Claudio Blanc
sempre foi fascinado por histórias, a ponto de se tornar um colecionador delas. Como o escritor Paul Auster, acredita que as pessoas precisam de histórias tanto quanto de ar e alimento: elas mostram caminhos, transportam a mente no tempo, emocionam, informam e nos aproximam da magia. Foi por esse fascínio que se tornou escritor, jornalista, tradutor e editor, fazendo das histórias o objeto e o objetivo de seu trabalho. Por meio delas, desperta a memória dos mortos, visita eras passadas e mundos exóticos e dialoga com as mentes mais brilhantes, vivas ou finadas. Um dos gêneros de que mais gosta são os contos clássicos de terror do imaginário sobrenatural e gótico de todas as épocas e de todos os povos, que revelam um aspecto crucial da condição humana: a fronteira entre a vida e a morte. Acompanhe o autor: blanc9984
“Estas
avantesmas
A
são minhas histórias de fantasmas preferidas, as que julgo mais intrigantes, inspiradoras, um tanto aterrorizantes e – por que não? – divertidas. E, como os fantasmas trazem antiguidade, evocam outras épocas, falam de tempos passados, escolhi uma palavra antiga para dar nome a esta antologia: Avantesmas, que significa ‘fantasmas’ em português arcaico. Dessa forma, ressuscito, junto com os fantasmas, também uma palavra morta. Uma palavra estranha com a qual quero fazer você lembrar que, provavelmente, há alguém mais lendo estas histórias por cima de seus ombros. Alguém que você pode não estar vendo, nem sentindo, nem sequer percebendo.” Assim Claudio Blanc apresenta treze histórias eletrizantes de alguns dos maiores escritores de todos os tempos:
Guy de Maupassant Robert Louis Stevenson H. P. Lovecraft Anatole France Edgar Allan Poe Ivan Turguêniev Arthur Conan Doyle Joseph Sheridan Le Fanu William Butler Yeats Leonid Andreiev Pu Songling Anton Tchekhov Walter Scott
·· ··
Leia também coleção
frio na espinha
·
·
Histórias clássicas de fantasmas reinventadas
ISBN 978-85-8235-886-3
Contadas por
Claudio Blanc
Avantesmas Ilustradas por
Kako
Palavra rara, que os dicionários registram como forma antiga de “fantasma”, Avantesmas é também um convite: o de reencontrar treze histórias que atravessaram séculos sem perder o poder de arrepiar. Reunidas e recontadas por Claudio Blanc, as narrativas desta antologia percorrem tempos e lugares distintos – de castelos escoceses a catacumbas romanas, de aldeias russas a mosteiros chineses –, mas compartilham uma mesma pergunta, feita por todas as culturas humanas desde que existe linguagem: o que nos espera depois da morte? Mestres como Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft, Arthur Conan Doyle, Anton Tchekhov e Guy de Maupassant, entre outros, já se debruçaram sobre esse mistério, cada um a seu modo – ora com o horror explícito, ora com a sugestão sutil de que algo nos observa de onde não podemos ver. Blanc adapta a linguagem desses clássicos para o leitor contemporâneo, preservando o essencial de cada estilo e o clima singular de cada conto, sem abrir mão do rigor com as fontes originais. As ilustrações de Kako emprestam corpo e sombra às aparições, reforçando a atmosfera gótica que costura o livro do início ao fim. Mais do que assombrar, estas histórias lembram algo desconfortável e fascinante: talvez haja sempre alguém, ou algo, lendo por cima do nosso ombro.
