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A ilha das mulheres do mar

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© Asís G. Ayerbe

LISA SEE é autora best-seller do

New York Times e tem na cultura dos antepassados suas principais referências como escritora. Em 1996, lançou seu primeiro livro, On Gold Mountain: The One-Hundred-Year Odyssey of My Chinese-American Family [Na Montanha de Ouro: a odisseia de cem anos da minha família sino-americana], que rapidamente se tornou um sucesso nos Estados Unidos. Em 1997, publicou o aclamado A rede da flor, indicado ao Edgar Award na categoria Melhor Romance de Estreia daquele ano.

Young-sook e Da-ja crescem unidas por uma amizade profunda e pelo desejo de conquistar seu lugar entre as lendárias haenyeo. Mas a vida das duas é marcada por fardos difíceis de carregar: ao longo de décadas, elas enfrentam perdas familiares, casamentos arranjados, maternidade e as constantes ameaças do oceano. Ao mesmo tempo, veem a Coreia se transformar radicalmente a partir da Segunda Guerra Mundial e da ocupação japonesa, que traz consequências devastadoras para o país. Inspirado na história real das mergulhadoras de Jeju, A ilha das mulheres do mar é um romance emocionante sobre amizade, lealdade e a capacidade de seguir em frente mesmo quando o destino parece determinado a nos separar daqueles que mais amamos.

ISBN 978-65-6002-156-3

9 786560 021563

A ILHA DAS MULHERES DO MAR

N

a ilha de Jeju, na Coreia do Sul, existe uma tradição singular: há muitas gerações, mulheres desafiam o mar em mergulhos profundos, em busca de sustento para suas famílias. Conhecidas como haenyeo, essas mergulhadoras formam comunidades marcadas pela coragem, pela solidariedade e por uma organização social incomum, na qual as mulheres ocupam o centro da vida econômica e familiar.

LISA SEE

A história das lendárias mergulhadoras de Jeju ganha vida neste brilhante romance sobre amizade, coragem e perdão.

AUTORA BEST-SELLER

DO NEW YORK TIMES

LISA SEE Um romance inesquecível baseado na história real das mergulhadoras coreanas de Jeju. Jeju.

“Fiquei fascinada desde o instante em que adentrei o universo vibrante e pouco conhecido das mergulhadoras de Jeju. Ninguém escreve sobre a amizade entre mulheres, com todas as suas sombras e luzes, com tanta sensibilidade e profundidade quanto Lisa See.” SUE MONK KIDD autora de A vida secreta das abelhas “Lisa See é mestre em explorar os pontos de encontro entre família, amizade e História. Neste romance, ela alcança novos patamares ao retratar a sociedade matrifocal das haenyeo de Jeju, dividida entre a tradição e a modernidade. Acompanhando guerras e gerações, esta é, acima de tudo, uma linda história sobre duas mulheres cujas vidas se entrelaçam de forma indissociável.” JODI PICOULT autora de A loucura do mel “Comovente, arrebatador e belamente escrito, A ilha das mulheres do mar mergulha o leitor em uma história sem igual, nos lembrando da força que as mulheres precisam encontrar – e frequentemente encontram – para sobreviver.” KRISTIN HANNAH autora de Os quatro ventos


tradução Natália Chagas Máximo


Copyright © 2019 Lisa See Copyright desta edição © 2026 Editora Vestígio Título original: The Island of Sea Women Publicado originalmente por Scribner, um selo da Simon & Schuster, Inc. Direitos de tradução representados por Sandra Dijkstra Literary Agency e Sandra Bruna Agencia Literaria, SL. Todos os direitos reservados. Todos os direitos reservados pela Editora Vestígio. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

direção editorial

diagramação

Arnaud Vin

Waldênia Alvarenga

edição e preparação de texto

pesquisa iconográfica

Samira Vilela

Ludymilla Borges

revisão

Claudia Vilas Gomes capa

Alberto Bittencourt (sobre fotografia de Zena Holloway e imagens de Getty Images)

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil

See, Lisa A ilha das mulheres do mar / Lisa See ; tradução Natália Chagas Máximo. -- São Paulo : Vestigio Editora, 2026. Título original: The Island of Sea Women ISBN 978-65-6002-156-3 1. Coreia (Sul) - História 2. Ficção histórica 3. Ficção norteamericana 4. Segunda Guerra Mundial - 1939 -1945 I. Título. 26-370342.1

CDD-813

Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura norte-americana 813 Maria Alice Ferreira - Bibliotecária - CRB-8/7964

A VESTÍGIO É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA São Paulo Av. Paulista, 2.073 . Conjunto Nacional Horsa I . Salas 404-406 . Bela Vista 01311-940 São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468 www.editoravestigio.com.br SAC: atendimentoleitor@grupoautentica.com.br

