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A Globo - Vol 3 (Metamorfose) 1999 - 2025

Page 1


ERNESTO RODRIGUES

A GLOBO 3 METAMORFOSE

ERNESTO RODRIGUES

A GLOBO METAMORFOSE

1999 • 2025

Copyright © 2026 Ernesto Rodrigues

Copyright desta edição © 2026 Autêntica Editora

Todos os direitos desta edição reservados pela Autêntica Editora Ltda. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

diretora editorial

Rejane Dias

editoras responsáveis

Rejane Dias

Rafaela Lamas

editor convidado

Ricardo Pereira revisão

Lívia Martins

projeto gráfico e capa

Diogo Droschi

(sobre imagem de Adobe Stock)

pesquisa iconográfica

Ludymilla Borges

diagramação

Guilherme Fagundes

Waldênia Alvarenga

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Rodrigues, Ernesto

A Globo : metamorfose : 1999-2025 / Ernesto Rodrigues. -- 1. ed. -- Belo Horizonte, MG : Autêntica Editora, 2026. -- (A Globo ; v. 3)

Bibliografia.

ISBN 978-65-5928-500-6

1. Televisão - Aspectos sociais - Brasil 2. Televisão e política - Brasil 3. TV Globo - História I. Título. II. Série.

25-324095.0

CDD-302.23450981

Índices para catálogo sistemático:

1. Brasil : TV Globo : Televisão : História : Sociologia 302.23450981

Cibele Maria Dias - Bibliotecária - CRB-8/9427

Belo Horizonte

Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520

Belo Horizonte . MG

Tel.: (55 31) 3465 4500

www.grupoautentica.com.br

São Paulo

Av. Paulista, 2.073, Conjunto Nacional Horsa I . Salas 404-406 . Bela Vista 01311-940 . São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468

SAC: atendimentoleitor@grupoautentica.com.br

Para Tadeu, João, Carolina, Mariana e Sylvia, pela paciência em todos esses anos.

TÍTULO

Mãos pesadas

O outro lado do real

O ano do rato

O patinho feio

Justiça com as próprias mãos

Por amor e ódio

Inferno na Torre, a novela

A intermediária

Servido a frio

O país atrás das grades

A geladeira do Serginho

O caldeirão do Projac

33

O Jornal Nacional acaba com o tabu dos assuntos proibidos, mas escorrega feio na briga pela audiência

Fim da inflação revela um país de muita TV e pouca geladeira, e muda o perfil do telespectador

Ratinho avança e revela os dois Brasis da noite da TV brasileira

Armados com o Linha Direta, o jornalismo e a dramaturgia da Globo invadem o território dos programas policiais

Marcelo Rezende, Gloria Perez e Roberto Talma tentam fazer da Globo um tribunal

A briga de audiência se instala para não mais sair do horário sagrado da novela das oito da Globo

Boni encomendou, Marluce rejeitou e o autor Silvio de Abreu pagou a conta de uma novela que no final deu a volta por cima no Ibope

Ana Maria Braga inaugura a metamorfose da Globo para tentar continuar poderosa no século 21

A volta de Jô Soares com a alma lavada, mesmo no horário da madrugada que o fez deixar a Globo

O arrastão de talentos comandado por Marluce Dias chega ao mercado da MPB, e a Globo resolve dançar conforme a nova música

O início sofrido da unanimidade chamada Altas Horas

Luciano Huck toma um castigo de dois anos antes de engrenar no Projac

JORNALISMO 21

AUDIÊNCIA 32

AUDIÊNCIA 36

JORNALISMO 45

PODER 56

DRAMATURGIA 61

DRAMATURGIA 65

ENTRETENIMENTO 72

ENTRETENIMENTO 81

ENTRETENIMENTO 86

ENTRETENIMENTO 90

ENTRETENIMENTO 94

De Benedito a Contardo

Entre prazos e egos

Os feiticeiros da noite

O reino de “Magda”

Por trás do pano

O aprendizado do cardeal

Glória

Verdades da madrugada

Réquiem glorioso

O milagre de Ariano

As dúvidas de Bucci e Conti

Sonos olímpicos

Bem amigos da Rede Globo (o negócio)

Bem amigos, da Rede Globo (o espetáculo)

Bem, amigos da Rede Globo (a notícia)

Preto no branco

Terra Nostra renova a paixão dos brasileiros e o mal-estar dos intelectuais com as telenovelas

