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A música da minha vida - Volume 1

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uas Foto: Álvaro Frág

PAULA PIMENTA se formou em Publi-

paulapimenta paulapimenta paulapepper paulapimentafanpage paulapimentaoficial www.paulapimenta.com.br

o primeiQuando comecei a ler ta, não en m Pi ro livro da Paula mpre Se . consegui mais parar lei a tura, acho um tempo para boas e pois suas histórias, tão vida na emocionantes, tomam . ão aç minha imagin anos Catarina Borges, 10

O primeiro livro que li na vida foi da Paula Pimenta e desde então não consigo parar de ler! Ela e suas histórias me inspiram todos os dias. Sou um grande fã e mal posso esperar pelo próximo! Lucca Bossolani,, 14 anos

ISBN 978-85-8235-884-9

9 788582 358849

O mundo fica m ais bonito quando a Paula Pimenta lança um livro no vo. Ela é genial, parece qu e escreve pensando em mim , sempre sabe o que eu pr eciso ler! Marina Mattana Pereira,, 10 anos

Ler Paula Pimenta é como ouvir sua música favorita: em cada fase da vida a gente consegue entender melhor a letra e continua amando como se fosse a primeira vez. Ela dita o ritmo perfeito entre romance, nostalgia e aquela leitura envolvente que é impossível largar. Mariana Arícia,, 27 anos

Cresci lendo os livros da Paula Pimenta, ela se mpre vai ter o dom de me deix ar apaixonada por cada página escrit a. Poder volt ar à adoles cência com a Juju é reencont rar a minha eu adolescente qu e nunca deixou de acreditar em histórias corde-rosa. Rebeca Xavier, , 28 anos

PAULA PIMENTA

cidade, mas – para nossa sorte – descobriu que gosta mesmo é de escrever livros. Ela tem alma de princesa, confia em sonhos, ama os animais e ensina música. Não sei se é pela simpatia, por viver no mundo da lua ou por acreditar tão avidamente no “felizes para sempre” que eu chego a pensar que a Paula nem é gente de verdade, e sim uma personagem de algum conto de fadas que saiu por aí, fugida, querendo de qualquer jeito contar novas histórias... Carol Christo

1 A música da minha vida

“Sou leitora da Paula Pimenta há 14 anos e, a cada nova história, ela prova que continua sendo a minha escritora favorita.” Mariana Arícia

AUTORA BEST-SELLER DAS SÉRIES MINHA VIDA FORA DE SÉRIE E FAZENDO MEU FILME

PAULA PIMENTA

A música da minha vida Volume 1

J

uju tem 14 anos e é como várias outras meninas da mesma idade: tem amigos que estão sempre ao seu lado, gostaria que a família desse a ela um pouco mais de liberdade e está começando a descobrir que garotos podem ser meio complicados (especialmente se a gente se apaixona por eles!). Mas sua vida nem sempre foi tão cor-de-rosa quanto parece. Ainda na pré-adolescência descobriu que devemos escolher bem em quem confiar e que nossas raízes podem conter segredos que inesperadamente mudam nossa percepção do mundo. Ao se refugiar na música, ela acaba percebendo que algumas melodias tristes também têm seu valor e que somos nós os únicos responsáveis pela trilha sonora da nossa história. Do mesmo universo de Fazendo meu filme e Minha vida fora de série, o novo livro de Paula Pimenta é um verdadeiro presente para os fãs antigos, que poderão matar as saudades dos já amados personagens, mas também um deleite para os novos leitores, que se apaixonarão por essa turma que há tantos anos encanta milhões de pessoas ao redor do mundo!


