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Arrivederci amore, ciao

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Giorgio Pellegrini,

ex-militante de extremaesquerda, traiu todos os seus antigos camaradas para fugir da prisão e lança mão de seu charme para seduzir as mulheres e roubá-las. Ele acaba pegando gosto pelo crime ao tentar forjar um recomeço político que lhe permitiria entrar na alta sociedade.

"Excitante, fortíssimo, bebemos este amore como se bebe uma grappa, gosto amargo mas bom pra diabo. Adoramos detestar esse canalha." Brigitte Hernandez, Le Point "Uma narrativa à queima-roupa." Bernard Le Saux, Le Figaro "A moral deste romance sem moral é que ele é formidavelmente cativante." André Rollin, Le Canard Enchaîné

o Diári um de la crápu

Foto: Andrea Caranti

MASSIMO CARLOTTO, nascido em Pádua em 1956, vive em Cagliari, na Sardenha. É autor de vários romances, dois deles já traduzidos em vários países: A verdade do jacaré e O fugitivo. É dramaturgo, roteirista e faz colaborações com músicos, e também em jornais e revistas.

ISBN 978-85-8286-089-2

9 788582 860892


Diário de um crápula

Tradução

Fernando Scheibe


Copyright © 2000 Edizioni e/o Publicado mediante acordo com The Ella Sher Literary Agency Copyright @ 2015 Editora Nemo/Vestígio

Título original: Arrivederci amore, ciao Todos os direitos reservados pela Editora Nemo. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

DIRETOR DA COLEÇÃO

CAPA

Arnaud Vin

Carol Oliveira (sobre imagem de Irina Munteanu www.flickr.com/skippedheartbeats)

PREPARAÇÃO

Cristina Antunes REVISÃO

Eduardo Soares

DIAGRAMAÇÃO

Jairo Alvarenga Fonseca

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil

Carlotto, Massimo Arrivederci amore, ciao : diário de um crápula / Massimo Carlotto ; tradução Fernando Scheibe. -- 1. ed. -- São Paulo : Vestígio, 2015. Título original: Arrivederci amore, ciao ISBN 978-85-8286-089-2 1. Ficção policial e de mistério (Literatura italiana) I. Título. 14-09422

CDD-853

Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção policial e de mistério (Literatura italiana) 853

A VESTÍGIO É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA

São Paulo Av. Paulista, 2.073, Conjunto Nacional, Horsa I, 23º andar, Conj. 2301 Cerqueira César . 01311-940 São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034-4468 Televendas: 0800 283 13 22 www.editoravestigio.com.br

Belo Horizonte Rua Aimorés, 981, 8º andar Funcionários . 30140-071 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3214-5700


Artigo 178 do código penal italiano: A reabilitação anula a pena acessória e qualquer outro efeito penal da condenação, a menos que a lei disponha de outra forma. Artigo 179 do código penal italiano: A reabilitação é concedida após cinco anos decorridos do dia em que a pena terminou de ser cumprida ou foi anulada de outra forma, desde que o condenado tenha dado provas efetivas e constantes de boa conduta.


Prólogo

A carcaça do jacaré boiava de barriga para cima. Fora abatido porque começara a se aproximar demais do acampamento e ninguém queria perder um braço ou uma perna. O fedor adocicado da decomposição se misturava com o da floresta. A primeira cabana ficava a uma centena de metros daquela clareira. O italiano conversava tranquilamente com Huberto. Percebeu minha presença. Virou-se e sorriu para mim. Dei uma piscada para ele, que voltou a falar. Me aproximei de suas costas, respirei fundo, e disparei em sua nuca. Ele desabou no chão. Nós o pegamos pelos pés e pelos braços e o colocamos ao lado do jacaré. O réptil de barriga para cima, ele de cara para baixo. A água estava tão densa e imóvel que foi com dificuldade que o sangue e pedaços de cérebro conseguiram afundar num espaço do tamanho de um pires. Huberto pegou a pistola, colocou na cintura e, com um movimento de cabeça, me fez sinal para voltar ao acampamento. Obedeci, embora tivesse preferido ficar mais um pouco olhando o corpo na água. Não pensava que fosse tão fácil. Tinha encostado o cano em seus cabelos loiros, evitando tocar na cabeça para não correr o risco de que se virasse e me olhasse nos olhos, e apertado o gatilho. A detonação fora seca e fizera os pássaros fugirem. O recuo na mão fora leve e, com o rabo do olho, vira a culatra da semiautomática ir para trás e carregar outra bala. Na verdade, meu olhar estava concentrado em sua nuca. Um buraquinho vermelho. Perfeito. O projétil saíra pela testa abrindo um rombo. Huberto o vira morrer sem mover um músculo. Sabia que aquilo aconteceria. O italiano 9


