

As horas frágeis VIRGINIE GRIMALDI
AS HORAS FRÁGEIS VIRGINIE GRIMALDI

TRADUÇÃO : Julia da Rosa Simões
Copyright © 2025 Virginie Grimaldi
Copyright desta edição © 2026 Editora Gutenberg
Título original: Les Heures fragiles
Todos os direitos reservados pela Editora Gutenberg. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
editora responsável
Flavia Lago
editora assistente
Natália Chagas Máximo
preparação de texto
Andréia Manfrin
revisão
Aline Araújo
ilustração de capa
Paula de Aguiar
diagramação
Waldênia Alvarenga
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
Grimaldi, Virginie
As horas frágeis / Virginie Grimaldi ; tradução de Julia da Rosa Simões. -- 1. ed. -- São Paulo : Gutenberg, 2026.
Título original: Les heures fragiles
ISBN 978-85-8235-853-5
1. Ficção francesa I. Título.
25-312095.1
Índices para catálogo sistemático:
1. Ficção : Literatura francesa 843
Cibele Maria Dias - Bibliotecária - CRB-8/9427
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Aos meus filhos.
But I’m a creep, I’m a weirdo What the hell am I doing here? I don’t belong here.* Creep, Radiohead
* Mas sou uma aberração, / eu sou um esquisitão. / Que diabos estou fazendo aqui? / Eu não pertenço a este lugar. (N. T.)

Diane
Ela conferia se eu ainda estava respirando. Todas as noites. Não ia dormir sem ter certeza. Levava o indicador à boca, para umedecê-lo, e depois o colocava sob minhas narinas, como os marinheiros para determinar a direção do vento. Ela secava minhas lágrimas antes mesmo que caíssem. Corria até mim ao menor tombo, com o rosto tenso de preocupação. Cortava a salsicha em pedacinhos minúsculos e não comprava mais amendoim. Não me deixava ir à colônia de férias. Autorizava que eu fosse de bicicleta à casa de minha amiga Lulu, desde que usasse capacete, cotoveleiras e joelheiras, e que ligasse para ela assim que chegasse. Media minha temperatura quando eu estava com as bochechas vermelhas ou as mãos frias. Dizia “eu te amo” depois de me dizer “boa noite”. Essas três palavras precisavam ser as últimas do dia. Se eu levantasse da cama, ela repetia as três últimas palavras, por precaução. Colocava uma faca de ponta arredondada para mim à mesa. Trancava à chave as facas pontiagudas, as tesouras, os remédios e os produtos de limpeza. Escrevia meu nome e nosso endereço na palma da minha mão quando íamos à feira. Sempre escolhia um ponto de encontro, caso eu me perdesse. Não saía sem um kit completo de primeiros socorros. Tinha feito um estudo dos acidentes com ônibus escolares e me aconselhava a sentar no meio, de preferência no corredor. No inverno, me fazia usar uma balaclava e luvas grossas. No verão, me cobria com um
protetor solar esbranquiçado. Nunca realizou meu sonho de ter uma mobilete. Me buscava na saída da balada. De todo modo, não dormia enquanto eu não estivesse na minha cama. Dizia: cuidado. Cuidado, você vai cair. Cuidado, não corra. Cuidado, você vai se machucar. Cuidado ao atravessar a rua. Cuidado, não fale com estranhos. Cuidado, nunca perca o seu copo de vista. Cuidado com os bons de papo. Cuidado nas escadas. Cuidado, tem açúcar demais. Cuidado, você vai ficar doente. Prometi a mim mesma que nunca seria como ela. Até que também me tornei mãe.
Lou
A recepcionista tem cara de poucos amigos. Mesmo ao indicar o caminho até o setor, parece estar ralhando comigo. Não sei se é pelo olhar de pedra ou pelas palavras que dispara como shurikens, * mas quase sinto vontade de pedir desculpas só por ter dito bom dia. Deve ter se levantado com o pé esquerdo. Já estou arrependida de ter vindo… Era o empurrãozinho que faltava para eu pegar o ônibus de volta.
Sigo as setas azuis desenhadas no chão até a sala de espera
B. Uma garota da minha idade já está sentada lá. Ela levanta os olhos e volta a mergulhar no celular. Provavelmente preferia estar sozinha. Eu também.
Sinto a mesma coisa quando cruzo com alguém no banheiro do colégio. Apesar de estarmos lá pelo mesmo motivo. É a primeira vez que vou a uma ginecologista. Minha mãe sempre disse que marcaria uma consulta para mim quando eu sentisse necessidade, que não havia nenhuma pressa. É a primeira vez que faço algo escondido.
