D O R I S L E S S I N G
Sobre gatos
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Prêmio Nobel de Literatura •
tradução:
Julia Romeu
DORIS LESSING
Sobre gatos
tradução:
Julia Romeu
Copyright © 1967 Doris Lessing Productions Ltd Copyright © Doris Lessing 1989, 2000, 2002 Copyright © 2017 Autêntica Editora Sobre gatos: coletânea publicada originalmente na Grã-Bretanha pela Flamingo, em 2002. Gatos em particular: publicado originalmente pela Grafton Books, em 1967. Gatos em particular e Rufus, o sobrevivente: publicado originalmente em volume único pela Michael Joseph, em 1989. A velhice de El Magnifico: publicado originalmente pela Flamingo, em 2000. Título original: On cats editora responsável
capa
Maria Amélia Mello
Diogo Droschi (sobre foto de Marianne Majerus)
editora assistente
Rafaela Lamas
diagramação
Waldênia Alvarenga
revisão
Cecília Martins
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Lessing, Doris, 1919-2013 Sobre gatos / Doris Lessing ; tradução Julia Romeu. -- 1. ed. -- Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2017. Título original: On cats ISBN 978-85-513-0252-1 1. Escritoras inglesas - Autobiografia 2. Gatos - Miscelânea 3. Lessing, Doris May, 1919-2013 - Biografia I. Romeu, Julia. II. Título 17-04316
CDD-823.914
Índices para catálogo sistemático: 1. Escritoras inglesas : Autobiografia 823.914
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Capítulo um
Como a casa era situada numa colina, gaviões, águias e aves de rapina, espiralando ao sabor das correntes de ar por sobre a mata, pairavam muitas vezes ao nível dos olhos, às vezes abaixo. Baixava-se o olhar e estava-se diante de asas marrons e negras brilhando ao sol, com uma envergadura de quase dois metros, inclinando-se quando o pássaro fazia uma curva. Nos campos lá embaixo, era possível ficar quase imóvel num sulco na terra, de preferência onde o arado cavara fundo ao dar a volta, sob uma tela de grama e folhas. As pernas, pálidas demais contra o solo marrom-avermelhado, apesar de estarem queimadas de sol, tinham de ser cobertas de terra ou enfiadas nela. A centenas de metros de altura, uma dúzia de pássaros circulava, todos esquadrinhando o campo à procura de pequenos movimentos de camundongos, aves ou toupeiras. Escolhia-se um deles, aquele que estivesse bem acima da cabeça, talvez; talvez, por um segundo, fantasiava-se uma troca de olhares: os olhos frios e fixos do pássaro nos olhos friamente curiosos do humano. Sob o corpo estreito como uma bala, entre imensas asas suspensas, as garras estavam de prontidão. Após meio minuto, ou vinte, o 9
pássaro mergulhava em linha reta na direção da criatura minúscula que escolhera; depois lá se ia ele, num amplo e firme bater de asas, deixando para trás um redemoinho de pó rubro e um cheiro acre e rançoso. O céu voltava a ser o que fora: um espaço distante, azul e silencioso, com seus grupos dispersos de pássaros rodopiantes. Mas, no topo da colina, um gavião poderia facilmente sair com um mergulho lateral da corrente de ar onde estivera pairando para escolher sua presa – uma das nossas galinhas. Ou até mesmo voar colina acima seguindo uma das trilhas que cortavam a mata, as asas cautelosamente mantidas rentes aos galhos baixos: estaria o pássaro indo contra sua natureza ao voar pela alameda de ar por entre as árvores em vez de mergulhar do céu para a terra? Nossas galinhas eram, pelo menos de acordo com seus inimigos, um suprimento de carne sempre renovado para os gaviões, as corujas e os gatos selvagens num raio de muitos quilômetros. Do nascer ao pôr do sol, as aves domésticas caminhavam pelo cume exposto da colina, um alvo fácil para os saqueadores por causa de suas reluzentes penas pretas, marrons e brancas e por estarem continuamente piando, cacarejando, ciscando e se exibindo. Nas fazendas da África, tem-se o costume de cortar os topos de latas de parafina e gasolina e fixar na terra esses quadrados de metal brilhantes para que reluzam ao sol. Para assustar os pássaros, dizem. Mas eu já vi um gavião descer de uma árvore para pegar uma galinha sonolenta de cima dos ovos que estava chocando, e isso com cães, gatos e humanos, tanto negros quanto brancos, ao redor dela. Certa vez, durante um chá servido do lado de fora da casa, uma dúzia de pessoas testemunhou um filhote de gato já grande sendo arrancado da sombra de um arbusto 10
