Soman Chainani
Ilustrações: Iacopo Bruno Tradução: Carol Christo
Copyright © 2021 Soman Chainani (texto) Copyright © 2021 Iacopo Bruno (ilustrações)
Esta edição foi publicada mediante acordo com a HarperCollins Children's Books, uma divisão da HarperCollins Publishers. Título original: The School for Good and Evil (5): A Crystal of Time Todos os direitos reservados pela Editora Gutenberg. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
editora responsável
ilustrações
Flavia Lago
Iacopo Bruno
preparação de texto
capa
Bia Nunes de Sousa
Alberto Bittencourt
revisão
diagramação
Helô Beraldo
Larissa Carvalho Mazzoni
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
Chainani, Soman A escola do bem e do mal : O cristal do tempo / Soman Chainani ; [ilustrações Iacopo Bruno ; tradução Carol Christo]. -- 1. ed. -- São Paulo : Gutenberg, 2021. -- (A escola do bem e do mal ; v. 5) Título original: The School for Good and Evil (#5) : A Crystal of Time ISBN 978-65-86553-49-9 1. Ficção - Literatura infantojuvenil 2. Literatura infantojuvenil I. Bruno, Iacopo. II. Título III. Série. 21-55564 CDD-028.5 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura infantojuvenil 028.5 2. Ficção : Literatura juvenil 028.5 Maria Alice Ferreira - Bibliotecária - CRB-8/7964
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Ww Para Uma e Kaveen
Ww Na Floresta Primitiva Há duas torres erguidas Na Escola do Bem e do Mal, A Pureza e a Malícia. Quem nelas ingressar Não tem como escapar Se um Conto de Fadas Não vivenciar.
AGORA Ww
W1 w AGATHA
A Dama e a Cobra
Quando o novo rei de Camelot resolve matar seu verdadeiro amor, sequestrar sua melhor amiga e te caçar como um animal, é melhor que você tenha um plano. Mas Agatha não tinha um plano. Ela não tinha aliados. Não tinha um lugar para se esconder. Então, ela fugiu. Correu para tão longe de Camelot quanto foi capaz, sem direção ou destino, rasgando pela Floresta Sem Fim, o vestido agarrando-se a urtigas e galhos enquanto o sol nascia e se punha. Ela correu enquanto a bolsa, com a bola de cristal da Reitora, balançava e batia nas suas costelas. Correu enquanto cartazes de “Procura-se”, com seu rosto estampado, começavam a aparecer nas árvores, um aviso de que a notícia viajava mais rápido do que suas pernas podiam carregá-la e de que não havia mais nenhum lugar seguro para ela. No segundo dia, seus pés estavam cheios de bolhas; os músculos latejavam, tinha se alimentado apenas com frutinhas, maçãs e cogumelos que apanhava pelo caminho. Ela parecia andar em círculos: as margens fumegantes do rio Mahadeva, as fronteiras de Gillikin, e depois de volta a Mahadeva no amanhecer pálido. Ela não
10w conseguia pensar em um plano ou em um abrigo. Não conseguia pensar no agora. Seus pensamentos estavam no passado: Tedros acorrentado... condenado à morte... seus amigos presos... Merlin arrastado inconsciente... um vilão do Mal com a coroa de Tedros... Ela lutou contra um ataque de névoa rosa, procurando o caminho. Não era Gillikin o reino com o nevoeiro cor-de-rosa? Yuba, o Gnomo, não tinha ensinado isso na escola? Mas havia saído de Gillikin fazia horas. Como poderia ter voltado lá? Ela precisava prestar atenção, precisava pensar no futuro e não no passado, mas agora tudo o que conseguia ver eram nuvens de névoa cor-de-rosa tomando a forma da Cobra... aquele garoto mascarado, coberto de escamas, que tinha certeza de que estava morto, o mesmo garoto que ela havia acabado de ver. Vivo. Quando afastou os pensamentos, o nevoeiro tinha desaparecido e já era noite. De alguma forma tinha chegado à Floresta dos Stymphs sem encontrar vestígios de uma trilha. A tempestade começou, lançando raios através das árvores. Ela se abrigou debaixo de um cogumelo gigante coberto de vegetação. Para onde deveria ir? Quem poderia ajudá-la quando todos em quem confiava estavam trancados em uma masmorra? Ela sempre confiou na sua intuição, na sua capacidade de pensar em um plano de última hora. Mas como poderia pensar em um plano quando nem sequer sabia contra quem estava lutando? Eu vi a Cobra morta. Mas depois ele já não estava... E Rhian ainda estava no palco... Então Rhian não pode ser a Cobra. A Cobra é outra pessoa. Eles estão trabalhando juntos. O Leão e a Cobra. Ela se lembrou de Sophie, que, ingênua, tinha aceitado o anel de Rhian, pensando que se casaria com o cavaleiro de Tedros. Sophie, que acreditava ter encontrado o amor – o amor verdadeiro, que enxergava o lado bom dela, apenas para ser tomada como refém por um vilão muito mais maligno do que ela mesma. Ao menos Rhian não faria mal à Sophie. Ainda não. Ele precisava dela. Para quê, Agatha não sabia. Mas Rhian faria mal a Tedros. Tedros, que tinha ouvido Agatha dizer à Sophie, na noite anterior, que ele havia sido um fracasso como rei. Tedros, que agora duvidava que sua
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própria princesa acreditasse nele. Tedros, que tinha perdido sua coroa, seu reino, seu povo e estava preso nas mãos de um inimigo que, ainda ontem, ele tinha abraçado como um irmão. Um inimigo que agora afirmava ser seu irmão. O estômago de Agatha se contorceu. Ela precisava abraçar Tedros e dizer que o amava. Que ela nunca mais duvidaria dele. Que trocaria sua vida pela dele, se pudesse. Vou te salvar, pensou Agatha, desesperada. Mesmo que eu não tenha um plano e ninguém do meu lado. Até lá, Tedros teria que se manter forte, independentemente do que Rhian e seus homens fizessem com ele. Tedros teria que encontrar uma forma de se manter vivo. Se ele já não estivesse morto. Agatha começou a correr novamente, iluminada pelos raios enquanto atravessava o final da Floresta dos Stymphs e, em seguida, as praias assombradas de Akgul, com cinzas em vez de areia. A bola de cristal de Dovey pesava, batendo no mesmo hematoma uma e outra vez. Ela precisava descansar, não dormia há dias, mas sua mente parecia um turbilhão. Rhian retirou a Excalibur da pedra. É por isso que ele é o rei. Agatha correu mais depressa. Mas como? A Dama do Lago disse à Sophie que a Cobra era o rei. Mas a Excalibur achou que Rhian era o rei. E Arthur disse a Tedros que Tedros era o rei. Algo está errado. Magicamente errado. Agatha prendeu a respiração, perdida em um labirinto de pensamentos. Ela precisava de ajuda. Precisava de respostas. O calor abafado transformou-se em vento forte e depois em neve, a floresta abriu-se em uma faixa de tundra. Em sua insone confusão mental, ela se perguntava se teria corrido por meses e estações do ano. Mas agora conseguia ver a sombra de um castelo a distância, pináculos atravessando as nuvens baixas. Camelot? Depois de tudo isso, em vez de encontrar alguém que pudesse ajudá-la, será que tinha corrido de volta para o perigo? Teria desperdiçado todo esse tempo? Com lágrimas nos olhos, ela recuou e voltou a correr. Mas Agatha já não conseguia mais.
