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1968: Quando a Terra tremeu

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R O B E R T O

S A N D E R

Quando a Terra tremeu

LHAR, O O V O UM N IS NOS DEPO

50 A


R O B E R T O

S A N D E R

Quando a Terra tremeu


Apresentação

Já se foram cinquenta anos. Foi quando 1968 sacudiu o planeta com acontecimentos que mudaram a história do século XX e, por tabela, também da própria humanidade. Pelo mundo, a Guerra do Vietnã, os movimentos dos direitos civis, a Primavera de Praga e a explosiva insurreição estudantil na França. No Brasil, o assassinato do estudante Edson Luís, a luta por ensino público gratuito, a Passeata dos Cem Mil, as greves operárias, o endurecimento do regime militar e o AI-5, que anunciou os anos de chumbo e as feridas até hoje mal cicatrizadas. Mas entre tantos episódios inesquecíveis, muitos outros marcaram o ano que o jornalista Zuenir Ventura imortalizou como aquele que “não terminou” e que fez o filósofo francês Jean-Paul Sartre confessar, tempos depois, que ainda pensava, com perplexidade, no que havia acontecido: “Nunca pude entender o que exatamente aqueles jovens queriam”. A partir desse espanto que 1968 ainda é capaz de provocar, procurei construir um novo painel daquele ano tão emblemático, não só refletindo sobre os episódios mais conhecidos, mas também garimpando histórias esquecidas pelo tempo que contribuíram para que 1968 fizesse a Terra tremer e selasse, de vez, o fim dos chamados anos dourados. Neste livro, o desenrolar dos fatos acontece ao longo de doze capítulos divididos por todos os meses do ano. Dessa forma, de janeiro a dezembro, fui me deparando com um ano muito mais pujante e original do que podia imaginar. APRESENTAÇÃO | 11


É uma viagem no tempo que nos leva, de uma hora para outra, da Ofensiva do Tet, na Guerra do Vietnã, à tentativa de unir Leonel Brizola a Juscelino Kubitschek, João Goulart e Carlos Lacerda na Frente Ampla, um movimento de oposição ao governo do marechal Costa e Silva. Da África do Sul, sob o regime do Apartheid, onde o cirurgião Christiaan Barnard fazia o transplante do coração de um homem negro para um homem branco, aos Estados Unidos, que elegiam o republicano Richard Nixon à presidência e preparavam a primeira viagem do homem à Lua. De volta ao Brasil, onde Mick Jagger, o líder dos Rolling Stones, chegava pela primeira vez ao Rio de Janeiro quase anônimo, arredio e cheio de idiossincrasias, sendo chamado pela imprensa de astro do “iê-iê-iê”; daqui direto para Cuba, que, em plena Guerra Fria, fazia, a mando de Fidel Castro, um expurgo no Partido Comunista ao expulsar diversos dirigentes que se identificavam com a linha mais moderada e menos revolucionária de Moscou. De Cuba, a viagem segue direto para o Oriente Médio, quando as hostilidades entre Israel e Egito, na recém-terminada Guerra dos Seis Dias, faziam surgir os primeiros grupos terroristas, como o El Fatah, fundado por Yasser Arafat, futuro líder da Organização para a Libertação da Palestina (OLP). O giro pelo mundo chega ao Japão, onde estudantes da Zengakuren, a mítica organização de esquerda, enfrentavam audaciosamente a polícia de Tóquio, com seus tradicionais capacetes brancos e porretes de madeira, em violentos protestos contra a construção de um hospital para receber soldados norte-americanos feridos no Vietnã. Os ânimos estudantis andavam mesmo acirrados. Em São Paulo, o clima não era diferente da capital japonesa, e os estudantes se digladiavam na famosa Batalha da Rua Maria Antônia, na qual alunos da Faculdade de Filosofia da USP e da Universidade Mackenzie entraram em violento choque, com o saldo de vários feridos e um morto. Por tudo isso e muito mais, 1968 acabou dando início a transformações profundas que influenciariam toda a sociedade em um brevíssimo espaço de tempo. Foi o ponto de partida para os movimentos 12 | 1968: QUANDO A TERRA TREMEU


ecológicos, feministas, das organizações não governamentais (ONGs), dos defensores dos direitos humanos, dos animais e das minorias. Mas foi também um ano que trouxe grandes decepções. Ao ver frustrados seus sonhos de “a utopia alcançar o poder”, parte significativa dos jovens militantes do período se entregou ao consumo das drogas ou optou pelo caminho da violência através da luta armada. Foi, na realidade, uma reação radical da juventude, que se sentia encurralada pelas pressões de mais de duas décadas de Guerra Fria. Uma resistência aos processos de manipulação da opinião pública por meio das grandes mídias, que funcionavam como difusores da contestada ideologia capitalista. Paralelamente, havia também rejeição ao socialismo opressivo imposto pela União Soviética aos países do Leste Europeu: “A humanidade só será feliz quando o último capitalista for enforcado nas tripas do último burocrata stalinista”, garantiam os rebeldes parisienses. As circunstâncias eram diferentes, porém a crítica continuava no mesmo tom em São Francisco: “Make love, not war”. Em Amsterdã: “Toda autoridade é cômica”. E no Rio de Janeiro, São Paulo ou Brasília, onde “Abaixo a ditadura” era o grito de revolta. As causas do descontentamento estudantil variavam de país para país, mas em todas as esferas existiam jovens que rechaçavam a sociedade caduca que lhes era oferecida. Eles simplesmente descobriram que tinham poder e passaram a sonhar com novos valores e com uma nova ética. Não se tratava apenas de uma agitação esporádica, e sim de uma força emergente na história contemporânea. Era como se a mocidade, de acordo com o crítico literário e pensador católico Alceu Amoroso Lima, “tivesse alcançado a sua maioridade política e pedagógica”. Por outro lado, o que se via no poder constituído era a mais absoluta incapacidade de absorver as grandes novidades que se apresentavam. A “palavra” surgia como a maior arma daqueles jovens estudantes, e nela o espírito revolucionário se amparava para quebrar regras e difundir um modelo de comportamento inteiramente original. A luta política APRESENTAÇÃO | 13


estava deflagrada. Uma guerra travada no front de praças e avenidas das grandes metrópoles. O mundo parecia querer virar do avesso. Neste livro, procurei abordar, portanto, os mais diversos aspectos de 1968.Temas como política, guerra, ciência, cultura e comportamento acabam se misturando como se fizessem parte de um mesmo corpo, num tempo de mudanças avassaladoras. Os episódios vão se sobrepondo uns aos outros num ritmo alucinante, dia a dia, semana a semana, mês a mês, na sequência em que vão acontecendo. E a tentativa não foi outra senão a de buscar um entendimento ainda maior de 1968 e do seu significado como um dos períodos mais turbulentos e criativos já postos à luz da história. Não por acaso, meio século depois, ele ainda fascina, assombra, surpreende e seduz. Roberto Sander Primavera de 2017

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1968

JANEIRO


Apesar de nĂŁo ser ainda tĂŁo conhecido no Brasil em 1968, Mick Jagger, ao lado de Marianne Faithfull, se viu cercado por admiradoras no Copacabana Palace, onde ficou hospedado na sua primeira viagem ao Rio.

PĂĄgina anterior: Em muitas solenidades, o presidente Costa e Silva passou a usar trajes civis para tentar desvincular de seu governo a imagem do militarismo.


