tradução Natália Chagas Máximo
Copyright © 2019 Lisa See Copyright desta edição © 2026 Editora Vestígio Título original: The Island of Sea Women Publicado originalmente por Scribner, um selo da Simon & Schuster, Inc. Direitos de tradução representados por Sandra Dijkstra Literary Agency e Sandra Bruna Agencia Literaria, SL. Todos os direitos reservados. Todos os direitos reservados pela Editora Vestígio. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
direção editorial
diagramação
Arnaud Vin
Waldênia Alvarenga
edição e preparação de texto
pesquisa iconográfica
Samira Vilela
Ludymilla Borges
revisão
Claudia Vilas Gomes capa
Alberto Bittencourt (sobre fotografia de Zena Holloway e imagens de Getty Images)
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
See, Lisa A ilha das mulheres do mar / Lisa See ; tradução Natália Chagas Máximo. -- São Paulo : Vestigio Editora, 2026. Título original: The Island of Sea Women ISBN 978-65-6002-156-3 1. Coreia (Sul) - História 2. Ficção histórica 3. Ficção norteamericana 4. Segunda Guerra Mundial - 1939 -1945 I. Título. 26-370342.1
CDD-813
Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura norte-americana 813 Maria Alice Ferreira - Bibliotecária - CRB-8/7964
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DIA 1 2008
Há uma mulher idosa na praia, sentada sobre uma almofada. Está separando as algas que a maré trouxe para a areia. Ela se acostumou a passar o tempo na água, mas, mesmo em terra, permanece atenta ao ambiente. Jeju é seu lar, uma ilha conhecida pelas Três Abundâncias: vento, pedras e mulheres. Hoje, a mais caprichosa delas – o vento – não passa de uma brisa suave. Nem uma única nuvem mancha o céu. O sol aquece sua cabeça, o pescoço e as costas através do boné e das roupas. Tão reconfortante. Sua casa se ergue sobre a costa rochosa, de frente para o mar. Não parece grande coisa – apenas duas pequenas construções de pedra nativa –, mas a localização… Seus filhos e netos já haviam sugerido que ela os deixasse transformar o lugar em um restaurante e um bar. – Ah, vovó, você vai ficar rica. Nunca mais vai precisar trabalhar. Uma de suas vizinhas fez exatamente o que a geração mais jovem pediu. Agora, a casa da mulher é uma pousada e um restaurante italiano. Na praia de Young-sook. No seu vilarejo. Ela jamais permitirá que isso aconteça com sua casa. – Nem todo o dinheiro dos bolsos de toda a Coreia me faria sair daqui – rebateu Young-sook inúmeras vezes. Como poderia? Sua casa é o ninho onde guarda a alegria, as risadas, as tristezas e os arrependimentos de sua vida. Ela não está sozinha em seu trabalho na praia. Outras mulheres da sua idade – por volta dos 89 anos – também remexem nas algas que vão parar na areia, guardando o que pode ser vendido em pequenos sacos e deixando o resto para trás. No caminho elevado que separa a enseada da estrada, jovens casais – provavelmente em lua de mel – caminham de mãos dadas, com as 7
cabeças inclinadas uma para a outra, às vezes até se beijando na frente de todo mundo, em plena luz do dia. Ela vê uma família de turistas, claramente vinda do continente. As crianças e o marido são fáceis de identificar, com suas camisetas de bolinhas combinando e suas bermudas verde-limão. A esposa usa a mesma camiseta de bolinhas, mas todo o restante da pele está escondido do sol por calças compridas, mangas protetoras, luvas, chapéu e uma máscara de tecido. Crianças do vilarejo escalam as rochas que se estendem da areia até o mar. Logo estão brincando nas águas rasas, rindo e desafiando umas às outras para ver quem chega primeiro à pedra mais distante, encontra um pedaço de vidro polido ou, se tiver sorte, descobre um ouriço-do-mar. Ela sorri para si mesma. Como a vida desses pequenos será diferente… A mulher também observa outras pessoas que, sem esconder a curiosidade, a encaram fixamente antes de se voltarem para as outras senhoras que estão na praia naquele dia. Qual das vovós parece mais simpática? Mais acessível? O que essas pessoas não entendem é que Young-sook e suas amigas também estão avaliando-as. São acadêmicos, jornalistas ou documentaristas? Vão pagar? Sabem alguma coisa sobre as haenyeo, as mulheres do mar? Vão querer tirar fotos? Vão enfiar um microfone em seu rosto e fazer as mesmas perguntas previsíveis? – A senhora se considera uma avó do mar? Ou pensa em si mesma como uma sereia? – O governo classifica as haenyeo como um patrimônio cultural, uma tradição que está desaparecendo e precisa ser preservada, nem que seja apenas na memória. Como é ser uma das últimas? Se forem acadêmicas, essas pessoas vão querer falar sobre a cultura matrifocal de Jeju, explicando assim: – Não é um matriarcado. É uma sociedade centrada nas mulheres. E, então, começam a investigar: – A senhora realmente mandava na sua casa? Dava mesada ao seu marido? Muitas vezes aparece uma jovem para fazer a pergunta que Young-sook escutou a vida inteira: – É melhor ser homem ou mulher? Não importa qual seja a pergunta, Young-sook sempre responde da mesma maneira: – Eu fui a melhor haenyeo! 8
