Skip to main content

Astrologia pós-colonial - A leitura dos planetas por meio do capital, do poder e do trabalho

Page 1


ASTROLOGIA PÓS-COLONIAL

A leitura dos planetas por meio do capital, do poder e do trabalho

Alice Sparkly Kat ASTROLOGIA PÓS-COLONIAL

A leitura dos planetas por meio do capital, do poder e do trabalho

Tradução Rodrigo Seabra

Copyright © 2021 Alice Sparkly Kat

Copyright desta edição © 2026 Autêntica Editora

Título original: Postcolonial Astrology: Reading the Planets through Capital, Power, and Labor

Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora Ltda. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

editores responsáveis

Rejane Dias

Schneider Carpeggiani

revisão

Aline Sobreira

capa

Arthur Carrião (sobre imagem de Rufai Ismaila)

diagramação

Guilherme Fagundes

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Kat, Alice Sparkly

Astrologia pós-colonial : a leitura dos planetas por meio do capital, do poder e do trabalho / Alice Sparkly Kat ; [tradução Rodrigo Seabra]. -- 1. ed. -- Belo Horizonte, MG : Autêntica Editora, 2026.

Título original: Postcolonial Astrology: Reading the Planets through Capital, Power, and Labor

ISBN 978-65-5928-671-3

1. Astrologia I. Título.

25-322514.0

Índices para catálogo sistemático:

1. Astrologia 133.5

Cibele Maria Dias - Bibliotecária - CRB-8/9427

Belo Horizonte

Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520

Belo Horizonte . MG

Tel.: (55 31) 3465 4500

www.grupoautentica.com.br

São Paulo

CDD-133.5

Av. Paulista, 2.073, Conjunto Nacional Horsa I . Salas 404-406 . Bela Vista 01311-940 . São Paulo . SP

Tel.: (55 11) 3034 4468

SAC: atendimentoleitor@grupoautentica.com.br

AGRADECIMENTOS

Meu agradecimento a todos que conversaram comigo e que me ajudaram a manter a sanidade enquanto eu escrevia este livro. Agradeço às pessoas com quem dividi minha casa, por estarem comigo durante a pandemia, enquanto boa parte desta escrita acontecia. Gratidão a Ziyi Li, Ebony Martin, NB Zhong, Charmaine Bee, Yarrow, Ricky Zoker, Christian Cisneros, Emily Wang, Meng, Maya Tanaka, Maya Yu Zhang, Jerie Choi Ortiz, Ayqa, Tingying, Som, Coco Layne, Nandi Loaf, Yao, Mikala, D, Manual, Anthony Hawkins, Adder, Sakile e tantas pessoas mais, por me mostrarem, todos os dias, como comunidade e amor podem ser transformadores. Agradeço a todas as pessoas astrólogas incríveis que riem e gritam comigo por causa da astrologia, incluindo – mas não só – Sam Reynolds, Charm Torres, Oscar Moises Diaz, Shakirah Tabourn, Demetrius Bagley, Bear Ryver, Giselle Castano, Naike Swai, Naimonu James, Alejandra Alexander, Lizhen, Banu Guler e muites mais. Gratidão a todos da Asian American Writers’ Workshop, por me darem a chance de fazer parte de uma comunidade por meio do CreateNow, e às pessoas mais jovens e mais velhas que brincam comigo, entre elas Tia Li, Tia Zhao, Tia Huang, Tia Qing e outras. Meu carinho para as organizadoras do Yellow Jackets Collective –Mich, Grace, Parissah e Esther – e para as organizadoras do BUFU – Kat, Jazz, Tsige e Sonia –, por juntarem tanta gente e fazerem com que pessoas como eu não se sintam sozinhas. Meu muito obrigada a cada pessoa para quem já fiz alguma leitura. Também a Eugene Li e Porgy, por me deixarem fazer carinho neles. Valeu à ARMY, por ser uma rede rizomática global, coletiva e enrustida de desejo sáfico e cura – e valeu a Min Yoongi, por ser meu apoio emocional versão K-pop. Agradeço à minha terapeuta, Joan Choi. Agradeço também à minha mãe e ao meu pai, ao laoye, à laolao, à nainai, ao yeye, ao dayi, ao jiujiu, à gugu, a Lan Tianyi, Yang Xin, Zheng Zhi e Cai Luhua. Muito obrigado à North Atlantic Books e especialmente a Gillian Hamel. Amo vocês.

Introdução 11

Um comentário a respeito da minha posicionalidade e do título do livro 23

Cunhagem, metais e luminescência

Um comentário a respeito de gênero

Os juros de um povo possuído

O trabalhador que é tanto nobre quanto selvagem 85 Saturno como um revolucionário no capitalismo tardio 93

4. O CAPITAL: OS LUMINARES E SATURNO 101

Derretendo a luz com carbono: uma alquimia 101

O ouro está nos detalhes (ou “mas o que a gente faz com aqueles que são poderosos demais?”) 103

Necropolítica e a força vital 105

Mas o que a gente faz com aqueles que são poderosos demais? – Continuação 107

A magia do dinheiro 110

A criatividade é um destruidor 111

5. A ETIMOLOGIA DE VÊNUS 119

Ruína e queda de Inanna 119

Vênus Victrix: a vitoriosa 122

Vênus, o zênite e o nadir de todas as deusas, tanto bela quanto grotesca 125

Estrelas, corações, flores, pentáculos e cobras 130

O jardim decadente 136 O corpo social das massas 141

6. A ETIMOLOGIA DE MARTE 147

Os grandes perdedores do zodíaco: Ares e Éris 147 Ruína 150

Inimigo público n.º 1 155 Fome 162

Sacrifício de ferro e sangue 165

Cortina de ferro, barras de ferro 169

7.

