Foto: Carlos Alberto Pereira
J.D. VITAL A REVOADA DOS ANJOS DE MINAS
O jornalista J.D. Vital é graduado em Filosofia e em Comunicação Social pela UFMG. Trabalhou como repórter para os jornais Diário de Minas, O Globo e O Estado de S. Paulo, e como comentarista da TV Manchete e da Rádio Alvorada. É autor do livro Como se faz um bispo, segundo o alto e o baixo clero. Foi chefe da assessoria de imprensa e relações públicas de dois governadores mineiros – Tancredo Neves e Hélio Garcia. É gerente de Comunicação da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) e membro da Academia Marianense de Letras. Presidiu a Banda de Música Santa Cecília de Barão de Cocais. É fundador e membro do comitê diretor da International Association of Religion Journalists (IARJ), com sede em Nova Iorque.
de Andrade, mineiro de Itabira, cidade que acabara de emancipar-se da arquidiocese de Mariana para constituir-se em nova diocese. Drummond chora o fim do Seminário Maior de Mariana. Ele se diz assombrado, em crônica publicada na terceira seção do Estado de Minas no dia 15 de setembro de 1966, encabeçada por quatro fotos de seminaristas carregando malas, violão e tralhas nas alamedas de frente ao Seminário São José. As fotos de Evandro Santiago registram o início da revoada, da diáspora de Mariana.”
J.D. VITAL
“Nada mais contundente que a crônica do poeta Carlos Drummond
ISBN 978-85-513-0114-2
9 788551 301142
A REVOADA DOS ANJOS DE MINAS (Ou A diáspora de Mariana)
A REVOADA DOS ANJOS DE MINAS chega no cinquentenário da Diáspora e narra o comovente relato do fechamento do Seminário Maior São José, após mais de 250 anos de história. As mãos de J.D. Vital, jornalista consagrado, diligente pesquisador da melhor lavra, erudito, conhecedor de assuntos religiosos fora e, sobretudo, dentro dos muros clericais, revelam uma vez mais um escritor leve e agradável, imparcial e justo, sério e profundo. Não fugiu à luta. Optou por escrever a história pela narração dos envolvidos, sensível ao protesto, à revolta, ao riso e às lágrimas, ouvindo o canto dos hebreus de Mariana com absoluta isenção, registrando ora lamento, ora exaltação, a insatisfação de uns ao lado da gratidão de outros. Com maestria e arte, não fere a lógica aristotélica, põe juntos na pauta os contrários, dá ouvido às contradições e rebusca os contraditórios sem desafinar o coro dos escravos. Sua postura de jornalista é irrepreensível. O texto não acusa e não absolve, interessandose pelo fenômeno de grande densidade que irrompeu um dia, no coração de Minas, como uma barragem antiga, sentida como forte por uns e diagnosticada como frágil por outros, e que de repente enfarta e desaba. O que a fez ruir? Uma revolta, um descabeçado, irresponsabilidade, má consciência? Ou zelo e ternura para se construir um novo modelo na picada aberta pelo ConcílioVaticano II? O autor não se interessa por saber quem é santo ou pecador, nem vencedor e vencido. Não obstante, brota da reportagem a palavra “mudança”, resposta contundente aos apelos dos novos tempos. João Batista Lembi Ferreira Psicanalista
J.D. VITAL
A REVOADA DOS ANJOS DE MINAS (Ou A diรกspora de Mariana)
Copyright © 2016 José das Dores Vital Copyright © 2016 Autêntica Editora
Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
editora responsável
Rejane Dias editora assistente
Cecília Martins revisão
Lívia Martins diagramação
Guilherme Fagundes capa
Diogo Droschi imagens de capa
Frente: no alto, foto de Armando Rozário/Quatro Rodas/ Ed_68_Abril Comunicações S/A; embaixo, foto de Sérgio Salgado do Seminário Maior São José, Mariana, Minas Gerais, Brasil, 1998. Contracapa: recorte, jornal Estado de Minas, 15 set. 1966, fotos de Evandro Santiago.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Vital, J.D. A revoada dos anjos de Minas (ou A diáspora de Mariana) / J.D. Vital. – 1. ed. – Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2016. Bibliografia. ISBN 978-85-513-0114-2 1. Reportagem 2. Seminário Maior São José - Mariana (MG) História I. Título. 16-07655
CDD-070.449
Índices para catálogo sistemático: 1. Seminário Maior São José : História : Mariana : Minas Gerais : Reportagem : Jornalismo 070.449
Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465 4500 www.grupoautentica.com.br
Rio de Janeiro Rua Debret, 23, sala 401 Centro . 20030-080 Rio de Janeiro . RJ Tel.: (55 21) 3179 1975
São Paulo Av. Paulista, 2.073, Conjunto Nacional, Horsa I 23º andar . Conj. 2301 . Cerqueira César . 01311-940 São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468
Para Dico, meu irmĂŁo.
Agradecimentos
João Batista Lembi Ferreira Monsenhor Flávio Carneiro Rodrigues Luciana Viana Assunção Padre Lauro Palú Paulo Roberto de Magalhães Padre Célio Dell’Amore Fernanda Souza Silva Associação dos Ex-Alunos dos Seminários de Mariana (AEXAM)
Em memória
João Batista Libânio, SJ Miguel Vital Maestro Raimundo Santiago Tobias Zico Anderson Cordélio Gandra Lúcio Valadares Portella Fernando Luiz Telles Richard
1. Às margens dos rios de Babilônia, nos sentávamos chorando, lembrando-nos de Sião. 2. Nos salgueiros daquela terra, pendurávamos, então, as nossas harpas, 3. porque aqueles que nos tinham deportado pediam-nos um cântico. Nossos opressores exigiam de nós um hino de alegria: Cantai-nos um dos cânticos de Sião. 4. Como poderíamos nós cantar um cântico do Senhor em terra estranha? 5. Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, que minha mão direita se paralise! 6. Que minha língua se me apegue ao paladar, se eu não me lembrar de ti, se não puser Jerusalém acima de todas as minhas alegrias. 7. Contra os filhos de Edom, lembrai-vos, Senhor, do dia da queda de Jerusalém, quando eles gritavam: Arrasai-a, arrasai-a até os seus alicerces! 8. Ó filha de Babilônia, a devastadora, feliz aquele que te retribuir o mal que nos fizeste! 9. Feliz aquele que se apoderar de teus filhinhos, para os esmagar contra o rochedo! (Salmo 136.1-9, Bíblia Ave Maria)
Nem Marx, nem Santo Agostinho, nem Spengler, nem Toynbee, nem Comte, nem Sorokin, nem Maritain, nem Nietzsche, nem Hegel, nem ... nenhum dos grandes filósofos da História fez da idade uma força social revolucionária. Pois eu acho que, neste momento, a maior força social da história contemporânea é a idade, aquilo que a semana social da França de 1962 chamou “la montée des jeunes”. Mas me sinto tão mais próximo aos moços, tão mais afinado com eles, que as minhas divergências com estes são mínimas, comparadas com as minhas concordâncias com os velhos. Alceu Amoroso Lima, 19 de setembro de 1966 (Cartas do pai, p. 563, Instituto Moreira Salles)
Capítulo 1 Drummond Capítulo 2
15
Roque 47
Capítulo 3 Guilherme
51
Capítulo 4 Palú
59
Capítulo 5 Lembi
75
Capítulo 6
89
Carneiro e Vidigal
Capítulo 7 Maurílio
103
Capítulo 8 Zico
109
Capítulo 9
125
Ramiro e Irineu
Capítulo 10 Ivanir 129 Capítulo 11 Lisboa
135
Capítulo 12 Josué
139
Capítulo 13 Mariosa
143
Capítulo 14 Pacheco
153
Capítulo 15 Terra
159
Capítulo 16 Geraldo 171 Capítulo 17 Diáspora
185
Referências
201
Capítulo 1
Drummond
Depois de receber a extrema unção, Silva Bélkior ergueu os olhos, encarou o sacerdote e lhe dirigiu uma pergunta perturbadora: – Você já se casou? O padre, com cara de Harrison Ford, não esperava por essa. Acabara de dar a comunhão ao enfermo, a pedido de Dona Fernanda de Souza e Silva, a esposa, preocupada com a salvação da alma do marido. O padre olhava-o com admiração, respeito e compaixão. Na juventude, Bélkior fora uma espécie de ídolo de sua geração. Naqueles dias, padre Lauro Palú dirigia o Colégio São Vicente, um centro educacional de prestígio no Rio de Janeiro, onde estudou durante um ano o futuro presidente da República Fernando Affonso Collor de Mello. Para lá os superiores lazaristas exportavam as inteligências de qualidade, seus melhores quadros. Antes do Rio, Lauro Palú havia servido no Seminário Maior de Mariana, em Petrópolis, no Seminário de Aparecida, quando o cardeal Carlos Carmelo Motta encabeçava a arquidiocese da terra da padroeira do Brasil, e em Belo Horizonte. Sempre que chamado por Dona Fernanda, Lauro Palú comparecia ao apartamento de Silva Bélkior, no Leme. A primeira . 15 .