12w Suas pernas cederam e ela caiu na neve macia, o vestido preto espalhou-se à sua volta como as asas de um morcego. O sono veio forte e rápido como um martelo. Agatha sonhou com uma torre inclinada que ia até às nuvens, construída com mil gaiolas de ouro. Preso em cada uma das gaiolas estava um amigo ou alguém que ela amava: Merlin, Guinevere, Lancelot, Professora Dovey, Hester, Anadil, Dot, Kiko, Hort, sua mãe, Stefan, Professor Sader, Lady Lesso e outros. Todas as gaiolas ficavam batendo umas nas outras. As gaiolas de Sophie e Tedros estavam no topo, prontas para cair primeiro. Enquanto a torre tremia e balançava, Agatha se atirava contra ela para evitar que caísse, seu corpo esquelético e desengonçado era a única coisa que impedia seus amigos de morrerem. Mas assim que segurou a altíssima coluna com as mãos, uma sombra emergiu no topo da gaiola mais alta. Metade Leão. Metade Cobra. Uma a uma, a sombra atirava as gaiolas do alto da torre. Agatha acordou de supetão, suada, apesar da neve. Ao levantar a cabeça, viu que a tempestade tinha passado, o castelo agora estava claro sob o sol da manhã. Em frente a ela, dois portões de ferro abriam e fechavam contra as rochas, a entrada para uma fortaleza branca que se elevava sobre um calmo lago cinza. O coração de Agatha bateu mais forte. Não era Camelot. Era Avalon. No seu íntimo, algo a tinha guiado até ali. Para a única pessoa que poderia ter respostas. No seu íntimo, tinha um plano desde o início. “Olá?”, Agatha gritou para as águas calmas. Nada aconteceu. “Dama do Lago?”, ela tentou novamente. Nem sequer uma ondulação na água. Nervosismo vibrava em seu peito. Houve um tempo em que a Dama do Lago tinha sido a maior aliada do Bem. Foi por isso que a alma de Agatha a tinha trazido até ali. Para conseguir ajuda. Mas Chaddick também fora pedir ajuda para a Dama do Lago. E acabou morto. Agatha olhou para a escadaria em ziguezague que subia em direção ao círculo de torres brancas. Na última vez que tinha vindo a essas margens, estava com Sophie, à procura do corpo de Chaddick. Marcas escuras de sangue ainda manchavam a neve onde tinham encontrado o cavaleiro de Tedros, exibindo uma mensagem de escárnio da Cobra.
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Agatha nunca tinha visto o rosto da Cobra. Mas a Dama do Lago sim, quando o beijou. Um beijo que sugara os poderes da Dama e traído o Rei Tedros. Um beijo que havia ajudado a Cobra a colocar um traidor no trono de Tedros. Porque era isso que Rhian era. Um traidor imundo, que fingira ser o cavaleiro de Tedros quando na verdade era aliado da Cobra. Agatha se voltou para a água. A Dama do Lago tinha protegido aquela Cobra. E não apenas protegido: tinha se apaixonado por ele e perdido seus poderes por causa disso. Tinha jogado fora uma vida inteira de dedicação. Agatha se sentiu enjoada. A Dama do Lago devia ser imune aos encantos do Mal. E agora não podiam mais confiar nela. Agatha engoliu em seco. Eu não devia estar aqui, pensou. Mas não havia mais ninguém a quem recorrer. Tinha que tentar. “Sou eu, Agatha!”, gritou. “Amiga de Merlin. Ele precisa da sua ajuda!” Sua voz ecoou por toda a costa. E então, o lago estremeceu. Agatha inclinou-se para a frente. Não viu nada, exceto o próprio reflexo na superfície prateada. Mas depois seu rosto na água começou a mudar. Pouco a pouco, o reflexo de Agatha se transformou no de uma bruxa velha, com tufos de cabelos brancos agarrados a uma cabeça calva, a pele manchada e maçãs do rosto flácidas. A bruxa pairava sob o lago como um troll debaixo de uma ponte, olhando para Agatha com olhos frios. Sua voz atravessou a água, grave e distorcida. “Fizemos um acordo. Eu respondi à pergunta de Merlin”, a Dama do Lago disse, furiosa. “Deixei que ele fizesse uma pergunta – uma pergunta – e em troca ele nunca mais voltaria. E agora ele tenta burlar o nosso acordo, enviando você? Vá embora. Não é bem-vinda aqui.” “Ele não me mandou aqui!”, Agatha retrucou. “Merlin está preso! Camelot tem um novo rei, chamado Rhian – ele prendeu Tedros, Merlin, Professora Dovey e todos os nossos amigos nas masmorras. E Merlin está ferido! Ele vai morrer se eu não o salvar! Tedros também morrerá! O filho de Arthur. O verdadeiro rei.” Não houve surpresa nem horror, nem sequer compaixão na expressão da Dama. Não havia... nada. “Não me ouviu? Você tem que nos ajudar!”, Agatha implorou. “Você jurou proteger o rei...” “E eu o protegi”, retorquiu a Dama. “Eu disse a você na última vez em que esteve aqui. O garoto com a máscara verde tinha o sangue de Arthur
14w nas veias. E não apenas o sangue do filho de Arthur. O sangue do filho mais velho de Arthur. Conseguia sentir o cheiro quando ainda tinha meus poderes. Conheço o sangue do Único e Verdadeiro Rei.” Ela fez uma pausa, seu rosto ficou nebuloso. “Ele também tinha poderes, esse garoto. Fortes poderes. Ele sentiu meu segredo: que acabei aqui solitária, protegendo o reino, protegendo o Bem, nesta sepultura fria e úmida... sozinha... sempre sozinha... Ele sabia que trocaria minha magia por amor, se alguém me desse tal oportunidade. E ele me ofereceu isso. Uma oportunidade que Arthur nunca me deu. Por um único beijo, o garoto prometeu que eu estaria livre desta vida. Poderia ir com ele para Camelot. Poderia ter amor. Poderia ter alguém para chamar de meu, como você tem.” Ela desviou o olhar para longe de Agatha, afundando ainda mais na água. “Não sabia que abdicar dos meus poderes significaria isto. Que acabaria como uma bruxa velha, mais sozinha do que antes. Não sabia que a promessa dele não significava nada.” Ela fechou os olhos. “Mas é direito dele, claro. Ele é o rei. E eu sirvo ao rei.” “Só que o rei não é o garoto que você beijou! Rhian é o rei! O garoto que estão chamando de Leão”, insistiu Agatha. “Ele não é o garoto que veio aqui! O que você beijou era a Cobra. Ele te beijou para roubar sua magia e tirar seu poder do Bem. Ele te beijou para ajudar o Leão a se tornar rei. Não percebe? Ele te enganou! E agora preciso saber quem é essa Cobra. Porque se você pode ser enganada, a Excalibur também pode! E se a Excalibur foi enganada, então foi assim que um vilão do Mal acabou no trono de Tedros.” A Dama do Lago foi em direção à Agatha, seu rosto decadente pouco abaixo da superfície. “Ninguém me enganou. O garoto que beijei tinha o sangue de Arthur. O garoto que beijei era o rei. Portanto, se foi a Cobra que beijei, como dizem, então foi a Cobra que tirou, com direito, a Excalibur da pedra e agora está sentado no trono.” “Mas a Cobra não retirou a Excalibur! É isso que estou tentando explicar!”, Agatha retrucou. “Foi Rhian quem tirou! E eu vi a Cobra lá! Eles estão trabalhando juntos para enganar o povo da Floresta. Foi assim que enganaram você e a espada.” A Dama atravessou a água. “Senti o cheiro do sangue dele. Senti o cheiro de um rei”, a voz dela ressoava como um trovão. “E mesmo que eu possa ser enganada, como você afirma, tão corajosamente, a Excalibur não pode. Ninguém pode enganar a arma mais poderosa do Bem. Quem tirou a Excalibur da pedra é o herdeiro de sangue de Arthur. Foi o mesmo garoto que eu protegi. Ele é o legítimo rei, não aquele que você e Merlin defendem.” Ela começou a afundar na água. “Você não pode ir”, Agatha arfou. “Não pode deixar que morram.”
