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A promessa de Peridoto (Romantasia sucesso no TikTok)

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TRADUÇÃO: Flávia Souto Maior
TRILOGIA PEDRAS SAGRADAS • VOL. 2

Copyright © 2024 Natalie Sellers

Copyright desta edição © 2026 Editora Gutenberg

Título original: A Promise of Peridot

Todos os direitos reservados pela Editora Gutenberg. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

editora responsável

Flavia Lago

editoras assistentes

Natália Chagas Máximo

Samira Vilela

preparação de texto

Fernanda Marão

revisão

Claudia Gomes

projeto gráfico da capa

Katie Anderson

design original do mapa

Jack Johnson

imagens de capa

Marina Vorontsova/Getty images

adaptação de capa

Alberto Bittencourt

diagramação

Guilherme Fagundes

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil

Golden, Kate

A promessa de Peridoto / Kate Golden ; tradução Flávia Souto Maior. -- 1. ed. -- São Paulo : Gutenberg, 2026. -- (Trilogia Pedras Sagradas ; v. 2)

Título original: A Promise of Peridot

ISBN 978-85-8235-857-3

1. Ficção de fantasia 2. Ficção norte-americana I. Título. II. Série. 25-324552.0

CDD-813

Índices para catálogo sistemático:

1. Ficção : Literatura norte-americana 813

Cibele Maria Dias - Bibliotecária - CRB-8/9427

A GUTENBERG É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA

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Para os meus leitores. Tudo o que faço é, no fundo, por vocês. Sua paixão mudou minha vida. Obrigada por tudo.

Um mundo de luze pelas Pedras abençoado,

Um rei fadado a cair pelas mãos do segundo filho, Uma cidade devastada de cinzas e ossos,

A guerra recomeça quando a estrela perder seu brilho.

A última fada puro-sangue nascida então

Encontrará a Espada do Sol no coração.

Pai e filho se reúnem na guerra em cinquenta anos,

E no erguer da fênix, a última batalha, o cair dos panos.

Um rei cujo fim verá apenas pelas mãos dela, Uma jovem que sabe o que precisa escolher,

Um sacrifício para salvar as terras de sua querela; Sem ele, o domínio inteiro vai se perder.

Uma tragédia para ambas as fadas, pois hão de cair,

Mas é o preço cobrado para todos acudir.

ligeia, a vidente de lumera, 113 anos antes

brejo da espada

ilha cicuta

vale do penhasco

REINO DE ÔNIX

willowridge

praia do contrabandista

Oceano Rochoso

fortaleza das sombras

nascente da serpente

angra da sereia

PROVÍNCIAS DE PERIDOTO

caverna do ceifador

olho de sapo

passo da meia-noite

TERRITÓRIOS DE OPALA

QUARTZO DE ROSA

REINO DE ÂMBAR

arenito

Baía da Sereia
abbington
rookvale
pitney

MONTANHAS PEROLADAS

ILHAS DE JADE

DESERTO DA AMARGURA

reino de citrino Mar Mineral
Golfo da Salamandra
REINO DE GRANADA

ABAB 1

ARWEN

Eu vou vomitar de novo – alertou Ryder, pendurando a cabeça sobre a beirada de aço molhada do navio. Gotas raivosas de chuva nos acertavam enquanto eu massageava círculos calmantes no tecido úmido colado nas costas do meu irmão.

– Estou aqui – falei, tentando lançar luze em seu estômago embrulhado. Esperei, e esperei um pouco mais, até não conseguir me conter e tensionar os dedos contra o vazio que eu sentia onde minha luze deveria ter se regenerado dias atrás.

Nada.

Ainda nada.

Ryder vomitou no mar agitado sob nós.

Nos dez dias desde a batalha da Baía da Sereia, eu havia curado o navio inteiro de todos os seus ferimentos sem meu poder. Os ferimentos infligidos pelo exército de Lazarus, queimaduras provocadas e cortes feitos por luze e armas feéricas foram mais prejudiciais aos soldados de Ônix e Peridoto do que qualquer aço mortal. Foi o trabalho mais exaustivo que já fiz.

