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A relíquia perdida: O mistério do último violino Stradivarius

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Foto: Alex Robledo

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A RELÍQUIA PERDIDA

Alejandro G. Roemmers nasceu em Buenos Aires, em 1958. Escritor, poeta, dramaturgo e empresário argentino, começou a escrever ainda jovem, enquanto estudava piano, e construiu uma obra marcada pelo humanismo, pela espiritualidade e pela reflexão ética. Publicou livros de poesia, narrativa e teatro, com circulação internacional, e tornou-se especialmente conhecido pelo romance El regreso del joven príncipe (2008). Em A relíquia perdida, combina thriller histórico, investigação policial e reflexão sobre o poder curativo da música.

m uma região remota do Paraguai, um antiquário alemão e sua filha adolescente são encontrados mortos em uma casa repleta de antiguidades e objetos valiosos. O crime parece brutal demais para ser apenas um latrocínio, e enigmático demais para ser resolvido como mais um caso policial. Quando o comissário Alejandro Tobosa começa a investigar, descobre que o possível motivo do assassinato pode estar ligado a um violino Stradivarius desaparecido. Mas aquele não é um Stradivarius qualquer. Criado em Cremona, no século XVIII, pelo próprio Antonio Stradivari, o instrumento teria sido seu último violino, uma relíquia capaz de atravessar a História, deixando atrás de si fascínio, cobiça, mortes e segredos. De Casanova a Verdi, das invasões napoleônicas aos horrores do nazismo, das coleções saqueadas na Europa aos refúgios sul-americanos de criminosos de guerra, sua trajetória revela um mundo em que beleza e violência caminham lado a lado. Entre thriller, romance histórico e trama policial, A relíquia perdida é uma investigação sobre o poder da arte em meio ao horror e sobre a música como última possibilidade de redenção quando tudo parece perdido.

Alejandro G. Roemmers

“Tenho certeza de que os leitores saberão apreciar esta novela.” Mario Vargas Llosa

Alejandro G. Roemmers

A RELÍQUIA PERDIDA O mistério do último violino Stradivarius

A P R E SE N TAÇ ÃO

“Uma extraordinária construção de personagens.” El País ISBN 978-65-6002-160-0

9 786560 021600

“Fascinante. Apresenta uma dimensão histórica meticulosamente construída. Uma intensa história de aventura.” Clarín

D E

Mario Vargas Llosa

“ – O senhor está forte, ainda tem muita

vida pela frente. Antonio fez um gesto com a mão, como se quisesse apagar as palavras do filho. – Tive uma boa vida, deixo uma descendência numerosa que permitirá que o sobrenome Stradivari sobreviva e acredito ter extraído o maior proveito das poucas habilidades que Deus me deu. – Isso com certeza, pai. Mas... – Desde que tinha treze anos, tenho amado e servido a música, construindo os melhores instrumentos que fui capaz de fazer, para que as melodias soem como seus compositores as imaginaram, até melhor. [...] – Mas confesso a você que só agora consegui ficar em paz. Até pouco tempo atrás, sentia que me faltava algo para alcançar a plenitude. – Continua falando do novo violino? – Exato. – Tenho certeza de que será um instrumento soberbo, não pode ser de outro modo, à altura ou acima de suas célebres criações. – Você não me entendeu, desta vez é diferente. – Mas o que esse violino pode ter que o torne tão especial? – É algo que ocorre uma vez na vida, nunca havia sentido isso. Coloquei nele um pedaço da minha alma, Cecchino. Você precisa ouvi-lo...