PAULA PIMENTA

A música da minha vida Volume 1


Copyright © 2026 Paula Pimenta Copyright desta edição © 2026 Editora Gutenberg

Todos os direitos reservados pela Editora Gutenberg. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

diretora editorial

diagramação

Rejane Dias

Waldênia Alvarenga

editoras responsáveis

capa

Rejane Dias Cecília Martins

projeto gráfico: Diogo Droschi fotografia: Álvaro Fráguas direção de arte e cenografia da fotografia: Rick Cavalcante

revisão

modelo: Lara Palmer

Cecília Martins Julia Sousa

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil

Pimenta, Paula A música da minha vida / Paula Pimenta. -- 1. ed. -- Belo Horizonte, MG : Gutenberg, 2026. -- (A música da minha vida ; 1) ISBN 978-85-8235-884-9 1. Ficção juvenil I. Título. II. Série. 26-379684.0

CDD-028.5

Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura juvenil 028.5 Cibele Maria Dias - Bibliotecária - CRB-8/9427

A GUTENBERG É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465 4500

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Aos meus professores de música, que me ensinaram a amar esse universo apaixonante de partituras, acordes, letras e melodias. E aos meus alunos, com quem compartilhei essa paixão.


Carta da autora

Em primeiro lugar, preciso dizer que este livro é um spin-off de Fazendo meu filme, ou seja, é derivado dessa série literária que encantou milhões de pessoas ao redor do mundo. Meu amor por esse universo é tão grande que tenho vontade de contar os detalhes até daqueles que fazem pequenas aparições nos livros, pois, como acontece na vida real, acredito que, se dermos zoom em alguns momentos da nossa existência, todo mundo tem bastante história para contar! Não é estritamente necessário ler Fazendo meu filme antes de A música da minha vida; as duas séries são independentes. Mas quem já leu FMF certamente vai poder matar a saudade dos personagens tão queridos que marcaram gerações. E, para quem ainda não leu, espero que, após a leitura deste livro, sinta curiosidade para conhecer um pouquinho mais da linda história da Fani e sua turma, e saber como tudo começou. Por falar em começos, iniciar uma nova série é sempre um pouco difícil. Apesar de saber do grande potencial da nova protagonista, começar a descobrir seu caráter, seus amigos, seus sonhos e paixões é ao mesmo tempo fascinante e desafiador. Além disso, enquanto não termino o livro, os personagens ficam cutucando meus pensamentos em qualquer lugar que eu esteja, me forçando a voltar para o computador e narrar seus passos, pois querem muito que o mundo conheça o livro da vida deles... É mais ou menos como os leitores ficam, quando me pedem a continuação de certas histórias, sabe? E foi assim com a Juju. Em algumas partes de Fazendo meu filme, ela me fez perceber que aquela menininha cheia de personalidade, bom gosto musical e, em alguns momentos, tão parecida comigo, tinha muito mais para nos contar! E por isso resolvi


apostar e escrever a história dela, que acabou se tornando bem mais intensa do que no começo eu vislumbrei. Desde criança sou apaixonada por música e, antes de ser escritora, fui por muitos anos professora de violão e expressão vocal. Com este livro pude voltar no tempo e reviver aqueles dias tão cheios de melodia, foi muito gratificante conseguir unir minhas duas maiores paixões: a música e a literatura. Agora é com vocês. Espero que se encantem pela Ju (como ela prefere ser chamada por quase todo mundo...) assim como eu me encantei. E, como já diria um certo personagem que vocês vão conhecer, é muito bom ter a Juju por perto! Espero que concordem com ele! Boa leitura! E não deixem de me contar se gostaram dessa minha nova história! Com carinho,


Agradecimentos Em primeiro lugar, obrigada a Deus, por toda a inspiração. À mamãe e à Aninha, que leram o livro inteiro à medida que fui escrevendo e me deram o feedback necessário para que eu soubesse que estava no caminho certo. Os comentários emocionados de vocês foram tudo pra mim! Ao Kiko, por me ouvir lendo os capítulos em voz alta e, nesse processo, ainda me dar algumas ótimas ideias. E também por ser o melhor pai do mundo para a Mabel e entretê-la para que eu pudesse finalizar o livro com tranquilidade, sabendo que ela estava com a melhor companhia de todas! À Mabel, por ter tanto orgulho da mamãe, a ponto de perguntar para as pessoas mais aleatórias se elas conhecem a Paula Pimenta e contar que é a filha dela. A mamãe também tem muito orgulho de você, meu amor! Ao Diogo Droshi, por se superar a cada capa que cria para os meus livros! Deve ser muito chato ser escritor sem ter o melhor designer do mundo para fazer suas capas... À Cecília, revisora que virou amiga, que não apenas revisa, mas me deixa sorrindo a cada comentário que faz sobre a história. À Rejane Dias, por sempre fazer minhas vontades e entender meus prazos. E pelos jantares sempre divertidos e com conversas muito interessantes. À Rebeca, à Mari, à Catarina, à Marina e ao Lucca pelos lindos depoimentos da contracapa, fiquei emocionada! E, principalmente, muito obrigada a todos os meus leitores que amam tanto, há tantos anos, esse universo literário da Fani e da Pri. É por vocês que sinto vontade de escrever sobre esses personagens para sempre! Espero que vocês acolham a Juju nesse rol de protagonistas tão amadas e que a partir de agora também fiquem ansiosos pelas sequências e próximas músicas da vida dela.


