Anthony Ray Hinton com Lara Love Hardin
O
BEST-SELLER DO THE NEW YORK TIMES SELECIONADO PARA O
OPRAH’S BOOK CLUB
a história real do homem que
S L AINDA BRILHA
passou 30 anos no corredor da morte
por crimes que não cometeu
Anthony Ray Hinton com Lara Love Hardin
O
a história real do homem que
S L AINDA BRILHA
passou 30 anos no corredor da morte
por crimes que não cometeu
tradução de
Luis Reyes Gil
Copyright © 2018 Anthony Ray Hinton Copyright do prefácio © 2018 Bryan Stevenson Copyright © 2019 Editora Vestígio
Título original: The Sun Does Shine – How I Found Life and Freedom on Death Row
Todos os direitos reservados pela Editora Vestígio. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
gerente editorial
revisão
Arnaud Vin
Eduardo Soares
editor assistente
capa
Eduardo Soares
Pete Garceau
assistente editorial
adaptação de capa original
Pedro Pinheiro
Diogo Droschi
preparação de texto
diagramação
Pedro Pinheiro
Larissa Carvalho Mazzoni
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
Hinton, Anthony Ray O sol ainda brilha : a história real do homem que passou 30 anos no corredor da morte por crimes que não cometeu / Anthony Ray Hinton, com Lara Love Hardin ; tradução Luis Reyes Gil. -- 1. ed. -- São Paulo : Vestígio, 2019. Título original: The Sun Does Shine : How I Found Life and Freedom on Death Row. ISBN 978-85-54126-25-4 1. Corredor da morte - Estados Unidos 2. Erro judicial - Estados Unidos 3. Discriminação e relações raciais 4. Hinton, Anthony Ray - Prisão 5. Presidiários do corredor da morte - Estados Unidos Biografia I. Hardin, Lara Love. II. Título. 19-23972
CDD-364.66092 Índices para catálogo sistemático:
1. Condenados no corredor da morte : Biografia 364.66092 Iolanda Rodrigues Biode - Bibliotecária - CRB-8/10014
A VESTÍGIO É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA São Paulo Av. Paulista, 2.073, Conjunto Nacional, Horsa I 23º andar . Conj. 2310-2312 . Cerqueira César . 01311-940 São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468 www.editoravestigio.com.br
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PREFÁCIO
NO DIA 3 DE ABRIL DE 2015,
Anthony Ray Hinton foi libertado da prisão depois de quase trinta anos em confinamento solitário no corredor da morte do Alabama. O senhor Hinton é um dos prisioneiros americanos que ficou mais tempo preso à espera de execução antes de sua inocência ser provada e ele ser libertado. A maioria de nós sequer consegue imaginar o que é ser detido, acusado de ter cometido algo horrível, ir para a prisão, ser condenado injustamente, não ter dinheiro suficiente para se defender e acabar sentenciado à morte. Para a maioria, é algo inconcebível. Mas é importante compreender que isso acontece nos Estados Unidos e que mais pessoas precisam fazer algo para evitar que se repita. O senhor Hinton cresceu pobre e negro na zona rural do Alabama. Aprendeu a ser um observador perspicaz e atento das duras realidades da segregação Jim Crow1 e da maneira como o preconceito racial coagia a vida das pessoas não brancas. Foi ensinado por sua mãe notável a nunca levar em consideração a raça ou julgar as pessoas pela cor. Resistiu intensamente à ideia de que havia sido detido, acusado e condenado injustamente por causa de sua raça, mas acabou não tendo
De 1876 a 1965, nos estados do sul dos EUA vigoraram as chamadas Leis de Jim Crow, que institucionalizaram a segregação racial, afetando afro-americanos, asiáticos e outros grupos étnicos. Na segregação da “época Jim Crow” as leis estipulavam a rígida separação entre brancos e negros nas escolas e na maioria dos locais e serviços públicos. [N.T.]
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como aceitar outra explicação. Era um homem pobre num sistema de justiça criminal que trata você melhor se você é rico e culpado do que se for pobre e inocente. Ele foi abençoado com um extraordinário senso de humor, que usa para superar as barreiras raciais que condenam tanta gente. Viveu com a mãe até perto dos 30 anos de idade e era trabalhador autônomo. Nunca havia sido acusado de nenhum ato violento antes de ser detido. Uma noite, enquanto trabalhava no armazém de um supermercado limpando o piso em Bessemer, Alabama, um gerente de restaurante, a 25 quilômetros dali, foi sequestrado, roubado e levou um tiro de um único bandido armado ao sair do trabalho. A vítima sobreviveu e mais tarde identificou indevidamente o senhor Hinton como a pessoa que o havia roubado. Apesar de o senhor Hinton estar trabalhando a quilômetros da cena do crime, numa instalação segura, com um guarda que registrava todo mundo que entrava e saía de lá, a polícia foi até a casa da mãe dele, onde encontraram um velho revólver calibre .38. Os funcionários forenses do estado do Alabama asseguraram que aquela arma havia sido usada não só naquele roubo recente, mas também em dois outros homicídios na região de Bessemer, quando gerentes de restaurantes foram roubados e mortos quando fechavam o estabelecimento. Com base nessa evidência da arma, o senhor Hinton foi detido e indiciado pelos dois homicídios, e os promotores do estado anunciaram que iriam aplicar a pena de morte. O senhor Hinton foi submetido a um teste no polígrafo (o chamado “detector de mentiras”), realizado pela polícia; o teste confirmou sua inocência, mas as autoridades do estado ignoraram tanto essa informação quanto seu álibi e seguiram adiante, conseguindo duas condenações e a sentença de morte. No julgamento, o advogado nomeado para defendê-lo não conseguiu um especialista competente para refutar as falsas alegações do estado a respeito da arma de sua mãe. Durante quatorze anos, ele não conseguiu obter a ajuda legal de que precisava para provar sua inocência. Conheci o senhor Hinton em 1999, e ele me causou forte impressão. Ponderado, sincero, compassivo, engraçado, foi fácil querer 10