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DIA 1 2008


Há uma mulher idosa na praia, sentada sobre uma almofada. Está separando as algas que a maré trouxe para a areia. Ela se acostumou a passar o tempo na água, mas, mesmo em terra, permanece atenta ao ambiente. Jeju é seu lar, uma ilha conhecida pelas Três Abundâncias: vento, pedras e mulheres. Hoje, a mais caprichosa delas – o vento – não passa de uma brisa suave. Nem uma única nuvem mancha o céu. O sol aquece sua cabeça, o pescoço e as costas através do boné e das roupas. Tão reconfortante. Sua casa se ergue sobre a costa rochosa, de frente para o mar. Não parece grande coisa – apenas duas pequenas construções de pedra nativa –, mas a localização… Seus filhos e netos já haviam sugerido que ela os deixasse transformar o lugar em um restaurante e um bar. – Ah, vovó, você vai ficar rica. Nunca mais vai precisar trabalhar. Uma de suas vizinhas fez exatamente o que a geração mais jovem pediu. Agora, a casa da mulher é uma pousada e um restaurante italiano. Na praia de Young-sook. No seu vilarejo. Ela jamais permitirá que isso aconteça com sua casa. – Nem todo o dinheiro dos bolsos de toda a Coreia me faria sair daqui – rebateu Young-sook inúmeras vezes. Como poderia? Sua casa é o ninho onde guarda a alegria, as risadas, as tristezas e os arrependimentos de sua vida. Ela não está sozinha em seu trabalho na praia. Outras mulheres da sua idade – por volta dos 89 anos – também remexem nas algas que vão parar na areia, guardando o que pode ser vendido em pequenos sacos e deixando o resto para trás. No caminho elevado que separa a enseada da estrada, jovens casais – provavelmente em lua de mel – caminham de mãos dadas, com as 7


cabeças inclinadas uma para a outra, às vezes até se beijando na frente de todo mundo, em plena luz do dia. Ela vê uma família de turistas, claramente vinda do continente. As crianças e o marido são fáceis de identificar, com suas camisetas de bolinhas combinando e suas bermudas verde-limão. A esposa usa a mesma camiseta de bolinhas, mas todo o restante da pele está escondido do sol por calças compridas, mangas protetoras, luvas, chapéu e uma máscara de tecido. Crianças do vilarejo escalam as rochas que se estendem da areia até o mar. Logo estão brincando nas águas rasas, rindo e desafiando umas às outras para ver quem chega primeiro à pedra mais distante, encontra um pedaço de vidro polido ou, se tiver sorte, descobre um ouriço-do-mar. Ela sorri para si mesma. Como a vida desses pequenos será diferente… A mulher também observa outras pessoas que, sem esconder a curiosidade, a encaram fixamente antes de se voltarem para as outras senhoras que estão na praia naquele dia. Qual das vovós parece mais simpática? Mais acessível? O que essas pessoas não entendem é que Young-sook e suas amigas também estão avaliando-as. São acadêmicos, jornalistas ou documentaristas? Vão pagar? Sabem alguma coisa sobre as haenyeo, as mulheres do mar? Vão querer tirar fotos? Vão enfiar um microfone em seu rosto e fazer as mesmas perguntas previsíveis? – A senhora se considera uma avó do mar? Ou pensa em si mesma como uma sereia? – O governo classifica as haenyeo como um patrimônio cultural, uma tradição que está desaparecendo e precisa ser preservada, nem que seja apenas na memória. Como é ser uma das últimas? Se forem acadêmicas, essas pessoas vão querer falar sobre a cultura matrifocal de Jeju, explicando assim: – Não é um matriarcado. É uma sociedade centrada nas mulheres. E, então, começam a investigar: – A senhora realmente mandava na sua casa? Dava mesada ao seu marido? Muitas vezes aparece uma jovem para fazer a pergunta que Young-sook escutou a vida inteira: – É melhor ser homem ou mulher? Não importa qual seja a pergunta, Young-sook sempre responde da mesma maneira: – Eu fui a melhor haenyeo! 8


Ela prefere deixar por isso mesmo. Quando algum visitante insiste, responde com aspereza: – Se quiser saber sobre mim, vá ao Museu Haenyeo. Lá tem uma foto minha. Tem um vídeo sobre mim! Se ainda assim as pessoas não vão embora… Bem, então ela se torna ainda mais direta. – Me deixe em paz! Tenho trabalho a fazer! Sua reação costuma depender de como seu corpo está naquele dia. Hoje, o sol brilha, a água cintila, e ela sente nos ossos – mesmo sentada na areia – a leveza do mar, o movimento das ondas massageando as dores de seus músculos, o frio envolvente que acalma o calor nas articulações. Então, permite que tirem uma foto sua, chegando a afastar a aba do boné para que um jovem possa “ver seu rosto melhor”. Young-sook observa enquanto ele se aproxima, com toda a cautela, do assunto inevitavelmente delicado, até finalmente fazer a pergunta: – Sua família sofreu durante o Incidente de Três de Abril? Aigo, é claro que sofreu. É claro. Claro. Claro. – Todos na ilha de Jeju sofreram – responde. Mas isso é tudo o que dirá sobre o assunto. Para sempre. Melhor dizer que esse é o momento mais feliz de sua vida. E é mesmo. Ela ainda trabalha, mas não está ocupada demais para visitar as amigas e viajar. Agora pode olhar para suas bisnetas e pensar: “Essa é bonita”, “Essa é a mais inteligente até agora” ou “Aquela ali precisa se casar bem”. Seus netos e bisnetos lhe dão a maior alegria. Por que não conseguia pensar assim quando era mais jovem? Mas, naquela época, não poderia imaginar como sua vida acabaria se desenrolando. Não poderia imaginar o dia de hoje nem mesmo em sonho. O jovem se afasta. Tenta conversar com outra mulher, Kang Gu-ja, que está trabalhando cerca de dez metros à esquerda de Young-sook. Sempre mal-humorada, Gu-ja nem sequer ergue os olhos. O rapaz insiste e vai até a irmã caçula de Gu-ja, Gu-sun, que grita com ele: – Vá embora! Young-sook solta um resmungo de aprovação. Quando sua pequena sacola está cheia, ela se levanta com dificuldade e arrasta os pés até o conjunto de sacos maiores que vem enchendo. Esvazia a sacola menor e manca até uma parte da praia que ainda não foi tocada pelas outras mulheres. Acomoda-se novamente no chão, posicionando a almofada 9


