AMOR, JUSTIÇA E TENSÃO RACIAL NO CORAÇÃO DO TEXAS tradução de
Luis Reyes Gil
Copyright © 2017 by Attica Locke Publicado em acordo com Little, Brown and Company, New York, New York, EUA. Todos os direitos reservados.
Título original: Bluebird, Bluebird
Todos os direitos reservados pela Editora Vestígio. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
editor responsável
revisão
Arnaud Vin
Eduardo Soares
editor assistente
adaptação de capa
Eduardo Soares
Diogo Droschi
preparação de texto
diagramação
Pedro Pinheiro
Guilherme Fagundes
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
Locke, Attica Bluebird, Bluebird / Attica Locke ; tradução Luis Reyes Gil. – 1. ed. – São Paulo : Editora Vestígio, 2020. Título original: Bluebird, Bluebird. ISBN: 978-85-54126-68-1 1. Ficção norte-americana I. Título. 20-32577
CDD-813 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura norte-americana 813 Iolanda Rodrigues Biode - Bibliotecária - CRB-8/10014
A VESTÍGIO É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA São Paulo Av. Paulista, 2.073, Conjunto Nacional, Horsa I 23º andar . Conj. 2310-2312 . Cerqueira César . 01311-940 São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468 www.editoravestigio.com.br
Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465 4500
Para os Hathorne Jackson Johnson Jones Locke Mark McClendon McGowan Perry Sweats Williams homens e mulheres que disseram nĂŁo
I told him, “No, Mr. Moore”. – Lightnin’ Hopkins, “Tom Moore Blues” Eu disse a ele “Não, senhor Moore”.
Condado de Shelby
Texas, 2016
geneva sweet fez correr uma extensão elétrica laranja por “Mayva Greenwood, Amada Esposa e Mãe, que Descanse nos Braços do Pai Celestial”. O sol do final da manhã filtrava-se entre as árvores, criando uma constelação de pontos luminosos no manto de ramos de pinheiro aos pés de Geneva, enquanto ela fazia serpentear a extensão entre a irmã de Mayva e seu marido, “Leland, Pai e Irmão em Cristo”. Deu um bom puxão no fio e foi subindo o morrinho, cuidando para não pisar nos túmulos, só nas trilhas gastas entre as lápides, dispostas em ângulos aleatórios e bizarros, como os dentes de um desvalido. Ela carregava um saco de papel do supermercado Brookshire Brothers, de Timpson, junto com um radinho, de onde uma gravação de Muddy Waters, um dos favoritos de Joe, soava estridente pelos alto-falantes – Have you ever been walking, walking down that ol’ lonesome road 1. Quando chegou ao local de “Descanso Final de Joe ‘Petey Pie’ Sweet, Marido e Pai e, Perdoe-o, Senhor, um Demônio na Guitarra”, ela pôs o rádio com todo o cuidado em cima de um bloco polido de granito e enrolou a extensão em seu esconderijo atrás da lápide. Havia, ao lado desta, outra lápide idêntica em formato e tamanho. Pertencia a outro Joe Sweet, quarenta anos mais novo e tão morto quanto. Geneva abriu a sacola de papel e tirou de lá um pratinho de papelão embrulhado em papel alumínio, uma oferenda ao seu único filho. Duas tortas fritas, meias-luas perfeitas de massa enrolada à mão com recheio de açúcar mascavo e frutas, e pinceladas 1
“Você já andou, andou por essa velha estrada solitária?” [N.E.] 11
com banha – a especialidade de Geneva e o doce favorito de Lil’ Joe. Ela sentiu sua quentura através do fundo do pratinho, o aroma da manteiga atenuando a forte pungência do pinho no ar. Equilibrou o pratinho na lápide e curvou-se para varrer as agulhas de pinheiro caídas nos túmulos, com uma das mãos o tempo todo apoiada numa laje de granito, sempre atenta à artrite dos joelhos. Abaixo dela, uma carreta de dezoito rodas rasgava a Rodovia 59, e mandava para o alto uma rajada de ar quente fumarento através das árvores. Era um mês de outubro abafado, mas naqueles dias todos os outubros eram assim. Quase 26 ºC, ouvira dizer, e lá estava ela pensando que já era hora de arrancar as decorações de férias do trailer dos fundos, onde morava. Mudança climática, é assim que eles chamam agora. Isso aí vai continuar, e acho que vou viver tempo suficiente para ver o inferno na Terra. Ela disse isso tudo aos dois homens da vida dela. Falou também da nova loja de tecidos em Timpson. Que a Faith andava atazanando-a por causa de um carro. Falou do tom horrível de amarelo com que o Wally pintara a icehouse.2 Parece que alguém tossiu uma porção enorme de catarro e atirou nas paredes. Mas não mencionou os assassinatos, nem a encrenca que fervilhava na cidade. Concedeu-lhes esse tantinho de paz. Beijou as pontas dos dedos e pousou-os sobre a primeira lápide, depois sobre a segunda. Deixou seu toque demorar-se no túmulo do filho, soltando um suspiro cansado. A morte parecia querer acompanhá-la a vida toda. Era como uma sombra astuciosa às suas costas, tão obstinada quanto um cão numa caçada; e igualmente fiel, também. Ouviu um crepitar de agulhas de pinheiro atrás dela, um farfalhar de folhas sopradas dos choupos vizinhos, e ao dar meia-volta deu de cara com Mitty, o jardineiro negro do cemitério.
