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Bantos, malês e identidade negra - 4ª Edição Revisada e Ampliada

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BANTOS, MALÊS E IDENTIDADE NEGRA Nei Lopes

4ª edição revista e atualizada


Copyright © 2006 Nei Lopes

Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora Ltda. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

coordenadora da coleção

revisão

Nilma Lino Gomes

Aline Sobreira

conselho editorial

capa

Marta Araújo (Universidade de Coimbra); Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva (UFSCAR); Renato Emerson dos Santos (UERJ); Maria Nazareth Soares Fonseca (PUC Minas); Kabengele Munanga (USP)

Alberto Bittencourt (Sobre ilustração de EV-DA/Shutterstock) diagramação

Christiane Morais de Oliveira

editoras responsáveis

Rejane Dias Cecília Martins

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Lopes, Nei Bantos, malês e identidade negra / Nei Lopes. -- 4. ed. rev. e atual. -- Belo Horizonte : Autêntica, 2021. -- (Cultura Negra e Identidades) ISBN 978-65-5928-039-1 1. Antropologia 2. Bantos 3. Ciências sociais 4. Negros - História - Brasil 5. Negros - Identidade racial - Brasil 6. Racismo I. Título II. Série. 21-60387

CDD-305.896081

Índices para catálogo sistemático: 1. Brasil : Negros : Identidade : Sociologia 305.896081 Maria Alice Ferreira - Bibliotecária - CRB-8/7964

Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465 4500

São Paulo Av. Paulista, 2.073 . Conjunto Nacional Horsa I . Sala 309 . Cerqueira César 01311-940 . São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468

www.grupoautentica.com.br SAC: atendimentoleitor@grupoautentica.com.br


Advertência

Neste livro, principalmente na parte consagrada aos povos bantos, o leitor especializado na matéria poderá se surpreender com a grafia de boa parte das palavras. Isso porque, nas línguas africanas, os vocábulos, já há algum tempo, escrevem-se segundo critérios estabelecidos por convenções nacionais ou internacionais. Em Angola, por exemplo, em várias línguas (Kikongo, Kimbundu, Umbundu, Cokwe, Mbunda e Oxykwanyama), as palavras são grafadas através de alfabetos criteriosamente estabelecidos pelo Instituto Nacional de Línguas. Assim é que o antropólogo angolano Henrique Abranches, no glossário de seu romance histórico A Konkhava de Feti (2. ed., União dos Escritores Angolanos, 1985), reclama: “A etnologia oficial portuguesa escrevia tudo de forma aportuguesada, dando exotismos como ‘cuanhama’, ‘quioco’, ‘Amboela’, indo mais longe, usando até o adjetivo Banto (masc.) e Banta (fem.)”. Mas o mesmo Henrique Abranches, no número de estreia (1º semestre de 1984) da revista Muntu, editada pelo CICIBA, na República do Gabão, talvez depois da primeira edição do romance mencionado (escrito em 1968), escreveu: “A melhor forma de representação fonética dos nomes dos grupos étnicos, uma vez que a conceptualização [sic] dos mesmos implica um processo de abstração, seria a de utilizar apenas o radical da palavra eliminando-lhe o prefixo que a pessoaliza. […] Seja como for, um dia virá em que num discurso de língua portuguesa todas as palavras serão aportuguesadas sem o complexo de ferir susceptibilidades veracistas ou genuístas, da mesma maneira que em português se diz ‘alemão’ e não ‘deutsch’, ‘russo’ e não ‘rusky’, como muitas pessoas o defendem já”.


Lembramos, então, que este livro não tem critérios rigidamente estabelecidos em relação à grafia das vozes africanas, principalmente bantas, aqui apresentadas. Optamos pela compreensão mais fácil e pela consagração do uso. Porque, mais que rigor linguístico, o que aqui se quer é a reparação de uma injustiça histórica, para o resgate da identidade dos descendentes dos africanos que forjaram a nação brasileira. Quanto à grafia “Islão”, usada nas edições anteriores e também admitida pelo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (2009), embora menos usada no Brasil que “Islã”, foi adotada, por preferência do professor João Baptista Vargens, especialista em língua árabe, desde o nosso primordial Islamismo e negritude, texto de 1982. Na presente edição, entretanto, preferimos a grafia “Islã”, consagrada pelo uso popular. O autor