”


Alejandro G. Roemmers

A RELÍQUIA PERDIDA O mistério do último violino Stradivarius

A P R E S E N TAÇ ÃO D E

Mario Vargas Llosa

Tradução: Luis Reyes Gil


Copyright © 2024 Alejandro G. Roemmers Copyright desta edição © 2026 Editora Vestígio Publicado por acordo com Literarische Agentur Mertin, Inh. Nicole Witt, Frankfurt am Main, Alemanha. Título original: El misterio del último Stradivarius

Todos os direitos reservados pela Editora Vestígio. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

direção editorial

capa

Arnaud Vin

Diogo Droschi (sobre imagem de Cristian Baitg Schreiweis/Arcangel e Stock Adobe)

editor responsável

Eduardo Soares preparação de texto

diagramação

Waldênia Alvarenga

Sonia Junqueira revisão de texto

Eduardo Soares Samira Vilela

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil

Roemmers, Alejandro G. A relíquia perdida : o mistério do último violino Stradivarius / Alejandro G. Roemmers ; tradução Luis Reyes Gil. -- 1. ed. -- São Paulo : Vestígio, 2026. Título original: El misterio del último Stradivarius ISBN 978-65-6002-160-0 1. Romance argentino 2. Romance histórico I. Título. 26-373939.1

CDD-Ar863.4

Índices para catálogo sistemático: 1. Romance histórico : Literatura argentina Ar863.4 Maria Alice Ferreira - Bibliotecária - CRB-8/7964

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À minha mãe, que me inculcou o amor à música. A Daniel Sielecki. A meus amigos de alma, Andrés Fabeiro e Melda Cinar. Meu agradecimento ao rabino Sergio Bergman, à Cátedra Vargas Llosa e a todos aqueles que colaboraram na reconstrução histórica que compõe o pano de fundo desta novela.


Nota do autor

Este relato totalmente imaginário parte dos eventos reais em torno do brutal assassinato do cientista, arqueólogo, músico e luthier alemão Bernard Raymond von Bredow e de sua filha de quatorze anos, Lorena Lydia von Bredow, ocorrido em 22 de outubro de 2021 em sua casa de Areguá, a poucos quilômetros de Assunção do Paraguai. A motivação do crime foi relacionada ao roubo de violinos Stradivarius de sua propriedade. Longe de qualquer tipo de reivindicação que alguém pudesse supor, meu objetivo foi ressaltar a capacidade da arte e, em particular, da música para curar as feridas da alma e elevar o ser humano e seu destino acima das paixões próprias dos animais. Quero também preservar a memória de Bernard von Bredow e prestar tributo à sua capacidade de reparar violinos antigos sem o uso de qualquer elemento metálico, de modo a não afetar sua excepcional sonoridade nem seu valor histórico.

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Apresentação

Por Mario Vargas Llosa Chama muito minha atenção o caso de Alejandro Roemmers. Não me lembro de tê-lo ouvido falar, desde que o conheci, de seus negócios ou investimentos. Do que falamos, toda vez que nos encontramos, é de literatura. Passaram-se os anos, ele já publicou muitos livros de poemas que lhe valeram reconhecimento em distintos lugares, e sua vocação criativa o levou a praticar vários gêneros. A relíquia perdida: o mistério do último violino Stradivarius, que li em sua primeira versão, não é nem pretende ser uma novela histórica, mas se nutre de passagens e personagens históricos, como o célebre luthier cremonense Antonio Stradivari, que no final do século XVII revolucionou, com a fabricação de violinos, a música de seu tempo e do futuro; ou as colônias alemãs da América do Sul e os fugitivos nazistas ou seus simpatizantes, passando pelas invasões napoleônicas do início do século XIX, os nacionalismos que desencadearam a Primeira Guerra Mundial, os totalitarismos que surgiram logo em seguida e os holocaustos dos anos 1940. Com esses múltiplos cenários, nos quais reconhecemos momentos-chave da história e personagens como Casanova, ou clássicos como Verdi, ou, mais tarde, os infaustos capatazes nazistas, desenvolvem-se relatos que, à medida que o desenlace se aproxima, vão se converter em um só: o do misterioso violino, o último fabricado por Stradivari, cujo itinerário aleatório através dos séculos e das geografias acompanhamos fascinados, e o das pesquisas que, em época contemporânea, são empreendidas por um comissário paraguaio. Pesquisas que irão lhe .9.