2
Antes da difusão da eletricidade, muitas propriedades nos EUA mantinham nos fundos uma pequena edificação para guardar gelo, a icehouse ou “armazém de gelo”. Várias delas foram mais tarde adaptadas para outros fins, algumas como lojas ou bares de beira de estrada. [N.T.] 12
– Agora estão usando pilhas nessas coisas aí – ele disse, indicando com a cabeça o radinho e encostando o corpo na lápide de concreto de “Beth Anne Solomon, Filha e Irmã, que Tão Cedo Partiu”. – Me manda a conta do gás assim que chegar – disse Geneva. Mitty era mais velho que Geneva, beirava os 80 anos, talvez. Um homem de pele escura, baixinho, pernas finas como dois galhinhos e frágeis como giz. Passava as tardes na cabaninha da propriedade, afugentando cães vadios e outros bichos. Cinco dias por semana era visto ali com uma revista de corridas de automóveis e um charuto, tomando conta daquela reunião de almas, vigiando seu futuro lar. Tolerava o jeito peculiar de Geneva cuidar dos mortos – as cobertas no inverno, as luzinhas dependuradas no Natal, as tortinhas, um blues cantarolado baixinho. Estava agora de olho nos doces, e até estendeu um dedo e levantou o papel alumínio, para xeretar. – São de pêssego – Geneva disse – e nenhum deles vem com o seu nome escrito. A caminhada morro abaixo era sempre mais dura que a subida para os seus joelhos, e dessa vez não foi diferente. Ela fez uma careta de dor ao começar a andar em direção ao carro, e foi arrancando fiapos soltos da malha do marido, uma das últimas que ainda estavam mais ou menos boas para usar todo dia. O Grand Am ’98 dela estava estacionado num trecho de terra vermelha com tufos de grama, junto à rodovia de quatro pistas. Nem bem havia tirado a chave do carro da bolsa e já flagrou Mitty comendo uma das tortinhas. Geneva revirou os olhos. O homem não era capaz de lhe conceder nem a cortesia básica de esperar que fosse embora. Entrou no seu Pontiac e saiu devagar daquele estacionamento improvisado, de olho nas carretas e nos carros em alta velocidade, antes de entrar na Rodovia 59 rumo ao norte, até Lark. Dirigiu em silêncio aquele trecho de um quilômetro e pouco até sua casa, repassando mentalmente o estoque. Precisava comprar duas latas de meio litro de coquetel de frutas, oito alfaces, refil para a máquina de refrigerantes, as garrafas de Dr Pepper que ela nunca conseguia 13
manter em estoque, e mais uma garrafa ou duas de uísque Ezra Brooks, que guardava debaixo da caixa registradora para os clientes habituais. Ficou matutando se o xerife já teria voltado ou não, se a confusão que se desenrolara no seu quintal dos fundos naquela manhã ainda estaria ali, com aquela garota deitada totalmente sozinha. Tinha uma vaga preocupação com as possíveis repercussões de tudo aquilo para o seu negócio, mas mais do que tudo tentava compreender que raios estaria acontecendo naquela cidade em que passara todos os seus 69 anos. Dois corpos numa só semana. Que diabos estava acontecendo? Reduziu a velocidade e saiu da estrada, parando em frente ao Geneva Sweet’s Sweets, um café de telhado plano e pé direito baixo, pintado de vermelho e branco. Tinha cortinas amarradas com fita nas janelas e uma placa com uma seta luminosa indicando a porta da frente. Letras em vermelho e preto anunciavam sanduíche de carne de porco 4,99 dólares e as melhores tortinhas fritas do condado de shelby. Estacionou no lugar de sempre, uma área com uma ranhura na terra correspondente às rodas de um Pontiac, ao lado do café, entre o revestimento externo de madeira e os arbustos no terreno aberto do outro lado. Estava