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A chuva imóvel

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CAMPOS DE CARVALHO A CHUVA IMÓVEL


ilustração:

Uendell Rocha


CAMPOS DE CARVALHO A CHUVA IMÓVEL 3ª EDIÇÃO


Copyright © Herdeiras de Campos de Carvalho Copyright © 2018 Autêntica Editora

Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

editora responsável

projeto gráfico

Maria Amélia Mello

Diogo Droschi

editoras assistentes

diagramação

Cecília Martins Rafaela Lamas

Guilherme Fagundes

revisão

Lívia Martins Luanna Luchesi Mariana Faria

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Carvalho, Campos de, 1916-1998 A chuva imóvel / Campos de Carvalho. -- 3. ed. -- Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2018. ISBN 978-85-513-0330-6 1. Ficção brasileira I. Título. 17-11720

CDD-869.3

Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura brasileira 869.3

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primeira parte

O centauro a cavalo


Foi então que me vi numa gare extremamente vazia. Tão vazia que nem a minha sombra se refletia nela. Alguém, uma voz, me sussurrou ao ouvido: Cafarnaum. Quando o trem desapareceu sob o túnel, senti de súbito que estava perdido: chamei-me pelo nome para sentir minha presença, em vão busquei o último cigarro sob o paletó: os trilhos, apenas os trilhos por todos os lados. Não era noite nem era dia, as lâmpadas não sabia se estavam acesas ou estavam apagadas, um portão luzia ao fundo e todas as setas se dirigiam para ele. Sentia-me tão lúcido que nem um instante me ocorreu a hipótese de estar sonhando, dormindo, ou mesmo morto: agora as minhas pernas me levavam contra a minha vontade, eu estava a cavalo sobre mim mesmo, era um centauro e o meu nome já não formava qualquer sentido: mesmo se houvesse uma parede em frente eu a transporia sem dificuldade. Cafarnaum – dizia a tabuleta em vermelho, de repente em azul. E então veio a praça a perder de vista, nem uma árvore, nem um poste: apenas as casas ao redor, mudas, surdas, todas iguais como refletidas num jogo de espelhos – e o céu vazio por cima. Pus-me a trotar pela praça, garbosamente como se me olhassem milhões de olhos, eu 13


era positivamente um animal de circo: aplausos unânimes ressoaram das pedras do chão e das esquinas, meus cascos batiam palmas e o eco lhes respondia de cada interstício: toda uma multidão ululante: E se fossem lobos? De medo estaquei a um canto, as narinas no ar, o rabo tenso. Um frio glacial vestia o enorme silêncio, antes eu não sentira o frio nem o calor, simplesmente não sentia: puxei a aba do paletó, de novo era eu dentro de mim, os olhos me vendo como dentro de uma vitrina. Agucei todos os ouvidos, minhas artérias rolavam em catadupas pelo cérebro e pelos intestinos, houvesse um jardim e uma flor no jardim e eu seria capaz de ouvila respirar: meus cabelos, de repente senti-os crescer, e as minhas unhas: de trás de todas as paredes fui aos poucos pressentindo, sentindo, o arfar opresso ou tranquilo dos que dormiam, dos moribundos. Eu estava salvo, apesar de tudo! – e não apenas salvo como também vivo, senhor dos meus reflexos e da minha alma – e do meu nome de novo! Era soar a hora do despertar, em vão procurei a torre da igreja, e todos viriam ao meu encontro como antigamente, com outras faces mas os mesmos, uns sobre as suas muletas, outros sobre os seus músculos, André-Andréa, as mãos estendidas, a princípio suspeitosos, depois cúmplices. O fim dos tempos ainda não chegara, razão tinha a tabuleta furta-cor e também aquele desperdício de setas, todas no rumo certo e único, cuidado com o abismo à direita e à esquerda: o trem foi devorado pelo túnel porque se assustou com o insólito daquela gare, em tudo igual às outras, apenas vazia. Eu soubera trotar no momento preciso, como bom infante tratara logo de camuflar-me diante do inimigo, nenhum passo em falso, essa acuidade que 14


só se tem diante do insondável, essa aceitação de toda e qualquer verdade, fosse qual fosse. Agora uma árvore, e outra, e ainda essa outra. E esses postes também, como que brotados da terra ao simples toque dos meus dedos, da minha consciência. Já uma janela se abre alhures, não interessa onde; logo virá outra, e mais uma, e todas elas a um só tempo, em todas as praças do mundo onde haja alguém como eu à espera, centauro ou não, recusando-se terminantemente a continuar caminhando sobre os trilhos, um túnel à espreita na primeira curva. De puro gozo, e sem querer, volto ao claro relincho de ainda há pouco, um cigarro milagrosamente aceso entre os dedos, espantando os primeiros pássaros da madrugada. A verdade é que me doem os pés, as patas. – E o rabo ainda me pesa um pouco, atrás.