devia ser executado e ele tinha se oferecido para atraí-lo até a armadilha. Havia algum tempo que se tornara um problema. À noite, podre de bêbado, molestava os prisioneiros. Na noite anterior, o comandante me chamara para conversar em sua tenda. Estava sentado na cama de lona e girava uma grande pistola entre as mãos. – É uma calibre nove, de fabricação chinesa – explicou. – Uma cópia exata da Browning HP. Os chineses copiam tudo. São precisos e meticulosos. Se não fossem os ideogramas, daria pra confundir com uma autêntica. Mas a mecânica é uma bosta. Trava no meio do carregador. Perfeita na aparência mas fraca por dentro... Exatamente como o socialismo chinês. Concordei fingindo interesse. O comandante Cayetano era um dos dirigentes históricos da guerrilha. E um dos poucos sobreviventes. Tinha passado dos sessenta e usava um cavanhaque fino e longo no estilo Ho Chi Minh e, como o líder vietnamita, também era alto e magro. Filho de um latifundiário da cana-de-açúcar, desde jovem decidira passar para o lado dos pobres e dos índios. Um cara coerente. Chato e topetudo. Certamente não tinha me chamado para bater um papo. Nunca o fizera. Nunca fora com minha cara. – Mate-o – disse, estendendo-me a pistola. – Um tiro bastará. Concordei de novo. Não demonstrei surpresa nem perguntei quem deveria matar. Tinha entendido muito bem. – Por que eu? – limitei-me a perguntar. – Porque você também é italiano. Chegaram juntos e são amigos. É melhor que isso fique em família – disse num tom maldoso que não admitia réplica. Concordei pela enésima vez e, na noite seguinte, apertei o gatilho. No acampamento, ninguém comentou o assunto. Todos esperavam aquilo. Foi essa toda a minha experiência como guerrilheiro: uma execução à traição. Matar alguém que, como eu, resolvera dedicar a vida à causa de um povo da América Central. Em teoria. Na realidade, éramos dois babacas vaidosos, fugidos da 10


Itália e dos filhinhos de papai da universidade, perseguidos por um mandado de prisão por associação subversiva e alguns atentados sem importância. Sem contar a bomba que tínhamos colocado na frente da Associação Industrial e que tinha matado um vigia noturno. Um azarado prestes a se aposentar. Tinha reparado na bolsa, descera da bicicleta e tivera a péssima ideia de meter o nariz ali. Pelos jornais, descobrimos que passava ali todas as noites. Simplesmente não tínhamos verificado isso, ocupados demais em nos gabar, nos bares, das ações que outros tinham realizado. Foi uma garota com quem eu tinha ficado algumas semanas que resolveu colaborar meia hora depois de ser presa e entregar nossos nomes. Então atravessamos a fronteira francesa com toda a pressa. Em Paris, um ano depois, quando ficamos sabendo que tínhamos sido condenados à prisão perpétua, olhamo-nos nos olhos e decidimos bancar os heróis. Só que a selva não era o Quartier Latin, nem Bérgamo e muito menos Milão. E o inimigo, se o capturasse, não o colocava na prisão: esfolava você vivo, tirando a pele a partir do tornozelo. Tínhamos chegado cheios de entusiasmo e fervor revolucionário, mas em uma semana descobrimos que a vida na guerrilha era um verdadeiro inferno. Por sorte, sempre permanecíamos na retaguarda. Não tínhamos colhões para enfrentar os rangers da ditadura e seus instrutores americanos como faziam aqueles índios silenciosos. Nunca sorriam. Viviam e morriam com a mesma expressão. Meu amigo, com o tempo, perdeu a cabeça. Tinha começado a beber e a fazer estranhos joguinhos com os soldados que a Frente capturava nas emboscadas. Eu o avisei que ali não gostavam de certas fraquezas, mas ele já não dava ouvidos a ninguém. Passava o dia como um autômato, à espera da noite. Aproveitei a chegada de uma equipe da televisão espanhola para me afastar sempre mais do comandante Cayetano, do perigo dos combates e da causa à qual me tornara completamente indiferente. Uma jornalista baixinha e bunduda pusera os olhos em mim. Dei a entender que a faria experimentar a embriaguez de uma aventura com um dos últimos combatentes das brigadas internacionais. Ela, após algumas 11