por um gavião num mergulho. No longo e quente silêncio do meio-dia, quando se ouvia de repente um piado, um cacarejo ou o farfalhar de penas, tanto podia ser porque um gavião levara uma galinha quanto porque uma galinha fora montada por um galo. Mas havia muitas galinhas. E tantos gaviões que não fazia sentido atirar neles. A qualquer momento em que se estivesse na colina, olhando o céu, era certo que haveria um pássaro fazendo círculos no ar a menos de um quilômetro de distância. Quase cem metros abaixo, uma sombra minúscula passava depressa sobre as árvores, sobre os campos. Sentada em silêncio sob uma árvore, já vi bichos ficarem paralisados ou correr para um abrigo ao alerta de uma sombra de asas enormes muito acima, quando esta os alcançava ou fazia escurecer por um instante a luz sobre a grama e as folhas. Nunca havia apenas um pássaro. Dois, três, quatro pássaros voavam em círculos, em grupo. “Por que logo ali?”, alguém se perguntava. É claro! Todos aproveitavam, em diferentes alturas, a mesma corrente de ar. Um pouco mais adiante, outro grupo. Bastava olhar com cuidado – e o céu estava repleto de pontos negros; ou, se o sol batia neles de determinada maneira, pontos brilhantes, como a poeira que se vê na luz que entra pela fresta de uma janela. Em todos aqueles quilômetros de ar azul, quantos gaviões? Centenas? E todos deles capazes de completar a jornada até nossas aves domésticas em poucos minutos. Por isso, não se atirava nos gaviões. A não ser por raiva. Lembro que quando aquele filhote de gato desapareceu no céu, miando, nas garras do gavião, minha mãe disparou a espingarda no encalço dele. Em vão, é claro. Se as horas do dia eram dos gaviões, a alvorada e o crepúsculo eram das corujas. As galinhas eram enxotadas 11
para dentro dos galinheiros quando o sol se punha, mas as corujas se acomodavam nas árvores durante o período que lhes pertencia; e era possível que uma coruja sonolenta e tardia pegasse uma ave aos primeiros raios de sol, quando os galinheiros eram abertos. Gaviões para a luz do sol; corujas para a meia-luz; mas, para a noite, gatos: gatos selvagens. E nesse caso havia uma justificativa para o uso de armas. Os pássaros tinham a liberdade de se locomover por milhares de quilômetros de céu. Um gato tinha de ter uma toca, uma fêmea, filhotes... pelo menos uma toca. Quando um deles escolhia viver na nossa colina, nós o matávamos. Os gatos vinham à noite até os galinheiros, encontravam buracos inacreditavelmente pequenos nas paredes ou no arame. Gatos selvagens acasalavam com nossos gatos domésticos, atraindo animais pacíficos e mansos para a vida perigosa da mata, para a qual, tínhamos certeza, eles não estavam preparados. Gatos selvagens tornavam dúbia a condição de nossos reconfortantes animais. Um dia, um homem negro que trabalhava na cozinha disse que tinha visto um gato selvagem numa árvore a meio caminho entre o sopé e o topo da colina. Meu irmão não estava em casa; então peguei o rifle calibre 22 e fui atrás do bicho. O sol estava a pino: não era a hora dos gatos selvagens. Numa árvore que ainda não tinha crescido totalmente estava o gato, esticado em cima de um galho, sibilando. Seus olhos verdes chamejavam. Gatos selvagens não são criaturas bonitas. Têm um pelo marrom-amarelado que é feio e áspero. E cheiram mal. Esse gato tinha roubado uma galinha nas últimas doze horas. A terra sob a árvore estava repleta de penas 12
brancas e pedaços de carne que já fediam. Odiávamos gatos selvagens, que sibilavam, arranhavam, grunhiam e nos odiavam. Aquele era um gato selvagem. Dei um tiro nele. Ele despencou do galho, caiu aos meus pés, se contorceu um pouco em meio às penas brancas e ficou imóvel. Normalmente, eu teria pegado a carcaça pela cauda sarnenta e malcheirosa e atirado num poço seco que ficava ali perto. Mas algo naquele gato me incomodou. Inclinei-me para observá-lo. O formato de sua cabeça não era o de um gato selvagem; e o pelo, por mais áspero que fosse, ainda era macio para um gato selvagem. Eu tinha de admitir. Aquele não era um gato selvagem, era um dos nossos gatos. Reconhecemos aquele cadáver feio como sendo Minnie, uma