Isto me lembra aquela noite, verídica, em que eu fui se não o protagonista pelo menos o agonista – e, para ser sincero, a única testemunha. Embora se tenha passado comigo, acredito nela piamente. Faz sete anos, poderia fazer sete séculos ou sete minutos: eu deitado, no pré-albor de um domingo igual a tantos, o umbigo voltado para o teto, aquele corpo morto ao lado, o mesmo de sempre. Acordo e vejo-O nitidamente à minha frente, junto à parede, de pé, fitando-me, fitandome: reconheci-O como se reconhece alguém diante de um espelho, sem um segundo de hesitação: nenhum medo, nenhuma surpresa. Era, e é, todo negro, um verdadeiro príncipe etíope, só os olhos em brasa para identificá-Lo, sem pálpebras, e sem sequer supercílios: e fitando-me, 15


agora com um quase sorriso. Durou talvez um minuto a visão, nem isso: mas ainda hoje me ofusca, me enlouquece, tira-me da minha órbita ou de qualquer órbita, como só Lázaro talvez depois que lhe arrombaram o sepulcro: dia após dia a mesma Noite sempre. E o corpo da outra, do outro, junto ao meu, sem pressentir sequer o milagre, nem lhe seria possível – a respiração tranquila, o ar do domingo lhe inflando as narinas e os pulmões: morta, morto. Não tiro ilações de nada: o que é é, e basta; se acreditam ou se eu mesmo acredito, não tem a mínima importância: o domingo ali estava, e eu dentro dele, e Ele, tudo palpável e intocável como deveriam ser todas as verdades. O fato de desaparecer como apareceu, também o pensamento faz o mesmo, e o sonho, e nem por isso são menos reais e lhes conseguimos fugir ao jugo, como puros sonâmbulos, a carteira de identidade inutilmente no bolso: Estados Unidos do...: nem tão unidos assim, nada, ninguém. Uns olhos assim têm que ter sua razão de ser, minha mãe nunca me olhou assim, nem meu pior inimigo, nem e muito menos um moribundo – meu pai por exemplo; – um gato talvez, talvez um tigre, em certa hora única, um combate aéreo no escuro, ou simples fogos de artifício, as pupilas acuadas e apocalípticas, as presas de repente enormes – e, de repente, o salto.

Vivo e salvo: como se bastasse! Uma simples praça é este transtorno, praça de guerra é o que são todas elas, com Ele ou sem Ele, os esgotos correndo lá embaixo, e os mortos ainda mais embaixo, que mortos não interessa, nem que sejam dinossauros ou os primeiros trogloditas. Esta tranquilidade ainda é pior 16


do que a outra, ali pelo menos ainda havia as setas, em que direção pouco importa, montei-me numa delas, depois montei-me em mim mesmo – quando vi estava até bailando, com relincho e tudo. De que me valem essas árvores e essas janelas, e esta sombra sobretudo, se a cada passo me assalta esta certeza, esta incerteza, apesar de toda a experiência ou por isso mesmo? Cafarnaum ou não, o que sou é isto e apenas isto, no deserto ou no oceano seria o mesmo, o mesmo num anfiteatro repleto ou no cemitério. Ninguém me tira desta condição incômoda de visita, mesmo se de conviva não faz diferença, a mansão é de todos e não é de nenhum, espreitam-nos dia e noite através das frestas: o que isto é mesmo é um castelo mal-assombrado. Não sei sequer se desci do trem ou se lá estava para receber alguém, não sei de nada e morro sem saber: um sonâmbulo faria o mesmo mas não teria este raciocínio frio assim de pé, sobre dois pés ou sobre quatro: um autômato muito menos. Já me apalpei e sei que tenho entranhas e não parafusos, nem acredito que a cibernética já tenha chegado a este ponto, com pai e mãe e tudo para despistar, e este pavor sobretudo que só pode vir de mil gerações de mortos: nego-me terminantemente a ser um robô, com este umbigo e, agora, estas lágrimas. Posso ser um estrangeiro, isto não discuto, um estranho – mas se necessário vomitarei até o estômago para provar que sou humano, ou quase, tanto quanto se pode ser nestes dias trágicos. Nem me vejo tão diferente assim nestas águas, nem os peixes se mostram tão assustados com a minha aparição: sou eu mesmo tal como me conheço e desconheço, com as minhas memórias todas, até datas se for preciso. E ainda esta temperatura que é bem minha, 36 graus no mínimo, mesmo à sombra – e este pulso que não me deixa mentir. 17


A verdade é que algo se passa, não dentro mas fora de mim, em Cafarnaum e fora dos seus limites, desde ontem e desde sempre, como se as coisas se precipitassem rumo a um desconhecido, a um caos, as setas e as tabuletas tudo de cambulhada, e o governo no meio, e Deus no meio com as suas piruetas, como dizem ter sido quando ainda não era. Bater na porta da igreja seria ridículo, na de um hospício ainda mais ridículo: quando atinarem com o fato se mostrarão ainda mais desarvorados do que eu, mesmo nus virão para a rua aos gritos, e as mulheres darão à luz antes do tempo, e mesmo os homens se sentirão grávidos e se porão a estrebuchar, de cócoras. Esta calmaria a mim não me engana, é possível até que seja um domingo como foi o outro, os sinos prontos a dobrar festivos, o sol sem nenhum eclipse, o prefeito com o seu terno branco, os cachorros da véspera, as rosas se abrindo nos canteiros, André, Andréa, os meninos e os velhos, os velhos e os meninos, o trem das 10h20 –; o que sei é que atrás de tudo isso estará o imprevisto, o não previsto, apesar de anunciado cada dia nos jornais e no rádio, e na tela dos cinemas, e sobretudo dentro de cada um. Pode ainda não ser hoje, meu faro talvez seja o mais sensível, em verdade estou respirando por todos os poros e isto é um mal: mas até um cego, ele mais do que ninguém, pode testemunhar comigo esta iminência de uma hora que não prevê nenhum relógio – de sol ou de pulso, clepsidra ou ampulheta. – Se não, não me doeria tanto a raiz dos cabelos, e não apenas dos de cima.