noites de paixão, pediu e obteve do comandante que fosse eu a ajudá-la nas entrevistas. Fugi para a Costa Rica atravessando a fronteira a pé, depois de ter prometido que a encontraria em Madri. Mas não tinha documentos, e voltar para a Europa com uma condenação à prisão perpétua nas costas, naquela época, ainda me parecia um risco inútil. Procurei trabalho nas praias. Investidores europeus, especialmente italianos, tinham começado a construir pousadas nas praias belíssimas e virgens. Nenhuma obrigação social, nenhum plano diretor e a concessão de licença baseada num simplíssimo sistema de subornos. De paraíso terrestre a paraíso de cimento. Além do italiano, eu falava espanhol e me virava bastante bem com o francês. Fui admitido como barman do hotel de uma italiana. Uma quarentona cheia de dinheiro, separada e sem filhos. Uma milanesa com faro para negócios. Daquelas que sabem lidar com as pessoas. Quando me apresentei, me examinou da cabeça aos pés. O que viu deve tê-la agradado, mas não tinha nada de burra. Me disse na cara que lhe parecia evidente que eu era um terrorista foragido. Um daqueles cabeças de merda que tinham destruído seu carro para construir uma barricada bem no centro de Milão. Lembrava da data. Eu também. Três dias de fúria, a cidade fedendo a gasolina e gás lacrimogêneo e dois mortos: Varalli e Zibecchi. Inventei uma historinha patética mas verossímil. Recomendou que não me comportasse mal; a polícia da Costa Rica não tinha nenhuma simpatia por refugiados políticos. Aquele lugar me parecia um paraíso em comparação com a selva e, pela primeira vez desde a fuga, levei em consideração a ideia de criar raízes. Meu destino, no entanto, estava nas mãos da patroa, e enfiar-me em sua cama, então livre, me pareceu o melhor método de manter a situação sob controle. Chamava-se Elsa e não era feia. Certamente, na praia circulavam mulheres muito mais bonitas e muito mais jovens, mas eu não estava em condições de me permitir certos luxos. Era uma criatura difícil e se fez cortejar por dois meses antes de dar para mim. Não acreditava na sinceridade de meu amor e em quase nada do que lhe contava. Para mim era fácil mentir para ela, e o fazia 12


com prazer, aquilo me permitia construir uma identidade diferente, como um documento falso. Interior. Permitia-me viver longos períodos sem ter que encarar minha vida real, que eu começara a odiar. Me dava medo. Baseara-se tempo demais em declarações de intenções às quais nunca fui fiel. Por falta de coragem. E, no fundo, sempre soube disso. Mas era fácil mentir para mim mesmo e para os outros nos bares e outras reuniões. Não eram todos como eu. Muito pelo contrário. Eu fazia parte daquela minoria que encontrara no movimento espaços de sociabilidade e liberdade que a família sempre me negara. Se tivesse imaginado que o preço seria a condenação à prisão perpétua e ter que matar um amigo, teria ficado em casa tranquilo, suportando as idiotices de meu pai, as fraquezas de minha mãe e a carolice de minhas irmãs. Elsa preferia trepar de manhãzinha, antes de preparar o café da manhã dos hóspedes. Sempre achei que preferia aquele momento porque não a obrigava a fazer sexo por muito tempo. Era apressada e não tinha nenhuma imaginação. Orgasmo. Um beijo na testa. E um cigarro. Eu a traí pela primeira vez dois anos depois, com outra quarentona. Uma florentina, acompanhada do marido e da cunhada, que, com a desculpa de ter a pele muito clara e delicada, passava a maior parte do tempo sentada no balcão do bar. Gim tônica e uma vontade imensa de conversar. Era um pouco gorda, mas tinha um rosto bonito e olhos maliciosos. Lançava-me sinais inequívocos. Não era a única, e as outras eram todas mais jovens e apetitosas. Mas eu tinha atração pelas quarentonas. A ideia de me insinuar em suas existências e jogar com sua vulnerabilidade me dava vertigem. Traí Elsa sem nenhum remorso. Então vieram outras. Na época, eu tinha pouco mais de trinta anos e, como dizia Elsa, uma bela bunda. O bar era um local estratégico e não era preciso ter uma grande capacidade de sedução. Bastava um jogo de olhares de relance, sorrisos gentis e indefesos, e uma grande disponibilidade para escutar. Passei sete anos daquela forma. Quase sem me dar conta. Tudo acabou quando Elsa entrou repentinamente na parte de trás do bar e me encontrou em cima de uma alemã. Não me lembro 13