9 788582 358863
A
Histórias clássicas de fantasmas reinventadas Contadas por
Claudio Blanc
Avantesmas Ilustradas por
Kako
3ª edição coleção
frio na espinha
Copyright © 2014 Claudio Blanc (texto) Copyright © 2014 Kako (ilustrações) Copyright desta edição © 2026 Editora Gutenberg Todos os direitos reservados pela Editora Gutenberg. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
editoras responsáveis
Sonia Junqueira Flavia Lago preparação de texto
Patrícia Vilar revisão
Lúcia Assumpção Camile Mendrot Helena Dias projeto gráfico de capa e miolo
Arthur Carrião diagramação
Guilherme Fagundes
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Blanc, Claudio Avantesmas : histórias clássicas de fantasmas reinventadas / recontadas por Claudio Blanc ; ilustradas por Kako. -- 3. ed. -- São Paulo : Gutenberg, 2026. -- (Coleção Frio na Espinha ; 1) ISBN 978-85-8235-886-3 1. Contos - Coletâneas 2. Terror - Ficção I. Kako. II. Título. III. Série. 26-382725.0
CDD-808.83
Índices para catálogo sistemático: 1. Contos : Coletâneas : Literatura 808.83 Cibele Maria Dias - Bibliotecária - CRB-8/9427
A GUTENBERG É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA
São Paulo Av. Paulista, 2.073, Conjunto Nacional Horsa I . Salas 404-406 . Bela Vista 01311-940 São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468
Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465 4500
www.editoragutenberg.com.br SAC: atendimentoleitor@grupoautentica.com.br
Para Júlia, Lívia, Giovanna e Caio, que sempre me pedem para contar histórias como estas.
S
S
Sumário 9 11
22
40
Prefácio
A aparição
Guy de Maupassant
O ladrão de corpos
Robert Louis Stevenson
Na catacumba
H. P. Lovecraft
54
A missa das sombras
62
Ligeia
77
Espíritos
Anatole France
Edgar Allan Poe
Ivan Turguêniev
102 O funil de couro
Arthur Conan Doyle
115
Um estranho episódio na vida de Schalken, o Pintor
Joseph Sheridan Le Fanu
131
A maldição do fogo e das sombras
William Butler Yeats
142 Lázaro
Leonid Andreiev
157 O Rio das Tristezas Pu Songling
165 O monge negro Anton Tchekhov
190 A câmara atapetada Walter Scott
203 O autor 205 O ilustrador
Prefácio A vida é envolta em um grande mistério. Não sabemos por que estamos aqui, nem de onde viemos e, muito menos, para onde iremos. Continuaremos a existir depois da morte? Essa parece ser a pergunta mais aflita, mais pungente que homens e mulheres têm feito ao longo das eras. “Morte, país desconhecido de onde nenhum viajante jamais retornou”, ponderou Shakespeare pela boca de Hamlet. Ou será que voltam como fantasmas? Todos os povos, em todos os tempos e lugares, têm uma palavra para “fantasma” ou “espírito”. De fato, as histórias de fantasmas povoam a imaginação do homem desde o começo dos tempos. Nelas, os espíritos dos mortos aparecem como uma névoa indefinida, uma presença invisível, uma sombra, ou surgem até com aspecto idêntico ao que tinham em vida. Alguns são aterrorizantes, vingativos. Outros trazem um aviso, um vaticínio. Todos os que voltam, porém, assombram algum lugar ou alguma pessoa que tenha feito parte de sua vida. Almas penadas que vagam pelo mundo dos vivos, carregadas de dor ou de saudade, sempre causando medo a quem encontram. Por isso, as culturas tradicionais desenvolveram rituais de pacificação, a fim de acalmar os espíritos dos mortos. Magos, feiticeiros e necromantes invocam a proteção ou a ajuda dos espíritos daqueles que já se foram. Há até mesmo grandes festivais nos quais os mortos “voltam” para celebrar junto com os vivos. Em muitos deles, um banquete é servido aos fantasmas. E como a arte imita a vida, vários escritores também exploraram o tema. Na verdade, quase todo grande escritor tem uma história de fantasma. Alguns deles, como Sheridan Le Fanu e H. P. Lovecraft, viraram especialistas nesse gênero. Avantesmas reconta treze histórias clássicas de fantasmas escritas por alguns dos maiores mestres da Literatura. São contos criados em um tempo iluminado por velas, com as chamas projetando sombras estranhas que faziam o pensamento voar e a pele arrepiar. 9
Procurei respeitar, como não poderia deixar de ser, a imaginação desses escritores, adaptando, porém, sua linguagem, desbastando rebuscamentos de estilo para tornar as histórias mais acessíveis ao leitor moderno. Ao mesmo tempo, tentei deixar algum resquício de seus estilos: um convite a quem quiser ler os originais. São treze histórias instigantes, algumas, assustadoras, outras, repugnantes, que evocam encantamento e mistério. Contos que atiçam nossas dúvidas e nos fazem pensar: será que os mortos voltam mesmo desse país desconhecido chamado Morte? A resposta, caro leitor, talvez você encontre em sua mente... ou em seu coração. Claudio Blanc
10
1
A aparição
Guy de Maupassant