revelando, e a nós junto com ele, um mundo insuspeito que remete, a partir desse rincão sul-americano, a momentos transcendentais da história moderna. O protagonismo definitivo, porém, é do violino, pois de certo modo ele é todos os personagens em cujas mãos cai, e é também a série impressionante de eventos dramáticos, e em alguns momentos cômicos ou irônicos, em que esse instrumento, que parece dotado de poderes especiais, se vê envolvido. A relíquia perdida pertence a um gênero que teve origem na Inglaterra do século XVIII e que decidiram chamar de “novela de circulação” (novel of circulation), ou “literatura de objetos” (object narrative), porque tinha como protagonistas objetos inanimados, “coisas” que podiam ser intercambiadas, compradas, vendidas, presenteadas ou legadas e que passavam de mão em mão, às vezes de geração em geração. Como velho amante da música clássica, agradou-me ver o violino, um dos mais belos instrumentos musicais, convertido em protagonista de uma ficção. Tenho certeza de que os leitores, quer se interessem ou não pela música, saberão apreciar esta nova novela de Alejandro Guillermo Roemmers.

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Areguá, 22 de outubro de 2021 – É aqui que deveríamos viver, Gutiérrez. – O comissário Alejandro Tobosa respirou fundo, como se quisesse absorver a paisagem verde e florida, o céu limpo e as casas antigas de Areguá. – É aqui que todo mundo deveria viver. Até o ar ali parecia mais limpo que em Assunção, e muito mais que em Santa Ana, o bairro do comissário, quase sempre infestado pela fedentina do rio, com ralos transbordando e aquele cheiro rançoso que o calor produz nas zonas muito populosas. Naquela mesma manhã, o córrego Leandro havia subido, e o comissário precisou retirar a água do seu quarto com um balde, passar inseticida nas paredes e pulverizar a parte de baixo com veneno contra ratos. Enquanto vestia uma calça seca, pensou que pelo menos não morava no bairro vizinho, Banhado. Na sua classificação mental de Assunção, os habitantes daquele lugar eram indigentes completos. Em compensação, em Areguá, que ficava a apenas uma hora da cidade – e ficaria a menos tempo ainda se a estrada fosse boa –, tudo o que ele via parecia mais interessante, mais civilizado. – Morar aqui deve ser muito chato, comissário – discordou o sargento Gutiérrez, mostrando desprezo pelo encanto daquela vizinhança. – Aqui não se sente calor humano. – Mas veja como é bonito, Gutiérrez. Vai dizer que não gostou? Passavam diante da igreja Virgem da Candelária, e Tobosa encheu sua vista de beleza, de patrimônio histórico, da sensação de estar em um lugar onde as coisas podiam ser bonitas. . 11 .


– Parece um foguete que não conseguiu decolar, comissário – retrucou Gutiérrez, dando um bocejo. Para ele, o transcendental não era o enriquecimento cultural, mas ter tido que abandonar Assunção às nove da manhã, horário que para ele ainda fazia parte da madrugada. Tobosa quis tirá-lo do seu erro, educá-lo, falar do castelo de Carlota Palmerola, aquele orgulho da história paraguaia. Ou do rico artesanato de Areguá, uma arte tributária de séculos de sofisticação da cultura nacional. Até mesmo da praia daquela cidade ou, pelo menos, o mais próximo de uma praia que se podia permitir um país como o seu, sem saída para o mar: aquela margem do lago Ypacaraí que transmitia mais paz e sossego que as costas caribenhas, lotadas de turistas besuntados de protetor solar. Pelo menos até onde Tobosa conseguia ver na internet, naquela vez ou outra em que sonhara empreender uma viagem maluca com a esposa, só para descobrir que o dinheiro daquela escapada daria para morarem em um bairro melhor por dois anos e que, de qualquer modo, com seu salário de policial, ambas as coisas eram na verdade inalcançáveis. Mas tinha pouca vontade de entrar num debate que seu subordinado dificilmente entenderia. – Falta muito? – acabou perguntando, tentando trazer sua mente para temas mais terrenos. – Já estamos em Patiño – respondeu o sargento Gutiérrez, que não tinha um gosto refinado, mas sabia se orientar bem e dirigia de modo seguro. À sua volta erguiam-se muros, alguns com quatro ou cinco metros de altura, rematados por cercas eletrificadas ou por cacos pontiagudos de garrafas quebradas. O olhar de Tobosa insinuou-se por alguns portões gradeados. Distinguiu fragmentos de fachadas históricas, balaustradas de sacadas falsamente coloniais ou portas modernistas, tudo no meio de frondosos jardins. Imaginou que os ocupantes daquelas casas tinham tudo o que precisavam na vida – as vistas perfeitas, decorações confortáveis – e que nunca precisavam sair para se sujar com as dores do mundo real. Talvez isso não parecesse assim para uma pessoa de outro lugar. Mas morava em Santa Ana, e Areguá se afigurava a ele tão luxuosa quanto Londres para um sudanês. – Sempre tem que ser a última casa, né? . 12 .