Para ouvir a trilha sonora de A música da minha vida enquanto lê, visite www.paulapimenta.com. br/amusicadaminhavida ou aponte a câmera do celular para o QR Code.


Don’t forget to look before you fall

I’ve found time can heal most anything

And you just might find who you’re supposed to be*

(Fifteen – Taylor Swift)

*

Não se esqueça de olhar antes de cair / Descobri que o tempo pode curar quase tudo / E você pode acabar descobrindo quem você deve ser


Prólogo

Bem que se quis

Depois de tudo ainda ser feliz

Mas já não há caminhos pra voltar O que que a vida fez da nossa vida

O que que a gente não faz por amor? (Bem que se quis – Marisa Monte)

Nem acredito que já se passou tanto tempo daquele dia, que dividiu a minha vida entre antes e depois. Eu havia ouvido a respeito nas músicas. Conheço centenas de letras que falam exatamente do tal momento em que o mundo subitamente treme e, então, nada mais volta ao foco. Mas eu achava que era apenas invenção. Liberdade poética. Coisa de artista. Era o casamento da minha tia. Eu estava lá, muito revoltada por terem me feito colocar um vestido de renda que pinicava o meu corpo inteiro e terem enchido o meu rosto de maquiagem pesada. Tudo o que eu mais queria era estar no meu quarto, de cara lavada e rabo de cavalo, vestindo jeans e camiseta, com o som ligado no volume máximo. Mas não. Em vez de estar no meu paraíso particular, eu estava naquele casamento dos infernos. E tudo porque tive um momento de fraqueza quando a minha tia começou a chorar (com lágrimas de verdade) e me desestabilizou, fazendo com que eu dissesse sim ao pedido dela, mesmo querendo gritar um grande não! Eu já tinha passado por aquilo um ano antes, realmente deveria estar preparada... No casamento do meu tio Alberto, todo mundo


também implorou para que eu fosse dama de honra, me disseram mil mentiras, que eu ia ficar linda, que toda menina sonha em entrar na igreja jogando pétalas de flores para a noiva... Até parece! Na época pelo menos eu pude recusar. Mas o choro da minha tia foi golpe baixo. Dizer que o casamento dela perderia a graça se eu não participasse da cerimônia foi totalmente chantagem emocional! Me diz, como um casamento pode perder a graça tendo o tio Leo como noivo? Pois é, até aquele momento eu pensava que ele era o amor da minha vida. Que aquela era a maior intensidade de adoração que eu poderia dedicar a alguém. Eu invejava a minha tia com todas as minhas forças, o meu maior sonho era que ele desistisse de se casar com ela por minha causa... Tá, eu sei que sou dez anos mais nova do que ele, mas e daí? Para o amor não existe idade! E não é como se a minha tia não tivesse outras opções... Ela é linda! Lembro perfeitamente do ator que despencou de Hollywood só para colocar o coração aos pés dela. Coração que ela, por sinal, fez questão de pisar com toda força. Mas, veja bem, eu até entendo, afinal, ela fez isso por causa do tio Leo. Na verdade, isso de chamá-lo de “tio” é meio chato, mas ele que me induz a isso. Toda vez que eu falo “Leo”, ele replica: “Tio Leo”. Então eu já o chamo assim porque, né? Faço tudo o que ele quiser. E esse foi o outro motivo pelo qual eu me submeti àquela situação vexaminosa. O “tio” Leo também me pediu para ser dama de honra. Com aquele sorriso lindo, que sempre realça a covinha fofa que ele tem. E resistir ao choro da tia Fani e ao sorriso do tio Leo é uma missão impossível, pode acreditar. Por isso, eu topei entrar na igreja com aquele vestido ridículo, ainda que fosse a última coisa que eu desejasse na vida. Mas juro que, se eu soubesse o que ia acontecer no casamento, eu teria recusado. Teria colocado uma música de estourar os tímpanos, para não ter que ouvi-la chorar me implorando para ser dama. E teria pregado os olhos com Super Bonder, para não ter que ver a covinha dele me convencendo do mesmo. Se eu pudesse voltar no tempo, certamente seria isso o que eu faria. Assim, nada do que veio depois aconteceria. Assim, eu não saberia o que era me apaixonar de verdade pela primeira vez... e não ser correspondida. 14