A linha de montagem do Projac se transforma em uma novela dramática

A rotina dos autores de novela, os magos do horário nobre, cada um com um Brasil na cabeça

35

Sai de Baixo 1: uma sitcom politicamente incorreta conquista o país

Sai de Baixo 2: uma fogueira de egos e um prato cheio para a crítica e a academia

Os riscos éticos da cobertura ao vivo só aumentam para executivos de jornalismo que não entendiam muito de televisão

Glória Maria 1: a estrela do jornalismo da Globo

Glória Maria 2: audiência líquida e certa, alguma mistificação e um ou outro barraco

Glória Maria 3: a canonização identitária

O Auto da Compadecida encanta e derruba preconceitos

Mitos, fatos e um mistério revelado do Cedoc, o arquivo do jornalismo da Globo

Olimpíadas de Sidney: erros e solidão no meio da madrugada

A caixa-preta tóxica dos contratos de direitos esportivos

A Globo decide que esporte é espetáculo e não notícia

O desafio de contar o antes, o depois e o por debaixo do tapete do futebol

Minisséries da Globo fazem uma releitura da história do Brasil duas décadas antes do decolonialismo e da revolução identitária

Entre Manecos e Darlans

Um tal de Ali Kamel

Aço, concreto, fumaça e medo

Discípulos em guerra

Circo, lixeira ou laboratório?

A recaída do camelô

A casa do nada

Odiosfera

O outro paredão

A fábrica não parou

37

Os conservadores investem contra o Leblon de Manoel Carlos

A sucessão de Evandro Carlos de Andrade define o futuro do jornalismo da Globo

11 de Setembro: o mundo treme e o Jornal Nacional brilha

A disputa de poder em que ninguém perdeu nem ganhou no comando da redação da Globo

A chegada dos realities surpreende a Globo

Casa dos Artistas: mais um voo de galinha de Silvio Santos

O Big Brother Brasil muda a história da TV aberta brasileira

O BBB desperta ideias e sentimentos assustadores nos subterrâneos da sociedade brasileira por meio das redes sociais

Daniel Filho e Mário Lúcio Vaz disputam o poder no Projac sem Boni

As novelas da Globo continuam imbatíveis, do índio loiro de Uga Uga à shakespeariana O Cravo e a Rosa

Milagres e mistérios da noite

No meio do caminho

Coisa de mulher

Não deu mais pra segurar

A esfinge de Gloria

Aguinaldo Silva se vê jogado na trincheira da guerra religiosa brasileira com Porto dos Milagres, e Silvio de Abreu tem As Filhas da Mãe, sua releitura das chanchadas, reduzida em dois meses por causa da rejeição no Ibope

A poderosa Marluce Dias da Silva descobre um inimigo mais forte que ela

O balanço de críticas, méritos, lendas e preconceitos de uma década em que a Globo foi comandada por uma mulher

Muito além do hospital, Marluce é ultrapassada pelo tempo que ela sempre quis encurtar

Camelos, clones, islamismo e drogas dão Ibope do século 20 na Globo

Surpresas (e truques) da madrugada

A última subida de morro

Restos mortais

A face oculta da Globo

Armistício

Mudanças de lado

Um Lula pra chamar de seu

Um império desorganizado

Sessão Aventura

E a história do BNDES?

Por trás do verniz

Na conquista do penta, a cobertura da Copa de 2002 consegue manter milhões de brasileiros acordados

O bárbaro assassinato de Tim Lopes muda o jeito da imprensa de fazer cobertura policial

Tim Lopes se transforma em bandeira de inimigos da Globo na opinião pública e também em algumas redações

O terror dos bandidos e corruptos, na Globo, era um repórter cujo rosto a emissora só pôde mostrar depois que ele se aposentou

O fim da era FHC e a chance de Lula ser presidente levam a Globo e o PT a se aproximarem

O jornalismo da Globo enfim faz o que uma televisão tem que fazer em uma eleição: jornalismo

Lula vira exclusividade da Globo e a grande imprensa retoma velhas desconfianças

O conglomerado dos Marinho ameaça desabar com a alta do dólar e fica sem crédito na praça

A Globo pede concordata e busca ajuda de Lula no dia seguinte à vitória eleitoral

Uma nova suspeita no ar: o que Lula fez ou deixou de fazer contra ou a favor da Globo?