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A Dama do Lago parou, seu crânio brilhando de baixo d’água como uma pérola. Desta vez, quando olhou para cima, o gelo nos seus olhos havia derretido. Tudo o que Agatha viu foi tristeza. “Seja qual for o problema em que Merlin e os seus amigos tenham se metido, é obra deles. O destino deles está nas mãos do Storian agora”, disse a Dama, suavemente. “Enterrei aquele jovem, Chaddick, como me pediu. Ajudei Merlin como ele queria. Não me resta nada. Por isso, por favor, vá embora. Não posso te ajudar.” “Sim, você pode”, alegou Agatha. “Você é a única que viu o rosto da Cobra. É a única que sabe quem ele é. Se me mostrar como a Cobra é, posso descobrir de onde ele e Rhian vêm. Posso provar ao povo que eles são mentirosos! Posso provar que o trono pertence a Tedros.” “O que está feito está feito”, disse a Dama do Lago. “Minha lealdade está com o rei.” Ela afundou mais... “Será que o verdadeiro rei faria mal a Merlin?”, Agatha gritou. “Será que o herdeiro de Arthur quebraria a promessa que fez a você e a abandonaria assim? Você disse que a Excalibur não erra, mas você criou a Excalibur e você errou. Sabe que sim. Olhe para você! Por favor, me escute! A verdade se tornou mentira e a mentira, verdade. O Bem e o Mal tornaram-se um só. Um Leão e uma Cobra trabalharam juntos para roubar a coroa. Nem a sua espada já não sabe dizer o que faz de alguém um rei. Em algum lugar aí dentro você sabe que estou falando a verdade. A verdade verdadeira. Tudo o que estou pedindo é o rosto da Cobra. Me diga como é o garoto que você beijou. Responda à minha pergunta e nunca mais voltarei. O mesmo acordo que você fez com Merlin. E juro: este acordo será cumprido.” A Dama do Lago encarou Agatha. No fundo da água, a ninfa andou silenciosamente, com suas vestes esfarrapadas, como uma água-viva morta. Depois, desvaneceu nas profundezas e desapareceu. “Não”, sussurrou Agatha. Ela caiu de joelhos na neve e colocou o rosto nas mãos. Ela não tinha nenhum feiticeiro, nenhuma reitora, nenhum príncipe, nenhum amigo com quem contar. Não tinha para onde ir. Não tinha a quem recorrer. E agora a última esperança do Bem a tinha abandonado. Ela pensou no seu príncipe acorrentado. Pensou em Rhian agarrado à Sophie, sua noiva e prisioneira. Pensou na Cobra, olhando para ela no castelo, como se aquilo fosse apenas o começo. Um burburinho veio do lago. Ela espiou através dos dedos e viu um pergaminho flutuando em sua direção.
16w Com o coração disparado, Agatha agarrou o pergaminho e o abriu. A Dama tinha dado uma resposta a ela. “Mas... Isso é impossível...!”, ela exclamou, olhando de volta para o lago. O silêncio pareceu aumentar. Ela olhou de volta para o pergaminho molhado: a pintura nítida de um lindo garoto. Um garoto que Agatha conhecia. Ela balançou a cabeça, desnorteada. Agatha havia pedido à Dama do Lago para desenhar o rosto da Cobra. A Cobra que a beijara e a abandonara à própria sorte. A Cobra que matara os amigos de Agatha e se escondera atrás de uma máscara. A Cobra que unira forças com Rhian e fizera dele o rei. Mas a Dama do Lago não tinha desenhado o rosto da Cobra. Ela havia desenhado o rosto de Rhian.
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Lionsmane
Hester, Anadil e Dot estavam sentadas, estupefatas, em uma cela fedorenta, cercadas pelos colegas de equipe: Beatrix, Reena, Hort, Willam, Bogden, Nicola e Kiko. Apenas alguns minutos antes, eles estavam na varanda do castelo para uma comemoração que envolvia toda a Floresta. Ao lado de Tedros e Agatha, eles apresentaram o cadáver da Cobra para o povo e se deliciaram com a vitória de Camelot contra um inimigo cruel. Agora, estavam na prisão de Camelot, eles mesmos condenados como inimigos. Hester esperou que alguém dissesse alguma coisa. Que alguém assumisse a liderança. Mas era Agatha quem geralmente fazia isso. E Agatha não estava ali. Através da parede da cela, ela podia ouvir os sons abafados da cerimônia em andamento, que tinha se transformado na coroação do Rei Rhian. “Deste dia em diante, estão livres de um rei que fechou as portas para vocês quando mais precisaram dele”, Rhian declarou. “Um rei que se acovardou enquanto a Cobra devastava os reinos. Um rei que falhou no teste do próprio pai. Deste dia em diante, vocês têm um rei de verdade. O verdadeiro herdeiro do Rei Arthur. Podemos ser divididos entre Bem e Mal, mas somos uma só Floresta. O falso rei foi punido. As pessoas que foram ignoradas já não serão mais ignoradas. Agora, o Leão escutará vocês!” “LEÃO! LEÃO! LEÃO!”, entoaram.
18w Hester sentiu a tatuagem de demônio em seu pescoço ficar vermelha. Perto dela, Anadil e Dot puxaram os vestidos cor pastel que as obrigaram a usar na cerimônia, além dos cachos luxuosos precisamente enrolados. Nicola arrancou uma tira do vestido para fazer um curativo em Hort, uma ferida no ombro que ganhou durante a batalha contra a Cobra. Enquanto isso, Hort chutava inutilmente a porta da cela. Beatrix e Reena estavam tentando acender os dedos, sem sucesso, e os três ratos pretos de Anadil ficavam colocando a cabeça para fora de seu bolso, esperando por ordens, até que Anadil os empurrava de volta para dentro. Em um canto, o ruivo Willam e o baixinho Bogden estudavam, apreensivos, as cartas de tarô, e Hester ouvia seus sussurros: “Presentes do mal...”, “Eu avisei...”, “Devia ter ouvido...”. Ninguém mais falou por um longo tempo. “As coisas poderiam ser piores”, disse Hester, enfim. “Como poderiam ser piores?”, Hort gritou. “O cara que pensei ser o nosso salvador e novo melhor amigo acabou por se revelar a escória mais maligna do planeta.” “Devíamos ter desconfiado. Qualquer um que goste da Sophie está destinado a ser horrível”, Kiko falou. “Não sou de defender Sophie, mas não é culpa dela”, disse Dot, tentando transformar sua fita de cabelo em chocolate. “Rhian a enganou da mesma forma que enganou todos nós.” “Quem disse que ele a enganou?”, perguntou Reena. “Talvez ela soubesse do plano dele o tempo todo. Talvez seja por isso que ela aceitou a aliança.” “Para roubar o lugar de Agatha como rainha? Nem Sophie é tão má assim”, respondeu Anadil. “Nós ficamos paradas em vez de revidar”, disse Nicola, desanimada. “Devíamos ter feito alguma coisa.” “Aconteceu rápido demais!”, disse Hort. “Em um segundo os guardas estavam desfilando com o corpo da Cobra e no outro estavam agarrando Tedros e nocauteando a cabeça de Merlin.” “Alguém viu para onde os levaram?”, perguntou Dot. “Ou Guinevere?”, perguntou Reena. “E Agatha?”, perguntou Bogden. “A última vez que a vi, estava correndo pela multidão.” “Talvez ela tenha escapado!”, exclamou Kiko. “Ou talvez tenha sido espancada até a morte por aquela multidão lá fora”, disse Anadil. “Prefiro as opções dela a ficar preso aqui”, disse Willam. “Morei em Camelot a maior parte da minha vida. Estas masmorras são imunes a feitiços. Ninguém nunca conseguiu sair.”
