agosto de 1918, aos vinte e seis anos. A segunda parte, “Rua do Odéon”, faz as vezes das “Lembranças de minha vida de livreira”. A terceira parte, “Outras lembranças”, agrupa três artigos que Adrienne Monnier reservava para uma obra sem ligação com sua vida de livreira – memórias pessoais e lembranças de infância – que ela também tinha em projeto. Como Adrienne Monnier não pôde rever os textos, estes são publicados sem retoques, respeitando até mesmo as repetições e conservando, no capítulo “Memorial da rua do Odéon”, na segunda parte, várias páginas cuja publicação ela talvez não pretendesse. Maurice Saillet. Esta nova edição de Rua do Odéon foi revista e ampliada graças aos cuidados de Maurice Imbert.
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La Maison des Amis des Livres (A Casa dos Amigos dos Livros) era o nome da livraria de Adrienne Monnier. (N.T.) 9
P rimeira parte
Os amigos dos livros
La Maison des Amis des Livres
Criamos La Maison des Amis des Livres com fé; cada um de seus detalhes parece-nos corresponder a um sentimento, a um pensamento. O comércio, para nós, tem um sentimento emocionante e profundo. Uma loja parece-nos uma verdadeira câmara mágica: nesse instante em que o transeunte cruza a soleira da porta que todo mundo pode abrir, em que ele penetra nesse lugar impessoal, assim parece, nada desnatura o ar de seu rosto, o tom de suas palavras; ele realiza com um sentimento de inteira liberdade um ato que julga sem consequências imprevistas; há uma correspondência perfeita entre sua atitude exterior e seu eu profundo, e se sabemos observá-lo, nesse instante em que ele não é mais que um desconhecido, podemos, agora e para sempre, conhecê-lo em sua verdade; ele revela toda a boa vontade de que é dotado, isto é, a medida em que é acessível ao mundo, o que pode dar e receber, a relação exata que existe entre ele e os outros homens. Esse conhecimento imediato, intuitivo, essa apreensão furtiva da alma, como são fáceis em uma loja, lugar de transição entre a rua e a casa! E quantas descobertas são possíveis em uma livraria por onde passam forçosamente, entre os inúmeros transeuntes, as Plêiades, aqueles de nós que parecem já um pouco “adultos azuis”1 e que, num sorriso, dão a justificação do que chamamos nossas melhores esperanças. Citação de uma passagem de L’oiseau bleu, de Maeterlinck. (N.T.)
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Vender livros parece a certas pessoas tão banal quanto vender objetos ou mercadorias quaisquer, e com base na mesma tradição rotineira que só exige do comerciante e do comprador o gesto de troca do dinheiro contra a mercadoria, gesto que se acompanha, em geral, de algumas frases de polidez. Pensamos, de início, que a fé que pomos na venda de livros, podemos pô-la em todos os atos quotidianos; podemos exercer não importa qual comércio, não importa qual profissão, com uma satisfação que é, em certos momentos, verdadeiro lirismo. O ser perfeitamente adaptado à sua função, e que trabalha em harmonia com os outros, experimenta uma plenitude que se torna facilmente exaltação quando está em relação com homens situados no mesmo plano de vida que ele; assim que pode comunicar e fazer sentir o que experimenta, ele se multiplica, ergue-se acima dele mesmo e se esforça para ser tão poeta quanto pode; essa elevação, essa ternura, não é o estado de graça em que tudo se ilumina de um sentido eterno? Mas se todo homem consciente pode exaltar-se quanto a seu ofício e apreender as relações admiráveis que o ligam à Sociedade, quais não serão nossos sentimentos, no nosso caso de livreiros, que, antes de qualquer pensamento de ganho e de trabalho baseado nos livros, gostamos deles com entusiasmo e acreditamos no poder infinito dos mais belos! Certas manhãs, sozinhos em nossa livraria, cercados apenas dos livros arrumados em suas prateleiras, ficamos longos momentos a contemplá-los; nossos olhos, fixando-os, ao cabo de um momento não viam mais que as linhas verticais e oblíquas que marcam os limites de suas lombadas, comportadas linhas aplicadas na parede cinza como bastões traçados pela mão de um aluno de curso primário. Diante dessa aparência elementar de que se reveste uma alma feita de todas as ideias e de todas as imagens, estávamos transidos 14