1º

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Bonachão, mas nem tanto

O homem que comandava o Brasil naquele início de 1968 era Arthur da Costa e Silva, um marechal gaúcho, de 66 anos, ar sisudo, feições rudes e um tanto controverso. Sempre de óculos escuros, se orgulhava do uniforme militar impecável, enfeitado por fiadas de medalhas no peito, bem ao estilo de um caricatural ditador latinoamericano. No golpe de 1964, se tornou ministro da Guerra quase na marra e logo se alinhou à chamada linha dura do regime, da qual se transformaria na própria personificação. Desde então, passou a sonhar com a presidência. E se preparou para quando chegasse o momento. Durante meses, enquanto tramava nas casernas para substituir Castelo Branco, chegou a ter aulas particulares de economia, ciência política, direito constitucional e relações internacionais. Na casa de um amigo médico, em Copacabana, sentado numa carteira estilo escolar, humildemente, como bom aluno, ouvia dos professores lições importantes que o cargo exigiria. Quando tinha dúvida, não hesitava em levantar a mão para fazer perguntas. Seu jeito simples, direto, sem rodeios, em alguns momentos intransigente, lhe trazia desafetos, mas também o fazia colher simpatias. Algumas de peso. Certa vez, assessores da Casa Branca questionaram Lyndon Johnson sobre qual presidente latino-americano gostaria de ter como aliado num momento de crise. Johnson de pronto respondeu: 17


“Costa e Silva, aquele cara do Brasil. Quando ele te olha no olho e diz que está contigo, você sente que ele está falando sério. Seria uma companhia segura numa noite tempestuosa na escuridão.” O marechal tinha facetas marcantes. Na intimidade dos amigos, era afetuoso, considerado um bonachão. Já no trato político mostrava um lado bastante supersticioso, o que ficou demonstrado quando, numa conversa, foi alertado sobre a conveniência de, em tempos difíceis, fazer alterações no ministério. O experiente interlocutor lembrou a Costa e Silva que certa ocasião Getúlio Vargas lhe confidenciou o aspecto positivo de, eventualmente, trocar ministros. “O povo gosta e as esperanças como que se renovam”, teria dito Vargas. O presidente ficou pensativo por uns instantes e logo retrucou:“O Getúlio mudou seu ministério, mas logo depois caiu. Melhor deixar como está”. Prudente na política, mas impulsivo na vida pessoal, seus passatempos prediletos não eram nada convencionais para um militar do seu prestígio: não resistia às pules de corridas de cavalos e às fichas de rodadas de pôquer. Falava-se até, à boca pequena, que já tivera surtos de depressão causados pelos prejuízos financeiros que os jogos de azar lhe haviam trazido. Na época em que era general, ainda em Porto Alegre, chegou a pensar em largar a farda, tal seu desencanto pela falta de sorte nas cartas e no jóquei que tanto gostava de frequentar. Foi dissuadido dessa ideia pelo amigo e então coronel Emílio Garrastazú Médici, que acabaria por sucedê-lo na presidência. No Exército, Costa e Silva estava longe de ser unanimidade. Se dependesse de Castelo Branco, jamais seria seu sucessor; de Ernesto Geisel, muito menos. Este queria distância dele, assim como o irmão, o também general Orlando Geisel. A rixa começara nos primeiros dias do golpe, quando Costa e Silva demitiu Orlando Geisel da 1ª Divisão de Infantaria (Vila Militar) por ter negado um cargo a um coronel indicado por ele. Já as organizações de esquerda, por motivos óbvios, queriam, literalmente, sua caveira, tanto que, em 1966, num atentado a bomba no Aeroporto de Guararapes, no Recife, tinham tentado assassiná-lo. 18 | 1968: QUANDO A TERRA TREMEU


O saldo da ousadia, promovida pela Ação Popular, uma das organizações de resistência à ditadura, fora desastroso: morreram o vice-almirante reformado Nelson Gomes Fernandes e o secretário do governo de Pernambuco, Edson Régis de Carvalho. Além disso, quatorze pessoas ficaram feridas, duas delas com gravidade: o guardacivil Sebastião Thomaz de Aquino precisou amputar a perna direita, e o general Sylvio Ferreira da Silva perdeu quatro dedos da mão direita, estourou os tímpanos e teve fratura exposta; Costa e Silva, no entanto, saiu ileso. Naquela passagem de ano, o presidente causava ainda mais ira nas organizações esquerdistas, pois tratava de aprofundar, mesmo que ainda de modo discreto, métodos repressivos que estabeleciam, paulatinamente, a institucionalização da ditadura. No plano econômico, desde que assumira o poder, tentava em vão domar os problemas de um Brasil afundado em um quadro social gravíssimo, o que fazia com que o governo, cada vez mais, perdesse o apoio das classes médias urbanas que tanto haviam contribuído para o golpe. Culpava o que chamava de herança maldita do período pré-64 e minimizava o que de fato criava aquele ambiente sufocante de caos econômico e social: “Antes de tudo, cuidei para assegurar aos brasileiros a tranquilidade que reinou este ano em nosso país e permitiu que todos nós pudéssemos trabalhar com eficiência para recuperar o atraso que nos impuseram as convulsões comandadas até 1964”, afirmou, em rede nacional de rádio e TV, na sua mensagem de despedida de 1967 e boas-vindas a 1968. Mas o que impunha as agruras daquele momento eram as políticas econômicas de Castelo Branco, e não exatamente a herança deixada por João Goulart, que fora deposto havia quase quatro anos. O receituário anti-inflacionário levado a cabo pelo ministro do Planejamento, Roberto Campos, só causara recessão, desemprego e arrocho salarial, aumentando a impopularidade dos militares. Centenas de pequenas empresas foram à bancarrota, e os únicos beneficiados haviam sido grupos restritos que apoiaram o golpe: burguesia industrial e elites rurais. O incentivo aos investimentos estrangeiros JANEIRO | 19


no país e o incremento à produção de bens duráveis (automóveis, imóveis e eletrodomésticos) trouxeram vantagens somente às classes abastadas. Eram sonhos distantes do trabalhador comum, que só recebia migalhas e repressão. No entanto, Costa e Silva garantia que cumprira sua missão em 1967. Assim, entrava num novo período de governo sem levar em conta as insatisfações crescentes pela presença militar no poder por tanto tempo. E não havia indício de qualquer mudança nesse quadro. Sob o pretexto da política de segurança nacional, os quartéis limitavam a ação do governo e estabeleciam sua própria agenda de prioridades, ignorando a atmosfera sufocante de crise. A expectativa era a de como seriam as reações do marechal quando surgissem protestos mais veementes, o que, àquela altura, parecia ser uma questão de tempo. Seus auxiliares mais próximos confidenciavam que, se confrontado, não se deveria esperar reações de um bonachão ignorante e folclórico, como muitos o consideravam, e sim do capitão valente que na juventude participara da sublevação de 1922, ficando preso por seis meses num navio-presídio, e que, oito anos depois, na Revolução de 1930, marchara à frente da tropa que cercou o Palácio Guanabara para depor o presidente Washington Luís e acabar com a decadente República Velha: “O marechal é alguém que, de repente, pode dar um murro na mesa”, dizia-se nos corredores do Palácio Guanabara, onde ele ainda costumava despachar com seus ministros e assessores. Com a recente alta do dólar, a desvalorização do cruzeiro e a subida dos preços dos combustíveis, a previsão era de que o custo de vida subiria nos meses seguintes, trazendo a reboque crises e sobressaltos à nação. As medidas anti-inflacionárias consideradas bem-sucedidas do ano que findara estavam ameaçadas, e o orçamento para 1968 previa um déficit de milhões de cruzeiros antigos. Nesse novo cenário, quantos murros na mesa daria o marechal Costa e Silva? Era a pergunta a que ainda ninguém poderia responder. O ano 1968 apenas despontava no horizonte. 20 | 1968: QUANDO A TERRA TREMEU


