Sandro Veronesi

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Copyright © 2006 La nave di Teseo editore, Milano
Publicado mediante acordo com a Casanovas & Lynch Literary Agency.
Copyright desta edição © 2026 Autêntica Contemporânea
Título original: Caos calmo
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diretora editorial
Rejane Dias
editoras responsáveis
Rafaela Lamas
Rejane Dias
preparação
Sonia Junqueira
revisão
Luiza Cordiviola
capa
Diogo Droschi
fotografia de capa
Ritratto di Luigi Ghirri, Boretto, 1989
© Eredi Luigi Ghirri
diagramação
Waldênia Alvarenga
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Veronesi, Sandro
Caos calmo / Sandro Veronesi ; tradução Karina Jannini. -- 1. ed. -- Belo Horizonte : Autêntica Contemporânea, 2026.
Título original: Caos calmo
ISBN 978-65-5928-712-3
1. Ficção italiana I. Título.
26-347598.0
CDD-853
Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura italiana 853
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tradução Karina Jannini
Para meus filhos.
Não posso continuar. Continuarei.
Samuel Beckett
– Ali! – digo.
Acabamos de surfar, Carlo e eu. Surfe: como vinte anos atrás. Pegamos emprestadas as pranchas de dois garotos e nos lançamos entre as ondas altas, longas, tão insólitas no Tirreno que banhou toda a nossa vida. Carlo, mais agressivo e audacioso, ululante, tatuado, obsoleto, com os cabelos longos ao vento e o brinco reluzindo ao sol; eu, mais prudente e preocupado com o estilo, mais diligente e controlado, mais mimetizado, como sempre. Sua famigerada classe beat e meu velho comedimento em cima de duas pranchas que deslizavam ao sol, e nossos dois mundos que voltavam a duelar como nos tempos das terríveis brigas de juventude – rebelião contra subversão –, quando as cadeiras voavam; não era brincadeira, não. Não que a gente tenha dado um show, pois já foi muito se conseguimos não cair das pranchas; ou melhor: demos um show de quem também já foi jovem e, por um breve período, acreditou que algumas forças pudessem realmente prevalecer e, nesse período, aprendeu a fazer uma porção de coisas que, em seguida, se revelaram absolutamente inúteis, como tocar conga ou girar uma moeda entre os dedos, como David Hemmings em Blow-Up: depois daquele beijo, ou desacelerar os batimentos cardíacos para simular um ataque de bradicardia e ser dispensado do serviço militar, ou dançar ska, ou enrolar os cigarros de maconha com uma mão só, ou usar arco e flecha, ou a meditação transcendental, ou, justamente, o surfe. Os dois garotos não podiam entender; Lara e Claudia já tinham voltado para casa; Nina 2004 partiu de manhã cedo (como Carlo troca de namorada todo ano, Lara e eu começamos a
acrescentar o ano ao nome de cada uma): não havia ninguém para assistir, foi um showzinho entre nós dois, uma daquelas brincadeiras que só fazem sentido entre irmãos, porque um irmão é testemunha de uma inviolabilidade que, a partir de certo momento, ninguém mais está disposto a reconhecer em você.
– Ali! – digo de repente.
Depois, deitamo-nos na areia para nos enxugar, zonzos de cansaço, com os olhos fechados e o vento arrepiando os pelos do peito, e ficamos em silêncio, relaxando. De repente, porém, percebi que, para desfrutar daquela paz, estávamos negligenciando algo que, pouco antes, havia começado a se distinguir com uma urgência particularmente ruidosa: gritos. Sentei-me, imediatamente imitado por Carlo.
– Ali! – digo de repente, apontando para um grupo de pessoas muito agitadas, a uma centena de metros contra o vento.
Levantamo-nos de um salto, com os músculos ainda aquecidos pela longa cavalgada entre as ondas, e corremos até a pequena multidão. Deixamos para trás celulares, óculos, dinheiro, tudo: de repente, não existe nada além daquele amontoado de gente e daqueles gritos. Certas coisas, a gente faz sem pensar.