SUMÁRIO

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Ao leitor

Os malês

17

O Islã: nascimento e expansão

20

A África

22

A África antes do Islã

25

Kasson e Djolof

27

Gana, Mali, Songai e Kanem

31

Ifé, Oyó e Benin

35

O Islã na África

37

A fase berbere

39

A fase mandinga

41

A fase Songai

44

O intervalo bambara

45

A fase peule

49

O Islã e o tráfico de escravos

51

O Islã e a religião tradicional

60

O Islã negro-africano no Brasil

76

Os malês e as revoltas negras na Bahia

87

Os malês e a autoafirmação do negro brasileiro

Os bantos

97

Os “ancestrais esquecidos”

97

Equívocos e preconceitos

99

Origens e localização


112 Na costa e nos sertões do leste 117 No rio Congo 128 No Cuanza e no Cuango 136 Lubas, lundas e outros bantos 140 O saber e o espírito entre os bantos 156 Trabalho e técnicas 157 África-Brasil-África 174 Reis, guerreiros e foliões 191 Santos, inquices e antepassados 193 Calundus, candomblés, umbanda 197 As línguas bantas e o português no Brasil 202 Identidade negra 213 Referências


Ao leitor

Desde sua primeira versão, esta obra procura mostrar dois aspectos do preconceito antinegro embutido na historiografia brasileira anterior à década de 1970. O primeiro consistia na exaltação do segmento supostamente arabizado, em geral letrado, e assim tido como a elite da massa escravizada no Brasil. Essa parcela, embora altiva e insubmissa, era flagrantemente minoritária; e em geral praticava um islamismo carregado de práticas ancestrais negro-africanas, aquelas tidas como “fetichistas”. O segundo aspecto é a negação da importância cultural do segmento banto na formação brasileira, apesar de esse segmento, pela anterioridade de sua presença e pelo número vultoso de sua entrada nos portos brasileiros, por mais de 300 anos – além de sua dispersão forçada por quase todo o território nacional, em obediência aos sucessivos ciclos econômicos –, ter sido o que mais influiu na formação da civilização brasileira e de outras nas Américas. Daí veio o epíteto “ancestrais esquecidos”, a eles dedicado pelo célebre historiador e antropólogo belga Jan Vansina (apud Heywood, 2009, p. 7). O escravismo brasileiro foi eminentemente banto, como prova a presença afro-originada principalmente na música, nas danças dramáticas, na linguagem, na farmacologia, nas técnicas de trabalho e até mesmo nas estratégias de resistência aqui desenvolvidas. E, ainda, nos casos exemplares dos quilombos e das irmandades católicas. Mas a historiografia anterior à década de 1970, de um modo geral, procurou negar essa hegemonia. E, em nosso juízo, ela o fez com um objetivo definido: o de negar importância à regra, à maioria, mitificando positivamente, de certa forma, apenas a exceção. Daí o 9


“negro tu” (de bantu), sempre submisso e imbecilizado, contraposto ao “malê” ou “mina”, mostrado de forma generalizada como rebelde, altivo e letrado. Essa visão distorcida chegou até nós e repercutiu seriamente na tentativa de reconstrução identitária da militância negra a partir da década de 1970. E é isso que este livro, dentro das modestas possibilidades de seu autor, em 1987, quando concluída sua primeira versão, procurou mostrar. Após a publicação da edição revista e aumentada do livro Rebelião escrava no Brasil, do historiador João José Reis, em 2003, acreditamos que quase mais nada restou a dizer sobre o episódio da presença dos negros malês no Brasil. De nossa parte, após a publicação da primeira edição do nosso livro, travávamos contato, entre outros, com o livro Les Bantu: langues, peuples, civilisations, do historiador e linguista congolês Théophile Obenga, que veio consolidar e atualizar nossas pesquisas sobre o universo banto no continente de origem. Por outro lado, a demanda suscitada pela lei que em boa hora estabelece a inclusão de conteúdos de história africana e afro-brasileira nos currículos escolares motivou a segunda edição de nosso livro, lançado em 1988. Entretanto, em 2017, publicávamos o Dicionário de história da África: séculos VII a XVI, em parceria com o professor José Rivair Macedo, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), no qual atualizávamos ainda mais muitos conceitos antes emitidos. Assim, nesta edição, na parte relativa aos bantos, procuramos atualizar mais algumas informações. E na que se refere aos malês, fizemos alguns ajustes, para manter este livro em harmonia com o Dicionário. Na sequência, em 2020 tínhamos no prelo o segundo volume da obra, cobrindo o período que se estendeu do século XVI ao XIX, o que mereceu, de nossa parte, novas atualizações. Então, o leitor tem em mãos uma nova edição do Bantos, malês e identidade negra, revista e atualizada, inclusive incorporando temas e conceitos novos. Entretanto, ela permanece fiel à proposta de mostrar duas pontas do emaranhado novelo racista que ainda envolve o olhar sobre o negro, africano ou afrodescendente no Brasil. Esperamos que, 10