gatinha encantadora que, dois anos antes, tinha desaparecido – levada, pensáramos nós, por um gavião ou uma coruja. Minnie era metade persa, uma criatura macia e dada a carinhos. Essa era ela, a devoradora de galinhas. E, não muito longe da árvore onde foi morta, encontramos uma ninhada de gatinhos selvagens; mas esses eram selvagens mesmo, e os seres humanos eram seus inimigos: tivemos pernas e braços mordidos e arranhados como prova. Por isso, os aniquilamos. Ou melhor, minha mãe tomou as providências para que fossem aniquilados; pois, devido a alguma lei da nossa casa sobre a qual só refleti muito mais tarde, esse tipo de trabalho sórdido cabia a ela. É só pensar um pouco: sempre havia gatos na casa. O veterinário mais próximo ficava em Salisbury, a quase cem quilômetros de distância. Não conseguia me lembrar de nenhum gato sendo “esterilizado”, certamente não as fêmeas. Gatos levam a filhotes, muitos e frequentes. Alguém tinha de se livrar dos filhotes indesejados. Talvez 13
os africanos que trabalhavam na casa e na cozinha? Eu me lembro de como era comum ouvir as palavras bulala yena (mata!). Para os animais e aves feridos ou doentes da casa e da fazenda: bulala yena! Mas havia uma espingarda e um revólver na casa, e era minha mãe quem usava. Com as cobras, por exemplo, era geralmente ela quem lidava. Sempre havia cobras na nossa casa. Isso soa terrível e acho que devia ser, mesmo; mas convivíamos com elas. Eu tinha muito menos medo de cobras do que de aranhas – enormes, variadas e incontáveis, estas transformavam minha vida num tormento. Havia najas, mambas-negras, biútas e víboras-da-noite. E uma particularmente maligna chamada boomslang, que tem o hábito de se enroscar num galho, num pilar da varanda ou num outro ponto alto e cuspir na cara de quem a perturba. Muitas vezes na altura dos olhos, cegando as pessoas. Mas, durante vinte anos de cobras, o único mal que nos aconteceu foi que uma boomslang cuspiu nos olhos do meu irmão. A visão dele foi salva por um africano que usou medicina tribal. Mas alguém sempre soava o alarme: há uma cobra na cozinha; ou na varanda; ou na sala de jantar; em todos os lugares, aparentemente. Certa vez, quase peguei uma víbora-da-noite, confundindo-a com uma meada de lã. Mas ela se assustou comigo e seu sibilo nos salvou a ambas: eu saí correndo e ela fugiu. Certa vez, uma cobra entrou numa escrivaninha que era um ninho de papéis amontoados em diversos compartimentos. Minha mãe e os criados levaram horas para conseguir tirar o bicho dali para que ela pudesse matá-lo com um tiro. Certa vez, uma cobra, uma mamba, entrou embaixo do cesto de grãos na cabana que servia de despensa. Minha mãe 14
teve de se deitar de lado e dar um tiro nela a três palmos de distância. Uma cobra na pilha de lenha fez soar o alarme; e eu causei a morte de um dos meus gatos preferidos dizendo que a tinha visto rastejar entre dois troncos. O que vira era o rabo do gato. Minha mãe atirou numa coisa acinzentada que se movia; e o gato saiu aos gritos, com um rombo vermelho no flanco. Ele se contorceu e berrou em meio às aparas de madeira, com seu pequeno coração perfurado à mostra entre frágeis costelas quebradas. Morreu com minha mãe acariciando-o, aos prantos. A cobra estava enroscada num tronco alto a dois ou três metros dali. Uma vez houve um enorme tumulto de gritos e alertas; e lá, numa aleia de pedra que corria por entre pés de hibisco e espinho-de-cristo, estava um gato em combate com uma esguia cobra negra que dançava. A cobra rastejou para o espinheiro de um metro de largura e lá permaneceu, com os olhos chamejando para o gato, que não conseguia se aproximar. O gato ficou ali a tarde toda, andando em torno da massa espinhenta que guardava a cobra, sibilando para ela, grunhindo para ela, miando. Mas, quando a escuridão surgiu, a cobra rastejou para longe, ilesa. Lampejos de lembranças, histórias sem começo nem fim. O que houve com o gato que ficou deitado na cama da minha mãe, miando de dor, com os olhos inchados devido a uma cobra cuspidora? Ou com a gata que entrou chorando na casa, com a barriga arrastando no chão de tanto leite acumulado? Fomos ver os filhotes dela na caixa velha no galpão de ferramentas, mas eles haviam desaparecido; o criado examinou marcas na poeira ao redor da caixa e disse “Nyoka”. Uma cobra. 15