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“Não temos mais nenhum amigo para nos tirar daqui”, disse Hort. “E como não temos mais serventia para Rhian, ele provavelmente vai cortar nossa cabeça antes da hora do jantar”, Beatrix desdenhou, virando-se para Hester. “Então, me diga, bruxa sábia, como as coisas poderiam ser piores?” “Tedros poderia estar nessa cela com a gente”, respondeu Hester. “Isso seria pior.” Anadil e Dot riram. “Hester”, chamou uma voz. Eles se viraram para Professora Clarissa Dovey, que havia enfiado a cabeça entre as barras da cela ao lado, seu rosto estava úmido e pálido. “Tedros e Merlin podem estar mortos. O verdadeiro rei de Camelot e o maior feiticeiro do Bem”, a Reitora do Bem disse em tom sério. “E em vez de pensar em um plano para ajudá-los, você está fazendo piadas?” “É a diferença entre o Bem e o Mal. O Mal sabe como ver o lado positivo”, murmurou Anadil. “Sem querer ser rude, Professora, mas não é você quem deveria estar pensando em um plano?”, disse Dot. “Você é a Reitora e tecnicamente ainda somos alunos.” “Não tem agido como uma Reitora”, Hester resmungou. “Esteve nesta cela nos últimos dez minutos e não disse uma palavra.” “Porque estava tentando pensar em...”, Dovey começou, mas Hester a interrompeu. “Sei que as fadas madrinhas estão acostumadas a resolver problemas com poeira de duende e varinhas mágicas, mas a mágica não vai nos tirar daqui.” Hester podia sentir seu demônio queimando mais forte, e sua frustração se voltou contra a reitora. “Depois de ser professora em uma escola onde o Bem sempre vence, talvez você não queira aceitar que o Mal realmente ganhou. O Mal que se fez passar pelo Bem, o que, no meu dicionário, se chama trapaça. Mas venceu assim mesmo. E se você não acordar e encarar o fato de que estamos lutando contra alguém que não joga de acordo com as suas regras, nada do que você pensar vai derrotá-lo.” “Especialmente sem a sua bola de cristal quebrada”, Anadil concordou. “Ou sua varinha quebrada”, apontou Dot. “Você pelo menos está com o seu Mapa das Missões?”, Hort perguntou para Dovey. “Provavelmente quebrou isso também”, Anadil bufou. “Como ousa falar com ela assim?!”, Beatrix bradou. “A Professora Dovey dedicou a vida a seus alunos. É por isso que ela está nesta cela, para começo de conversa. Você sabe muito bem que ela esteve doente – gravemente doente – e que Merlin ordenou que ela ficasse na escola quando a Cobra
20w atacou Camelot. Mas ainda assim ela veio nos proteger. Todos nós, Bem e Mal. Ela serviu à escola por...” – Beatrix olhou para os cabelos prateados e as rugas profundas de Dovey – “... sabe-se lá quanto tempo e você fala como se ela te devesse alguma coisa? Você falaria com Lady Lesso assim? Lady Lesso, que morreu para proteger a Professora Dovey? Ela teria esperado que você confiasse na melhor amiga dela. E que a ajudasse. Então, se você respeitava a Reitora do Mal, é melhor respeitar a Reitora do Bem também.” O silêncio pesou sobre a cela. “Nem parece a menina que tinha aquela paixonite pelo Tedros no primeiro ano”, Dot sussurrou para Anadil. “Cala a boca”, murmurou Hester. Professora Dovey, por outro lado, ganhou novo ânimo com a menção a Lady Lesso. Apertando o coque, ela se espremeu entre as barras da cela para se aproximar dos alunos. “Hester, é natural atacar quando nos sentimos desamparadas. Todos nós nos sentimos impotentes agora, mas me escute. Não importa o quanto as coisas pareçam sombrias, Rhian não é Rafal. Ele não mostrou nenhuma evidência de feitiçaria, nem está protegido por um feitiço imortal como Rafal. Rhian só chegou tão longe por conta das mentiras. Ele mentiu para nós sobre sua origem. Ele mentiu sobre quem ele é. E não tenho dúvidas de que está mentindo sobre sua reivindicação à coroa.” “E mesmo assim ele conseguiu tirar a Excalibur da pedra”, argumentou Hester. “Então, ou ele está dizendo a verdade sobre ser filho do Rei Arthur... ou ele é um feiticeiro, afinal.” Professora Dovey se opôs. “Mesmo que tenha sacado a espada, meu instinto me diz que ele não é filho de Arthur, nem o verdadeiro rei. Não tenho provas, é claro, mas acredito que há uma razão pela qual o arquivo de Rhian nunca tenha passado pela minha mesa ou pela de Lady Lesso como um aluno em potencial, sendo que toda criança, do Bem ou do Mal, tem um arquivo na escola. Ele afirma que frequentou a Escola para Garotos de Foxwood, mas isso pode ser mentira, como todas as outras que ele contou. E mentiras não vão levá-lo para muito longe sem habilidade, disciplina e treinamento, tudo o que meus alunos possuem aos montes. Se seguirmos um plano, podemos ficar um passo à frente dele. Então, ouçam com atenção. Primeiro: Anadil, seus ratos serão nossos espiões. Envie um para encontrar Merlin, outro para achar Tedros e o terceiro para encontrar Agatha, onde quer que ela esteja.” Os ratos de Anadil saltaram de seus bolsos, exultantes por finalmente serem úteis, mas Anadil os empurrou de volta. “Você acha que não pensei nisso? Você ouviu Willam. A masmorra é impenetrável. Eles não têm como... Ai!”