ao lado das outras obras que escrevemos e publicamos de 1988 até aqui, este livro seja útil na construção ou na consolidação de uma autoestima positiva no espírito dos leitores afrodescendentes, até a final erradicação do insidioso e renitente racismo que sistematicamente exclui os brasileiros de origem africana dos espaços de excelência e, consequentemente, das esferas de decisão e poder no país em que vivemos. O autor

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OS MALÊS


Quem conhece o ontem e o hoje conhecerá o amanhã, porque o fio do tecelão é o futuro, o pano tecido é o presente, o pano tecido e dobrado é o passado Provérbio fulâni. La illah illa Allah (“Não há outro Deus senão Alá”) Texto do Corão. Ko si oba kan afi Olorun (“Não existe rei maior que Olorun”) Evocação iorubá.


O Islã: nascimento e expansão1

A presença dos povos árabes na história da humanidade vem desde a Antiguidade mais remota, como se pode inferir de inúmeros topônimos e antropônimos citados tanto na Bíblia quanto em clássicos gregos e latinos. Mas as informações sobre a Arábia pré-islâmica são objeto de polêmica entre os estudiosos. Os fatos históricos lá ocorridos são de difícil comprovação. Porque, embora houvesse já uma literatura anterior, segundo opiniões abalizadas, como a do arabista João Baptista Vargens, é com o Corão que a língua árabe vai se sistematizar, fixando para sempre sua escrita, seu vocabulário, suas estruturas morfológicas e sua sintaxe. Segundo, então, as descrições posteriores ao advento do Islã, no século VII da Era Cristã, a Península Arábica apresentava três aspectos distintos (Kosminsky, 1963, p. 59): uma enorme porção desértica ao norte; uma parte rica em vegetação tropical – o Iêmen, conhecido pelos romanos como Arábia Felix (Arábia Feliz) – ao sul; e uma região costeira, no Mar Vermelho, pela qual se estendia uma grande rota de caravanas ligando a terra dos árabes à Índia e à atual Etiópia. Nesta última região, chamada Hedjaz, erguiam-se as cidades de Meca e Medina. No grande deserto árabe, nômades e dedicados exclusivamente à criação e à venda de rebanhos, viviam os beduínos. O comércio entre eles e os árabes do Hedjaz, no noroeste da Arábia, próximo ao Mar Vermelho, era intenso. E Meca era o grande centro onde as transações se realizavam. Mas, além de centro comercial, Meca era também e principalmente um grande centro religioso, pois lá é que estava a Caaba, uma espécie de altar em pedra preta sobre o qual ficavam as cerca de 360 representações simbólicas das divindades cultuadas pelas diversas tribos árabes. Cada uma delas possuía seus próprios entes divinos, que cultuavam em regulares peregrinações a Meca, cidade Este capítulo foi escrito a partir de conteúdos informados pelo arabista João Baptista M. Vargens, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com quem o autor escreveu o livro Islamismo e negritude, de 1982.

