

I M AN I E R RI U
CORPOS CELESTES, V. 2
TRADUÇÃO : Flávia Souto Maior
Copyright © 2025 Imani Erriu
Copyright desta edição © 2026 Editora Gutenberg
Publicado originalmente por Penguin Random House UK. Direitos de tradução representados por Sandra Dijkstra Literary Agency e Sandra Bruna Agencia Literaria, SL. Todos os direitos reservados.
Título original: Fallen Stars
Todos os direitos reservados pela Editora Gutenberg. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
editora responsável
Flavia Lago
editora assistente
Natália Chagas Máximo
preparação de texto
Natália Chagas Máximo
revisão
Fernanda Marão
ilustração e projeto de capa
Joana Fraga
projeto gráfico
Diogo Droschi
diagramação
Waldênia Alvarenga
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
Erriu, Imani
A queda das estrelas / Imani Erriu ; tradução Flávia Souto Maior. -- 1. ed. -- São Paulo : Gutenberg, 2026. -- (Corpos Celestes ; v. 2)
Título original: Fallen Stars.
ISBN 978-85-8235-878-8
1. Ficção inglesa I. Título. II. Série.
26-364694.0 CDD-823
Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura inglesa 823
Eliete Marques da Silva - Bibliotecária - CRB-8/9380
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Para mamãe e papai. Obrigada por terem me criado em meio a contos de fadas, e acreditado que um dia eu poderia escrever o meu.

PERSES
APHRODEA
AREIAS DO PECADOR
VENUSA
HELIOS
LAGO ASTRA
CASTOR
ASTERIA
BAIA DE MIDAS '
BAIA DA SOMBRA '
OCEANO OLIMPIANO

GOLFODAS LÁGRIMAS
CELESTIA
SVETA
ALTALUNE
KAOS
CONCORDIA
VERDE
NEPTUNA MAR TRANQUILO

Piscea Ariete
Torra
Gem & Eli
Cancia
Leyon
Verra
Lias
Scorpius
Sagitton
Capri
Aquaria
As estrelas
Ariete (A-ri-e-te) – Estrela padroeira de Perses.
Rei das Estrelas. Deus da ira, da guerra e do sangue.
Também conhecido como o Tirano.
Torra (Tor-a) – Estrela padroeira de Aphrodea. Deusa da luxúria e do prazer.
Também conhecida como a Sedutora.
Gem & Eli (Gem e I-lai) – Estrelas padroeiras de Castor
Deusa do rancor e da trapaça; deus dos enigmas, da astúcia e da sabedoria.
Também conhecidos como a Trapaceira e o Persuasor.
Cancia (Can-ci-a) – Estrela padroeira de Altalune. Deusa da dor, da tristeza, dos rios e dos lagos.
Também conhecida como a Deusa que Chora.
Leyon (Lei-on) – Estrela padroeira de Helios.
Deus do orgulho, das artes, da profecia e da Luz.
Também conhecido como o venerado Lorde Luz.
Verra (Vé-ra) – Estrela padroeira de Verde. Deusa da terra e da decomposição.
Também conhecia como a Virgem.
Lias (Lai-as) – Estrela padroeira de Concordia. Deus do amor, da justiça e das mentiras.
Também conhecido como o Belo Mentiroso.
Scorpius (Scor-pi-us) – Estrela padroeira de Neptuna. Deus da inveja, dos oceanos e dos venenos.
Também conhecido como o Impiedoso.
Sagitton (Sa-gi-ton) – Estrela padroeira de Kaos. Deus do vinho, da loucura e do êxtase.
Também conhecido como o Celebrante.
Capri (Ca-pri) – Estrela padroeira das Areias do Pecador. Deus da cobiça, do dinheiro e do sucesso.
Também conhecido como o Mercador.
Aquaria (A-qué-ri-a) – Estrela padroeira de Sveta. Deusa da desventura, do ar e do gelo.
Também conhecida como nossa Senhora Maldita.
Piscea (Pai-ci-a) – Estrela padroeira de Asteria. Deusa do destino, do medo e da Escuridão.
Também conhecida como a Deusa adormecida.
PARTE UM
Prólogo
O sangue escorria pela lateral do corpo de Enzo, que ele pressionava enquanto cambaleava. Enzo virava a cabeça de tempos em tempos para verificar o que havia atrás de si. As Terras dos Sonhos eram um lugar cruel e amaldiçoado. Seus arredores mudavam violentamente – em um momento, eram uma floresta esquelética, com galhos retorcidos agarrando suas roupas; no seguinte, um deserto mais árido e implacável do que as Areias do Pecador, onde seu próprio sol brilhava com intensidade, vermelho e ofuscante.