Atoms at work... E eu neste cuidado de não pisar nos mortos! 18


Já passei por não sei quantos pavilhões iguais a este, nascem como cogumelos por toda parte, qualquer dia ainda acordo com um deles dentro do quarto: que quererão explicar afinal de contas? Isto é Troia ou é Cafarnaum? – essa gente não tem sequer imaginação, os alemães pelo menos punham música à entrada das câmaras de gás, não deixavam por menos. Aqui ainda cobram a entrada, ainda acabarão cobrando, crianças de calças curtas tanto, débeis mentais outro tanto: é o progresso. Quero é ver se mostram tudo mesmo, já que são cogumelos que se mostrem como cogumelos, mágica feita pela metade não tem graça nenhuma: ou então devolvam o ingresso! Assim fechado, até parece um circo como os que se armavam antigamente, com domadores iguais a esses, domavam até que as feras descobrissem que eram feras: só se espantavam os espantalhos, esses falsos crucificados. Atoms at work –: enquanto isso nos deixam em paz, nem que seja esta paz de cemitério ou, pior, de velório, cada um velando a si mesmo sobre a mesa, sobre o chão, até que resolvam vir buscar o cadáver: para espalhá-lo na ionosfera como manda a higiene. Passar a linha – isto é que é o mais difícil. As fronteiras deles só existem no mapa, é tudo uma linha só, o horizonte sempre em frente, e atrás, e por todos os lados – não adianta descer do trem nem pegá-lo, nem de foguete espacial chegaria a dois metros de onde estou: estaria apenas dando cambalhotas. Tentarei assim mesmo, não para fora mas para dentro, o espaço apenas para virar-me do avesso, como se faz quando se dorme, quando durmo. Visita ou não, conviva ou estrangeiro, vou fazer-me difícil para que ao menos se assustem como me assusto, como ainda fiz ainda há pouco, montado sobre os meus pés. 19


Nem me desfiz de Deus para cair nas mãos desses pândegos, assim sem mais nem menos, como uma coisa inerme e inerte: embora o seja, embora o seja. Mas só eu sei do meu vazio, e isto me dá uma vantagem de pelo menos quatro séculos sobre qualquer tipo de tortura deles: mesmo esta.

Que nos espreitam não há dúvida: lá estão seus miradores! Quando não o fossem, da própria Lua, de Vênus, de Marte nos espreitariam. Tramam alguma coisa, sempre tramaram: para isso vivem, vivem em razão disso. E eu com os meus dois pés, sem asas, igual a todos: nesta expectativa talvez de nada, pode demorar cem anos essa invasão, talvez uma hora, a eternidade talvez. Esta posição de pé é que me cansa, mesmo sentado estou de pé, mesmo deitado: as suas cadeiras são um escárnio, são um escárnio as suas camas, e mesmo as suas sepulturas não oferecem nenhum repouso: a todo instante podem soar as trombetas, ou já agora os saxofones, e os próprios mortos terão que vir à tona com as suas roupas e o sexo de antigamente: ou estarão todos nus, como eu e todos? De uma forma ou de outra não escaparei a este pânico, eles sabem que a véspera ainda é pior do que o dia, fazem-se anunciar de mil modos diferentes, até dentro de mim já os pressinto, sou o arauto deles e a sua vítima: todos: os que sabem e os que não sabem. Até os que passam por sábios já o sabem, já não se mostram tão seguros e tremem nas suas cátedras, ou são elas que tremem sob eles. Desconfio que até Deus já desconfie de alguma coisa, o Deus deles, com suas máscaras chinesas ou sevilhanas: acabarão acabando com o seu Deus nesse 20


Apocalipse às avessas, o feitiço enfim voltado contra o feiticeiro, o ventríloquo desventrado: atoms at work.

Este paredão nunca esteve aqui, ou então fui eu que diminuí; um dos dois está errado. Antes podia transpôlo, via-se o jardim do outro lado, o tanque com o seu repuxo, o anjo ou a ninfa de mármore: nenhum mistério no seu mistério. Agora podem fuzilar-me de encontro a ele, é só voltar-me de frente e me fuzilam, já tenho até as mãos atadas às costas: estou na minha rua e não estou, este quarteirão parece não ter fim. Depressa! Gritar seria inútil, é noite apesar desta luz toda, e os que passam ainda vão mais apavorados do que eu. Minha casa está a poucos metros, a poucos quilômetros, não fossem minhas pernas tão curtas e eu poderia alcançá-la em dois saltos, três. Cafarnaum ou não, esta é a minha rua, meus pés a conhecem ainda melhor do que eu, não há uma só razão para que eu não confie neles nem me resta nenhuma alternativa: depressa! depressa! Parece mais o muro de uma fábrica, de um cemitério é que não é, nem havia aqui nenhum cemitério até ontem, até o ano passado. E por que irão fuzilar-me assim discricionariamente, sem um julgamento sem uma palavra, como se exercitassem o tiro ao alvo ou por simples desfastio? – apesar de toda a culpa que tenho e sei que tenho, como todos têm a sua a qualquer hora do dia ou da noite! Esta é a minha porta, apesar de assim imensa: a maçaneta mal me cabe na mão, e mal a alcanço na ponta dos pés: mas não resta dúvida de que estou em casa, e isto é o que importa. Desta vez estou salvo, salvo – e não tenho sequer o direito de olhar para trás! 21