Uma mulher chama o meu nome. No crachá do jaleco dela, leio: “Dra. Amina Hassan”.
– É sua primeira vez no planejamento familiar?
* O shuriken é uma arma tradicional japonesa de arremesso, em forma de estrela, que os ninjas usavam para desviar a atenção dos inimigos.
Sacudo a cabeça.
– Quantos anos você tem, Lou?
– Dezesseis.
Ela parece mais simpática que a da recepção. Usa um monte de pulseiras, seus gestos fazem música. Ela me pergunta por que estou ali.
– Quero começar a tomar a pílula.
– Você está mantendo relações?
– Relações?
– Relações sexuais.
– Ah. Sim.
Ela entende minha resposta, embora nem eu mesma ouça os sons que saem da minha boca.
– Há quanto tempo?
– Dois meses e uma semana.
– É seu primeiro namorado?
– Tive outro antes, mas não era a mesma coisa. A gente só se beijava. Eu não estava apaixonada.
É a primeira vez que me sinto assim. Penso nele o tempo todo. O tempo todo. Na aula de História, passei uma hora escrevendo o nome dele sem parar. Hugo. Hugo. Hugo. Hugo. Preenchi várias páginas. A gente mora no mesmo prédio, mas não na mesma entrada. Ele precisa tocar o interfone para chegar ao meu apartamento. Nas quartas à tarde, único dia em que fico sozinha em casa. Mamãe e Seb estão no trabalho, Tom na creche. A gente precisa se esconder, porque ele já tem 21 anos.
Tive que conter a alegria que explodia dentro de mim quando ele falou comigo pela primeira vez.
Foi numa quinta-feira à noite, no dia 23 de março. Eu estava passeando com Arya no estacionamento. Sabia que ele estava no prédio, que tinha voltado havia alguns dias. Ele sempre fica algumas semanas na casa dos pais quando volta de uma missão. Ele é militar. Thierry, o vizinho de cima, me contou.
Quando vi o carro dele, meu coração disparou. Mandei uma mensagem pra Melha:
“Ele está aqui.”
“Faz o que a gente combinou!”
Esperei ele descer e me atirei no chão. Não foi difícil, minhas pernas já estavam completamente bambas. Arya pulou em cima de mim e começou a lamber o meu rosto. Minha mãe gritou da janela:
– Lou, tá tudo bem?
Ele olhou pra minha mãe, depois pra mim. Ela continuou me fazendo passar vergonha:
– Tá doendo? Consegue se mexer?
Ele veio até mim e estendeu a mão pra me ajudar a levantar. Minha mão tremia.
– Você se machucou?
– Não, tá tudo bem… Obrigada.
– Legal.
Ele soltou minha mão e caminhou até a entrada dele. Minha mãe se materializou na minha frente.
– Tá tudo bem, Lou? O que aconteceu?
Eu sorri. Não lavei minha mão direita por uma semana.
A ginecologista me explica os diferentes métodos contraceptivos. Insiste que só a camisinha protege contra infecções, ao contrário da pílula. Eu sei. Minha mãe já me repetiu isso mil vezes. Com a ajuda de desenhos, vídeos educativos e gráficos. Hugo faz exames regularmente, não corro nenhum risco. Ele me prometeu. Ele não suporta usar camisinha. Disse que, se eu o amasse de verdade, seria ótimo eu começar a pílula. Eu amo Hugo muito mais do que de verdade.
Diane
Esta mesa foi o primeiro móvel que compramos juntos. Percorremos os corredores da loja de mãos dadas, até que a escolhemos. Não era a mais resistente, nem a mais bonita, mas tinha a vantagem de poder ser entregue bem no dia da nossa mudança. Não era apenas uma mesa, era o nosso novo começo – sob seus quatro pés de pinho, jazia o campo de batalha que tínhamos cruzado para nos separarmos de nossos antigos parceiros. Chorei de felicidade sobre seu tampo extensível.
Sentado à essa mesa, sob um maravilhoso céu azul, ele arranca o pino da granada do meu coração.
– Diane, não sei mais o que quero.
Ele solta a xícara, limpa a boca e olha fixamente para a parede atrás de mim, perto o bastante do meu rosto para observar minha reação sem precisar me encarar. Lou ainda está dormindo, Tom está se arrumando no banheiro, meu mundo desaba sobre o tampo extensível.
– Como assim?
– Preciso de um tempo.
– É por causa de ontem à noite?
– Ontem à noite?