O medo é uma emoção indomável. Pode nos levar à loucura ou a cometer atos impensados. Agarra nossa mente e penetra em todas as fibras nervosas. O corpo reage. Cabelos em pé. Arrepios. Suores frios. Adrenalina. O medo é a sensação que antecede a morte, o último sentimento que muitos experimentaram. Nada pior que sentir medo. Despertado por uma ameaça, o medo é uma emoção universal (afinal, todo mundo tem medo de alguma coisa, em menor ou maior grau); é um mecanismo de sobrevivência que nos permite reconhecer o perigo e fugir, ou enfrentá-lo. Mas não há só um tipo de medo. A literatura gótica chama de “terror” o medo que antecede uma experiência aterrorizante (ou terrível, ou dolorosa), e de “horror” a sensação de repulsa que surge depois de viver algo tétrico. Modernamente, poderíamos chamar o “terror” dos góticos de “ansiedade” e seu “horror”, de “trauma”. O medo – seja terror ou horror – pode dominar a vida de uma pessoa. E o pior tipo de medo não é aquele que vem de ameaças verdadeiras, nem de monstros, vampiros ou lobisomens, mas o medo que se instala no fundo da mente e faz os olhos verem coisas que talvez não estejam lá, e os ouvidos escutarem sons inaudíveis. Vozes falam dentro da sua cabeça, e sombras se movem às suas costas. Há sempre uma forma obscura esperando na escuridão. Nos cantos da casa. Atrás dos muros e das árvores do parque. A ameaça, porém, nunca toma forma. Paira no ar, envolve tudo o que você faz. Espreita seus passos de dentro da sua mente. Algo invisível está sempre observando, ameaçando. É o terror, o medo que antecipa o golpe – que muitas vezes nunca vem. Henry René Albert Guy de Maupassant (1850-1893), autor francês, um dos maiores contistas da literatura universal, escreveu diversas histórias sobre o medo. Mas o sobrenatural em Maupassant é quase sempre um sintoma da mente perturbada do protagonista. 11
Na verdade, o próprio Maupassant sofria de ansiedade e depressão. Um de seus contos de terror mais famosos, “O Horla”, escrito na forma de um diário, trata desse tema. O personagem narra a evolução da sua loucura até o suicídio, sem saber se está mesmo ficando insano ou se está sendo assombrado por um ser que só ele percebe, o qual resolveu chamar de “Horla”, combinando as palavras francesas “hors” (fora) e “là” (lá). O conto parece ser uma profecia, pois Maupassant passou os últimos dezoito meses da vida em um hospital psiquiátrico, depois de tentar se suicidar. Provavelmente já estivesse sofrendo de doença mental quando escreveu “O Horla”. Guy de Maupassant, considerado o pai do conto moderno, vinha de um lar desfeito. Nascido em uma próspera família burguesa, quando tinha onze anos sua mãe se separou de seu pai – o que, na época, praticamente a tornava uma excluída social, malvista e maldita. Guiado por Gustave Flaubert, autor de Madame Bovary, um clássico da literatura ocidental, Maupassant passou a frequentar, ainda jovem, o círculo de autores realistas e naturalistas, do qual faziam parte gênios da literatura como Ivan Turguêniev e Émile Zola. Esse grupo ajudou a desenvolver duas importantes escolas literárias que surgiram a partir de meados do século XIX, o Realismo e o Naturalismo. O Realismo, que tem Machado de Assis e Liev Tolstói como seus mais célebres representantes, procura retratar o mundo de acordo com a realidade objetiva, sem qualquer enfeite ou interpretação. Já o Naturalismo, a escola à qual Maupassant pertence, é uma radicalização do Realismo. Os autores naturalistas buscam mostrar que o indivíduo é determinado pelo ambiente e pela sua origem social e, para fazer isso, carregam nas cores da realidade. Guy de Maupassant flertou com os dois estilos, mas pendeu para o Naturalismo. Autor de sucesso, Maupassant ficou rico com os contos e romances que escreveu. O estilo econômico, o ritmo preciso e as conclusões rápidas e brilhantes de seus contos conquistaram um público fiel e ansioso por seus textos. E ele correspondeu a essa demanda. Prolífico, nos anos de maior atividade – que correspondem principalmente ao período entre 1880 e 1891 – escreveu cerca de trezentos contos, seis romances, três livros de viagem e um de poesia. No final do século XIX, Maupassant era, provavelmente, o escritor mais lido do mundo. Avesso a companhia, preferia a solidão e viajava 12
muito – principalmente no seu iate, o Bel-Ami, nome de seu primeiro romance. De cada viagem, trazia um novo livro. No final de sua curta vida, estava cada vez mais paranoico, com mania de perseguição e medo da morte (como alguns personagens de seus contos). Em janeiro de 1892, tentou cometer suicídio, cortando a garganta, mas foi salvo e internado em um sanatório particular, onde morreu, em julho do ano seguinte, em consequência das complicações da sífilis que o atormentava desde o começo da vida adulta. A história a seguir trata de uma experiência terrível, que assombrou a vida de um homem por mais de cinquenta anos: o horror despertado por um acontecimento sobrenatural. A partir de então, o personagem é dominado pelo terror de que aconteça um novo encontro com o inexplicável. Ameaçado pelo medo. Medo de ficar sozinho. Medo dos mortos que voltam ao mundo dos vivos...