O tempo que segue é uma espécie de sequência mediúnica instantânea, sem outra sensação além daquela de formar um único ser com meu irmão: as perguntas sobre o que aconteceu, o velho desmaiado à beira d’água, o homem de cabelos loiros tentando reanimá-lo, o desespero de duas crianças gritando “Mamãe!”, os semblantes desorientados das pessoas que apontam para o mar, duas pequenas cabeças perdidas entre as ondas e ninguém fazendo nada. Em meio à estagnação frenética se destaca o olhar azul de Carlo, intenso, carregado de uma incrível energia cinética: esse olhar diz que, por alguma indiscutível razão, cabe a nós salvar os dois pobres coitados e que, na realidade, é como se já o tivéssemos feito, sim, é como se tudo já tivesse terminado, e nós dois, irmãos, já fôssemos os heróis daquele grupo barulhento de desconhecidos, porque somos criaturas aquáticas extraordinárias, somos tritões e, para
salvar vidas humanas, somos capazes de domar as ondas com a mesma naturalidade com que tínhamos acabado de domálas para nos divertir em cima de pranchas de surfe, e ali ao redor não há mais ninguém com competência para fazer isso. Entramos correndo na água e nos arrastamos até onde rompem as primeiras ondas. Então nos deparamos com um homem estranho, muito magro e ruivo, tentando lançar desajeitadamente mar adentro uma corda muito curta, enquanto as pessoas que precisam ser salvas estão a pelo menos trinta metros de distância. Passamos rapidamente ao seu lado, e ele nos lança um olhar que nunca esquecerei – um olhar de quem deixa os outros morrer – e, com voz covarde, digna desse olhar, tenta nos dissuadir: “Não vão”, sibila. “Vocês também podem se afogar.” “Vá à merda”, é a resposta de Carlo um segundo antes de mergulhar em uma onda e começar a nadar. Faço o mesmo e, enquanto nado, vejo contra a luz as sombras das tainhas deslizando horizontalmente ao longo do muro verde que se forma sempre que uma onda se ergue para depois desabar sobre mim: os peixes estão surfando, divertindo-se como fizemos nós poucos minutos antes.
Vistas da praia, as duas cabeças pareciam próximas uma da outra, mas, na realidade, estão bem distantes, de modo que, a certa altura, Carlo e eu temos de nos separar: faço-lhe sinal para que se dirija à da direita, enquanto parto na direção da outra, à esquerda. Ele olha para mim de novo, sorrindo, assente, e de novo me sinto invencível; ambos partimos com força.
Quando estou bem próximo, percebo que se trata de uma mulher. Lembro-me das duas crianças desesperadas na praia: “Mamãe!”. A cabeça desaparece debaixo d’água e ressurge por uma indecifrável combinação de forças, à qual a mulher parece totalmente alheia. Grito para que aguente firme e reforço as braçadas, enquanto uma corrente muito forte tenta me arrastar para outra direção. Aquela mulher foi parar bem no meio de um redemoinho. Quando consigo chegar a alguns metros dela, começo a distinguir seus traços fortes, o nariz um pouco achatado, ao estilo Julie Christie, mas, sobretudo, o véu de puro terror
que pousou sobre seus olhos: está no limite de suas forças, não consegue nem gritar, apenas soluçar. Dou as últimas braçadas nadando peito e a alcanço. Das profundezas de seu corpo sai uma espécie de gorgolejo sinistro, como de pia entupida.
– Fique tranquila, senhora – digo –, agora vou levá-la para a…
Bruscamente, como se tivesse se preparado com zelo, a mulher crava as mãos na concavidade das minhas clavículas e me afunda na água com todas as suas forças. Surpreendido no meio da frase, engulo água, depois volto à superfície com certa dificuldade, tossindo.
– Calma – digo –, não me afun…
De novo ela me empurra para debaixo d’água sem me deixar terminar a frase, e de novo engulo água e tenho dificuldade para voltar à superfície e recuperar o fôlego. Não demora para que tente me afundar de novo, e tenho de me desvincular para escapar de seu aperto. Para me segurarem, suas unhas arranham meu peito até sangrar e me machucam muito. Ofegante, esfolado, dou duas braçadas para trás; e toda a minha força, aquela maravilhosa sensação de inviolabilidade com a qual eu tinha partido da praia, já desapareceu.
– Não me deixe! – gorgoleja a mulher. – Não me deixe!