do seu nome e nem mesmo do seu rosto, mas foi uma mulher muito importante na minha vida. Aquela trepada tirou de mim, de repente, tudo o que eu tinha. Na manhã seguinte estava fora do hotel, com uma bolsa na mão e uma grande pressa de desaparecer. Elsa recitara a noite inteira o papel da benfeitora traída e, de algum jeito, teria se vingado. Era uma mulher bacana, mas quando estava enfezada não raciocinava mais. Consegui roubar bem a tempo o passaporte espanhol de um cliente de Alicante com características bastante semelhantes às minhas; levei-o até um falsário que frequentava o bar, pedi que substituísse a fotografia e embarquei num voo direto para Paris. Quando cheguei ao aeroporto, pensava em ir para o México. Parecia-me a atitude mais lógica. Então, três aeromoças da Air France passaram na minha frente. Parei para observá-las e, admirando seus traseiros, decidi dar uma guinada na minha vida. Foi só uma intuição, mas suficiente para me fazer mudar o plano de fuga apesar do mandado de prisão internacional que pesava sobre mim havia dez anos. Durante o voo, a intuição ganhou corpo, se transformou numa decisão irrevogável e depois num plano bem preciso: quando passei pelo controle alfandegário, fui direto para o primeiro telefone público. Não foi fácil contatar o sujeito que procurava, mas acabei conseguindo. Ficou surpreso em me escutar depois de tanto tempo e foi logo perguntando se eu estava com problemas. Suspirei e respondi que precisava encontrá-lo imediatamente. Encontramo-nos na hora do almoço numa cervejaria em frente ao metrô Les Gobelins. Cheguei adiantado e passei algum tempo observando as pessoas que entravam e saíam do estabelecimento. – Enrico, então você está de volta? O que aconteceu? E Luca? – perguntou antes mesmo de tirar a jaqueta, usando nossos nomes de guerra. Sergio, meu responsável direto na organização nos tempos do exílio parisiense, na verdade se chamava Gianni. Sempre fora um dirigente intermediário, e fizera carreira na França porque os peixes graúdos tinham 14


todos sido presos na Itália. Olhei para ele. Tinha uma cara de peão e as mãos sujas de graxa. Devia trabalhar em alguma fábrica. A vida inteira se levantara às cinco da manhã para levar à fábrica sua consciência de classe. – Luca morreu há vários anos – anunciei. – Pegaram-no brincando com o pau de um oficial prisioneiro e o mataram. – Está brincando? Limitei-me a fixá-lo. – E você? – perguntou em voz baixa. – Eu fiquei de saco cheio e voltei. Sergio mordeu seu sanduíche para ter tempo de pensar. Mastigou devagar e tomou de um gole meio copo de vinho tinto. Tinha compreendido que eu era um problema e que caberia a ele resolvê-lo. – O que pretende fazer? Chegara o momento de mostrar minhas cartas: – Volto para a Itália, colaboro com a justiça e mudo de vida. Empalideceu. – Não pode fazer isso. Já fomos dizimados pelos colaboradores. Já faz tantos anos que paramos, Enrico. A organização não existe mais, nenhuma organização existe mais. A experiência da luta armada acabou. – Então não tem problema – eu disse. – Não é assim. Você conhece um monte de companheiros que nunca foram identificados. Pessoas que hoje levam uma vida normal e que não merecem acabar na prisão. Dei de ombros. Se estivesse no lugar dele, teria feito cara de mau e lançado ameaças de morte. Mas ele se limitou a uma sincera expressão de dor. – O que houve com você? – perguntou, passando a mão no rosto. – Cansei desta vida de merda – respondi secamente. – Não tenho a mínima intenção de passar o resto da minha vida no exílio, correndo todo dia o risco de ir para a prisão por causa de quatro panfletos e um imbecil de um guarda noturno. Sergio tentou um último apelo desesperado aos valores e aos ideais. Interrompi-o com um gesto. 15


