Nã o h á t r é g ua e p ar a Dia n Si lver. . .
Títulos da Vestígio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . SETE DIAS EM RIVER FALLS | Alexis Aubenque
Algumas garotas escondem terríveis segredos... Tradução: Fernando Scheibe
MEU PRIMEIRO ASSASSINATO | Leena Lehtolainen
Uma estreia de tirar o fôlego para Maria Kallio... Tradução: Salma Saad
OS SETE CRIMES DE ROMA | Guillaume Prévost
Roma, 1514. Leonardo da Vinci conduz a investigação...
Tradução: Fernando Scheibe
A FERA INTERIOR | Lotte & Søren Hammer
Podemos fazer justiça com as próprias mãos?
Tradução: Márcia Guimarães
ESTAVA ESCRITO | Gunnar Staalesen
O que realmente sabemos sobre nossos filhos?
Tradução: Elisa Nazarian
NA MENTE, O VENENO | Andrea H. Japp
Diane Silver inicia sua caça ao serial killer...
Tradução: Vinicius Carneiro
VESTIDO DE NOIVO | Pierre Lemaitre
Ninguém está a salvo da loucura...
Tradução: Zéfere
ASSASSINATO NA TORRE EIFFEL | Claude Izner
Crimes em série transformam livreiro em detetive
Tradução: Elisa Nazarian
UM OUTONO EM RIVER FALLS | Alexis Aubenque
Alguns garotos nunca perdoam...
Tradução: Fernando Scheibe
MULHER DE NEVE | Leena Lehtolainen
Tensão e ameaças na nova investigação de Maria Kallio
Tradução: Ana Carolina Oliveira
INDESEJADAS | Kristina Ohlsson
Crimes brutais marcam um verão sueco
Tradução: Sérgio Pereira Couto
AMARGA VINGANÇA | Andrea H. Japp
Não há trégua para Diane Silver...
Tradução: Fernando Scheibe
Não há trégua para Diane Silver...
Traduzido do francês por
Fernando Scheibe
Copyright © Calmann-Lévy, 2009 Copyright da tradução © 2014 Editora Nemo/Vestígio
Título original: Une ombre plus pâle Todos os direitos reservados pela Editora Nemo. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
DIRETOR DA COLEÇÃO
CAPA
Arnaud Vin
Ricardo Furtado (sobre imagem de Eliza Tyrrell)
PREPARAÇÃO
Sonia Junqueira REVISÃO
DIAGRAMAÇÃO
Jairo Alvarenga Fonseca
Amanda Pavani Lívia Martins
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
Japp, Andrea H. Amarga vingança : não há trégua para Diane Silver... / Andrea H. Japp ; tradução Fernando Scheibe. -- Belo Horizonte : Vestígio, 2014. Título original: Une ombre plus pâle ISBN 978-85-8286-097-7 1. Ficção policial e de mistério (Literatura francesa) I. Título. 14-05404
CDD-843.0872
Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção policial e de mistério : Literatura francesa 843.0872
A VESTÍGIO É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA
São Paulo Av. Paulista, 2.073, Conjunto Nacional, Horsa I, 23º andar, Conj. 2301 Cerqueira César . 01311-940 São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468 Televendas: 0800 283 13 22 www.editoravestigio.com.br
Belo Horizonte Rua Aimorés, 981, 8º andar Funcionários . 30140-071 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3214 5700
O semelhante n達o pode dominar o semelhante. Sun Pin, Sun Tzu Ping Fa (Estratego, cerca de 400 a.C.).