sob o corpo. Suas mãos, embora nodosas pelo trabalho e profundamente marcadas por anos de exposição ao sol, continuam ágeis. O som do mar… O toque do ar quente… A consciência de que está protegida pelas milhares de deusas que vivem na ilha… Nem mesmo os xingamentos de Gu-sun conseguem estragar seu humor. Então, de soslaio, Young-sook percebe outro grupo familiar. Eles não usam roupas combinando nem são parecidos entre si. O marido é branco, a esposa é coreana e os filhos – um menino pequeno e uma adolescente – são mestiços. Young-sook não consegue evitar: ver aquelas crianças birraciais a deixa desconfortável. O menino veste shorts, uma camiseta de super-herói e tênis pesados. A garota usa shorts que mal cobrem o que deveriam cobrir e fones de ouvido encaixados nas orelhas, com fios descendo sobre os seios quase inexistentes. Young-sook supõe que o homem seja norte-americano e observa a família com cautela enquanto eles se aproximam. – Você é Kim Young-sook? – indaga a mulher, pálida e bonita. Quando Young-sook faz um leve aceno com a cabeça, a mulher continua: – Meu nome é Ji-young, mas todos me chamam de Janet. Young-sook experimenta o nome na língua. – Janet. – E este é meu marido, Jim, e meus filhos, Clara e Scott. Gostaríamos de saber se a senhora se lembra da minha avó. Janet fala… o quê, exatamente? Não é coreano, mas também não é o dialeto de Jeju. – O nome dela era Da-ja. O sobrenome da família era Han… – Não conheço essa pessoa. Um franzir muito leve enruga o espaço acima do nariz da mulher. – Mas vocês duas não moravam neste vilarejo? – Eu moro aqui, mas não sei de quem você está falando. A voz de Young-sook sai ainda mais áspera e alta que a de Gu-sun, fazendo com que as duas irmãs Kang olhem em sua direção. Está tudo bem? Mas a estrangeira não se deixa desencorajar. – Deixe-me mostrar uma foto dela. A mulher revira a bolsa, tira um envelope pardo e mexe nele até encontrar o que procura. Estende a mão e mostra a Young-sook uma fotografia em preto e branco de uma moça vestida com o traje de banho branco de antigamente. Os mamilos despontam sob o tecido como um par de olhos de polvo espiando 10


de dentro de uma caverna. O cabelo está escondido sob um lenço também branco. O rosto é redondo, os braços finos mostram músculos bem definidos, as pernas são fortes e seu sorriso é largo e desinibido. – Sinto muito – diz Young-sook. – Não a conheço. – Tenho mais fotos – continua a mulher. Enquanto Janet volta a fuçar dentro do envelope, folheando o que devem ser outras fotos, Young-sook sorri para o homem branco. – Você tem telefone? – pergunta em inglês, percebendo que sua pronúncia deve soar muito pior que o coreano da esposa dele. Ela então leva um telefone imaginário ao ouvido. Já usou essa tática muitas vezes para se livrar de intrusos inconvenientes. Se é uma jovem, costuma dizer: – Antes de responder suas perguntas, preciso falar com meu neto. Se é um homem, independentemente da idade, pergunta: – Você já é casado? Minha sobrinha-neta é linda e está na faculdade. Vou chamá-la para vocês se conhecerem. É incrível quantas pessoas caem em seus truques. De fato, o estrangeiro apalpa os bolsos em busca do celular. Ele sorri. Dentes muito brancos e perfeitamente alinhados, como os de um tubarão. Mas a adolescente saca o aparelho antes dele. É um daqueles iPhones novos, tal como os que Young-­ sook deu de aniversário para os bisnetos naquele ano. Sem nem sequer tirar os fones de ouvido, Clara diz: – Diga o número. O som da voz da adolescente deixa Young-sook ainda mais perturbada. A garota falou no dialeto de Jeju. Não é perfeito, mas é aceitável, e a entonação fez seus braços arrepiarem. Young-sook recita o número enquanto Clara digita no celular. Quando termina, a garota despluga os fones do aparelho e o estende para Young-sook, que se sente estranhamente paralisada. Por impulso – tem que ser impulso, não é? –, a adolescente se inclina e coloca o celular junto ao ouvido de Young-sook. Seu toque… é como lava… Uma pequena cruz, pendurada em uma corrente de ouro, escapa debaixo da camiseta de Clara e balança diante dos olhos da idosa. Só então ela se dá conta de que a mãe, Janet, também usa uma cruz. Os quatro estrangeiros a observam com expectativa. Acham que Young-­ sook vai ajudá-los. Ela fala rapidamente ao celular. A testa de Janet volta a franzir enquanto tenta compreender as palavras, mas Young-sook conversa 11