E que faria eu com uma bússola? Em que me interessa saber onde fica o Norte, onde fica o Sul? (O sistema solar: mas que bela teoria! Quero vê-lo é funcionando!) Mesmo o passado se faz às vezes tão presente que já nem sei se fui ou se sou, tenho que buscar o espelho para encontrar o momento exato e, nele, a minha face: se tenho mesmo esta barba ou se a uso apenas como disfarce, como fazia em criança ou como faz a criança dentro de mim. Na praça, na estação – ontem? hoje? – ora eu me via descendo do trem e cavalgando-me, ora tudo se passava como se eu estivesse assistindo a um filme antigo – embora tudo lúcido como ainda agora, como sempre, como deve sentir-se um palimpsesto quando se sente. De qualquer forma tenho que dar meu testemunho, para isso aqui estou, assim fui feito: inútil fugir de mim – dos outros! Fugi do ventre e não adiantou de nada, andei como um sonâmbulo por terras e mares estranhos, acabei caindo nesta ilha, neste quarto, com esta luz ofuscando-me nesta escuridão: sou eu a lâmpada, não consigo apagar-me: o vaga-lume depois de morto continua aceso – também as estrelas. A isto eu chamava de insônia, mas mesmo dormindo eu continuava insone, em verdade 22


não me lembro de ter dormido em toda a minha vida: meus pés sim, e minhas pernas: eu, nunca! Agora estou acuado, todos estes refletores em cima, já não adianta meter-me debaixo da cama para fugir de mim, voltar-me contra a parede como fazia em criança – ainda hoje. Ou entro logo num hospício e digo que não sou eu, como sei de muitos que se acovardaram no instante decisivo e se submeteram a lavagens do cérebro e dos intestinos, e se entregaram de mãos atadas aos seus algozes, o riso alvar na cabeça enfim oca. Mas esses não tinham uma alma, eram apenas filhos ou irmãos dos outros, seu desespero nada tinha a ver com este desespero, podiam dar-se ao luxo de aprender tudo de novo – como se acabassem de sair da vulva, a cartilha debaixo do braço.

O que pensem, o que eu pense, já não interessa: só importa o testemunho. Mesmo que eu não compreenda, outros compreenderão por mim: como aquela noite em que acordei na rua e achei extraordinária minha presença no vento, sem sequer os óculos para enxergar-me. Poderia ter gritado, acordado o mundo, que já não faria o mesmo efeito que fiz com a minha só presença, sem uma palavra sem um gesto inútil: andando simplesmente como se anda, olhando como se olha, sem cuidar de esquinas ou obeliscos, como um rio subterrâneo, todo lava e chamas. Pena que eu não fosse sempre assim, e voltasse sempre ao estado de vigília, de vigilância, mais preocupado em conjugar os verbos do que em descobrir minha própria voz, sobretudo calado. O filho do coletor, mais coerente do que eu, ainda hoje mede a cidade com o seu passo todas as noites, indiferente à Geografia ou à Astrofísica – sem 23


que nem todos os exércitos da terra já consigam detê-lo, nem mesmo sua mãe que de há muito renunciou a guardálo no útero, como faz minha mãe e como fazem todas. Como fazia a minha até hoje, até este instante: posso ouvi-la ressonar atrás desta parede e deste umbigo – e meu pai na sua sepultura – e todos os pais através deles, desde o início dos tempos até o fim dos tempos. Depois do que sei e que eles se negam a saber, tenho que enfrentá-los sem piedade como a mim mesmo me enfrento, como enfrentei a Deus sem esperar pelo seu Dia do Juízo – como enfrentarei sem medo os que a esta hora estão tramando a última cartada, ou a penúltima se ainda restarem sobreviventes. Também meus irmãos, daqui ou da China, terão que me ouvir como a mim mesmo me ouço, e não com essa voz de ventríloquo com que me ouviam e se ouviam, mais preocupados com os pronomes oblíquos do que com a verdade, o pavor de caírem no ridículo e não simplesmente no abismo. Se me tomam por louco eu os tomo por loucos, se por idiota por idiotas, se por sonâmbulo por sonâmbulos: de qualquer forma a fraternidade universal, a verdadeira, cada um sem a sua alma e sem nenhuma, nada de pseudogêmeos ou de xifópagos: a morte individual, e também a vida. A mim não me interessa saber se tenho ou vinte ou cinquenta anos – mesmo que me ponha a vagir aceitarei meu vagido, e darei meu testemunho com ele. Se a mulher pode sentir o feto revolver-se dentro dela, por que não o poderei eu? – e com muito maior júbilo porque fruto da partenogênese, sem outro esforço que não o meu, esse sim filho das minhas entranhas tanto quanto eu mesmo. Não mais consentirei que o neto e o avô se digladiem dentro de mim, tanto tem sua razão um como 24


tem o outro, deixo as contradições para os que não tenham nada mais sério em que pensar, e pensam o seu dia de vinte e quatro horas e a sua hora de sessenta minutos, nem um segundo mais. A lógica dos lógicos não me interessa, o seu ontem e o seu hoje só me causam náuseas, seu relógio de cuco (mesmo de bolso) não me desperta qualquer curiosidade: também tenho o meu cuco entre as pernas e nem por isso ando a consultá-lo como a uma pitonisa. Não sou o que sou neste instante, mas um só desde que nasci: múltiplo, múltiplo, múltiplo. Cada fio do meu cabelo é uma verdade diferente, e todos me pertencem: respiro por todos os poros, cada um por sua vez, e só assim não morro de asfixia. O que pode pensar um lógico através dos seus poros é que eu não sei.

