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Por que calar nosso amores?

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organização: Raimundo Carvalho | Guilherme Gontijo Flores Márcio Meirelles Gouvêa Júnior | João Angelo Oliva Neto

POR QUE POESIA

CALAR

HOMOERÓTICA

NOSSOS LATINA

AMORES? EDIÇÃO BILÍNGUE

C L Á S S I C A


organização: Raimundo Carvalho | Guilherme Gontijo Flores Márcio Meirelles Gouvêa Júnior | João Angelo Oliva Neto

POR QUE CALAR NOSSOS AMORES? POESIA

HOMOERÓTICA

LATINA

EDIÇ ÃO BILÍNGUE

C L Á S S I C A


Copyright © 2017 Autêntica Editora

Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora. COORDENAÇÃO DA COLEÇÃO CLÁSSICA, EDIÇÃO E PREPARAÇÃO

Oséias Silas Ferraz REVISÃO

Guilherme Gontijo Flores Lúcia Assumpção Márcio Meireles Gouvêa Júnior Oséias Silas Ferraz CAPA

Diogo Droschi (Sobre imagem © Ciolca | Dreamstime.com) DIAGRAMAÇÃO

Larissa Carvalho Mazzoni

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Por que calar nossos amores? : Poesia homoerótica latina / organização Raimundo Carvalho...[et al.]. -- 1. ed. -- Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2017. -- (Coleção Clássica) Outros organizadores: Guilherme Gontijo Flores, Márcio Meirelles Gouvêa Júnior, João Angelo Oliva Neto Edição bilíngue: latim/português Bibliografia ISBN 978-85-8217-602-3 1. Poesia latina I. Carvalho, Raimundo. II. Flores, Guilherme Gontijo. III. Júnior Gouvêa, Márcio Meirelles. IV. Oliva Neto, João Angelo. 16-09252

CDD-871

Índices para catálogo sistemático: 1. Poesia : Literatura latina 871

Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465 4500

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7 Prefácio: O amor dos homens Márcio Meirelles Gouvêa Júnior 13 Apresentação: Que cada um cante seu amor Guilherme Gontijo Flores 27 Valério Edítuo: hétero e homo Guilherme Gontijo Flores 31 Pórcio Licino: a parte do fogo Guilherme Gontijo Flores 35 Quinto Lutácio Cátulo: a fuga do alento Guilherme Gontijo Flores 39

Tito Lucrécio Caro: as causas do desejo Guilherme Gontijo Flores

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Catulo: o ciclo de poemas a Juvêncio e mais dois poemas João Angelo Oliva Neto

55

Caio Mecenas: amar o seu amigo Guilherme Gontijo Flores

59

Virgílio: Córidon e Aléxis Raimundo Carvalho

65

Virgílio: Niso e Euríalo Guilherme Gontijo Flores

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Horácio: o amor dos homens em Odes e Epodos Guilherme Gontijo Flores

105 Tibulo: o ciclo de Márato João Paulo Matedi Alves


121 Sexto Propércio: poucos rapazes Guilherme Gontijo Flores 131 Ovídio: episódio de Baco e Âmpelo nos Fastos Márcio Meirelles Gouvêa Júnior 135 Ovídio: flores das Metamorfoses Raimundo Carvalho 171 Fedro: Prometeu, tríbades e homens adamados Márcio Meirelles Gouvêa Júnior 175 Petrônio: uma voz dos cinedos Guilherme Gontijo Flores 179 Marcial: a musa pederástica João Angelo Oliva Neto 219 Estácio: chorando o moço Leandro Cardoso 237 Plínio, o Jovem: episódio de Cícero e Tirão João Angelo Oliva Neto 243 Valério Flaco: episódio de Hércules e Hilas Márcio Meirelles Gouvêa Júnior 263 Um tradutor de Platão Guilherme Gontijo Flores 267 Apuleio: ludicra entre Crítias e Carino Guilherme Gontijo Flores 271 Nemesiano: hétero é homo Guilherme Gontijo Flores 277 Apêndice 1: uma inscrição para mulheres Guilherme Gontijo Flores 281 Apêndice 2: uma inscrição para homens Márcio Meirelles Gouvêa Júnior 284 Sobre os tradutores