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Um dos ratos a mordeu e os três escapuliram pelos seus dedos e ficaram cheirando e investigando as paredes da cela antes de se espremerem por três rachaduras diferentes e desaparecerem. “Ratos sempre dão um jeito. É isso que faz deles ratos”, disse a Professora Dovey, esticando o braço para checar uma rachadura na parede pela qual um dos roedores se espremera, notando um brilho dourado. “Nicola, o que você vê naquele buraco?” Nicola pressionou o corpo contra a parede e olhou pela fresta. A aluna do primeiro ano passou o polegar pelo buraco, sentindo a pedra mofada esfacelar. Estava claro que as masmorras, como o resto do castelo, estavam em ruínas, sem cuidado ou manutenção. Com a ponta do seu grampo de cabelo, Nicola cavou mais terra e pedra, o que aumentou um pouco o buraco, deixando passar mais luz. “Estou vendo... luz do sol... e a encosta de uma colina...” “Luz do sol?”, Hort zombou. “Nic, sei que as coisas são diferentes no Mundo dos Leitores, mas no nosso mundo as masmorras ficam abaixo do solo.” “Essa é uma das vantagens de ter um namorado? Ele me explicar coisas que já sei?”, retrucou Nicola com um tom azedo, espiando através do buraco. “Masmorras podem estar abaixo do chão, mas nós estamos bem ao lado da colina. É a única explicação para eu conseguir ver o castelo.” Ela raspou mais terra com o grampo. “Também estou vendo pessoas. Muitas pessoas juntas no topo da colina. Elas estão olhando para a Torre Azul. Devem estar vendo Rhian...” A voz do rei ecoou mais alto através do buraco. “Desde que nasceram, vocês serviram a uma pena. Ninguém sabe quem controla essa pena ou o que ela quer, e mesmo assim vocês a adoram, rezam para que ela escreva sobre vocês. Mas isso nunca acontece. Por milhares de anos, ela governou a Floresta. O que vocês têm para mostrar? A cada nova história, ela escolhe outra pessoa para a glória. Os educados. As crianças daquela escola. E deixa os restos para vocês, os trabalhadores, os invisíveis. Vocês, as verdadeiras histórias da Floresta Sem Fim.” O grupo podia ouvir as pessoas comentando. “Nunca falou tanto assim quando estava com a gente”, murmurou Dot. “Nada como ter uma plateia”, brincou Anadil. “Nicola, consegue ver a varanda onde Rhian está?”, Dovey perguntou. Nicola balançou a cabeça. Professora Dovey se virou para Hester. “Faça o seu demônio lascar aquele buraco. Precisamos de uma visão do palco.” Hester franziu o cenho. “Talvez você possa transformar abóboras em carruagens, Professora, mas se acha que o meu demônio pode nos tirar daqui cavando um túnel através de uma parede...”
22w “Eu não disse tire-nos daqui. Eu disse lasque aquele buraco. Mas se você prefere duvidar de mim enquanto perdemos a chance de ser resgatados, fique à vontade”, Professora Dovey retrucou. Hester xingou baixinho enquanto sua tatuagem de demônio inchou, ficando vermelha em seu pescoço, se levantou da pele dela e voou em direção ao buraco, usando suas garras como picaretas e grunhindo “Babayagababayagababayaga!”. “Cuidado”, Hester avisou, preocupada, “sua garra ainda está ferida da batalha em Nottingham.” Ela estacou, captando um borrão preto de movimento através do buraco. Seu demônio também viu e recuou com medo, mas já havia sumido. “O que foi isso?”, perguntou Anadil. Hester se inclinou para a frente, inspecionando o buraco na pedra. “Parecia...” Mas não poderia ser, ela pensou. A Cobra está morta. Rhian o matou. Vimos o corpo dele. “Espere aí. Você disse resgatados?”, Dot perguntou, se virando para Dovey. “Primeiro, você ouviu Willam: não tem jeito de fugir desta prisão. Segundo, mesmo que houvesse e convocássemos a Liga dos Treze ou qualquer outra pessoa, o que eles fariam... invadiriam Camelot? Rhian tem guardas. Ele tem toda a Floresta com ele. Quem do lado de fora poderia nos resgatar?” “Nunca disse que seria alguém de fora”, disse a Professora Dovey. Toda a equipe olhou para ela. “Sophie”, disse Hort. “Rhian precisa de Sophie”, explicou a Reitora do Bem. “Todo rei de Camelot precisa de uma rainha para consolidar seu poder, especialmente um rei como Rhian, que é tão novo para o povo. Enquanto isso, a Rainha de Camelot é uma posição tão vangloriosa quanto sua contraparte. É por isso que Rhian tomou medidas cuidadosas para garantir que Sophie – uma lenda e um rosto amado do outro lado da Floresta – seria sua rainha. As pessoas estão vendo o melhor do Bem se casando com a melhor do Mal, o que eleva Rhian acima da política de Sempres e Nuncas e faz dele um líder convincente para ambos. Além disso, ter Sophie como rainha acalmará qualquer dúvida sobre ter um estranho misterioso como rei. Então, agora que o rei colocou um anel no dedo de Sophie, ele fará tudo o que puder para manter a lealdade dela, mas, no final, ela ainda está do nosso lado.” “Não necessariamente”, disse Reena. “A última vez que Sophie usou o anel de um garoto foi o de Rafal, e ela ficou do lado dele contra toda a escola e quase matou todos nós. E agora você quer que a gente confie na mesma garota?” “Ela não é a mesma garota”, Professora Dovey desafiou. “Foi por isso que Rhian a escolheu a dedo para ser sua rainha. Porque Sophie é a única
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pessoa na Floresta que tanto o Bem quanto o Mal reivindicam como sua – no passado, a assassina de um maligno Diretor da Escola, e agora a nova Reitora do Mal. Mas nós sabemos onde está a verdadeira lealdade de Sophie. Nenhum de vocês pode contestar que a única coisa que ela fez nessa missão foi proteger tanto a sua equipe quanto a coroa de Tedros. Ela aceitou o anel de Rhian porque, além de estar apaixonada por ele, pensou que ele fosse o suserano de Tedros. Ela tomou a mão de Rhian por amor aos amigos, e não apesar disso. Não importa o que Sophie tenha que fazer para permanecer viva, não podemos duvidar desse amor. Não quando nossa própria vida depende dela.” Beatrix franziu a testa. “Ainda assim não confio nela.” “Eu também não”, disse Kiko. “Junte-se ao clube”, resumiu Anadil. A Professora Dovey as ignorou. “Agora, para o resto do plano. Vamos esperar que os ratos de Anadil voltem com notícias dos outros. Então, quando chegar a hora, enviaremos uma mensagem para Sophie através daquele buraco e estabeleceremos uma cadeia de comunicação. Então, poderemos planejar nosso resgate”, disse ela, verificando a fresta do tamanho de uma moeda que o demônio de Hester tinha conseguido cavar na pedra molhada e rachada. A voz de Rhian ficou ainda mais alta. “E não esqueçamos a minha futura rainha!”, proclamou ele. O povo cantou de volta: “Sophie! Sophie! Sophie!”. “Já consegue ver o palco, Nicola?”, Professora Dovey pressionou. Nicola inclinou-se para a frente, o olho no buraco: “Quase. Mas é tão longe, bem no alto da colina, e estamos no lado errado dela.” Dovey se virou para Hester. “Faça o demônio continuar cavando. Nós precisamos de uma visão desse palco, não importa quão distante ele esteja.” “Por quê? Você escutou a garota”, Hester importunou, estremecendo enquanto o seu demônio esmurrava o buraco com a garra ferida. “De que serve uma vista do tamanho de uma ervilha?” “Um dos guardas piratas do Rhian provavelmente virá dar uma olhada na gente em breve”, Dovey continuou. “Hort, dado que o seu pai era um pirata, presumo que conheça esses rapazes?” “Ninguém que eu possa chamar de amigo”, Hort respondeu, mexendo na meia. “Bem, tente ficar amigo deles”, insistiu Dovey. “Não vou tentar fazer amizade com um bando de bandidos”, Hort bradou de volta. “Eles são mercenários. Não são piratas de verdade.” “E você é um professor de história de verdade? Se fosse, saberia que até os piratas mercenários se juntaram à Conferência dos Piratas para ajudar o
24w Rei Arthur a lutar contra o Cavaleiro Verde”, Dovey refutou. “Converse com esses garotos. Consiga o máximo de informação que puder.” Hort hesitou. “Que tipo de informação?” “Qualquer informação”, a reitora pressionou. “Como conheceram Rhian ou de onde Rhian realmente vem ou...” Um som de metal rangeu à distância. A porta de ferro. Alguém havia entrado nas masmorras. Um som de botas de ferro contra o chão de pedra. Dois piratas em armaduras de Camelot passaram pela cela arrastando o corpo mole de um garoto, cada um segurando um dos seus braços estendidos. Ele resistia fracamente, um olho fechado devido a um hematoma, o terno e a camisa rasgados, o corpo ensanguentado sem forças devido às torturas que tinha sofrido desde que o amarraram às correntes no palco. “Tedros?”, Kiko murmurou. O príncipe levantou a cabeça e, ao ver seus amigos, se jogou na direção deles, abrindo um dos olhos para ver a equipe. “Onde Agatha está?”, ele ofegou. “Onde está a minha mãe?!” Os guardas chutaram suas pernas e o puxaram pelo corredor, para as sombras escuras, e o atiraram na última cela. De onde Hester observava, parecia que a cela no final do corredor já estava ocupada, pois, ao atirarem Tedros para dentro dela, deixaram prisioneiros escaparem – três prisioneiras, para ser mais preciso – e agora se esgueiravam pelo corredor, sem as correntes e livres. Enquanto as prisioneiras libertadas saíam das sombras, Hester, Anadil e Dot se grudaram nas barras para ficar frente a frente com outro coven. As trigêmeas abatidas deslizaram pelo corredor em túnicas cinzentas, os cabelos até a cintura, braços e pernas que eram só pele e osso. Tinham a pele endurecida e acobreada, seus pescoços e rostos idênticos eram longos, testa alta, lábios finos e cinzentos e olhos amendoados. Elas sorriram para a Professora Dovey antes de seguirem os piratas para fora das masmorras, e a porta se fechou atrás delas. “Quem eram aquelas mulheres?”, Hester perguntou, se virando para Dovey. “As Irmãs Mistrais”, disse a reitora, de forma assustadora. “As conselheiras do Rei Arthur que destruíram Camelot. Arthur nomeou as Mistrais quando Guinevere o abandonou. Depois da morte de Arthur, elas fizeram o que quiseram com Camelot até Tedros chegar à idade adulta e colocá-las na prisão. Seja qual for a razão de Rhian para libertá-las, coisa boa não é.” Ela gritou em direção ao fundo do corredor: “Tedros, consegue me ouvir?!”. Os ecos do discurso de Rhian cobriram qualquer resposta, se é que houve alguma.