8.

Júpiter em Roma e na modernidade: casado e tirânico

Admirável mundo novo

Guerra

INTRODUÇÃO

A astrologia é frequentemente comparada à raça. Ambas são exercícios de imaginação, de criação de padrões e de tipificação. Tanto a astrologia quanto a raça envolvem formas de pensamento mágico e são não racionais. As duas são construções sociais enraizadas nos circuitos da cultura.

Como escreve Tabitha Prado-Richardson em seu ensaio “Who Needs Astrology?” (“Quem precisa da astrologia?”), cujo título remete ao ensaio de Stuart Hall “Who Needs ‘Identity’?” (“Quem precisa da ‘identidade’?”), “a astrologia solar é um essencialismo, sem dúvida”, mas, “até o momento, a astrologia não gerou estruturas de poder baseadas em seus signos. […]

Céticos como Benjamin Radford já compararam a astrologia ao racismo, devido a seu pensamento estereotipado e determinista, mas esses críticos geralmente se recusam a ultrapassar o campo das ideias e definem o racismo como um fenômeno puramente interpessoal, em vez de o enxergar como matrizes compostas de dominação que restringem o acesso e a liberdade”. Se a astrologia pode ser comparada a outras marcas sociopolíticas de identidade, como a raça, então ela também precisa ser vista como um projeto político “atrelado a significados culturais, moldado pela interação entre contextos políticos e históricos”.

Identidades – entre as quais se podem incluir os signos astrológicos, além da raça e do gênero – são uma orientação. Usamos orientações que se entrecruzam para olhar para fora a partir de dentro, ou para olhar para dentro a partir de fora. Por ser uma ideologia que produz identidade, a astrologia pode ser tão hierárquica, ingênua, superficial, autêntica, científica e espiritual quanto a raça.

Em seu livro Fatal Invention (“Invenção fatal”), Dorothy Roberts escreve: “A maioria dos norte-americanos não conclui que raças biológicas

existem com base em evidências científicas e raciocínio. Essa crença lhes é incutida da mesma forma que uma criança é criada dentro de uma religião.

[…] Antropólogos descrevem o sentido comum de raça – que contradiz os fatos científicos – como um ‘conceito popular’. É por isso que Ashley Montagu chamou a raça de ‘a feitiçaria do nosso tempo’. Na década de 1940, ele escreveu: ‘É o mito contemporâneo. O mito mais perigoso da humanidade’”.

Em um momento posterior, Roberts escreve: “Acreditar na existência da raça pode ser comparado a acreditar na astrologia”.

Em um estudo clínico realizado nos anos 1990 com 17 mil participantes, médicos pesquisadores observaram que pacientes respondiam de forma diferente ao ácido acetilsalicílico e ao placebo dependendo do signo astrológico. Descobriu-se que pessoas com Sol em Gêmeos ou em Libra apresentavam maior sensibilidade à substância. Segundo Roberts, médicos costumam classificar participantes por raça em ensaios clínicos, mas raramente o fazem com base em signos solares. No entanto, qualquer forma de classificação de participantes pode forçar o aparecimento de padrões – e, quando esses padrões são reforçados por realidades políticas, acabam institucionalizados. Embora cientistas descartem como irrelevantes as variações de sensibilidade entre signos do zodíaco, não fazem o mesmo com diferenças entre grupos quando separam pacientes em cinco ou seis categorias raciais, mesmo que essas categorias estejam baseadas em históricos de distinções sociais e políticas, e não em fundamentos biológicos.

Fazer testes levando em consideração a raça confirma preconceitos raciais. Nem a raça nem a astrologia têm base biológica, mas os preconceitos raciais são sustentados por instituições, enquanto os astrológicos, não. Ambas são formas de organização que são culturais, não genéticas. Mas apenas uma tem sido usada para negar cuidados médicos e impor consequências reais a quem é enquadrado nesses marcadores. A raça é vivida como uma realidade política, ao passo que a astrologia não é. A raça, portanto, não é vivida como ficção, algo que frequentemente acontece com a astrologia. As narrativas ligadas à raça raramente são vistas como histórias sustentadas por pensamento mágico e encontros ficcionais.

Antes do Iluminismo, a raça era uma questão religiosa e espiritual. No segundo livro do Tetrabiblos, Ptolomeu escreve que, ao elaborar um mapa natal (um mapa astral do momento do nascimento), embora as questões astrológicas universais – como o thema mundi ou as exaltações dos planetas – devam ser consideradas em primeiro lugar, é necessário também investigar as questões astrológicas particulares. Entre essas particularidades, Ptolomeu

começa pelas “peculiaridades observáveis em nações inteiras, no que diz respeito a seus costumes e hábitos, assim como à constituição física e ao temperamento”. Para Ptolomeu, as preocupações astrológicas relativas ou particulares começavam com a raça ou com algo que funcionava como um precursor do conceito de raça.