Capítulo 1

Coisas que eu sei

O medo mora perto das ideias loucas

Coisas que eu sei

Se eu for, eu vou assim

Não vou trocar de roupa É minha lei

(Coisas que eu sei – Danni Carlos)

“Você é que é a Juliana, a sobrinha da Fani?” Tirei um pouco os olhos do meu reflexo no espelho e vi que atrás de mim tinha uma menina que parecia o meu oposto: baixa, cabelos encaracolados, meio loura... Mas nós tínhamos algo idêntico: o vestido. “Você é que é a outra dama de honra?”, perguntei, me virando e a analisando ainda mais minuciosamente. Talvez por perceber meu olhar percorrendo cada detalhe dela, a menina colocou a mão na cintura, empinou o peito, provavelmente em uma tentativa de ficar um pouco mais alta, e disse, totalmente na defensiva: “Eu sou uma das outras damas. Que eu saiba, nós somos três... E você não respondeu a minha pergunta. Você é a sobrinha da Fani, não é?”. Como eu fiquei calada, ela me olhou de alto a baixo e acrescentou, meio para ela mesma: “Porque você não se parece nada com a prima do Leo...”. Franzi um pouco as sobrancelhas e cruzei os braços. Era óbvio, não era? Claro que eu era a sobrinha da Fani! Todo mundo falava que eu me parecia com ela... É óbvio que eu não concordo


– ela é mais bonita do que eu jamais conseguirei ser –, mas tenho que admitir que nós temos alguns traços em comum. Como os olhos, que são da mesma cor, ainda que os meus sejam maiores. E temos também o mesmo tipo de cabelo, completamente escorrido. E até temos a mesma altura, apesar de saber que eu devo crescer mais, afinal, meus pais são bem altos... Mas ninguém teria dúvidas sobre eu ser parente dela ou do Leo. Quer dizer, do tio Leo. “A prima do Leo se chama Letícia”, foi tudo que eu falei para aquela baixinha com ares de sabichona. “Ela não chegou ainda. Deve estar atrasada... como você.” Eu me virei novamente para o espelho e pelo canto do olho tentei descobrir onde minha mãe tinha se enfiado. Estávamos em uma das salas de apoio da igreja, um local que o cerimonial tinha reservado para as damas, os pais dos noivos e os parentes mais próximos esperarem. E até um segundo atrás minha mãe estava ali! Ela não sabia, mas, na minha bolsa, que estava com ela, eu havia escondido meu celular com meus fones, apesar de ela ter dito para eu não trazer. Meu plano era escapar no meio da festa e ir para algum canto do condomínio, onde eu pudesse sofrer em paz, na companhia apenas das minhas músicas. Mas de repente senti vontade de fazer isso naquele exato minuto. Porque, se eu enfiasse um fone em cada ouvido, a tal menina desistiria de conversar e me deixaria sozinha com os meus pensamentos! Porém, antes que eu pudesse localizar a minha mãe, a porta se abriu e revelou outra garota. Essa não era tão baixa, mas também não era muito alta. Tinha cabelos castanho-claros, compridos, com cachos que eu instantaneamente invejei. Não eram cachinhos naturais como os da outra menina. Eram como aqueles com que as influencers sempre aparecem nas redes sociais, largos e sedosos, provavelmente feitos com a ajuda de algum cabeleireiro bem profissional. Além do cabelo perfeito, os olhos dela eram verde-claros, do tipo que dão vontade de arrancar e roubá-los para a gente. Dei um suspiro, pois sabia perfeitamente quem ela era, mesmo só a tendo visto uma vez. “Oi, Letícia”, falei desanimada, desejando os meus fones de ouvido mais do que nunca. Pelo que eu me lembrava do ano anterior, 16