em puro dialeto de Jeju, que é tão diferente do coreano padrão quanto o francês é do japonês – pelo menos foi o que lhe disseram. Quando a ligação termina, Clara guarda o telefone no bolso de trás e observa, constrangida, a mãe mostrar mais fotografias. – Este é meu pai quando jovem – diz Janet, colocando uma imagem borrada diante dos olhos de Young-sook. – A senhora se lembra dele? Ela mostra outra foto. – Aqui está minha avó outra vez. Esta foi tirada no dia do casamento dela. Disseram-me que a moça ao lado dela é a senhora. Janet hesita por um momento, então pergunta com delicadeza: – A senhora não poderia conversar conosco por alguns minutos? Mas Young-sook já voltou a separar as algas, apenas lançando olhares ocasionais para as fotografias, sem deixar que nada em seu rosto revele os sentimentos guardados em seu coração. Alguns minutos depois, uma motocicleta com um pequeno carrinho preso atrás vem sacolejando pela praia. Quando chega até Young-sook, ela luta para se levantar. O homem estrangeiro segura seu cotovelo para ajudá-la a se equilibrar. Faz muito tempo desde que alguém tão branco a tocou, e ela se afasta instintivamente. – Ele só quer ajudar – diz Clara em seu dialeto infantil de Jeju. Young-sook observa os estranhos tentarem ajudar seu neto enquanto ele carrega os sacos de alga para a carroceria. Quando ele termina de ajeitar e prender tudo, a idosa sobe na parte de trás da moto e envolve a cintura do neto com os braços. Com o dorso da mão, dá um pequeno empurrão em suas costas. – Vamos! Depois que deixam a praia e sobem sacolejando até a estrada, ela diz em um tom mais suave: – Dirija por aí por um tempo. Não quero que vejam onde eu moro.

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PA R T E I

AMIZADE 1938


Engolindo o fôlego do mar Abril de 1938

Meu primeiro dia de trabalho no mar começou horas antes de o sol nascer, quando até os corvos ainda dormiam. Vesti-me e atravessei a escuridão até nossa latrina. Subi a escada que levava à pequena construção de pedra e me posicionei sobre o buraco no chão. Lá embaixo, nossos porcos já estavam reunidos, fungando ansiosamente. Num canto próximo da latrina, encostado na parede, havia um grande bastão para o caso de algum deles se empolgar demais e tentar saltar para cima. No dia anterior, precisei acertar um deles com bastante força. Devem ter se lembrado disso, porque naquela manhã ficaram esperando que meus assuntos particulares caíssem no chão antes de brigarem por eles. Voltei para casa, amarrei meu irmãozinho nas costas e saí para buscar água no poço do vilarejo. Foram necessárias três idas e vindas, carregando jarros de barro nas mãos, para conseguir água suficiente para nossas necessidades matinais. Depois, recolhi esterco para queimar no aquecimento e no preparo da comida. Isso também precisava ser feito cedo, porque havia muita competição com outras mulheres e meninas do vilarejo. Com minhas tarefas concluídas, meu irmãozinho e eu voltamos para casa. Três gerações da minha família viviam dentro do mesmo terreno, com Mamãe, Papai e nós, as crianças, na casa grande, e Vovó na casa pequena, do outro lado do pátio. Ambas as construções eram feitas de pedra e tinham telhados de palha, presos com pedras adicionais para impedir que o vento da ilha os levasse embora. A casa grande tinha três cômodos: uma cozinha, o cômodo principal e um quarto especial para as mulheres usarem na noite de seus casamentos e depois de terem dado à luz. No cômodo principal, lamparinas de óleo tremeluziam e estalavam. Nossos colchonetes de dormir já haviam sido dobrados e empilhados contra a parede. 15