Na infância, as pessoas, os animais, os eventos surgem, são acolhidos e desaparecem, sem que nenhuma explicação seja oferecida ou requisitada. Mas agora, pensando nos gatos, sempre gatos, centenas de incidentes envolvendo gatos, anos e anos de gatos, fico atônita com o trabalho que eles deviam dar. Tenho dois gatos em Londres agora; e muitas vezes digo: “Que disparate ter tanto trabalho e preocupação por causa de dois animais pequenos”. Todo esse trabalho deve ter sido feito pela minha mãe. Os cuidados da fazenda para o homem; os cuidados da casa para a mulher, mesmo que a casa envolvesse muito mais trabalho do que se associa com afazeres domésticos numa cidade. Era trabalho dela, também, porque cada natureza exige o trabalho que lhe é mais compatível. Minha mãe era compassiva, sensata, astuta. Era, acima de tudo e em cada detalhe, prática. Mas era mais do que isso: fazia parte daquela parcela da humanidade que entende como as coisas funcionam; e se amolda a elas. Um papel bastante cruel. Meu pai entendia o suficiente; era um homem do campo. Mas sua atitude surgia como um protesto; se algo tinha de ser feito e providências tinham de ser tomadas, uma posição final era assumida – e era minha mãe quem a assumia. “Então é isso! Pelo visto...”, dizia ele, com uma raiva irônica que também era admiração. “A natureza”, dizia ele, resignando-se, “é muito boa se for deixada em seu lugar.” Mas minha mãe, que tinha na natureza o seu elemento, na verdade seu dever e seu fardo, não perdia tempo com filosofia sentimental. “É fácil para você, não é?”, dizia ela; jocosa, sempre jocosa; mas ressentida, é claro, 16
pois não era meu pai que afogava os gatinhos, atirava na cobra, matava as galinhas doentes ou queimava enxofre nas colônias de cupim: meu pai gostava de cupins, se divertia observando-os. Isso torna ainda mais difícil de entender o que levou àquele fim de semana aterrador em que fui deixada a sós com o meu pai e cerca de quarenta gatos. Tudo que me lembro daquela época que poderia servir de explicação é o comentário: “Ela ficou de coração mole e não consegue mais afogar um gatinho”. Isso foi dito com impaciência, com irritação e – de minha parte – com uma raiva nua e crua. Naquela época eu estava numa batalha contra a minha mãe, numa luta de morte, uma luta por sobrevivência, e talvez isso tenha tido algo a ver com aquela história, não sei. Mas agora me pergunto, atônita, o que teria levado ao colapso de sua coragem. Ou seria um protesto? Que tristezas íntimas se expressavam daquele modo? O que ela estava realmente dizendo durante aquele ano em que se recusava a afogar gatinhos ou a sacrificar gatos adultos que realmente tinham de ser sacrificados? E, afinal, por que partiu e deixou nós dois, sabendo perfeitamente – pois não podia deixar de saber, já que fazia essa ameaça sempre e aos gritos – o que ia acontecer? Durante um ano, ou menos, minha mãe se recusou a fazer seu papel de reguladora, de juíza, de equilíbrio entre a razão e as irracionais proliferações da natureza, e o resultado foi que a casa, os galpões ao redor da casa, a mata que rodeava a fazenda, tudo ficou infestado de gatos. Gatos de todas as idades; gatos mansos, selvagens e nos estágios entre uma coisa e outra; gatos sarnentos, com feridas nos olhos, mutilados e aleijados. E o pior é 17
que havia meia dúzia de gatas grávidas. Não havia nada para impedir que nós, dentro de poucas semanas, nos tornássemos o campo de batalha de cem gatos. Algo tinha de ser feito. Meu pai disse isso. Eu disse. Os criados disseram. Minha mãe apertou os lábios e não disse nada, mas foi embora. Antes de partir, se despediu de sua gata preferida, uma velha gata tigrada que era a mãe de todos os outros. Acariciou-a suavemente e chorou. Disso eu me lembro, de me sentir inútil, porque não conseguia compreender o tamanho desamparo daquelas lágrimas. No momento em que ela se foi, meu pai disse diversas vezes, “Bem, isso tem de ser resolvido, não tem?”