O sargento Gutiérrez parou o Ford Fiesta junto a uma muralha no limite da zona urbanizada. A grade estava aberta e deixava entrever uma casa sem maiores atrativos: um andar térreo de lajotas com uma garagem e alguns andares altos de cimento sem pintura. Em vez de cercas elétricas ou cacos de vidro, as paredes eram rematadas por um arame farpado que lhe dava certo ar de trincheira. – E ainda por cima, feia – acrescentou Gutiérrez. Tobosa examinou a moradia. Apesar de sem graça, era bastante ampla, e os chamativos cedros, petiribis e angicos de seu entorno lhe conferiam uma aparência bucólica. – Não seja tão exigente, Gutiérrez. Bem que você gostaria de ter uma assim. Junto à grade descansava um veículo todo mambembe, com os para-choques amassados, a carroceria com a pintura descascada e uma porta que não fechava direito: uma das viaturas da precária polícia local. – Bom dia. – Tobosa cumprimentou o agente que esperava na viatura e mostrou sua identificação. O agente desceu do veículo e levou a mão ao quepe. Notava-se nele o alívio por ver que alguém vinha tirar de suas mãos a responsabilidade pelo que havia lá dentro. Os policiais locais estavam bem mais acostumados a intervir em roubos ou brigas de bêbados do que ao peculiar encargo daquela manhã, uma verdadeira anomalia na cidade, para a qual tiveram que pedir ajuda à capital. Sua voz soou quase com boa disposição, até mesmo inadequadamente feliz, quando cumprimentou o comissário, sem sequer perguntar seu nome, animando-o com gestos a entrar no imóvel e tomar posse do que ali o esperava: – Passe, por favor, chefe. É todo seu. – Quem encontrou a cena? – quis saber o comissário. O agente apontou para o outro lado da grade. Ali, meio oculta pela parede da entrada, uma mulher corpulenta e despenteada, humildemente vestida, murmurava algo para si mesma com uma boca à qual faltavam vários dentes. Tobosa estava quase repreendendo o agente por abandonar uma cena de crime deixando uma testemunha dentro, mas teve a impressão de que o pobre homem não compreenderia a reprimenda. Deixou-o de lado e se aproximou da mulher. Ao chegar perto dela, percebeu que chorava e rezava em guarani. . 13 .


