CHAUI
Brasil: mito fundador e sociedade autoritária
TEXTOS
SINGULARES NÃO FICÇÃO
Copyright © 2013 Marilena Chaui
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assistente editorial
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revisão
Cecília Martins
Lira Córdova
Lizete Mercadante Machado
capa
Alberto Bittencourt diagramação
Guilherme Fagundes
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
Chaui, Marilena
Brasil: mito fundador e sociedade autoritária / Marilena Chaui. -- 1. ed. -- Belo Horizonte, MG : Autêntica Editora, 2026. -- (Textos Singulares)
Bibliografia.
ISBN 978-65-5928-641-6
1. Brasil - Civilização 2. Brasil - História 3. Características nacionais brasileiras I. Rocha, André. II. Itokazu, Éricka Marie. III. Santiago, Homero. IV. Título. V. Série.
25-305645.0 CDD-981
Índices para catálogo sistemático: 1. Brasil : História 981
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7 Brasil: mito fundador e sociedade autoritária
9 Com fé e orgulho
13 Mito fundador
15 A nação como semióforo
20 A nação: uma invenção recente
37 O verde-amarelismo
56 Porque me ufano de meu país
69 O mito fundador
112 “Brasil 500”: comemorar?
Brasil: mito fundador e sociedade autoritária1
1 Versão revista e ampliada do texto Brasil 500. Mito fundador e sociedade autoritária originalmente publicado pela Editora Fundação Perseu Abramo, São Paulo, 2000.
Com fé e orgulho
Ama com fé e orgulho a terra em que nasceste. Criança! Jamais verás país nenhum como este. Olha que céu, que mar, que floresta! A natureza aqui perpetuamente em festa É um seio de mãe a transbordar carinhos. [...]
Imita na grandeza a terra em que nasceste. Olavo Bilac
Na escola, todos aprendemos o significado da bandeira brasileira: o retângulo verde simboliza nossas matas e riquezas florestais; o losango amarelo, nosso ouro e nossas riquezas minerais; o círculo azul estrelado, nosso céu, onde brilha o Cruzeiro do Sul, indicando que nascemos abençoados por Deus; e a faixa branca, na qual lemos “Ordem e Progresso”, simboliza o que somos: um povo ordeiro e progressista. Sabemos por isso que o Brasil, com entoa nosso Hino Nacional, é um “gigante pela própria natureza”, que nosso céu tem mais estrelas, nossos bosques têm mais flores e nossos mares são mais verdes. Aprendemos que por nossa terra passa o maior rio do mundo e existe aqui a maior floresta tropical do planeta, que somos um país continental
cortado pela linha do Equador e pelo trópico de Capricórnio, o que nos faz um país de contrastes regionais cuja riqueza natural e cultural é inigualável. Aprendemos que somos “um dom de Deus e da Natureza” porque nossa terra desconhece catástrofes naturais (ciclones, furacões, vulcões, desertos, nevascas, terremotos) e que aqui, “em se plantando, tudo dá”. Todos nós fazemos nossas as palavras daquele é considerado o primeiro historiador brasileiro do Brasil, Rocha Pita, quando, em 1730, escreveu:
Em nenhuma outra região se mostra o céu mais sereno, nem madruga mais bela a aurora; o sol em nenhum outro hemisfério tem raios tão dourados, nem os reflexos noturnos tão brilhantes; as estrelas são mais benignas e se mostram sempre alegres […] as águas são mais puras; é enfim o Brasil Terreal Paraíso descoberto, onde têm nascimento e curso os maiores rios; domina salutífero o clima; influem benignos astros e respiram auras suavíssimas, que o fazem fértil e povoado de inumeráveis habitadores.2
Sabemos todos que somos um povo novo, formado pela mistura de três raças valorosas: os corajosos índios, os estoicos negros e os bravos e sentimentais lusitanos. Quem de nós ignora que da mestiçagem nasceu o samba, onde se exprimem a energia índia, o ritmo negro e a melancolia portuguesa? Quem não sabe que a mestiçagem é responsável por nossa ginga, inconfundível marca dos campeões mundiais do futebol? Há quem não saiba que, por sermos
2 Pita, Sebastião da Rocha. História da América Portuguesa, apud Carvalho, José Murilo de. O motivo edênico no imaginário social brasileiro. In: Pandolfi, Dulce Chaves et al. (Org.). Cidadania, justiça e violência. Rio de Janeiro: Editora da FGV, 1999, p. 21.
mestiços, desconhecemos preconceito de raça, cor, credo e classe? Afinal, Nossa Senhora, quando escolheu ser nossa padroeira, não apareceu negra?