ajudar Anthony Ray Hinton, embora fosse preocupante ver o quanto seria difícil obter sua libertação. Trabalhei com a minha equipe na Equal Justice Initiative para envolver três dos maiores examinadores de armas de fogo do país, e todos testemunharam que a arma obtida na casa da mãe do senhor Hinton não podia ser associada à evidência do crime. Foram necessários mais quatorze anos de contestação processual e uma rara decisão unânime da Suprema Corte dos EUA para que ele fosse libertado em 2015. Durante esse tempo no corredor da morte do Alabama, ele viu 54 homens passarem diante da porta de sua cela a caminho da execução. A câmara ficava a nove metros de sua cela. Durante seus longos anos no corredor da morte do Alabama, Ray Hinton teve o apoio de um amigo de infância que nunca deixou de visitá-lo no decorrer de quase trinta anos. Lester Bailey fez questão de que ele nunca se sentisse sozinho ou abandonado. O senhor Hinton aprendeu a se envolver com aqueles a sua volta e criou uma identidade no corredor da morte diferente de qualquer coisa que eu já tenha visto. Não só moldou a vida de dezenas de outros prisioneiros do corredor, mas também a de funcionários do sistema prisional que procuravam seus conselhos e orientação sobre tudo, desde casamento a questões de fé e às vicissitudes do cotidiano. Embora seu caso tenha gerado anos de desapontamento e frustração para o senhor Hinton e tenha me tirado o sono durante muitas noites depois de cada decisão legal contrária, nós dois podíamos ser vistos frequentemente morrendo de rir na sala de visitas da Prisão Estadual de Holman. Tal é o extraordinário poder de Ray Hinton e sua impressionante energia. No decorrer de minha carreira estive em inúmeras prisões e cadeias visitando centenas de clientes. Em geral, sou ignorado ou meramente tolerado pelos funcionários de penitenciárias nessas ocasiões. Já houve vezes em que fui assediado ou desafiado por membros da equipe prisional, que com frequência se ressentem de que as pessoas encarceradas recebam visitas de advogados. Visitar Ray Hinton foi, para mim, diferente de qualquer outra visita legal. Nunca vi tantos 11
guardas, pessoal penitenciário e trabalhadores das prisões me chamando de lado para oferecer auxílio ou para me perguntar de que modo poderiam ajudar, durante os muitos anos em que trabalhei com Ray. Nunca tive uma experiência parecida com essa. Representei muitos prisioneiros condenados durante meus trinta anos de prática judiciária. Muitos de meus clientes eram pessoas inocentes, culpadas ou condenadas erroneamente. No entanto, ninguém que eu tenha representado inspirou-me mais do que Anthony Ray Hinton, e acredito que sua história fascinante e única irá também inspirar nossa nação e leitores ao redor do mundo. Ler sua história é algo difícil, mas necessário. Precisamos saber de coisas sobre nosso sistema de justiça criminal, sobre o legado do preconceito racial nos Estados Unidos e sobre a maneira como isso pode nos impedir de oferecer um tratamento justo e leal às pessoas. Precisamos entender os perigos da política do medo e da raiva, que criam sistemas de pena capital como o nosso, e a dinâmica política que tem feito alguns tribunais e autoridades agirem de maneira tão irresponsável. Precisamos também aprender mais sobre dignidade humana, sobre o que significa ser humano, sobre o valor disso. Precisamos refletir sobre o fato de que somos todos mais do que a pior coisa que tenhamos feito. A história de Anthony Ray Hinton nos ajuda a compreender alguns desses problemas e também, em última instância, o que significa sobreviver, superar e perdoar. Desde a sua libertação, Ray Hinton tornou-se um orador extraordinário, e tem tido um impacto em suas plateias capaz de modificar suas vidas. Tem uma capacidade rara de combinar humor, emoção profunda e uma narrativa fascinante, que faz as pessoas compartilharem sua jornada cheia de agonia, mas triunfal. Sua mensagem de perdão é transformadora, e tenho visto ele inspirar grupos de pessoas diversas, de delegados de polícia e promotores insensíveis a adolescentes e estudantes em situação de risco. Sua história é sobre perdão, amizade e triunfo. Ela acontece em meio a racismo, pobreza e a um sistema de justiça criminal não confiável. O senhor Hinton apresenta-nos a narrativa de um homem 12
condenado, moldado por uma jornada dolorosa e torturante às portas da morte, que mesmo assim se manteve esperançoso e soube perdoar e ter fé. Este livro é sobre uma espécie de milagre, porque houve vários momentos em que eu acredito que tanto eu quanto ele tivemos receio de que ele não iria sobreviver para contar sua história. Devemos ser gratos por ele ter sobrevivido, porque seu testemunho, sua vida e sua jornada são uma inspiração inesquecível. Bryan Stevenson, advogado
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CRIME CAPITAL
“Mas, mais ainda do que as provas, eu nunca havia tido uma sensação tão forte de que o acusado simplesmente irradiava culpa e pura maldade ao julgar qualquer outro caso quanto tive no julgamento de Hinton.”