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extremamente movimentada por conta desse fluxo, que fazia dela, inclusive, um grande centro comercial e financeiro. A essência das divindades cultuadas no templo da Caaba era diversificada. Algumas eram de natureza astral, como Allat, representação do Sol, ou Al-Uzza, representação do planeta Vênus. Outras representavam ideias abstratas, como a morte (Manat) ou o amor (Wadd). Mas, além dessas divindades, os árabes pré-islâmicos cultuavam também seus antepassados, seus ancestrais. E ofereciam sacrifícios propiciatórios, realizados por sacerdotes que, igualmente, consultavam oráculos para previsão do futuro (Vargens; Lopes, 1982, p. 4). No grande deserto árabe, os nômades beduínos subdividiam-se em tribos independentes e rivais entre si. E no seio das próprias tribos as diferenças se faziam notar, já que havia famílias proprietárias de grandes rebanhos ao lado de outras que nada ou quase nada possuíam. Então, como era de se esperar, a aristocracia beduína, à medida que suas posses cresciam, procurava explorar os menos aquinhoados, que se revoltaram. Numa reação em cadeia, essas revoltas levaram à união dos nômades pobres (Kosminsky, 1963, p. 60). Como essas dissenções afetavam sensivelmente as relações comerciais, a nobreza do Hedjaz procurava um meio de unificar as tribos beduínas e os árabes em geral, para daí expandir seu comércio, inclusive em direção a outros países. E essa unificação veio, por vias transversas, com o Islã – “a Submissão” – nova religião pregada pelo profeta Maomé desde 610 EC, ano zero do calendário muçulmano. A ideia monoteísta proposta por Maomé chocava-se com os anseios da classe dominante de Meca, que tinha como sua maior fonte de renda o comércio proveniente da constante presença de romeiros na cidade. Julgavam os aristocratas, não sem razão, que, com a extinção, no templo da Caaba, do culto às divindades tribais, a diminuição do movimento em Meca abalaria seriamente o seu poder econômico. Então, empreendem uma firme perseguição a Maomé, que, aos 52 anos de idade, em 622 (ano da Hégira – “a fuga”), refugia-se em Medina, a cerca de 400 quilômetros; e, de acordo com algumas fontes, também na Etiópia. 18


Mas a pregação de Maomé a cada dia fazia novos adeptos. E isso graças aos fundamentos e princípios do Islã, que, além de proporem uma vida frugal, em que as relações entre os homens fossem igualitárias, também traziam respostas a questões de difícil solução referentes aos diversos campos da especulação humana, como religião, direito, ética, cosmogonia, escatologia etc. Numa sociedade altamente estratificada e cheia de contradições, carente de uma unidade que a direcionasse para uma vida melhor, como era a sociedade árabe no século VII, a pregação de Maomé obtinha amplo sucesso. Então, oito anos depois da Hégira, o Profeta e seus seguidores voltavam e tomavam Meca, transformavam o templo da Caaba num santuário apenas muçulmano e impunham a nova religião. Amálgama do judaísmo com o cristianismo dentro de uma realidade árabe, o Islã tem seus fundamentos, tais como foram “revelados” ao Profeta, contidos no Livro Sagrado, o Corão – “a Leitura”, “o que deve ser lido”, “recitação” – que é composto de 114 surat (capítulos) distribuídos em 1.666 aiat (versículos). Tanto os capítulos como os versículos são de tamanhos desiguais, e os assuntos nele contidos não têm uma ordenação, podendo muitas vezes um mesmo tema ser tratado em diversas partes do Livro. Para a religião islâmica, “só há um deus, que é Alá, e Maomé é seu único profeta”. E, assim como os cristãos, os muçulmanos também acreditam: nos arcanjos Gabriel, Miguel, Azrael e Izrafel; no fim do mundo; no Juízo Final; na ressurreição dos mortos; no destino, no bem e no mal; na virgindade de Maria; no Paraíso e no Inferno. Reconhecem a existência e a importância de Adão, Noé, Abraão, Moisés e Jesus, a quem também consideram como taumaturgo, mas não como “filho de Deus”. A fé muçulmana está sustentada em cinco pilares: - a unidade divina; - as cinco orações diárias; - a peregrinação a Meca; - a esmola aos necessitados; - o jejum no mês de Ramadan. 19