Na mente, o veneno Resumo Cannes, abril de 2008: Élodie Menez, uma técnica de laboratório, é estrangulada por seu antigo namorado, que desaparecera havia algum tempo. Paris, junho de 2008: dois adolescentes satanistas, cujo objetivo maior é se tornarem assassinos, prosseguem sua “iniciação” na internet graças à influência de um mentor canadense. A garota morre apunhalada, enquanto o rapaz é assassinado com rara selvageria. Oaxaca, México, junho de 2008: Constantino Valdez, chefe de uma rede de pornografia pedófila, é encontrado esfolado vivo e queimado junto com suas fitas repulsivas. Estados Unidos, 2008: todos esses assassinatos, cometidos por um tal de Nathan Hunter, despertam a atenção de Diane Silver, uma das melhores profilers do mundo, caçadora de serial killers. Para ela, essa é uma questão pessoal: sua filha, Leonor, de onze anos, foi torturada e assassinada por um maníaco. Yves, um policial francês formado por Diane nas técnicas da psicologia forense, é uma das únicas pessoas cuja amizade ela ainda aceita. É através dele que fica sabendo do assassinato dos dois adolescentes franceses. Paralelamente, ela caça um serial killer que anda atacando prostitutas em Boston, enquanto seus pensamentos voltam constantemente ao assassinato da filha, ocorrido doze anos antes. O estuprador, torturador 7
e assassino morrera havia vários anos, mas, vasculhando sua memória, Diane se convence de que também havia uma mulher envolvida. Está determinada a encontrá-la, assim como Sara Heurtel, mãe da adolescente satanista, está decidida a esclarecer seu assassinato e, a conselho de Yves, vai encontrar Diane nos Estados Unidos. Diane reconstitui o quebra-cabeças e chega ao predador dos predadores: Rupert Teelaney – também conhecido como Nathan Hunter –, um dos cinquenta homens mais ricos do planeta. Que ele seja também um perigoso sociopata não incomoda Diane. Essa onda de assassinatos perpetrados por Nathan tinha por único objetivo atrair a atenção da profiler, a fim de lhe propor uma sangrenta colaboração: entrar com seu faro e seus métodos em troca da determinação e do dinheiro de Rupert/Nathan. Sua primeira missão: eliminar o matador de prostitutas de Boston. A segunda missão de Nathan, a mais crucial aos olhos de Diane: encontrar a cúmplice que levou tantas garotinhas, entre as quais Leonor, para as garras de seu assassino.
8
Cemitério parisiense de Bagneux, França, julho de 2008 Rupert Teelaney, terceiro da família, avançou sem pressa pela alameda principal, sombreada por plátanos centenários. Não é estranha essa sensação de infinita paz que sentimos nos belos cemitérios, lá onde a existência humana se deteve? Talvez a vida não seja mais do que um pontilhado doloroso, agitado e atormentado entre dois estados de graça, de nada ou de infinito, dependendo das crenças. Nunca nos sentimos deslocados num cemitério. Experimentamos uma espécie de familiaridade benfazeja com todos esses mortos desconhecidos cujos túmulos roçamos com o olhar, como se eles anunciassem para nós, com gentil insistência, nosso inevitável futuro. Rupert – ou melhor, hoje Nathan Hunter – parou de repente. Ergueu o olhar, protegido por óculos escuros, para o topo das árvores, piscando mesmo assim diante da luz disseminada através das folhas. Um belo dia. Um dos poucos concedidos por aquele verão, até então parcimonioso. Diane Silver, a célebre profiler do FBI, tinha razão. A potência nasce a partir do instante em que dominamos o terror que nos inspira nosso próprio fim. Assim que paramos de viver com medo de nossa morte. Uma salutar faxina mental. Mas nada fácil. Nathan admitia: tinha se enganado. Provocara em si mesmo o medo da morte, pensando assim poder controlá-la, inventando jogos letais que o opunham, na arena da sala redonda e sem janelas de sua casa, a perigosas serpentes 9