– Bom dia. – Estendeu uma mão, que ela olhou com a desconfiança que teria olhado para uma cobra que estivesse a ponto de mordê-la. – Sou o comissário Alejandro Tobosa. O senhor aqui é o sargento Gutiérrez. A senhora é...? – Gutiérrez se limitou a erguer o queixo em direção à mulher que, devolvendo-lhe a cortesia, olhou-o de relance, sem interromper seus soluços e orações, que os dois homens agora podiam ouvir com nitidez: – ...Eme’ẽ oréve ko árape ore rembi’urã, opa ára roikotevẽva; eheja reíkena oréve ore rembiapo vaikue, roheja reiháicha ore rapichápe... – Já colheram seu depoimento, senhora? – quis saber Tobosa. – ...hembiapo vaikue ore ndive; aníkena reheja roike rojepy’ara’ã vai haguáme... – Ainda não me disse seu nome. – Tobosa insistiu, mas a mulher continuou sem lhe dar atenção, e o comissário não teve alternativa a não ser mudar o tom de voz. – Veja bem, senhora, de repente pode preferir me contar tudo na delegacia. – Ali as pessoas ficam mais falantes – apoiou-o Gutiérrez –, principalmente depois de uma ou duas noites na cela. Começam a sentir a solidão, porque... A mulher parou de murmurar. Manteve os olhos fixos no chão, mas suas palavras foram dirigidas ao comissário e ao sargento: – Aquele senhor era muito esquisito. Nem amigos tinha. Com certeza mereceu o que teve. Mas a menina... Por que a menina? Por que a menina, não é? Que culpa ela poderia ter tido? Tobosa suspirou. Acontecia muitas vezes que as pessoas respondessem coisas que ele não havia perguntado. Ou então que se defendessem de acusações que ninguém havia feito. Costumava dedicar metade de seus interrogatórios a esclarecer ao interrogado o que queria saber. No caso, a pergunta era a mais simples do mundo: – Senhora, qual é o seu nome? A resposta veio do policial que deixara às suas costas. Pelo que deduziu, o policial, que havia chegado antes deles, cumprira algumas de suas obrigações e depois saíra da casa e abandonara a diligência: – Ela se chama Encarnación – disse. – É a empregada. Ela encontrou... Bem, encontrou tudo. Encontrou ao chegar para trabalhar. E então chamou a gente. . 14 .


– Isso é obra do diabo, só pode... – disse Encarnación, e retomou o fio de suas orações: – Evyá’ke Maria, nerenyhëva Tupä Ñandejára remime’ëgui, ha’e oï nendive... – Quer que eu a convença, comissário? – perguntou o sargento Gutiérrez. Era um velho truque entre os dois. Gutiérrez era incapaz de matar uma mosca e jamais passara dos limites com um detido. Na realidade, costumava evitar os confrontos físicos tanto quanto possível, um pouco por respeito à vida humana, outro pouco pela mais elementar covardia. Mas Tobosa, com sua aparência de burocrata asseado e a risca do cabelo perfeitamente reta, impunha pouca autoridade, então Gutiérrez – mais corpulento e sempre pior no quesito banho tomado e barba feita – costumava assumir uma atitude ameaçadora, para que a amabilidade de seu chefe se mostrasse mais persuasiva. Tobosa, porém, não achou que fosse hora de brincar de policial bom e policial mau. Pelo menos no momento, o instinto lhe dizia que sua missão não dependia daquela pobre mulher. – Vamos fazer uma coisa, Encarnación – disse. – A senhora fica esperando aqui enquanto entramos para ver. E assim termina de rezar. Depois voltamos e conversamos mais. O que acha? Os sussurros da mulher se converteram em uma ladainha incompreensível. Tobosa decidiu interpretá-la como um “sim”. – Cuide da senhora aqui, agente – pediu ao policial da viatura, que de novo levou a mão ao quepe e lhe dedicou um olhar de sincero alívio. Aquela ordem significava que não precisaria entrar de novo na casa. Tobosa e Gutiérrez entraram pela garagem. Ali ficavam dois carros que pareciam pertencer não só a donos distintos, mas a mundos distantes: uma enorme picape e um Porsche de duas portas. O primeiro, cheio de lama e sujeira, como se tivesse atravessado um pântano. O segundo, impecável, como se jamais tivesse saído dali. – Eles só usavam o veículo grande – comentou Tobosa. – Óbvio. Quem iria usar um carro esportivo desses aqui, né, comissário? As estradas são uma merda. Só dá pra andar a trinta por hora! – Mas, veja, a mim isso sugere outra coisa. O dono desses veículos costumava transportar algum tipo de carga. Devia estar se saindo bem, por isso andava muito na picape. Já o Porsche, ele tinha apenas para gastar . 15 .