Ela prefere deixar por isso mesmo. Quando algum visitante insiste, responde com aspereza: – Se quiser saber sobre mim, vá ao Museu Haenyeo. Lá tem uma foto minha. Tem um vídeo sobre mim! Se ainda assim as pessoas não vão embora… Bem, então ela se torna ainda mais direta. – Me deixe em paz! Tenho trabalho a fazer! Sua reação costuma depender de como seu corpo está naquele dia. Hoje, o sol brilha, a água cintila, e ela sente nos ossos – mesmo sentada na areia – a leveza do mar, o movimento das ondas massageando as dores de seus músculos, o frio envolvente que acalma o calor nas articulações. Então, permite que tirem uma foto sua, chegando a afastar a aba do boné para que um jovem possa “ver seu rosto melhor”. Young-sook observa enquanto ele se aproxima, com toda a cautela, do assunto inevitavelmente delicado, até finalmente fazer a pergunta: – Sua família sofreu durante o Incidente de Três de Abril? Aigo, é claro que sofreu. É claro. Claro. Claro. – Todos na ilha de Jeju sofreram – responde. Mas isso é tudo o que dirá sobre o assunto. Para sempre. Melhor dizer que esse é o momento mais feliz de sua vida. E é mesmo. Ela ainda trabalha, mas não está ocupada demais para visitar as amigas e viajar. Agora pode olhar para suas bisnetas e pensar: “Essa é bonita”, “Essa é a mais inteligente até agora” ou “Aquela ali precisa se casar bem”. Seus netos e bisnetos lhe dão a maior alegria. Por que não conseguia pensar assim quando era mais jovem? Mas, naquela época, não poderia imaginar como sua vida acabaria se desenrolando. Não poderia imaginar o dia de hoje nem mesmo em sonho. O jovem se afasta. Tenta conversar com outra mulher, Kang Gu-ja, que está trabalhando cerca de dez metros à esquerda de Young-sook. Sempre mal-humorada, Gu-ja nem sequer ergue os olhos. O rapaz insiste e vai até a irmã caçula de Gu-ja, Gu-sun, que grita com ele: – Vá embora! Young-sook solta um resmungo de aprovação. Quando sua pequena sacola está cheia, ela se levanta com dificuldade e arrasta os pés até o conjunto de sacos maiores que vem enchendo. Esvazia a sacola menor e manca até uma parte da praia que ainda não foi tocada pelas outras mulheres. Acomoda-se novamente no chão, posicionando a almofada 9
sob o corpo. Suas mãos, embora nodosas pelo trabalho e profundamente marcadas por anos de exposição ao sol, continuam ágeis. O som do mar… O toque do ar quente… A consciência de que está protegida pelas milhares de deusas que vivem na ilha… Nem mesmo os xingamentos de Gu-sun conseguem estragar seu humor. Então, de soslaio, Young-sook percebe outro grupo familiar. Eles não usam roupas combinando nem são parecidos entre si. O marido é branco, a esposa é coreana e os filhos – um menino pequeno e uma adolescente – são mestiços. Young-sook não consegue evitar: ver aquelas crianças birraciais a deixa desconfortável. O menino veste shorts, uma camiseta de super-herói e tênis pesados. A garota usa shorts que mal cobrem o que deveriam cobrir e fones de ouvido encaixados nas orelhas, com fios descendo sobre os seios quase inexistentes. Young-sook supõe que o homem seja norte-americano e observa a família com cautela enquanto eles se aproximam. – Você é Kim Young-sook? – indaga a mulher, pálida e bonita. Quando Young-sook faz um leve aceno com a cabeça, a mulher continua: – Meu nome é Ji-young, mas todos me chamam de Janet. Young-sook experimenta o nome na língua. – Janet. – E este é meu marido, Jim, e meus filhos, Clara e Scott. Gostaríamos de saber se a senhora se lembra da minha avó. Janet fala… o quê, exatamente? Não é coreano, mas também não é o dialeto de Jeju. – O nome dela era Da-ja. O sobrenome da família era Han… – Não conheço essa pessoa. Um franzir muito leve enruga o espaço acima do nariz da mulher. – Mas vocês duas não moravam neste vilarejo? – Eu moro aqui, mas não sei de quem você está falando. A voz de Young-sook sai ainda mais áspera e alta que a de Gu-sun, fazendo com que as duas irmãs Kang olhem em sua direção. Está tudo bem? Mas a estrangeira não se deixa desencorajar. – Deixe-me mostrar uma foto dela. A mulher revira a bolsa, tira um envelope pardo e mexe nele até encontrar o que procura. Estende a mão e mostra a Young-sook uma fotografia em preto e branco de uma moça vestida com o traje de banho branco de antigamente. Os mamilos despontam sob o tecido como um par de olhos de polvo espiando 10