Enzo estava sedento.
Faminto.
Mas nada o saciava.
Ele não conseguia descansar.
Cambaleou para a frente, a paisagem mudando mais uma vez, o sol extinto, sombras suaves e a vegetação o envolvendo.
Ele pressionou o rosto queimado na grama fria, coberta de orvalho, dando-lhe um momento de alívio.
– Tem que haver uma forma de escapar – disse, ofegante. – Tem que haver uma forma de voltar.
– E o quanto está disposto a pagar por isso?
Enzo ficou paralisado. Nenhuma magia funcionava nas Terras dos Sonhos, exceto a de Elara, então ele fechou os punhos ao lado do corpo. Ergueu a cabeça devagar e viu fileiras de lápides tortas, como uma boca escancarada e irregular. Um templo feito de obsidiana cintilava adiante, e na frente dele havia uma figura envolta em túnicas pretas. Sua voz era terrível e crepitante – como um último suspiro.
– Qual é o seu preço? – Enzo perguntou com a voz rouca.
A escuridão sorriu.
Capítulo Um
Elara arrancou a adaga do rosto diante dela, observando satisfeita o estrago que a lâmina fizera.
Ouviu-se um assobio baixo atrás dela quando Leo se aproximou pelas sombras, cruzando os braços.
– Está ficando um pouco sedenta por sangue, Bellereve. Elara virou-se, segurando o pedaço de pergaminho destruído.
– Você também não ficaria ofendido? Sou muito mais bonita na vida real.
– Ela tentou forçar um sorriso, embora sua fúria fosse uma coisa viva que se retorcia dentro dela, uma fera alimentada todos os dias.
Leo zombou ao pegar o pergaminho da mão dela, lendo em voz alta:
– PROCURADA, MORTA OU VIVA, PRINCESA ELARA DE ASTERIA.
– Rainha – Elara o corrigiu, embainhando a adaga e começando a caminhar pelos paralelepípedos escorregadios devido à chuva.
– CRIMINOSA PROCURADA. CULPADA DE COMETER PECADO ESTELAR. ESCAPAR DA IRA DO DIVINITAS. MATADORA DE ESTRELAS.
– Pelo menos essa parte é verdade – Elara murmurou, correndo os olhos por todas as figuras que passavam por eles, procurando um rosto específico em cada uma delas. Ela se viu no reflexo da vitrine de uma loja: pele pálida, olhos escuros e um vestido de renda preta arrastando no chão, como se estivesse vestida para um funeral. Puxou o capuz do manto para se cobrir ainda mais.
– Detentora de um poder perigoso e herético que matou nossa Senhora Gem – Leo continuou, acompanhando o passo dela. Estava belo como sempre, vestindo a alta moda castoriana: casaco longo, camisa com babados e calças compridas, bem diferente do general heliano com quem ela havia deixado o Reino da Luz. – Aborde com cautela e notifique o guarda municipal mais próximo caso a aviste. Recompensa por sua captura, viva ou morta: 10 mil midans. POR ORDEM DAS ESTRELAS.
Elara fez um som de desgosto ao pegar o cartaz de volta, amassando-o antes de jogá-lo em uma poça d’água.
– Eles não conseguiram nem chegar a vinte? – indagou quando pararam na frente de uma porta indeterminada.
– Talvez seja por isso que Eli não respondeu ao seu chamado.
– Talvez – ela murmurou, encostando-se na parede e tentando conter a onda de mágoa.
Ela havia tentado, dias antes, entrar em contato com ele quando esgotaram todas as outras opções. Curandeiros haviam vindo de terras distantes – os melhores de Celestia. Dos curandeiros botânicos de Verde aos musicalmantes de Altalune, Elara havia feito súplicas e ameaças a todos enquanto sua alma gêmea estava deitada de bruços na cama. Sem sucesso.
Quando o último fez um sinal negativo com a cabeça e ofereceu seus pêsames, Elara saiu às pressas para a casa de Isra e pegou seu baralho Stella antes que a vidente pudesse se opor.
Derramou o próprio sangue sobre a carta de Eli, a serpente de olhos verdes e boca aberta. Esperou enquanto o céu heliano sangrava sobre a carta junto com ela. Com toda certeza, ele apareceria – o deus que havia ajudado a causa deles em outra ocasião, a única pessoa que detinha o conhecimento de como acordar Enzo. Ela esperou a noite toda, orando para o deus, e ele não apareceu.
Agora, a jovem estava em Castor, ela mesma caçando a Estrela. E parecia que as Estrelas também a caçavam.