no jantar de noivado da tia Fani, aquela menina era muito metida. Ela se achava tão adulta! Só ficava falando de garotos, perguntando se eu namorava alguém... Caramba, na época do noivado eu ainda tinha 13 anos! É claro que eu não namorava! Na verdade, nem havia beijado ninguém. Quero dizer... eu havia sido beijada. Mas quando a gente não retribui não conta, né? Só que ela, que era poucos meses mais velha do que eu, já havia ficado com sete garotos, se bem me lembro. Sete. Isso dá mais de meio menino para cada ano de vida! “Oi, Leca!” A voz da baixinha me assustou um pouco. Eu estava tão concentrada nas minhas recordações que até tinha me esquecido dela. Mas por que ela estava chamando a Letícia pelo apelido? Elas já se conheciam? “Vocês já se conhecem?”, perguntei sem conseguir me conter. A Letícia estreitou os olhos, como se estivesse se questionando o mesmo, e então a outra falou: “Nós nos conhecemos em um cruzeiro, há uns... dois anos? Eu sou a Cecília, amiga do seu primo! Lembra?”. “Ah! Oi, Cecília!” A Letícia se aproximou e as duas se cumprimentaram com beijinhos. “O Leo fala muito de você. Confesso que fiquei até com ciúmes depois daquela viagem... Era só Cecília pra lá, Cecília pra cá... Nunca entendi como o meu primo podia ter uma amiga da minha idade!” As duas riram e começaram a falar do tal cruzeiro, como se eu não estivesse ali. Revirei os olhos e voltei a desejar meus fones, ainda mais revoltada. Como assim ela era amiga do meu Leo? Porém, dois minutos depois, a porta tornou a se abrir. Fiquei pensando se seria uma quarta dama de honra, da qual eu não tivesse conhecimento, mas quem apareceu foi a minha avó, se abanando e com a maior cara de brava. Eu estava acostumada com a minha avó, mas as outras meninas não. Por isso mesmo, elas se calaram no instante em que a viram. A expressão animada delas deu lugar a uma de medo, como se fosse o Lord Voldemort que tivesse aparecido. “O que vocês estão fazendo?”, minha avó perguntou olhando para nós três. “Fofocando? Pelo amor de Deus! Já era pra vocês estarem na porta da igreja! Ninguém da organização veio avisar 17


vocês? O fotógrafo quer fazer um retrato das damas e dos pajens antes de começar o casamento, enquanto vocês ainda não estão com a roupa suja e amarrotada! E, agora que finalmente o Pedro e o Rafael pararam de brincar de se esconder, vocês é que estão aqui fazendo hora!”. Começamos a nos mover, mas ela me segurou pelos ombros e aproximou o rosto do meu. “Espera, Juliana! O que aconteceu com seus olhos? Você tirou o rímel?” Olhei para o espelho depressa e vi que eu estava exatamente do jeito que tinha saído do salão, duas horas antes: horrível. Completamente fake, parecendo uma palhaça com aquela quantidade de produtos na cara e no cabelo. Antes eu tivesse mesmo tirado o rímel, assim pelo menos eu estaria conseguindo piscar direito. A minha avó enfiou a mão na bolsa, provavelmente para pegar mais maquiagem para tentar (em vão) me embelezar, enquanto continuava a falar: “Eu acabei de ver entre os convidados a minha amiga Lourdinha, e ela trouxe o neto como eu pedi. Quero te apresentar e sei que vocês vão se dar muito bem! É aquele que eu sempre comento com você, o pai é desembargador... Tenho certeza de que ele vai seguir o mesmo caminho! Ele vem de uma família tão boa, Juliana... Seria um sonho se você, tão novinha, já agarrasse um bom partido desses. Mas para isso você tem que ficar bonita pelo menos uma vez na vida!” Eu já estava acostumada com os “elogios” da minha avó, mas ainda assim senti uma dorzinha no peito. Se nem a minha própria família me achava atraente, realmente eu era um caso perdido... Foi quando a tal Cecília falou: “Eu acho que a Juliana está linda, a maquiagem ficou bem natural, combinou perfeitamente com ela...”. Olhei admirada, sentindo um traço de simpatia por aquela menina pela primeira vez. Mas então a minha avó arregalou os olhos e colocou a mão no peito: “Meu Deus, mas o que é isso? Quem é você?”. Se ficou sem graça, ela não demonstrou, porque apenas estendeu a mão em direção à minha avó, dizendo: “Cecília. Muito prazer. Eu sou convidada do Leo, a dama que vai entrar na frente”. E, como se estivesse se desculpando, completou: “Por causa da minha altura... Eu sou a mais baixa das três”. 18