Minissérie Os Maias explode o orçamento, inflama o ego do elenco e naufraga no Ibope. E O Quinto dos Infernos sacode a história do Brasil

A Globo aprimora o controle de qualidade de sua dramaturgia, mas os negros continuam praticamente invisíveis

A cor da polêmica

Da Cor do Pecado faz história com Taís Araújo como a primeira protagonista negra, com recorde no Ibope e críticas

Fernandices

O preço do sucesso

“Cosmopaulistas”

A notícia impossível

A herança

41

Os Normais: um encontro histórico da inteligência com a ousadia e a audiência em tempos de popularização da TV aberta ENTRETENIMENTO

A queda de braço do mercado com a área comercial da Globo leva as redes concorrentes a financiarem um instituto concorrente do Ibope

Mais do que nunca, a Globo faz uma programação de olho no gosto e, principalmente, no bolso dos telespectadores do estado de São Paulo

A morte de Roberto Marinho cala inimigos, inspira reverências no mundo do poder e revela uma TV Globo em pânico no adeus ao seu fundador

Um triunvirato dos irmãos Marinho decide que os filhos e netos só podem trabalhar na empresa se entenderem do negócio

Na implacável faixa das oito da noite, Benedito Ruy Barbosa perde a autoria de uma novela, Gilberto Braga escreve outra certo de que seria demitido, e Manoel Carlos sacode a moral brasileira com Mulheres Apaixonadas

Acerto de contas

Explode Mensalão

Notícias do Planalto

Central Globo de Paixões

O governo do PT senta em cima das verbas de publicidade e bate de frente com a área comercial da Globo

A breve lua de mel do primeiro governo Lula com a Globo antecipa duas décadas de contida hostilidade e mútua desconfiança

Pela primeira vez em sua história, a Globo vira oposição ao governo federal e manda o jornalismo atirar à vontade contra o Palácio do Planalto

Os bastidores e as controvérsias da operação jornalística da Globo, que foi classificada como “cobertura adversária”

A “fábrica de sonhos” da dramaturgia da Globo completa quatro décadas com muitas emoções que nunca foram ao ar

Salto alto no gramado

TV Favela

Novos lugares, falas, classes e vetos

Infiltração comunista

Reação capitalista

Exuberância e suspeita

Veneno a jato

A era dos pachecos termina na Copa da Alemanha e põe em xeque a cobertura torcedora da Globo

O Fantástico faz história e abre espaço para Falcão: Meninos do Tráfico, um olhar da própria favela para o fim trágico de seus filhos no mundo do crime

Aguinaldo Silva se reinventa com Senhora do Destino; Gloria Perez vê o sonho de América se tornar um pesadelo; e Silvio de Abreu volta a encantar e divertir com Belíssima

Bonner abre as portas do Jornal Nacional e o coração para professores da USP, mas um deles já sabia o que ia escrever – e não era nada bom – sobre os bastidores da Globo

João Roberto Marinho e Ali Kamel afastam Franklin Martins e Arnaldo Jabor do JN e abandonam o jornalismo menos engajado implantado por Evandro Carlos de Andrade

A Globo tira nota dez nas regras do TSE para a eleição de 2006, mas descarrega a oposição a Lula na cobertura do Mensalão no JN

No auge da desconfiança entre PT e Globo, uma tragédia aérea lança destroços na campanha eleitoral, levando parte dos jornalistas da emissora a reagir publicamente

JORNALISMO 489

Nem tudo a ver com todos

O PCC invade o JN

Papagaios e abutres

O resultado da eleição presidencial mostra que a Globo não estava sendo nem janela nem espelho do Brasil que reelegeu Lula JORNALISMO

O jornalismo da Globo tenta enquadrar o crime organizado como notícia policial, não consegue, e um sequestro obriga a emissora a abrir espaço na programação para os bandidos

O “Padrão Globo de Inadimplência”: a emissora enfrenta credores cheios de más intenções e paga a dívida do grupo antes do prazo

JORNALISMO

Com a devida licença

Corda bamba

O fim do intervalo

História sagrada

Dois papas, dois furos

44

Puta novela

Prefixo PT 2010

Serviço reservado

Com A Casa das Sete Mulheres, Um só Coração, JK e Dalva e Herivelto, Maria Adelaide Amaral enfrenta o preconceito intelectual e leva para o horário nobre fatos históricos, obras literárias e personagens da cultura e da política brasileira DRAMATURGIA 529