Um acendedor de lampiões aproximou-se deles, com sua longa vareta estendida para o céu enquanto acendia as velas dentro das lamparinas de vidro.
Quando Elara, em toda sua fúria, tinha escurecido o céu envolvendo-o com suas sombras, ela não imaginava que a escuridão impenetrável duraria tanto tempo. Não estava ativamente usando sua magia para manter a noite sobre o mundo, e ainda assim o mundo não havia amanhecido.
Era admirável que os cidadãos de Castor haviam se adaptado depressa à falta de luz.
Ela viu outros acendedores de lampiões mais adiante, esticando suas varetas acesas para o breu do céu.
Alimento e calor também não pareciam ser um grande problema – restaurantes e bares ainda estavam abertos e movimentados graças aos verdeanos e helianos, que provavelmente ganhariam uma fortuna com as ações de Elara.
Não que se arrependesse do que havia feito. Ela havia feito uma promessa. Transformaria o mundo em escuridão se Enzo fosse tirado dela.
E havia jurado que Celestia nunca mais veria luz outra vez, a menos que fosse a luz de Enzo.
– Vamos, Merissa – Leo murmurou.
– A paciência é uma virtude – Merissa disse com leveza, ajeitando os cachos cor de mel sob o manto com capuz quando a porta oscilou, como se fosse um sinal. Ela abriu um sorriso largo para Elara, com brilho nos olhos verde-jade, e Elara tentou forçar um sorriso em retribuição. Mas não conseguia separar muito bem a jovem que estava diante dela da semiestrela que havia enfiado uma lâmina em suas costas.
Haviam passado uma noite desconfortável na hospedaria decadente de onde Merissa tinha acabado de aparecer, com Merissa puxando conversa na cama que elas compartilharam, enquanto Elara mal falava. Ela alongou o pescoço; deuses, também havia dormido mal. Quase nem parecia que havia descansado.
– Já está tarde – Elara disse, começando a caminhar. Leo lhe entregou um pêssego e sua careta suavizou um pouco. – Obrigada.
– O sabor é uma bosta – ele declarou ao dar uma mordida e fazer cara feia. – Nem se compara aos da minha mãe.
– Você teve alguma notícia do palácio? – Elara perguntou com calma. Leo havia ido ao Correio de Corvos enquanto ela ia a um cartógrafo, determinada a encontrar o templo de Eli o mais rápido possível. Leo assentiu.
– Isra manda lembranças. Está tudo como deixamos. Meus homens vigiam Enzo o tempo todo, e Isra está ajudando o conselho em seu lugar. Ela disse que o progresso que já fizeram com o conselho asteriano é milagroso.
Elara assentiu, mas o peso em seu peito não diminuiu. Pensou em seu reino e no de Enzo, na desordem em que se encontravam sem seus governantes. Não confiava em ninguém além das pessoas mais próximas a ela; sabia como conselhos funcionavam. Golpes eram frequentes demais nos livros de história. Ela só torcia para que, quando voltasse a Asteria, ainda houvesse um conselho e um reino para governar.
– Aqui em cima – ela disse, apontando com a cabeça para a viela estreita adiante e afastando as preocupações. No momento, apenas Enzo importava.
O som de um sino cortou o ar quando Leo ia falar.
– Ouçam, ouçam! – gritou um pregoeiro da cidade, balançando seu sino para a frente e para trás. – Assassinato na Remus Street! Corpo desapareceu na calada da noite!
– Temos que tomar cuidado – Leo disse em voz baixa depois que o homem passou. – Quem sabe quantos espiões as estrelas têm agora nas ruas?
– Talvez você devesse perguntar à filha de uma delas e ver se ela sabe – Elara retrucou, sem conseguir conter o sarcasmo em sua voz.
Algo parecido com mágoa surgiu no rosto de Merissa, mas Elara não tinha tempo para isso. Torra, Eli, Merissa. Por melhores que alegassem ser, todos
sabiam o tipo de destino que recairia sobre Elara, mas não se importaram em compartilhar. E ela havia pagado por isso. Como sempre.
– Não falo com minha mãe desde aquela noite na sala do trono – Merissa disse com certa frieza.
Elara a ignorou, girando os ombros como se ainda pudesse sentir a lâmina que Merissa havia fincado entre eles, e correu os olhos pelas placas das livrarias pelas quais passaram. Janus e Filhos, Livraria Hermes, Tinta e Escriba. Os nomes não significavam nada para ela.