Vovó já estava acordada, vestida e bebendo água quente. Tinha o cabelo coberto por um lenço. Seu rosto e suas mãos eram ossudos e da cor de castanhas. Meus dois primeiros irmãos, de 12 e 10 anos, estavam sentados de pernas cruzadas no chão, com os joelhos encostados. Diante deles, o Terceiro Irmão se remexia como só um menino de 7 anos consegue fazer. Irmãzinha, seis anos mais nova do que eu, ajudava Mamãe a arrumar três cestos. O rosto de Mamãe estava concentrado enquanto verificava e conferia tudo duas vezes para ter certeza de que não faltava nada, enquanto Irmãzinha tentava mostrar que já estava treinando para ser uma boa haenyeo. Papai serviu em tigelas a sopa rala de painço que havia preparado. Eu o amava. Ele tinha o rosto estreito da Vovó. Suas mãos longas e afiladas eram macias. Seus olhos, profundos e calorosos. Seus pés calejados quase sempre estavam descalços. Usava seu chapéu favorito de pele de cachorro puxado sobre as orelhas e várias camadas de roupa, o que ajudava a esconder o quanto sacrificava a própria alimentação para que os filhos pudessem comer mais. Mamãe, sem desperdiçar nem um instante sequer, sentou-se no chão conosco e amamentou meu irmãozinho enquanto comia. Assim que terminou a sopa e a mamada, entregou o bebê para o Papai. Como todos os maridos de haenyeo, ele passaria o resto do dia sob a árvore do vilarejo, na praça central de Hado, com outros pais. Juntos, cuidariam dos bebês e das crianças pequenas. Satisfeita ao ver que o Quarto Irmão estava tranquilo nos braços de Papai, Mamãe fez um gesto para que eu me apressasse. A ansiedade vibrou dentro de mim. Eu queria muito provar meu valor naquele dia. O céu estava começando a ficar rosado quando Mamãe, Vovó e eu saímos de casa. Agora que havia luz, eu podia ver meu hálito vaporoso surgir e desaparecer no ar frio. Vovó se movia devagar, mas Mamãe era eficiente em cada passo e gesto. Tinha braços e pernas fortes. Seu cesto estava preso às costas, e ela me ajudou com o meu, ajustando as tiras. Ali estava eu, indo trabalhar, ajudando a alimentar e a cuidar da minha família e tornando-me parte da longa tradição das haenyeo. De repente, eu me senti mulher. Mamãe ergueu o terceiro cesto, segurando-o à frente do corpo, e juntas atravessamos a abertura no muro de pedra que protegia nosso pequeno pedaço de terra de olhares curiosos e do vento incessante. Seguimos pelo olle – um dos milhares de caminhos murados de pedra que passavam entre as casas e nos permitiam cruzar a ilha em várias direções. Permanecíamos alertas à presença de soldados japoneses. A Coreia já era uma colônia do Japão havia vinte e oito anos. Nós os odiávamos, e eles a nós. Eram cruéis. Roubavam comida. 16


No interior, levavam o gado. Tomavam, tomavam e tomavam. Tinham assassinado os pais da Vovó, e ela os chamava pejorativamente de chokpari, ou “pés-fendidos”.* Mamãe sempre dizia que, se algum dia eu estivesse sozinha e visse colonos – soldados ou civis –, deveria correr e me esconder, porque eles haviam arruinado muitas meninas em Jeju. Viramos uma esquina e entramos em um trecho longo e reto do caminho. À frente, ao longe, minha amiga Da-ja saltava de um pé para o outro para se manter aquecida, e também por empolgação. Sua pele era perfeita, e a luz da manhã brilhava em suas bochechas. Eu tinha crescido na parte de Gul-dong de Hado, enquanto Da-ja vivia na parte de Sut-dong, e nós duas sempre nos encontrávamos naquele lugar. Antes mesmo de chegarmos até ela, Da-ja se curvou para demonstrar gratidão e humildade diante de Mamãe, que inclinou a cintura apenas o suficiente para reconhecer sua deferência. Então Mamãe, sem dizer uma palavra, prendeu o terceiro cesto nas costas de Da-ja. – Vocês duas aprenderam a nadar juntas – disse Mamãe. – Observaram e adquiriram habilidades como aprendizes. Você, Da-ja, trabalhou especialmente duro. Eu não me incomodava que Mamãe destacasse Da-ja. Ela merecia. – Nunca poderei agradecer o suficiente – disse Da-ja. Sua voz era delicada como pétalas de flor. – A senhora foi uma mãe para mim, e eu sempre serei grata. – Você é como uma filha para mim – respondeu Mamãe. – Hoje, o trabalho de Halmang Samseung está terminado. Como a deusa que supervisiona a gravidez, o parto e a criação de uma criança até os 15 anos, ela agora está liberada de suas responsabilidades. E continuou: – Muitas meninas têm amigas, mas vocês duas são mais do que amigas. Vocês são como irmãs, e espero que cuidem uma da outra hoje e todos os dias, como fariam aquelas ligadas pelo sangue. Era tanto uma bênção quanto um aviso. Da-ja foi a primeira a expressar seus medos. – Entendo sobre engolir o fôlego do mar antes de mergulhar. Preciso manter o máximo de ar possível dentro de mim. Mas e se eu não souber quando subir? E se não conseguir fazer um bom sumbisori? * A expressão faz referência aos tradicionais calçados japoneses divididos ao meio, como os tamancos geta e as meias tabi. (N. E.) 17