– Encontre uma solução, Gianni – disse, chamando-o por seu verdadeiro nome. – Senão, fodo com todos os sobreviventes, inclusive sua irmã, que não tem nada a ver com a história. Misturo o nome dela com o dos outros, digo que foi ela que me trouxe o explosivo, e os tiras vão acreditar na hora. Levantei e fui embora sem sequer olhá-lo na cara, deixando pela metade a cerveja e o sanduíche. O que me aborreceu: tinha pouco dinheiro e naquele dia não poderia comprar mais nada. Comecei a bater metodicamente à porta das pessoas que tinha conhecido durante minha primeira estadia em Paris. Escolhi aqueles que não tinham ligação direta com os italianos. Sabia que não tinha nada a temer da parte dos guerrilheiros agora aposentados, mas prudência nunca é demais. Tinha um passaporte falso e uma condenação na Itália. Bastava um dedo duro para eu ir parar na prisão de La Santé com os bascos e os islamitas. Encontrei hospitalidade na casa de um casal de uruguaios, exilados de uma geração anterior. Ele engenheiro, ela psiquiatra. A mulher escutou compreensiva. – Uma semana – disse no final, levantando o indicador para ser mais clara. Se está na merda numa grande cidade europeia e quer encontrar um lugar onde dormir e três refeições por dia, deve vasculhar cientificamente a vasta gama das solteironas. Se, como aquele que escreve estas linhas, for um homem bonito e com grande experiência em matéria de mulheres mais velhas, as possibilidades de sucesso aumentam sensivelmente. Sentei-me na poltrona e comecei a examinar os anúncios de sábado no Libération. Devia necessariamente limitar-me a um setor de saudáveis tendências progressistas diante do qual poderia me apresentar como um combatente pela liberdade do Terceiro Mundo. Descartei as anunciantes com menos de quarenta anos e com filhos em casa e respondi a uma quinzena de anúncios deixando mensagens na secretária eletrônica. Não tinha tempo para esperar o correio. Uma semana depois levei meus trapinhos para a casa de Régine, na região da Place de la République. Nosso primeiro encontro tinha sido durante uma mostra fotográfica numa galeria particular. Era 16


uma amiga dela que estava expondo, e ela achava interessante nos encontrarmos em meio a tanta gente que ela conhecia. Cheguei determinado a selar o negócio. Os outros encontros tinham se revelado infrutíferos, e prometi a mim mesmo não bancar o difícil e usar todo o meu charme. Mas Régine era horrorosa, e tive que me controlar para não dar meia-volta e desaparecer na multidão da Champs-Elysées. Quarenta e sete anos, funcionária pública de certo nível e separada havia um bom tempo, levava no rosto e no corpo os sinais de uma mulher que tinha desistido e decidido se entregar aos corações solitários quando se dera conta de que era tarde demais para voltar a se parecer, mesmo de longe, com a mulher de outros tempos. De início, achou estranho que um homem dez anos mais jovem a cortejasse, mas depois a vontade de sexo a convenceu a aproveitar a oportunidade. Foi mais fácil fazê-la acreditar que estava vivendo uma grande história de amor do que comê-la, mas no final foi ela própria que propôs que experimentássemos viver juntos, com a desculpa de que eu precisava de uma casa e de que em Paris não seria fácil encontrar uma. Revelou-se uma amante cheia de atenções, e minha situação ficou bastante confortável. Na realidade, era uma mulherzinha insignificante, feia como sua vida. Era impossível que no fundo não suspeitasse da montanha de mentiras que eu despejava continuamente sobre ela. Mas a solidão a tornava vulnerável, cega e surda. O resto de bom senso que ainda tinha a convenceu a guardar a sete chaves seu dinheiro e suas joias. Meu suplício durou dois meses. Afinal, Sergio encontrou uma solução. Convocou-me à mesma cervejaria do encontro anterior. Encontrei-o já sentado, olhando fixamente para uma jarrinha de vinho. Parecia uma caricatura de taverna. Talvez estivesse sonhando com aquela que havia embaixo de sua casa, na Itália, onde, um bom tempo atrás, passava uma horinha depois do trabalho lavando a boca dos sabores da serralheria e discutindo política, falando mal dos patrões e dos dirigentes do partido que tinham traído a causa. Sentei-me sem cumprimentá-lo. 17