E enquanto isso, afundada em bandagens e doenças, suores febris, eu tentava sofrer o luto.

Havíamos feito um pequeno funeral improvisado para ela – a mulher que eu sempre pensei ser minha mãe. Ao som rítmico do ranger das cordas e o bater calmo das velas, os soldados ilesos a bordo baixaram corpo dela no mar. Eu disse algumas palavras, e todas elas soaram monótonas e estranhas na minha boca. Mari cantou um hino. Ryder chorou. Leigh não olhou para nenhum de nós e depois se esgueirou para nossa cabine no convés inferior antes mesmo de terminarmos.

Foi horrível.

Kane havia perguntado se ele podia ir conosco. Acredito que suas palavras foram: “Eu gostaria de estar ao seu lado, se você permitir”. Como se sua presença pudesse, de alguma forma, fazer com que eu me sentisse melhor, em vez de infinitamente, infinitamente, pior. Eu não queria que ele chegasse perto da minha família. Ou do que havia restado dela.

Então, veio a tempestade.

Uma chuva estrondosa, com ondas que batiam contra o navio como aríetes. Ela continuou caindo furiosamente durante toda a nossa viagem. Aqueles que procuravam um minuto de folga do ar parado da cabine ficavam imediatamente encharcados do dilúvio gelado. No dia anterior, o capitão havia racionado o carvão do navio, deixando-nos sem água quente. Eu não aguentava mais comer mingau morno.

Olhei para os meus dedos nas costas de Ryder. Estavam eternamente enrugados, como uvas-passas. Ele vomitou novamente, e alguns metros mais adiante, na proa, uma mulher de Peridoto com uma capa de lã desgastada pelo tempo fez o mesmo.

Embora eu tivesse a sorte de não sofrer de enjoo no mar, não era possível dizer o mesmo do restante dos passageiros. Os sons de vômito de revirar o estômago ecoavam a todo momento do dia e da noite. Eu oferecia ajuda a quem pudesse, mas, sem minha luze, não havia muito o que fazer.

Não havia oferecido ajuda nenhuma a Kane, no entanto.

Eu o vi subir uma escadaria instável com facilidade um dia depois de ter o peito perfurado por uma lança de gelo. Ele tinha subido dois degraus de cada vez – ágil, forte, até mesmo animado.

E ainda assim ele precisou que eu o curasse de maneira tão crítica aquele dia na enfermaria da Fortaleza das Sombras?

Tudo mentira. Mais e mais mentiras. Minha cabeça fervilhava com elas.

Esperei pela onda de medo instintiva percorrer meu corpo quando pensei no destino que ele havia escondido de mim durante todos aqueles meses. A profecia que previa minha morte pelas mãos do próprio pai de Kane. Mas não senti nada.

Havia dias que não sentia nada.

Após uma vida de muito medo, lágrimas e preocupação, eu não conseguia expressar nada.

Com um último esforço para vomitar, Ryder se curvou sobre o metal e respirou fundo.

– Deve ter terminado. Não sobrou nada no meu estômago para vomitar.

Franzi a testa.

– Que imagem mental agradável.

Ele respondeu com um sorriso fraco.

Mas, em minha mente, uma lembrança se desenrolava. Uma lembrança de uma noite lenta e silenciosa de outono, exceto pelos sons do vento farfalhando entre as ervas daninhas do lado de fora de minha casa. Eu tinha passado mal depois de comer alguma coisa embolorada – a mentalidade de Powell de não desperdiçar nem uma migalha de comida em ação – e minha mãe massageou minhas costas com movimentos constantes, acalmando-me enquanto eu vomitava. Eu poderia ter me curado naquela ocasião, mas optei por não fazer isso. Eu gostava da sensação de tê-la me confortando. Gostava de sentir a mão dela em meu ombro, suas palavras calmantes. Leigh havia nascido recentemente, e tanto Ryder quanto eu sentíamos falta de ser os únicos objetos de sua afeição.

Foi uma coisa tão egoísta e infantil de se fazer. Vomitar por uma hora em vez de curar minha própria enfermidade, só para mantê-la ao meu lado no ar frio da noite, longe de sua nova bebê, de seu marido e de seu filho.