. Sim, tinha; por isso, ele ligou para o veterinário na cidade. O que não era nada simples de fazer. O telefone era ligado a uma linha compartilhada por vinte outros fazendeiros. Quem quisesse usá-lo tinha de esperar que todas as fofocas e as novidades das fazendas silenciassem; e então ligar para a central telefônica; e então pedir uma linha para a cidade. Eles ligavam de volta quando houvesse uma linha disponível. E podia levar uma, duas horas. Isso tornou tudo muito pior, ter de esperar, observando os gatos, desejando que aquele processo terrível já tivesse acabado. Ficamos sentados, lado a lado, à mesa da sala de jantar, esperando que o telefone emitisse nosso toque particular. Afinal conseguimos falar com o veterinário, que disse que a maneira menos cruel de matar gatos adultos era com clorofórmio. A farmácia mais próxima ficava em Sinoia, a mais de trinta quilômetros de distância. Fomos de carro até Sinoia, mas a farmácia estava fechada para o fim de semana. De Sinoia, ligamos para Salisbury e pedimos que um farmacêutico colocasse um vidro grande 18
de clorofórmio no trem do dia seguinte. Ele disse que ia tentar. Naquela noite, ficamos sentados diante da casa, sob as estrelas; era para lá que íamos todo fim de tarde, a não ser que estivesse chovendo. Estávamos arrasados, furiosos, culposos. Fomos para a cama bem cedo para fazer o tempo passar mais depressa. O dia seguinte foi um sábado. Fomos de carro até a estação, mas o clorofórmio não estava no trem. No domingo, uma gata teve seis filhotes. Eram todos deformados: havia algo de errado com cada um deles. Meu pai disse que era por causa do cruzamento consanguíneo. Se for verdade, é impressionante que menos de um ano disso pudesse ter transformado alguns poucos animais saudáveis em um exército de aleijados doentios. O criado deu cabo dos filhotes e nós passamos outro dia horrível. Na segunda-feira, fomos de carro até a estação, esperamos o trem e voltamos com o clorofórmio. Minha mãe ia chegar na segunda à noite. Pegamos uma grande lata de biscoitos hermeticamente fechada e colocamos um velho gato, doente e infeliz, dentro dela, junto com um chumaço de algodão embebido em clorofórmio. Não recomendamos esse método. O veterinário disse que seria instantâneo; mas não foi. No final das contas, os gatos foram reunidos e colocados num cômodo. Meu pai entrou no cômodo com seu revólver da Primeira Guerra, mais confiável, disse ele, do que uma espingarda. A arma ressoou uma vez, e mais uma, e mais uma, e mais uma. Os gatos que ainda não tinham sido pegos pressentiram seu destino e estavam gritando, furiosos, por toda a mata, com pessoas atrás deles. Meu pai saiu do cômodo em determinado momento, muito branco, com os lábios comprimidos de raiva e os olhos marejados. Vomitou. Depois, praguejou bastante 19
e voltou para dentro do cômodo, onde os tiros continuaram. Afinal, ele saiu. Os criados entraram e levaram os cadáveres para o poço seco. Alguns dos gatos escaparam – três jamais voltaram para aquela casa de assassinos, de modo que devem ter virado selvagens, preferindo se arriscar. Quando minha mãe voltou da viagem, e depois de o vizinho que a trouxera ter ido embora, ela caminhou em silêncio, sem fazer comentários, pela casa onde agora havia apenas um gato, sua velha preferida, dormindo em sua cama. Minha mãe não pedira que essa gata fosse poupada, pois ela era velha e não estava muito bem. Mas estava procurando por ela; e ficou sentada um bom tempo, acariciando-a e conversando com ela. Depois, foi para a varanda. Lá estávamos meu pai e eu, assassinos, conscientes disso. Ela se sentou. Ele enrolava um cigarro. Suas mãos ainda tremiam. Meu pai olhou para minha mãe e disse: “Isso não pode acontecer nunca mais”. E acho que não aconteceu mais mesmo. Senti raiva do holocausto de gatos, porque ele poderia ter sido evitado; mas não me lembro de ficar triste. Havia me dissociado disso por causa da minha angústia com a morte de uma gata alguns anos antes, quando eu tinha onze anos de idade. Diante do corpo frio e pesado que, inexplicavelmente, havia sido a criatura leve como pluma do dia anterior, eu dissera: nunca mais. Mas já tinha feito esse juramento antes, e sabia disso. Meus pais me contaram que, aos três anos de idade, eu estava passeando com a babá em Teerã quando, apesar dos protestos dela, peguei na rua um gatinho faminto e o levei para casa. Segundo eles, eu disse que aquele gatinho era 20