vez foi em um dia 19 de março de um ano que ele não se recorda. Lembra-se, no entanto, de que Dona Fernanda pediu para que ele desse uma bênção. “Aproveitei para dizer que era a festa de São José. E quando dei a bênção, Bélkior foi o primeiro a fazer o sinal da cruz” – o padre ministrou os santos óleos mais de uma vez ao doente, acometido pelo mal de Alzheimer e por outras complicações. Silva Bélkior apresentava traços de lucidez e de ironia. Como nos tempos em que assombrava com sua inteligência os confrades lazaristas, o episcopado brasileiro e os seminaristas de Mariana. Em 1967, então com seu nome original de Belchior Cornélio da Silva, fizera a tradução do ensaio Revelação e Tradição, do original alemão Offenbarung und Überlieferung, da festejada dupla de animadores do Concílio Vaticano II, os jovens teólogos alemães Karl Rahner e Joseph Ratzinger – este último seria eleito Papa com o nome de Bento XVI, na sucessão de João Paulo II. A publicação, da editora Herder, ganhou o “nihil obstat” de Frei Valentim de São Paulo, um franciscano capuchinho que exercia a função de censor, e o “imprimatur” de Dom J. Lafayette, vigário-geral da arquidiocese de São Paulo. Xará do centurião romano da culta cidade de Cesareia, convertido pelo apóstolo Pedro, padre Cornélio surpreendera também com outra publicação, desta vez em latim: Carmina Drummondiana – a tradução de 52 poemas de seu conterrâneo de Minas Gerais, o poeta Carlos Drummond de Andrade. O itabirano delirou quando leu “Media in via” – “No meio do caminho”. Media in via erat lapis erat lapis media in via erat lapis media in via erat lapis. . 16 .
Non ero unquam immemor illius eventus pervivi tam mihi in retinis defatigatis. Non ero unquam immemor quod media in via erat lapis erat lapis media in via media in via erat lapis.
Drummond apreciou “Ioseph ” – “José ”. E encantou-se com o verso “Minas não há mais” – “Minas non est amplius”. Et quid nunc, Ioseph? Festum est finitum, lumen est exstinctum, cuncta evanuit turba, nox est frigefacta, et quid nunc, Ioseph?
Palú, que auxiliara Cornélio na revisão da tradução, apreciava “Quadrilha”: João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi para o Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.
A tradução ganhou ritmo doce e ares de tragédia grega, com o título “Bis gemina chorea”. lohannes ardebat Theresiam quae ardebat Raymundum qui ardebat Mariam quae ardebat loachim qui ardebat Lilim quae ardebat neminem. . 17 .
lohannes ad Status Foederatos fecit iter, Theresia ad claustrum, Raymundus fatali obiit casu, Maria vitam vixit virgo, Ioachim propria se interfecit manu atque Lilim sibi iunxit J. Pinto Fernandes qui fabellam non ingressus fuerat.
Na edição de sábado, 10 de setembro de 1966, a primeira página de O Diário, o maior jornal católico do Brasil, destacou em alto de página: “Greve estudante”. Era uma nota pequena, restrita a um retângulo: “Os universitários das escolas do Largo de São Francisco, em São Paulo, foram os primeiros a se declararem em greve, em sinal de protesto pela prisão de 40 colegas pelo DOPS bandeirante”. A manchete da página fora emplacada pela editoria internacional, atenta à corrida espacial: “Gemini falha mas tenta subir de novo”
Com fotos dos astronautas norte-americanos Charles Conrad Jr. e Richard Gordon Jr., o texto informava que a NASA abortara o lançamento da cápsula espacial Gemini 11 seis horas antes da partida em Cabo Kennedy. A operação fora suspensa devido à descoberta de um escapamento no tanque de combustível. À esquerda, na coluna “Em Resumo”, o jornal católico, fundado em 1935 pelo primeiro arcebispo de Belo Horizonte, Dom Antônio dos Santos Cabral, anunciava a nomeação de Dom Adriano Mandarino Hypólito pelo Papa Paulo VI para a diocese de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro. Ele foi deslocado da arquidiocese de Salvador, onde era bispo auxiliar. Em outra nota, informava que o presidente Humberto Castelo Branco viajaria a Minas na segunda-feira para inaugurar em Cambuquira o Circuito das Águas. . 18 .
O líder soviético Leonid Brejnev intensificava os contatos com os vietcongues, visando a aumentar o apoio da URSS aos norte-vietnamitas na guerra do Sudeste Asiático. Hanói, dizia o texto, adotava nova tática antiaérea: barreiras de balões para impedir os bombardeios norte-americanos. Na página de geral, o Banco da Lavoura de Minas Gerais homenageava o Dia da Imprensa, celebrado naquela data: Pode a imprensa brasileira orgulhar-se de seu papel decisivo na marcha de nossa civilização, impulsionando-a a acelerar-se e expandir-se em conquistas sempre maiores.
Na seção de espetáculos, o filme Dr. Jivago, com Omar Sharif e Geraldine Chaplin, continuava atraindo o público ao Cine Guarani, na rua da Bahia em Belo Horizonte. No Cine Art Palacio, da rua Curitiba, um faroeste prenunciava o tiroteio que logo envolveria o jornal: O domador de motins, com Randolph Scott. Dizia a propaganda do filme: “Ned Brit... o homem que sabia atirar tão bem quanto escrever. Falhava o verbo, entrava em ação a bala”. Na página três, uma matéria relacionada à Igreja no Brasil: “Seminário Maior (de Mariana) fecha as portas” Diante das crescentes dificuldades com que deparam os professores para equilibrar a impaciência da juventude e a lentidão com que evoluem as instituições, os diretores e professores do Seminário Maior São José, com aprovação do Arcebispo de Mariana, Dom Oscar de Oliveira, decidiram suspender as aulas e fechar o estabelecimento, até que se aclare a situação. O Seminário Maior São José, de Mariana, é um dos mais antigos do País e contava com 115 seminaristas . 19 .
maiores de várias Dioceses. As aulas foram iniciadas normalmente no segundo semestre, até que o Corpo Docente se viu em dificuldades em face do conflito entre as aspirações dos seminaristas e a falta de horizontes com relação a diversos problemas. Depois de ouvir a Congregação dos Professores, o reitor do Seminário, Pe. José Pires de Almeida, CM, e de dar conhecimento das deliberações ao Arcebispo, determinou o fechamento das portas do estabelecimento.