Promotor Bob McGregor
em que sua vida muda para sempre. Só dá para começar a entender esse momento olhando para trás. E, acredite em mim, você nunca, jamais, o vê chegar. Será que minha vida mudou para sempre no dia em que fui detido? Ou foi antes disso? Será que esse dia foi apenas a culminação de toda uma série de momentos fatídicos, escolhas ruins e falta de sorte? Ou será que o rumo da minha vida foi determinado pelo fato de eu ser negro e pobre e crescer num Sul que nem sempre se dispôs a agir com civilidade, mesmo após a implantação dos direitos civis? É difícil dizer. Quando você é obrigado a passar o resto da vida num quarto do tamanho de um banheiro – um quarto de um metro e meio por dois –, você tem tempo de sobra para repassar os momentos da sua vida. Para imaginar o que poderia ter acontecido se você tivesse fugido quando vieram atrás de você. Ou aceitado aquela bolsa para jogar beisebol. Ou casado com aquela garota quando teve a chance. Todos nós fazemos isso. Repassamos os momentos horríveis das nossas vidas e os reimaginamos indo para a esquerda e não para a direita, com tal pessoa em vez daquela, NÃO HÁ COMO SABER O EXATO SEGUNDO
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fazendo escolhas diferentes. Não é preciso estar trancafiado para ocupar a mente e os dias tentando reescrever um passado doloroso, desfazer uma terrível tragédia ou corrigir um erro. Mas dor, tragédia e injustiça são coisas que acontecem – acontecem com todos. Eu gostaria de acreditar que o que importa é o que você escolhe fazer depois de uma experiência dessas – que é isso o que de fato muda sua vida para sempre. Eu realmente gostaria de acreditar nisso. Prisão do Condado de Jefferson, 10 de dezembro de 1986 Minha mãe se sentou do outro lado da parede de vidro que nos separava, e destoava do ambiente com suas luvas cor de marfim, o vestido florido verde e azul e o chapéu azul largo, circundado por uma fita branca. Ela sempre se vestia para ir à cadeia como quem vai à igreja. Mas se vestir bem e ter maneiras impecáveis sempre foram boas armas no Sul. E quanto maior o chapéu, mais determinada ela estava. Aquela mulher usava chapéus mais altos que os do papa. Olhando minha mãe na sala de visitas, era difícil dizer que, em sua própria maneira sulista, ela estava armada até os dentes e pronta para a batalha. Durante o julgamento e até nos dias de visita, ela parecia um pouco deslumbrada e confusa com tudo aquilo. Estava daquele jeito desde minha prisão um ano e meio antes. Lester achava que ela ainda estava em choque. Lester Bailey e eu somos amigos desde que ele tinha 4 anos de idade e nossas mães disseram para a gente ir lá fora brincar juntos. Eu tinha 6 anos e me achava velho demais para brincar com um garotinho de 4. Mas mesmo que eu tenha tentado afastá-lo de mim naquele primeiro dia, ele ficou comigo. Vinte e três anos depois, ele ainda estava grudado em mim. Em cada visita, era como se minha mãe não conseguisse compreender por que eu ainda estava na cadeia. Três meses antes, eu havia sido julgado culpado de roubar e assassinar duas pessoas. Fazia, portanto, três meses que doze pessoas tinham decidido que eu não prestava e que esse mundo de algum modo seria um lugar melhor se eu não estivesse mais nele. Sua recomendação era que eu fosse assassinado. Sim, a maneira 15
mais aceitável de dizer isso é “sentenciado à morte”. Mas vamos chamar as coisas pelo que são. Eles queriam me assassinar porque eu havia cometido assassinato. Só que eles tinham pego o cara errado. Eu estava trabalhando no turno da noite num armazém fechado quando o gerente de um restaurante Quincy’s, a 25 quilômetros dali, foi sequestrado, roubado e baleado. Fui identificado erroneamente. A polícia alegou que um revólver velho, calibre .38, da minha mãe era a arma do crime. O estado do Alabama afirmou que essa arma havia sido usada não só no assalto do Quincy’s e na tentativa de assassinato, mas também em dois outros homicídios na área, quando dois gerentes de restaurante haviam sido roubados no final do expediente, enfiados à força em refrigeradores e depois assassinados. Aquela velha arma que minha mãe guardava, eu acho que fazia 25 anos que ela não era usada. Talvez mais. Eu nunca me envolvera sequer em uma briga, mas, agora, era não só um assassino como também o tipo de assassino a sangue-frio que aponta uma arma para a cabeça de alguém, puxa o gatilho por algumas centenas de dólares e depois simplesmente vai cuidar da vida como se nada tivesse acontecido. Deus sabe que minha mãe não criou nenhum assassino. E durante aqueles meses esperando a sentença oficial do juiz, sua atitude era a mesma de antes de eu ser declarado culpado. Será que ela sabia que apenas uma audiência me separava da câmara da morte? Não falávamos sobre isso, e na verdade eu não tinha certeza se era ela que fingia não saber por minha causa ou se eu é que fingia por causa dela, ou se simplesmente estávamos os dois tão envolvidos nesse pesadelo que nenhum de nós sabia de fato como enfrentar o que havia acontecido. – Quando é que você vem pra casa, querido? Quando é que eles vão deixá-lo vir pra casa? Eu olhei para Lester, que estava em pé atrás da minha mãe, com uma mão descansando no ombro dela enquanto ela segurava o fone na orelha direita. Ele geralmente vinha sozinho me ver, e minha mãe vinha com minha irmã ou a vizinha. Toda semana, Lester era o primeiro da fila nos dias de visita, passando por lá em seu caminho para o trabalho para dizer alô e colocar algum dinheiro na minha conta na 16