Na seção seguinte, Ptolomeu escreve que seu clima se situa nos quadrantes do norte e que os povos que vivem nas nações abaixo dos paralelos do sul – a quem ele chama de etíopes – são “de tez negra”, têm “cabelos espessos e crespos” e são “calorosos de disposição e determinados em modos”, em razão de essas nações terem “o Sol a zênite”. Por outro lado, os nativos de países situados em climas do norte são “frios de disposição e selvagens de modos”, por causa do frio constante. Embora os ares do norte e os ares do sul podem variar de acordo com a temperatura e o clima, as descrições de Ptolomeu acerca das distinções entre nações orientais e ocidentais são ainda mais esotéricas. Ele afirma que “os nativos dos países voltados para o leste se destacam pela coragem, agindo com ousadia e franqueza em todas as circunstâncias”, já que o Sol nasce no leste. Por outro lado, os habitantes do oeste seriam “mais selvagens, afeminados e reservados”, porque a Lua é sempre vista no oeste após a Lua nova e confere seus atributos “femininos e sinistros” às nações situadas a oeste de Alexandria.

Esses trechos mostram que Ptolomeu orientava as diferenças culturais a partir de Alexandria, que ele não descreve como possuidora de características astrológicas particularmente notáveis ou peculiares. Alexandria e o Império Grego são apresentados como culturalmente neutros e sem traços distintivos, porque o thema mundi tem seu centro na capital cultural grega. As descrições de Ptolomeu não são observacionais, mas especulativas. Ele inseria as diferenças culturais e étnicas em uma cosmologia mais ampla – a raça teria se desenvolvido a partir de um pensamento mágico ou analógico.

Após o Iluminismo, religião e cosmologia continuaram a transmitir diferenças culturais e étnicas. A ciência racial moderna começou como uma forma de magia ou cosmologia. Pessoas brancas continuaram a descrever a raça em termos religiosos e mágicos. Loren Goldner chama a interpretação cosmológica de “corpos no espaço”, baseada no classicismo greco-romano ou no messianismo judaico-cristão, de “grade epistemológica”. A raça faz parte dessa grade. Sir William Petty, em seu livro The Scale of Creatures (“A escala das criaturas”), de 1676, especula que pessoas negras deveriam ser classificadas em algum ponto entre humanos e animais e as compara a criaturas fantásticas como gigantes e anões. Isaac La Peyrère encontra na Bíblia indícios de

que existiram pessoas antes de Adão e especula que as pessoas não brancas seriam descendentes desses pré-adamitas. Para Roy Harvey Pearce, os povos indígenas das Américas só podiam ser compreendidos por meio da grade epistemológica do cristianismo como uma força malévola, porque “Satanás havia possuído o indígena até que ele se tornasse virtualmente uma besta”.

Embora o conceito de raça seja frequentemente contextualizado como uma invenção moderna, o que faria dele um correlato à ciência, ele tem uma vida muito mais longa dentro da cosmologia e da religião. Embora a raça seja muitas vezes pensada como um sistema de classificação, ela começa como um sistema mágico que se baseia na analogia, e não na classificação. Na verdade, toda a vida política começou como cosmologia. Sylvia Wynter escreve que

a astronomia grega deveria permanecer uma etnoastronomia, ou seja, uma astronomia na qual as leis morais/políticas da pólis grega foram projetadas sobre o cosmos físico, permitindo que elas funcionassem como “verdade objetiva” no sentido de Feyerabend (1987) e, portanto, como, nos meus próprios termos, verdade adaptativa para os gregos –com a consequência de que sua premissa projetada de uma distinção de valores e princípio de distinção ontológica entre o céu e a terra havia funcionado para replicar e absolutizar, de maneira analógica, o princípio de organização central e o gênero da distinção humano-não humano no nível da ordem sociopolítica, entre os mestres independentes, que eram cidadãos gregos natos, e seus escravos totalmente dependentes, classificados como bárbaros outros. Essa distinção de valores (princípio sociogênico do código de mestres da vida/simbolismo da morte) era então replicada no nível da sociedade intragrega, em termos de gênero (correlativamente), entre os homens, que eram cidadãos, e as mulheres, que eram suas dependentes.

Meu objetivo ao escrever este livro é fazer a seguinte pergunta: se a astrologia é tão especulativa quanto a raça, podemos torná-la mais responsável? Podemos usar a astrologia ocidental para responder ao Ocidente? A palavra “responsabilidade” contém a palavra “resposta”. A responsabilidade é possível quando uma resposta é possível. A raça e a forma como a construímos não têm sido responsivas às necessidades das comunidades ao redor do mundo. Em vez disso, a raça tem existido principalmente como um paradigma propagado pelo Ocidente e usado para descrever o resto do mundo. Enquanto a ciência racial foi central para o estabelecimento da instituição moderna,

a astrologia foi considerada por muitos uma pseudociência. Como pseudociência, a astrologia é uma prática comunitária de caráter tolo. Ela segue não apenas o antigo adágio “assim no céu como na terra”, mas também o “assim na terra como no céu”. Esse último significa que não apenas os contextos culturais mais amplos que projetamos sobre imagens virtuais, como as estrelas, ditam os significados que conseguimos construir a partir do mundo, mas também que, ao mudar nosso comportamento coletivo, podemos mudar o que vemos nas estrelas ao mudar a nós mesmos.