Mas era tão bom ser cuidada.

E agora…

Agora eu ia dormir todas as noites me perguntando quem era aquela mulher.

Será que ela havia me encontrado na estrada?

Será que alguém a havia obrigado a me criar?

E, nesse caso, onde estavam meus pais verdadeiros? Ambos eram fadas puros-sangues, então provavelmente viviam em outro domínio. Um domínio em dissolução, de terra árida e cinzas, governado por um tirano…

– Está se sentindo melhor?

Minha atenção se voltou para Mari, que se aproximava enrolada em uma capa de pele grossa. Ela havia invadido o navio em nossa primeira noite e, de alguma forma, encontrado as peças mais estilosas a bordo. Mas nem mesmo sua nova e elegante pele conseguia esconder o modo como seus cachos acobreados caíam em anéis úmidos sobre seu rosto, ou as gotas geladas que cobriam seu nariz e lábios quase azuis.

Ao vê-la, Ryder endireitou o corpo e cruzou as mãos com confiança sobre o peito.

– Estou ótimo. Quase nem vomitei. – Ele inclinou a mão na direção da mulher de Peridoto que ainda vomitava no convés. – Sinto pena de todas essas outras pessoas.

– Ele vomitou tudo o que tinha no estômago e um pouco mais – contei a Mari.

Ryder olhou feio para mim, e Mari franziu a testa com compaixão.

– Sinto muito. Essa tempestade é implacável.

– É, bem… – Passamos sobre outra onda e Ryder ficou pálido, levando as mãos ao estômago. – Eu… eu vou falar com alguém sobre isso. Agora mesmo. – Ele correu para a outra ponta do navio e desapareceu de nossas vistas.

Mari me encarou, erguendo a sobrancelha.

– Falar com alguém… sobre a tempestade?

Balancei a cabeça.

– Ele é orgulhoso demais.

– Eu acho fofo ele ficar constrangido. Pegue isso aqui. – Ela tirou um frasquinho de vidro do bolso da saia. – Dê a ele. É Estômago de Aço.

– Essa poção não é usada por coveiros?

Depois de ler duas vezes o livro sobre espécies de flores que peguei na biblioteca de Peridoto, eu havia começado a vasculhar os grimórios de Mari por puro tédio. Eles não tinham mais muita utilidade para ela, de qualquer modo. Não agora que ela possuía o amuleto.

Eu não a culpava. Mari nunca aprendeu a usar sua magia corretamente, uma vez que sua mãe, a única bruxa viva em sua família, morreu no parto. O colar que roubamos do gabinete de Kane, aquele que pertencia a Briar Creighton, supostamente uma das bruxas mais poderosas de todos os tempos, permitia que ela controlasse seu poder – e bastante. Agora, ela praticava magia sempre e como desejasse. E o amuleto nunca saía de seu pescoço.

Mari deu de ombros, tocando distraidamente no talismã violeta pendurado sob a clavícula.

– Achei que poderia ajudá-lo. Foi fácil de preparar.

A única questão era que ela não estava realmente utilizando qualquer poder de Briar ou de sua linhagem. Repassei na cabeça o momento em que Kane me disse que o amuleto não passava de uma quinquilharia – que todos os feitiços que Mari conjurava com tamanha facilidade eram dela mesma – e tentei encontrar algum indício de culpa. Eu devia a verdade a ela, mas só encontrei um poço de apatia onde minha ética costumava ficar. Não queria mentir para ela, mas…

Mas simplesmente não tinha energia.

– Você chegou a falar com Kane hoje? – ela perguntou, se segurando na proa escorregadia quando o navio balançou sobre mais uma onda agitada.

Suspirei, um suspiro longo e profundo. Outra coisa que eu não conseguia me obrigar a fazer.

– Não.

– E se tiver uma outra forma? Ele não disse se teria?

Ele havia dito, da última vez que conversamos. Depois da batalha. Depois da morte da minha mãe. Depois de minha explosão de poder e extermínio. Kane havia dito que ele estava disposto a deixar o continente inteiro cair nas mãos de Lazarus para me salvar da minha sentença de morte. Para me ajudar a viver minha vida em paz.