– E então? – Conversamos e decidimos lhe fazer uma proposta – começou ele. – Sua condenação é definitiva, e a única esperança de livrá-lo é a revisão do processo. Convencemos um companheiro condenado à prisão perpétua a confessar a participação no atentado em seu lugar. Dirá que é um caso de consciência, que naquele dia Luca estava com ele, e fornecerá uma série de detalhes verossímeis. Segundo os advogados, deve funcionar, mas deve se resignar a ficar algum tempo na prisão. – Quanto? – Dois ou três anos, o tempo de trâmite do processo. Para tornar verossímil o caso de consciência, o companheiro deve confessar só depois que você tiver se entregado. Terá que cumprir pena também por associação criminosa, mas o tempo de espera da revisão deve bastar. Não era o que queria. Acendi um cigarro. – É demais – sibilei. Sergio sacudiu a cabeça. – Mesmo que colabore e entregue tudo terá que ficar algum tempo na prisão. Os advogados dizem que esta oferta é a mais conveniente no mercado da infâmia. – Não me provoque – respondi calmamente –, estou simplesmente saindo da empresa e negociando minha demissão. Pedi uma cerveja e continuei a fumar enquanto avaliava a proposta. – Ok, vou até a fronteira. Sergio suspirou aliviado. Tirou do bolso uma caderneta e uma caneta. – Escreva aquilo de que se lembra daquela noite, sobretudo os detalhes. A confissão deve ser precisa. Enquanto eu escrevia, perguntou se eu queria saber o que tinham dito os outros, os companheiros e amigos daquele tempo, sobre minha traição. Eu sorri. – Nem precisa dizer. Conheço-os bem. Disseram que eu era um merda e clamaram vingança: um tiro na nuca ou 18


uma picaretada como fizeram com Trotski. Palavras ao vento. Como todas as outras. – Não quer saber nem quem é o companheiro que pagará em seu lugar? – Não. Lerei nos jornais. Além disso, se vai fazer isso é porque não tinha outra escolha. Aposto que entre os nomes que eu poderia revelar está o de alguém de que gosta muito. Fechei a caderneta e joguei uma nota na mesa – Você merecia mesmo morrer – disse ele com seriedade. – Não seja patético. Fui embora com a certeza de que nunca voltaria a vê-lo. Duas semanas depois, forcei com uma chave de fenda a gaveta da escrivaninha de Régine, peguei as joias e os francos e saí para sempre de sua vida. No dia seguinte me entregaria à polícia italiana e queria me divertir um pouco antes de ir para a prisão. Vendi barato as joias para um receptador argelino de Barbès. Na Gare de Lyon peguei um trem para Nice. Escolhi um hotel de luxo, uma puta cara, um bom restaurante e, quando acordei na manhã seguinte, não tinha mais nem um franco no bolso. Cheguei de carona à fronteira. Antes de me levar para a prisão de San Vittore, os tiras fizeram uma parada comigo na Digos, a Divisão de Investigações Gerais e Operações Especiais, da delegacia de Milão. Trancaram-me numa sala usada para os interrogatórios. Um monte de guimbas no chão, alguns esguichos de sangue e várias manchas de café nas paredes esverdeadas. Os tiras gostavam de jogar os copos de papelão cheios de café velho em cima dos suspeitos para demonstrar que estavam de saco cheio e que não engoliam as mentiras que estavam ouvindo. De minha parte, estava tranquilo. Entregara-me espontaneamente nas mãos da lei. Não podiam foder comigo tanto assim. Entrou um sujeito com meu dossiê debaixo do braço. Era alto, gordo, com cara de crápula e uma roupa de bom corte. Baixei os olhos para os sapatos. Sem dúvida caros. Ou era rico de família ou era corrupto. Optei pela segunda hipótese e relaxei. 19