O Diário publica, a seguir, a nota oficial do reitor: Destinados a formar pastores para a Santa Igreja, os Seminários participam intensamente da situação histórica de seu tempo. A eles, portanto, se aplica o que o Concílio Vaticano II disse a propósito das mudanças de mentalidade dos nossos dias (Cf. Constituição “GAUDIUM et SPES”, n. 7): A impaciência da juventude entra em sério conflito com a lentidão com que evoluem as instituições. Daí o sentirem os educadores dificuldades sempre crescentes em equilibrar as duas forças. A isso se prende a decisão, há pouco tomada unanimemente, pelos Diretores e Professores do Seminário Maior São José, com a aprovação do Exmo. Sr. Arcebispo de Mariana, de encerrar antecipadamente os trabalhos do ano escolar, para que com mais vagar, possam ser estudadas as diretrizes da nova etapa que o venerando estabelecimento deverá enfrentar. Com efeito, se de um lado, as adaptações realizadas no correr dos últimos anos se verificariam insuficientes, de outro, não se poderiam operar modificações mais radicais na estrutura da Casa, sem a necessária reflexão e segurança, ou seja, sem o indispensável fator tempo. . 20 .
Esperam os Diretores que tal atitude seja o sinal de um renascimento para esta Obra que o Concílio diz ser “necessária”, ainda nos dias de hoje, “para a formação sacerdotal” (Cf. Decreto Optatam Totius, n. 4). Mariana, 8 de setembro de 1966 Padre José Pires de Almeida, CM – Reitor do Seminário de Mariana
O jornal carioca O Globo também deu a notícia: “Entra em nova fase o Seminário de Mariana”
A nota enviada pela sucursal de Belo Horizonte reproduz as explicações do reitor padre José Pires de Almeida e especula sobre o modelo futuro de funcionamento da casa que reúne seminaristas de Minas e outros estados, como Bahia e Goiás: Talvez adote, agora, a mesma solução do Seminário Coração Eucarístico de Jesus desta capital que suprimiu o internato e autorizou os seminaristas maiores (filósofos e teólogos) a viverem em repúblicas da cidade, fazendo os estudos eclesiásticos e já realizando trabalhos pastorais sob a direção de um sacerdote. Os bispos de todas as dioceses que têm alunos no seminário de Mariana receberam comunicação do “fechamento provisório” do seminário e vão opinar sobre o futuro da nova orientação que deverá seguir a formação de sacerdotes.
Naqueles dias de primavera tropical, nove meses após o encerramento do Concílio Vaticano II em 8 de dezembro de 1965 pelo Papa Paulo VI, circulava em todo o país a revista Manchete, com capa de 10 de setembro. Nela, o pensador . 21 .
católico Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Athayde, escrevia artigo intitulado “O Papa e os bispos querem a Igreja mais perto do povo”. No dia seguinte, na data que 35 anos mais tarde entraria para a história do terrorismo mundial com a derrubada das torres gêmeas em Nova York, por aviões sequestrados por terroristas da Al-Qaeda, o jornal católico voltou a noticiar a tragédia de Mariana. O 11 de setembro de 1966 era domingo. Um dia de descanso para os fiéis, conforme o mandamento da Igreja, exceto para os padres, em suas obrigações de celebrar missas, realizar batizados e atender à população. Na primeira página, nova alusão à Gemini 11, que fracassara em sua segunda tentativa de lançamento para um voo orbital de três dias. O clero de Belo Horizonte e de Minas Gerais amanheceu desassossegado com a leitura da manchete de página inteira, numa das páginas mais nobres dos veículos impressos, a quinta: “Seminário de Mariana: 216 anos de tradição”
Ilustrava a matéria uma foto do casarão construído pelo arcebispo Dom Helvécio Gomes de Oliveira e inaugurado em 1934 para sediar o Seminário Maior São José. Na abertura, os redatores deram notícia do alvoroço instalado após a divulgação do fato: A notícia de que o Seminário Maior de Mariana havia fechado as suas portas foi muito sentida em todos os meios religiosos de Belo Horizonte. Ninguém esperava uma atitude desta porque o Seminário de Mariana sempre gozou da mais alta estima do clero e de todo o povo católico. . 22 .
Em cuidadosa pesquisa, o jornal historiou a fundação dos seminários de Mariana em 1750 pelo seu primeiro bispo, Dom Frei Manuel da Cruz. Até 1748, quando carta régia de Dom João V autorizou a criação de um centro de formação sacerdotal em Mariana, os seminaristas mineiros viam-se forçados a estudar no Rio de Janeiro ou na Bahia. “Estávamos em tempo e civilização em que até para se fundar um Seminário era preciso ter ordem do Rei” – pontuava o jornal. Contava o matutino mineiro que Dom Frei Manuel da Cruz escolheu Nossa Senhora da Boa Morte para padroeira do novo seminário, erguido em grande área de terreno doada por José Torres Quintanilha. O bispo quis entregar a direção do seminário aos padres da Companhia de Jesus. Os jesuítas ficaram por pouco tempo e se retiraram. Segundo o jornal, a direção do seminário preocupava os bispos da cidade. Dom Antônio Viçoso tentou confiá-lo aos padres redentoristas “que não aceitaram, argumentando que não era finalidade da congregação cuidar de seminários”. Dom Viçoso, um lazarista português, “foi feliz com os padres da Congregação da Missão”, de que ele fazia parte. Em janeiro de 1853, um século após a iniciativa de Dom Frei Manuel, os lazaristas assumiram o compromisso. Entre outras datas, o jornal conta que em 1854 “a varíola invadiu toda a cidade de Mariana” e, por isso, o Seminário Maior foi transferido para o Caraça, também dirigido pelos padres lazaristas. O Seminário Menor – os dois estabelecimentos funcionavam no mesmo prédio – “mudou para a Fazenda do Seminário, hoje município de Alvinópolis”. Preocupado em trazer para perto os futuros padres, que estando distantes mal conheciam seu bispo, Dom Benevides, acrescenta a matéria, retornou com o seminário em 1882 para Mariana. Em 15 de agosto de 1934, Dom Helvécio Gomes de Oliveira inaugurou o Seminário Maior São José . 23 .