– Quando a gente brigou por causa da Lou? Eu sei que não devia te contradizer na frente das crianças, mas às vezes é mais forte que eu. Você foi duro com ela.
Ele leva as mãos ao rosto. Meus olhos grudam na aliança dele.
– Não tem nada a ver com isso, Diane. É só que… ando me fazendo um monte de perguntas. Não sei se é isso mesmo que eu quero. Tudo isso.
Ele abre os braços num gesto amplo ao dizer as duas últimas palavras.
Tudo isso. A cozinha que pintamos de verde-sálvia? As quatro tigelas bretãs com nossos nomes gravados, empilhadas no aparador de madeira? O apartamento de 67 metros quadrados no terceiro andar com vista para o estacionamento? O sofá bege? O computador familiar no canto da sala? As cortinas blackout para nos proteger do vizinho xereta?
Tudo isso. O teto solar do carro que pinga água? O spot queimado do banheiro que precisa ser trocado? Os quadros esperando para serem pendurados na parede há meses? O cheque especial que precisa ser renegociado no banco? O lixo que precisa ser levado para a rua?
Tudo isso. Os desenhos do nosso filho na porta da geladeira? As poesias declamadas com orgulho no Dia dos Pais? Os passeios no shopping com minha filha? Os filmes assistidos embaixo do cobertor, os quatro espremidos no sofá? As imitações toscas de Tom? Os desenhos coloridos de Lou? Nossos corpos enlaçados?
Tudo isso. Nós?
Ele se levanta.
– Não estou dizendo que acabou. Só preciso colocar as ideias no lugar.
– Você conheceu outra pessoa?
– Para com isso.
Não é uma resposta. Mas não repito a pergunta. Seb não é do tipo que foge da raia, ele sempre compartilha o que está sentindo, antes mesmo de organizar os pensamentos. A honestidade
dele foi uma das razões pelas quais me apaixonei, depois de doze anos convivendo com as mentiras do pai de Lou. E talvez também uma das razões pelas quais acabei sendo pega totalmente de surpresa.
À luz crua do que ele acaba de me dizer, as últimas semanas ganham uma nova coloração. Estava tudo ali, na minha frente. Os suspiros, as explosões. O celular grudado na mão.
Os silêncios. O corpo dele na beira da cama. Os beijos rápidos na minha testa.
– Você ainda me ama?
– Não sei, Diane. Sinto que estou sufocando. Não sei mais quem eu sou. Não quero acordar aos 80 anos cheio de arrependimentos.
Lou entra bem no fim da frase, os olhos ainda inchados de sono. Parece não ter ouvido nada. Ela beija o rosto de Seb, que sai da cozinha, e se pendura no meu pescoço. Forço um sorriso e colo ele no rosto. Ouço as pessoas dizerem que a adolescência é um território hostil, uma selva intransponível.
Falam de arrogância, insolência, ingratidão. Sei que tenho sorte. Apesar dos 16 anos, minha filha continua carinhosa e doce. Às vezes ela discorda de mim, levanta a voz, mas o bebê cabeludo que só passou a dormir a noite toda aos três anos se tornou uma jovem segura de si, e tenho orgulho da relação que construímos.
Ela coloca uma fatia de pão na torradeira.
– Mãe, pode pedir pro Tom sair do banheiro? Não sei o que ele tá fazendo, vou me atrasar pra escola.
– Já tô aqui! – anuncia meu filho, entrando na cozinha.
Vejo nos olhos de Lou que ela está se segurando para não rir.
– É gel no seu cabelo? – ela pergunta.
– Dá pra ver? – Tom pergunta, arrasado. – Queria que ficasse natural. Nos outros sempre fica bom… – Deixa eu ver, querido, vou arrumar.
Estendo a mão para soltar os fios, mas meus dedos batem em uma massa sólida e compacta.
–Ai! Quebrei o dedo!
–Sério?! – meu filho pergunta, assustado.
Tendo a esquecer que ele ainda não entende muito bem ironias. A irmã aproveita:
–Cuidado na hora de cumprimentar as pessoas, você pode matar alguém!
A risada de Seb chega antes dele.
–Filhão, aproveita e pendura os quadros do corredor? Três cabeçadas em cada prego e tá feito!
–Não tem graça, pai!
Lou solta uma gargalhada:
–Desta vez seu pai foi engraçado.
Essa cena banal tem ares de despedida. Seb nos deseja um bom-dia e me lança um sorriso triste. Apoiada no maldito tampo extensível, vejo ele se afastar e faço uma amarga constatação.
A poucos dias do nosso décimo aniversário de casamento, é a primeira vez que ele me surpreende.
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