prisão para que eu tivesse o essencial. Ele vinha fazendo isso havia um ano e meio, rigorosamente toda semana, sem falta. Era o primeiro a chegar ali, sempre. Ele realmente era o melhor amigo que um cara poderia ter. O melhor. Lester olhou para mim, deu de ombros e então balançou um pouco a cabeça. Minha mãe sempre perguntava quando é que “eles” iam me deixar voltar para casa. Eu era o bebê da família – o bebê dela. Até a minha prisão, ficávamos juntos todos os dias. Íamos à igreja juntos. Fazíamos as refeições, dávamos risada juntos, rezávamos juntos. Ela era absolutamente tudo para mim, e eu para ela. Eu não conseguia pensar em nenhum grande momento da minha vida em que minha mãe não estivesse do meu lado, me animando. Em todos os jogos de beisebol. Antes das provas e das apresentações na escola. Na formatura. Quando eu voltava para casa depois de trabalhar na mina de carvão, ela estava sempre lá esperando para me abraçar, por mais sujo que eu estivesse. No meu primeiro dia de trabalho na loja de móveis, ela acordou cedo, preparou meu café da manhã e embrulhou o almoço para eu levar. Esteve em todos os dias do meu julgamento. Sorrindo para todo mundo naquela sala de tribunal, com seu melhor vestido, com o tipo de amor que simplesmente parte em mil pedaços o coração de qualquer homem. Ela acreditava em mim – sempre acreditou, sempre teria acreditado. Mesmo naqueles dias. Mesmo que um júri tivesse me julgado culpado, ela ainda acreditaria em mim. Eu podia sentir um nó se formar na minha garganta e meus olhos começarem a arder. Ela e Lester eram provavelmente as únicas pessoas no mundo que sabiam o que eu sabia: eu era inocente. Eles não se importavam que a imprensa me pintasse como uma espécie de monstro. O fato de essas duas pessoas nunca terem duvidado um segundo de mim – bem, basta dizer que eu me agarrava a essa ideia como se a minha vida dependesse disso. Mas mesmo que eu fosse culpado, mesmo que tivesse matado aquelas duas pessoas a sangue-frio por um pouco de dinheiro, minha mãe e Lester ainda teriam continuado a me amar e a acreditar em mim. Eles ainda estariam bem ali onde estavam. O que um homem faz com um amor como esse? O que ele faz? Eu olhei para baixo até conseguir me controlar. Vinha fazendo o possível para manter meus sentimentos e emoções sob controle durante 17
todo o julgamento, porque não queria deixar minha mãe angustiada. Não queria que ela me visse chorando. Não queria que sentisse meu medo ou minha dor. Minha mãe sempre tentara me proteger, aliviar minha dor. Mas aquela dor era demais até mesmo para que o amor de uma mãe pudesse atenuá-la. Eu não podia fazer isso com ela. Eu não faria isso, não importava o quanto eles me forçassem. Era tudo o que me restara, tudo o que eu podia dar naquela hora. Depois de alguns momentos, levantei a cabeça de novo e sorri para minha mãe. Então o meu olhar e o de Lester se cruzaram outra vez. Ele balançou a cabeça de novo. Quando você conhece um cara há tanto tempo quanto eu conheço o Lester, desenvolve uma espécie de linguagem sem palavras. Eu havia pedido a ele que não deixasse ninguém falar com minha mãe a respeito da minha sentença. Minha irmã quis sentar com ela e fazê-la entender que eles poderiam decretar minha morte e que eu nunca mais iria voltar para casa. Fazer com que ela encarasse essa realidade e lidasse com ela. Lester interrompeu toda essa conversa. Eu voltaria para casa um dia. Eu não queria que minha mãe perdesse a esperança. Não há lugar mais triste para se estar no mundo do que um lugar onde não há esperança. Quando Lester vinha me visitar sozinho, eu e ele podíamos conversar livremente – bem, tão livremente quanto dois caras podem conversar quando todas as suas palavras estão sendo gravadas. Tínhamos uma espécie de código. Mas desde que fui sentenciado, isso parecia não ter mais importância. O tempo corria, então falávamos sobre as minhas opções abertamente. Eu coloquei minha mão em cima do vidro grosso que me separava da minha mãe e ajustei o fone na minha orelha. Ela inclinou-se para a frente e estendeu o braço dela de modo que sua mão parecesse pressionada contra a minha do outro lado da parede de vidro que nos separava. – Logo, mãe – eu disse. – Estão cuidando disso. Tenho intenção de voltar logo para casa. Eu tinha um plano. Lester sabia. Eu sabia. Deus sabia. E isso era tudo o que importava. Agora que eu tinha deixado de lado toda a tristeza, podia sentir a raiva crescendo dentro de mim e lutando para sair. Ela vinha em ondas desde a minha prisão. À noite, eu rezaria de novo. 18
Rezaria pela verdade. Rezaria pelas vítimas. Rezaria por minha mãe e por Lester. E rezaria para que o pesadelo no qual eu vivia fazia quase dois anos terminasse de algum jeito. Não havia dúvidas sobre qual seria a minha sentença, mas eu ainda assim rezaria por um milagre e tentaria não criticar esse milagre se não fosse o que eu esperava. Era o que minha mãe sempre havia me ensinado. Tribunal do Condado de Jefferson, 15 de dezembro de 1986 Não era nada menos que um linchamento – um linchamento legal, mas mesmo assim um linchamento. A raiva que eu me esforçara tanto para reprimir e que rezara para afastar estava de volta com toda a força. Meu único crime era ter nascido negro, ou ter nascido negro no Alabama. Para onde eu olhasse no tribunal, via rostos brancos – um mar de rostos brancos. Paredes brancas, mobília branca e rostos brancos. A sala do tribunal era impressionante, intimidava. Eu me sentia um visitante não convidado na biblioteca de um homem rico. É difícil explicar exatamente qual é a sensação quando você está sendo julgado. Há uma vergonha. Mesmo quando você sabe que é inocente. Ainda assim dá a sensação de que você está coberto por algo sujo e mau. Eu me sentia culpado. Sentia como se minha própria alma estivesse sendo julgada e considerada falha. Quando parece que o mundo inteiro te acha um cara mau, é difícil você se conectar com seu lado bom. Mas eu tentava. Deus sabe que eu tentava. Passei a aparecer nos jornais de Birmingham desde o momento da minha detenção e depois ao longo de todo o julgamento. A imprensa me julgara culpado desde o segundo em que eu havia colocado os pés para fora do quintal da minha mãe. Assim como os detetives da polícia, os especialistas e o promotor – um homem de aspecto triste, com um queixo afilado, papada e uma palidez que dava a impressão de que ele nunca havia saído de casa na vida. Bem, se eu tivesse que julgar alguém como mau naquela sala de tribunal, teria sido o promotor McGregor. Havia uma maldade saindo daqueles olhos pequenos, bem juntos – um ódio que era forte, tenso 19