que importava ilegalmente. Uma machadinha contra presas capazes de injetar um veneno fatal. Uma machadinha para se defender de uma lenta e terrível agonia. Na verdade, ele não provocava o medo. Ele apenas o materializava, atribuindo-lhe a forma de uma naja ou de uma cascavel. Porque o medo já estava nele. Graças a Diane, Nathan o erradicara. Diane não tinha mais medo de nada, a não ser de fracassar em sua tarefa crucial. Uma excelente razão para continuar viva. Punir a mulher que conduzira Leonor, sua filhinha, a um assassino sádico que a torturara e estuprara por quase quatro horas antes de acabar com ela, por não estar mais se divertindo. Ao perceber tudo isso, Nathan/Rupert não tardara a oferecer, anonimamente, os magníficos espécimes de seus viveiros ao museu de história natural de Boston. Ele suspirou de bem-estar. Diane lhe dera tanta coisa. Principalmente a certeza de seu poder e a confirmação de sua utilidade. Voltou a andar, orientando-se com facilidade nas alamedas cercadas de pedras tumulares. Finalmente encontrou-o, um bloco de mármore cinza escuro. Nathan lamentara a escolha dos pais, mas fazer o quê, estava fora de questão intervir, dar-se a conhecer. No entanto, sentira uma breve afeição por aquele corpo gentil e amante, confiante, um pouco interessado no dinheiro, é verdade. Nada mais humano – e Angela dispunha apenas de um modesto salário de técnica de laboratório que não lhe permitia nenhuma extravagância. Assim, os poucos milhares de euros que oferecera para ela, como presente de amor, a tinham seduzido. Além do belo americano. Ele. Teria preferido que Angela repousasse sob um mármore rosa. Em vez daqueles dois evônimos mirrados plantados sobre sua cabeça, que pareciam se perguntar, eles também, se não deviam se extinguir, teria gostado de uma profusão de flores campestres e de roseiras antigas. Uma cascata de florezinhas brancas rosadas. Ajoelhou-se e colocou ali o buquê de áruns que trouxera, limpando com delicadeza a poeira que recobria a sepultura. Que tristeza aquele epitáfio em letras douradas, 10
semelhante a milhares de outros naquele lugar: A Angela Rolland, nossa filha e irmã bem-amada, 1969-1999. Nathan pareceu meditar por alguns instantes, então depositou um beijo com a ponta dos dedos no epitáfio. Lamentava muito. De verdade. No entanto, fora obrigado a matar Angela. Uma execução que esperava ter sido quase indolor. Um segredo que ainda não estava pronto para partilhar com Diane Silver. Levantou-se. No dia seguinte, voaria para Cannes, a fim de colocar flores no túmulo de Élodie Menez, outra execução. Um buquê de rosas cor-de-rosa, dessa vez. As flores preferidas de Élodie. Adorável Élodie. O segundo segredo que ainda guardava, ignorando qual seria a reação da profiler e temendo-a.
11
Paris, França, julho de 2008 Por causa de Louise, ele não acreditava mais nos dragões. Não mergulhava mais o olhar em seus olhos safira, embora fingisse o contrário para tranquilizar sua mãe, agradecendo com efusão quando ela lhe dava livros de fantasia heroica, os mesmos que devorava freneticamente antes. Antes de conhecer a verdade sobre sua irmã mais velha, Louise. Por causa dela, de sua monstruosidade sangrenta, ele não acreditava mais que o amor, a honra e a coragem pudessem salvar uma gentil rainha triste de um implacável sortilégio. Sua mãe. Sara. Sentado no chão, de pernas cruzadas, no meio da sala vazia que ele e sua mãe tinham acabado de pintar, Victor Heurtel, doze anos, refletia. Fizera a escolha certa. Por sua mãe. Escolhera manter seu bebê pelo máximo de tempo possível. Fingir, se fosse preciso. Fingir a infância, senão ela lembraria que era outra coisa além de mãe. Ela lutaria até o fim para proteger seu bebê. Não cederia. Se agarraria com todas as forças. A mãe, não a mulher. Mais tarde, quando se tornasse forte, quando tivesse aprendido o essencial, ele seria seu salvador, mas ainda era cedo. Ainda era pequeno demais, fraco demais. Victor se sentia desorientado. Avançava em seus próprios pensamentos como um explorador descobrindo uma terra desconhecida. Parecia que a sombra que obscurecia sua mente ia se tornando mais pálida, dissipando-se em alguns pontos, 12