Para tornar a astrologia uma prática cultural mais responsável, devemos entender como o significado astrológico foi construído dentro da história política e econômica. Precisamos entender o que a astrologia tem a ver com tribunais, exércitos, governo e poder – com capital, poder e trabalho. Precisamos entender como ela existe dentro do neoliberalismo, para que possamos torná-la nossa novamente. Muitas pessoas ficam surpresas quando eu digo que a astrologia vem sobrevivendo mais como uma prática de direita do que qualquer coisa voltada para a esquerda. Eu não entendo o porquê dessa surpresa. Adolf Hitler, J. P. Morgan e Ronald Reagan usaram astrologia. Isso não aconteceu por causa das peculiaridades engraçadinhas de alguns homens, por mais desprezíveis que fossem, nem é uma divertida coincidência. Isso acontece porque, devido à natureza da linhagem da astrologia, como a branquitude, ela se torna visível quando certas relações sociopolíticas estão sob ameaça.

A verdade é que, longe de ser neutra do ponto de vista político e estético, a astrologia, assim como a magia racial, tem sido esteticamente associada ao classicismo e à memória fabricada do idealismo romano. O Ocidente tenta se reviver repetidamente por meio da imagem de Roma. A modernidade, por ser um ideal cultural ocidental, é também um ideal anacrônico, já que os movimentos modernos e os movimentos neoclássicos tantas vezes coincidiram. O medo da decadência cultural e racial ocidental levou a um renascimento romano na Áustria do século XIX. Cientistas, filósofos, arquitetos e artistas como Freud, Nietzsche, Wagner e Klimt recorreram à Antiguidade como forma de reviver a sua cultura contemporânea, que eles viam como em estado de degradação. Nos mitos e nas formas romanas, enxergavam a Antiguidade como a chave para os impulsos instintivos da vida que haviam sido degradados nas condições contemporâneas. Para Freud, Édipo fornecia o modelo do homem universal; para Nietzsche, entre Apolo e Dionísio residia uma tensão primordial; para Wagner, as formas clássicas precisavam ser ressuscitadas pelo estilo moderno; e, para Klimt, a deusa simbolizava os princípios do eros.

No sul dos Estados Unidos, logo após a Guerra Civil, ex-donos de escravizados/traficantes de pessoas reafirmaram a linhagem cultural norte-americana por meio da imagem romana oferecida pela astrologia. Astrólogos como Mark Broughton e escolas como The Order of the Magi surgiram da ansiedade confederada. A astrologia tende a ressurgir quando a branquitude é exacerbada e ameaçada, porque se diz que as imagens usadas dentro da astrologia – Júpiter, o Benevolente; Vênus, a Vitoriosa; e o Sol, o Iluminado – são romanas. Os nazistas adoravam a astrologia, porque ela lhes fornecia as imagens românticas de que precisavam para se vestir com fantasias e frases romanas. Ideias da Roma Antiga acerca de cidadania, terra, prosperidade e poderio militar foram reinterpretadas pelos alemães e reconstruídas na forma do Estado fascista moderno. A estética da astrologia moderna é neoclássica, inspirada no mármore branco esculpido em Übermenschen ou em Afrodite de quadris largos e testa alta. As associações modernas de Saturno com a cidadania ou do Sol com o império vêm do romantismo.

O romantismo e o classicismo não são exclusividades da Alemanha nacional-socialista. Como Marx certa vez disse, a Revolução Francesa foi conduzida “com trajes romanos e frases romanas”. O republicanismo do novo Estado norte-americano no século XVI foi inspirado mais pelos ideais romanos do que pela filosofia continental ou britânica. Como argumenta William B. Warner, “líderes de Boston, como o reverendo Jonathan Mayhew, James Otis Jr., Samuel Adams e seu primo de segundo grau John Adams, desenvolveram uma compreensão romana do republicanismo acerca do caráter da sociedade, e não uma compreensão iluminista francesa”.

O apego à democracia e ao republicanismo romanos, bem como sua idealização, não estão restritos apenas ao Ocidente; estendem-se também ao restante do mundo. Stephen Bronner acredita que “o pensamento iluminista continua sendo a melhor base para qualquer política genuinamente progressista, não apenas no Ocidente, mas também naqueles Estados que mais sofreram em suas mãos”. Em outras palavras, para que qualquer luta pós-colonial seja considerada “genuína”, ela deve apoiar a fantasia que o Ocidente sustenta com relação a si mesmo como o lugar mais republicano, mais progressista e mais livre do mundo. Se uma luta política quiser descrever seu próprio sentido de libertação, terá de apresentar seus argumentos em frases romanas e com trajes romanos, com base no direito romano e com a teoria psicanalítica romana.

Mas as frases e os trajes romanos com que se vestiram os revolucionários da França, os republicanos dos Estados Unidos e os nacional-socialistas da

Alemanha não passam disto: vestes. O apego da Europa e dos Estados Unidos a Roma é confuso. Embora Germânia, de Tácito, fosse muito popular na Alemanha antes da Segunda Guerra Mundial, não foi uma obra escrita do ponto de vista de um alemão exaltando as virtudes germânicas, mas por um romano descrevendo bárbaros germânicos para seus pares romanos. Os nacional-socialistas refizeram Roma à sua própria imagem, comparando Hitler aos reis-filósofos de Platão. A astrologia romana e a astrologia grega não são ocidentais, porque o Ocidente é uma invenção moderna. Na verdade, os romanos e os gregos não viam sua astrologia como separada das astrologias da Pérsia, do Egito e da Índia. As geografias ocidentais mais associadas à genealogia romana não vêm, de fato, de Roma, enquanto as geografias que de fato compunham o Império Romano comumente não são consideradas parte do Ocidente.