Por fim, as ruas pequenas e irregulares se abriram para uma enorme praça de mercado com um imponente templo no centro. A estrutura com pilares era de ardósia e quartzo fumê, e cada coluna tinha uma serpente de pedra gigantesca enrolada. Arandelas iluminadas alinhavam-se na entrada, tornando-a quase convidativa.
A raiva dentro dela, que havia sido reprimida pela necessidade de concentração, ressurgiu ao contemplar o local de adoração aos deuses que não tinham feito nada para ajudá-la nem para ajudar Enzo.
Ela abriu caminho pela multidão que circulava e pelas poucas barracas de mercado erguidas de forma improvisada. Sentiu Leo e Merissa logo atrás dela, mas não parou, afundando cada vez mais no capuz de seu manto enquanto seguia para a escadaria do templo. Para sua satisfação, viu alguns fiéis ajoelhandose diante de uma cobra – a cobra branca –, chorando. Ótimo. Esperava que matar Gem tivesse deixado uma marca no mundo, livrando-o de pelo menos uma deusa inútil. Elara não disse nenhuma prece e não fez nenhum sinal de adoração ao entrar.
Capítulo Dois
O templo estava tomado pelo aroma suave de incenso e por murmúrios baixos de oração. Alguns fiéis ajoelhavam-se em bancos de quartzo fumê, olhando para a estátua de Eli. Outros deixavam oferendas em um pedestal vazio ao lado dele, que Elara presumiu ser de Gem.
Ela passou os olhos pelos bancos de devotos até ver um sacerdote cuidando das velas.
Com um ligeiro movimento da mão e quase sem pensar, ela misturou-se às sombras do templo, envolvendo seu corpo com elas enquanto caminhava pelo salão. Completamente livre. Desde que aceitara seu próprio eu sombrio, as sombras pareciam se curvar à sua vontade. Sua visão escureceu por um instante, e ela fechou bem os olhos. Estranho. A mesma coisa tinha acontecido no dia anterior, quando tentou acessar sua magia. Será que poderia ser um efeito colateral da profundidade e poder que haviam despertado dentro dela? Teria que explorar isso quando não houvesse questões mais urgentes para resolver. Ela apareceu diante do sacerdote como um fantasma, e ele soltou um grito baixo antes de Elara conjurar uma ilusão no local, escondendo o sacerdote e ela mesma do restante da congregação.
– Onde está Eli? – ela perguntou, segurando a túnica dele entre as mãos. Ele tinha um rosto ardiloso e dissimulado, pele pálida e olhos azuis típicos dos castoriano.
Ele espiou dentro do capuz dela.
– Você! – ele exclamou, horrorizado. – É… É você. A Matadora de Estrelas! A Matad…
Elara chiou, já com a adaga na mão, pressionando-a à garganta dele.
– Mais uma palavra e vou mostrar que não tenho preconceito apenas contra Estrelas.
O sacerdote engoliu em seco, a respiração acelerada.
– Vou perguntar mais uma vez: onde está seu deus?
Elara escutou Leo e Merissa chegando atrás dela, e ampliou sua rede de ilusão, capturando-os dentro da doce invisibilidade.
O sacerdote olhou para algum lugar atrás dela.
– Acha que vou deixar você o matar como fez com minha Senhora Gem, Matadora de Estrelas? – ele sussurrou. – Nunca vou dizer.
– Ahá – Leo disse, estalando a língua. – Tarde demais.
Ele apontou a faca para a esquerda, para onde os olhos do sacerdote o haviam traído, e Elara viu uma fonte cuja pedra não combinava muito com o restante do templo.
– Ele não…
– Você a venerava? – Elara questionou. – Gem? Você fez vistas grossas para tudo o que ela fez? Com seu próprio povo, e outros?
O sacerdote franziu a testa, e a mão que segurava a lâmina dela começou a tremer. A fera que havia dentro dela – prateada e faminta – vagava de um lado para o outro.
– Você sabe o que ela fez comigo? A princesa perdida de Asteria? – Não eram raros os dias que Elara ainda acordava gritando, com a mente fraturada.
O sacerdote tentou responder, mas ela não havia terminado.
– E você venerava um ser desses? E a protegia? – Elara cerrou os dentes quando a raiva no fundo de seu estômago se acendeu. Talvez fosse a chama de seu amado que ela sentia em seu interior, que inflamava suas veias.
– Ela era minha deusa! – o sacerdote começou a gritar. – Eu a seguiria até…
Elara cravou a faca no pescoço do sacerdote. O ovo de obsidiana incrustado no centro do cabo mostrou um vislumbre de seu reflexo – um reflexo que, por um segundo, não reconheceu. Ela piscou enquanto Leo praguejava atrás dela. Com a raiva, ela havia deixado a ilusão ruir. Suspiros e gritos ecoaram pelo salão enquanto os devotos viam o sacerdote cair. Alguns começaram a fugir pelas portas abertas e outros avançaram, tomados por puro horror ou raiva. Ela ouviu armas sendo sacadas e alguém começou a chamar por um guarda. Quando o primeiro fiel se aproximou, Leo já empunhava sua espada e empurrava Merissa para trás dele.