em solenidade prestigiada pelo Núncio Apostólico, Dom Aloísio Masella; o interventor em Minas, Benedito Valadares; e Juscelino Kubitschek, “secretário da Interventoria”, entre outras autoridades. O cônego Luiz Vieira, um dos inconfidentes, e o cardeal Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta foram citados como ex-alunos do educandário, “que deu à Igreja no Brasil 20 bispos”. Após a pesquisa, o autor da reportagem volta ao fato do dia, sob a retranca intitulada “fechamento”. A tradição que gozava o Seminário Maior de Mariana só fez aumentar o espanto de todos que leram a notícia de que o Seminário havia fechado suas portas. Procuramos entrar em contato com um grande número de pessoas para apurar as causas desta resolução. Pudemos apurar o seguinte: a crise que enfrentam os seminários do mundo é muito grande. Não é apenas uma crise de Mariana, do Brasil: é do mundo inteiro. A causa é que os Seminários de hoje ainda obedecem a uma estrutura antiga, que se baseia no Concílio de Trento. Esta estrutura boa para o tempo, claro que não é a recomendada para os nossos dias. Alguns Seminários começaram então a fazer experiências, chegando alguns a apresentar um resultado um tanto satisfatório. Mas ficava sempre a verdade de que meias medidas não resolviam os problemas, era preciso mudar mesmo a estrutura. Uma coisa era patente, mas nem todos queriam ver a realidade. Atualmente, o índice de formação dos padres era insignificante ao número dos que começavam o primeiro ano do Seminário. Índice que ainda diminuía mais ainda com os repetidos casos dos padres que pediam a secularização não por falta de amor ao sacerdócio ou à Igreja, mas por circunstâncias do mundo atual. . 24 .
O ambiente do Seminário Maior de Mariana era o mesmo de todos os seminários: angústia e preocupação de quem procurava um novo caminho que deve ser achado com urgência e ainda não foi encontrado.
Com notável sobriedade, a reportagem lembra que o fechamento ocorreu após muitos debates entre os professores e a análise do resultado de um inquérito realizado entre os estudantes sobre a vida seminarística. Um dos pontos do inquérito feito entre os seminaristas era a respeito do celibato eclesiástico. As respostas contra o celibato vieram em quase totalidade; 94 por cento foram contra o celibato. Perguntava-se então: é humano ordenar padre um seminarista que ainda tem a sua angústia contra o celibato? Os padres professores procuraram as autoridades competentes para notificar a medida de fechar o Seminário até que se encontre uma solução compensadora. Procuraram o Sr. Núncio Apostólico; procuraram também D. Othon Motta, Bispo de Campanha e Visitador Apostólico dos Seminários da Região Centro do Brasil. Finalmente, procuraram o Arcebispo de Mariana, D. Oscar de Oliveira. E assim fecharam-se as portas de um Seminário que tem mais de 200 anos de tradições gloriosas e que muito contribuiu para a Igreja de Minas e do Brasil.
A exposição das entranhas da Igreja chocou o recatado público mineiro. A rejeição do celibato entre os seminaristas acendeu a luz vermelha na Igreja de Minas, traumatizada pela fama de desregramento de muitos de seus clérigos no passado, conforme estudos de Riolando Azzi, “Igreja e Estado em Minas Gerais: crítica institucional” (revista Síntese, n. 38, . 25 .
1986), e História de Minas Gerais, coleção coordenada por Maria Efigênia Lage de Resende, além da tese de doutorado do ex-padre lazarista Maurílio José de Oliveira Camello, Dom Antônio Ferreira Viçoso e a reforma do clero em Minas Gerais no século XIX. Em seu relatório decenal enviado à Santa Sé em 1827, Dom Frei José da Santíssima Trindade, sexto bispo de Mariana, informa: Apliquei minha primeira e diligente atenção ao seminário dos ordinandos, querendo-o tão prestante como delineado pelo Sacrossanto Concílio de Trento. De fato, o meu predecessor Dom Frei Manoel da Cruz, também fundador deste Bispado, instituiu este seminário o qual, em dias anteriores, tanto resplandeceu que muitos de seus alunos, formados nas suas disciplinas, fulgiram com singular brilho não só em dignidades eclesiásticas, mas ainda em graduações profanas.
Na época, segundo o documento, o seminário contava com 24 alunos. No terceiro capítulo, contudo, o bispo relata os costumes clericais da diocese, erigida em 1745 pelo Papa Bento XIV com a bula Candor Lucis Aeternae: No que tange aos costumes dos clérigos (quanta tristeza!), nas visitas tomei conhecimento do desleixo, excessos, delitos e desordenada consciência de alguns párocos e clérigos (com quanto pesar anoto isto!). Mas através de oportunas admoestações e de pronta correção, atuando a Graça de Deus, arrependidos e penitentes no seminário ou na Casa da Congregação da Missão, vêm eles se convertendo para uma melhor conduta de vida (“Os relatórios decenais dos Bispos de Mariana enviados à Santa Sé”, Cadernos Históricos do . 26 .
Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana, n. 3, organizados por Monsenhor Flávio Carneiro Rodrigues, Gráfica Dom Viçoso).
No volume 4 dos cadernos compilados e magistralmente comentados pelo diretor do Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana, monsenhor Flávio Carneiro Rodrigues, há a transcrição de nova apreciação do clero marianense no relatório do bispo Dom Viçoso, enviado em maio de 1853 ao Papa Pio IX: O clero desta diocese peca menos por malícia do que por ignorância, sobretudo no que diz respeito à incontinência onde tantos se fazem infelizes, o que julgo poder-se atribuir tanto a uma familiaridade com escravos africanos como também à falência de uma ordem melhor dos costumes.
Dom Viçoso registra ainda que em 1853 havia 30 seminaristas maiores e 70 menores. Monsenhor Flávio Carneiro Rodrigues comenta que: não faltavam escândalos por incontinência que ele atribuía à generalizada desordem dos costumes e a uma não muito bem explicada familiaridade com escravos africanos. Seria a contaminação de uma fraqueza inerente à raça negra (influência negativa de seus hábitos) ou uma facilidade maior que a inferioridade da parte escrava oferecia para estes procedimentos desedificantes?
Entrou para a história do Império o desentendimento entre Dom Viçoso e o imperador Dom Pedro II por causa do cônego José de Sousa e Silva Roussim. Em 1855, entre dois . 27 .
nomes apresentados por Dom Viçoso, o cônego foi escolhido pelo imperador para compor o cabido da catedral de Mariana. O candidato do bispo era o cônego Antônio José da Costa Pereira, considerado um religioso virtuoso e de grande honestidade, enquanto era de conhecimento público a vida escandalosa do cônego Roussim, que tinha mulher e filhos. A indicação do imperador ganhou firme oposição de Dom Viçoso, conforme mostram os arquivos da Cúria Arquidiocesana de Mariana. Afinal, o combate à vida desregrada do clero marianense havia sido a obsessão de Dom Antônio Ferreira Viçoso, segundo seu biógrafo Dom Silvério Gomes Pimenta. “A reforma do clero conduzida com suave, mas firme tenacidade ficou assentada em dois seminários que podem servir de norma, e têm servido a outros bispados” – escreveu em Vida de D. Antonio Ferreira Viçoso. Bispo de Marianna, Conde da Conceição (1876). No dia 13 de setembro de 1966, o arcebispo Dom Oscar de Oliveira negociou com o jornal a publicação de nota assinada pelo chanceler da cúria, monsenhor João Denis Valle, tentando esclarecer o episódio. “Dom Oscar esclarece porque o seminário encerrou ano letivo” – era o título da matéria que revelava o quanto a divulgação do fechamento levara inquietação ao arcebispo. O arcebispo e o chanceler, provavelmente por desconhecimento das técnicas jornalísticas, imaginaram que a nota seria publicada na íntegra, sem cortes. Mas ela foi editada, para desgosto deles. Informava que após dar conhecimento ao Núncio Apostólico e ao Secretário Nacional dos Seminários do Brasil, Dom Oscar de Oliveira queria deixar clara a posição que tomara. Escreve o chanceler que desde o início daquele ano letivo, o arcebispo vinha insistindo, em artigos no jornal O Arquidiocesano e junto a professores e alunos sobre o cumprimento fiel das orientações conciliares, especialmente do decreto Optatam Totius. . 28 .