Engolir o fôlego do mar é a técnica usada por todas as haenyeo para encher os pulmões de ar suficiente antes de submergir. O sumbisori é o som especial – como um assobio ou o chamado de um golfinho – que uma haenyeo faz quando rompe a superfície do mar e solta o ar que segurou nos pulmões, seguido de uma profunda inspiração. – Puxar o ar não deve ser difícil – explicou Mamãe. – Você respira todos os dias enquanto caminha pela terra. – Mas e se eu ficar sem ar nas profundezas da água? – questionou Da-ja. – Inspirar, expirar. Toda haenyeo iniciante se preocupa com isso – disse Vovó, antes que Mamãe pudesse responder. Às vezes ela era impaciente com Da-ja. – Seu corpo saberá o que fazer – continuou Mamãe, de forma tranquilizadora. – E, mesmo que não saiba, eu estarei lá com vocês. Sou responsável pelo retorno seguro de cada mulher à costa. Escuto o sumbisori de todas as integrantes do nosso coletivo. Juntos, nossos sumbisori criam uma canção do ar e do vento em Jeju. Nosso sumbisori é o som mais profundo do mundo. Ele nos conecta ao futuro e ao passado. Nosso sumbisori nos permite primeiro servir nossos pais e depois nossos filhos. Isso me confortou, mas então percebi Da-ja me olhando com expectativa. No dia anterior, nós havíamos combinado de contar a Mamãe sobre os nossos medos. Da-ja já tinha falado a respeito do dela, mas eu hesitava em revelar o meu. Havia muitas maneiras de morrer no mar. E eu estava com medo. Mamãe podia dizer que Da-ja era como uma filha, e eu a amava por amar minha amiga, mas eu era uma filha de verdade, e não queria que ela me visse como inferior a Da-ja. Fui salva de precisar dizer qualquer coisa quando Mamãe começou a andar. Da-ja e eu a seguimos, com Vovó vindo logo atrás. Passamos por casas e mais casas, todas de pedra, com telhados de palha. A praça principal estava deserta, exceto pelas mulheres, que eram atraídas para o mar pelo cheiro salgado do ar e pelo som das ondas. Pouco antes de chegar à praia, paramos para colher um punhado de folhas de artemísia selvagem, que colocamos em nossos cestos. Viramos outra esquina e alcançamos a costa. Passamos por rochas afiadas enquanto nos dirigíamos ao bulteok, o espaço do fogo. Era uma estrutura circular, sem teto, feita de rochas vulcânicas empilhadas. Em vez de uma porta, duas paredes curvas se sobrepunham para impedir que quem estivesse do lado de fora visse o interior. Havia uma estrutura semelhante nas águas rasas. Era ali que as pessoas se banhavam 18


e lavavam roupa. E ao largo da costa, onde a água não chegava acima de nossos joelhos, havia uma área cercada por pedras. As anchovas entravam ali quando a maré estava alta, ficavam presas quando a maré baixava e então nós avançávamos pela água com redes para capturá-las. Havia sete bulteok em Hado, um para o coletivo de mergulho de cada bairro. Nosso grupo tinha trinta integrantes. Pela lógica, a entrada do nosso bulteok deveria ser voltada para o mar, já que as haenyeo vão e voltam dele o dia inteiro, mas a entrada na parte de trás criava uma barreira extra contra os ventos constantes que sopram da água. Acima do estrondo das ondas, podíamos ouvir as vozes das mulheres provocando, rindo e trocando zombarias já conhecidas. Quando entramos, elas se viraram para ver quem havia chegado. Todas usavam casacos acolchoados e calças grossas. Da-ja colocou seu cesto no chão e correu para o fogo. – Não precisa mais se preocupar em cuidar do fogo agora – disse Yang Do-saeng, com bom humor. Ela tinha maçãs do rosto altas e cotovelos pontudos. Era a única pessoa que eu conhecia que mantinha o cabelo em tranças o tempo todo. Era um pouco mais velha que minha mãe, e as duas eram parceiras de mergulho e melhores amigas. O marido de Do-saeng lhe dera apenas um filho e uma filha, nada mais. Uma tristeza, certamente. Mesmo assim, nossas famílias eram muito próximas, especialmente porque o marido de Do-saeng estava no Japão trabalhando em uma fábrica. Naqueles dias, cerca de um quarto de todo o povo de Jeju vivia no Japão, porque uma passagem de balsa custava metade do preço de um único saco de arroz aqui em nossa ilha. O marido de Do-saeng estava em Hiroshima havia tantos anos que eu nem me lembrava dele. Mamãe ajudava Do-saeng nos rituais de culto aos ancestrais, e Do-saeng ajudava minha mãe quando ela precisava cozinhar para nossa família durante as cerimônias. – Você não é mais aprendiz. Hoje vai mergulhar conosco. Está pronta, menina? – Sim, tia – respondeu Da-ja, usando o honorífico, inclinando-se e recuando. As outras mulheres riram, fazendo Da-ja corar. – Parem de provocá-la – pediu minha mãe. – Essas duas já têm preocupações suficientes por hoje. Como chefe daquele coletivo, Mamãe sentou-se com as costas apoiadas na parte do muro de pedra que melhor protegia do vento. Depois que se acomodou, as outras mulheres ocuparam seus lugares em ordem rigorosa, 19