Jogou a pasta na mesa e sentou. – Me chamo Ferruccio Anedda e sou um cara importante. Limitei-me a um servil aceno de cabeça. Não queria problemas, e os tiras gostam de ter a situação sob controle. – O que o fez voltar da América Central? – perguntou para me fazer compreender logo de cara que sabiam muito mais coisas do que eu imaginava. – Cansei. Quero acertar minhas contas com a justiça... Me deu um pontapé por baixo da mesa. – Sabemos tudo. Ameaçou aqueles imbecis que estão em Paris e montaram um belo teatrinho para os juízes. Olhei para ele admirado. – Têm um espião em Paris? Inclinou a cabeça para o lado e respondeu irônico: – Só um? – O que querem? – perguntei. – Isso, é assim que eu gosto – disse satisfeito. Então mudou de tom. – Queremos os nomes de todos aqueles que nunca foram identificados. Sobretudo daqueles que apoiavam a organização. Senão, no momento certo, terei uma conversa com o presidente da corte e é você que vai pagar pela historinha do guarda noturno. – Segundo os advogados, não convém que eu colabore – lancei, para sondar o terreno da negociação. – Não queremos que colabore pra valer. Não temos a menor intenção de raspar o fundo do tacho. A organização está fodida há anos. Só queremos vigiá-los, assim, se der na telha de algum deles reconstruir o barraco, perceberemos logo e teremos menos trabalho. – O que mais tenho a ganhar além de não pagar pelo guarda noturno? – Evitar a prisão perpétua não lhe parece suficiente? Abri os braços. – Posso lhes ser muito útil. O tira suspirou. – Podemos lhe dar uma ajudinha e tornar sua estadia na prisão mais confortável. 20


Acendi um cigarro e comecei a vasculhar minha memória. Uma hora depois, a organização estava definitivamente liquidada. Poderia continuar fornecendo informações que reunira ao longo dos anos sobre outros grupos, mas achei que naquele momento seria desperdício. Talvez viessem a ser úteis mais adiante. Sempre mantivera os ouvidos atentos, e o ambiente da luta armada italiana sempre brilhara pela absoluta falta de respeito pelas normas de segurança. Em teoria, elas eram ferrenhas e capazes de salvaguardar a organização, mas na realidade os militantes nunca as respeitavam, demonstrando uma grande fraqueza pela tagarelice e pela revelação de confidências. Entrei na prisão antes da noite. Levaram-me diretamente para o escritório de matrícula e Anedda murmurou alguma coisa no ouvido de um policial. O suboficial se virou e piscou para mim. O tira da Digos tinha dado a dica. Eu bancaria o espião também para os guardas do presídio. Um cabo me pegou pelo braço e me levou até um balcão onde abriu um registro que parecia do século dezenove. – Sobrenome? – Pellegrini. – Nome? – Giorgio. – Nascido em? – Bérgamo, em 8 de maio de 1957. O guarda parou de escrever. – Oito de maio – repetiu. Então virou-se para os outros: – Ele nasceu no mesmo dia em que Gilles Villeneuve morreu. – Não sabia. Quando foi isso? O cabo olhou para mim, estupefato. – Faz dez anos, em 1982. O maior luto na história do automobilismo. – Indicou uma parede onde fora feito um pequeno altar com a foto do piloto de Fórmula 1 e várias flâmulas da Ferrari. Então pôs o indicador no meu nariz. – Neste escritório, todos torcem para o Milan e para a Ferrari, entendido? 21