– Senhora – digo, mantendo distância –, desse jeito não vamos a lugar nenhum! Fique calma!
Mas, como resposta, ela desaparece debaixo d’água e não reaparece mais. Merda. Mergulho, consigo agarrá-la pelos cabelos enquanto ela afunda como uma pedra, depois a seguro pelas axilas e a levo para cima, lutando contra a corrente que puxa para baixo. É muito pesada. Quando chego à superfície, meus pulmões estão prestes a explodir, mas, pelo menos, a mulher me deixa respirar algumas vezes antes de me afundar de novo.
– Não me deixe! – recomeça. Frustro sua tentativa de me afundar de novo, e me antecipo dando um impulso com a lombar. Desta vez ela não me pega mais de surpresa, e pelo menos não engulo água, mas
estou desperdiçando todas as minhas forças para impedir que ela me mate, e isso não é nada bom.
– Não me deixe!
– Não vou deixá-la, não! – grito. – Mas a senhora tem de me soltar! Do contrário, nós dois vamos nos afog…
Não tem jeito, a essa altura não resta dúvida de que a mulher não quer ser salva, quer apenas que alguém morra com ela. Mas eu não quero morrer, penso. Amo a vida. Tenho uma companheira e uma filha que me esperam em casa. Vou me casar em cinco dias. Tenho 43 anos, um trabalho: pombas, não posso morrer…
Penso em fugir, em perder mais um pouco de pele debaixo das unhas predadoras dessa mulher e em escapar de seu abraço mortal, deixando que se afogue sozinha; mas seus olhos verdes e aquosos, que em condições normais devem ser muito bonitos, parecem tão extenuados, aterrorizados e apagados que é praticamente uma obrigação tentar salvá-la. Volto a pensar nas crianças. No imbecil que nos disse para não seguirmos em frente. Em meu irmão, que sabe-se lá o que está passando nesse momento.
– Não me deixe!
Não, não a deixo, não fujo e, ainda por cima, penso em uma solução. Desvinculando-me de suas presas, consigo deslizar para detrás de suas costas e agarrar seus braços pela concavidade dos cotovelos: sem aqueles dois tentáculos frenéticos, a mulher não tem mais como me matar, e isso já é um grande progresso. Só que agora, com os braços dela imobilizados e inutilizados, os meus também estão presos, e levá-la para a praia se mostra complicado. Tenho de conseguir transmitir a seu corpo morto a pouca força que restou ao meu, e isso em meio a um mar muito agitado, onde acabei de surfar, em meio a um redemoinho que continua a nos puxar para baixo e sem poder usar os braços. Um problemão. Tento refletir e realmente não vejo outra possibilidade além de usar as pernas e a pelve. Assim, dou um grande impulso com as pernas e, com força, lanço minha pelve contra a sua: avançamos um
pouco em direção à praia. Repito a operação, enquanto seu inconsciente suicida a leva a debater-se e a lutar para dificultar as coisas: impulso com as pernas, impulso com a pelve e, de novo, avançamos um pouco em direção à praia. Mais um impulso, mais um pequeno progresso, e pronto: com paciência, com calma e dosando as forças, entendo que desse modo podemos conseguir e me sinto mais tranquilo. Só que eu disse “pelve”, porque também se pode dizer assim, mas a verdade é que estamos em uma posição um tanto quanto obscena e, na realidade, sua pelve é um traseiro, um traseiro largo e macio de madre superiora, enquanto a minha pelve não é outra coisa além de um pênis. Estou empurrando meu pau no seu traseiro, isso é o que estou fazendo, com todas as minhas forças, prendendo seus braços por trás, dando impulsos frenéticos com as pernas, em uma posição tão absurda, despudorada e selvagem que, de repente, acontece uma coisa absurda, despudorada e selvagem: tenho uma ereção. Percebo enquanto ocorre, enquanto essa violenta sensação de potência chega do nada (onde estava, um segundo antes?) para se concentrar em um único ponto e, a partir dele, tensionar meus músculos, se fosse possível curvá-los, e logo depois espalhar-se em sentido contrário pelo corpo como uma onda de calor, preenchendo-o, de modo que, em poucos instantes, todo o meu corpo está em ereção, como se nessa posição com a mulher eu me encontrasse não no meio do mar revolto e com nossas vidas em perigo, mas praticando sexo selvagem em uma cama grande e desconhecida, em um quarto de conto de fadas, em estilo arabesco: sinto isso enquanto acontece e fico espantado, mas todo o espanto desse mundo não impede que meu pau continue a inchar e a enrijecer debaixo do calção como se fosse uma entidade autônoma, independente de mim, uma irredutível minoria hormonal que se recusa a aceitar a ideia da morte ou, talvez justamente por tê-la aceitado, lança ao universo seu último e ridículo grito de batalha.