Gostaria de ver entrar pela janela, agora, meu irmão de bicicleta, os pés cheios de lama, as asas abertas – aquele queixo sem malícia, os olhos eternamente azuis. Vamos conversar tudo de novo, a outra vez não valeu. O fato de estar morto só o faz ainda mais vivo, morto estava eu e não sabia, morto e putrefato: todos os da casa. Não é todo dia que se respira assim, na verdade eu respirava pelo nariz e pela boca, nem ao menos pelo ouvido ou pelo ânus: e me julgava um deus, como todos, e era mesmo um pobre deus, nada mais do que isso. Puxe essa cadeira. Mas se nem eu já me sento, que dizer dos mortos? – positivamente que eu deliro, estamos delirando. Esta respiração não pode ser só minha, é a de todos os que fui e sou desde que nasci: mal ouço a chuva que começa a cair lá fora, a desabar sobre minha cabeça como sobre um teto de zinco: sinto-a nos nervos mais do que no ouvido, encharca-me todos os ossos: e continuo a resfolegar 25


como uma locomotiva. Acabarei abrindo o guarda-chuva, o escuro no escuro, até as luzes se apagaram de repente, as minhas luzes: é sempre assim quando há um dilúvio, torno-me como um inseto na sarjeta, de roldão levamme aos trancos e barrancos pela rua, por todas as ruas. Se houvesse a bicicleta do irmão talvez ainda pudesse montar nela, eu não sei bem mas talvez – de qualquer forma o tentaria para não ficar à mercê destas águas, súbito assim desencadeadas. Em vão sopro como o simum, já não sou uma locomotiva mas um navio perdido no mar, todos os faróis apagados. Não precisava chover tanto assim de repente, é uma injúria aos mortos tanto quanto aos vivos, sinto-me como um morto que recebesse seu batismo de tempestade na primeira noite: este caixão de nada me adianta, acabará vogando ao léu por entre os relâmpagos, eu dentro dele ou em cima dele. Então foi por isso que me senti perdido nestas últimas horas, todo o peso da estratosfera sobre os ombros, sem a sombra ao menos para me fazer companhia, o chão junto ao nariz como se eu fora um réptil – e o paredão infinito arrastando-me até aqui, a respiração opressa dos moribundos, dos que temem deixar de respirar para sempre, por esquecimento ou de simples pavor! Ainda me vejo de cabelos compridos, com este mesmo pavor de agora, no colo de minha mãe, era num domingo, os trovões rondando a casa, o quarto até poderia ser este, os trovões e os relâmpagos, havia morrido um menino na véspera, o cheiro do menino de repente no ar, minha mãe em vão tentando dizer as coisas, o cheiro da terra misturado com o do menino, de novo os trovões, eu sozinho no colo quente e quase no útero de minha mãe, o pranto escorrendo-me pelo nariz, 26


o gosto amargo do pranto na boca, e aquela sensação de vazio por dentro, apenas o pânico, exatamente esse pânico despropositado e o mais fundo de todos. Desde então, e por mais que eu me explique com mil razões científicas ou morais, e ria-me na minha cara com a minha própria cara, mais ainda do que os outros – sempre que desabam as nuvens sobre a miséria deste corpo, e antes mesmo que desabem, como ainda agora neste apocalipse, eu me transformo ou me transformam num feixe de nervos que nada tem a ver comigo, ou que então sou eu na minha última quintessência, o sumo do sumo, o âmago do âmago, como fazem com o átomo em seu calmo sono referto de pesadelos. Atoms at work.

Não me lembro de ter estado por detrás das grades: isto me preocupa. Não se é impunemente igual a todos, já basta o nariz, a boca, até os gestos, o dicionário igual, a gravata e os sapatos, as pálpebras subindo descendo, a postura no evacuar – e as fezes, sobretudo as fezes. Se não me enjaularam é porque sou mesmo inofensivo, não há como fugir a isso, senão já me teriam virado de cabeça para baixo, do avesso, as algemas nos pulsos, nunca sem as algemas, a cabeça raspada e a proibição de usar bigodes – nunca pude compreender bem essa proibição, talvez porque se descabelem os infelizes. Nem eu estaria aqui respirando sob esta chuva, ou dentro dela, agora sou um batráquio e sinto-me mais à vontade, os relâmpagos continuam mas já não se ouvem os trovões, também a quase visita do irmão deve ter ajudado um pouco, pela primeira vez o pavor não me deixa tão apavorado – pelo menos ainda respiro com as minhas brânquias: um – dois, um – dois, um... 27


Mas a ausência das grades deixa-me perplexo – agora um trovão! – há qualquer coisa que escapa até mesmo à antilógica, não sou nenhum assassino mas poderia ser a qualquer momento, e sobretudo um assassino de ideias que é o que mais os preocupa e tira-lhes o sono: esta minha liberdade é pior do que a pior das prisões, em momento nenhum lhes causei pânico e eles não têm tentado outra coisa desde que o mundo é mundo. É possível até que me julguem um cidadão respeitável, o que de si já me tiraria todo e qualquer respeito, e me mandem amanhã um meirinho cobrar o imposto disso ou daquilo, se é que já não me mandaram – e me obriguem de novo a tirar as impressões digitais, batráquio ou não, centauro ou simples cavalgadura, como se faz com o último dos canalhas. Tenho que tomar providências para que não pairem dúvidas – não sei para que tanto relâmpago, eu não necessito deles, ninguém necessita, se preciso interpelarei minha mãe, os parentes, para que me expliquem o inexplicável, deve haver um equívoco em tudo isso, é preciso que me encarcerem para que eu possa encontrar minha liberdade. Nem mesmo na família não me lembro de ninguém preso ou sequer detido para averiguações, os retratos do álbum poderiam ter sido posados por uma única e imutável criatura, até o umbigo é o mesmo, como um selo da República. Só não me levanto porque já estou de pé, minha indignação é tanta que até as luzes já se acenderam de novo, de batráquio voltei a navio e logo serei locomotiva outra vez: não me interessa que caiam todos os raios sobre mim, se realmente sou o que eles pensam e não existe um só motivo para que me algemem ou me ponham grilhetas nos pés. Posso ser covarde mas não à maneira deles, meu pânico é realmente 28


pânico e escolho meus inimigos a dedo, tremo como também faço-os tremer no devido tempo, têm que ter no mínimo a força do raio ou a do mistério – senão não valeria a pena ser homem; a todo outro pavor sou refratário como a salamandra ao fogo, e não por bravata mas por imposição da minha natureza, como respiro e destilo meus humores sem que isso me custe o menor esforço. E seria mesmo cômico se me pusesse de cócoras diante do primeiro espantalho que surgisse pela frente, vestido de contra-almirante ou de deus, brandindo a sua espada ou o seu crucifixo como qualquer feiticeiro de subúrbio. Seus canhões até as crianças brincam com eles, e seus tacapes – e, se porventura me matam, não vejo nisso maior façanha do que a que realiza qualquer micróbio, que também mata do mesmo jeito. – A chuva é porque é a chuva, não sou planta nem defunto para ter que suportá-la ano após ano, dia após dia, e a mesma sempre: muito menos um dilúvio destes, sem nenhuma Armênia à vista.