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Ofensiva do Tet no vietnã

Embora se arrastasse desde 1955, o conflito que sangrava o pequeno país asiático passou a ter a participação efetiva dos Estados Unidos, com o envio de tropas, apenas dez anos depois, em 1965. Até o início de 1968, apesar de alguns protestos, ainda predominava na opinião pública americana o sentimento de que esse grau de envolvimento era necessário em nome de um esforço global para barrar o avanço comunista – até ao Brasil os Estados Unidos solicitaram o envio de soldados, o que foi negado pelo governo. Uma trégua momentânea não iludiu ninguém. Ocorria apenas por causa de um apelo do papa Paulo VI, que pedira que o primeiro dia do ano fosse inteiramente dedicado à paz mundial. Fontes oficiosas de Saigon davam conta de que o cessar-fogo, acrescido de mais 12 horas, havia sido obtido após reunião de emergência entre o embaixador norte-americano no Vietnã do Sul, Ellsworth Bunker, e o presidente sul-vietnamita, general Nguyen Van Thieu. Os vietcongues se aproveitavam dessas interrupções no conflito para se reabastecer e traçar novas estratégias. Era um momento extremamente delicado do confronto, pois, diante das grandes perdas em emboscadas, os Estados Unidos passaram a utilizar produtos químicos que devastavam terras de cultivo e florestas, onde se entocavam soldados do exército regular norte-vietnamita e também os vietcongues, guerrilheiros da Frente Nacional para a Libertação do Vietnã (FNL), que tão bem faziam uso de táticas de guerrilha em selva. Esse tipo de intervenção, segundo reconheciam os próprios especialistas norte-americanos, traria danos que se estenderiam após o fim do conflito, com prejuízos tanto ecológicos como também para a saúde da população. A arma química mais conhecida foi o Napalm, uma mistura de gasolina com uma resina espessa da palmeira que lhe deu o nome. Em combustão, o Napalm produz temperaturas que ultrapassam mil graus e, em contato com a pele humana, queima JANEIRO | 21


músculos e funde os ossos, além de liberar monóxido de carbono, matando as vítimas por asfixia. Bombardeios aéreos através de aviões de caça também eram largamente utilizados e traziam destruição à infraestrutura, flagelo e morte em massa. No entanto, nenhuma adversidade arrefecia a resistência vietcongue. A recusa em capitular era algo que impressionava e fazia parte do espírito da revolução comunista que lá se instaurara: “Se os norte-americanos querem fazer a guerra por vinte anos, então nós a faremos por vinte anos; se eles querem fazer a paz, nós faremos a paz e os convidaremos para um chá à tarde”, dizia Ho Chi Minh, o presidente do Vietnã do Norte. Assim, numa ousada ofensiva, no momento em que a trégua chegou ao fim, foi colocado em prática um plano que seria um divisor de águas na Guerra do Vietnã. Concebido pelo general Giap, visava atrair as divisões do seu oponente, o general William Westmoreland, para o interior do país. Desavisadas, as linhas de Westmoreland se viram então cercadas por um ataque surpresa. Não obstante o número pesado de perdas, os guerrilheiros ocuparam dezenas de cidades do Vietnã do Sul, inclusive Saigon, o quartel-general de Westmoreland e, embora por pouco tempo, a embaixada dos Estados Unidos, cujos funcionários tiveram que deixar o local às pressas. Esse desfecho do plano, arquitetado por várias semanas, ocorreu no dia 30 de janeiro, feriado do ano novo lunar chinês (Tet). Daí a chamada Ofensiva do Tet possuir um forte simbolismo. Representou para os vietnamitas uma propaganda positiva sem precedentes na guerra, aumentou a confiança e autoestima dos seus combatentes e mostrou, tanto aos militares quanto à população dos Estados Unidos, que a guerra estava longe de ser vencida, ao contrário do que alardeava o governo do presidente Lyndon Johnson. O desgaste provocado pela ofensiva foi inevitável. Na imprensa ocidental, eram veiculadas imagens chocantes de soldados norteamericanos em desespero, morrendo em grande quantidade, como também matando guerrilheiros vietcongues capturados e desarmados 22 | 1968: QUANDO A TERRA TREMEU


com tiros à queima-roupa na cabeça. A partir daí, ficou chamuscada não só a imagem de Johnson, que viu despencar a sua popularidade, fazendo com que desistisse de concorrer à reeleição, como a do comandante William Westmoreland, que acabou substituído. Era fato que, apesar de todos os esforços, a maior potência militar do planeta estava longe de dobrar os guerrilheiros vietnamitas comunistas. Foi o início de uma série de protestos dentro dos Estados Unidos contra a guerra, que matava e feria não só inimigos em grande escala, mas também milhares de jovens norte-americanos. Esses protestos passaram a ter o apoio de grupos de esquerda que lutavam por igualdade racial e justiça social, já que norte-americanos negros ou de origem pobre eram os mais visados pelo recrutamento compulsório para lutar no Vietnã. Muitos jovens com idade para servir às Forças Armadas, como foi o caso emblemático do pugilista Muhammad Ali, preferiam ser presos a serem enviados para o palco da guerra. Para jovens como Ali, na época com 26 anos, tudo era um mero pretexto para a imposição de uma política de força. Uma grande potência, a mais poderosa do planeta, buscava impor-se diante de um pequeno país asiático, recorrendo à argumentação frágil da luta contra o comunismo para justificar os bombardeios, os massacres e outras atrocidades: “Por que me pedem para vestir uma farda, viajar 10 mil quilômetros e matar vietcongues, se eles nada fizeram de mal para mim?”, declarou o pugilista quando, em 1967, recusou-se a se alistar no exército. A posição pacifista de grande parte da juventude resultou numa crítica implacável não só à intervenção militar, mas aos valores que os Estados Unidos queriam impor ao mundo. Passou-se a pregar a desobediência civil, e, em manifestações públicas, convocações para o serviço militar eram queimadas. Outra forma de contestação foi o movimento hippie. Eram jovens oriundos das mais diversas classes sociais que se comportavam de uma maneira inaceitável para o norte-americano médio. Barbas e cabelos cresciam, os jeans eram rasgados e as camisas ficavam cada vez mais coloridas. Enfeitavam-se com colares, tiaras, pulseiras de couro JANEIRO | 23


e uma profusão de anéis. Passaram a rejeitar a sociedade de consumo, vivendo em comunidades afastadas dos centros urbanos.Tinham regras próprias de se relacionar, e o lema “Paz e Amor” (Peace and Love) passou a ser apregoado como uma espécie de doutrina. Essa vida alternativa, quase como consequência natural da sede que existia de experimentar novas sensações, acabou se associando ao consumo de entorpecentes, que começava com o uso da maconha e terminava no mergulho em drogas mais fortes, como a heroína e o LSD (ácido lisérgico), nas quais muitos sucumbiram. Tornaram-se também comuns invasões e cercos a instalações universitárias que faziam pesquisa militar. Os mais radicais chegavam a glorificar os vietnamitas e acusar o exército norte-americano de representar o “imperialismo assassino”. Nas manifestações de protesto, eram ouvidos slogans como “Ho, Ho, Ho Chi Minh, NLF is gonna win” (os vietcongues vão vencer), numa alusão ao líder revolucionário Ho Chi Minh. Era uma situação difícil de ser contornada pelo governo dos Estados Unidos, que se via incapaz de dar uma resposta às aspirações de grande parcela da juventude americana. E tudo ficou ainda mais intenso naquele janeiro de 1968, com a Ofensiva do Tet, fatídica para o governo norte-americano, mas abençoada para os tenazes vietcongues.