no local havia décadas, desde os tempos em que era apenas o Geneva’s, uma cabana de um só cômodo, construída à mão. Os lugares pavimentados para estacionar, junto à bomba de gasolina, eram para os clientes. E para Wendy, é claro, parceira de negócios de Geneva havia um tempo. O velho Mercury verde dela estava estacionado bem junto à porta da frente. O carro de vinte anos, enferrujado, parecia uma pinhata arrebentada, cheia de placas de veículo antigas, panelas de ferro, dois suportes de peruca, roupas velhas e uma pequena TV, com a antena projetada para fora da janela traseira esquerda. O sininho de metal na porta do café soou suavemente quando Geneva entrou. 14
Dois de seus clientes habituais, sentados ao balcão, ergueram a cabeça para olhar: Huxley, um aposentado local, e Tim, um caminhoneiro, que fazia a rota Houston-Chicago semana sim, semana não. – O xerife está aqui –, disse Huxley quando Geneva passou por trás dele. No final do balcão, ela levantou a portinhola que dava para o seu “escritório central”, um espaço entre a cozinha e seus clientes. – Chegou meia hora depois que você saiu –, disse, e tanto ele quanto Tim giraram o pescoço para avaliar a reação dela. – Deve ter vindo a 140 por hora o caminho todo – disse Tim. Geneva manteve os lábios apertados, engolindo a raiva a seco. Tirou um avental de um gancho ao lado da porta que levava à cozinha. Um avental velho, amarelo, com duas rosas desbotadas como bolsos. – Com o outro, ficou aqui o dia inteiro, não foi isso que você contou? – Tim estava na metade de um sanduíche de presunto e falando de boca cheia. Ele engoliu a comida e empurrou-a com um gole de Coca. – Van Horn daquela vez não teve a menor pressa. – O xerife? – Wendy disse do seu lugar na outra ponta do balcão. Estava sentada em frente a uma fileira de potes de vidro com tampa, preenchidos com o que havia de melhor na horta dela. Pimentas vermelhas, tomates verdes em fatias entremeados com repolho e cebolas, quiabos inteiros no vinagre. Geneva levantou os potes um por um, segurando-os contra a luz e inspecionando bem a vedação. – Tenho algumas outras coisas lá fora – disse Wendy enquanto Geneva tirava um marcador do bolso do avental e anotava o preço na tampa de cada pote. – Vou ficar com os picles e o quiabo em conserva – disse Geneva –, mas não quero saber do resto dessa tralha toda que você tenta vender. – Ela indicou com um gesto de cabeça o lado de lá da janela, onde estava o carro de Wendy. As duas eram da mesma idade, embora Wendy tivesse tendência a reajustar sua idade a cada ano, dependendo do seu público ou do seu humor. Era uma mulher baixinha, 15
ombros masculinos e uma displicência estudada em relação à própria aparência. O cabelo era grisalho e preso num coque apertado. Pelo menos havia sido um coque apertado logo depois que ela se penteara, o que devia ter ocorrido em algum ponto entre três e sete dias atrás. Vestia a metade de baixo de um terninho amarelo, uma camiseta desbotada do time de basquete Houston Rockets e uma botinha de couro masculina. – Geneva, as pessoas gostam de comprar trecos antigos na beira da estrada. Elas se sentem bem com isso, se convencem de que estão vivendo melhor agora. Chamam de antiguidades. – Eu chamo de ferro-velho – disse Geneva. – E a resposta é “não”. Wendy deu uma olhada geral no café; Geneva, Tim e Huxley, dois outros clientes sentados numa das cabines de vinil, até chegar do lado oposto, onde terminava o serviço de comida e Isaac Snow alugava quatro metros quadrados para colocar um espelho e uma cadeira de barbeiro verde-ervilha. Isaac