de acordo com o nível de habilidade de mergulho de cada uma. As avós ou mergulhadoras veteranas – aquelas como minha mãe, que haviam alcançado o nível mais alto no mar, mesmo que ainda não fossem avós de fato – tinham os melhores lugares. As avós de verdade, como a minha, não tinham um título específico: eram simplesmente avós e deviam ser tratadas com respeito. Embora já estivessem aposentadas do trabalho marítimo havia muito tempo, elas gostavam da companhia das mulheres com quem haviam passado a maior parte da vida. Agora, Vovó e suas amigas gostavam de separar as algas que o vento trazia para a praia ou de mergulhar perto da costa, nas águas rasas, para passar o dia trocando piadas e compartilhando suas dores. Como mulheres de respeito e honra, elas tinham os segundos assentos mais importantes no bulteok. Depois vinham as mergulhadoras intermediárias, mulheres entre 20 e 30 anos que ainda estavam aperfeiçoando suas habilidades. Da-ja e eu nos sentamos com as mergulhadoras iniciantes: as duas irmãs Kang, Gu-ja e Gu-sun, que eram dois e três anos mais velhas do que nós; e Yu-ri, filha de Do-saeng, que já tinha 19 anos. As três já tinham alguns anos de experiência mergulhando, enquanto Da-ja e eu éramos verdadeiras iniciantes. Mas nós cinco ocupávamos o nível mais baixo do coletivo, o que significava que nossos lugares ficavam perto da abertura do bulteok. O vento frio rodopiava ao nosso redor, e Da-ja e eu nos aproximamos mais do fogo. Era importante nos aquecermos o máximo possível antes de entrar no mar. Mamãe começou a reunião perguntando: – Esta praia tem comida? – Mais comida do que há grãos de areia em Jeju – respondeu Do-saeng, em tom cantado –, se tivéssemos abundância de areia em vez de pedras. – Mais comida do que em vinte luas – declarou outra mulher –, se houvesse vinte luas acima de nós. – Mais comida do que em cinquenta potes na casa da minha avó – acrescentou uma mulher que ficara viúva jovem demais –, se ela tivesse cinquenta potes. – Muito bem – disse Mamãe em resposta àquela troca ritualística de frases. – Então vamos discutir onde mergulharemos hoje. Em casa, a voz dela sempre parecia muito alta. Ali, era apenas uma entre muitas vozes altas, porque os ouvidos de todas as haenyeo acabam danificados pela pressão da água ao longo do tempo. Um dia, eu também teria a voz alta. O mar não pertence a ninguém, mas cada coletivo tinha direitos de mergulho atribuídos a territórios específicos: áreas próximas o suficiente da 20


costa para entrar caminhando, locais a vinte ou trinta minutos de nado da terra, ou regiões mais distantes no mar, acessíveis apenas por barco: uma enseada aqui, um planalto submerso um pouco além da costa, o lado norte desta ou daquela ilha, e assim por diante. Da-ja e eu escutávamos enquanto as mulheres consideravam as possibilidades. Como iniciantes, ainda não tínhamos conquistado o direito de falar. Mesmo as mergulhadoras intermediárias permaneciam em silêncio. Mamãe rejeitou a maioria das propostas. – Aquela área está sendo muito explorada pela pesca – disse a Do-saeng. Em outro momento, respondeu: – Assim como em terra, nossos campos marítimos também seguem as estações. Para respeitar os períodos de reprodução, não se pode recolher conchas do fundo do mar entre julho e setembro, e o abalone não pode ser colhido de outubro a dezembro. É nosso dever cuidar e administrar o mar. Se protegermos nossos campos aquáticos, eles continuarão a nos sustentar. Por fim, ela tomou sua decisão: – Vamos remar até nosso cânion submarino, não muito longe daqui. – As mergulhadoras iniciantes não estão prontas para isso – contestou uma das veteranas. – Elas não são fortes o suficiente e também não conquistaram esse direito. Mamãe levantou a mão. – Naquela área, a lava derramada pela Avó Seolmundae formou o cânion rochoso. As paredes dele permitem que mergulhadoras de todos os níveis de habilidade explorem a água. As mais experientes podem mergulhar tão fundo quanto quiserem, enquanto as iniciantes podem recolher o que encontrarem nas partes mais próximas da superfície. As irmãs Kang mostrarão a Da-ja o que fazer. E gostaria que Yu-ri, filha de Do-saeng, cuidasse de Young-sook. Yu-ri logo se tornará uma mergulhadora intermediária, então esse será um bom treinamento para ela. Depois que Mamãe explicou, não houve mais objeções. As mães são mais próximas das mulheres de seu coletivo de mergulho do que dos próprios filhos. Naquele dia, minha mãe e eu começávamos a formar esse tipo de relação mais profunda. Observando Do-saeng e Yu-ri juntas, eu conseguia imaginar onde minha mãe e eu estaríamos em alguns anos. Aquele momento também me mostrou por que Mamãe havia sido escolhida como chefe. Ela era uma líder, e seu julgamento era valorizado. – Toda mulher que entra no mar carrega um caixão nas costas – advertiu ela às integrantes reunidas. – Neste mundo, no mundo submarino, 21