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Coração Valente

Condenado em junho de 1964 à prisão perpétua, Nelson Mandela já estava havia três anos e meio confinado a uma cela de 2,5 por 2,1 m na prisão da Ilha Robben quando um episódio mostrou que, cedo ou tarde, o Apartheid, a política de segregação racial da África do Sul, teria um fim. No cemitério da Cidade do Cabo, uma cena insólita acontecia. No sepultamento de um jovem negro pobre, no país mais racista do mundo, seis mil brancos e negros se misturavam numa comovente despedida, a maior até então vista na história da Cidade do Cabo. 24 | 1968: QUANDO A TERRA TREMEU


Olive Haupt tinha apenas 24 anos quando morreu de um derrame cerebral. Seu coração, no entanto, era saudável e fora doado havia poucos dias para a equipe do cirurgião Christiaan Barnard, que rapidamente o implantou em Philip Blaiberg, um homem branco de 57 anos. No mesmo dia do enterro de Haupt, pela primeira vez desde a cirurgia, realizada cinco dias antes, Blaiberg, já sem a máscara de oxigênio, se alimentava com frango e legumes no hospital de Groote Schuur. Era uma revolução na medicina. Pelo modo com que reagia, tudo indicava que o organismo de Blaiberg não rejeitaria o novo coração, como acontecera na primeira tentativa de implante do gênero, na qual o paciente Louis Washkansky, que recebera o coração de uma mulher branca – morta num acidente de carro também aos 24 anos –, havia morrido 18 dias depois da cirurgia. Na verdade, a causa da morte de Louis foi uma infecção pulmonar causada pela baixa imunidade de seu organismo. De todo modo, por ele ter sobrevivido por quase três semanas, Barnard já havia considerado o procedimento um sucesso. Depois de voltar dos funerais de Haupt, ao qual comparecera acompanhado de todo o seu staff de médicos e enfermeiras, o professor Barnard dava uma entrevista coletiva se mostrando otimista em relação ao novo paciente. Ressaltava que a evolução do quadro de Blaiberg demonstrava que a ideia de que o coração de um negro não serviria a um branco era fruto apenas do mais puro racismo. Ao contrário, garantia que pessoas negras eram excelentes doadoras, pois muito raramente sofriam de doenças cardíacas. E terminava afirmando que o coração do operado funcionava normalmente, “com boa circulação de sangue e pulso regular”. Se não ocorressem imprevistos, em três semanas pretendia dar alta para que Blaiberg voltasse para casa. De fato, Blaiberg sobreviveu. Em duas semanas já estava de pé, andando sem ajuda de ninguém. Era algo tão extraordinário para a época que os médicos consideravam “milagrosa” a rapidez com que JANEIRO | 25


se recuperava. Por mais um ano e meio (exatos 594 dias), até agosto de 1969, o coração de um negro bateria no peito de um branco. Philip Blaiberg e Olive Haupt foram símbolos de uma revolução na medicina e, por outro lado, também da vitória sobre a sordidez de uma sociedade altamente racista. Apesar do grande impacto que o transplante do coração de um negro para um homem branco gerou, Nelson Mandela, o preso 466/64 da Ilha Robben, só ficaria livre 22 anos depois, em 1990. Logo se tornaria o grande presidente de uma pacificada África do Sul. Naquele momento, porém, Mandela ainda sofria as consequências de ter se insurgido, ainda bem jovem, contra a discriminação racial. Desde 1944, quando ajudou a criar uma liga juvenil, ele passou a denunciar a contradição de dois milhões de brancos dominarem e subjugarem oito milhões de negros. Pouco a pouco, foi ganhando popularidade, tornando-se o principal porta-voz no combate ao Apartheid. Mandela tinha com certeza um coração que serviria a qualquer branco: saudável e valente como poucos.

08

jan

Rock com caviar

No limiar de 1968, o líder dos Rolling Stones, Mick Jagger, embora já tivesse emplacado o eterno sucesso Satisfaction, ainda não era muito conhecido no Brasil. No dia 5 de janeiro, chegou quase anônimo ao Rio para uma temporada de duas semanas de férias. No início foi praticamente ignorado pela imprensa, ao contrário do que havia acontecido com Brigitte Bardot quatro anos antes, quando chegou a ameaçar voltar à França, tal o assédio que sofrera desde o primeiro momento em que pisara em solo brasileiro. Acabou não cumprindo a ameaça, mas foi se refugiar em Búzios, na época uma pacata vila de pescadores. Jagger estava acompanhado da primeira mulher, a cantora Marianne Faithfull, e só foi descoberto porque os hóspedes e vizinhos 26 | 1968: QUANDO A TERRA TREMEU


do Copacabana Palace desconfiaram que aquele rapaz de cabelos longos, vinte e poucos anos (completaria 25 em abril) e roupas extravagantes devia ser alguém famoso. Só depois de quatro dias os jornais deram a notícia da presença de Jagger no Rio e, mesmo assim, referindo-se a ele como “um hóspede muito estranho”, membro de um famoso grupo inglês de “iê-iê-iê”. A menção hoje soa até como heresia, pois era o mais puro rock o que os Stones já então produziam, pregando em suas letras e em suas atitudes a quebra de todo tipo de preconceito. A rotina de Jagger também chamou a atenção dos funcionários do hotel. Quase não saía do quarto e passava a maior parte do tempo ouvindo discos, tocando guitarra, dançando com a mulher, bebendo vodca polonesa, champanhe e comendo caviar e porções de peru à Califórnia. Ciceroneado pelo escritor Fernando Sabino, abriu exceção para conhecer o Corcovado e chamou a atenção pela calça de veludo e a camisa colorida. Na volta, acabou sendo reconhecido por um grupo de fãs, mas escapou, evitando a Avenida Atlântica e entrando no hotel pela portaria da Avenida Copacabana. Quem ligava para seu quarto era atendido por uma secretária que avisava que Jagger estava doente e queria descanso. Mas quando levavam seus pedidos à suíte, os garçons o encontravam bem alerta, dançando e, às vezes, tocando guitarra com uma mão e comendo com a outra. Com o passar dos dias, Jagger resolveu fazer uma incursão pela piscina do hotel. Alguns jornalistas já sabiam da sua presença no Rio e tentaram entrevistá-lo. Vestindo uma calça justa rosa e um chapéu estilo Greta Garbo, com um broche no meio, Mick, admitindo que pouco conhecia sobre o Brasil e a América do Sul, não queria muito papo. Convencido pela mulher a falar, respondia às perguntas com enorme má vontade: “O Rio só é bonito quando os jornalistas estão longe”, disse sem piedade. Cercado por jovens e senhoras curiosas, que quase se debruçavam sobre aquela figura exótica, ele continuou a destilar seu sarcástico mau JANEIRO | 27


humor: “Vocês conseguiram que eu descesse, mas não me impedirão de manter a boca fechada”. Marianne, bem mais solícita, disse que admirava Glauber Rocha, Jorge Amado e a bossa nova. Na época, Jagger já era uma personalidade polêmica, tendo sido processado na Inglaterra, em 1967, por uso de entorpecentes (maconha e LSD). Chegou a ser preso ao lado de Marianne, depois de uma batida policial na casa de campo de Keith Richards, onde foram encontradas substâncias ilegais e equipamentos para o consumo de drogas. Pela mesma razão, Jagger também foi preso em seu apartamento em Londres. Depois disso, passou a ser arredio e hostil com jornalistas porque, segundo ele, só queriam saber desse assunto. Era o preço que pagava por romper com comportamentos sociais arraigados. Com o passar dos anos, relaxaria. Aquela era apenas a primeira das muitas viagens que Mick Jagger faria ao Brasil. Tinha que ser em 1968.