e instável. Dava a impressão de que ele poderia atacar a qualquer momento, como uma espécie de doninha raivosa. Se ele tivesse como me executar ali mesmo, naquela hora, teria feito isso e depois sairia para almoçar sem pensar mais no assunto. E então havia o juiz Garrett. Era um homem grande; mesmo naquela sua roupa preta folgada, parecia abarrotado e desconfortável. Tinha uma vermelhidão nas bochechas. Ele se pavoneava e bufava e fazia um grande espetáculo de qualquer coisa, mas era tudo uma farsa. Ah, sem dúvida, todos eles apenas cumpriam o rito formal. Por quase duas semanas, fizeram desfilar testemunhas e especialistas e nos fizeram passar por toda a série de procedimentos da cadeia de custódia e da apresentação de provas, de A a Z, e tudo isso, eu imagino, dava legitimidade a uma conclusão já decidida de antemão. Eu era culpado. Era um inferno: no que dizia respeito à polícia, ao promotor, ao juiz e até mesmo ao meu próprio advogado de defesa, eu já nascera culpado. Preto, pobre, sem pai a maior parte da minha vida, um de dez filhos – na realidade era bem impressionante que eu tivesse chegado aos 29 anos sem uma corda no pescoço. Mas a justiça é uma coisa engraçada, e no Alabama a justiça não é cega. Ela sabe qual é a cor da sua pele, qual é seu grau de instrução, e quanto dinheiro você tem no banco. Eu podia não ter dinheiro nenhum, mas tinha instrução suficiente para entender muito bem como a justiça estava operando naquele julgamento e qual seria exatamente seu desfecho. Os bons e velhos rapazes haviam trocado suas vestes brancas por roupas pretas, mas ainda se tratava de um linchamento. – Meritíssimo, a acusação encerra. – Certo, algum testemunho para a defesa? Assisti incrédulo ao meu advogado se abster de questionar o segundo oficial de justiça, que acabara de mentir a meu respeito sob juramento. Eu nunca havia dito a nenhum dos dois oficiais de justiça que sabia como passar incólume pelo teste do polígrafo. Eu passara quase dois anos aguardando o julgamento – determinado a não falar com ninguém a respeito de qualquer coisa que tivesse a ver com meu caso –, e agora, no corredor do lado de fora do tribunal, eu teria supostamente confessado a um oficial de justiça que havia trapaceado para poder passar no 20
teste do polígrafo, um teste que o estado proibira de ser aceito porque havia provado que eu era inocente? Não fazia sentido. Nada daquilo fazia sentido. Meu advogado deu as costas ao juiz e olhou para mim. – Você quer testemunhar? Pude ver o oficial de justiça dando um sorriso forçado ao sair do banco das testemunhas. Se eu queria testemunhar? Eles estavam prestes a me dar uma sentença de morte, e ninguém falava em minha defesa. Havia coisas que precisavam ser registradas. Meus pulsos estavam acorrentados e algemados, uma corrente pesada ligando-as às algemas em volta dos meus tornozelos. Por um momento, imaginei enrolar aquela corrente em volta do pescoço de todos eles, mas então parei de apertar os punhos e juntei as palmas das mãos como se rezasse. Eu não era um assassino. Nunca fora, nunca seria. Olhei para o júri; para McGregor, que olhou para mim com ódio e falso moralismo; para o juiz, que parecia acalorado e com muito tédio. Eu passara bons anos dando testemunho a Deus na igreja, e agora era hora de testemunhar a meu favor, mesmo naquele tribunal. Fiz que sim com a cabeça para meu advogado. – Sim – eu disse, um pouco mais alto do que queria. Dentro da minha cabeça, eu estava gritando, Raios, sim!, e sem querer acabei batendo minhas correntes contra a mesa ao levantar da cadeira. – Seria possível que ele tivesse as algemas removidas, senhor Juiz? Finalmente meu advogado fazia algo por mim. Lutava um pouco. Eu sabia àquela altura que ele procedia assim mais para manter as aparências e conseguir alguma coisa do que por acreditar em mim. Quando lhe passaram meu caso e disseram que iriam pagar 1.000 dólares, ouvi-o murmurar “Isso não paga nem meu café da manhã”. Ele cumpria o roteiro, mas eu sabia que não se importava nem um pouco com aquilo. Talvez me achasse culpado, ou então para ele era indiferente qualquer das opções. Eu era apenas outra pasta de arquivo numa grande pilha de pastas. Estávamos juntos havia quase dois anos, mas ele não me conhecia. Não de verdade. Não da maneira que você quer que alguém te conheça quando sua vida está nas mãos dele. Mesmo assim, eu precisava dele. Ele sabia disso, e eu sabia disso. Então eu era 21
educado e respeitoso. Mesmo que as coisas corressem hoje da maneira que todo mundo sabia que iriam correr, ainda assim eu precisaria dele. Estendi os pulsos para o oficial de justiça. Ele sorriu outra vez enquanto abria as algemas. Pelo canto do olho, pude ver minha mãe na segunda fileira. Lester sentava de um lado dela, e minha irmã Dollie, do outro. Nossa vizinha Rosemary também estava ali. Olhei por cima do ombro enquanto as algemas iam sendo retiradas e ela me fez um pequeno aceno. Olhei para Lester e ele assentiu, com um gesto sutil de cabeça. Tínhamos uma cartada final em mente. Caminhei até o banco das testemunhas e virei-me para olhar para a sala do tribunal. Eu estava feliz por ser capaz de ver minha mãe e encará-la olho no olho. Ela sorriu para mim, e senti meu coração apertar. Meu Deus, quanta falta eu ia sentir dela. Por mais que ela sorrisse, eu sabia que ela estava assustada, e que para ela todo aquele trololó jurídico deveria ser como uma língua estrangeira. Quando minha mãe saiu da última visita, achou graça eu dizer que logo estaria em casa sentado na nossa mesa e comendo um dos bolos que ela fazia domingo à tarde. Ela preparava um bolo tão bom que teria feito o próprio capeta confessar seus pecados e implorar perdão só para ganhar um pedaço. Às vezes, tarde da noite, eu fechava os olhos e via aquele bolo vermelho dela, de beterraba, com cobertura