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“Ele está ferido”, disse Dovey à equipe. “Não podemos simplesmente deixá-lo lá. Precisamos ajudá-lo!” “Como?”, disse Beatrix, ansiosamente. “Os ratos de Anadil desapareceram e nós estamos presos aqui. A cela dele fica do outro lado do...” Então, eles ouviram a porta das masmorras se abrir mais uma vez. Passos suaves pela escadaria. Uma sombra se alongou na parede, depois através das grades das celas. Por trás do brilho cor de ferrugem da tocha, surgiu uma figura com uma máscara verde. Seu terno justo de enguias pretas estava inteiro retalhado e mostrava o tronco jovem e pálido sujo de sangue. A equipe inteira se espremeu contra as paredes. Até a Professora Dovey. “Mas você... você morreu!”, Hort gritou. “Nós vimos o seu corpo!”, disse Dot. “Rhian te matou!”, disse Kiko. Os olhos azuis e gelados da Cobra brilharam através da máscara. De trás das costas, tirou um dos ratos de Anadil, o roedor contorceu-se em seu aperto. A Cobra levantou um dedo e o scim preto e escamoso que cobria a ponta do dedo ficou afiado como uma faca. O rato deixou escapar um guincho terrível. “Não!”, Anadil gritou. A Cobra apunhalou o rato no coração e o deixou cair no chão. “Meus guardas estão procurando os dois que você mandou para encontrar Merlin e Agatha”, disse ele com a voz grave e profunda enquanto se afastava. “Quando encontrar o próximo, vou matar um de vocês também.” Ele não olhou para trás. A porta de ferro se fechou atrás dele. Anadil deu um passo à frente, estendendo os braços através da grade e segurando o rato nas mãos, mas era tarde demais. Ela soluçou, agarrando-a ao peito enquanto se curvava em um canto. Hort, Nicola e Dot tentaram confortá-la, mas estava chorando tanto que começou a tremer. Só quando Hester a tocou é que os gemidos de Anadil se acalmaram, lentamente. “Ela estava tão assustada”, Anadil fungou, rasgando um pedaço de seu vestido e enrolando o corpo da ratinha nele. “Ela me olhou, sabia que ia morrer.” “Foi uma fiel companheira até o fim”, Hester tentou consolá-la. Anadil enterrou a cabeça no ombro da amiga. “Como a Cobra sabia que os outros ratos estão procurando por Merlin e Agatha?”, Hort disparou, como se não houvesse mais tempo para lamentar.
26w “Esquece isso”, disse Nicola. “Como a Cobra está viva?” O estômago de Hester revirou. “Aquela coisa que eu vi pelo buraco... Achei que não poderia ser...”, ela disse, observando seu demônio ainda cavando a rachadura de pedra, sem se deixar intimidar pela Cobra. Ela se virou para o grupo. “Era um scim.” “Então ele estava escutando o tempo todo?”, Beatrix perguntou. “Isso significa que ele sabe de tudo!”, disse Hort, apontando para o buraco. “Não podemos enviar uma mensagem para Sophie. O scim provavelmente ainda está lá fora, nos escutando agora mesmo!” Assustados, eles se voltaram para a Professora Dovey, que estava espiando o corredor em direção às escadas. “O que foi?”, perguntou Hester. “A voz dele”, disse Dovey. “É a primeira vez que a ouço. Mas me pareceu... familiar.” A equipe toda se entreolhou, sem entender nada. Depois voltaram a atenção para a voz do rei, ainda ecoando: “Cresci sem nada e agora sou rei. Sophie cresceu como Leitora e agora será sua rainha. Nós somos iguais a vocês...” “Na verdade, a voz dele parecia um pouco com a de Rhian”, reparou Hester. “Muito parecida com a de Rhian”, disseram Willam e Bogden ao mesmo tempo. “Exatamente como a de Rhian”, concluiu a Professora Dovey. Um barulho crepitante veio da parede. O demônio de Hester tinha soltado outra pedra acima do buraco, alargando-o ainda mais, antes de esgotar todas as suas forças e voltar, exausto, para o pescoço de sua mestra. “Consigo ver o palco agora”, disse Nicola, olhando pelo buraco. “Um pouco...” “Ótimo, podemos fazer um feitiço-espelho aqui. Não consigo fazer da minha cela, mas Hester vai conseguir”, disse a Professora Dovey. “Hester, é o feitiço que te ensinei depois que Sophie se mudou para a torre do Diretor da Escola. Aquele que nos deixou espiá-la para ter certeza de que ela não estava me enchendo de vodu ou invocando o fantasma de Rafal.” “Professora, quantas vezes temos que te dizer, a magia não funciona dentro das masmorras”, rosnou Hester. “Dentro das masmorras”, repetiu a Reitora. Os olhos de Hester brilharam. Era por isso que Dovey era Reitora e ela ainda uma estudante. Nunca deveria ter duvidado dela. Rapidamente, Hester se encostou na parede, enfiou a ponta do dedo pelo buraco minúsculo em direção ao calor do verão. Sentiu seu brilho ser ativado e ficar vermelho vivo.