11

jan

A Lua é logo ali

Havia dez anos que a corrida espacial entre Estados Unidos e União Soviética começara. Símbolo da Guerra Fria que tanto ameaçava a paz do planeta, essa disputa era um desafio que reforçava o sentimento nacionalista dos dois países e a supremacia tecnológica de um sobre o outro. A URSS saíra na frente com o lançamento, em 1957, do satélite Sputnik I. Mas após algumas tentativas fracassadas, os EUA, em 31 de janeiro de 1958, finalmente colocaram em órbita o satélite Explorer I, que mapeou os cinturões de radiação de Van Allen, que cercam a Terra como parte de sua magnetosfera. O interesse da população norte-americana, um intenso sentimento de orgulho nacional, a atmosfera anticomunista da era do Macartismo – o senador republicano Joseph McCarthy ficou marcado por ter promovido uma intensa patrulha anticomunista em seu país – e a imperiosa 28 | 1968: QUANDO A TERRA TREMEU


busca dos Estados Unidos de manterem vantagem tecnológica se juntaram para criar a corrida espacial. Impulsionada pela competição e tensão criadas pela Guerra Fria, a disputa fez com que os norte-americanos sentissem uma emergente necessidade de se equiparar aos soviéticos em tecnologia espacial. E de superá-los o mais rápido possível. Em 1958, o congresso norte-americano aprovou a Lei do Espaço, que deu origem à NASA. Ao mesmo tempo, a União Soviética criou uma organização parecida para seu programa espacial. O grande objetivo de ambos os programas era colocar o homem em solo lunar. Em janeiro de 1968, essa corrida ficou perto de chegar ao fim. Foi quando a Surveyor-VII, o mais aperfeiçoado laboratório lunar criado nos Estados Unidos, pousou suavemente na superfície da Lua e passou a enviar sinais para a Terra. Em 24 horas, transmitiu duas mil fotografias do terreno explorado. Foi uma viagem de quase três dias, e o pouso ocorreu na cratera batizada de Tycho, em homenagem ao astrônomo dinamarquês Tycho Brahe (1546-1601). A Surveyor-VII foi o último laboratório da série destinada a preparar a descida histórica do homem na Lua, o que aconteceria, segundo previsões da época, em dois anos (acabou ocorrendo antes, em 16 de julho de 1969). Era uma extraordinária máquina tecnológica que pesava uma tonelada. Seus instrumentos mais importantes eram um radar de pouso automático e um computador de voo guiado pela estrela Canopus. Os instrumentos da nave impressionavam: havia um foguete grande de combustível sólido, três foguetes pequenos de combustível líquido e um de gás frio sob pressão. Além disso, era equipada por seis micromotores, medidores de temperatura, radiadores, equipamento anti-impacto de meteoritos, um analisador atômico do solo lunar, transmissores e receptores de rádio, baterias químicas e solares e três antenas para o contato com a Terra. Suas câmeras tinham o tamanho de uma garrafa e eram consideradas um prodígio de técnica: inteiramente blindadas, possuíam pálpebras que se fechavam durante o voo, evitando que fossem avariadas por poeira meteórica. As pálpebras também se fechavam JANEIRO | 29


durante o pouso para evitar serem atingidas pela poeira lunar. As câmeras eram providas de lentes móveis e, como funcionavam em conjunto, tiravam fotos em 3D. Além de preparar uma viagem tripulada, a missão da Surveyor-VII tinha o objetivo de estudar o material lançado para fora da cratera por um meteoro que ali se chocara havia 108 milhões de anos, o que permitiria, segundo os cientistas norte-americanos, esclarecer dúvidas essenciais sobre como se formara a Lua. A cratera de Tycho é visível a olho nu durante a Lua cheia. Cercada por uma crista montanhosa de cerca de cem quilômetros, se eleva quatro mil metros acima do solo interno. Logo o homem estaria lá, e os Estados Unidos venceriam a corrida espacial.

14

jan

Sobral defende Gregório

O dirigente comunista Gregório Bezerra talvez tenha sido o maior símbolo da truculência dos militares nos primeiros dias do golpe de 1964. Preso no Recife, aos 64 anos foi arrastado seminu (vestia apenas um short) por um jipe do Exército pelas ruas da cidade e depois torturado nas dependências de uma cela na Fortaleza das Cinco Pontas. Desde então, condenado a 19 anos de prisão pelo Conselho Especial de Justiça da 7ª Região Militar, estava confinado na Casa de Detenção da capital pernambucana. Seu advogado era Sobral Pinto, que desde a ditadura do Estado Novo, corajosamente, e às vezes sem honorários, defendia vítimas do arbítrio, tal como Luís Carlos Prestes. Em janeiro de 1968, Gregório era o preso político mais antigo do país e Sobral buscava, no mínimo, reduzir-lhe a pena. Enfático durante o julgamento, Sobral Pinto desafiou o procuradorgeral da Justiça Militar, Eraldo Gueiros Leite, a provar que Gregório Bezerra tinha praticado qualquer ação com o objetivo de mudar o 30 | 1968: QUANDO A TERRA TREMEU


regime através da violência. Com sua eloquência e verve costumeira, Sobral afirmou da tribuna: “Eu estraçalharia essa sentença se ela dissesse, concretamente, qual o crime cometido por Gregório de Bezerra. Mas a sentença fica apenas divagando, numa linguagem metafórica, em torno da palavra ‘subversivo’.” E continuou sua defesa afirmando que era “até ridículo mencionarse numa sentença, como crime praticado por Gregório, o fato de ele ter sido frequentador assíduo do Palácio das Princesas, no governo do senhor Miguel Arraes, e da Prefeitura do Recife, quando era prefeito o senhor Pelópidas Silveira. Este homem, Gregório, deveria merecer todo o respeito e consideração, porque tem caráter, bravura e diz de cabeça erguida que é comunista”. Atacando a condenação de Gregório, ainda comentou: “Eu bem sei do que é capaz a covardia humana, bem conheço os interesses políticos ante os vencidos”. Eraldo Gueiros retrucou a Sobral Pinto, acusando Gregório de Bezerra de ser responsável por toda espécie de agitações: “Não é um criminoso nato, mas encarna bem o tipo de delinquente político. Para executar seu plano subversivo, contou com a ajuda de Miguel Arraes. Não podemos deixar esse homem solto sem ofendermos a consciência do nordeste, onde ele agiu criminosamente.” Nesse momento, Sobral Pinto o interrompeu em voz alta, acusando-o de ser desleal em suas acusações. Eraldo Gueiros não se abalou e, em meio a mais dois apartes de Sobral, apesar do soar da campainha do presidente do Superior Tribunal Militar, reconheceu que Gregório era “um homem de passado limpo do ponto de vista pessoal”. Foi o suficiente para o ministro Alcides Carneiro afirmar ironicamente: “Podem então soltar Gregório. Ele acabará no Largo da Paz, no Recife, contando histórias do tempo em que era sargento”. No fim das contas, os ministros, entre eles o futuro presidente Ernesto Geisel, votaram pela redução da pena de 19 para 10 anos. Como JANEIRO | 31


Gregório já estava preso há quase quatro anos, ainda restariam seis anos até que ficasse livre. Isso, no entanto, aconteceu no ano seguinte, em 1969, quando ele foi para o exílio por estar na lista dos 14 presos políticos que deveriam ser soltos em troca da vida do embaixador dos Estados Unidos Charles Burke Elbrick, sequestrado no Rio de Janeiro por militantes do MR-8. Gregório Bezerra só voltaria ao Brasil em 1979, depois da anistia política. Morreria em 1982, aos 83 anos.