Em vez de se basear em fatos históricos, a capacidade de reivindicar uma genealogia cultural ou biológica na Roma Antiga é parte essencial da narrativa que sustenta o Ocidente como uma realidade política. No entanto, as linhas que conectam as raças contemporâneas a Roma desaparecem em certos momentos, fragmentam-se em outros e, em outros ainda, fundem-se com seus reflexos paralelos. Roma é uma história especulativa; como escreveu Freud, é um sonho dentro de um sonho. O mesmo vale para a branquitude e para o Ocidente. Se a branquitude é um sonho, então a astrologia – com todo o seu anacronismo e seu estranho neoclassicismo – é uma das línguas por meio das quais esse sonho se expressa.

Um exemplo de como Roma (e, com ela, a branquitude) é transmitida por meio da astrologia: cada signo toma um significado da condição dos planetas nesses signos. Em alguns signos, os planetas são considerados em domicílio.1 Em outros, os signos opostos aos em domicílio, os planetas são considerados em exílio, adversidade ou antítese. Planetas que estão em domicílio ou dignificados são considerados como tendo os recursos necessários para se expressar. Planetas em exílio são considerados como não possuindo os recursos de que precisam para cumprir seu papel. Esse sistema de dignidades essenciais vem da cidadania romana. Cidadãos romanos eram representados no Estado, enquanto estrangeiros eram sempre escravizados. Num contexto contemporâneo, esse sistema faz sentido e tem aplicação moderna precisamente porque o Ocidente adotou os ideais romanos de cidadania para atribuir conforto a certos corpos, enquanto exclui outros,

1 Termos utilizados nesse trecho, como “em domicílio” ou “em exílio” e outros, são típicos da astrologia mais tradicionalista. (N.T.)

nas palavras de Sara Ahmed. As ideias astrológicas a respeito de onde os planetas podem estar “em casa” são também ideias sociopolíticas acerca de quem pode estar em casa.

A branquitude não desapareceu. A branquitude não morreu com a Alemanha nacional-socialista e o totalitarismo dos anos 1900. Ela continua sendo uma realidade política e, como está bem viva, aprendeu a se adaptar e a mudar com o passar dos tempos. A branquitude é uma realidade cosmológica. No neoliberalismo, a estética neoclássica – que continua a influenciar a astrologia contemporânea por meio da recontagem e da revisão de mitos –também continua a influenciar a forma como conduzimos nossos tribunais, nossas burocracias, nossos exércitos e nossas prisões.

Muita gente – sejam millennials ou baby boomers, brancas ou não, queer ou cisnormativas – já me disse que se sentiu atraída pela astrologia porque ela parece oferecer uma forma de falarmos entre nós sobre nós mesmos sem precisarmos recorrer às armadilhas da identidade. Em vez de nos descrevermos por meio das categorias tradicionais de raça, gênero e classe, as pessoas querem formar comunidades a partir de identidades que soem autênticas e próximas. Quem gosta de astrologia quer que a identidade seja tão complexa quanto a própria humanidade.

E eu já vi a astrologia reunir pessoas. Vi pessoas queer relaxarem e sorrirem quando os amigos brincavam com seus signos lunares, rindo junto por terem ascendente em Leão, porque aquilo fazia com que se sentissem vistas. Vi senhoras sarcásticas de Nova York, que normalmente não gostam de compartilhar suas histórias, juntarem-se e perguntarem se podiam conversar com sinceridade sobre seus mapas natais. Vi adolescentes, geralmente envergonhados e na defensiva, protegidos por roupas ou por um vocabulário acadêmico aprendido, admitirem que têm sentimentos intensos por serem de Escorpião. Vi crianças falarem a respeito dos pesos e das alegrias de serem Capricórnio com grandes sonhos, ou de serem Aquário com a medida certa de cinismo e uma boa dose de irreverência inteligente. Já vi um pedido para saber o signo solar, lunar ou ascendente virar uma forma delicada de dizer “quero te conhecer melhor”, e um convite para falar de astrologia virar uma maneira de dizer “quero te ouvir se imaginar além da forma como fui ensinado a te ver”. Por meio da astrologia, somos engraçados, sinceros e vulneráveis. Usamos a astrologia para enxergarmos uns aos outros.

A astrologia ocupa um papel de cura em nossas comunidades. As pessoas procuram astrólogos quando se sentem estagnadas em suas carreiras por falta de recursos, quando se veem presas em relacionamentos nos quais não são reconhecidas, quando tentam processar experiências de violência sexual, quando estão enlutadas e assim por diante. Quem busca aconselhamento astrológico confia que o astrólogo não vai diagnosticar seus problemas com base no modelo individualizado e biológico oferecido pela indústria psiquiátrica moderna. Compreendem que a ausência de padronização na astrologia significa que duas leituras feitas por astrólogos diferentes nunca serão iguais. Escolhem os astrólogos por suas subjetividades. Nem todos os astrólogos sabem o que é sofrer racismo. Nem todos compreendem o que é vivenciar a violência sexual ou perceber o quanto essa violência está normalizada. Nem todos desejam ou escolhem acompanhar clientes em seus traumas. Se a astrologia é uma profissão voltada à saúde mental, então é uma profissão imperfeita, porque nós, astrólogos, também somos imperfeitos. A astrologia é uma ferramenta por meio da qual pessoas imperfeitas tentam, da melhor forma possível, conversar entre si.