Mas que tipo de “paz” eu poderia encontrar sabendo quantos sofreriam nas mãos de Lazarus porque eu estava escondida em alguma cidade idílica, sem nome, e fugindo do meu destino?

– Ele não pode me ajudar com nada além de fugir.

Mari franziu os lábios.

– Talvez, mas… Ele sabe mais do que qualquer um sobre essa profecia. Você não pode tentar ter pelo menos um pouco de esperança?

– Só preciso sair desse barco – falei, olhando fixamente para as pesadas e estrondosas nuvens de tempestade no alto.

– Eu sei. – Ela suspirou. – Essa viagem está sendo horrível.

Mas eu não estava pensando na chuva, no frio nem no vômito. Só queria levar Leigh e Ryder em segurança para Citrino e ficar o mais longe possível de Kane. Ir para algum lugar em que pudesse ficar sozinha até precisarem de mim. Um cordeiro sacrificial, esperando o abate.

Então fiquei em silêncio enquanto a chuva batia em meu rosto e eu vasculhava meu coração em busca de uma dor, de esperança, até mesmo de um lampejo de medo ao pensar em meu futuro terrível.

Mas não encontrei nada.

Sentia falta da minha mãe.

Queria ir para casa.

Queria dormir por um longo, longo tempo.

– Por que ninguém diz o que nos aguarda em Citrino?

Eu não tinha falado com muita gente nos últimos dez dias, mas os tenentes e nobres que estavam no navio conosco estavam mantendo os lábios bem cerrados a respeito do reino secreto. Disseram-nos apenas que era um lugar impossível de invadir e, portanto, estaríamos tão protegidos de Lazarus quanto possível.

Mari deu de ombros.

– Todos os textos que encontrei dizem apenas que é um lugar de difícil acesso. Na maioria dos mapas, ou ele aparece flutuando no meio do Mar Mineral ou nem aparece.

Deixei as ondas do oceano me embalarem enquanto Mari segurava o aço molhado com mais força.

– Será que é uma ilha? Como Jade?

As ilhas de Jade eram um reino igualmente misterioso, mas pelo menos Mari conhecia algumas pessoas que tinham viajado para lá e dito que eram inabitadas.

– Pode ser. Mas acho que em breve vamos descobrir. – Os olhos dela brilharam de expectativa. A descoberta de algo ainda desconhecido. – Quer descer para o refeitório? Comer alguma coisa?

Olhei para o céu furioso, em tons de roxo, azul e cinza. Como um hematoma, ou a asa sarapintada de um pombo. Gotas pesadas e desritmadas caíam em meu rosto.

– Não, acho que vou ficar um pouco aqui fora. – Ela franziu a testa, e corrigi meu tom de voz para soar mais calorosa. – Mas eu te encontro lá.

Eu estava fazendo o meu melhor, e Mari sabia disso.

Ela se afastou com a mesma energia alegre e saltitante de sempre, independentemente de estar chovendo ou fazendo sol. Aquela garota era resiliente – parecia que nada, nem mesmo a batalha recente, a tempestade violenta ou o balanço do navio, conseguia abalá-la.

Passos pesados atraíram meu olhar para um grupo que atravessava o convés marcado por cicatrizes.

Eu conhecia aquelas botas. Aquele andar.

Kane caminhava na direção do refeitório ao lado de Griffin, com Leigh logo atrás.

Uma chama fraca de fúria, quase uma faísca, acendeu-se em meu peito ao vê-lo.

O cabelo escuro estava úmido e colado na testa e na nuca. Os olhos exibiam olheiras acinzentadas, resultado de uma evidente falta de sono. A barba por fazer cobria o queixo, e seu rosto estava inchado devido aos dias e às noites de muita bebedeira.

O homem estava completamente desgrenhado.

Com frequência, através das paredes finas de minha cabine, eu o ouvia bebendo com Griffin e Amelia tarde da noite. Rindo, jogando cartas, cantando mal – qualquer parte de mim que se inflamasse com um vago ciúme da alegria embriagada de Kane e Amelia, eu atribuía à memória muscular. Às vezes, Mari e Ryder se juntavam a eles por puro tédio. Isso doía mais ainda.