18

jan

Desarmando JK

Naquele início de 1968, apesar de todos os atos institucionais e medidas antidemocráticas, a ditadura ainda não havia se “escancarado”. Falava-se até sobre a possibilidade de eleições gerais em 1970, e os adversários ainda eram tolerados. Um exemplo era a existência da Frente Ampla, um movimento que unia antigos inimigos políticos, tais como Juscelino Kubitschek, Carlos Lacerda e João Goulart (este, exilado no Uruguai). Criada em 1966 com o objetivo de lutar contra o regime militar, pregava a volta de eleições diretas, a reforma partidária, o desenvolvimento econômico com foco nacionalista e a adoção de política externa soberana e não subserviente, sobretudo aos Estados Unidos. As notícias que vinham dos círculos políticos naquele 18 de janeiro davam conta de que a ideia do governo era esvaziar o movimento retirando dele o ex-presidente Juscelino Kubitschek. Embora tendo cassado seus direitos políticos em junho de 1964 e perseguindo-o desde então com seguidas convocações para depor sobre acusações de corrupção, os militares sabiam do peso político que JK ainda tinha. Os acenos do governo nesse sentido vinham de diversas formas. Num programa de televisão, por exemplo, o ministro da Fazenda, Delfim Neto, enalteceu a figura de JK e elogiou o período em que 32 | 1968: QUANDO A TERRA TREMEU


ele foi presidente. Depois entrou em cena José Maria Alkmin, vicepresidente durante o governo de Castelo Branco e ainda um homem com influência em Brasília, a relembrar a importância de Juscelino e a administração desenvolvimentista que JK implementou enquanto esteve no poder. Ao mesmo tempo, no Congresso, o vice-líder da Arena na Câmara dos Deputados, Américo de Sousa, um dos políticos mais próximos ao marechal Costa e Silva, declarava que “humanitário como era o presidente da República, poderia rever as punições impostas pela Revolução para anistiar alguns dos cassados”. Não era difícil interpretar que Américo se referia especificamente a JK. Eram pequenos mimos que havia tempos o ex-presidente não recebia. Para a surpresa geral, dessa vez, como sempre acontecia quando saía na imprensa alguma notícia a respeito de possíveis revisões de cassações, não se observou qualquer reação nas hostes militares, nem mesmo entre os apoiadores da chamada linha dura. O plano estava sendo atribuído a Magalhães Pinto, então ministro das Relações Exteriores, e teve grande receptividade por parte de Costa e Silva, com a concordância dos grupos explosivos da “Revolução”. Segundo avaliações do Planalto, o rompimento de Juscelino com a Frente – e também de Renato Archer, secretário-geral do movimento e deputado federal pelo MDB – seria suficiente para um retraimento de João Goulart, o que, automaticamente, deixaria Carlos Lacerda isolado e a própria Frente esvaziada. Mas já estava claro que a anistia de JK implicaria num compromisso seu de não se candidatar às eleições de 1970, caso se realizassem. No entanto, JK poderia participar da vida política, tanto de Minas Gerais quanto do país. A cartada de Magalhães Pinto estava sendo estudada e, se fosse bem-sucedida, certamente o colocaria numa posição de destaque para pleitear uma candidatura à presidência ou, na pior das hipóteses, ao governo de Minas Gerais. Eram escaramuças no jogo de xadrez político em um tabuleiro ainda minado e sujeito a mudanças repentinas. JANEIRO | 33


20

jan

Fim da Corrida Nuclear?

Em tempos de Guerra Fria, a maior ameaça que pairava sobre o planeta era a eclosão de um conflito nuclear. A humanidade já havia vivido recentemente essa possibilidade. Tudo resultado da invasão da Baía dos Porcos, quando um grupo de paramilitares anticastristas, treinado pela CIA e com a supervisão das Forças Armadas americanas, tentou derrubar o governo de Fidel Castro. A tentativa fracassou e acabou gerando a chamada Crise dos Mísseis entre Estados Unidos e União Soviética, que apoiava o governo cubano. Foram 13 dias da mais absoluta tensão (entre 16 e 28 de outubro de 1962), nos quais as duas maiores potências do mundo estiveram muito próximas de um conflito de proporções inimagináveis. Em resposta à invasão dos Estados Unidos, Cuba havia solicitado aos soviéticos o envio de mísseis para inibir outra tentativa. Um acordo foi selado numa reunião secreta entre Fidel Castro e o líder soviético Nikita Kruschev, em julho de 1962, e a construção de uma série de instalações para lançamentos de mísseis foi iniciada em setembro. Essa movimentação acabou sendo descoberta por um avião espião da Força Aérea dos Estados Unidos. Provas fotográficas confirmaram instalações de mísseis balísticos soviéticos, fazendo com que os norte-americanos estabelecessem um bloqueio militar para impedir que novos mísseis entrassem em Cuba. Foi exigido que as armas já entregues fossem desmontadas e devolvidas à União Soviética. Um longo período de tensas e desgastantes negociações se sucedeu até John Kennedy e Nikita Kruschev chegarem a um acordo. Os soviéticos concordaram em retirar suas armas de Cuba em troca de uma declaração dos Estados Unidos comprometendo-se a nunca mais tentarem invadir Cuba sem que fossem provocados de forma direta. Naquele janeiro de 1968, as duas potências pareciam dispostas a um acordo definitivo para pôr fim a qualquer ameaça nuclear. No dia 20, na Conferência do Desarmamento de Genebra, Estados 34 | 1968: QUANDO A TERRA TREMEU


Unidos e União Soviética apresentaram um projeto definitivo de tratado para evitar a disseminação de armas nucleares. Os delegados norte-americano e soviético enfatizavam que um conflito nuclear não interessava a ninguém, pois significaria a destruição de toda a humanidade. A maior preocupação dos delegados presentes era fazer com que todas as nações subscrevessem o projeto, já que, sem esse compromisso, o risco de uma guerra nuclear se ampliaria consideravelmente pela proliferação dos armamentos nucleares em vários países. Numa das emendas do projeto, Estados Unidos e União Soviética se comprometeriam a dar assistência técnica aos demais países em pesquisas para aplicação pacífica da energia nuclear. Existia claramente o temor de que o chamado Clube Nuclear – que incluía também a França e a China comunista – se expandisse a dez ou mais membros, o que dificultaria futuras negociações de desarmamento. Esse temor se justificava pela resistência de países industrializados como Itália, Alemanha Ocidental, Índia, Israel e Japão em abrir mão do direito de produzirem armamentos nucleares para a própria defesa, sem a garantia da suspensão completa da produção de bombas atômicas pelas potências nucleares de então. Era uma questão complicada que exigia muita diplomacia. A Índia já declarara que não assinaria o tratado, alegando questões de segurança. Israel anunciou que só assinaria se os países árabes também assinassem. Naquela altura, os Estados Unidos contavam com a pressão da opinião pública mundial para conseguir que o máximo de países aderisse ao tratado. A maior preocupação era com relação à Alemanha Ocidental, que se mostrava reticente em concordar com os termos do acordo – isso porque a União Soviética já deixara claro que não assinaria qualquer tratado sem que os alemães ocidentais fizessem o mesmo. Era um imbróglio que só teria solução muitos anos depois, em 1989, com a queda do Muro de Berlim, que simbolizou o fim da Guerra Fria. JANEIRO | 35