Há problemas dentro da astrologia: onde entra a identidade de gênero nas binariedades de gênero atribuídas a Vênus e Marte? Como podemos definir nossa abundância fora dos capitais culturais, se o Sol converge poder e riqueza na figura solitária do soberano? Que tipo de Saturno, ou governo, deveríamos estar criando quando nos sentimos desencantados diante da própria ideia de governo? Por que a questão da cidadania está tão ligada à genealogia? E a pergunta mais crucial: por que continuamos tomando essas ideias e esses arquétipos greco-romanos e os aplicando a todos como se fossem realmente universais e abrangentes?

Mas a astrologia não está sozinha em suas tentativas de criar uma universalidade a partir da estética clássica com uma pitada de modernidade científica. Não é por causa da astrologia que entendemos as emoções grecoromanas como universais; ao contrário, a astrologia as entende assim porque tantas outras instituições também o fazem. Quando dizemos que estamos deprimidos, será que estamos nos referindo à palavra latina “deprimere”, que não apenas significa “pressionar para baixo”, mas também está associada à desvalorização econômica? Ou estamos dizendo que estamos melancólicos, no sentido de um humor negro, como se a negritude fosse intrinsecamente triste ou estagnada? Quando dizemos que estamos paranoicos, estamos realmente nos descrevendo com os termos latinos “para”, que significa “contrário a”, e “noos”, que significa “mente”? Será que esses conceitos romanos de

existir em oposição à própria mente se infiltram também em nós, que não reivindicamos genealogia romana? Quando descobrimos que as raízes das palavras “ansiedade” e “raiva” (anger) se conectam no termo latino “angere”, que significa “sufocar”, será que nós, que não descendemos de Roma, experimentamos essas emoções de maneira diferente – ou seriam elas parte de uma modernidade que já recriou o mundo à imagem de uma Roma simulada? Ao usarmos ideias romanas para descrever nossos estados mentais mais íntimos, não estamos aceitando a promessa de uma universalidade dentro da hegemonia ocidental? Por que a doença mental só pode ser vista como uma realidade científica e biológica – e não como uma construção cultural – quando é descrita por palavras romanas?

A romanização não influencia apenas a forma como falamos a respeito de emoções; ela também influencia como classificamos parentesco, genealogia e vínculos familiares. Chamamos nossos ancestrais não humanos por nomes latinos, descobrindo que são tetrápodes ou bípedes, que pertencem ao gênero Colosteus (“Colosteus” vem do latim “colosseus”, que significa “gigantesco”, enquanto “gênero” vem de “genus”, “raça, nascimento ou linhagem”) e que fazem parte da família Animalia (“Animalia” deriva da raiz latina “ane-”, que significa “respirar”, enquanto “família” remete ao conceito latino de lar ou domicílio). Falamos sobre os tempos paleolíticos (“paleo” significa “antigo”) sem a intenção de remeter às idades dos metais de Hesíodo ou de Virgílio, nas quais a raça é vista ou como em lenta erosão, ou como se revitalizando por meio do Renascimento. Nossas conexões íntimas com a família, a terra e o tempo – genealógicas e históricas – têm um sabor distintamente romano. Esse sabor romano tem gosto de mármore, desprovido de cor, porque apenas os primitivos pintariam suas estátuas (embora os próprios romanos as pintassem). Esse sabor parece a própria realidade. Parece que o problema da romanização não é um problema da astrologia, mas do Ocidente. Ciência e astrologia não são práticas diametralmente opostas. Ambas, como práticas ideológicas e espirituais, tentam inserir símbolos romanos na modernidade. Ambas entendem o real como aquilo que é romano. Não sou contra a astrologia helenística, mas compreender técnicas astrológicas como a dignidade essencial, Caput e Cauda Draconis, detrimento ou antítese planetária, Destino e Fortuna – e oferecer esses conceitos a uma pessoa como se fossem verdades universais consagradas pela história – é perpetuar certa forma de genealogia, e, ao perpetuar essa genealogia, certa forma de narrativa. Falar de nós mesmos por meio dessas genealogias com o intuito de encontrar algum alívio diante de sempre, sempre mesmo, termos a

necessidade de nos entendermos como sujeitos sexualizados, generificados, racializados – frutos da imaginação de outrem – e nos redimirmos como humanos por meio dos arquétipos da astrologia não é um movimento geral, universal ou natural. É um movimento específico e deve ser considerado de maneira estratégica.

A verdade é que aquilo que chamamos de astrologia não é o que oferece cura às pessoas que se aproximam dela. A história da astrologia se desenvolveu a partir da supremacia branca, do capitalismo e do patriarcado. As formas como enxergamos Vênus e Marte e o gênero, e as formas como Júpiter, o Sol e o conceito de regência foram definidos serviram ao poder em vez de se oporem a ele. A astrologia, tal como a herdamos, não nos oferece uma identidade autêntica. A astrologia nos oferece uma identidade romana, um pertencimento romano, uma humanidade romana.

É por isso que precisamos trabalhar continuamente para destruir a astrologia como a praticamos: é porque nela buscamos identidade. A razão pela qual a astrologia, como subcultura, cria uma comunidade rica e uma validação espiritual não é que exista algo de especial nessa linguagem oculta nem que ela consiga acessar algo do ser de maneira diferente de outras linguagens identitárias; é que seus praticantes e entusiastas a transformaram em algo próprio. Ela funciona não por haver algo de mágico na linguagem em si, mas porque o ato de não acreditar de imediato, de acreditar onde a crença fez por merecer, de ouvir de modo desviado, de compartilhar a magia da criação de ilusão – tudo isso, feito coletivamente, é que é mágico. A astrologia não é mágica. A comunidade que a recria na era contemporânea é.