Segundo os preceitos corânicos, o indivíduo não pode viver fora de uma comunidade e deve sempre buscar melhores condições de vida, amparado nos ensinamentos divinos. O islamismo está voltado para o dia a dia do ser humano. Prazeres e amarguras são encarados sob um prisma prático capaz de explicar como os opostos, combinados, são realmente o suporte do equilíbrio da existência. Com base nesses princípios, após a morte do Profeta, em 632, ou seja, dois anos após sua vitoriosa volta a Meca, os califas – “os sucessores” de Maomé – levaram adiante sua obra, unificando toda a Arábia em torno da bandeira verde do Islã. Esses primeiros sucessores, os chamados “califas sábios”, são, respectivamente: Abu-Bacar (632-634), que consolidou o Islã na Península Arábica; Omar (634-644), que conquistou a Síria, a Pérsia e a Cirenaica, e abriu caminho para as conquistas da África do Norte e da Índia; Usman2 (644-656), sob cujo reinado as “revelações” feitas ao Profeta foram compiladas para formar o Corão; e Ali (657-661). Com a morte de Ali, dois grupos dinásticos rivais, os omíadas, em Damasco, e os abássidas, em Bagdá, na antiga Pérsia, lutam pelo poder central do já consolidado Império Árabe. Vitoriosos os omíadas, a capital do Império é transferida da Península Arábica para Damasco, e as inúmeras províncias passam a ser administradas por governadores. E em 750 os abássidas tomam o poder, levando para Bagdá a sede desse vasto império que viverá faustosamente até a chegada dos mongóis, originários da Ásia Central, em 1258. Na África, a expansão árabe resultou na conquista do Egito, por volta de 645, e no estabelecimento do Islã no continente, rumo ao oeste, a partir da África Setentrional, de onde se irradiou, como veremos, para quase até os limites da grande floresta tropical. A África

Até meados do século XX, o continente africano era, no senso comum e mesmo entre alguns intelectuais, considerado, do ponto 2

Nas edições anteriores, o nome foi grafado Othman, como em obras de língua inglesa. Outra grafia usada, em Portugal e Brasil, é Osman. 20


de vista cultural, uma vastidão territorial sem história e sem desenvolvimento, povoada por gente infantilizada que vivia ao sabor da natureza. Entretanto, a partir de 1960, com os eventos que levaram à independência de quase todos os países do continente em relação ao colonialismo europeu, a África retomou o processo de conscientização sobre seu passado e de reafirmação de sua identidade. A partir desse momento dá-se o reconhecimento gradativo – não sem polêmicas e tentativas de desqualificação – de historiadores e antropólogos africanos e afrodescendentes, como Cheikh Anta Diop, Joseph Ki-Zerbo, Théophile Obenga, Walter Rodney, Elikia M’Bokolo, entre outros. *** Com uma extensão de terras que somam cerca de 8.000 km de norte a sul, 7.600 km de leste a oeste, totalizando 30.000.000 m² de superfície, o continente africano pode ser dividido em cinco grandes regiões. A primeira é a África Setentrional, que se estende do Atlântico ao Mar Vermelho, compreendendo os atuais territórios de Saara Ocidental, Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia e Egito, país cuja população registra forte presença negra, desde tempos remotos. A segunda, a África Ocidental, é aquela região situada abaixo do Saara e do deserto da Líbia, acima da grande floresta tropical, compreendendo Mauritânia, Senegal, Gâmbia, Cabo Verde, Mali, Níger, Chade (parte), GuinéBissau, Guiné-Conacri, Serra Leoa, Libéria, Costa do Marfim, Gana, Burkina-Faso, Togo, Benin, Nigéria e parte de Camarões. A essas duas macrorregiões que são as que mais de perto interessam ao nosso trabalho, podemos acrescentar: África Central – abaixo de uma linha imaginária que vai de Duala, em Camarões, até a região dos Grandes Lagos (Vitória, Tanganica etc.), compreendendo Camarões (parte), República Centro-Africana, partes de Sudão e Sudão do Sul, parte do Chade, os dois Congo, Gabão, Guiné Equatorial e as ilhas de São Tomé e Príncipe, no Atlântico. 21