A nota esclarece que o encerramento antecipado das aulas foi motivado por: confessarem a Diretoria e os Professores ao Sr. Arcebispo, após se terem reunido em conselho, que lhes era impossível manter o Seminário porque vários de seus alunos estavam desinteressados por assuntos sérios e também em desacordo com o Decreto Conciliar “Optatam Totius”. Finalmente, o Sr. Arcebispo comunica que, no próximo ano, o Seminário Maior São José estará aberto para aqueles que sinceramente desejarem ser sacerdotes, segundo o Coração de Deus, pondo em prática os verdadeiros ensinamentos e orientação da Santa Igreja, a fim de que o Seminário de Mariana, que goza de louvável tradição, possa continuar a dar a Santa Igreja dignos sacerdotes.
A coluna especula, em meio a muitas dúvidas, se todos os seminaristas voltariam à casa no próximo ano, se o seminário aceitaria somente alunos de Teologia e de Mariana. “O que se fechou” – dizem alguns seminaristas – “foi aquele seminário que, pouco atualizado, ou mesmo anacrônico, não tinha condições de preparar futuros padres para a Igreja e para o mundo atual”. Em reveladora “nota da redação”, o jornal informa que “a matéria sobre o fechamento do Seminário Maior São José, divulgada anteontem, não foi da lavra do padre Paulo Fernandes”. Adianta que o padre, responsável pela coluna “Documentação Católica”, estivera em Mariana e sua opinião sobre o assunto seria publicada no dia seguinte. De fato, no dia 14 de setembro, “Documentação Católica” saiu, com o título de “Presente e futuro do Seminário de Mariana”, carregada de informações colhidas in loco. Uma . 29 .
delas, as perguntas do inquérito respondido pelos seminaristas sobre a formação sacerdotal no seminário. Segundo o colunista, as respostas à primeira pergunta revelaram, numa proporção muito ampla, que o Seminário não tinha condições de formar os futuros sacerdotes. Os motivos foram os mais variados: prédio antigo, pequeno e pouco funcional. Excesso de seminaristas, com uma certa “massificação” dos alunos. Os seminaristas, no curso superior, não deveriam viver tão rigorosamente em regime de internato. As matérias de estudo deveriam ser reformuladas.
Enfim, escreve padre Paulo Fernandes, os alunos acreditavam que as matérias deveriam ser reformuladas, sendo necessária uma pastoral atualizada em seus aspectos litúrgicos, bíblicos e catequéticos. Porque “o seminário, como está, corre o risco de viver alienado da sociedade atual”. Os seminaristas, em resposta à terceira pergunta, elegeram como seu tipo de “sacerdote ideal” os bispos Dom Helder Câmara, de Recife, e Dom Marcos Noronha, de Itabira. Na parte de observações pessoais – apêndice às três perguntas básicas – vários seminaristas citaram de fato o problema do celibato. Mas o tema figurava mais nas conversas que os seminaristas mantinham do que nas observações escritas. E o que há na realidade, como bem acentuou o Reitor, é sobretudo uma angústia ou uma interrogação a respeito da momentosa questão.
A coluna atendeu ao reitor que reclama, reclama e reclama da imprensa. Parece próprio do DNA clerical, no Brasil e até . 30 .
no Vaticano, reclamar dos jornalistas sempre que um fato, de seu desagrado, é publicado, não importa se verdadeiro. A coluna, a cargo de um padre, trouxe, sem comentários e na íntegra, nota oficial do padre José Pires de Almeida, em que agradece “aos ilustres redatores de O DIÁRIO o interesse em divulgar as notícias de nossa casa”, solicitando, no entanto, a publicação de “‘retificações’ da matéria intitulada ‘Seminário de Mariana: 216 anos de tradição’”. O reitor reclama da forma como a questão do celibato foi colocada. Explica que no inquérito a questão não foi abordada nas perguntas, embora alguns alunos tenham se manifestado sobre ela, em suas observações. Tais observações e declarações, argumenta o reitor, não podem ser reduzidas a estatística, visto que o problema, apesar de existir em “sérias proporções”, “é formulado não em termos de rejeição, mas de interrogação, dúvida ou angústia, diante de um estado de vida para o qual não acreditam estar sendo preparados no atual sistema de formação clerical”. Em sua ginástica explicativa, afirma: Querer, pois, colocar isso em termos de estatística é desnaturar o problema; e é falseá-lo totalmente afirmar que, no Seminário de Mariana, “94 por cento dos seminaristas são contra o celibato”.
Corrige, por fim, informação do jornalista, desta vez, com razão: Dom Oscar de Oliveira foi a primeira autoridade eclesiástica a quem deram conhecimento da decisão de fechar o seminário. Depois, deram a notícia a Dom Othon Motta. Outra retificação: não houve fechamento, “mas suspensão para reflexão”. E numa canelada no jornal católico, conclui: Outros periódicos, certamente, entenderam melhor nossa posição, quando falaram em termos de “nova fase do seminário de Mariana”. De fato, é isso que . 31 .
pretendemos: preparar nova fase para este estabelecimento, mediante pequena interrupção, mas sem ruptura nos 216 anos de tradição.
Com redação e parque gráfico na avenida Francisco Sales, 526, no bairro Floresta, em Belo Horizonte, O Diário pertencia à arquidiocese de Belo Horizonte, mas apresentava-se como propriedade de Mensagem Sociedade Cultural Ltda. Seu conselho de administração, presidido pelo empresário Nylton Moreira Velloso, reunia a fina flor da sociedade católica mineira, como os empresários Celso Mello de Azevedo, Edésio Alves Carneiro e Paulo Lima Vieira; o reitor da UFMG, Aluísio Pimenta; e o banqueiro Joãozinho do Nascimento Pires (Banco Mineiro do Oeste). Três anos antes, Nylton Velloso, que também presidia a Economisa Companhia Hipotecária, fora derrotado por Jorge Carone Filho na disputa eleitoral para a prefeitura de Belo Horizonte. Carone ridicularizou-o com uma frase colada clandestinamente sobre a foto dele, sorridente, nos outdoors da capital: “o rico ri à toa”. Joaozinho do Nascimento Pires, conterrâneo de Carone, de Visconde do Rio Branco, era um banqueiro diferente, adorado por jornalistas, artistas e intelectuais devido à generosidade em empréstimos à claque. O Banco Mineiro do Oeste foi absorvido em 1970 pelo Bradesco. O Diário não estampava em seu expediente nenhum nome clerical. O jornalista Afonso Celso Raso ocupava o cargo de redator-chefe. Pode ser que o reitor, em seu desabafo, se referisse a O Diário da Tarde e ao Estado de Minas, da cadeia dos Diários Associados. No dia 12 de setembro de 1966, uma segunda-feira, O Diário da Tarde publicou chamada de primeira página, informando que as aulas do Seminário Maior São José “foram suspensas depois de uma enquete feita entre os alunos”. “Quase todos” . 32 .