“É claro que você é convidada do Leo!” A minha avó ignorou o braço que a Cecília continuava estendendo, mas continuou a olhar para ela, como se a garota estivesse com um abacaxi dependurado no pescoço. “Se você fosse conhecida da minha filha, com certeza não...” Ela interrompeu a fala, o que me fez dar um suspiro aliviado. Eu conhecia bem as críticas da minha avó. Eram do tipo que faziam a gente ter vontade de chorar. Só que aquela Cecília não parecia chorar fácil, caso contrário teria aberto o maior berreiro quando a minha avó tornou a falar no segundo seguinte, me fazendo até fechar os olhos... “Escuta aqui, garota, onde está a sua mãe? Será que ela não te ensinou que em casamentos as pessoas devem se arrumar devidamente? O seu cabelo... Parece que você acabou de acordar! Por que não fez uma escova, passou chapinha, o domou de alguma forma?” “A minha mãe e o meu pai já estão sentados lá na frente da igreja, eles queriam pegar um lugar bom para me ver entrar”, a menina respondeu tranquilamente, o que me surpreendeu mais uma vez. Se fosse comigo, eu já teria gritado há muito tempo para ela me deixar em paz... Mas a Cecília apenas balançou os ombros e continuou: “E sobre o meu cabelo, bem, eu gosto dos meus cachinhos. Acho que combinam com o meu rosto”. “Queridinha...” Minha avó se aproximou mais dela. “Aquilo ali são cachos que combinam com o rosto de alguém.” Ela apontou para a Letícia, que abriu um leve sorriso, parecendo bem orgulhosa de si mesma. “Mas posso ver que o seu cabelo tem um certo potencial. A cor é bonita, e, se você deixá-lo crescer, hidratá-lo duas vezes por semana e cortar as pontas a cada três meses, certamente valorizará o seu rosto. Mas do jeito que está aí...” Ela virou a cabeça de um lado para o outro e respirou fundo. “Infelizmente não há nada que possamos fazer, não temos tempo. O casamento vai começar em menos de meia hora! Além do mais, está uma loucura lá fora. Esse cerimonial parece que é completamente despreparado, não entendo como pôde piorar tanto de um ano para o outro, no casamento do Alberto deu tudo certo!” 19


A vovó devia estar com amnésia, porque eu me lembrava perfeitamente de que no casamento do tio Alberto ela havia dito exatamente a mesma coisa: que o cerimonial era péssimo, que as pessoas não sabiam se portar na igreja, que se não fosse por ela a festa teria sido um caos... De repente uma mulher da organização chegou, toda sorridente e parecendo bem tranquila, o que fez a minha avó se estressar ainda mais. Aproveitando que ela estava dando uma bronca na moça a respeito de pontualidade, dei uma última olhada no espelho. Eu estava preocupada se realmente estava tudo certo com o meu rímel. E, enquanto conferia, percebi pelo canto do olho que a Cecília estava passando a mão pelo cabelo, em uma tentativa de alisá-lo. Olhei para a Letícia e ela estava parada perto da porta, bocejando e olhando para as unhas, como se estivesse achando um tédio estar ali. Pelo visto, nós três tínhamos algo em comum além do vestido... A vontade de fugir daquele lugar.

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A música da minha vida - Volume 1 by Grupo Autentica - Issuu