Na posição de alguém que escreve, venho do mundo das fanfics, 2 um universo de narrativas controverso, porque quem escreve, em geral, são vozes que não publicam nem buscam aprender os clichês que garantiriam validação institucional. Autores de fanfic costumam ser ingênuos, porque são não treinados. Não se trata exatamente de uma indústria, já que não há dinheiro envolvido nessa escrita e pelo fato de que esse trabalho existe em uma zona

2 Fanfics (ou fan fictions) são histórias criadas por fãs usando personagens, universos ou elementos de obras originais (como livros, filmes, séries etc.), mas com enredos novos e alternativos. Podem ser romances, aventuras, crossovers ou até finais diferentes para as obras originais. (N.T.)

cinzenta do ponto de vista jurídico. Escrevemos com personagens que jamais nos pertencerão. No entanto, as fanfics continuam resistindo, apesar de todos que dizem que são vergonhosas e que as meninas deveriam superar essa fase. As pessoas gostam de fanfics porque ali elas podem ser ouvidas – porque se trata de uma comunidade que contesta a autoridade da autoria.

A mídia de massa que o universo dos grupos de fãs (ou fandoms) consome – tal como a comunidade astrológica consome sua própria versão romana – não é neutra. É um mundo superpovoado por homens brancos, onde mulheres nunca se veem nem se falam, onde a dicotomia entre homossexualidade e heterossexualidade faz parecer que pessoas gays pertencem a uma espécie natural completamente distinta, onde pessoas não brancas simplesmente não existem – a não ser em papéis coadjuvantes ou estereotipados. Esse mundo de imagens tem uma genealogia ligada a ideologias supremacistas brancas. Os desenhos animados nasceram da sátira da negritude feita por homens brancos, e o cinema norte-americano surgiu da tradição dos minstrel shows. 3

Assim como astrólogos – que muitas vezes não têm relação genealógica com os romanos, mas buscam transcender os referenciais culturais considerados ingênuos ou específicos demais para serem estudados fora da antropologia –, quem escreve fanfiction também costuma não ser homem branco, embora muitas vezes reproduza imagens de homens brancos para contar histórias sobre si. Assim como os astrólogos fazem com seus arquétipos, escritores de fanfiction frequentemente transformam o gênero ou a raça de personagens, e por vezes os recriam como criaturas inumanas ou híbridos animais. Também como os astrólogos, essas pessoas costumam achar o material de origem insatisfatório e costumam achar as ferramentas disponíveis para imaginar novas realidades distantes de imaginações colonizadas decepcionantes. No entanto, continuam na fanfiction pelos mesmos motivos que sustentam a permanência na astrologia: porque é bom poder falar com outras pessoas, fazer piadas internas, porque há outros leitores e intérpretes dispostos a enxergar quem somos quando escrevemos histórias ou horóscopos – porque pertencemos à subcultura mesmo quando não encontramos lugar na cultura dominante.

3 Minstrel shows eram espetáculos teatrais populares nos Estados Unidos no século XIX e no início do século XX (principalmente entre 1840 e 1920), conhecidos por exibir representações racistas e caricaturais de pessoas negras, geralmente interpretadas por atores brancos com o rosto pintado de preto (blackface). Esses shows perpetuaram o racismo e ajudaram a consolidar imagens negativas dos negros na cultura popular e no entretenimento norte-americano. (N.T.)

O que salva a astrologia de si mesma hoje é que ela funciona como um fandom, um “universo de fãs”: é uma subcultura criada coletivamente, que digere aquilo que foi produzido em massa. Em vez de ser um movimento cultural voltado ao consumo, que tende a ter picos de interesse em torno de grandes lançamentos de um poder criativo centralizado e depois desaparece com o fim do hype, os fandoms criados pela própria comunidade costumam se manter estáveis em termos de interesse. Depois de certo ponto mágico, eles deixam de depender do cânone e passam a funcionar muito bem por conta própria, sem crescer nem diminuir (o fandom do animê Sailor Moon é um bom exemplo disso – vale conferir os dados no blog da usuária destinationtoast, no Tumblr). Isso significa que não estamos ali para evangelizar os outros nem para crescer, como os capitalistas exigiriam de qualquer prática “viável”. Estamos ali compartilhando ideias, curando uns aos outros e nos inspirando mutuamente, num ritmo cotidiano, não cumulativo, não acelerado. Não existe uma corporação central que produza livros de astrologia a serem seguidos por todos nós. Praticar astrologia, hoje, significa que estamos ouvindo uns aos outros. Significa que estamos sendo ouvidos.

Um comentário a respeito da minha posicionalidade e do título do livro

Sou imigrante de primeira geração nos Estados Unidos da América, proveniente da província de Henan, na China. Cresci em uma cidade pequena no interior dos EUA e me mudei para Nova York aos 18 anos. Fui para Nova York porque precisava estar cercada de mais pessoas não brancas, e atualmente alugo um quarto no Brooklyn como gentrificadora não negra.4 Sou uma pessoa asiática vivendo como ocupante em território lenapehoking.5

4 Uma pessoa ser uma “gentrificadora não negra” significa ela ocupar um espaço urbano contribuindo para o processo chamado de gentrificação, no qual bairros populares passam por um processo de “revitalização” e valorização imobiliária que resulta na expulsão de moradores originais, muitas vezes comunidades marginalizadas (as mais afetadas são as pessoas negras), em favor de populações com mais recursos. Nesse caso, apesar de não ser branca, a pessoa “gentrificadora não negra” ocupa um lugar de relativo privilégio ao viver em bairros historicamente habitados por comunidades negras ou de baixa renda, favorecendo – mesmo sem intenção – processos de expulsão e valorização imobiliária que continuam dinâmicas coloniais e de exclusão. (N.T.)