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A primeira regra da magia é que ela tem a ver com a emoção e, quando se tratava do seu ódio em relação a Rhian, Hester tinha o suficiente para iluminar Camelot inteira. “Devemos mesmo fazer isso?”, Kiko perguntou. “O scim está lá fora...” “Que tal eu te matar, para você não precisar se preocupar?”, Hester disparou. Kiko apertou os lábios. Mas Kiko tem razão, Hester pensou, incomodada. Ele pode estar fora do buraco, escutando, mas tinham que arriscar. Ver o palco mais de perto permitiria observar Sophie com Rhian. Conseguiriam descobrir de que lado ela realmente estava. Rapidamente, Hester posicionou o olho no buraco, para ter uma visão do palco, que parecia uma caixa de fósforos dali, de tão longe. Pior ainda, assim como Nicola dissera, ela não conseguia ver a frente do palco – apenas uma parte lateral, Rhian e Sophie de costas para ela, acima da multidão. Ainda assim, teria que servir. Hester apontou o dedo diretamente para Rhian e Sophie. Com metade da mente, ela se concentrou no ângulo do palco que queria espionar; com a outra metade, se concentrou na cela úmida e suja à sua frente. “Reflecta asimova”, ela sussurrou. Uma projeção bidimensional apareceu de uma vez dentro da cela, flutuando no ar como uma tela. Com as cores suaves, como uma pintura desbotada, a projeção ofereceu uma visão ampliada do que estava acontecendo na varanda da Torre Azul, em tempo real. Nessa visão, eles podiam observar Rhian e Sophie de perto, embora apenas de perfil. “Então um feitiço-espelho permite que você veja algo como se estivesse perto, mesmo de longe?”, Hort perguntou, de olhos arregalados. “Por que ninguém me ensinou esse feitiço na escola?” “Porque todos sabemos para o que você o teria usado”, respondeu a Professora Dovey. “Por que não temos uma visão deles de frente?”, Beatrix reclamou, estudando Rhian e Sophie. “Não consigo ver seus rostos.” “O feitiço aumenta somente o ângulo que consigo ver através do buraco”, explicou Hester, impaciente. “E daqui só consigo ver o palco desse lado.” Na projeção, Rhian ainda estava falando com os convidados, seu corpo alto e magro vestido em um terno azul e dourado nas sombras, enquanto segurava Sophie com um braço. “Por que ela não corre?”, perguntou Nicola. “Ou joga um feitiço nele?”, disse Willam. “Ou dá um chute na virilha dele?”, perguntou Dot.
28w “Eu disse que não podíamos confiar nela”, Reena insistiu. “Não. Não é isso”, respondeu Hester. “Olhem mais de perto.” A equipe seguiu seu olhar. Embora não conseguissem ver o rosto de Rhian ou Sophie, eles observaram Sophie por trás, estremecendo em seu vestido rosa com o aperto de Rhian. Os nós dos dedos de Rhian estavam brancos, cravados nela. A Excalibur firme na outra mão, pressionada contra a coluna de Sophie. “Aquele idiota nojento”, Beatrix percebeu, virando-se para Dovey. “Você disse que Rhian quer manter a lealdade de Sophie. Como ele vai conseguir isso enfiando uma espada nela?” “Muitos homens obtiveram a lealdade da esposa sob a bainha de uma espada”, disse a Reitora, séria. Dot suspirou. “Sophie realmente tem um péssimo gosto para meninos.” De fato, apenas vinte minutos antes, Sophie tinha pulado nos braços de Rhian e o beijado, acreditando que estava noiva do novo cavaleiro de Tedros. Agora, esse cavaleiro era inimigo de Tedros e ameaçava matar Sophie, a menos que ela entrasse no jogo dele. Mas não era só isso que eles conseguiam ver. Havia mais alguém no palco assistindo à coroação. Alguém escondido na varanda, fora da vista da multidão. A Cobra. Ele ficou ali, em seu terno feito de scims, rasgado e ensanguentado, assistindo ao rei discursar. “Primeiro, precisamos que nossa princesa se torne uma rainha”, proclamou Rhian ao povo, sua voz amplificada pela projeção. “E, como futura rainha, é uma honra para Sophie planejar o casamento. Não um desses pretensiosos espetáculos reais do passado. Mas um casamento que nos aproxime de vocês. Um casamento para o povo!” “Sophie! Sophie! Sophie!”, a multidão bradou. Sophie se contorceu com o aperto, e Rhian empurrou a espada com mais força contra ela. “Sophie tem uma semana inteira de festas, banquetes e desfiles pela frente”, ele continuou. “Seguida do casamento e de sua coroação como nova rainha!” “Rainha Sophie! Rainha Sophie!”, a multidão gritou. Sophie endireitou a postura, ouvindo a multidão de admiradores. No ato, ela se afastou de Rhian, desafiando-o a fazer algo contra ela. Rhian congelou, ainda a segurando com força. Embora seu rosto estivesse na sombra, Hester podia vê-lo observando Sophie. O silêncio caiu sobre a multidão, que sentiu a tensão. Lentamente, o Rei Rhian olhou de volta para as pessoas. “Parece que a nossa Sophie tem um pedido”, ele disse, sereno e sem mudar o tom de voz.
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“Um pedido pelo qual ela tem me pressionado dia e noite, e que tenho hesitado em atender, porque esperava que o casamento fosse o nosso momento. Mas se tem uma coisa que sei sobre ser rei é que o que a minha rainha quer, a minha rainha tem de conseguir.” Rhian olhou para a sua futura noiva, um sorriso frio no rosto. “Na noite do casamento, por insistência da princesa Sophie, começaremos com a execução do rei impostor.” Sophie voltou para o seu lugar, em choque, quase se cortando na lâmina da Excalibur. “O que significa que daqui a uma semana... Tedros morrerá”, terminou Rhian, olhando diretamente para ela. O povo de Camelot gritou, saindo em defesa do filho de Arthur, mas foram atrapalhados por cidadãos de dezenas de outros reinos, reinos outrora ignorados por Tedros e agora firmes diante do novo rei. “TRAIDORA!”, um homem de Camelot gritou para Sophie. “TEDROS CONFIOU EM VOCÊ!”, acusou uma mulher de Camelot. “VOCÊ É UMA BRUXA!”, o filho dela a xingou. Sophie os encarou, sem palavras. “Pode ir agora, meu amor”, Rhian gritou, dando um beijo em sua bochecha antes de guiá-la para as mãos dos guardas armados. “Você tem um casamento para planejar. E o nosso povo não espera nada menos que a perfeição.” A última coisa que Hester viu de Sophie foi seu rosto aterrorizado, encarando o futuro marido, antes que os piratas a puxassem para dentro do castelo. Enquanto a multidão cantava o nome de Sophie e Rhian presidia calmamente na varanda, todos dentro da cela nas masmorras ficaram atordoados e em silêncio. “Ele estava dizendo a verdade?”, uma voz ecoou do fundo do corredor. A voz de Tedros. “Sobre Sophie me querer morto?”, o príncipe perguntou. “É verdade?” Ninguém respondeu, porque a equipe estava vendo na projeção outra coisa acontecer no palco. O corpo da Cobra estava se transformando. Ou melhor, suas roupas estavam. Como mágica, os scims que sobraram se rearranjaram em um terno que ficou dourado e azul instantaneamente: o contrário perfeito do terno que Rhian estava usando. Assim que a Cobra conjurou sua nova roupa, Rhian pareceu sentir, pois o rei olhou de volta para o garoto mascarado, percebendo sua presença pela primeira vez. A equipe agora viu o rosto bronzeado e o queixo fino de Rhian em plena vista, seu cabelo brilhando como um capacete de bronze, os olhos verdes