meu e lutei por ele quando o pessoal de casa se recusou a abrigá-lo. Deram-lhe um banho de permanganato de potássio, de tão imundo que estava; e, a partir daí ele passou a dormir na minha cama. Eu não deixava que ninguém o tirasse de mim; mas é claro que alguém tirou, pois minha família deixou a Pérsia e o gato ficou para trás. Ou talvez tenha morrido. Talvez – mas como posso saber? De qualquer maneira, em algum ponto do passado, uma menina muito pequena tinha brigado e vencido em nome de um gato que lhe fazia companhia dia e noite; mas, então, ela o perdera. Depois de certa idade – e, para alguns de nós, isso pode ocorrer muito cedo – não existem novas pessoas, animais, sonhos, rostos, acontecimentos: tudo já aconteceu antes, já apareceu antes, com outra máscara, outras roupas, outra nacionalidade, outra cor; mas é igual, igual, tudo é eco e repetição; e não há nem dor que não seja uma recorrência de algo há muito esquecido que se expressa numa angústia inacreditável, em dias de lágrimas, solidão, consciência de traição; e tudo por um gato pequeno, magro e moribundo. Fiquei doente naquele inverno. Foi um problema, porque meu quarto ia receber uma demão de cal. Alojaramme num quartinho nos fundos. A casa, que ficava quase no topo da colina, mas não exatamente, sempre parecia prestes a escorregar até os milharais lá embaixo. Esse quarto minúsculo, não mais do que uma fatia da extremidade da casa, tinha uma porta, sempre aberta, e janelas, sempre abertas, apesar do vento frio de um mês de julho cujos céus eram de um azul interminável, claro e sem nuvens. O céu, repleto de sol; os campos, iluminados. Mas frios, muito frios. A gata, uma persa cinza-azulada, chegou 21
ronronando na minha cama e se acomodou para compartilhar minha doença, minha comida, meu travesseiro, meu sono. Quando eu acordava de manhã, ao me virar, meu rosto tocava lençóis semicongelados; o lado externo da coberta de pele sobre a cama estava frio; o cheiro de cal que vinha do cômodo ao lado era frio e antisséptico; o vento que levantava e baixava a poeira do lado de fora era frio – mas na dobra do meu braço havia um calor leve e ronronante, a gata, minha amiga. Nos fundos da casa, na frente do banheiro, uma bacia de madeira sobre a terra recolhia a água do banho. Naquela fazenda não havia encanamento: quando se precisava de água, ia-se até um poço a dois ou três quilômetros de distância, numa carroça puxada por bois. Nos meses da estação seca, a única água disponível para o jardim era a do banho, suja. A gata caiu nessa bacia num dia em que ela estava cheia de água quente. Ela gritou, foi arrancada de lá em meio a um vento gelado e banhada com permanganato de potássio – pois a bacia estava imunda, a água com sabão coalhada de folhas e poeira –; foi seca e posta na minha cama para se aquecer. Mas espirrava e resfolegava, e então começou a arder de febre. Era pneumonia. Demos a ela o que tínhamos em casa, mas naquela época não existia antibiótico, e assim a gata morreu. Ficou nos meus braços por uma semana, ronronando, ronronando, numa vozinha rouca e trêmula que foi se tornando vez mais fraca, até silenciar; lambeu minha mão; abriu os enormes olhos verdes quando a chamei e lhe implorei que vivesse; fechou os olhos, morreu e foi atirada num poço escuro – com mais de trinta metros de profundidade – que havia secado, porque num determinado ano os rios subterrâneos tinham mudado de curso 22
e transformado aquilo que acreditávamos ser um poço confiável num buraco seco, rachado e pedregoso que logo estava cheio até a metade de lixo, latas e cadáveres. Pronto. Nunca mais. E durante anos fiquei comparando gatos em casas de amigos, gatos em lojas, gatos em fazendas, gatos na rua, gatos em muros, gatos na memória com aquela criatura doce e cinza-azulada que ronronava e que para mim era o gato, o Gato, impossível de um dia ser substituído. E, além disso, durante alguns anos minha vida não incluía supérfluos, artigos desnecessários, adornos. Gatos não cabiam numa existência sempre cambiante, de lugar em lugar, de quarto em quarto. Um gato precisa de um local que lhe pertença, tanto quanto precisa de uma pessoa que lhe pertença. Assim, só 25 anos mais tarde houve espaço para um gato na minha vida.
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