de creme de manteiga, com tanta clareza na minha mente que juro que sentia até o cheiro da manteiga e do açúcar. Minha imaginação sempre foi uma bênção e uma maldição, as duas coisas. Ajudou-me a superar algumas fases difíceis enquanto eu crescia, mas também me valeu alguns problemas. Nada, porém, como a encrenca em que eu estava metido agora. Todo dia desde que tinham me prendido eu pensava Vai ser hoje. Eles vão saber que eu estava no trabalho. Vão encontrar o cara que realmente fez isso. Alguém vai acreditar em mim. Era tudo apenas um pesadelo do qual eu não conseguia acordar. Sorri de volta para a minha mãe, e então olhei para McGregor. Ele já estava havia um tempão olhando fixo para mim. Era uma tática famosa dele. Olhar fixo para o réu até ele se acovardar. Mostre a ele quem é o líder da matilha. Bom, eu não era um cachorro, e também não ia me acovardar. Por dentro, estava absolutamente apavorado. Queria ir para 22
casa. Não queria morrer. Mas por fora precisava ser forte. Precisava ser forte, pela minha mãe, pelos meus amigos. Martin Luther King uma vez disse: “Um homem não vai conseguir montar em você, a não ser que suas costas estejam curvadas”. Então sentei com as minhas costas o mais eretas possível naquela sala de tribunal, e quando McGregor me encarou, endireitei as costas ainda mais e olhei bem nos olhos dele. Ele estava tentando montar em mim, mesmo, tentando me matar. E eu não ia deixar mais fácil para ele, nem para nenhum deles, mais do que já estava sendo. – Meritíssimo – meu advogado começou –, permita-me tornar do conhecimento da corte que o senhor Hinton solicitou a oportunidade de testemunhar. Não tenho nenhuma ideia do assunto de seu testemunho, portanto, não há como fazer-lhe perguntas. Não vejo como pode fazer alguma diferença se ele simplesmente testemunhar. Ele não sabia qual seria o assunto? O assunto era que aquele tribunal me acusara de ter cometido dois assassinatos a sangue-frio, sem qualquer prova. O assunto é que meu advogado simplesmente permitira que me considerassem culpado de dois crimes capitais com base numa terceira tentativa de homicídio que aconteceu enquanto eu estava trabalhando. O assunto era que meu advogado contratara um especialista em balística que mal conseguia enxergar e que havia sido massacrado no banco de testemunhas. O assunto era que o estado do Alabama queria me amarrar na Yellow Mama 2 e me matar por crimes que eu não havia cometido. O assunto era que alguém estava tentando me matar e eu estava defendendo minha vida. Era esse o assunto. Respirei bem fundo, fechei os olhos, e fiz a mesma oração que eu rezara em silêncio mil vezes. Meu amado Deus, faça com que eles saibam a verdade das coisas. Faça com que vejam dentro da minha mente e do meu coração e descubram a verdade. Abençoe o juiz. Abençoe o promotor público. Abençoe os familiares das vítimas que estão sofrendo. Meu amado Deus, permita que se faça justiça. Justiça de verdade. – Antes de mais nada, não matei ninguém. É importante para mim que as famílias saibam disso. Acreditem nisso. Eu jamais iria querer que Yellow Mama [“Mamãe Amarela”] é o apelido dado no estado do Alabama à cadeira elétrica, que foi usada para execução de sentenças de morte de 1927 a 2002. [N.T.]
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alguém tirasse a vida de alguém que eu amo. Não posso sequer imaginar essa dor. Eu sei o que é não ter pai, ser criado com essa ausência na sua vida, e não faria com que isso acontecesse com ninguém. Tem um homem lá em cima que sabe que eu não fiz isso, e um dia talvez eu não esteja mais aqui, mas ele irá mostrar a vocês que eu não fiz isso. Eu jamais ousaria sequer pensar em matar, porque não sou capaz de criar uma vida e, portanto, não tenho direito de tirá-la de ninguém. Eu podia ouvir minha voz tremendo um pouco, então respirei fundo de novo e olhei diretamente para a viúva de John Davidson. – E se você... Se sua família está satisfeita por eles terem pego o homem certo, sinto muito, mas se você quer realmente que o assassino de seu marido seja de fato levado à justiça, ajoelhe-se e reze a Deus por isso, porque não fui eu. Eu olhei para o juiz Garrett. – Faça comigo o que lhe parecer bom, mas a partir do momento em que mandar me matar, com certeza estará manchando suas mãos de sangue. Amo todas as pessoas. Nunca alimentei preconceitos na vida. Fui à escola e me relacionei com todo mundo, nunca entrei numa briga. Não sou uma pessoa violenta. Minha mãe assentia. Sorria para mim como se eu estivesse numa peça de teatro da escola ou dando um recital. Eu segui adiante. – Tenho rezado a Deus pelo promotor público, por este juiz e especialmente pelas vítimas. Vocês terão que responder por seus atos, e isso não é da minha alçada, porque, se lembro bem, Jesus foi julgado, acusado falsamente por faltas que não havia cometido, e tudo o que fez foi tentar amar e salvar este mundo, e acabou sofrendo e morrendo. Se eu tiver que morrer por algo que não fiz, que seja. Minha vida não está nas mãos deste juiz. Minha vida não está nas suas mãos, está nas mãos de Deus. Falei com os oficiais de justiça que haviam acabado de mentir ao testemunhar. Disse a eles que iria rezar ao Senhor para que os perdoasse. Perdoai-os, eles não sabem o que fazem. – Vocês todos mandaram um inocente para a prisão. Vocês mantiveram um homem inocente preso por dois anos, e eu pedi, implorei que vocês me dessem qualquer coisa em que acreditassem. Soro da verdade, hipnose, qualquer coisa. Não tenho nada a esconder. 24