30w como o mar passando brevemente pela Cobra, que ainda estava fora da vista do povo. Rhian não mostrou nenhuma surpresa por seu inimigo mortal estar vivo, ou ter trocado de roupa, ou estar usando um terno que se parecia com o seu. Em vez disso, Rhian ofereceu à Cobra algo próximo de um sorriso. O rei se voltou para a multidão. “O Storian nunca ajuda vocês, o verdadeiro povo. Ele ajuda a elite. Ajuda os que frequentam aquela escola. Como ele pode ser a voz da Floresta, então? Se divide o Bem do Mal, o rico do pobre, o educado do homem comum? Foi isso que deixou nossa Floresta tão vulnerável a ataques. Foi o que deixou uma Cobra deslizar para dentro do reino de vocês. Foi isso que quase os matou. A Caneta. A podridão começa com aquela caneta.” O povo murmurou, concordando. Os olhos de Rhian percorriam a multidão. “Você aí, Ananya da Floresta de Baixo, filha de Sisika da Floresta de Baixo.” Ele apontou para uma mulher magra e desgrenhada, atordoada porque o rei sabia seu nome. “Durante trinta anos, foi escravizada nos estábulos do seu reino, acordando antes do amanhecer para preparar os cavalos para a rainha-bruxa da Floresta de Baixo. Cavalos que você amou e que treinou para cavalgar em batalha. No entanto, nenhuma caneta conta a sua história. Ninguém sabe o que você sacrificou, quem amou ou que lições pode oferecer – lições mais dignas do que qualquer princesa pomposa que o Storian possa escolher.” Ananya corou ao ver que aqueles que a rodeavam pareciam admirados. “E você?”, chamou Rhian, apontando para um homem musculoso, ao lado de três adolescentes com a cabeça raspada. “Dimitrov de Maidenvale, cujos três filhos se candidataram à Escola do Bem e nenhum foi aceito. E, no entanto, todos agora trabalham como lacaios para os jovens príncipes de Maidenvale. Dia após dia, trabalham até dizer chega, ainda que no fundo do coração saibam que esses príncipes não são melhores que vocês, ainda que saibam que também merecem uma chance de glória. Vocês também terão que morrer sem que as suas histórias sejam contadas? Terão que morrer ignorados e esquecidos?” Os olhos de Dimitrov se encheram de lágrimas enquanto os filhos colocavam os braços em volta do pai. Hester podia ouvir os murmúrios da multidão, maravilhada com o fato de alguém com tanto poder estar honrando as pessoas dali. Maravilhada com o fato de ser capaz de enxergá-las. “Mas e se houvesse uma caneta que contasse as suas histórias?”, Rhian disse. “Uma caneta que não seja controlada por uma magia misteriosa, mas por um homem em quem vocês confiam. Uma caneta que viva à vista de todos em vez de trancada atrás dos portões de uma escola. Uma caneta feita para um Leão.”
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Ele se aproximou da frente do palco. “O Storian não liga para vocês. Eu ligo. O Storian não os salvou da Cobra. Eu salvei. O Storian não serve ao povo. Eu sirvo. Porque quero glorificar todos vocês. E a minha caneta também.” “Sim! Sim!”, gritou o povo. “Minha caneta dará voz aos que não têm voz. Minha caneta dirá a verdade. A sua verdade”, anunciou o rei. “Por favor! Por favor!” “O reinado do Storian acabou!”, Rhian gritou. “Surge uma nova caneta. O começou de uma nova era!” Nessa mesma hora, Hester e a equipe assistiram a uma tira do terno dourado da Cobra se soltar e flutuar sobre a parede da varanda, fora da vista da multidão. A tira dourada se transformou em um scim preto escamoso enquanto se deslocava mais alto no ar, ainda sem ser visto. Em seguida, desceu sobre a multidão e se dirigiu à luz do sol em direção ao Rei Rhian, transformando-se magicamente em uma longa caneta dourada, afiada como faca em ambas as extremidades. As pessoas olhavam para a caneta, encantadas. “Finalmente. Uma Caneta para o Povo”, gritou Rhian, enquanto o objeto pairava sobre a sua mão estendida. “Conheçam... Lionsmane!” A massa explodiu com os mais fervorosos aplausos. “Lionsmane! Lionsmane!” Rhian apontou o dedo e a caneta voou para o céu sobre o castelo de Camelot e escreveu em dourado, contra a tela azul pura, como se fosse uma página a ser preenchida.
A C O B R A E S TÁ M O R TA . E R G U E - S E U M L E ÃO . O V ER DA DEIRO E Ú NICO R EI . Deslumbrados, todos os cidadãos da Floresta, do Bem e do Mal, se ajoelharam perante o Rei Rhian. Os dissidentes de Camelot foram forçados a se ajoelharem por aqueles que os rodeavam. O rei levantou os braços. “Chega de era uma vez. A hora é agora. Quero ouvir suas histórias. Eu e meus homens vamos procurá-las, para que todos os dias a minha caneta possa escrever as verdadeiras notícias da Floresta. Não contos de príncipes arrogantes e bruxas que lutam pelo poder, mas histórias que colocam vocês sob os holofotes. Sigam a minha caneta e o Storian não terá mais lugar no nosso mundo. Sigam a minha caneta e todos vocês terão uma chance de glória!”
32w Toda a Floresta rugiu enquanto Lionsmane subia ao céu sobre Camelot, brilhando como um farol. “Mas Lionsmane sozinho não é suficiente para superar o Storian e seu legado de mentiras”, continuou Rhian. “O Leão, na história O Leão e a Cobra, tinha uma Águia ao seu lado para garantir que nenhuma Cobra pudesse voltar a encontrar o caminho para o seu reino. Um Leão precisa de uma Águia para ter sucesso: um suserano que possa servir como o conselheiro mais próximo do rei. E hoje, trago a vocês esse suserano, que me ajudará a lutar por uma Floresta melhor. Alguém em quem vocês podem confiar tanto quanto confiam em mim.” A multidão se calou, tamanha a expectativa. De dentro da varanda, a Cobra começou a se mover em direção ao palco, sua máscara verde ainda no lugar, as costas viradas para Hester e a equipe. Mas pouco antes de passar por um muro obscuro e entrar na vista da multidão, os scims que compunham a máscara da Cobra se dispersaram no ar, voando para fora de vista. “Apresento a vocês... a minha Águia... e suserano do seu rei...”, Rhian proclamou. “Sir Japeth!” A Cobra caminhou para a luz e revelou o rosto para a multidão, o dourado do seu terno cintilando sob o sol. Arquejos vieram da multidão. “Naquela velha e obsoleta escola, dois iguais a nós governavam uma caneta. Dois do mesmo sangue que estavam em guerra um contra o outro, o Bem e o Mal”, anunciou o rei, mantendo Japeth próximo a ele, embaixo de Lionsmane. “Agora, dois do mesmo sangue governam uma nova caneta. Não para o Bem. Não para o Mal. Mas para o povo.” A multidão irrompeu, cantando o nome do novo suserano: “Japeth! Japeth! Japeth!”. Foi então que a Cobra se virou e olhou diretamente para a projeção de Hester, revelando seu rosto para a equipe encarcerada, como se soubesse que estavam assistindo a tudo. Assimilando a visão do lindo e fino rosto da Cobra pela primeira vez, todo o corpo de Hester ficou bambo. “O que foi que você disse sobre estar um passo à frente?”, ela disse para a Professora Dovey. A Reitora do Bem não disse nada enquanto Sir Japeth sorria de volta para eles. Depois, ele se virou e acenou para as pessoas, ao lado de seu irmão gêmeo idêntico, o Rei Rhian. O Leão e a Cobra, agora, dominavam a Floresta como um só.
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