de uma emoção tão poderosa que nos parecia às vezes que escrever, exprimir, nos aliviaria; mas no momento em que nossa mão procurava a pena, o papel... alguém entrava, outras pessoas vinham em seguida, e os rostos do dia absorviam o grande impulso da manhã. Sentimos com frequência que nos eram dados “toda graça do trabalho e toda honra e todo gênio”, como diz Claudel em La ville [A cidade];2 há, de resto, nessa obra, muitas outras passagens que nos parecem escritas para nós, e com Lala poderíamos dizer: “Como o ouro é o signo da mercadoria, a mercadoria também é um signo, “Da necessidade que a reclama, do esforço que a cria, “E o que chamas de troca, eu chamo de comunhão.” Quando criamos nossa livraria, em novembro de 1915, não tínhamos nenhuma experiência de comércio, nem sequer sabíamos contabilidade e, com isso, tínhamos tanto medo de passar por comerciantes mesquinhos que fingíamos sempre negligenciar nossos interesses, o que era, de resto, infantilismo. Crê-se de bom grado que a vida apaga o entusiasmo, decepciona o sonho, deforma as concepções primeiras e realiza um pouco ao acaso o que lhe propomos. Todavia, podemos afirmar que no início de nosso empreendimento nossa fé e nosso entusiasmo eram bem menores do que hoje. Nossa primeira ideia era muito modesta: só nos propúnhamos a pôr de pé uma livraria e um gabinete de leitura dedicados sobretudo às obras modernas. Tínhamos muito pouco dinheiro, e foi esse detalhe que nos levou a nos especializarmos na literatura moderna; se tivéssemos tido muito dinheiro, é certo que teríamos desejado comprar tudo o que existe Títulos vêm acompanhados de sua tradução, entre colchetes, na sua primeira ocorrência. (N.E.)
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em termos de obras impressas e realizar uma espécie de Biblioteca Nacional; estávamos persuadidos de que o público pede sobretudo uma grande quantidade de livros e pensamos que era uma audácia ousar estabelecer-nos com três mil volumes apenas, quando certos catálogos de gabinetes de leitura anunciavam vinte mil, cinquenta mil e mesmo cem mil! A verdade é que uma única de nossas paredes era guarnecida de livros; as outras se enfeitavam com quadros, com uma grande escrivaninha antiga, uma cômoda onde púnhamos os papéis de embalagem, os barbantes e tudo o que não sabíamos onde pôr; nossas cadeiras eram as cadeiras antigas de campo que ainda temos. Essa livraria não tinha ar de loja, e não era de propósito; estávamos longe de imaginar que viriam a nos elogiar tanto pelo que nos parecia infelizes escolhas por falta de alternativa. Contávamos com nossos primeiros lucros para aumentar sem cessar nosso fundo. Esses primeiros ganhos baseavam-se sobretudo na venda dos livros novos e usados, pois não ousávamos esperar que antes de vários meses encontrássemos quem se inscrevesse para o gabinete de leitura. Um dos grandes problemas no começo de nossa empreitada comercial foi a montagem da banca externa para a venda dos usados; essa operação necessitava de nossa presença durante mais de cinco minutos expostos aos olhares dos transeuntes; era preciso levar para fora os cavaletes, a caixa, depois os livros e as revistas que eram velharias, vindos, na maioria, das bibliotecas familiares. A primeira vez que montamos essa banca, estávamos emocionados até a angústia e, arrumada a última pilha, fugimos precipitadamente para o fundo da loja, como se houvéssemos pregado uma peça nos transeuntes; pela nesga da cortina olhávamos esse espetáculo, extraordinário para nós, que era a formação de um pequeno grupo diante de nossos livros; os rostos que apareciam por trás 16
da vitrine faziam-nos ora arrebentar de rir, ora tremer de apreensão; se essas pessoas iam entrar, nos dirigir a palavra! E eis que uma velha senhora pegou um volume da banca e se dispôs a cumprir esse ato grave de ser nossa primeira compradora; um de nós decidiu-se a emergir do fundo da loja e balbuciou um cerimonioso bom-dia à senhora que, com um ar muito natural, mostrou o que ela havia escolhido, era L’avenir d’Aline [O futuro de Aline], de Henry Gréville, e que estava marcado com o preço de 75 cêntimos; ela teve a bondade de não pechinchar, se tivesse pechinchado, a situação teria se tornado penosa: teríamos ficado divididos entre a tentação de lhe dar o volume para que o negócio se concluísse o mais rapidamente possível e o dever de manter nosso preço de fato muito modesto para lhe mostrar que éramos livreiros sérios que não punham preços excessivos. Foi preciso, de qualquer modo, embrulhar esse livro, amarrá-lo, receber o dinheiro, devolver o troco de um franco, agradecer com efusão... Essa velha