13
A aparição Guy de Maupassant
N
aquela noite, estávamos todos reunidos em uma velha mansão parisiense – um pequeno grupo de velhos amigos. Chovia muito e trovejava, o que conferia um clima lúgubre à noite e que, de certa forma, animava nossa reunião. Aquela atmosfera nos inspirou a contar histórias sobrenaturais. Todos nós conhecíamos pelo menos uma, mas o dono da mansão pediu que alguém contasse uma história verdadeira, que realmente tivesse acontecido. Fez-se silêncio, pois todos nós tentávamos nos lembrar de uma história sobrenatural verdadeira. Então, o velho marquês de Tour-Samuel levantou-se e, apoiando-se no consolo da lareira, começou a falar, com sua voz trêmula: – Certa vez aconteceu algo muito estranho comigo. Tão estranho que tem assombrado minha existência desde então. Foi há cinquenta e seis anos e, mesmo tendo acontecido há tanto tempo, não se passa uma só semana sem que eu sonhe de novo com o ocorrido. Durante cerca de dez minutos vivi um terror tão intenso que, desde então, o pavor que senti continua comigo, infernizando-me. Barulhos repentinos me assustam, e as formas indistintas de objetos na sombra me dão uma vontade incontrolada de fugir. Nunca contei isso 15
antes, mas, agora que já tenho oitenta e dois anos, posso confessar: essa experiência me deixou com medo do escuro, das sombras, da solidão. Alguns de nós não pudemos conter o riso. Percebendo isso, o velho marquês se apressou em explicar: – Não me julguem pelo que não sabem. Nunca fugi do perigo verdadeiro. Mas não há nada pior do que o medo imaginário, o medo do desconhecido, do inexplicável. Esse medo é incontrolável – explicou o velho. Nós nos calamos. Ele continuou: – Meu medo é tanto que nunca contei esse caso a ninguém. Esta é a primeira vez. Não vou tentar explicar nada. Julguem por vocês mesmos. O marquês fez uma pausa e se endireitou, afastando-se um pouco da lareira. Todos os olhares o seguiram. – Em julho de 1827 – prosseguiu –, quando ainda servia o exército, eu estava estacionado com minha companhia na cidade de Rouen. Um dia, passava pelo cais quando vi um homem que achei que conhecia, mas não sabia de onde. Parei instintivamente na frente dele, que imediatamente me reconheceu. Era um grande amigo do tempo da adolescência que eu não via havia cinco anos. Contudo, nesse tempo, ele parecia ter envelhecido meio século. Seu cabelo já estava muito branco, e ele ainda não tinha trinta anos. Andava encurvado, como se estivesse exausto. Pelo jeito, entendeu a surpresa com que o olhei e me contou sobre a tragédia que caiu sobre ele. “Poucos anos depois do nosso último encontro, conheceu uma moça por quem ficou completamente apaixonado e com quem se casou. Ele mal cabia em si de tanta felicidade. Mudaram-se para um château no campo, onde nada faziam além de aproveitar a companhia um do outro. Mas a pior desgraça se abateu sobre eles. Menos de um ano depois do casamento, ela morreu. Tinha o coração fraco... Deprimido, no dia do funeral, meu amigo trancou o château e nunca mais voltou para lá. Não podia retornar ao lugar onde tinha sido tão feliz com a mulher que nunca mais poderia ter. Veio viver na cidade, sozinho e infeliz – tão dominado pela tristeza que, muitas vezes, pensava em se suicidar. “Ele acabou de contar isso e, em seguida, me pediu um favor. Eu deveria ir até a casa de campo e pegar, na escrivaninha do quarto 16