Logo me adaptei a San Vittore. Viver sem problemas não era difícil, bastava respeitar as regras não escritas e não dar bola pro resto. Me colocaram para trabalhar como varredor. Tinha que varrer o corredor da seção e manter os olhos abertos, sobretudo em relação aos estrangeiros. De tempos em tempos, chamavam-me numa saleta ao lado do escritório e me pediam informações sobre alguns detentos. Compreendi rapidamente que o truque era falar mal daqueles que não contavam com a simpatia da direção, mesmo que não tivessem feito nada. Às vezes inventava, outras relatava aquilo que tinha visto. Volta e meia, Anedda aparecia para pedir mais informações ou esclarecimentos. Se eu estava precisando de alguma coisa, pedia-lhe como retribuição e, no fim das contas, ele se mostrava bastante generoso. Com o tempo, contraiu o hábito de me trazer uma garrafa de uísque. As suas eram as únicas visitas que eu recebia. Minha família nunca veio me ver. Renegara-me no dia em que fugi para Paris. As maldições de meu pai tinham me seguido escada abaixo quando deixei nosso casarão sem olhar para trás. No início, sofri muito, mas depois o destino me levou para longe, e quase não pensava mais naquilo. Conhecia bem o obstinado que assumiu a responsabilidade pelo homicídio do guarda noturno. Chamava-se Giuseppe e era um daqueles que não colaboraram porque continuava comunista e revolucionário. Fora operário na siderúrgica Dalmine como o pai e o avô. Sindicato, partido, Lenin, Togliatti Palmiro e Berlinguer Enrico pendurados na cozinha. Então tomara um caminho diferente entrando na clandestinidade. Foi denunciado por um colaborador, mas nunca abriu a boca a não ser para dizer, no mais puro dialeto de Bérgamo, que era um prisioneiro político. Em Paris deviam ter limpado o cofre. Arranjaram-me um advogado que militara no Soccorso Rosso e que depois fizera uma sólida carreira aderindo a uma nova força política de centro-direita. Disse-me que aceitara o caso porque as revisões estavam na moda, davam muita publicidade e, no meu caso, havia perspectivas concretas de sucesso. Demonstrou-se hábil 22


também na relação com a imprensa e alguns jornais e revistas passaram a falar de mim. Enquanto isso, os dias passavam e comecei a pensar no futuro. Para não sair com os bolsos vazios, dediquei-me a pequenos tráficos com a cobertura de alguns policiais. Por certo tempo, tomei sob minha proteção um travesti brasileiro. Nos dias ímpares, em que tomávamos banho, organizava uma agenda para ele, não mais de cinco para evitar dar na vista. Uma carteira de Marlboro por uma chupada, duas para meter. Ele ficava com dez por cento e a garantia de que ninguém machucaria seu rosto. Os guardas visitavam sua cela na ronda das quatro da manhã, mas isso não me dizia respeito. Mesmo porque não havia nada para ganhar ali. Os funcionários da penitenciária nunca pagavam. Naquele período conheci também várias pessoas interessantes. Muitos profissionais de vários ramos do crime me ofereceram sua amizade. Em outros tempos, um autônomo, ainda por cima suspeito de ser confidente dos tiras, seria esfaqueado assim que pusesse os pés fora da cela, mas nem as prisões eram mais as mesmas. O trâmite judiciário seguiu seu curso. Lento mas inexorável. O tribunal de Cassação admitiu a revisão e enviou o processo ao Tribunal de Recursos de Milão. No julgamento, Giuseppe evitou cuidadosamente olhar na minha cara. O advogado, durante sua peroração, explicou à corte que sua atitude para comigo se devia à vergonha de ter me forçado a viver vagando pelo mundo. Qualquer um teria percebido que era apenas desprezo. Mas agora os anos 1970 eram história velha nas salas do tribunal. A deliberação levou umas duas horas, o tempo de redigir o dispositivo da sentença. Fui absolvido. Tinha ainda que cumprir alguns meses por participação em grupo armado e finalmente sairia daquele pesadelo – iniciado muitos anos antes, quando Sergio me chamara para um bar da periferia e me convidara para entrar na organização. Clandestina, comunista e combatente. Uma manhã, me disseram para levar para o depósito meu colchão, meus lençóis e meu prato. Acabava de completar 38 anos. Na saída, encontrei Anedda. 23


– Lembre que é propriedade da Digos de Milão – disse em voz alta. – Estou aposentado – repliquei irritado. O tira me empurrou com força contra a parede. – Me deve um monte de favores, e nunca esqueça que outra pessoa está cumprindo a prisão perpétua em seu lugar. Soltei-me e saí caminhando ao lado da muralha. Observava a liberdade do outro lado da rua, mas ainda não me sentia pronto para me apossar dela. Então, à altura da torre, atravessei.

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