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Prefácio

O amor dos homens

Márcio Meirelles Gouvêa Júnior

O imaginário acerca da Roma antiga foi moldado quase que inteiramente pelas narrativas deixadas pelos próprios romanos. Fizeram parte desse imaginário os excessos de seus imperadores, a crueldade impiedosa das relações de poder e, sobretudo, a imensa luxúria da corte e dos cidadãos. A fabulosa riqueza obtida nas conquistas do Mediterrâneo, o acesso à opulência dos requintados e decadentes reinos helenísticos, o contato com os exóticos costumes do milenar Egito e as amplas permissividades sexuais de um mundo ainda não constrangido pela moral judaico-cristã compuseram, pelos séculos de construção narrativa, um amplo cenário de licenciosidade e devassidão, que nunca mais foi alcançado nas descrições históricas ocidentais, como se a Roma descrita por si própria fosse um interminável banquete do liberto Trimalquião, da obra de Petrônio. Amplificando de modo quase absurdo a realidade, os exemplos desse imaginário orgiástico construídos pelos romanos foram muitos e bastante elaborados, tendo, em regra, servido aos mais diversos interesses políticos, seja para detratar os poderosos governantes caídos em desgraça, como no caso da maioria das narrativas sobre Calígula, Nero, Cômodo, Caracala ou Heliogábalo; seja para fortalecer, por evidente contraste, os cidadãos e governantes considerados virtuosos segundo a moralidade romana do período, como Tito, Antonino Pio ou Marco Aurélio; seja, enfim, como uma sátira de costumes, como nos romances latinos – Satyricon e Asno de Ouro. O anedotário da licenciosidade e das práticas sexuais dos dignatários romanos é, desse modo, extenso e rico. Bons exemplos são encontrados nas narrativas das vidas dos imperadores. De Tibério, o príncipe que governou Roma de 14 a 37 d.C., foram célebres as diversões eróticas na Vila de Júpiter, localizada na ilha de Capri. Caracterizaram-no uma crueldade desmedida e uma sexualidade inteiramente perversa e ilimitada, cujos requintes aliavam uma violência desmesurada aos prazeres do imperador. Reportou-as Suetônio, o biógrafo dos doze primeiros Césares: No seu retiro na ilha de Capri, [Tibério] até ordenou a construção de um gabinete, que se tornou a sede de sua secreta libertinagem e para onde ele


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levou, buscados em todas as partes, grupos de moças e rapazes praticantes de cópulas monstruosas, aos quais chamava spinthrias, para que, conectados em grupos de três, mutuamente se conspurcassem na sua frente, de modo que diante dessa visão se excitassem seus esgotados desejos. Ele adornou os quartos, espalhados por diversos locais, com quadros e estátuas que continham cenas e figuras muito lascivas, e ali dispôs livros [vindos] de Elefantina, a fim de que, pelas posições neles ensinadas, não faltasse nenhum modelo do esquema proposto. Nas florestas e também nos bosques, por toda parte, ele idealizou lugares consagrados a Vênus, e distribuiu, pelas grutas e cavernas das rochas, grupos de jovens de ambos os sexos, vestidos com roupas de faunos de ninfas. Por essa razão, os habitantes da ilha chamavam-no publicamente de Caprino. [Tibério] agitava-se por uma infâmia ainda maior e mais torpe, que dificilmente se pode ouvir ou contar, e que muito menos se pode crer. Parece [ele] que ensinava as crianças de tenra idade, as quais ele chamava de peixinhos, a nadar e brincar entre suas coxas e a pegar seu membro com a língua e os dentes. Também [ensinava] as crianças um pouco mais firmes, mas ainda não desmamadas, a sugar seu membro como se fossem seios, muito mais inclinado a esse tipo de prazer em função de sua natureza e idade. Uma vez que ganhou um quadro de Parrásio, em que Atalanta com a boca servia obedientemente a Meleagro, sob a condição de que se a tela lhe desagradasse ele receberia um milhão de sestércios, [Tibério] não somente a quis, mas ainda lhe dedicou um lugar no seu quarto. Da mesma forma, diz-se que, certa vez, ao realizar um sacrifício, foi seduzido pela face daquele que lhe entregava o incenso e não pôde se conter; logo que a cerimônia divina foi concluída, ordenou que fosse conduzido imediatamente e o estuprou, ao mesmo tempo que [estuprou] o irmão flautista. A seguir, uma vez que os dois haviam reclamado da afronta que receberam, mandou que lhes quebrassem as pernas.

