Pascal Quignard A Razão
tr a dução
Yolanda Vilela
Edição bilíngue
Pascal Quignard A Raz達o
Outros livros da filO filoagamben Ideia da prosa
Giorgio Agamben O homem sem conteúdo Giorgio Agamben A comunidade que vem Giorgio Agamben Introdução a Giorgio Agamben Edgardo Castro
filoBENJAMIN O anjo da história
Walter Benjamin Origem do drama trágico alemão Walter Benjamin Rua de mão única Infância berlinense: 1900 Walter Benjamin filoBATAILLE O erotismo
Georges Bataille A parte maldita Precedida de “A noção de dispêndio” Georges Bataille filoESTÉTICA O belo autônomo – Textos clássicos de estética
Rodrigo Duarte (org.) Íon Platão Do sublime ao trágico Friedrich Schiller filoESPINOSA Breve tratado de Deus, do homem
e do seu bem-estar Espinosa A unidade do corpo e da mente Chantal Jaquet filoMARGENS
Estilo e verdade em Jacques Lacan Gilson Iannini Lacan, o escrito, a imagem Jacques Aubert, François Cheng, Jean-Claude Milner, François Regnault, Gérard Wajcman
filo
A teoria dos incorporais no estoicismo antigo Émile Bréhier
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Pascal Quignard A Razão Edição bilíngue
Tradução
Yolanda Vilela
Copyright © Editions Gallimard 1990 Copyright © 2013 Autêntica Editora Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
coordenador da coleção filô
Rodrigo Duarte (UFMG); Romero Alves Freitas (UFOP); Slavoj Žižek (Liubliana); Vladimir Safatle (USP)
Gilson Iannini
tradução
título original
La Raison
conselho editorial Gilson Iannini (UFOP); Barbara Cassin (Paris); Cláudio Oliveira (UFF); Danilo Marcondes (PUC-Rio); Ernani Chaves (UFPA); Guilherme Castelo Branco (UFRJ); João Carlos Salles (UFBA); Monique David-Ménard (Paris); Olímpio Pimenta (UFOP); Pedro Süssekind (UFF); Rogério Lopes (UFMG);
Yolanda Vilela revisão
Kátia Trindade capa
Diogo Droschi diagramação
Ricardo Furtado editora responsável
Rejane Dias
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Quignard, Pascal A razão / Pascal Quignard ; tradução Yolanda Vilela. -- Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2013. -- (AntiFilô) Título original: La Raison. ISBN 978-85-8217-256-8 1. Ensaios franceses - Século 20 I. Título. II. Série. 13-10695
CDD-844.914
Índices para catálogo sistemático: 1. Ensaios franceses 844.914
Autêntica Editora Ltda. Belo Horizonte Rua Aimorés, 981, 8º andar Funcionários . 30140-071 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3214 5700 Televendas: 0800 283 13 22 www.autenticaeditora.com.br
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Sumário
7. Apresentação 19. Capítulo primeiro 27. Capítulo II 33. Capítulo III 39. Capítulo IV 45. Capítulo V 53. Capítulo VI 61. Capítulo VII 71. Capítulo VIII 75. Capítulo IX 81. Capítulo X 87. Notas 91. O gabinete dos letrados
92. Posfácio
108. Coleção Filô 110. Série Antifilô
Apresentação Yolanda Vilela
Pascal Quignard nasceu na Normandia, França, em 1948. Do lado paterno, o escritor descende de uma família de organistas que, ao longo dos séculos, viveram na região do Wurtemberg – um antigo Estado alemão –, na Alsácia, em Versalhes e também nos Estados Unidos. Sua mãe vem de uma família de professores da Sorbonne; vale lembrar que ela é filha do linguista e filólogo Charles Bruneau. Os pais de Quignard eram professores de Letras Clássicas. A música e as letras estiveram, portanto, desde sempre, presentes em sua vida, e ele define a educação que recebeu como “gramatical, severa, clássica e católica”1. Além de escritor, Quignard é violoncelista, e foi na qualidade de músico que ele fundou, no início dos anos 1990, o Festival de Ópera e Teatro Barroco de Versalhes. QUIGNARD, P.; LAPEYRE DESMAISON, C. Pascal Quignard le solitaire. Rencontre avec Chantal Lapeyre-Desmaison. Paris: Les Flohic, 2001, p. 24.