Portanto, este sou eu. Aqui estou, em perigo, batendo o pau duro contra o traseiro da desconhecida que estava louca
para morrer, e me dizendo que estou fazendo isso por ela, mas, a essa altura, também por mim, por Lara, por Claudia, por meu irmão e por todos aqueles que levariam cinco minutos para digerir a notícia de uma desconhecida que se afogou no mar debaixo do meu nariz, mas que sofreriam, chorariam e nunca mais seriam os mesmos se, aqui e agora, eu também me afogasse com ela. Estou fazendo isso, sim, para salvar, para me salvar, mas essa incongruência me assusta até mais que a morte, porque eu nunca tinha ficado tão perto dela, e constatar na prática que olhar a morte nos olhos me causa esse efeito e descobrir que, no fim das contas, depois de tanto pensar nela ou de evitar pensar nela, depois de tanto sofrer por causa dela naquele terrível 1999, quando ela levou primeiro o pai de Lara, depois sua mãe e, por fim, também a minha em apenas dez meses, e depois de tanto elaborá-la e, a partir daquele momento, aceitá-la, amansá-la e domesticá-la até torná-la uma espécie de dócil leoa de salão, a morte me excita a ponto de se associar a uma fantasia sexual extremamente decadente, que não me lembro de ter tido antes; tudo isso, merda, e não a morte em si, tudo isso me assusta.
No entanto, além de me assustar, me tranquiliza. É inacreditável, mas é assim. Apesar da objetiva incerteza que de repente baixou em minha sobrevivência, sinto de novo acima de mim a asa protetora da inviolabilidade. O que no ato de mergulhar no mar me foi prometido pelo olhar azul e nunca tão plural do meu irmão (“Vamos salvá-las, não vamos morrer”) e que desapareceu no primeiro contato com essa mulher, esse espírito-guia portador de juventude e invulnerabilidade de repente voltou a me visitar, dessa vez no singular (“Eu vou salvá-la, eu não vou morrer”), e agora percebo um lado operacional em meu esforço extremo, algo que até pouco tempo atrás não existia, como se eu tivesse realmente começado a salvar essa mulher apenas nesse momento. A ereção difundiu em mim um novo equilíbrio, a respiração se sincronizou com meus movimentos, e dou impulsos, empurro e avanço cegamente, resistindo à tentação de parar para recobrar o
fôlego ou mudar, mesmo que pouco, a posição para verificar por cima dos ombros dela quanto falta para chegar à praia –porque tanto faz quanto falta; tenho de chegar lá, e saber a distância não muda as coisas. Simplesmente sigo em frente, convulsivamente, compulsivamente, com essa carga de carne que estremece e soluça e ainda tenta se opor à minha ação heroica – porque não há dúvida de que, além de inconsciente, indecorosa e cada vez mais obscena, por causa da ereção e dos gemidos guturais que emito para marcar o esforço, como Serena Williams quando acerta a bola, não há dúvida de que minha ação é heroica. E há algo de extraordinário nessa nua repetição, uma espécie de zen, por tanto tempo buscado na vida, por meio das práticas mais diversas, nas idades mais diversas, para escapar das ameaças mais diversas, e do qual nunca cheguei perto, nem mesmo vagamente, mas que agora parece ter chegado do nada, graças a essa simples combinação de elementos primários – Eros, Tânatos, Psique –, finalmente reunidos em um único gesto simiesco…