do casal, algumas cartas de que precisava com urgência. Explicou que não podia mandar um empregado porque as cartas tratavam de assuntos pessoais, e ele precisava de alguém de confiança para ir buscá-las. Meu amigo admitiu também que jamais poderia ir ele mesmo, pois uma visita à sua antiga casa despertaria lembranças que o deixariam ainda mais deprimido. Pediu que o encontrasse na manhã seguinte, para tomarmos café juntos. Então, me daria as chaves do quarto e da escrivaninha e uma carta pedindo que o jardineiro abrisse a casa para mim. Respondi que faria o favor de bom grado. Afinal, seu château ficava a apenas uma hora de cavalgada do quartel, e o passeio seria agradável...” Um trovão rugiu alto na noite, assustando as pessoas. Algumas mulheres chegaram a deixar escapar gritinhos de susto. Depois, silêncio. Estávamos atentos, esperando a história. O marquês tinha conquistado nossa atenção. Ele pigarreou e continuou. – Na manhã seguinte, fui tomar café com meu amigo. Mas ele mal falou. Desculpou-se dizendo que a visita que eu iria fazer àquele quarto, cenário da sua felicidade, agora tão morta quanto sua mulher, o deixara muito perturbado. Estava, de fato, agitado e preocupado, como se suas emoções travassem uma batalha dentro dele. Explicou exatamente onde eu encontraria as cartas, pedindo que não lesse o conteúdo delas. Não gostei da desconfiança e disse isso a ele, que, aturdido com o próprio comportamento, desculpou- se com lágrimas nos olhos. Sofria visivelmente. “No começo da tarde, deixei-o e me dirigi ao château, cavalgando através dos campos. O tempo estava perfeito. O céu de um azul profundo, sem nuvens. A brisa suave carregando o cheiro das folhas e da relva. Cotovias cantando a beleza da tarde. A luz pintando meu caminho com cores vivas. Mas a visão da casa de meu amigo contrastou tristemente com a beleza do caminho. O gramado estava crescido, descuidado. O portão, caído, de pé apenas por ter despencado sobre uma moita, que o escorou. Não se distinguiam as floreiras, repletas de mato. Tudo parecia abandonado havia muito, muito tempo. Era como se a casa e o jardim tivessem morrido com sua dona e, como ela, estivessem se decompondo. “Fui recebido pelo jardineiro, a quem entreguei a carta. Ele a leu e releu e me disse hesitante que a casa estava lacrada. Mas eu insisti e ele me olhou assombrado. ‘O senhor vai mesmo entrar no quarto dela?’, perguntou. ‘Nunca mais foi aberto, desde a morte e...’, 17
o jardineiro hesitou um momento e continuou, ‘... às vezes ouvimos lamentos vindos da casa...’. Respondi com irritação, ordenando que parasse com superstições. Eu entraria imediatamente. Com a ajuda do jardineiro – um velho esquálido e desdentado, que respirava pela boca e tossia muito –, retirei as tábuas que lacravam a porta da cozinha e entrei. O homem voltou à sua casa, fora dos limites da propriedade. Estava visivelmente perturbado. “O château estava na mais completa escuridão. Procurei uma vela na cozinha, mas não achei. Continuei no escuro, por um corredor que levava a uma grande sala onde estavam as escadas para o andar de cima. Lá, encontrei o quarto do casal. Com a chave que meu amigo me dera, abri a porta e entrei. A penumbra me impedia de distinguir o lugar. Um cheiro indescritível me aturdiu. Não chegava a ser nauseante, mas percebia um traço forte e adocicado, como o cheiro de algo que começa a se decompor. Também havia um resquício de perfume agradável, que me pareceu de pétalas de rosa. Ao tentar remover algumas tábuas da janela para entrar um pouco de luz no quarto, percebi que aquele cheiro é o mesmo que se sente em um velório: cheiro de cadáver e de flores. “Não consegui abrir a veneziana – os trincos estavam enferrujados –, mas, com o punho de minha espada, quebrei um pedaço da madeira e abri uma pequena fresta, da