de dentro de uma caverna. O cabelo está escondido sob um lenço também branco. O rosto é redondo, os braços finos mostram músculos bem definidos, as pernas são fortes e seu sorriso é largo e desinibido. – Sinto muito – diz Young-sook. – Não a conheço. – Tenho mais fotos – continua a mulher. Enquanto Janet volta a fuçar dentro do envelope, folheando o que devem ser outras fotos, Young-sook sorri para o homem branco. – Você tem telefone? – pergunta em inglês, percebendo que sua pronúncia deve soar muito pior que o coreano da esposa dele. Ela então leva um telefone imaginário ao ouvido. Já usou essa tática muitas vezes para se livrar de intrusos inconvenientes. Se é uma jovem, costuma dizer: – Antes de responder suas perguntas, preciso falar com meu neto. Se é um homem, independentemente da idade, pergunta: – Você já é casado? Minha sobrinha-neta é linda e está na faculdade. Vou chamá-la para vocês se conhecerem. É incrível quantas pessoas caem em seus truques. De fato, o estrangeiro apalpa os bolsos em busca do celular. Ele sorri. Dentes muito brancos e perfeitamente alinhados, como os de um tubarão. Mas a adolescente saca o aparelho antes dele. É um daqueles iPhones novos, tal como os que Young- sook deu de aniversário para os bisnetos naquele ano. Sem nem sequer tirar os fones de ouvido, Clara diz: – Diga o número. O som da voz da adolescente deixa Young-sook ainda mais perturbada. A garota falou no dialeto de Jeju. Não é perfeito, mas é aceitável, e a entonação fez seus braços arrepiarem. Young-sook recita o número enquanto Clara digita no celular. Quando termina, a garota despluga os fones do aparelho e o estende para Young-sook, que se sente estranhamente paralisada. Por impulso – tem que ser impulso, não é? –, a adolescente se inclina e coloca o celular junto ao ouvido de Young-sook. Seu toque… é como lava… Uma pequena cruz, pendurada em uma corrente de ouro, escapa debaixo da camiseta de Clara e balança diante dos olhos da idosa. Só então ela se dá conta de que a mãe, Janet, também usa uma cruz. Os quatro estrangeiros a observam com expectativa. Acham que Young- sook vai ajudá-los. Ela fala rapidamente ao celular. A testa de Janet volta a franzir enquanto tenta compreender as palavras, mas Young-sook conversa 11
em puro dialeto de Jeju, que é tão diferente do coreano padrão quanto o francês é do japonês – pelo menos foi o que lhe disseram. Quando a ligação termina, Clara guarda o telefone no bolso de trás e observa, constrangida, a mãe mostrar mais fotografias. – Este é meu pai quando jovem – diz Janet, colocando uma imagem borrada diante dos olhos de Young-sook. – A senhora se lembra dele? Ela mostra outra foto. – Aqui está minha avó outra vez. Esta foi tirada no dia do casamento dela. Disseram-me que a moça ao lado dela é a senhora. Janet hesita por um momento, então pergunta com delicadeza: – A senhora não poderia conversar conosco por alguns minutos? Mas Young-sook já voltou a separar as algas, apenas lançando olhares ocasionais para as fotografias, sem deixar que nada em seu rosto revele os sentimentos guardados em seu coração. Alguns minutos depois, uma motocicleta com um pequeno carrinho preso atrás vem sacolejando pela praia. Quando chega até Young-sook, ela luta para se levantar. O homem estrangeiro segura seu cotovelo para ajudá-la a se equilibrar. Faz muito tempo desde que alguém tão branco a tocou, e ela se afasta instintivamente. – Ele só quer ajudar – diz Clara em seu dialeto infantil de Jeju. Young-sook observa os estranhos tentarem ajudar seu neto enquanto ele carrega os sacos de alga para a carroceria. Quando ele termina de ajeitar e prender tudo, a idosa sobe na parte de trás da moto e envolve a cintura do neto com os braços. Com o dorso da mão, dá um pequeno empurrão em suas costas. – Vamos! Depois que deixam a praia e sobem sacolejando até a estrada, ela diz em um tom mais suave: – Dirija por aí por um tempo. Não quero que vejam onde eu moro.
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