5 Lenapehoking era a terra ancestral do povo originário lenape, que abrangia regiões onde hoje se situam Nova York, Nova Jersey e Pensilvânia, antes da colonização. Expulsos

Costumava fantasiar com a ideia de voltar para a China e imaginava que, ao retornar, deixaria de ser ocupante. Depois descobri que a gentrificação, como desdobramento da colonização, continua ocorrendo na China. Meu lugar como ocupante no Ocidente continua a exercer violência sobre povos originários, ao mesmo tempo que me distancia das histórias de meus próprios ancestrais. Não há existência ética sob o capitalismo. A política chinesa me escapa, porque cresci nos Estados Unidos e me formei culturalmente pelo Ocidente. Minha visão política se inscreve no Ocidente, lugar onde sou racializada e cúmplice.

Quando minha editora, Gillian – que acompanhou o percurso deste livro, ajudando-me a investigar estados de exceção e a tornar mais complexos os argumentos –, e eu trocávamos ideias a respeito do título da obra, decidimos por Astrologia pós-colonial. Pós-colonialismo é um campo teórico complexo, porque, embora se proponha a desconstruir algumas das metanarrativas da modernidade acerca de raça, gênero e capitalismo, o termo circula principalmente em espaços acadêmicos. Além disso, a própria palavra sugere que teria havido um fim da colonização – só que esse fim não aconteceu. Ocupantes continuam a viver em terras originárias, e sou cúmplice dessa ocupação em curso. Enquanto escritores pós-coloniais frequentemente se originam de colônias satélites do Ocidente, os movimentos de descolonização emergem de estados ocupados.

Escolhi o nome Astrologia pós-colonial para este livro por reconhecer as limitações da minha posição como imigrante no território onde hoje ficam os Estados Unidos. Na astrologia, fala-se muito em tradições antigas e modernas, com referências constantes a figuras romanas ou a brancos europeus. Astrologia pós-colonial é uma tentativa de contribuir para esse diálogo, ainda que de forma parcial, pois toda perspectiva é limitada. Ao dar esse nome ao livro, o que proponho é somar ao que Jodi Byrd chama de cacofonia, algo que ela observa “tanto no desejo e no medo do colonizador, que precisa, contínua e repetidamente, articular representações ‘verdadeiras’ e ‘reais’ do colonizado”, quanto “nas formas como opressões históricas existem em relação com processos de racialização, marcação de gênero e sexualização do outro, que tentam fazer com que experiências e histórias contestatórias pareçam naturais ou inevitáveis por meio de uma suposta conexão com o real”.

por europeus, os lenape hoje vivem principalmente em Oklahoma e Ontário, lutando por preservação cultural e reconhecimento. (N.T.)

Por exemplo, neste livro, frequentemente comparo a astrologia, no papel de um sistema de classificação, com a raça. Raça é uma linguagem que foi inventada por pessoas brancas e reapropriada por pensadores pós-coloniais e que ainda continua a ferir a soberania indígena. Byrd escreve: “Racialização e colonização devem ser entendidas, portanto, como sistemas globais concomitantes que garantem a dominação branca através do tempo, da propriedade e das noções de si”. Como pessoa não branca, falo a respeito de raça. Muitos escritores pós-coloniais escrevem a respeito de raça. Espero que, ao falar disso, eu o faça em solidariedade com a descolonização indígena, que Byrd define como “um processo que restaura a vida e permite que colonos, imigrantes e nativos compreendam e lamentem juntos as violências do império dos EUA”. Espero que todos que lerem este livro o critiquem e usem essas críticas para afirmar suas próprias práticas de cura. Fico feliz por você tê-lo escolhido e espero que haja algo aqui que te provoque a tomar a cosmologia em suas próprias mãos.

Aviso de conteúdo sensível para o livro: O objetivo deste livro é tornar a astrologia mais responsável pelas histórias nas quais seu significado foi acumulado. Isso significa que o livro deve discutir, e de fato o faz, os processos violentos que constroem a modernidade, incluindo racismo, antinegritude, violência de gênero, colonização, violência climática e outras formas de violência social. Pessoas que vivenciam essas opressões de forma direta não precisam de descrições explícitas de violência para aprender, e este livro tenta ao máximo evitar material que possa ser desencadeante de traumas, como um esforço no sentido de priorizar pessoas negras e mulheres que estejam lendo. Também acredito que o racismo, em sua essência, é uma descrição da branquitude, e foco minhas críticas ao recontextualizar a branquitude para criticar o racismo. No entanto, ao contextualizar a astrologia no colonialismo, há seções em que a violência social e eventos recentes, que podem ser desencadeantes, são mencionados ou descritos de uma forma que espero ser compassiva, e avisos de conteúdo sensível serão distribuídos ao longo do livro para preparar os leitores adequadamente.

www.autenticaeditora.com.br www.twitter.com/autentica_ed www.facebook.com/editora.autentica

Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Astrologia pós-colonial - A leitura dos planetas por meio do capital, do poder e do trabalho by Grupo Autentica - Issuu