Nessas narrativas sobre a vida dos imperadores, ainda mais famosos e espetaculares talvez tenham sido os comportamentos insanos e depravados de Calígula, que governou de 37 a 41 d.C. Mais uma vez, os registros de Suetônio os narram. A prática do incesto talvez tenha sido a transgressão mais citada pelo biógrafo: Com todas as suas irmãs [Calígula] manteve o costume do incesto. Em pleno banquete, colocava alternadamente cada uma delas debaixo de si, enquanto sua esposa ficava por cima. Acredita-se que tenha maculado a virgindade de Drusila ainda quando trajava a toga pretexta, uma vez que fora surpreendido em coabitação com ela pela avó Antônia, junto à qual eram educados.

Nesse sentido, além do incesto, para incrementar o seu constante ultraje à moralidade romana, Calígula ainda buscou atingir a própria sociedade, por meio das mulheres casadas e dos cidadãos livres. Submetendo-os à prostituição, Calígula compartilhava com aqueles que não compunham a corte imperial a sua própria devassidão:


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E para que não faltasse nenhum gênero de extorsão, estabeleceu em seu palácio um prostíbulo, com quartos separados e decorados de acordo com a dignidade do lugar, nos quais ficavam matronas e homens livres. Mandou nomencladores às praças e basílicas das cercanias para convidarem jovens e velhos à luxúria.

Nesse imaginário de luxos e extravagâncias atribuído pelos historiadores romanos à sociedade de Roma, é provável que tenha sido Nero, governante de 54 a 68 d.C., o imperador cujas perversões foram as mais relatadas e elaboradas. Último herdeiro da dinastia augustana, sua devassidão foi ressaltada por todos os imperadores seguintes que buscaram afirmar sua própria estirpe. Assim, Nero se transformou em uma espécie de monstro absoluto, contra quem todos os descalabros foram imputados. Desrespeito aos deuses e aos costumes, incesto e obscenidades caracterizaram-no: Sem falar de sua prática sexual com jovens livres e com as mulheres casadas, ele violentou Rúbia, uma virgem vestal. Pouco faltou para que se unisse em justo matrimônio à liberta Ateia, obrigando os cônsules a perjurarem ao dizer que ela provinha de estirpe régia. Esforçou-se por transformar em mulher o jovem Esporo, arrancando-lhe os testículos, e o conduziu, em celebérrima pompa e com os ritos esponsais, à solenidade das núpcias, e o tratou como sua esposa. Não sem humor alguém disse que as coisas iriam bem para o gênero humano se Domício, pai de Nero, houvesse tido uma tal esposa. Esse Esporo foi enfeitado com os ornatos das imperatrizes e foi levado em liteira, acompanhado [por Nero] ao mercado da Grécia, e logo, ao de Roma, perto dos arredores de Sigilária, beijando-o a todo instante. De fato, teria apreciado ter praticado sexo com sua mãe, mas teria sido impedido pelos inimigos dela, para que a feroz e imoderada mulher não prevalecesse com aquele gênero de prestígio – o que ninguém duvidava, além do mais depois que aceitou entre suas concubinas uma meretriz, que tinha a fama de ser parecidíssima com Agripina. Dizem, também, que todas as vezes em que era transportado na liteira com sua mãe ficava evidente seu libidinoso incesto, pelas manchas espalhadas em suas vestes.