De repente, porém, tudo isso não existe mais. Uma tremenda bofetada me afunda, e tudo muda em um segundo: não há mais mulher, não há mais luz, não há mais ar, tudo virou água. Sinto uma espécie de arpão cravar-se na minha perna e outro no flanco, e me debato mais pela dor que para tentar voltar à superfície; debato-me e nado feito um louco, como um robalo capturado por um arpão, embora, ao fazer isso, eu consiga voltar à superfície de modo totalmente casual, eu diria. Respiro, começo a enxergar de novo, mas a luz quase me cega, e agora a mulher me segura com força pela pelve, e os arpões são suas unhas cravadas no meu flanco. Por um longo instante, vejo seu rosto congestionado, seu olhar implorante, e tenho a impressão de que, com os olhos encharcados de terror, está me pedindo perdão, sim, está me prometendo que não vai mais me afundar, que vai se deixar salvar como deveria ter feito desde o início. Só que acabei perdendo o fôlego e já não consigo recuperar uma respiração regular, e meu coração está explodindo dentro do peito, e a ereção desapareceu, e
sinto a mordida das cãibras cada vez mais próxima, e me dou conta de que estamos exatamente no ponto em que as ondas rebentam, e tenho a repentina e absoluta certeza de que, com o fio de força que me restou, ainda consigo voltar para a praia sozinho, mas, a essa altura, está fora de questão que consiga arrastá-la também. E, não sei como, também entendo que não há mais tempo, que tenho de me desvencilhar dela o mais rápido possível, de imediato, se não quiser realmente morrer de maneira tão desoladora quanto comecei. De repente, odeio essa mulher. Mas como, sua desgraçada, você vem se afogar na minha frente, no lugar onde passei todos os meus verões desde pequeno, onde aprendi a nadar, a mergulhar de cabeça, a surfar, a velejar, a praticar esqui náutico e a mergulhar até quinze metros em apneia, sem cilindro, e por isso a me sentir imune, quero dizer, imune a morrer na água, e quando respondo ao seu chamado e faço o que você queria que eu fizesse, ou seja, venho correndo te salvar, embora nem te conheça e daqui a cinco dias vá me casar e tenha um monte de coisas a perder, provavelmente muito mais do que aquele cretino ruivo que me aconselhou a te deixar morrer, quando venho te socorrer, você tenta me matar? E depois se arrepende? Ah, vá à merda! Um soco. Decido dar um soco na cara dela e largá-la ali, para que morra sozinha, e me deixar levar até a praia por essa onda enorme, puta que pariu, realmente enorme, que está chegando, e estou para fazer isso, na verdade até já comecei a fazer, pois estou me curvando para trás para me colocar em posição de ataque, uma vez que ela se agarrou com as unhas no meu flanco, e o alvo – seu rosto meio submerso, desesperadamente virado para cima – agita-se na altura da concavidade dos meus joelhos, quando a onda enorme quebra em nós e tudo volta a ficar apenas escuridão, água e ganchos afundando cada vez mais em minha carne – agora, das coxas –, e não há mais embaixo nem em cima, é tudo um redemoinho indeciso de água, espuma, areia e bolhas de ar, até que, em meu movimento de derrota – a lânguida e inexorável torção dos afogados –, bato meu rosto no fundo. Pof. O baque me dá de
novo vida e orientação, e se essa é a parte de baixo, então do lado oposto está a parte de cima, e convoco minhas pernas para que me ajudem a subir, e elas chegam, sim, mas com enorme dificuldade, como se a elas estivesse agarrada não uma, mas uma dúzia de mulheres à beira da morte, e de algum modo consigo apoiar um pé no fundo e dar um impulso, mas que sai enviesado e decepcionante, realmente fraco demais em comparação com a força sobre-humana que me pareceu ter investido nele, e sinto que tudo está perdido, pois perdi a última chance de voltar à superfície e estou, de fato, morrendo, sim, é isso, agora vou morrer, nesse exato momento vou morrer, pronto, aconteceu, morri, um segundo atrás, morri afogado como um imbecil; depois disso, minha cabeça se encontra fora da água. Sim, caramba, minha cabeça está fora da água.