senhora deu-se conta, no final, da emoção extraordinária que provocava, foi-se embora mais perturbada do que queria deixar transparecer, e não voltou. Para despertar nas pessoas a tentação de fazer uma inscrição como leitor, tínhamos colado na vitrine um cartaz manuscrito que incluía nossas condições de inscrição e a lista dos autores de que possuíamos as obras completas. Essa lista era uma conciliação entre nossos gostos e os do público; julgávamos necessárias a nosso êxito certas concessões. Não estávamos errados, tanto menos que essas concessões eram suficientemente limitadas. A fé nada ganha em ser fanática. De resto, o espírito com que se criou uma casa, ao termo de pouco tempo, age sozinho, basta não deixar se apagar uma pequena chama. No campo prático, surgiram-nos, desde o começo, algumas ideias que se mostraram bastante boas; por 17
exemplo, revestir os livros com papel manteiga, não os encadernar, não os carimbar, costume bárbaro que os faz parecer animais marcados para o abatedouro. Mas a primeira de nossas ideias era, é ainda, que o verdadeiro comércio da livraria comportasse não apenas a venda, mas também o empréstimo, e que essas duas operações devessem ser exercidas simultaneamente. É quase inconcebível que se possa comprar uma obra sem conhecê-la. Exprime-se um sentimento geral ao se afirmar que todo homem de uma certa cultura experimenta a necessidade de ter uma biblioteca pessoal composta dos livros de que gosta e que são para ele bons e fiéis amigos; gostaríamos de introduzir, em um círculo de amigos, certas pessoas inoportunas ou pessoas indiferentes? É o risco que se corre ao se comprar livros que não se leu. É verdade que podemos nos desfazer deles, mas, com bastante frequência, guardaremos um volume mal escolhido para não ter a chateação de revendê-lo às vezes pela décima parte do preço que foi pago, e também porque faz parte da decoração. Só que, depois de algumas decepções desse gênero, deixamos de lado as obras novas e só confiamos nos clássicos. Pode-se dizer, em suma, que nunca se compra um livro inteiramente ao acaso, que o nome do autor, o nome do editor são indicações quase suficientes, e que um letrado pode, ao folheá-lo, ter uma consciência muito nítida de seu valor. É verdade que a assinatura da obra já é uma garantia; é, de resto, essa garantia que regula quase todo o exercício dos livreiros; mas seguramente não se trata de um bom princípio, é a causa pela qual tantos autores são obrigados a fazer apenas um ou dois bons livros e podem, depois, dormir sobre seus louros; é sobretudo a causa da obscuridade em que jazem as produções novas, qualquer que seja seu valor; elimina de modo completo os recém-chegados da literatura. Pode-se citar o exemplo de obras que 18
encontraram, já ao aparecerem, um crítico justo e poderoso, mas esses casos são bem raros; a camaradagem e a intriga contam, infelizmente, mais que o mérito. Todo mundo sabe que Maeterlinck deveu uma glória relativamente imediata ao artigo de um escritor conhecido. Mas um homem como Gide só chegou tardiamente à notoriedade; poderíamos acreditar que foram necessários dezoito anos para esgotar a primeira edição das Nourritures terrestres [Alimentos terrestres; trad. bras. Os frutos da terra]? Atualmente, Jules Romains parece-nos longe de ocupar o lugar que merece; se é preciso esperar muito, talvez, antes que as Odes et Prières [Odes e orações] e Le Manuel de déification [Manual de deificação] possam ser assimilados por todos, La Vie Unanime [A vida unânime], Europe [Europa] e sobretudo as obras de prosa não foram transmitidas à centésima parte do público que elas poderiam tocar eficazmente se o sistema livreiro funcionasse corretamente. Não acreditem que esse estado de coisas seja um mal sem remédio e que o homem de gênio deva forçosamente passar na obscuridade metade de sua vida, ou mesmo toda sua vida. Seguramente, mesmo com a ajuda do livreiro, ele não se tornará conhecido com a primeira obra, Tel qu’en lui-même enfin l’éternité le change [Tal como nele mesmo enfim a eternidade o muda]3
mas encontrará logo a seguir seu público: a elite de que é o porta-voz e quase toda a juventude. Na idade em que o homem ainda estuda, em que a existência não lhe impôs uma rotina, ele é uma criatura de boa vontade e, numa medida determinada pela influência de seu meio, pelo estado de seu conhecimento e pela Verso inicial do poema “Le tombeau d’Edgar Poe” (O túmulo de Edgar Poe), de Mallarmé. (N.T.)