arrastamos os fardos de uma vida dura. Todos os dias atravessamos a fronteira entre a vida e a morte. Essas palavras tradicionais eram repetidas com frequência em Jeju, mas todas nós assentimos com seriedade, como se as estivéssemos ouvindo pela primeira vez. – Quando vamos ao mar, compartilhamos o trabalho e o perigo – acrescentou Mamãe. – Colhemos juntas, separamos juntas e vendemos juntas, porque o próprio mar é comunitário. Depois dessa última regra – como se alguém pudesse se esquecer de algo tão básico –, ela bateu duas vezes nas coxas para indicar que a reunião havia terminado e que era hora de nos mexermos. Enquanto minha avó e suas amigas saíam para trabalhar na praia, Mamãe fez um gesto para que Yu-ri me ajudasse a me preparar. Yu-ri e eu nos conhecíamos desde sempre, então naturalmente formávamos uma boa dupla. As irmãs Kang não conheciam Da-ja muito bem e provavelmente preferiam manter distância dela. Da-ja era órfã, e seu pai havia sido um colaborador, trabalhando para os japoneses na cidade de Jeju. Mas, gostassem ou não, as Kang tinham que obedecer às ordens de minha mãe. – Fique perto do fogo – aconselhou Yu-ri. – Quanto mais rápido se despir e se preparar, mais rápido estaremos na água. Quanto mais cedo entrarmos no mar, mais cedo voltaremos para cá. Agora faça o que eu fizer. Chegamos mais perto das chamas e tiramos nossas roupas. Ninguém demonstrava qualquer constrangimento. Era como se estivéssemos juntas no banho público. Algumas mulheres mais jovens estavam com a barriga grande, grávidas. Mulheres mais velhas tinham estrias. As ainda mais velhas tinham seios caídos de tanto viver e dar de si. O corpo de Da-ja e o meu também revelavam nossa idade. Tínhamos 15 anos, mas a dureza da vida – pouca comida, trabalho físico pesado e frio constante – fazia com que fôssemos magras como enguias. Nossos seios ainda não haviam começado a crescer, e apenas alguns fios de pelos apareciam entre nossas pernas. Ficamos ali, tremendo de frio, enquanto Yu-ri, Gu-ja e Gu-sun nos ajudavam a vestir nossas roupas de mergulho de três peças, feitas de algodão branco simples. A cor branca nos tornaria mais visíveis debaixo d’água e, dizia-se, também afastaria tubarões e golfinhos. Mas, naquele momento, percebi que a finura do tecido ajudaria muito pouco a nos manter aquecidas. – Finjam que Da-ja é um bebê e amarrem-na dentro do traje – disse Yu-ri às irmãs Kang. 22


Depois se voltou para mim e explicou: – Está vendo que as laterais estão abertas? Você as prende com esses cordões. Assim o traje pode ficar mais apertado ou mais folgado durante a gravidez ou com qualquer mudança de peso. Ela se inclinou para mais perto. – Mal posso esperar pelo dia em que direi à minha sogra que meu marido me deu um filho. Será um menino. Tenho certeza. Quando eu morrer, ele fará os rituais de culto aos ancestrais por mim. O casamento de Yu-ri estava marcado para o mês seguinte e, naturalmente, ela já sonhava com o filho que teria. Mas, naquele momento, sua expectativa era pouco importante para mim. Seus dedos gelados contra minha pele provocavam arrepios em todo o meu corpo. Mesmo depois de apertar as amarras o máximo possível, o traje ainda havia ficado largo. O mesmo aconteceu com Da-ja. Esses trajes sempre fizeram as haenyeo serem vistas como mulheres sem pudor, pois nenhuma coreana respeitável – seja no continente ou aqui na ilha – jamais mostraria tanta pele. Durante todo o tempo, Yu-ri continuou falando, falando e falando: – Meu irmão é muito inteligente e se dedica bastante à escola. Minha mãe podia ser a chefe do coletivo, mas Do-saeng tinha um filho que era o orgulho de todas as famílias de Hado. – Todos dizem que Jun-bu um dia irá ao Japão para estudar. Jun-bu era o único filho homem, e o presente da educação era concedido apenas a ele. Yu-ri e seu pai ajudavam no sustento da família, embora ainda não ganhassem tanto quanto Do-saeng. Já minha mãe precisava levantar todo o dinheiro para mandar meus irmãos à escola sem nenhuma ajuda do meu pai. Eles teriam sorte se conseguissem avançar além da escola primária. – Vou precisar trabalhar ainda mais para ajudar a pagar os estudos de Jun-bu e sustentar minha nova família. Yu-ri gritou para a mãe e a futura sogra do outro lado do cômodo: – Eu sou uma boa trabalhadora, não sou? Ela era conhecida em toda a província por ser uma tagarela. Parecia não ter preocupações e era uma boa trabalhadora, razão pela qual havia sido fácil encontrar um marido para ela. Yu-ri voltou sua atenção para mim. – Se seus pais a amam muito, vão arranjar um casamento para você aqui mesmo em Hado. Assim você poderá manter seus direitos de mergulho e ver sua família todos os dias. Então, percebendo o que havia dito, tocou o braço de Da-ja. 23


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A ilha das mulheres do mar by Grupo Autentica - Issuu