oferecendo-lhe com brutalidade raios luminosos de compreensão. Será que sempre conseguira pensar assim, sem jamais suspeitar? Ou fora a revelação aterradora que fizera ofício de catalisador, reunindo processos intelectuais até então desordenados, inoperantes? A revelação. Quando ficara sabendo que Louise, sua irmã, projetava com deleite matar a mãe – e ele em seguida. Sua mãe não devia saber que ele descobrira a verdade. O ódio de Victor por Louise crescia a cada dia, à maneira de um tumor. A morte não mata o amor, por que mataria o ódio? Louise queria massacrá-los, pelo simples prazer de lhes fazer mal, de destruí-los. Por causa de Louise, sua mãe estava meio morta por dentro, cada vez mais. A morte dera um passo gigantesco dentro dela. Dela, que aguentara tranquila desde o acidente de moto que custara a vida do marido, cinco anos antes. Victor podia farejá-la, escondida na mãe. Por essa razão, devia permanecer criança, prova luminosa da vida que renasce, obstinada. Por causa de Louise, não acreditava mais nos dragões. Não podia mais mergulhar o olhar nos olhos safira deles. Por certo, nunca acreditara de verdade, mas a ilusão se tornava às vezes tão tenaz que tinha vontade de se deixar levar àquele universo em que jovens rapazes heroicos – ele, é claro – salvavam valentes princesas, rainhas devastadas, vencendo justamente a morte e a destruição. Victor estava arrependido de sua impulsividade lá, naquela base militar na Virgínia que abrigava o FBI. Devia ter ficado calado. Devia ter feito de conta que não reconhecera aquele rosto oval, aqueles óculos de sol retangulares. Nathan Hunter. Pensando bem, aquele homem salvara Sara, sua mãe, em seu lugar. Aquele homem abatera Louise com uma punhalada na garganta, numa mansão, em Neuilly. Uma questão atormentava Victor desde que, aproveitando a ida da mãe à delegacia, descobrira as mensagens odiosas, assassinas, que Louise tentara, sem sucesso, apagar de seu computador. Pobre idiota malfazeja, nem mexer num computador ela sabia direito! Mensagens em que ela antegozava o assassinato da mãe e do irmão mais novo. Ele. Mensagens 13
destinadas àquele outro doente, Cyril Janet. Morto também. Esquartejado. Nathan Hunter, também. O diabo existia? Sua mãe dizia que não, que o diabo era uma invenção dos homens, destinada a justificar suas falhas, seus vícios. Uma cômoda autoabsolvição, de certa forma. Victor não tinha mais tanta certeza. Talvez o diabo fosse astuto a ponto de nos fazer acreditar em sua inexistência? Certamente, Victor já era grandinho o suficiente para não engolir mais as fábulas de um homem chifrudo, com cascos nos pés e uma cauda bifurcada. De resto, uma monstruosidade dessas seria inepta. O diabo deve ser sedutor, se quiser ter adeptos. Louise, Cyril. Outros, que Victor não conhecia, mas de cuja existência, por toda parte, em volta deles, agora tinha certeza. Louise e Cyril teriam sido avatares do diabo, do mal? Nesse caso, Nathan Hunter não seria uma espécie de arcanjo que vencera a besta imunda? Victor devia ter fingido não reconhecê-lo naquela foto que lhe estendia Yves Guéguen, o profiler francês. Ainda mais tendo a mãe esquecido aquele breve encontro no terraço de um café da Rue de Rivoli. O e-mail daquela de que nunca gostara muito antes, e que agora odiava, sua irmã mais velha, endereçado a Cyril, desfilou em sua memória: Que linda mensagem, querido sire. A morte é tão vibrante. Que êxtase eu sentiria em matá-los. Ambos. Odeio-os com todas as minhas forças. Essa imbecil sentenciosa e o aborto do meu irmão. Acho que começarei por ela. Que começarei, na verdade. Logo. Estou me preparando, graças a seus preciosos ensinamentos. Tenha uma bela noite, meu doce sire.