Como roncam os que têm a consciência tranquila! – até parece uma casa de marimbondos. Às vezes desperto com eles e ponho-me a fazer conjecturas: este é o avô, embora já esteja morto e muito bem enterrado, este é Andréa com seu belo par de seios, pena que seja minha irmã; este é o da minha mãe fora de qualquer dúvida, este o da nova empregada embora não durma em casa – este o vento, que também tem direito a roncar como qualquer criatura... As vezes ouço o meu próprio ronco mas é muito raro, geralmente quando chego bêbado e já não penso em nada – ou então é a minha barriga que ronca, ou alguém 29


dentro dela, ou nos meus testículos, meus filhos e meus netos: os degenerados! Dormir a esse ponto, sem ao menos um olho à espreita, como se o teto ou o céu não pudesse desabar a qualquer instante, e não houvesse em toda a extensão da terra uma só vítima do câncer ou da injustiça, um só faminto ou um único suicida, nenhuma fábrica de canhões ou nenhuma cadeira elétrica – convenhamos que é ter mesmo vocação para defunto e nem ter vindo ao mundo para outra coisa, por mais que a Constituição diga o contrário, e o rádio, e a vitrola, e a bula do papa e a dos remédios – e sobretudo cada um a si mesmo diante do espelho, vestido para o domingo. O ronco: só o admito assim acordado, a todo vapor, como a bicicleta do irmão mesmo depois de ele morto, rodando pela casa e pela rua sem sair do lugar: em cada porta e em cada esquina a trombeta de Jericó. Venha assistir comigo, Andréa, ao fracasso das águas após o seu fracasso, as pedras luzindo como se fossem preciosas, as árvores cintilando noturnas muito mais do que ao sol, as casas mal refeitas do susto e ostentando a sua face verdadeira, o chafariz subitamente mágico – os revérberos com seus revérberos: agarre-se ao meu ventre para não cair, tanto sou dono desta bicicleta como desta noite, tanto estou aqui como poderia estar entre as nuvens, estas asas tomei-as de empréstimo ao irmão e ele nem sabe para onde vamos. Aquele espectro é como sempre o filho do coletor, na realidade o filho de ninguém, na sua ronda soturna de norte a sul de leste a oeste, sempre entre os antípodas, ele mesmo um antípoda, tanto lhe faz caminhar sobre as águas como em terra firme – atropelálo seria um sacrilégio, ainda bem que lhe passamos entre as pernas; – este deserto é a verdadeira imagem da 30


cidade, é preciso pedalar assim de noite para conhecê-la melhor, de dia as coisas não são o que são e nem sequer somos o que somos, parece que estamos descendo num planeta desconhecido e no entanto ali mora o bispo com todos os seus intestinos, mais adiante a agência funerária com as luzes bem acesas para o que der e vier; – este o jardim onde brincávamos crianças, ainda são as mesmas árvores, as flores ainda são as mesmas: ali estamos os dois, você com as suas tranças, eu com os meus furúnculos – vulcões era o que eram – e nem sequer suspeitamos do Tempo na torre, bem sobre as nossas cabeças, marcando cada minuto e roubando-nos para sempre; – este o lago onde nos olhávamos gêmeos, o mesmo rosto tão diverso, dia após dia mais distantes, cada um com a sua morte certa e incerta, os outros parando para dizer-nos mimos, André-Andréa como se fosse uma criatura só, e o útero da mãe dizendo sim do banco, nenhum mistério em tanto mistério: gêmeos são gêmeos, nada mais do que isso! – Agora são tetos e ruas, ruas e tetos: aproveitemos para sonhar. ...O dono da bicicleta já a reclama, nem isto são horas para se estar assim assustando os habitantes, é tudo um ronco só subindo de todas essas chaminés: até o filho do coletor há de estar roncando entre um passo e outro, sobretudo agora no meio dessa ladeira, a caminho da lua. Um irmão morto já não é irmão nem de si mesmo, sem a bicicleta as suas asas já nem são asas, e a verdade é que lhe tirei a máquina sem ao menos lhe pedir emprestado: temos que voltar depressa, Andréa, cada um para o seu quarto: você para junto do marido, aquele onagro, eu para dentro da minha carcaça, a esta hora já em vias de putrefação. – Um beijo: um único! 31