África Oriental – a leste e abaixo do planalto da Etiópia, incluindo a região dos Grandes Lagos e compreendendo Sudão (parte), Etiópia, Djibuti, Quênia, Tanzânia, Ruanda, Burundi, Somália, Uganda e as ilhas Madagascar, Comores, Maurício, Reunião e Seychelles, no Oceano Índico. África Austral – compreendendo Angola, Zâmbia, Malaui, Moçambique, Zimbábue, Botsuana, Namíbia, Lesoto, Suazilândia e África do Sul. Essas macrorregiões incluem também regiões bastante características, como o Saara; o Sael, que é a zona situada entre o Saara e a Savana e que se estende pelos atuais Mali, Níger e Chade; o Darfur, na República do Sudão; a grande floresta tropical; o deserto de Calaari etc. E dentro dessas regiões são muito importantes o Nilo, o Congo, o Zambeze e o Níger, os quatro maiores rios africanos. O Níger, “grande rio de mais de 4.800 km desce da vertente setentrional das montanhas de Kong, a parte mais alta do território da atual Guiné-Conacri, e chega, de sudoeste para nordeste, até Tombuctu, passando por Segou e Djenê, atravessando o lago Dibbie ou Debo; passa por Kabara, porto de Tombuctu, depois muda de direção, correndo de nordeste para sudeste e passando por Gogo, Say, Yaouri e Boussa; aí atravessa o maciço das montanhas de Kong e termina no Golfo da Guiné num vasto e pantanoso delta”. Assim escrevia, em 1878, o célebre geógrafo francês P.-F. Bainier, na página 483 de sua monumental La Géographie, editada em Paris pela Librairie Classique d’Eugène Belin. Às margens desse rio, que banha Guiné, grande parte dos atuais territórios de Mali, Níger, Benin e enormes vastidões da Nigéria, foi que se passou grande parte da história que pretendemos contar. A África antes do Islã

Tanto a África do Norte quanto a África Oriental têm ligações com os árabes há muitos séculos, desde bem antes do advento do Islã, num tempo em que todas as relações comerciais entre a Ásia e 22


o continente africano eram monopolizadas por mercadores árabes. No primeiro século da Era Cristã, árabes do Iêmen, que abasteciam a Índia com mercadorias africanas, eram também o principal elo nas ligações entre a África Oriental e a Etiópia, por um lado, e as civilizações romana, grega e persa, por outro. Muito antes dos tempos do profeta Maomé, caravanas de mercadores viajavam da Arábia, país já com significativa população afronegra, até o delta do Nilo. E ainda no período pré-islâmico, comerciantes iemenitas foram se estabelecer na Somália, na Etiópia e ao longo da costa oriental africana, sendo profundos conhecedores das trilhas do deserto que levavam ao norte. A partir de 622, ano da Hégira de Maomé, a penetração dos árabes na África se faz obedecendo mais a ditames religiosos que mercantis, às vezes resultando em miscigenação com populações berberes nativas. E se processa através de duas rotas: uma pela costa oriental, da Somália até Moçambique; e outra por terra, do Egito até o Magrebe, e chegando até as bordas da floresta equatorial. Entre 730 e 739, feitorias árabes são instaladas respectivamente na Ilha de Pemba, em Quíloa, na Tanzânia atual (Ki-Zerbo, 1972, v. II, p. 437). Mas até o início da era muçulmana, tudo que o mundo conhecia da África, além do litoral do Mediterrâneo, vinha sobretudo das relações entre os árabes do Iêmen e a vizinha Etiópia, deles separada apenas pelo Bab-el-Mandeb, um canal do Mar Vermelho. Esta é, inclusive, a razão de a denominação “etíope” ter sido utilizada durante toda a Antiguidade, e até bem depois, para designar qualquer habitante negro do continente africano. Da mesma forma, a denominação de “sudaneses” dada aos africanos ocidentais também se deve aos árabes. É que, penetrando no continente, já em nome do Islã, como veremos adiante, os guerreiros árabes descobriram que aquele enorme território que se estende das fraldas do Planalto da Etiópia até o Atlântico, como destacamos páginas atrás, era habitado por pessoas de aparência diferente. Então chamaram a região de Bilad al-Sudan, ou seja, “País dos Negros”. Entretanto, desde muito antes da chegada dos árabes – e desde o alvorecer da humanidade – já ocorriam no “país dos negros” e em toda a 23