Eu dizia a mim mesma que era um benefício sentir alguma coisa.

Mas Leigh… seu vínculo recém-desenvolvido com Kane era o sentimento mais irritante. Eu os flagrava escapulindo para áreas restritas do navio, retornando com guloseimas roubadas e tesouros enferrujados. Eu o ouvia contar a ela sobre criaturas ferozes e retorcidas de terras além de sua mais louca imaginação. Ela parecia mais do que um pouco encantada com ele.

Eu compreendia a sensação.

Eu também já havia sido ingênua e crédula.

Acenei para ela. Os cachos de Leigh balançavam junto à sua capa cinza grande demais enquanto ela dizia alguma coisa aos homens parrudos que caminhavam ao seu lado. Eles pareciam seus cães de guarda – altos, imponentes e poderosos. Encharcados pela chuva e de cara feia. Quando ela se aproximou de mim e eles desceram os degraus até o refeitório, suspirei.

– O que você está fazendo com aqueles dois? Eles são fadas perigosas, Leigh. Não seus amiguinhos.

Ela revirou os olhos.

Minha pele coçou.

– O que foi?

– Você está sendo dura demais com ele.

Ela estava mais fria, mais séria ultimamente. Eu compreendia sua dor e estava tentando ser paciente, mas toda a sua raiva parecia ser direcionada apenas a mim.

Agachei para ficar na altura de seus olhos.

– Sei que você está passando por uma situação muito difícil. Eu também sinto falta dela.

– Isso não tem nada a ver com a mamãe.

– Mas sua raiva… – Estendi a mão para ela, segurando seu braço. – Acho que ela pode ser…

Ela se desvencilhou de mim.

– Pare com isso. Você está chateada com o que aconteceu com a mamãe. Você está chateada por não ter conseguido salvá-la. – Ela engoliu em seco, olhando fixamente nos meus olhos. – Você está chateada com o que você é.

E está descontando nele.

Mordi a língua diante da dor de suas palavras.

– Sei que você acha que ele é charmoso, Leigh. E vocês dois têm essa amizadezinha estranha, mas ele mentiu para mim. Ele arruinou minha vida. – Assim que disse as palavras, elas pareceram vazias. Desprovidas de emoção. Como se eu estivesse dizendo: ele perdeu minha sombrinha. – Você é jovem demais para entender.

O olhar que ela me lançou poderia ter congelado o sol.

– Ele mal está conseguindo sobreviver a cada dia.

– Todas as noites nós o ouvimos cantar canções de marinheiro nos aposentos do capitão. A voz dele parece embargada para você?

– Ele só está tentando sobreviver, como todos nós.

Como se tivesse sido convocado, Kane voltou a subir ao convés, dessa vez sozinho, com uma garrafa de uísque na mão. Nossos olhares se encontraram

instantaneamente – eu sabia que ele intuía que estávamos falando sobre ele. Cruzei os braços e deixei o gelo que corria em minhas veias chegar ao meu rosto. Kane franziu as sobrancelhas de leve e desviou os olhos.

Virei as costas para ele e para Leigh e encarei a extensão sem fim de ondas irregulares e escuras. Não havia espaço suficiente no navio para eu me afastar 150 quilômetros de Kane como eu precisava. Leigh estava certa. Eu tinha sido cruel. Mas ele merecera. Na verdade, ele merecia coisa muito pior. Era um mentiroso e um assassino, o homem que me traiu, que me usou. Que pegou os primeiros fragmentos de alegria verdadeira que eu havia sentido na vida e transformou em cinzas. Que me quebrou até restar apenas uma concha. Um invólucro vazio onde uma pessoa humana havia vivido um dia. Mal havia vivido, mas ainda assim…

O sentimento que eu tinha por ele – raiva pura – era fácil. A coisa mais fácil da minha vida, no momento.

Eu nunca conseguiria perdoá-lo.

Então, em vez disso, eu o odiava.

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