o dinheiro. Ou para ficar admirando-o, porque, sabe, tem gente que é assim, que quer apenas lembrar que comprou as coisas, mesmo sem usar. Gutiérrez analisou devagar as palavras de seu chefe, como se mastigasse uma carne dura, e então perguntou: – E que carga será que transportava? Drogas? Armas? O comissário Tobosa encolheu os ombros. Como não dispunha de luvas descartáveis, tirou do bolso dois saquinhos plásticos e os colocou sobre as mãos. Tentou abrir os veículos, mas estavam trancados. Deteve-se na picape, que parecia cheia de informações interessantes. Nos cantos da caçamba, havia marcas de barro em ângulo reto, sugerindo o rastro de caixas grandes e sólidas, e volume suficiente para caber uma máquina de lavar roupa ou um doberman. No piso, correias soltas e vários raspões, linhas retas e grossas, produzidas, dava a impressão, por essas mesmas caixas. Tobosa passou o dedo nelas, como se quisesse descobrir o que as havia produzido. – Comissário! – Ouviu então o grito de Gutiérrez. – Venha ver! Reparou que o sargento tinha saído da garagem e o chamava lá de dentro. Cruzou a porta interna e deparou com um aposento similar ao anterior, só que bem maior, sem paredes divisórias. A julgar pelas paredes cinza e o piso de cimento, parecia outro estacionamento. Mas o espaço claro e sem graça abrigava um conteúdo que o deixou assombrado. – O que é isso, Gutiérrez? – Parece um museu, não? De cima a baixo, de um lado a outro, as paredes estavam cheias de estantes com todo tipo de objetos, como jarros, esculturas, móveis, candelabros e, especialmente, instrumentos musicais: violões, harpas, contrabaixos. Tobosa desconhecia o nome da maioria daquelas peças. Mas, se as casas da cidade o haviam impactado com sua beleza, essas outras maravilhas reluzentes, de desenhos intrincados, confeccionadas com mármores, madeiras vistosas e metais preciosos, o deixaram sem fôlego. Gutiérrez havia recolhido a escultura de um homem jovem, nu e esbelto, recostado no chão com uma espada na mão. – Está claríssimo, comissário – asseverou. – O que aconteceu aqui foi uma briga de pervertidos. Quem senão um maricas teria ideia de comprar uma dessas frescuras? . 16 .


Tobosa se deixou levar até uma porcelana chinesa com desenhos de dragões e a acariciou enquanto respondia distraidamente: – É uma teoria. – Basta ter olhos para ver isso. Deram umas duas voltas por aquele andar inteiro. Gutiérrez parecia impermeável ao encanto daqueles objetos e riu quando viu um timão de navio (“Olha só, parece uma roda de bicicleta”) e também diante de um quadro renascentista (“Por que não arrumaram uma modelo mais magrinha, né?”). Mas Tobosa, fascinado, percorria aquelas peças penetrando em uma dimensão estética que até aquele dia ignorava. De repente, o comissário sentiu que seria inadequado ficar curtindo a visita. Não tinham ido até lá para admirar artesanato. – Tem muita bobagem aqui, Gutiérrez – disse, apontando para a escada que levava até o andar de cima. – Vamos trabalhar. Os dois sabiam que o que havia aterrorizado o policial da viatura e enlouquecido a idosa faxineira estava lá em cima. Subiram degrau por degrau, bem devagar, com medo, com precaução. Por fim, quando abriram a porta, começaram a enfrentar o que tinham ido investigar. Ali ficava a área residencial da casa, começando por um amplo salão. À primeira vista, estava impecavelmente organizada, como o andar de baixo. Modernos e caros, os móveis pareciam dispostos milimetricamente: todas as cadeiras alinhadas à mesma distância da mesa. As paredes eram brancas, e um computador enorme ocupava uma escrivaninha rodeada de estantes cheias de livros. A única coisa que perturbava a ordem era uma cadeira fora de lugar, encostada no último canto visível ao entrar, oculta atrás da porta. Chamava a atenção pelas manchas que a rodeavam, como um barro grosso, que também salpicavam a parede e o chão. Eram sangue do cadáver que permanecia sentado na cadeira, olhando para eles. – Tá com cara de zangado, não? – Esse aí não tem mais cara de nada, Gutiérrez. De fato, o rosto estava tão arroxeado e ensanguentado que não dava para distinguir a menor expressão. Algumas partes pareciam mordidas com um alicate ou uma pinça grande. Tinha a camisa arregaçada e os antebraços queimados com cigarros. Três bitucas jaziam a poucos centímetros de seus pés. . 17 .