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Pascal Quignard estudava filosofia quando os acontecimentos de maio de 68 vieram desviá-lo do campo filosófico. Sua tese, intitulada por seu orientador, Emmanuel Levinas, “Le statut du langage dans la pensée de Henri Bergson”, permaneceu inacabada. Quignard voltou-se, então, para a literatura. Foi no início dos anos 1970, no contexto da revista L’Éphémère – uma publicação que reunia poetas de primeira linha e ambicionava refundar o ato poético –, que ele passou a frequentar Michel Leiris, Paul Celan, Henri Michaux, Pierre Klossowski e outros. Leiris e Celan propuseram que Quignard traduzisse obras antigas, e um dos frutos dessa proposta foi a tradução do longo poema grego Alexandra, de Lycophron, o Obscuro, cuja apresentação foi feita pelo próprio Quignard. A convite de Simone Gallimard, Quignard ocupou o posto de leitor das edições Gallimard, função que exerceu de 1969 a 1994, quando pediu sua demissão. À época de sua saída, ele era secretário-geral da editora, cargo da maior importância quando se considera a sua dimensão política. A obra quignardiana foi, até o momento, contemplada com dois dos maiores prêmios literários franceses: o romance Terrasse à Rome recebeu, em 2000, o Grande Prêmio do Romance da 8
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Academia Francesa e ao livro Les ombres errantes foi atribuído, em 2002, o renomado Prix Goncourt. É preciso dizer que a produção de Pascal Quignard é vasta. Ela conta com mais de sessenta títulos publicados, encontrando-se ainda em curso. Sua obra, que compreende ensaios, poesia, romances e reflexões de caráter filosófico, desconcerta a crítica, que tem dificuldades em classificá-la. Qualificado frequentemente de “erudito”, Quignard se serve de seu humor para denunciar o superficialismo da crítica literária que, ao tentar definir uma obra e um autor, muitas vezes os petrifica. Quanto a isso, ele pôde dizer: Não sou um erudito. Rudis é o selvagem. E-rudis é aquele de quem se retirou a aspereza, a selvageria, a violência originária, ou natural, ou animal. Em latim, a palavra rudis tem uma correspondência com a palavra infans. O puer, na medida em que o gramático o faz abandonar a in-fantia e lhe ensina as letras para escrever, torna-se e-rudis. Eu ainda procuro e-rudir-me.2
QUIGNARD, P.; LAPEYRE DESMAISON, C. Pascal Quignard le solitaire. Rencontre avec Chantal Lapeyre-Desmaison. Paris: Les Flohic, 2001, p. 112-113.
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Mais do que um literato, Quignard é um pensador da cultura, e as épocas históricas com as quais dialoga são reveladoras da singularidade de seu pensamento. Assim sendo, caberia evocar aqui o conhecido ensaio “A tradição e o talento individual” (1917), onde o poeta e crítico literário T. S. Eliot expõe suas teses sobre as relações que o escritor cria com aqueles que o precederam. Segundo Eliot, a tradição supõe o sentido histórico e este, por sua vez, dá ao escritor a consciência aguda de seu lugar no tempo, de sua contemporaneidade. Eliot insiste sobre a modificação do passado produzida pelo presente e chama a atenção para o fato de o presente ser igualmente influenciado pelo passado. As teses de Eliot foram retomadas por Jorge Luis Borges no ensaio “Kaf ka e seus precursores”, de 1951. Borges, para quem a palavra “precursor” é indispensável no vocabulário crítico, conclui o seu texto com a seguinte afirmação: “O fato é que cada escritor cria seus precursores. Seu trabalho modifica nossa concepção do passado, como há de modificar o futuro. Nessa correlação, não importa a identidade ou a pluralidade dos homens”3. BORGES, J.-L. Kaf ka e seus precursores. In: Outras
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inquisições. São Paulo: Globo, 1999, p. 98.
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Uma das singularidades que marcam o percurso de Pascal Quignard é, justamente, o aspecto insólito, e de certa forma inédito, da leitura que ele faz dos precursores que elege. A volta ao passado realizada por ele não é da ordem de um saudosismo nem tampouco de um puro exercício de erudição; sua investigação não parece se ancorar num movimento nostálgico suscetível de restaurar um tempo perdido qualquer. Ao contrário, o que está em questão para o autor desde a sua entrada na cena literária é o resgate da contemporaneidade de autores e de artistas que, de modo geral, foram deixados às margens pela tradição. Poderíamos dizer que os precursores de Quignard são, na maioria das vezes, nomeados; o que os especifica aos olhos do escritor francês é o relativo esquecimento canônico do qual foram vítimas. Esse traço, que não deixa de postular a legitimidade de certo anacronismo, atravessa toda a produção quignardiana. Um aspecto importante da obra se esboça: se por um lado o projeto literário de Quignard é fiel à época na qual está ancorado, se ele tem um lugar cada vez mais importante na contemporaneidade, por outro lado, tal projeto se sustenta num resgate constante de obras, autores e artistas das épocas de sua predileção, quais sejam: a China antiga, a Antiguidade greco-romana e, na França, o pascal quignard a razão
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século XVII. A literatura de Quignard está, assim, muito mais próxima de uma reinvenção do passado do que de uma simples ressuscitação do passado. Esse aspecto do procedimento do autor leva-nos a refletir sobre um dos sentidos que ele atribui à expressão “contemporaneidade”. Para Quignard, se contemporaneidade há, esta somente seria possível pelo gesto da leitura: Que o passado e o futuro possam se tornar contemporâneos num ser: esta é a possibilidade que a leitura dos livros oferece [...] O que é outro – seres, épocas, espaços, emoções – é encontrado na leitura, e somente a língua permite o endereçamento a esse outro, a quem ela dá existência, morfologia, tempo e país4.