Aprendemos também que nossa história foi escrita sem derramamento de sangue, com exceção de nosso Mártir da Independência, Tiradentes; que a grandeza do território foi um feito da bravura heroica do Bandeirante, da nobreza de caráter moral do Pacificador, Caxias, e da agudeza fina do Barão do Rio Branco; e que, forçados pelos inimigos a entrar em guerras, jamais passamos por derrotas militares. Somos um povo que atende ao chamamento do país e que diz ao Brasil: “Mas se ergues da justiça a clava forte / Verás que um filho teu não foge à luta / Nem teme quem te adora a própria morte”. Não tememos a guerra, mas desejamos a paz. Em suma, somos um povo bom, pacífico e ordeiro, convencido de que “não existe pecado ao sul do Equador”. Duas pesquisas recentes de opinião,3 realizadas em 1995, uma delas pelo Instituto Vox Populi e a outra pelo Centro de Pesquisa e Documentação (CPDOC), indagaram se os entrevistados sentiam orgulho de ser brasileiros e quais os motivos para o orgulho. Enquanto quase 60% responderam afirmativamente, somente 4% disseram sentir vergonha do país. Quanto aos motivos de orgulho, foram enumerados, em ordem decrescente: a natureza, o caráter do povo, as características do país, esportes/música/carnaval. Quanto ao povo brasileiro, de que os entrevistados se sentem orgulhosos, para 50% dos entrevistados a imagem apresentava os seguintes traços, também em ordem decrescente: trabalhador/lutador, alegre/divertido, conformado/solidário e sofredor.
3 Mencionada por Carvalho, José Murilo, op. cit., loc. cit.
Mesmo que não contássemos com pesquisas, cada um de nós experimenta no cotidiano a forte presença de uma representação homogênea que os brasileiros possuem do país e de si mesmos. Essa representação permite, em certos momentos, crer na unidade, identidade e indivisibilidade da nação e do povo brasileiros, e, em outros momentos, conceber a divisão social e a divisão política sob a forma dos amigos da nação e dos inimigos a combater, combate que engendrará ou conservará a unidade, a identidade e indivisibilidade nacionais. Eis por que algumas pesquisas de opinião indicam que uma parte da população atribui os males do país à colonização portuguesa, à presença dos negros ou dos asiáticos e, evidentemente, aos maus governos, traidores do povo e da pátria. Nada impede, porém, que em outras ocasiões o inimigo seja o “gringo” explorador ou alguma potência econômica estrangeira. A representação é suficientemente forte e fluida para receber essas alterações que não tocam em seu fundo.
Há, assim, a crença generalizada de que o Brasil: 1) é “um dom de Deus e da Natureza”; 2) tem um povo pacífico, ordeiro, generoso, alegre e sensual, mesmo quando sofredor; 3) é um país sem preconceitos (é raro o emprego da expressão mais sofisticada “democracia racial”), desconhecendo discriminação de raça e de credo, e praticando a mestiçagem como padrão fortificador da raça; 4) é um país acolhedor para todos os que nele desejam trabalhar e, aqui, só não melhora e só não progride quem não trabalha, não havendo por isso discriminação de classe e sim repúdio da vagabundagem, que, como se sabe, é a mãe da delinquência e da violência; 5) é um “país dos contrastes” regionais, destinado por isso à pluralidade econômica e cultural. Essa crença se completa com a suposição de que o que ainda falta ao país é a modernização – isto é, uma economia avançada,
com tecnologia de ponta e moeda forte –, com a qual se sentará à mesa dos donos do mundo.