Enquanto tenho a impressão de respirar pela primeira vez na vida, vejo uma espécie de grande bico branco aproximando-se de mim e ouço uma voz gritar “Pegue! Pegue a prancha!”, e o faço no mesmo instante, automaticamente; cravo as unhas na placa de espuma como a mulher que mantém as suas cravadas na minha coxa, e a prancha nos puxa para a praia, o tanto necessário para eu e meu lastro humano nos encontrarmos fora do ponto de rebentação das ondas. Estico as pernas para baixo, e meus pés tocam o fundo – nunca, juro, nunca esse contato foi tão maravilhoso –, a água bate em meu peito, as ondas que me investem já estão fracas, são fios de espuma morta. Em um flash, vejo uma longa corrente humana avançar da praia em minha direção, como um trenzinho de festa, à frente do qual está um dos garotos, montado na prancha de surfe e me dizendo alguma coisa. Mas não entendo o que diz. Solto a prancha, minhas pernas me sustentam, tento me orientar, compreender. Enquanto isso, a corrente humana se rompe, e logo sinto falta dela: eu a vi apenas por um segundo, e foi uma daquelas visões inesquecíveis, que dão sentido a uma vida inteira – os outros de mãos dadas, com a intenção de te alcançar – e, obviamente, durou muito pouco. No entanto, mesmo apenas nesse instante, em sua incomensurável beleza, a visão me feriu, pois fez com
que, de repente, eu me sentisse salvo, merda, eu é que sou o salvador, e essa situação me parece insuportável. Por isso, logo retomo minha missão, agarro a mulher por debaixo das axilas, puxo-a para cima, porque parece disposta a se afogar até mesmo aqui, onde dá pé, mas a essa altura já são muitos em cima de mim, eles a tiram das minhas mãos e pretendem me carregar também, os babacas, sustentar-me, tranquilizar-me, e tenho de afastá-los, tenho de dizer que estou bem, que está tudo bem, que não preciso de nada, mas não tenho força para lutar, para defender minha presa e levá-la nos braços até a praia, como desejava, até seus filhos, salva, graças a mim. Não, não tenho força para isso, e a mulher vai embora, desliza suavemente, pendendo nos braços do homem de cabelos ruivos, ora vejam só, ou talvez não, não é ele que a segura nos braços, é outro, ele só está ao lado, mas, seja como for, está ali no momento decisivo, está saindo do mar junto com ela, com o grandalhão que a está segurando e com todos os outros que estão levando o mérito por tê-la salvado, inclusive o garoto na prancha, que ficou por último para verificar se estou bem, para saber se por acaso não quero me agarrar à sua prancha para me levar até a praia, e eu lhe repito que não, rosno para ele, estou bem, não preciso de nada, obrigado; ele também se volta para a multidão na areia, e fico sozinho. Pronto. Aí está. Não estou nada bem, claro: meu corpo treme, minha respiração ainda está ofegante, estou com frio, mas queria que acreditassem que estou bem, e eles acreditaram. Acreditaram e me deixaram sozinho. Respiro. Respiro. Respiro.
De repente, como se eu despertasse de um pesadelo extraordinário, as prioridades da minha vida voltam todas de uma vez à minha mente. Lara. Claudia. Carlo. Carlo. Há quanto tempo não penso nele? O que terá acontecido com ele? Olho ao redor, desesperado, como quem acredita ter perdido a própria filha no supermercado só porque se distraiu por um minuto, mas ela está por perto; e Carlo também está ali, a cerca de vinte metros contra o vento, ainda na água como eu, falando com o outro garoto da prancha de surfe, como eu
pouco antes, enquanto também ao seu redor os que parecem os restos de uma corrente humana formada para alcançá-lo e depois rompida para sempre estão se deslocando para a praia com sua vida humana salva. Carlo me vê e me acena. Aceno de volta para ele. Ele vem até mim. Vou até ele, e a já evidente simetria de nossas condições se torna perfeita quando o garoto com quem conversava também o deixa sozinho e vai cuidar da própria vida. Encontramo-nos no meio do caminho – de resto, como sempre quando ele e eu nos encontramos. Até nos abraçamos. Contamos um ao outro como foi, e foi mais ou menos do mesmo modo para ambos. Mostramos os arranhões, as estrias ensanguentadas que nossas duas moribundas (a dele também era uma mulher) deixaram em todo o nosso corpo. Mas Carlo está menos perturbado que eu, brinca, ri, não deve ter corrido risco de morrer como eu ou então deve ter ficado menos impressionado, o que me faz sentir certa vergonha. Enquanto isso, caminhamos lentamente até a praia; a água bate em nossa cintura, o som do frenesi dos socorristas em ação também começa a chegar até nós – as vozes se sobrepõem convulsivamente e se sincronizam com o caos dos movimentos ao redor do ponto em que as duas mulheres foram deitadas. Sorrindo, Carlo olha para mim.