– prossegue a nota – “acham que de acordo com a estrutura não poderão ser padres para o futuro. O Seminário, porém, não foi fechado, segundo o bispo”. “‘Não’ dos futuros padres suspende aulas: seminário” é o título capenga de O Diário da Tarde, no alto da quinta página. O jornal conseguira falar por telefone, na noite de domingo, com Dom Oscar de Oliveira, que “desmentiu a notícia do fechamento do Seminário Maior São José que ordena padres há 216 anos”. Informa ainda que a suspensão das aulas naquele semestre letivo foi necessária “para uma total renovação”, mas explica que as aulas recomeçam no próximo ano. O jornal confirma alguns resultados do inquérito, como a discordância de 95 por cento dos seminaristas com o regime e os manuais de ensino, mas não faz qualquer alusão à questão do celibato. Enfim, diz que os 115 seminaristas foram orientados a voltar às suas dioceses e a se apresentarem a seus bispos, aguardando até o final do ano uma nova orientação. No dia 13, Xico Antunes brinca em sua coluna “Confidencial”: “Carteirinha vermelha para seminaristas”. Segundo o colunista, os 115 seminaristas que “julgaram obsoletas as condições do ensino”, tendo em vista as mudanças do Concílio, “vão receber carteirinhas vermelhas do nosso eficiente DOPS ”. Carteirinha vermelha significava ser fichado pelos órgãos da ditadura militar. No mesmo dia 13, o Estado de Minas, o mais importante jornal do estado, entrou no assunto. De perfil conservador e dotado de sensibilidade política, o jornal, conhecido como a Casa de Assis Chateaubriand, funcionava na rua Goiás, 36, com jornalistas experientes e prudentes na direção. Pedro Aguinaldo Fulgêncio era o diretor de redação, secundado por dois secretários de redação – Odair de Oliveira e Antônio Tibúrcio Henriques. “Suspensas as atividades do Seminário Maior de Mariana.” Diz que “por motivos vários, Dom Oscar de Oliveira . 33 .
deliberou paralisar temporariamente o funcionamento do Seminário Maior de Mariana” e que o arcebispo espera, “para breve, a solução das dificuldades”. O jornal define o seminário como “autêntico baluarte da cultura e da formação cristã do povo de Minas Gerais” e reitera a confiança dos católicos mineiros na superação rápida “das dificuldades que conduziram o arcebispo Dom Oscar de Oliveira à paralisação das atividades”. No dia 14, o Estado de Minas não economizou esforços para noticiar o caso. Enviou um repórter e um fotógrafo à Cidade dos Bispos. Na primeira página, sob fotos, um texto-legenda: “Um hiato depois de 216 anos”. À esquerda, grupos de alunos se despedindo defronte o prédio do Seminário Maior. À direita, dois seminaristas entrando no carro, depois de tomarem um café num restaurante da estrada Mariana – Belo Horizonte, rumando para casa. Na manchete, o jornal anuncia em matéria assinada pelos enviados especiais a Mariana, o repórter Jesus Rocha e o fotógrafo Evandro Santiago: “Quando se reabrir o Seminário de Mariana terá organização nova e menos estudantes”. Segundo Jesus Rocha: apenas um pequeno número de seminaristas permanece ainda – arrumando suas coisas e providenciando condução – no Seminário São José, desta cidade, porque desde sexta-feira passada, quando as atividades do estabelecimento foram suspensas oficialmente, até segunda ordem, o ambiente no velho casarão de Mariana lembra o início das férias de fim de ano: os jovens se despedindo, carregando malas, tomando o rumo de casa. Eles levam a certeza – pelo menos a maioria – de que no próximo ano aqui estarão de novo, para continuar seus estudos dentro de uma estrutura inteiramente renovada. . 34 .
O jornal ouviu o reitor, padre José Pires de Almeida, que afirmou: “embora não haja nada de concreto, quanto às inovações a se imprimirem no Seminário, uma coisa é certa: no máximo 50 alunos serão recebidos na casa”. Ouviu alguns alunos que “não dissimularam sua desesperança quanto ao futuro do Seminário de Mariana: vou procurar outro porque nesta cidade não há condições para formação de um padre, ainda que muita coisa seja mudada”. Os enviados especiais colheram dados e opiniões que escancararam os motivos da crise, mas realçando questões menores, de acomodação. As respostas ao inquérito, o desconforto motivado pelo excessivo contingente de alunos: construído para abrir 60 alunos, o número subiu para 136 no início daquele ano, reduzindo-se para 115 naquele momento, por desistência ou transferências. Do refeitório e do mobiliário da casa, os rapazes nunca se queixaram: acham que sempre foram bem servidos neste particular. Mas apontam o alojamento e condições para o estudo como uma das causas relevantes do clima de descontentamento que reinava no Seminário, sobretudo nos últimos tempos. – Somos separados em três categorias – contam eles – no que se refere ao alojamento: os novatos, de um modo geral, vão para dormitório amplo, comum. Daí, de acordo com o curso e o número de matrícula, o aluno é promovido para o setor dos biombos – cada biombo para dois. E nos três últimos anos do curso, ele chega ao quarto individual. No dormitório geral, não se pode pensar ou estudar tranquilamente, a não ser nas horas destinadas ao estudo, quando se exige silêncio.
Os repórteres dão mais detalhes da vida em Mariana: . 35 .
No biombo, que é aberto em cima, qualquer um que queira estudar um pouco durante a noite, incomoda aos outros. Sem se falar das horas em que um seminarista (nas horas não destinadas ao estudo) quer ler ou meditar e seu colega deseja tocar violão. Só no quarto individual, o seminarista já quase padre, tem conforto. Tudo isto – declaram os estudantes – gera um clima de colégio interno, o que, ao lado das deficiências que observamos e sofremos na estrutura total de nosso processo de formação, assume características inaceitáveis.
Segundo o Estado de Minas, o reitor garantiu que os alunos de Teologia não seriam prejudicados no fechamento transitório e que poderiam, estudando por conta própria, prestar os exames no final do ano. Já para os filósofos não havia ainda nenhuma decisão. A reportagem enfatiza os aspectos materiais e toca, de leve, no essencial, os debates dos seminaristas sobre os ventos soprados pelo Concílio Vaticano II. Mas o padre José Pires de Almeida informou que o fechamento veio após a compilação dos dados do inquérito em que mais de 90 por cento dos seminaristas consideraram anacrônica a formação do estabelecimento. Num esforço de reportagem, o departamento de pesquisa do jornal informou aos leitores que a palavra seminário vem do latim, significando “o lugar onde se semeia”, e desde o Concílio de Trento, no século XVI, se refere ao local de formação dos padres, em resposta à reforma protestante. O primeiro seminário, dentro dessas normas, foi fundado pelo arcebispo de Milão, na Itália, São Carlos Borromeu. Disse que, durante a primeira sessão do Vaticano II, foi proposta uma modernização dos seminários. João XXIII tomou as primeiras medidas práticas, completadas na segunda e terceira sessões do concílio, na constituição Gaudium et Spes e no decreto Perfectae . 36 .
Caritatis. A partir daí começou a mudança, até mesmo em relação à prática de esportes. Um exemplo é o próprio seminário de Belo Horizonte, onde em 1956 os alunos jogavam futebol de batina, só se permitindo o uso apenas de calça comprida em 1958 e o calção em 1960.