A força persuasiva dessa representação transparece quando a vemos em ação, isto é, quando resolve imaginariamente uma tensão real e produz uma contradição que passa despercebida. É assim, por exemplo, que alguém pode afirmar que os índios são ignorantes, os negros são indolentes, os nordestinos são atrasados, os portugueses são burros, as mulheres são naturalmente inferiores, mas, simultaneamente, declarar que se orgulha de ser brasileiro porque somos um povo sem preconceitos e uma nação nascida da mistura de raças. Alguém pode dizer-se indignado com a existência de crianças de rua, com as chacinas contra essas crianças ou indignado com o desperdício de terras não cultivadas e os massacres contra os sem-terra, mas, ao mesmo tempo, afirmar que se orgulha de ser brasileiro porque somos um povo pacífico, ordeiro e inimigo da violência. Em suma, essa representação permite que uma sociedade que tolera a existência de milhões de crianças sem infância e que, desde o seu surgimento, pratica o apartheid social possa ter de si a imagem positiva de sua unidade fraterna, ocultando para si mesma a violência social que a constitui. Se indagarmos de onde proveio essa representação e de onde ela tira sua força sempre renovada, seremos levados em direção ao mito fundador do Brasil, cujas raízes foram fincadas em 1500.
Ao falarmos em mito, nós o tomamos não apenas no sentido etimológico de narração pública de feitos lendários da comunidade (isto é, no sentido grego da palavra
mythos), mas também no sentido antropológico, no qual essa narrativa é a solução imaginária para tensões, conflitos e contradições que não encontram caminhos para serem resolvidos no nível da realidade.
Se também dizemos mito fundador é porque, à maneira de toda fundatio, esse mito impõe um vínculo interno com o passado como origem, isto é, com um passado que não cessa nunca, que se conserva perenemente presente e por isso mesmo não permite o trabalho da diferença temporal e da compreensão do presente enquanto tal. Nesse sentido, falamos em mito também na acepção psicanalítica, ou seja, como impulso à repetição de algo imaginário, que cria um bloqueio à percepção da realidade e impede lidar com ela.
Insistimos na expressão “mito fundador” porque diferenciamos fundação e formação.
Quando os historiadores falam em formação, referemse não só às determinações econômicas, sociais e políticas que produzem um acontecimento histórico, mas também pensam em transformação e, portanto, na continuidade ou na descontinuidade dos acontecimentos percebidos como processos temporais. Numa palavra, o registro da formação é a história propriamente dita, aí incluídas suas representações, sejam aquelas que conhecem o processo histórico, sejam as que o ocultam (isto é, as ideologias).
Diferentemente da formação, a fundação se refere a um momento passado imaginário, tido como instante originário que se mantém vivo e presente no curso do tempo, isto é, a fundação visa a algo tido como perene (quase eterno) que traveja e sustenta o curso temporal e lhe dá sentido. A fundação pretende situar-se além do tempo, fora da história, num presente que não cessa nunca sob a multiplicidade de formas ou de aspectos que pode tomar. Não só isso. A marca peculiar
da fundação é a maneira como ela põe a transcendência e a imanência do momento fundador: a fundação, enquanto imanente, aparece emanando da sociedade (no nosso caso, da nação) e, simultaneamente, enquanto transcendente, engendrando essa própria sociedade (ou a nação) da qual ela emana. É por isso que estamos nos referindo à fundação como mito.
O mito fundador oferece um repertório inicial de representações da realidade e, em cada momento da formação histórica, esses elementos são reorganizados tanto do ponto de vista de sua hierarquia interna (isto é, qual o elemento principal que comanda os outros) como da ampliação de seu sentido (isto é, novos elementos vêm se acrescentar ao significado primitivo). Assim, as ideologias, que necessariamente acompanham o movimento histórico da formação, alimentam-se das representações produzidas pela fundação, atualizando-as para adequá-las à nova quadra histórica. É exatamente por isso que, sob novas roupagens, o mito pode repetir-se indefinidamente.
Um mito fundador é aquele que não cessa de encontrar novos meios para exprimir-se, novas linguagens, novos valores e ideias, de tal modo que, quanto mais parece ser outra coisa, tanto mais é a repetição de si mesmo.
A nação como semióforo
Existem alguns objetos, animais, acontecimentos, pessoas e instituições que podemos designar com o termo semióforo. 4
4 Pomian, Krysztof. Entre l’invisible et le visible. Libre, n. 3, 1987. Acompanharemos aqui as linhas gerais do belo estudo de Pomian, modificando alguns aspectos de sua análise e acrescentando outros, necessários para nossos propósitos.
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