Quignard fez sua entrada na cena literária francesa publicando ensaios que interrogam, sobretudo, a natureza da linguagem. A questão do signo e da significação, muito presente no contexto intelectual dos anos 1960, está no cerne de sua produção ensaística da época. A leitura de seus primeiros textos nos permite afirmar que o escritor acompanhava atentamente os debates QUIGNARD, Pascal. Petits traités II. Paris: Gallimard
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(Folio), 1990, p. 497-498.
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marcados pelo pensamento estruturalista que se desenrolavam no campo das Ciências Humanas. Se ele admitia seu interesse e fascinação por escritores e artistas do passado, sua obra era também influenciada pelo pensamento de seus contemporâneos, de quem era leitor aplicado. Podemos citar, a título de ilustração, sua relação com a obra de Maurice Blanchot, de cuja influência ele tenta se demarcar. A fórmula de Mallarmé que faz da “flor ausente de todo buquê” o emblema da linguagem é retomada ulteriormente por Blanchot, que vê aí o mecanismo de toda nomeação. Nomear é ausentar-se; é, por assim dizer, matar a coisa real da qual sobrevive apenas o signo desencarnado. Em seus primeiros escritos, Quignard está certamente às voltas com a questão da nomeação. Nesse sentido, podemos evocar seu ensaio sobre Maurice Scève, poeta francês do século XVI bem como seu diálogo com Roland Barthes e Gilles Deleuze. O fio condutor de sua produção do final dos anos 1960 é, portanto, os limites da linguagem e sua relação com a língua. A passagem dos primeiros ensaios à dimensão ficcional propriamente dita traz ainda discussões sobre os limites e a natureza da linguagem, tema que marcará finalmente toda a obra pascal quignard a razão
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do autor. Para afinar, porém, a sua concepção de romance, Quignard vai questionar decididamente algumas correntes literárias francesas e certas concepções da narrativa romanesca. O resgate de retóricos latinos, bem como a crítica da metafísica, fornecerá ao escritor elementos para uma concepção da coisa literária estreitamente vinculada ao pathos da linguagem, ou seja, sua dimensão afetiva e até mesmo passional. Podemos destacar algumas figuras extraídas do grande leque dos topoi que compõem a obra quignardiana. Uma das figuras principais é o sordidíssimo, oriundo dos sordidissima do retórico latino Caio Albúcio Silo. Objeto sórdido, resto, resíduo: quaisquer que sejam os nomes sob os quais essa figura aparece, o que está em questão é aquilo que não serve para nada, o que foi esquecido, rejeitado, seja da História Universal, seja do cânone, seja da história de vida de um sujeito. Ao longo de sua obra, ensaística ou romanesca, Quignard resgata esses elementos e os dota de valor agalmático, precioso. O Jadis (Outrora) é igualmente um tópos central da literatura de Quignard, e os desdobramentos dessa figura encontram-se mais precisamente nos livros que formam a série Dernier Royaume (Último Reino). Em sua obra, as expressões “passado” e “outrora” são frequentemente 14
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contrapostas, e a diferença semântica dos dois termos é bem circunscrita. O passado estaria associado à aquisição da linguagem, às convenções sociais, ou seja, ele seria o “território dos seres falantes”. Aliás, da linguagem Quignard pôde dizer que se trata de uma aquisição precária, que não estaria na origem e nem mesmo no fim de uma vida, visto que, frequentemente, a palavra erra e se perde antes mesmo do cessar da vida. Por sua vez, o Outrora quignardiano, que para muitos críticos teria estatuto de conceito, remete a uma anterioridade mítica. Jadis seria anterior ao passado petrificado pela aquisição da linguagem formal. Essas duas figuras – sordidíssimos e outrora – aparecem muitas vezes associadas na obra do autor, uma vez que é o objeto sórdido que frequentemente remete à temporalidade do outrora. Em outras palavras, é sempre o elemento desprezado ou esquecido que remeterá ao perdido. Podemos incluir as travessias órficas entre os topoi da produção literária de Pascal Quignard. A referência do escritor ao mito de Orfeu permeia também toda a sua obra. Ao relatar as cenas que marcaram o seu destino de escritor, Quignard se compara de certa forma com Orfeu, visto que também ele, Quignard, se viu condenado a descer aos Infernos em busca da palavra perdida. pascal quignard a razão
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Por fim, podemos dizer que as relações de Pascal Quignard com a psicanálise merecem destaque quando se trata de apresentar um panorama da obra do escritor. Como se disse, Quignard sempre esteve às voltas com o campo da linguagem e, nesse sentido, a psicanálise enquanto campo do saber não foi por ele negligenciada. Em toda a extensão de Sordidissimes, livro publicado em 2005, o autor apresenta figuras poéticas para o objeto a, um dos pilares da psicanálise lacaniana. Há que se destacar que de modo decidido e elegante Quignard introduz, em Sordidissimes, esse conceito de Lacan no campo propriamente literário.
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