Quando Victor o descobrira na lixeira do computador de Louise, pouco antes de sua morte, tivera que ler e reler várias vezes, tão sem sentido lhe pareceram aquelas palavras. Diversas hipóteses se sucederam a toda a velocidade em sua mente: Louise tinha copiado aquele texto de algum lugar, não fora ela que o escrevera, aquilo era uma brincadeira de mau gosto. E então a verdade se impusera. Ela ia matá-los, e 14
sentia grande prazer naquilo. O pânico invadira o garotinho, e ele se derramara em lágrimas, detestando-se por ser tão pequeno, tão fraco, incapaz de proteger a mãe e a si mesmo. Impossível revelar aquela descoberta à mãe. Esperava que ela nunca descobrisse. Impossível também contar para a polícia, que pensaria que ele é que tinha raiva da irmã mais velha ou, ainda mais provável, que aquilo era apenas uma típica manifestação de agressividade de uma adolescente revoltada, no estilo “Detesto minha mãe e meu irmão. Quero mais é que eles morram”. Não, Louise não queria que eles morressem. Queria matá-los com as próprias mãos. Victor desejara então um milagre que os livrasse dela. E o milagre acontecera: Nathan Hunter. Podia revê-lo, sentado no terraço daquele café da Rue de Rivoli, como se aquela cena tivesse se passado na véspera. Grande, magro mas musculoso, mais jovem do que Sara – embora Victor tivesse dificuldade em estimar a idade dos adultos, já que alguém de trinta anos lhe parecia velho – cabelos castanho-claros, lisos, corte quadrado, um bonito sorriso generoso, uma voz grave e lenta, com um leve sotaque americano. Victor não pudera ver a cor de seus olhos por trás dos óculos escuros de lentes retangulares, ligeiramente curvas. Azuis, decerto. Uma questão não cessava de atormentar o garoto: por que Nathan sentira necessidade de se aproximar deles, de se apresentar, de certa forma, pouco antes de abater Louise? Ele permanecera apenas alguns segundos, dirigira-lhes apenas algumas frases, usando a lentidão do serviço como pretexto para se levantar e desaparecer. Por quê? Sim, Louise era um avatar do diabo, sem dúvida. A mesma angústia, que ia e voltava havia semanas, invadiu o garoto. Eles eram irmãos. E se fosse parecido com ela? Se a atração pelo diabo fosse... genético? Agarrou-se aos débeis argumentos que encontrara. Aquilo era impossível. Sua mãe estava do lado da luz. Seu pai, Marc, fora um ser admirável. Ele próprio gostava de animais e de alguns de seus colegas de escola. Adorava a mãe e continuava sentindo falta do pai. Não se parecia com Louise. No entanto, a dúvida não o deixava em paz. Victor chegava a temer uma espécie de contágio. Não podia falar 15
daquilo para ninguém, sobretudo para a mãe, que nunca deveria saber a que ponto Louise os detestara. Porém, será que, no fundo, Sara ignorava mesmo a verdade? Aquele coronel, Yves Guéguen, devia ter recuperado as mensagens que sua irmã não soubera apagar. Teria ele explicado a verdade à mãe? Sara estaria se calando para proteger o filho, ele, Victor? Os dois mentiam um para o outro a fim de se pouparem? Odiava Louise também por isto: ter batido atrás dele as portas da infância e demolido suas certezas. Restava apenas um mundo de interrogações, cambiante, assustador. – Acho que fez a escolha certa, querido. Victor se sobressaltou. Sara estava atrás dele, examinando as paredes. Murmurou: – Sim, foi a escolha certa. – De fato. E, no entanto, eu estava em dúvida. Esse cinza é um bocado sério, mas com as três outras paredes brancas, fica bem luminoso, bem... – Calmo – pronunciou ele, sem sequer pensar. – É isso, calmante. Fizemos um bom trabalho. Nenhuma marca de pincel ou de rolo. Trabalho de profissional! A satisfação da mãe era falsa, podia sentir, mas pouco importava. Por enquanto, ela se agarrava à vida, e era isso que importava. Um dia, ele seria grande. Um dia, ela voltaria verdadeiramente à vida. Ele faria tudo para que isso acontecesse. Ele a amava tanto. – Que tal: como recompensa por nossos esforços, estou disposta a aceitar uma brecha em nosso regime. O que acha de um enorme hambúrguer, cheio de ketchup, acompanhado de batatas fritas e seguido de um enorme sorvete? Ele fez cara de difícil e negociou: – Com uma coca gigante? – Caramba, você é duro nos negócios – sorriu ela, acariciando-lhe os cabelos – Ok, você venceu. Vamos nos arrumar. O último a ficar pronto é mulher de padre! Victor se levantou com um salto e fez de conta que tinha mordido a isca. Forçando a jovialidade do tom, exclamou: 16