24

jan

Tensão no Oriente Médio

No fim dos anos 1960, a tensão entre Israel e os demais países árabes da região estava no auge. A Guerra dos Seis Dias deixou abertas feridas que jamais cicatrizariam. Foi um conflito relâmpago que começou em 5 de junho de 1967, quando Israel deu início a uma ofensiva preventiva ao perceber que o presidente do Egito, Gamal Abdel Nasser, enviara tropas para o Deserto de Sinai e pedira que os militares da ONU deixassem a região. Além disso, o líder egípcio ordenara um bloqueio no Golfo de Aqaba, o qual, por banhar terras do próprio Egito, de Israel, Jordânia e Arábia Saudita, era considerado de extrema importância estratégica. A reação de Israel foi avassaladora. Em apenas três horas de ataque, 319 aviões do Egito tinham sido destruídos, com a perda, em contrapartida, de apenas 19 aviões israelenses. Com o domínio do espaço aéreo, logo Israel anexou Jerusalém e Cisjordânia. Mesmo com o apelo da ONU por um cessar-fogo, a guerra se estendeu até o dia 10 de junho, com a conquista, por parte de Israel, também da península do Sinai, que incluía a Faixa de Gaza e as Colinas de Golã, na Síria. Com isso, Israel aumentou em quatro vezes seu território, onde viviam 1,5 milhão de pessoas. Apesar da curta duração, os números do conflito foram impressionantes. Os estados árabes perderam mais da metade de seus equipamentos militares e nada menos que 18 mil homens, enquanto Israel teve apenas 766 baixas. Essa derrota acachapante fez com que o presidente do Egito renunciasse, e que uma onda incontrolável de ódio dos países da região ao estado de Israel começasse. Até países que não se envolveram no conflito passaram a enxergar os israelenses como inimigos, usando inclusive a religião islâmica nessa luta. Por causa da guerra, os palestinos começaram a fugir de suas casas, aumentando o número de refugiados na Jordânia e em outros países fronteiriços, principalmente o Líbano. O conflito deu origem a 36 | 1968: QUANDO A TERRA TREMEU


350 mil refugiados, que passaram a atacar, isoladamente e de forma localizada, o estado de Israel, desde a Cisjordânia, Faixa de Gaza até ao sul do Líbano. Tudo com o apoio bélico de países muçulmanos como o Iraque e o Irã, entre outros. As maiores consequências viriam naquele início de 1968, na cidade do Cairo, depois de uma conferência convocada pelo grupo El Fatah, fundado por Yasser Arafat, que no ano seguinte se tornaria presidente da Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Nesse encontro, em 24 de janeiro, oito grupos terroristas árabes da Palestina anunciaram que, mesmo sem conseguir unir suas forças em torno de uma só organização, iriam intensificar suas atividades contra Israel. O porta-voz da conferência afirmou que os líderes guerrilheiros rejeitaram qualquer solução política para a crise do Oriente Médio. Ficou decidido então que a guerrilha usaria de mais força até “a liquidação completa dos estrangeiros da Palestina e a devolução da terra usurpada”. Com esse objetivo, foram criados três subgrupos de operações terroristas, que agiriam separadamente, mas coordenados por um conselho militar. Os desdobramentos viriam, num futuro próximo, em ataques não só a Israel, mas também a países que lhe davam apoio tático, bélico e financeiro. A tensão não tinha fim e se estende até os dias de hoje.

28

jan

A consagração do Rei Roberto

Um dos recordistas de venda de discos em todo o mundo, Roberto Carlos foi um dos homenageados do II Mercado Internacional do Disco, evento realizado na glamorosa cidade francesa de Cannes. Ao lado de astros e estrelas do show business internacional – tais como Frank Sinatra, Beatles, Petula Clark e Herb Alpert & Tijuana Brass –, Roberto Carlos recebeu o Oscar do Disco. Foi uma festa com direito a um show transmitido ao vivo para 50 milhões de espectadores. Além de Roberto Carlos, Elis Regina foi apresentada ao público europeu, JANEIRO | 37


agradando tanto que acabou fechando um contrato para uma temporada, no início de março, no Teatro Olympia de Paris. Na festa em Cannes estavam presentes três mil convidados especiais, representantes de 38 países, 550 jornalistas e 54 gravadoras norte-americanas (que equivaliam a 54% da produção musical mundial). Cerca de 18 milhões de dólares em negócios foram registrados ali. Era o momento do grande boom da indústria fonográfica mundial. Um evento dessa magnitude servia para reafirmar o crescimento de um mercado que já produzia, anualmente, um bilhão de discos. Receber um prêmio dessa importância era o coroamento de uma trajetória que, no Brasil, já dava a Roberto Carlos status de rei. Desde 1963, sua carreira havia decolado com os grandes sucessos Splish Splash e Parei na Contramão. No ano seguinte, o cantor emplacou o LP É proibido fumar, que, além da faixa-título, trazia o hit O calhambeque. Era o nascimento da Jovem Guarda. Em 1965, Roberto Carlos já tinha seu próprio programa de televisão, o Jovem Guarda, que ele apresentava ao lado de Erasmo Carlos e Wanderléia na TV Record. Sucessos como Querem acabar comigo, Quando, Por isso corro demais, A namoradinha de um amigo meu, Eu te darei o céu, Como é grande o meu amor por você e Eu sou terrível se sucederam. Foi lançada a canção Quero que vá tudo pro inferno, considerada um marco na carreira do cantor, colocando-o na condição de fenômeno musical no Brasil. Logo Roberto estaria no cinema, com o filme Roberto Carlos em ritmo de aventura, que bateu recorde de bilheteria no cinema nacional. A consagração, em Cannes, como um dos artistas que mais vendiam discos no mundo foi uma consequência natural. A participação, logo depois, no Festival de San Remo, na Itália (de 5 a 9 de março) apenas reafirmou seu talento. Com a música Canzone per te, Roberto Carlos venceu o festival, o que fez com que sua carreira decolasse definitivamente também no exterior. A façanha foi ainda maior por ter sido o primeiro estrangeiro a vencer o tradicional festival, que era promovido desde 1951; ficou em segundo lugar ninguém menos 38 | 1968: QUANDO A TERRA TREMEU


que Ornella Vanoni, a maior estrela da música italiana na época e que, posteriormente, gravaria músicas de Roberto. Na volta ao Brasil, foi recebido por uma multidão de dez mil pessoas – a grande maioria de mulheres – no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, cidade onde morou de 1965 a 1978. O tempo trataria de comprovar que sua explosão como cantor e compositor não era um fenômeno momentâneo.Ao longo das décadas seguintes, Roberto Carlos mudou de estilo – passou a ser um cantor basicamente romântico –, mas continuou a arrebatar seus fãs e a vender milhões e milhões de discos.

28

jan

Lacerda incendiário

O estilo combativo de Carlos Lacerda era o grande calcanhar de Aquiles do regime militar. Disposto a dar fim ao governo que ajudara a chegar ao poder e proibido de falar em rádio ou TV pelo Conselho de Segurança Nacional, Lacerda fazia várias incursões pelo país tentando fortalecer a Frente Ampla, e sempre com críticas pesadas ao presidente Costa e Silva e seus auxiliares mais diretos. Num evento em São Paulo, no qual paraninfou uma turma de formandos da Faculdade de Ciências Econômicas da Fundação Alvares Penteado, afirmou que o Brasil era um país em que “para combater a alegada corrupção de alguns se converte a corrupção em instituição permanente e inatacável”. Talvez como forma de intimidação, o governo naquele mesmo dia colocou tropas nas ruas do Rio de Janeiro, interditando inclusive todo o trecho da praia do Arpoador, desde a Rua Francisco Otaviano até os fundos do Forte Copacabana. Os banhistas estranharam e, sobretudo, os surfistas reclamaram, mas os soldados, empunhando carabinas, numa cena insólita, iam até a areia para solicitar que as pessoas se afastassem. Alegavam, segundo os jornais noticiaram, que a presença de banhistas naquela área “atentava contra a segurança nacional”. Já JANEIRO | 39