Além disso, aliava-se uma profunda crueldade a seus fetiches e fantasias: Manchou sua pudicícia de tal modo que, maculando quase todos seus membros, imaginou um novíssimo tipo de divertimento. Coberto por uma pele de fera, saía de uma jaula e atacava as virilhas de homens e mulheres amarrados em postes. Depois de fartamente haver saciado seu furor, entregava-se a seu liberto Doríforo, que, como Esporo, fora sua esposa. Com gritos e gemidos imitava as virgens ao serem violentadas.

Talvez, no entanto, o imperador que melhor correspondeu ao licencioso imaginário acerca de Roma tenha sido Heliogábalo, o jovem sírio que governou Roma de 218 a 222 d.C. As narrativas a seu respeito reportadas


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na História Augusta alcançam o inimaginável. Heliogábalo apresentava-se diante da corte com o corpo depilado e vestido de Vênus, e deixava cair seu manto, pondo-se desnudo, com as mãos a cobrir o sexo. Ele construiu banhos públicos em seu palácio, para poder avaliar o tamanho dos membros viris; mandou procurar pelo império e entre os marinheiros os ὀνόβελοι (aqueles com pênis de asno), e: Nomeou para a prefeitura do Pretório um dançarino, que atuara em Roma como histrião; nomeou para prefeito da guarda o auriga Córdio, e, para prefeito dos víveres, o barbeiro Cláudio. Promoveu a outros cargos os indivíduos recomendados a ele pela enormidade dos membros viris.

Porém, julgar a realidade romana apenas a partir desses registros sobre os luxuriosos costumes imperiais, eivados de matiz político e ideológico, conduz o leitor desavisado a uma profunda distorção de perspectiva. Apesar desse rico imaginário acerca da licenciosidade romana criado pelas narrativas de poder a serviço das políticas e interesses pessoais dos governantes, há de se ter em mente que, a despeito da imensa diferença entre os valores e comportamentos sexuais do mundo antigo e aqueles da época atual, os sentimentos de afeição e de desejo humanos transcendem os preconceitos de cada tempo, e mesmo em uma era de tantos excessos e de exageros no uso dos prazeres, como foi o período histórico romano, os sentimentos amorosos foram capazes de encontrar expressão. Como as proibições antigas se faziam antes sobre a condição social dos parceiros do que sobre o seu gênero, o sentimento de afeição era inteiramente possível e comum. Um breve registro de Plutarco sobre os costumes republicanos romanos mostra-o bem: Não era incomum ou vergonhoso para os homens mais velhos o amor dos escravos que estavam em sua fase de maior beleza, como ainda hoje as comédias testemunham.

Nesse sentido, a descrição feita por Dion Cássio do luto amoroso do imperador Adriano, que governou Roma de 117 a 138 d.C., pela morte de Antínoo1 não destoa das inscrições pompeianas preservadas pela erupção do Vesúvio como registro desse amor inter pares: Ó belo Sabino, Hérmero te ama.

ou: Césio Fidelis ama Mécon de Nucéria.

Finalmente, há ainda que se ter em mente que a literatura latina foi tributária e emulatória da literatura grega, na qual o homoerotismo, de feição Dio Cassius, 59, 11.

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social inteiramente diversa da realidade romana, era um tópos literário, ou seja, um modelo poético repetido pelos escritores, sob o exemplo de Safo, Íbico, Teógnis, Teócrito ou Anacreonte. Desse modo, em que pese o aspecto eminentemente literário que revestiu o conteúdo homoerótico presente nas obras dos poetas que pontilharam a literatura latina, será por meio de seus versos que se poderá ultrapassar o imaginário luxurioso com que as narrativas antigas caracterizaram a sociedade romana para assim, e só assim, se conseguir ter acesso a esse aspecto inerente à sexualidade humana. Não vamos negar tudo o que ficou registrado dos excessos luxuriosos dos imperadores e de outras altas figuras do Império Romano. Mas, a partir dos estudos de história da vida privada – e da literatura – podemos pensar que havia relações privadas em que a sexualidade tinha outro registro, o do afeto, do humano desejo de uma pessoa por outra. Um pouco disso é o que essa antologia poética nos mostra, a par com a beleza da poesia. Por que calar nossos amores? Que cada um cante seu amor – o canto acalma.


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