Vomitei um pouco de latim e já me sinto melhor. Saiu-me em forma de um grito: Aristeu voltou-se em sobressalto, a cabeça do chefe apontou na porta de vidro – até as paredes se puseram lívidas. Ainda bem que Diomira estava no lavatório. Necessito urgentemente de umas férias, definitivas como as que toma um morto: ou gostaria ao menos que me enterrassem por uns tempos, como aquele faquir que bateu o recorde de jejum dentro de um esquife: apenas um tubo de borracha para, entre um tédio e outro, mandar o mundo à. Também a hibernação artificial, numa câmara frigorífica, me servia – e sobretudo se me esquecessem lá dentro, para só despertar daqui a cem ou duzentos anos, com as novidades todas para contar e não ouvir. Ainda vou escrever a uma sociedade científica oferecendo-me em holocausto, os russos sei que adoram esses tipos de experiência, se necessário me naturalizo russo, aprendo o russo para depois calar-me o tempo todo. Assim como está é que não é possível: hoje foi o latim como poderia ter sido o grego ou o sânscrito, amanhã será a trigonometria ou a Guerra do Peloponeso, o Manual de Civilidade ou a Bíblia: e o pior é que não me levam a sério 32


e ainda me repreendem. Estas folhas de papel em branco, a obrigação de datá-las em cima e à direita, Prezado senhor, e isso e mais aquilo, e as vírgulas todas no lugar, os dedos batendo um allegro de Mozart e as palavras brotando indecorosas do outro lado: não há fígado que resista e muito menos útero – e ainda menos um útero que nem sequer sai nas radiografias, assim delicado e ubíquo, cada dia grávido de uma coisa e de tantos mistérios: a maldição de ter nascido André e Andréa, num tempo só e girando na mesma órbita! Penso que me prepararam para o Paraíso e não para este mundo – e a farsa, pelo visto, continua. Nunca senti necessidade de dizer sine qua non a ninguém, e muito menos sine die: e não faço outra coisa o dia inteiro, os dedos amestrados, Mozart espiando por entre as teclas sem compreender, Prezado senhor, Respeitosas saudações, o relógio rindo-se com todos os dentes, até o Tempo tem aqui sua marca registrada, ambos trabalhando com um nome falso e ainda vigiados pelos outros: se nos puséssemos a soar a hora final, não o meio-dia mas o dia, as molas e as vísceras funcionando como uma bomba-relógio, tique-taque-tique: – vão esperando sentados, aquela porta já não lhes servirá para nada, também ela irá pelos ares à procura de uma porta, Diomira ainda com as vestes arregaçadas, Aristeu fazendo a ponta no lápis, o senhor diretor com o dedo no nariz. E dizer que chamam a isto empregar o tempo, só se for o tempo do relógio, o que vai entre o meio-dia e as seis, e de novo entre o meio-dia e as seis, e de novo entre o meio-dia e as seis – como se não existissem a casa e o quarto, e o que está debaixo do quarto, e o que está sobretudo fora do quarto por mais que esteja dentro dele! Explicar ao chefe que foi o latim seria inútil, não se grita a não ser um grito, com o dedo no nariz ele se poria 33


a pontificar sobre isso e aquilo, ele é mestre em issos e aquilos, nem por outro motivo é o chefe e continuará sendo, até que se resolva definitivamente o assunto. Melhor deixá-lo com o seu medo por detrás da porta, sem explicações que não explicam coisa nenhuma, muito menos num dia claro como este, com o mesmo sol de ontem e possivelmente de amanhã, a folhinha na parede para lhe garantir a eternidade: meu grito há de ter-lhe soado como um tiro de revólver ou de canhão, nem todos os charutos do mundo já lhe darão a segurança necessária, nestas próximas duas horas pelo menos. A verdade é que ele me teme muito mais do que o temo, pode ser dono dos meus dedos mas não do que está aqui dentro: nem se eu tivesse mil gavetas se arriscaria a abrir uma delas para espiar meu mecanismo, como faz com Aristeu a cada momento e com Diomira por debaixo das saias. Levanta a voz de medo como fazem todos os que têm medo, mas a verdade é que nunca me vira as costas, e mantém-me à distância para me poder ver de corpo inteiro, já que não a alma. Não fora eu o cunhado, André-Andréa, até as mesmas feições para lembrá-lo a todo instante, e o mesmo passo felino como se pisasse sobre plumas ou simplesmente não pisasse – e já me teria feito passear há muito tempo, desde o primeiro minuto, quando me recusei a bater o primeiro ipsis-verbis no meio da oração: Mas que palavras são essas que não mudam nunca, de um século para outro, de uma pessoa para outra, e mesmo numa mesma pessoa dez segundos depois? Palavras mais obscenas! E pensar que um estafermo desses copula com a minha irmã ou comigo – é a mesma coisa – e pode até fazer-lhe ou fazer-me um filho num abrir e fechar de olhos: os olhos vidrados ainda mais vidrados, a boca espumando 34


epiléptica, as mãos de gorila percorrendo-nos os seios e as nádegas! Um diretor do Arquivo deveria morar com os ratos do Arquivo e copular com eles, entre alfarrábios e outras centopeias, os mortos espiando de suas órbitas com as suas órbitas, antes do Cristo e depois do Cristo: o emblema do município entre as pernas, ou o do estado, ou o da república.

Quando se apagam as luzes é que eu me vingo espiando as estrelas, às vezes no meio de uma festa, em pleno comício, com a presença do presidente ou de sua fotografia: os tambores de repente surdos, aquele murmúrio de mar noturno, cada um querendo dizer o impossível, os fósforos acesos e as trevas, os fósforos e as trevas – as trevas e as trevas. Como são o que são assim no escuro! – às vezes nem chegam a ser, o prefeito e o poste, o poste e o prefeito, os cachorros latindo à lua, a voz do delegado vinda de além-túmulo, ninguém já se entende e sobretudo não se entende, teme-se pisar num buraco ou no vazio, são tão opacos que nem as estrelas já os alumiam: por um breve instante dão-se conta de que estão perdidos. Só o filho do coletor, em alguma parte, continua impávido e impassível, com a sua luz fosforescente no meio da testa, um passo à frente mesmo que haja esquinas ou oceanos, para isso tem suas asas e sabe que as tem, pouco lhe importa que lhe neguem o alvará da Prefeitura ou o do Universo: – tal como eu que lhe sigo as pegadas de longe, ainda trôpego mas fiel, mesmo parado e sem mover um dedo, ao lado do palanque mas por cima dele, com esta gargalhada que de tão grande só eu a ouço. – Enquanto isso, nenhum deles se lembra 35