Nem todos os seminários acompanharam a evolução de Belo Horizonte, onde os alunos de Filosofia foram liberados do uso da batina em 1964. Segundo a pesquisa, em 1966 existiam em Minas 6 seminários maiores e 30 menores. As ordens religiosas teriam 92 seminários e noviciados. No Brasil, existiriam 41 seminários maiores e 212 menores. As ordens religiosas mantinham mais de 400 casas de formação eclesiástica. Outro jornal, O Globo, também falou em “fechamento provisório”. Logo, seu concorrente, o Jornal do Brasil, entrou no assunto. O jornal carioca, presidido pela Condessa Pereira Carneiro, não deixou de divulgar os fatos, mas procurou também ressaltar que era um “fechamento provisório”. Sob o comando de um legendário editor-chefe e um dos mais preparados profissionais brasileiros, o jornalista Alberto Dines, o JB “comeu mosca”, como se diz entre os jornalistas, quando a primeira matéria saiu em O Diário da capital mineira e em O Globo, do jornalista Roberto Marinho. Ele mantinha olhos de admiração para com as coisas de Minas. Marinho interessava-se, pessoalmente, por coberturas mineiras e chegou a ordenar à sucursal de Belo Horizonte que fizesse boa matéria sobre o restaurador autodidata de Ouro Preto, Jair Afonso Inácio. Nenhuma nota sobre a crise de Mariana, embora o JB fosse o campeão de furos e de boas pautas quando o assunto eram aquelas duas cidades coloniais. Em 10 de setembro . 37 .
de 1966, por exemplo, o elegante jornal carioca, já repaginado em histórica reforma gráfica pelo artista mineiro Amilcar de Castro, preocupava-se com a política nacional e internacional. A “Coluna do Castello”, escrita por Carlos Castello Branco, comentava a ideia da Frente Ampla, proposta pelo ex-governador da Guanabara e revolucionário de primeira hora Carlos Lacerda. Preterido na sucessão presidencial, ele queria unir forças com os vencidos pelo Golpe Militar, os ex-presidentes da República Juscelino Kubitschek e João Goulart, para enfrentar o regime dos generais. O governo militar censurava a música “Tamandaré”, do jovem compositor Chico Buarque de Hollanda, por considerá-la subversiva e irreverente quanto ao homenageado na nota de um cruzeiro. Noticiava também o assassinato do cérebro do apartheid, Hendrik Verwoerd, esfaqueado no parlamento sul-africano. A sucursal de Brasília emplacou uma matéria intrigante: “Freyre acha que os homens de Deus hoje não são os padres: são os políticos”. Em conferência na Universidade de Brasília, o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre cutucava seu adversário e arcebispo de Olinda e Recife, Dom Helder Câmara, que naqueles tempos pós-conciliares aparecia no JB como padre Helder, como era de seu gosto. Dizia Gilberto Freyre, citando os exemplos de Stalin, Roberto Campos e JK, todos eles ex-seminaristas, que os sacerdotes, atualmente, estão prosperando em outros setores, para onde transportam suas místicas. A vocação sacerdotal no mundo atual está se desprestigiando e desaparecendo e já não são atraentes ao homem popular o homem de Deus e o amigo dos pobres. Os homens de Deus estão sendo os políticos, os campeões das causas humanas e igualitárias. . 38 .
Outra matéria, com Niterói como origem, informava que o bispo de Campos, Dom Antônio de Castro Mayer, autor do livro Reforma agrária: questão de consciência, “quer esmagar o comunismo”. Ao contrário de Freyre, que apenas insinuava, o prelado criticava às abertas a atuação de Dom Helder no Nordeste. No dia seguinte, 11 de setembro de 1966, o caso de Mariana surgiu, para permanecer por bom tempo, nas páginas do Jornal do Brasil. Na página 11, contava, sem a assinatura do repórter, que após 216 anos dedicados à formação de padres e políticos, fechava as portas “o primeiro estabelecimento de ensino em Minas”, com ex-alunos de presença importante na vida nacional como os “ex-presidentes da República Artur Bernardes e Delfim Moreira e os ex-governadores Melo Viana, João Pinheiro e Augusto de Lima”. Na verdade, Artur Bernardes estudou no Caraça. O jornalista Acílio Lara Resende, que em 1966 dirigia a sucursal em Belo Horizonte, disse em 2015 que escalou o experiente repórter Jorge Malaquias para acompanhar os acontecimentos. No dia 13 de setembro, o jornal carioca voltou a Mariana, mas antes se divertiu, como os jornalões de fora na época adoravam, com a história de Dona Madalena Noronha, 35 anos, “da tradicional família mineira”. Ela deixou o marido norte-americano Harry Adler quando ele deu o ultimato: “ou eu ou eles”. Dona Madalena não teve dúvidas: ficou com eles, os 68 cães que recolhera nas ruas de Cambuquira, no Sul de Minas. Na página 16, a explicação do fechamento de Mariana: “porque os alunos pediram reformas”. O texto reitera informações publicadas pelo O Diário e rememora o resultado do inquérito, que acusou o placar de 94 por cento contra o celibato. . 39 .
Os alunos reivindicaram, respondendo ao inquérito que lhes foi apresentado, a remodelação do Seminário Maior de acordo com as novas normas do Concílio Vaticano II, que até agora não vinham sendo aplicadas totalmente, porque o arcebispo Dom Oscar de Oliveira, de tendência reconhecidamente conservadora, preferia manter o ensino e o regulamento conforme o Concílio de Trento, do século XVI.
O repórter observou que, durante meses, alunos e professores tentaram mudanças, sem a aprovação do arcebispo. Até que foi feito um inquérito entre os seminaristas, com um resultado “surpreendente para os próprios professores: todos os alunos, no total de 115, se manifestaram contra a atual estrutura do seminário e as diretivas do Arcebispo, tendo 94 por cento deles se manifestado contra o celibato sacerdotal”. Os professores concluíram que diante da “angústia acerca do celibato”, não era humano ordenar aquela rapaziada e decidiram entregar o seminário ao arcebispo. A matéria acrescentava novas emoções ao drama de Mariana. No dia 2 de setembro, os lazaristas levaram o resultado do inquérito a Dom Oscar, “que tomou uma decisão inesperada, tanto para os padres lazaristas como para os alunos: reconheceu que não devia manter a estrutura atual, se ela era responsável por uma crise tão grave”. Segundo o JB, Dom Oscar pediu para que os padres continuassem no seminário e “executassem as reformas que julgassem necessárias e de acordo com o Concílio Ecumênico, concordando que para uma reestruturação completa, os seminaristas fossem mandados de férias imediatamente”. Dizia ainda: pelo que pretendem os padres lazaristas, o seminário de Mariana será reestruturado à semelhança de uma . 40 .
universidade, acabando com o regime de internato para os seminaristas, que preferem morar em casa ou em pensões de Mariana ou cidades próximas. Além disso, os seminaristas terão liberdade de exercer o apostolado na cidade, ensinando catecismo nas paróquias, ajudando os vigários nos fins de semana e lecionando em ginásios. Esses trabalhos não eram permitidos até agora no período das aulas, embora já não sejam novidade em outros seminários maiores do Brasil.