Vi McGregor balançar a cabeça e revirar os olhos e depois meio bufar, meio rir. Olhei bem direto nos olhos dele. – Estou rezando por você – repeti. – Estou rezando para que Deus perdoe vocês todos pelo que fizeram, e espero que você tenha sabedoria suficiente para pedir a Deus que o perdoe. Você vai morrer, assim como eu vou morrer também. Minha morte talvez seja na cadeira elétrica, mas você vai morrer também. E tem uma coisa: depois que eu morrer, vou para o céu. E para onde você vai? Olhei para o juiz, para os oficiais de justiça, para o promotor-público, para os detetives de polícia. – Para onde vocês vão? – perguntei de novo. – Uma mentira não passa aos olhos de Deus. Quando a polícia veio me prender, eu não tinha ideia do motivo pelo qual estavam me prendendo. E quero que a família saiba que se eu tivesse matado alguém, vocês não iriam me encontrar no quintal dos fundos da casa da minha mãe cortando grama. Eu não tinha nada a esconder, e não sei nada a respeito desses assassinatos. Meu advogado estava olhando para baixo, rabiscando alguma coisa no seu caderno de anotações. Eu tinha pressa de colocar tudo para fora. Só Deus sabe se o que eu dizia fazia sentido ou não. – Desde que vim parar na prisão, leio o jornal todo dia, e dificilmente passa um dia sem que alguém seja enfiado num refrigerador, e vocês ainda vão ler essa notícia outras vezes. Mais gente vai morrer. Talvez então vocês percebam que pegaram o homem errado. Mas eu rezo a Deus para que isso não aconteça desse jeito. Eu rezo apenas para que os homens que realmente fizeram isso – eu só espero que o Senhor coloque um peso suficiente no coração deles para que simplesmente se entreguem. Mas não tenho certeza se vocês vão querer acreditar neles. Só que quando Deus faz parte do plano, eu não me preocupo com o que vocês vão acreditar. Não quero ser eletrocutado, mas qualquer que seja o destino que o Senhor me reserve, estou pronto para ir. E vocês sabem que eu olhei e vi preconceito neste tribunal. Vocês não queriam a verdade. Vocês não queriam a pessoa certa. Tudo o que vocês queriam era uma condenação. – Nunca, de forma alguma, cometi um crime violento. Sim, enveredei pelo caminho errado, roubei e assinei alguns cheques sem fundos, 25
mas não tentei esconder isso. Eu admiti, e paguei por isso. Por quanto tempo vou ter que pagar por isso? Eu não estou aqui tentando reabrir esse caso, mas acho que cada um de vocês tem algumas dúvidas. Algumas dúvidas. Lamento que não possamos viver num mundo justo. Minha Bíblia diz que todo joelho deve se dobrar e toda língua deve confessar. Rosemary gritou “Amém!” e vi minha mãe dar um tapinha no braço dela. Olhei bem nos olhos de McGregor. – Não acho que as pessoas aqui realmente se importem com quem é inocente. Sou apenas um homem negro, e isso não significa nada para vocês. Eu não sei a cor de Deus, mas posso lhes dizer que ele me ama tanto quanto ama vocês. Vocês podem achar que são superiores neste mundo, mas não são. Eu tenho uma vida, assim como todos os demais têm uma vida, e não odeio vocês. Senhor McGregor, eu não o odeio. Mas por um breve momento durante o julgamento, comecei a odiá-lo, realmente, mas agradeço a Deus por ter me feito perceber que não posso alcançar o céu enquanto odiar alguém. – Amém – ouvi de novo. – Amo você. Pode achar que sou louco por dizer a um homem que o amo, sendo que ele me levou a julgamento e está tentado me mandar para a cadeira elétrica, mas eu o amo. – Amém. – Rosemary estava com as mãos erguidas como fazíamos na igreja quando ouvíamos um bom sermão. Minha irmã estava de olhos fechados. Mamãe estava só sorrindo e assentindo, e Lester parecia triste. – Sabe, eu não contei isso a muitas pessoas, mas quando era adolescente tive umas aulas de Direito Comercial na escola, e adorei. E eu queria ser juiz, pensei talvez em fazer faculdade e me tornar procurador público ou algo assim, mas, sabe, fico feliz por não ter feito isso. Fico feliz porque nunca sabemos direito quando uma pessoa é inocente ou culpada. E vocês provaram isso. Então fechei os olhos. Se eu pudesse tocar o coração do juiz com o meu, ele saberia que eu não havia feito aquilo. Ele saberia que eu não era violento. Eu sempre me importei com todas as pessoas – brancos, pretos, verdes, roxos – e quando precisavam de ajuda, eu ajudava. Fui criado assim, e é assim que eu sou. Eu sabia dizer o que era certo e o que era errado. E o que aconteceu naquele tribunal foi errado. Estava tudo errado. 26
– Vocês sentiram prazer em me condenar – eu disse. Eu não tinha certeza sobre como expressar isso exatamente, mas sentia que havia uma excitação envolvida. Durante todo o julgamento, a sensação era de que McGregor, os detetives e os especialistas do estado estavam tendo prazer naquilo – como se tirar a vida de alguém fosse alguma espécie de evento esportivo. – Todos os que testemunharam a meu favor disseram a verdade. Não posso dizer o mesmo a respeito das pessoas que vocês chamaram. Eles vão ter que responder por isso, e você colhe o que planta, podem estar certos disso. E lamento por aquelas doze pessoas que me consideraram culpado. Eu realmente sinto por elas, mas não estou com raiva delas. Se por acaso vocês as encontrarem, digam a elas que não fiquei com raiva. Vou sempre rezar a Deus para que as perdoe, e sei no meu coração que ele é um Deus que perdoa. Não há dúvida quanto a isso. – Pode soar maluco, mas estou feliz – mesmo com os pés algemados. A felicidade que sinto não foi o mundo que me deu, e o mundo não pode me tirar. Isso é um fato. Meritíssimo, eu lhe agradeço por me deixar falar. Senhor McGregor, eu rezo muito pelo senhor. Desde que o vi, o senhor tem estado constantemente em minhas orações, e vou continuar rezando pelo senhor. Para onde quer que eles me mandem, Deus poderá ouvir minhas preces. Sabe, o que realmente me preocupava era que o senhor fosse capaz de me afastar de Deus, mas o senhor não tem como fazer isso. O senhor me afastou da minha família, mas não pode me afastar de Deus. – Sabe, eu tenho orgulho de ser negro. Eu sentiria orgulho se fosse branco. E é triste quando um policial que supostamente deveria ser um defensor da lei chega para você e diz que será condenado porque é preto, e então você pega um júri de brancos e tem um procurador-público branco. Sabe, isso é triste. É triste, realmente triste. Se encontrar o tenente Doug Acker, diga que estou rezando por ele também. – Bem, eu olho para aquelas crianças pequenas lá no fundo, e é uma coisa triste saber que o pai delas não vai mais estar por perto. Eu sei o que é isso. Eu sei o que é isso. Olhei de novo para o Lester, sentado ao lado da minha mãe. Ele tomaria conta dela por mim. Isso me deu um pouco de paz. Mas me preocupava que, se isso tinha acontecido comigo, poderia acontecer 27