de olhar as estrelas para distrair-se ou ver se se reconhece numa delas, afinal tudo é possível ou pode tornar-se possível por um instante, depende da coragem ou da vontade, mas não dessas que trazem no fundo do bolso para as ocasiões mais sem importância, como a guerra por exemplo ou a paz: – preferem, porém, ficar nesta expectativa do que é mais certo e mais seguro, não tão certo nem tão seguro quanto lhes parece, mas isto é um problema deles não é meu, se as luzes foram feitas para ser acesas é bem possível que se acendam novamente, a experiência assim ensina e eles vivem da experiência: o Apocalipse não lhes diz nada, embora esteja na sua própria Bíblia e de modo a não admitir dúvidas, mas isso eles não sabem e deixam que só as crianças o aprendam, para depois esquecerem como eles e tudo começar de novo outra vez. Mugem, mugem, mugem, e enquanto estão mugindo não há perigo nenhum à vista: o pior será quando já não puderem mugir, as trevas por dentro e não apenas por fora. Assim pensam: pois que pensem.

Este ofício eu não bato, quem quiser saber de Cícero que o procure no cemitério, como também Xenofonte, o da Anábase, se isso é coisa que se apresente: como tudo isto veio parar aqui é que eu não sei, até parece que virei arquivista das catacumbas, até já cheiro a ossos da cabeça aos pés, meu esqueleto ainda acaba em cima e eu por baixo, ou isto é um arquivo público ou bem um museu de cera, já estou cansado de fazer falar aos mortos como um ventríloquo, enfiar-lhes o dedo no rabo como se faz às galinhas: ovo por ovo ainda prefiro os meus, que são de antevéspera. 36


Diomira ainda acaba virando fóssil com todos aqueles seios, tirando-se-lhe os óculos até que é bem apetecível, o cafajeste há de fazê-la tirar os óculos no instante mais decisivo, ou então conserva-os diante do nariz para tornar a coisa meio sibilina, e até mesmo o charuto aceso, o crápula: o homem é todo cheio de truques, tem tempo para pensar nessas miudezas que fazem o encanto da vida, ele pensa, e que lhe acendem vez por outra um estranho brilho nos olhos de vidro, o sátiro: nem por outro motivo, talvez, Andréa tenha sucumbido aos seus encantos, e a viuvez de Diomira, e quantas outras lhe cruzem o caminho – que nisso as mulheres são de uma acuidade espantosa. Mas este cheiro de mofo os matará a todos, e até a última geração, se não fugirem a tempo – como já matou Aristeu às voltas com as suas fichas, cada dia cheirando mais forte por mais que se finja de vivo, o espectro de Lopez e os dos heróis da Guerra do Paraguai devorando-lhe as tripas, palmo a palmo, polegada a polegada, como um câncer. Se não me dão férias eu acabo tão morto e arquivado quanto eles todos, ainda mais agora que o tato e o olfato se tornaram uma coisa-só na minha superfície, e a cada instante surge uma antena nova em um de meus poros e nas papilas da minha língua: motivo, de resto, para não mais sorrir ou falar enquanto estiver aqui dentro, com eles e sobretudo com os outros. Seria o mesmo que tentar respirar numa vala comum, só eu o vivo ou o morto-vivo, ombro a ombro com os miasmas de Abraham Lincoln ou de Adolf Hitler, tudo uma coisa só e perfeitamente igual para os abutres que nos rondam e sobrevoam: não me arrisco sequer a experimentá-lo. Quando assino o ponto tenho o cuidado de deixar o nariz no relógio do ponto, como deixo 37


o guarda-chuva nos dias de chuva e a flor da lapela nos dias em que me sinto lírico ou simplesmente idiota: nem o Ciclone B dos nazistas teria este poder deletério que têm estes calhamaços nestes armários, e sobretudo nesses porões habitados de ratos e de manes ilustríssimos, cada um mais fétido do que o outro. Só de pensar já me vem esta vertigem, misturada com este asco de milênios, não meu apenas mas deles próprios, os putrefatos! Lá fora, mais do que aqui, espreitam-nos por detrás das nuvens, eu sei disso, e ninguém mais do que eu o sabe: mas o ar ainda é azul apesar de empestado, e há sempre um sol para fazer de conta, e há sobretudo um vento que nos sussurra coisas ao ouvido, e até a voz de outros planetas se a sabemos ouvir, ou de outros mundos. Fechando os olhos podemos até sentir-nos felizes ou menos infelizes, nem que seja por um instante apenas, como nos faziam fazer em criança no quarto escuro e sem janelas ou portas – e como fazem ao próprio morto para que não se espante com a sua solidão, e só se espante aos poucos quando as pálpebras se forem abrindo lenta e lentamente. Por hoje basta, e para sempre! Só de decidir já me nasce esta flor na lapela, do tamanho de um jardim, e os meus pés já nem pisam mais o chão, nesta espécie de levitação que absolutamente não me assusta. Assusta-me é essa máquina com os dentes todos à mostra, negra e álgida como se nunca me houvesse pertencido, embora os meus dedos ainda ali estejam, longe de mim, sobre o til e o ponto de interrogação – parágrafo, ponto e vírgula, espaço, o Dia do Fico e o do Não Fico, não fico porque não fico, tudo em maiúsculo, Senhor Diretor, Respeitosas Saudações, valho-me deste ou desta, e etcétera, e etcétera, e etcétera. Os meus respeitos, ex-Aristeu! 38


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