era um cara magro, de quase 60 anos, negro de pele mais clara, sardas acobreadas. Falava o mínimo necessário, mas por dez paus cortava o cabelo de quem pedisse. Se não aparecia ninguém, Geneva punha o homem para varrer o local e ele fazia jus às três refeições por dia que comia da cozinha dela. O Senhor não pusera no mundo nenhuma alma que Geneva se negasse a alimentar. Seu café nascera da ideia de que pessoas negras que não tivessem onde fazer uma parada em nenhum outro lugar no condado, bem, podiam parar ali. Fazer uma boa refeição, tomar uns goles de uísque, desde que não saíssem da linha; ter o cabelo aparado antes de ir ver a família mais ao norte ou se apresentar para um emprego que, esperava-se, ainda estaria lá quando você chegasse, porque, se não estivesse, não tinha motivo para atravessar aquele inferno do Arkansas. Quarenta e tantos anos do fim de Jim Crow, e quase nada havia mudado; Geneva estava tão conservada no tempo quanto os calendários que amarelavam nas paredes do café. Era uma constante à beira de uma rodovia que sempre levava pessoas a passar por ela. 16
Wendy olhou os rostos negros no salão, tentando descobrir a razão daquela atmosfera tão pesada, de uma tensão quase palpável. Atrás dela, o jukebox saltava para outra das cinquenta canções que tocavam o dia inteiro, e agora era a vez de uma balada de Charley Pride com um toque de angústia gospel, uma súplica melancólica por graça. Por um momento, ninguém falou. Wendy então dirigiu-se a Geneva. – Que diabos deixou você tão mal-humorada esta manhã? – O xerife Van Horn está lá atrás – disse Huxley, apontando com a cabeça para a parede do fundo do café, repleta de calendários com as pontas viradas para cima, com anúncios de tudo, de cerveja barata a uma casa funerária local, à campanha fracassada de Jimmie Clark nas eleições para comissário do Condado, tudo remontando a quinze anos antes. Do outro lado da parede do fundo, ficava a cozinha, onde Dennis preparava uma panelada de rabada. Geneva podia sentir o cheiro de folhas de louro imersas em gordura de carne e alho, cebola e fumaça líquida. Para lá da porta de tela da cozinha ficava uma área grande, de terra vermelha pontuada por tufos de botões-de-ouro e capim-colchão, que se estendia por uns cem metros até as margens de um córrego cor de ferrugem que delimitava a fronteira oeste do Condado de Shelby. – E ele veio com mais três policiais. – O que está acontecendo? Geneva suspirou. – Eles tiraram um corpo do córrego esta manhã. Wendy olhou pasma. – Outro? – De uma pessoa branca. – Xi, que merda. Huxley assentiu, afastando seu café. – Vocês todos lembram quando aquela garota branca foi morta lá em Corrigan; eles interrogaram todos os homens pretos num raio de cinquenta quilômetros. Reviraram igrejas e botecos, todos os negócios geridos por pretos, atrás do assassino ou de qualquer um que se encaixasse na descrição que tinham em mente. 17
Geneva sentiu alguma coisa se remexer no seu peito, sentiu que o medo que vinha tentando conter abria caminho, crescendo até parecer sufocá-la por dentro. – E ninguém mexeu uma palha a respeito do preto morto lá na estrada rural na semana passada – disse Huxley. – Eles já nem pensam mais naquele homem – disse Tim, atirando um guardanapo engordurado no prato. – Mas a coisa muda de figura quando é uma moça branca que aparece morta. – Anote o que estou dizendo – disse Huxley, olhando sério para cada um dos rostos negros no café. – Alguém vai acabar pagando por isso.
www.vestigioeditora.com.br www.twitter.com/vestigio_editora www.facebook.com/vestigioeditora