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capacidade de sua inteligência, usufrui de um estado de graça em que pode compreender a vida e as imagens da vida. Há três anos damos para ler aos jovens que vêm à nossa livraria obras que parecem reservadas a uma pequena elite; nós os vemos sempre se emocionar com os poemas de Paul Valéry e de Léon-Paul Fargue, com o Barnabooth, de Valery Larbaud, com Le Livre d’amour [O livro de amor], de Charles Vildrac, com L’Étape nécessaire [A etapa necessária], de Luc Durtain, por exemplo, e todavia esses autores na maioria das vezes lhes são desconhecidos quando deles lhes falamos pela primeira vez. Portanto, é preciso que os jovens possam ler o que é contemporâneo e adquirir os livros que permanecerão seus grandes amigos ao longo da vida. Para isso, não se deve procurar criar grandes empreendimentos impessoais que são incapazes de exercer influência, portanto de fazer progredir, e incapazes de receber influências, portanto de eles mesmos progredirem. O que é preciso criar, o que é preciso ajudar, são livrarias-bibliotecas que não tendam a satisfazer um público numeroso, mas um grupo que seja possível conhecer individualmente e servir perfeitamente. O ideal seria que à frente de cada livraria houvesse uma única pessoa, auxiliada na medida do possível, mas em permanente contato com o público. É verdadeiramente indispensável que uma casa consagrada aos livros seja criada e dirigida com consciência por alguém que una a uma erudição tão vasta quanto possível o amor pelo espírito novo e que, sem cair nas excentricidades de qualquer esnobismo, esteja pronta a ajudar as verdades e as fórmulas novas. Compreendemos, assim, a tarefa do livreiro, dedicamo-nos a atuar do melhor modo possível, e nossos resultados certamente ultrapassaram nossa expectativa. É verdade que criamos nossa livraria no 20
bairro mais afeito ao estudo e mais encantador de Paris; ali encontramos de imediato um público que tem o amor e o respeito pelos livros, que compreendeu e ajudou nossos esforços. Teríamos encontrado isso em outras ruas, em outras cidades? Não ousamos afirmá-lo. Todavia, parece-nos que, não importa em qual bairro de uma cidade, para toda livraria inteligente baseada no princípio do empréstimo e da venda, há um público cujo gosto é fácil formar. Tenham confiança na boa vontade das pessoas, estejam certos de que respeitarão e seguirão tudo o que vocês realizarem com fé, paciência e ordem; conheçam-nas por uma observação constante, deem-lhes tanto de vocês mesmos quanto é possível, verão que não são tão diferentes, tão distantes de vocês e que, em suma, viver nelas é viver mais amplamente em si. Eis, assim, construída em um tempo de destruição, La Maison des Amis des Livres. Adrienne Monnier aí escreveu essas páginas em agosto de 1918. Do lado de fora, a ameaça é menor, mas aqui, no meio dos livros que guardam todas as formas vivas como os animais da arca, ela foi preservada da revolta e do temor, adquiriu a certeza de que tudo permanece e se acresce para além das noites de sono e de morte, e de que tudo é fiel à melhor vontade.
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