em Santos, pouco antes de Lacerda se pronunciar, chegavam 1.300 fuzileiros navais embarcados sigilosamente do Rio. Eram sintomas de um regime paranoico, que via ameaça à soberania nacional por toda parte. Mas o governo negava qualquer caráter político do alerta nos quartéis, garantindo que se tratava apenas de “simples prontidão técnica, de adestramento”. O presidente Costa e Silva, do Palácio Rio Negro, em Petrópolis, residência de verão então usada pelos presidentes, desmentia rumores de crise político-militar. Já a oposição criticava toda essa movimentação, acusando o governo de “criar uma crise artificial, não se sabe ainda para quê”. Especulava-se que aquela movimentação militar, que afastara até banhistas da praia em pleno verão, serviria para inibir grupos radicais inclinados a, de alguma forma, punir Carlos Lacerda. Na realidade, era uma estratégia político-militar, preconizada nas Forças Armadas, de demonstração de força muito maior do que a ameaça real. Lacerda ironizava toda aquela movimentação e qualificava de “grotescos” os comentários de que ela seria motivada pela sua presença em São Paulo, “pois vão pensar que o Exército não tem mais o que fazer”. E assim colocava a boca no trombone. Disposto a se encontrar com Jânio Quadros para tentar instalar a Frente Ampla em São Paulo, ele mostrava os dentes sem se intimidar. Já naquela época, com a habitual eloquência, acusava o governo de se envolver em negócios escusos com empreiteiras: “A promiscuidade com empreiteiros, que antes provocava escândalo e reação, hoje se tornou de tal modo corriqueira que até diria existir uma espécie de competição para saber qual dos ministros janta mais com os intermediários dos contratantes de obras e serviços do Estado: o oficial que deseja ser presidente sem eleição ou o ministro que anseia por permanecer no ministério, a serviço de forças estranhas ao interesse nacional”. E completou dizendo, enfaticamente, que o militarismo estava casado com a oligarquia decadente, que o governo estava com seus dias contados e que deveria logo promover uma anistia para pacificar o país. 40 | 1968: QUANDO A TERRA TREMEU


As palavras fortes de Lacerda mexeram com os brios no governo. E, dessa forma, justificavam a pressa em isolar o ex-governador, tirando da Frente Ampla Juscelino Kubistchek e, por tabela, também o presidente deposto João Goulart. Mesmo assim, o discurso oficial era de enfrentar a Frente Ampla no plano político, não se cogitando medidas extraordinárias. Àquela altura, porém, eram cada vez mais fortes as pressões, mesmo que ainda dispersas, no núcleo militar que dava sustentação a Costa e Silva para que fossem tomadas medidas ofensivas contra a Frente Ampla e, em especial, contra Carlos Lacerda. Havia uma contida indignação nas Forças Armadas, principalmente com uma frase de Lacerda que ficaria famosa: “Tirem as patas de cima do Brasil”, disse ele sobre a ação militar pós-64. Não foi de admirar que meses depois, tal como a Frente Ampla, Lacerda seria atingido de forma inexorável e definitiva.

30

jan

Expurgo de comunistas em Cuba

Ao contrário do que se imagina até nos dias de hoje, mesmo durante a Guerra Fria nem sempre as relações entre Cuba e União Soviética correram às mil maravilhas. Em muitos momentos, Havana e Moscou tiveram atritos sérios e diferenças notórias em termos de estratégia política. Foi o caso naquele fim de janeiro de 1968, quando o jornal Granma, órgão oficial do Comitê Central do Partido Comunista Cubano, anunciou o expurgo de onze dirigentes comunistas e dezenas de correligionários por terem posição em favor da URSS e contra a subversão armada na América Latina. A decisão foi confirmada em pronunciamento de Raúl Castro, ministro das Forças Armadas, durante uma reunião do Comitê Central. Dessa forma, o Partido Comunista Cubano situava suas relações com o Partido Comunista Soviético num limite extremo, JANEIRO | 41


correndo o risco de provocar uma ruptura definitiva, pois além de destituir membros pró-Moscou do partido, Cuba decidira não comparecer à Conferência dos Partidos Comunistas que seria realizada em Budapeste. Passavam a surgir especulações sobre se a União Soviética manteria o apoio ao regime cubano, cada vez mais distante, ideologicamente, de Moscou.Valeria a pena, para os soviéticos, ter o pequeno encravo cubano nas proximidades dos Estados Unidos? – perguntavam-se os analistas internacionais, salientando que esse era um fator de grande tensão entre as duas potências. Essas diferenças já eram sentidas desde julho de 1967, quando, durante encontro em Havana, conversações entre Fidel Castro e o primeiro-ministro soviético, Alexei Kossiguin, esbarraram num completo desentendimento sobre os rumos do comunismo. O principal ponto de divergência era a tese de revolução violenta pregada por Cuba, em contraponto à linha soviética, mais moderada. A ausência de Fidel Casto nas comemorações dos 50 anos da Revolução de Outubro de 1917 também era interpretada como um sintoma grave do desentendimento. Fidel entendia como uma traição à memória de Che Guevara – morto nas selvas bolivianas enquanto lutava pelo comunismo – a postura contrária à subversão armada na América Latina. Mas não era só isso que justificava o expurgo dos onze dirigentes: “Eles mantiveram uma linha favorável a Moscou, apoiaram a posição direitista do Partido Comunista Venezuelano, ofenderam o comandante Ernesto Guevara, opuseram-se a todas as medidas da Revolução e se aproximaram de autoridades e cidadãos estrangeiros, tentando conseguir que seus governos fizessem pressão política e econômica sobre Cuba”, dizia o informe publicado pelo jornal Granma. E mais: segundo Raúl Castro, os expurgados consideravam a partida de Che Guevara de Cuba como algo benéfico para a Revolução, e ainda diziam que ele era crítico da política soviética e um representante da China Popular. Che era tido como um trotskista pelos soviéticos. 42 | 1968: QUANDO A TERRA TREMEU


Na verdade, as divergências entre Fidel e Moscou vinham de longa data. Desde 1953, quando Castro já tentava derrubar o ditador Fulgencio Batista, fazendo assaltos aos quartéis-generais de Moncada e Bayamo e acabando preso. Na ocasião, Fidel criticava abertamente o Partido Socialista Popular (o partido comunista cubano da época), que, segundo ele, gastava sua energia apenas para justificar seu alinhamento com Moscou. Fidel dizia nessa época que reinava no partido “mentalidade de igrejinha, de convento, que nada tinha a ver com as ideias do marxismo”. As diferenças eram tão grandes que Fidel foi fortemente criticado pelo Partido Socialista Popular: “Repudiamos os métodos putschistas1 próprios das facções políticas burguesas, empregados na ação de Santiago de Cuba e Bayamo, que foi uma ação aventureira para apoderar-se de ambos os quartéis-generais do Exército. O heroísmo empregado pelos participantes da ação é falso e está guiado por concepções burguesas errôneas”. Mas após a vitória da Revolução Cubana tudo mudou. Eram Fidel e seus guerrilheiros que davam as cartas, encampando a posição de força como a melhor tática para alcançar o verdadeiro socialismo. Mas as antigas rusgas ficaram, e nove anos depois da Revolução vinham à tona outra vez. As desavenças eram tão sérias que Fidel, sempre destemido, chegou a afirmar que preferia católicos progressistas a fósseis marxistas. O líder revolucionário estava despachando onze deles de Cuba, no velho estilo voluntarioso do guerrilheiro de Sierra Maestra.

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Do alemão: Putsch (golpe). Ação aventureira de um pequeno grupo de conspiradores. [N.E.] JANEIRO | 43


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1968: Quando a Terra tremeu by Grupo Autentica - Issuu