– Sabe o que está para acontecer? – diz.
– O quê?
– Estamos saindo da água, certo?
A água já bate em nossas coxas, estamos quase chegando.
– Sim – respondo.
– Bom, vamos ver se estou errado – diz Carlo –, mas, na minha opinião, se pisarmos na praia e ninguém nos agradecer, será como não ter feito nada.
– Sim, e onde fomos parar?
Continuamos a avançar, agora a água já bate em nossos joelhos. Ninguém repara em nós, todos estão concentrados em seu trabalho de salvamento. Carlo continua a sorrir, e eu continuo a tremer e a sentir frio. A água já está em nossas panturrilhas, ninguém nos vê. Nos tornozelos; ninguém nos considera.
– Daqui a três passos – diz Carlo –, seremos apenas dois babacas que vieram ver o que aconteceu.
– Não é possível – respondo, mas, a essa altura, também tenho a mesma sensação.
Pronto, estamos fora da água. Ninguém se digna a olhar para nós. Muitos estão ocupados com seus celulares, parece que há um problema com as ambulâncias. Outros – a maioria – estão aglomerados ao redor das duas mulheres deitadas na areia. Carlo se aproxima de um dos grupos, abre caminho, e o sigo. Trata-se da mulher que salvei: estendida, pálida como a morte e enrolada em toalhas, está bebendo água de um copo de papel. Todos estão ao seu redor: o grandalhão que a levou para a praia, o homem de cabelos ruivos, mais dois homens, as crianças, alguns velhos com o semblante perturbado, o garoto da prancha. Eles me veem, mas é como se eu fosse outra pessoa. Não me reconhecem. A mulher, por sua vez, nem me vê: com o olhar apagado, a expressão de sofrimento, está acariciando os filhos agachados ao seu lado, no que parece uma cena insuportavelmente íntima. Carlo dá alguns passos para trás, e eu com ele. Um muro de carne logo cobre a mulher e meu campo de visão. Carlo se dirige a uma senhora de pele flácida e uma celulite devastadora nas coxas.
– O que aconteceu? – pergunta a ela.
– Duas mulheres quase se afogaram – responde, mexendo no celular. – Hoje não era dia para entrar na água. Deveriam ter posto salva-vidas, bandeiras vermelhas. Primeiro foi um homem, depois essas duas, coitadas.
– Pois é – diz Carlo, depois olha para mim e dá uma risadinha. – Mas elas estão bem? Quero dizer, foram salvas?
– Sim – diz a mulher. – Mas não há ambulâncias. Na cidade só tem uma e está fora.
– Pois é – repete Carlo.
Nesse momento, é quase insuportável olhar para ele. Está todo cheio de si por ter acertado: salvamos duas babacas em meio a um punhado de babacas que, por serem babacas, nem se deram conta de quem somos. E o fato de ele ter entendido isso antes de mim é a última humilhação.