qual vazou uma réstia de luz. Virei-me e, com a pouca claridade que entrou no quarto, pude ver alguns poucos móveis e uma grande cama, sem lençóis, mas ainda com o colchão e os travesseiros. Estranhamente, os travesseiros estavam afundados, como se a cabeça de alguém tivesse repousado neles recentemente. Notei, em um canto, uma porta, a qual, provavelmente, levava a um quarto contíguo. Estava fechada. “Perturbado, sem saber o que me incomodava, fui até a escrivaninha. Queria pegar as cartas e sair dali o quanto antes. Sentei-me e, com a chave, abri a gaveta de onde retirei um maço de cartas. Inclinei-me e, tateando, tentava achar o segundo maço de cartas. Na escuridão, esforçava-me para conseguir ler os envelopes que encontrava. Franzia os olhos, concentrado em tentar entender o que estava escrito. De repente, ouvi – ou senti, não sei ao certo – o barulho de alguma coisa farfalhando atrás de mim. Não liguei, imaginando que uma corrente de vento havia movido a cortina. Continuei procurando o maço de cartas que faltava. Mas, de novo, senti algo se movendo quase imperceptivelmente 18
atrás de mim. Dessa vez, fui tomado por uma sensação estranha, desagradável, que fez minha pele arrepiar. Não me virei, porém. Encontrei o segundo envelope e, nesse momento, ouvi nitidamente um suspiro longo e sofrido bem nas minhas costas. O som era tão apavorante que saltei da cadeira, virando-me para ver quem suspirara com tanta agonia. “Uma mulher alta, vestida com uma longa camisola branca, me olhava, de pé ao lado da cadeira onde eu estivera sentado um instante antes. Um tremor se apoderou de mim e, por um momento, achei que minhas pernas fossem ceder ao meu peso. Fui tomado por um terror irracional. Minha mente ficou vazia. O coração parecia ter parado de bater e todo o meu corpo ficou mole. “Até então, eu não acreditava em fantasmas. Pensava que eram superstições de gente ignorante. Mesmo assim, experimentei um terror horrível, um medo irracional dos mortos – dos que já se foram, já se decompuseram e que não poderiam mais voltar para esta vida. Então, a mulher falou. Sua voz era tão doce quanto triste e tocou meus nervos profundamente. Eu estava congelado, sem reação. E a mulher pálida, com um olhar vago como se visse através de mim, pediu: ‘Senhor, eu lhe peço, preciso que me faça um favor’. Meu terror não me deixou responder. Tentei falar, mas só consegui produzir um som gutural, como o de um animal acuado, prestes a receber o golpe fatal. ‘Por favor, senhor’, continuou ela, com sua voz sobrenatural. ‘O senhor pode me salvar. Pode me curar. Oh, o senhor não sabe o quanto eu sofro. Ah, como sofro!’, disse e sentou-se na cadeira da escrivaninha onde eu estivera, sem tirar os olhos de mim. ‘Por favor’, tornou a pedir. “O máximo que consegui fazer foi balançar a cabeça, assentindo. A mulher, então, esticou o braço, dando-me uma escova. ‘Escove meu cabelo. Oh, por favor, escove meu cabelo. Isso vai me curar, vai acabar com meu sofrimento’, pediu ela com uma tristeza infecciosa na voz. Seu cabelo negro, longo e desalinhado, escorria pelo espaldar da cadeira e tocava o chão. Dominando meu terror, peguei a escova e comecei a fazer o que ela pediu. Tocar aqueles cabelos era como pegar em cobras. Essa sensação permanece comigo desde então. Ainda hoje tremo ao me lembrar dela. “Não sei por quanto tempo escovei seus cabelos. Em certos momentos, ela chegou a parecer feliz. Suspirava, movia a cabeça, e um leve sorriso se desenhava em seus lábios. De repente, ela me 19
www.editoragutenberg.com.br twitter.com/gutenberg_ed www.facebook.com/gutenberged