África sérias e profundas transformações; que inclusive faziam nascer civilizações admiráveis. Entre 3000 e 2500 antes da Era Cristã, núcleos agrícolas já se desenvolvem na Etiópia e nos cursos alto e médio do Rio Níger. Entre cerca de 2500 e 500 da mesma era processam-se migrações a partir do Saara, para o sul, o sudeste e o leste do continente africano. No século XI AEC, o Reino de Cuxe desenvolve-se extraordinariamente, entre os atuais territórios de Sudão e Egito. Por volta de 593 AEC, Cuxe transfere sua capital de Napata para Méroe, onde, aproximadamente meio século depois, já se encontra uma metalurgia do ferro altamente desenvolvida. Na mesma época, por volta do ano 100, desabrocha na Etiópia o Reino de Axum. A partir, aproximadamente, do ano 4000 AEC já florescera a civilização egípcia, cujo esplendor vai até 525 AEC, quando o Egito cai sob o domínio persa, sendo depois conquistado por Alexandre da Macedônia (332 AEC), anexado por Roma (3 AEC) e finalmente islamizado, a partir de 639 EC. Cheikh Anta Diop, historiador e cientista africano, assegurou que a pujante civilização egípcia nasceu na Núbia. E assim demonstrou: A civilização do vale do Nilo nasceu da adaptação do homem àquele meio peculiar. Pelo testemunho dos antigos e dos próprios egípcios, esta civilização teve sua origem na Núbia e desceu, de alguma forma, acompanhando o curso do Nilo em direção ao mar. Este fato é principalmente confirmado quando se sabe que os elementos fundamentais da civilização egípcia não se encontram nem no Baixo Egito, nem na Ásia, nem na Europa, mas sim na Núbia e no coração da África; é particularmente lá que se encontram os animais e as plantas que serviram para criar a escrita hieroglífica (Diop, 1979, v. II, p. 350, tradução nossa).

Quanto à África Ocidental, o tempo que se passou até a chegada dos conquistadores árabes foi durante muitos séculos considerado um período obscuro em face da carência de relatos escritos, que só apareceram efetivamente nos séculos XVI e XVII, com o Tarikh al-Fatash e o Tarikh al-Sudan, registros escritos respectivamente por Muhammad Kati e Abderrahman Al-Saadi, ambos nascidos em Tombuctu, no atual Mali. Mas o trabalho de arqueólogos contemporâneos, aliado aos 24


relatos da tradição oral, conseguiu resgatar boa parte desse passado. Prova disso é a descoberta, através de esculturas, utensílios e joias em bronze e terracota, da chamada civilização de Nok – na região próxima a Jos, na região de Zaria, na atual Nigéria, ao norte da confluência dos rios Níger e Benué –, que teve seu apogeu de 900 AEC até o século III de nossa era. Prova também são as obras de arte encontradas em Ifé, também no atual território nigeriano, igualmente anteriores à chegada do Islã àquela região. Em 1910, o etnólogo alemão Leo Frobenius descobria essa arte de Ifé e a arte do antigo Benin,3 que examinaremos adiante. A partir daí, a Europa tomava conhecimento: dos inestimáveis acervos artísticos do palácio do obá (rei) Behanzin, em Abomé; das obras em terracota do povo Sao, na atual República do Chade; das estatuetas dos povos mandês (ou mandingas); dos enfeites de ouro dos axantis e dos baulês. E através de outras fontes, tomava conhecimento, por exemplo, de que o Império do Gana, ou Gana-Uagadu, constituíra-se talvez no século IV EC, graças ao ouro, à introdução de novas culturas agrícolas e a novos instrumentos (Ferkiss, 1967, p. 45). Observemos que, antes do efetivo início do processo de islamização do continente africano, como veremos adiante, a África Ocidental conhece um padrão de desenvolvimento bastante alto. E os antigos Estados do Kasson e do Djolof, do Gana, do Mali, dos songai de Gao e do Kanem, bem como os reinos de Ifé, Oyó e Benin, são excelentes exemplos da pujança das civilizações pré-islâmicas da África Ocidental. Kasson e Djolof

Em tempos remotos, todo o vale do rio Níger foi palco de grandes e intensas migrações. Em meio a essa grande movimentação, na região da Senegâmbia, ao sul do deserto do Saara, surgia 3

O Reino do Benin localizava-se no leste do território da atual República da Nigéria; e a atual República do Benin situa-se no antigo território do reino do Daomé. 25


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