– Matadora de Estrelas! – o fiel proclamou, apontando o dedo trêmulo para ela. – É a Matadora de Estrelas! Chamem os guardas, é a princesa… Elara rosnou e estendeu as duas mãos à frente, vertendo sombras escuras pelas palmas. As pessoas gritaram em pânico quando as sombras escaparam dela, e, mais uma vez, sua visão escureceu. Ela rangia os dentes enquanto via, entre as lacunas em sua visão, vislumbres de pessoas à sua frente, algumas correndo, outras tentando atacar. As sombras jorravam dela até que seu dragun surgiu. Ele abriu a boca e rugiu – com um pouco das ilusões de Elara dentro dele – e os últimos retardatários saíram correndo do templo.
– As portas! – Elara gemeu enquanto sua visão surgia e desaparecia novamente.
–Elara, seus olhos – Merissa disse, ofegante.
Elara fechou bem os olhos, e seu dragun de sombras avançou e fechou as portas do templo. Leo puxou o ferrolho gigantesco e encostou-se nelas, respirando com dificuldade.
–Pelas Estrelas, Bellereve. Você poderia avisar da próxima vez.
–Se eu tivesse o deixado viver, ele teria chamado os guardas de qualquer forma – ela retrucou.
– E é por isso que Merissa devia ter glamourizado você antes de entrarmos aqui.
–Podemos fazer isso depois. Eu queria que Eli soubesse quem estava aqui. –Os olhos dela saltaram para a fonte entregue pelo olhar do sacerdote. – Agora, rápido. Não temos muito tempo – ela disse.
Leo passou a mão sobre o rosto, seguindo-a pelo templo, passando pelos bancos e fileiras de velas de cera verde com aroma de mel, até a fonte.
Havia outra cobra enrolada na estrutura, com as grossas espirais fazendo parte da fonte, enquanto a boca aberta com as presas à mostra segurava uma tigela de água abençoada pelas estrelas.
Elara passou o dedo sobre uma presa. O cheiro de água da chuva era forte, embora o templo estivesse seco.
Ela umedeceu os lábios e empurrou. Nada aconteceu.
Os três analisaram com atenção toda a estrutura, procurando uma alavanca secreta ou alçapão. O sacerdote havia olhado diretamente para lá; disso, Elara tinha certeza. E ela podia sentir a magia de Eli vindo da fonte, aquele encanto mercurial.
Ela tentou levantar uma das linhas das pedras com a adaga de Sofia ensanguentada e escorregadia, mas sem sucesso. Leo se jogou contra a fonte, esperando derrubá-la e revelar uma entrada embaixo, mas isso serviu apenas para ele xingar todas as Estrelas do céu enquanto massageava o ombro.
Merissa tentou ser gentil, e perguntou educadamente se poderia levá-los até Eli.
Por fim, perdendo a paciência – e um tempo precioso – Elara pegou a adaga outra vez, dessa vez fazendo um corte na palma da mão antes de fechá-la sobre a boca aberta da serpente.
–Se funciona com um baralho Stella, talvez funcione pra isso também –ela disse.
Seu sangue pingou devagar na boca da serpente, tingindo de rosa a água abençoada.
Eles esperaram.
Justo quando Elara fez menção de virar-se para Leo, para lhe dizer que aquilo era inútil, algo se moveu.
Quando olhou de volta, para sua descrença, a boca da serpente se fechou. A cobra começou a deslizar sobre si mesma, a cabeça recuando enquanto se desenrolava, o corpo girando e retorcendo-se até que, em seu lugar, um buraco no chão foi revelado. Não, não era um buraco – era uma escadaria.
Os degraus esticavam-se e desciam em espiral até onde a vista alcançava, com um brilho verde por dentro, um convite sinistro.
Elara olhou com perplexidade para seus amigos. O cheiro de chuva e tabaco tomou conta dela enquanto sentia o encanto de Eli penetrar pela sala.
Houve um barulho na porta do templo.
–Guardas! Abram! Sabemos que você está aí, Matadora de Estrelas!
Leo empurrou Elara e Merissa para baixo, e também desceu a escadaria. Elara olhou para cima e viu a cobra deslizar para onde estava antes, prendendo-os no covil de Eli.
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