– O que isso lhe diz, comissário? – perguntou Gutiérrez. – Briga de bicha maluca. Ciúmes. Drogas. Essas coisas. – Deram-lhe uma boa surra – disse Tobosa. – Mas não morreu por causa disso. O comissário rodeou o corpo, que estava amarrado com correias idênticas às da picape. Pela nuca entrara um balaço que, além de lhe causar a morte instantânea, deformara a parte frontal. – Bateram tanto no rosto para depois matá-lo pelas costas – comentou Tobosa. – Como se não quisessem que fosse reconhecido. – Para matá-lo sem ter que olhá-lo nos olhos – apontou Gutiérrez. – É mais fácil assim. Por mais que você odeie a pessoa, é complicado matar alguém cara a cara. – Um dia você me explica onde foi que aprendeu essas coisas, Gutiérrez. – Na universidade da vida, comissário. – Talvez mais na da morte, meu caro. Quando se aproximavam da porta seguinte, Tobosa não conseguiu deixar de notar o contraste das imagens daquele dia. A igreja da Virgem da Candelária, a casa com arame farpado. As belíssimas antiguidades e o horrendo cadáver. Pensou em como o horror e a beleza podiam estar próximos. Às vezes, não conseguia evitar pensamentos desse tipo, que depois afugentava da cabeça como se fossem mosquitos. Porque não serviam para nada. A última porta daquele andar dava para um corredor que se comunicava com outras quatro portas. À direita, uma cozinha ampla, com utensílios de boa qualidade, também muito bem arrumados, como o resto da casa. À esquerda, o austero aposento de um adulto com alguns objetos fora da cama e uma mesa de cabeceira lotada de livros antigos. Com toda a certeza, o dormitório da vítima. Quase no final do corredor, encontraram um quarto muito diferente, forrado com cartazes de mulheres glamurosas que olhavam para a câmera com ar provocador. Mesmo sabendo pouca coisa de música, o comissário reconheceu algumas delas por causa dos videoclipes que às vezes via de relance em algum restaurante ou bar. Tinham nomes como Rihanna, Jennifer Lopez ou o que ele achou mais curioso: Lady Gaga. – Este aqui é quarto de adolescente – concluiu Tobosa em voz alta. . 18 .


“Por que a menina, não é? Que culpa ela poderia ter tido?” As palavras de Encarnación ressoaram em sua memória. Gutiérrez devia estar pensando a mesma coisa, porque se postara diante da quarta porta – a última – e, apesar de sua impertinência habitual, não se animava a abri-la. Jamais havia precisado que Tobosa lhe dissesse o que fazer, e agora olhava para ele esperando uma ordem que o obrigasse a agir. – Só pode estar aí – informou Tobosa. – Tá esperando o quê? O sargento suspirou, girou a maçaneta e empurrou a porta. Dentro do banheiro tampouco encontraram sinais de luta. As loções, perfumes e pastas de dente se alinhavam em uma estante acima do lavabo. O papel higiênico estava perfeitamente enrolado em seu tubo. O chão brilhava. E o tapetinho branco parecia impecável, sem uma pisada sequer, nem partícula de pó. Até a jovem na banheira parecia tranquila, como se tivesse adormecido durante um banho de espuma. Era preciso deter a vista em seu rosto para descobrir o tom arroxeado que começava a escurecer uma pele que, sem dúvida, havia sido suave e branca. A única coisa que denunciava a violência era a água. Ou, mais exatamente, o sangue que a tingia.

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