Afastamo-nos. Para essa gente, espreitamos por um instante um drama alheio e retomamos nosso passeio. Pegamos nossas toalhas, recolhemos as coisas que havíamos deixado ali e partimos da praia em silêncio. No celular há quatro ligações de casa; de fato, já está bem tarde, passa das duas e meia, Lara e Claudia devem estar preocupadas. Decido não ligar de volta, pois, de todo modo, em cinco minutos estaremos em casa e explicarei tudo. Só que não sei como passar esses cinco minutos; tenho muitas coisas se amontoando na minha cabeça e não consigo falar, estou furioso com o mundo e tenho a triste sensação de que, se Carlo não disser nada, esses cinco minutos vão cavar um sulco profundo também entre nós. Nada menos do que isso, sim. Um sulco profundo, nada menos do que isso. – Mas que cretinos sem tamanho! – solta Carlo enquanto descemos a ruazinha entre as dunas. E é uma verdadeira felicidade ouvi-lo dizer isso, porque agora também posso dizer o mesmo, podemos conversar e, conversando, podemos afirmar que, no fim das contas, estamos pouco nos lixando para aquela gente, que o que importa é que estamos vivos, somos irmãos, fizemos juntos uma coisa que ninguém mais podia fazer, assim, por generosidade, e estamos indo contar a história a pessoas que nos esperam e nos querem bem. Em poucas frases, reencontramos a distância certa de tudo o que aconteceu, o cinismo certo, a ironia certa, e vamos para casa arrastando os chinelos, rindo e gritando palavrões para o mundo – nós dois, homens feitos –, como os dois meninos que fomos, juntos, por um período até mesmo inseparáveis, como o Gordo e o Magro. Quando entramos na pequena alameda de casa, preparo a versão edulcorada para contar a Lara e a Claudia – sem ereção, sem todo aquele perigo de morte –, concentrada na não mais terrível, mas agora simplesmente cínica e até alegre constatação de que, na vida, também é possível fazer algo grandioso, como salvar uma pessoa que está se afogando, e ninguém te agradecer por isso; e automaticamente me pergunto se não seria um pouco demais para uma menina de 10 anos como Claudia, se não seria o caso de protegê-la também desse tipo
de coisa, contando a história de maneira ainda mais edulcorada ou até mentindo (“…a certa altura formamos duas correntes humanas com todos que estavam na praia, não é mesmo, Carlo? E empurramos os rapazes com as pranchas até as mulheres, para que pudessem se agarrar a elas e…”): e, nesse momento, vejo a luz azul e intermitente do giroflex. Olho para Carlo, que também parece surpreso, aperto o passo e, no fundo da alameda, estacionada ao lado de nossos carros, vejo a ambulância com as portas abertas. Começo a correr para casa e, nos dez metros percorridos, vejo, nesta ordem: nossos vizinhos da direita, os Bernocchi; os da esquerda, os Valiani; Maria Grazia, a faxineira; Mac, babá de Claudia, e Claudia abraçada a ela. Por um longo instante não vejo mais nada, e o que vejo já é suficiente para me sentir invadido por uma ansiedade insuportável. Mas não vejo que Lara não está em meio a todas aquelas pessoas que choram, abaladas. Não vejo nem mesmo que Lara está ali, sim, e justamente no centro da cena, rodeada pelo médico e pelos maqueiros, estendida no chão perto de uma inútil maca reluzente, rodeada pelos cacos brancos de uma bandeja despedaçada e por manchas vermelhas e amarelas espalhadas no piso ao seu redor (presunto e melão), bonita, bronzeada e imóvel, em uma pose esquisita e artificial. Por um longo instante, não vejo tudo isso, mas depois vejo; de repente, de uma só vez, vejo tudo, porque não há o que fazer: no centro da cena, na minha casa, diante da minha filha, das minhas duas funcionárias, dos dois casais de vizinhos e do meu irmão que acabou de chegar comigo, com uma ambulância que emite luzes intermitentes estacionada no fundo, ao lado do meu carro, tudo isso existe.
O romance que rendeu a Sandro Veronesi seu primeiro Prêmio Strega. Também vencedor do Prêmio Femina Étranger.
“Acabei de descobrir que há na internet 2.180 sites que mencionam quiet chaos. Tentei abrir alguns, mas eram muito pesados, e meu celular não conseguia. O único que abriu foi este, e agora tenho uma definição de caos calmo: uma caçada que nunca termina, uma caçada em que, de um momento para outro, o caçador pode transformar-se em presa. O que isso tem a ver com a minha vida? Pode ser interessante refletir a respeito. Mas antes pode ser interessante refletir sobre como cheguei até aqui.”
“Sandro Veronesi é desses autores que, através da ficção, nos deixam cara a cara com a verdade. E, com a verdade, nos fazem pensar sobre os valores, sobre a ética, sobre a bondade e a maldade, sobre as contradições, tudo aquilo de que somos feitos.” – Tatiana Salem Levy, Valor Econômico
“Ao contrastar o ontem e o hoje, Veronesi é um convite a refletir sobre as mudanças na sociedade, o embrutecimento das pessoas e a deterioração da vida em comunidade. É nostalgia que ajuda a pavimentar o presente.” – Alessandro Giannini, Veja
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KARINA JANNINI
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