– Eu é que não vou ser mulher de padre! Aliás, são sempre as mulheres que demoram mais para se arrumar! Sara o viu correr para seu quarto. Seu sorriso desapareceu. Voltou para dentro de si mesma. Apesar da pintura nova, da nudez do que fora o quarto da filha mais velha – já que se livrara de todos os móveis, de todos os objetos e roupas de Louise, recusando-se a vendê-los ou dá-los, como se temesse que uma presença malsã persistisse neles –, não gostava daquele cômodo. Detestava-se pela espécie de superstição que se instalava nela. Acabara por execrar aquele apartamento superaconchegante. Cinco anos antes, Marc, seu marido, morrera. Eles já viviam ali. Tentou afastar a visão daquela pilha de ferragens em que se transformara sua moto, atingida por um motorista barbeiro em uma ponte, um barbeiro que não parara, que não avisara a polícia, abandonando um Marc agonizante. Ele morrera ao chegar ao hospital. Naquele cômodo, Louise urdira seus assassinatos, dela e de Victor. O filho se surpreendera com sua insistência em cremar a irmã mais velha. Sara utilizara argumentos científicos, ecológicos e etnológicos. Todos pouco convincentes, já que Marc fora enterrado sem que a questão sequer se colocasse. Sua única verdadeira justificativa fora a ressurgência de crenças muito longínquas: purificar o mal pelo fogo, reduzi-lo ao estado de átomos, retirar-lhe o mais rápido possível qualquer forma orgânica. Um átomo de fosfato ou de carbono não é bom nem mau. Louise era má. Um grito: – Mulher de padre! Ainda não está pronta. O sorriso de Sara voltou. Um reflexo. – Tá bom, mas da próxima vez sou eu que vou ganhar. É que fiquei admirando nossa obra. Somos realmente muito bons, sabia? Vou pôr um vestido e pegar minha bolsa. Evidentemente, era idiota tornar um lugar responsável, culpado pelas feridas humanas. Mas o fato era que ela se sentia mal ali, e estava certa de que Victor partilhava seu mal-estar. O rapazinho passava às vezes longos momentos no quarto repintado de sua irmã, sentado no chão, olhando para a 17
parede, pensando ela não sabia em quê. Quando não sabia que o observava, podia sentir que ele estava na defensiva, pronto para fugir. Será que percebera alguma coisa? Ia vender aquele apartamento. Ficariam bem melhor em outro lugar. Refariam seu casulo, os dois, livres do fantasma funesto de Louise. Financeiramente, daria um jeito. Completaria seu medíocre salário de pesquisadora fazendo traduções científicas. A ideia de traduzir do inglês a fez pensar em Diane Silver. Além do imenso consolo que a profiler lhe trouxera nos subterrâneos do Jefferson Building, em Quantico, a mulher do olhar desconcertante a marcara de maneira indelével. Apesar de seu encontro não ter durado mais do que alguns minutos. E de Diane ter deixado bem claro que Sara a incomodava. Por que Sara ousara admitir o inadmissível diante daquela mulher que não conhecia: que só amara sua filha por dever de mãe? Uma lucidez assassina. Por que aquela mulher – bastante odiosa, além do mais – lhe trouxera o único consolo eficaz? Sara lembrava-se de suas palavras como se a profiler acabasse de pronunciá-las: ... o tom dos e-mails de sua filha era... como dizer... aprazível. Não vi nada que pudesse estar relacionado ao ciúme, ao desejo de vingança, ao amor não correspondido ou mesmo à ausência do pai. Você era somente um objeto aos olhos de Louise. Um objeto odiado, mas mesmo assim um objeto. É uma tendência frequente nos psicopatas: despersonalizar suas vítimas. O que você fazia ou deixava de fazer não importava aos olhos dela. Não acho realmente que você seja a responsável por sua... oscilação, se é mesmo que se tratou de uma oscilação e não de uma tendência preexistente. Não digo isso com o objetivo de reconfortar você, compreenda. Não é meu papel. Sara tivera de repente a impressão de conseguir respirar de novo. Diane Silver a segurara, por um triz, na beira do precipício. Ela, a mãe, não era a culpada pela psicopatia de Louise. – Está pronta, mamãe? Sara refez imediatamente um rosto descontraído e se juntou ao filho na porta de entrada. 18
www.vestigioeditora.com.br www.twitter.com/vestigio_editora www.facebook.com/vestigioeditora