com ele. Ou com algum dos meus irmãos. Ou com qualquer negro do Alabama. Ou com qualquer negro em qualquer lugar. – O único mal do qual sou culpado é ser parecido com alguém. E vocês sempre dizem isso – que todos nós somos parecidos. Mas é uma coisa engraçada – somos todos parecidos, mas vocês podem nos identificar categoricamente nesses tempos difíceis. Sabe o que o tenente Acker me disse? “Ponha isso na conta da má fama que vocês têm, porque se não foi você que fez isso, então foi um dos seus irmãos, porque vocês todos ajudam uns aos outros, então aceite isso.” E isso é triste. Fiz uma pausa e respirei fundo mais uma vez. – A coisa mais triste de todas é que vocês estão prontos a encerrar o caso. Esse juiz está feliz porque vai terminar. As famílias estão indo para casa achando que o homem foi julgado. O caso policial está encerrado. Mas Deus não encerrou o caso, e também não vai encerrá-lo. Ele vai reabri-lo. Pode ser daqui a um ano, pode ser amanhã, pode ser hoje – ele vai reabri-lo. Lester assentiu para mim, e eu retribuí o gesto. Este caso seria reaberto por Deus, mas Lester e eu iríamos fazer tudo a nosso alcance para dar a Deus uma pequena ajuda. Era hora de o juiz proferir a sentença. Esse era meu destino desde o instante em que eles haviam me prendido. Algum dia iriam saber que não havia sido eu. E então o que ia acontecer? O que você diz a um homem quando você descobre que não foi ele o autor de um crime? O que todos eles iriam dizer nesse caso? Eu sentei o mais ereto possível. Não iria implorar pela minha vida. – Eu não estou preocupado com aquela cadeira elétrica. Você pode me sentenciar a ela, mas não pode tirar minha vida. Ela não lhe pertence. Eu não pertenço a você. Você não pode pôr as mãos na minha alma. Houve um breve recesso. Apenas três horas até eles me levarem de volta àquela sala de tribunal de madeiras de lei e rostos brancos pela última vez. Ouvi meu advogado fazer uma última tentativa de contestar o fato de eles me julgarem por dois crimes capitais que estavam relacionados entre si por circunstâncias, sem terem relação comigo por meio de qualquer prova. De algum modo, o estado do Alabama foi capaz de 28
juntar os casos, relacioná-los a um terceiro, e colocar a pena de morte como opção. Esse foi o verdadeiro crime capital. O juiz bateu o martelo. Limpou a garganta. – Esta corte julgou que o réu, Anthony Ray Hinton, em cada um desses casos é culpado de crime capital, de acordo com o veredito do júri em cada um desses casos. E é o julgamento da corte e a sentença da corte que o réu, Anthony Ray Hinton, sofra morte por eletrocussão em data a ser estipulada pela Suprema Corte do Alabama, em respeito às Regras do Alabama para Procedimentos de Apelação 8-D (1). – O xerife do Condado de Jeferson, Alabama, é instruído a entregar o réu, o referido Anthony Ray Hinton, à custódia do diretor do Departamento de Instituições e Medidas Correcionais de Montgomery, Alabama, e a referida eletrocussão deve, no local apropriado para a eletrocussão de alguém sentenciado a sofrer morte por eletrocussão, causar uma corrente de eletricidade de suficiente intensidade para causar a morte e permitir a aplicação contínua de tal corrente para que passe pelo corpo do referido Anthony Ray Hinton até que o referido Anthony Ray Hinton esteja morto. Abaixei a cabeça. O juiz Garrett bateu o martelo, e meu advogado disse alguma coisa sobre uma apelação, mas eu sentia meu estômago na garganta e um zumbido nos ouvidos como se um enxame de abelhas tivesse sido solto na sala de tribunal. Pensei ter ouvido minha mãe chorando sofregamente e, quando olhei para trás, vi Dollie e Rosemary rodeando-a. Os oficiais de justiça estavam me conduzindo à porta que leva à parte de trás da sala do tribunal, mas eu me virei e comecei a andar em direção a minha mãe. Um dos oficiais agarrou meu braço por baixo do ombro, e pude sentir cada um de seus dedos apertando forte. Não teria como ir até ela. Não havia maneira de eu confortá-la. Eles me matariam se pudessem. Não poderia deixar que fizessem isso. Eu precisava voltar para a minha mãe, e ela precisava me ter de volta. Eu era o bebê dela. Meu Deus, eu era o bebê dela, e era inocente. Assisti como se estivesse debaixo d’água a Lester e minha mãe se levantarem. Vi as lágrimas no rosto de Lester, e minha mãe estendeu os braços na minha direção na hora em que eles me empurraram porta adentro. Era coisa demais para um só homem suportar. 29
Meu Deus, por favor, deixe que a verdade se revele. Meu Deus, não me deixe morrer assim. Meu Deus, sou inocente. Meu Deus, proteja minha mãe. Eu sou inocente. Eu sou inocente. Enquanto eles me levavam rapidamente pelo corredor atrás da sala do tribunal, me lembrei do semblante triste de Lester enquanto eu testemunhava. Ele sabia o que eu sabia. Aquilo que toda pessoa pobre envolvida nos emaranhados do sistema legal sabe. McGregor podia ter vencido, mas não acho que ele ou o juiz tivessem entendido que, ao me sentenciarem à morte, estavam me dando a única chance que eu tinha de provar minha inocência. Agora, como condenado à morte, eu teria garantia de uma apelação e de alguma representação por meu advogado. Se tivesse sido sentenciado à prisão perpétua, teria que contratar um advogado para apelar. A melhor chance que eu tinha de salvar minha vida era a sentença de morte. Não tinha dinheiro para provar minha inocência. Eu iria para a Prisão Holman. A Casa da Dor. A Terra do Homem Morto. O Abatedouro do Sul. Tinha um monte de apelidos. Eu estava em pânico, mas sabia que a única maneira de combater essa injustiça seria de dentro. Deus, tenha misericórdia da minha alma.
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