Seria um projeto pioneiro, uma mudança inovadora ainda não experimentada por nenhum outro seminário no país. Esse era também um desafio para a Congregação da Missão que, no passado, chegou a administrar dez seminários maiores e menores no Brasil – entre eles, Mariana, Diamantina, Curitiba, Salvador, Fortaleza, Recife e São Luís – e que, ou por falta de padres ou por choques com os bispos das dioceses, ficara reduzida a Mariana. No Seminário Provincial de Fortaleza, os seminaristas avançaram demais e os padres acharam que não poderiam atendê-los em tudo, preferindo, por isso, sair, a fim de que o bispo enviasse outros professores. Em Diamantina, professores e alunos eram pela reforma, que, no entanto, foi vetada pelo arcebispo Dom Geraldo Proença Sigaud. Os padres foram mandados embora e a maioria dos alunos saiu para outros seminários, solidarizando-se com eles.
O Jornal do Brasil destaca: No Seminário Maior de Mariana trabalha uma equipe de padres lazaristas jovens, ajudados por alguns professores do clero diocesano, também partidários da reformulação. . 41 .
O próprio reitor que decidiu pelo fechamento, o padre José Pires de Almeida, é “um homem de aproximadamente 40 anos, que deverá ser eleito, nos próximos dias, Visitador Provincial da Congregação da Missão no Brasil ”. E conclui: A batina já foi abolida no Seminário Maior, mas apenas nos limites de seus muros, nunca se permitindo aos alunos, por determinação do Arcebispo, que andassem em manga de camisa. A missa continuava sendo rezada em latim, enquanto nas paróquias da própria diocese já se adotou o português.
Nas edições seguintes, o JB ocupou muito de seu tempo e de seu espaço discutindo o celibato. No dia 14 de setembro, o secretário-geral da CNBB, Dom José Gonçalves, tratou de lembrar que o “celibato tem aspectos que só a experiência da Igreja pode ponderar”. No “Caderno B”, célebre pela publicação de artigos culturais, o beneditino Dom Estêvão Bettencourt indagava no título: “Homem pela metade?”. Claro que não, argumentava o monge, ponderando as qualidades do celibato. No dia seguinte, o “Caderno B” retomou a questão em artigo assinado por Martins Alonso, com o título de “Um grave problema para a Igreja”. Em 15 de setembro, a sucursal mineira resolveu ouvir o arcebispo coadjutor de Belo Horizonte, Dom João Resende Costa, que socorreu o aflito irmão no episcopado, Dom Oscar de Oliveira: O seminário não foi fechado, apenas suspenderam as aulas temporariamente, para uma reestruturação, a fim de que possa atender às diretrizes do Concílio de formar sacerdotes para os nossos tempos.
Com calma e sabedoria, ele pôs panos quentes na discussão que cremava as relações de Mariana com O Diário. Frisou . 42 .
que o tal inquérito visava saber se o seminário preenchia as condições atuais de formação sacerdotal, “averiguando-se localização, antiguidade do prédio e estrutura interna”. O inquérito, garantiu, não questionava sobre o celibato sacerdotal, mas 34 por cento dos seminaristas se manifestaram a respeito, “não no sentido de rejeição, mas expressando angústias e dúvidas”. Nem por isso a imagem do maior jornal católico do Brasil angariou simpatias em Mariana. Lá, brincavam padres e seminaristas, “O Diário é o diabo”. Nada mais contundente, porém, que a crônica do poeta Carlos Drummond de Andrade, mineiro de Itabira, cidade que acabara de emancipar-se da arquidiocese de Mariana para constituir-se em nova diocese. Drummond chora o fim do Seminário Maior de Mariana. Ele se diz assombrado, em crônica publicada na terceira seção do Estado de Minas no dia 15 de setembro de 1966, encabeçada por quatro fotos de seminaristas carregando malas, violão e tralhas nas alamedas de frente ao Seminário São José. As fotos de Evandro Santiago registram o início da revoada, da diáspora de Mariana. É um momento realista e onírico do poeta, sempre atento às devoções de Minas, embora seu cotidiano fosse a orla do Rio de Janeiro. Dez anos depois, em 1976, no poema “Triste horizonte”, ele viria de tala no lombo daqueles que transformaram em estacionamento o adro da igreja de São José, em Belo Horizonte. Em 1977, celebrou o bispo de Mariana, Dom Antônio Ferreira Viçoso, chamado de “O Santo de Minas”, em poema de recordações da infância. Agora, nem exaltação nem relho, apenas revela estupefação: O fim Não sei se choro o fechamento do Sacha’s ou o do Seminário Maior de Mariana. Eram ambas as casas ilustres, cada qual no seu gênero. Por favor, não vejam . 43 .
irreverência minha em aproximá-las. Quem as aproxima é o fato de acabarem juntas, depois de viverem separadas no espaço e no objetivo, esses últimos anos, o bissecular seminário e a jovem boate. Como também as reúne a esperança de renascimento, embora diferentes do que eram, como querem os figurinos, que tanto se impõem a uma austera casa de formação sacerdotal, como ao lugar onde a gente dissolve, à noite, as penas do dia. Esta madrugada, sonhei que tinha ido ao Sacha’s e encontrei a boate repleta: havia pessoas inclusive no teto, de cabeça para baixo. Todos que a tinham frequentado com devota insistência ou ido lá esporadicamente, uma única vez ao menos, reuniam-se em assembleia silenciosa, bebendo e recapitulando, recapitulando e bebendo. Sacha tocava ao piano uma composição especial, nostálgica e brincalhona, ao mesmo tempo, que só seria executada uma vez; depois, rasgaria a partitura e jogaria uma bomba no piano, mas bomba tranquila, que explode sem terror. A música falava de gamações, rompimentos, bloqueios, negócios, turistas, motivações, personalidades da noite, e para cada senhor e cada senhora, que ali estava, transmitia um recado particular, uma lembrança que se diria uma borboleta morta, mas palpitante, dourada, a ser fixada na lapela ou no busto. O Sacha’s desfazia-se sem dor, passava à coleção de jornais do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e ao arquivo mental de cada um. Calou-se a música, e tudo desapareceu suavemente quando o relógio do Convento dos Dominicanos, no Leme, bateu sete nítidas horas. Mas o sonho continuava, e no ventinho da manhã vime em plena cidade arquiepiscopal de Mariana, onde o seminário estava deserto, e só irmão porteiro varria . 44 .
o pó invisível dos dormitórios. Explicou-me, com a vassoura, que não seria possível juntar para as despedidas todos os ex-seminaristas, famosos ou obscuros, que tinham habitado a casa em mais de duzentos anos. E eram bispos, cônegos, poetas, homens de grande fé, latinistas insignes, ordenados ou não, senadores e presidentes. O Seminário fizera por merecer da História; agora, quem restava? Os seminaristas atuais, ouvidos em consulta sigilosa, foram unânimes em confessar que a casa não lhes apetecia mais. Era velha, no sentido de gasta, não recebia o sopro das novas ideias ou, pelo menos, das novas práticas que se supõem ideias novas. E o servente lazarista varria, varria. Já não restavam glórias entre as paredes célebres. Restava o sentimento de insatisfação, de começar tudo de novo, que rege o mundo. Meu coração sempre aspirou a novidades, e quando elas chegam me deixam triste. Que tenho eu com o Sacha’s? E com o Seminário de Mariana? Contudo, sou eu que lhes canto o fim, como quem se apropria de saudades alheias. O sol banhava de força as areias do Leme, próximo ao Sacha’s, e batia nas pedras de Mariana como um martelo de luz. Era tudo novo na manhã, quando o sonho terminou, por falta de objeto. Carlos Drummond de Andrade
. 45 .
www.autenticaeditora.com.br www.twitter.com/autentica_ed www.facebook.com/editora.autentica