Isabella Nardoni e Eloá Pimentel: dois traumas nacionais desafiam a Globo na divisa da notícia com o sensacionalismo

O merchandising se transforma num enredo endinheirado de desafios e controvérsias nos bastidores das novelas da Globo

Na cobertura do Vaticano, a Globo acende uma vela para o jornalismo e outra para a maioria conservadora dos católicos brasileiros

Bento XVI e Francisco: duas concepções diferentes da Igreja movimentam um terraço de Roma que ficou famoso no Brasil

Uma garota de programa e um pilantra irresistíveis criados por Gilberto Braga provam que o Brasil ainda não estava tomado inteiramente pela caretice

A relação entre o governo petista e a Globo só faz piorar, do caos aéreo à polêmica bolinha de papel que entrou na disputa entre José Serra e Dilma Rousseff

A Globo faz o mea culpa do apoio à ditadura e veteranos da emissora revelam que edições tenebrosas foram feitas em algumas madrugadas da emissora

JORNALISMO 543

A favorita da Avenida Brasil

A hora do Alemão

Com A Favorita e Avenida Brasil, João Emanuel Carneiro mostra que também sabe como hipnotizar meio Brasil no horário nobre

Carlos Schroder assume a direção-geral da Globo

JORNALISMO 572

POLÍTICA 583

POLÍTICA 595

DRAMATURGIA 599

CAPÍTULO

A Primavera de Curicica

A antagonista

Que país era aquele?

O faturamento milionário permite à Globo reviver os tempos de ousadia na dramaturgia e no entretenimento como se não houvesse amanhã

O jeito Folha de S.Paulo de assistir televisão e contar a história da Globo

As manifestações de junho de 2013 revelam um povo revoltado e às vezes violento contra tudo e todos, incluindo a Globo

PODER 614

Que Globo era aquela?

Derradeiras ousadias

Fria

Espírito esportivo

Briga de cachorro grande

A segunda guerra

Mídia justiceira

As redes sociais começam a atropelar o diálogo que a Globo mantinha, fora do ar e sem alarde, com milhões de telespectadores

45 Amor & Sexo, Na Moral e Tá no Ar testam os limites da intimidade dos telespectadores, a tolerância ideológica da nação e a capacidade da Globo de rir de si mesma

Pela primeira vez, a Globo é boicotada pela seleção em uma Copa do Mundo e contorna a hostilidade do técnico Dunga com um programa esportivo inovador

A rivalidade entre os executivos do esporte da Globo do Rio e de São Paulo leva a emissora a desperdiçar o talento de Tiago Leifert

Os correspondentes internacionais da Globo não desistem de fazer jornalismo, mesmo sem os privilégios da era pré-internet

A Globo monta uma operação jornalística sem precedentes para cobrir a Lava Jato, o tropeço na corrupção que os inimigos e adversários do PT no Judiciário e na mídia sonhavam

Jornalistas, incluindo muitos da Globo, escorregam na falta de isenção e se entregam à cruzada anticorrupção de Moro e Dallagnol

DRAMATURGIA 621

JORNALISMO 630

PODER 638

ENTRETENIMENTO 642

ESPORTE 654

ESPORTE 659

JORNALISMO 665

JORNALISMO 674

JORNALISMO 680

Sai de baixo

Isso a Globo não mostrou

Placar imoral

Um outro propinoduto

O beijo da morte

Verdades da hora

Nova temporada

Dois em um

Nada a Temer

Os telejornais da Globo são inchados para abrir espaço para a judicialização da política e a criminalização do PT

Pela primeira vez em sua história, a Globo fica fora da transmissão de uma Olimpíada

Os bastidores da Globo na Copa do 7 x 1

No rastro do “Fifagate”, a Globo muda suas práticas no mercado de direitos esportivos e demite Marcelo Campos Pinto, seu homem forte na relação com os cartolas corruptos da CBF e da Fifa

O drama dos repórteres da Globo na cobertura de casos que comoveram o Brasil, como os jovens da boate Kiss e as meninas e meninos da escola de Realengo

Marcius Melhem é denunciado por assédio sexual, cai atirando pesado e deixa a Globo frente a frente com o poder do movimento feminista

Dilma Rousseff, a herdeira de Lula, sucumbe à crise do petismo e da economia, tornando-se um alvo fácil da cobertura adversária da Globo

O impeachment de Dilma e o indiciamento de Lula na corrupção pela Operação Lava Jato levam a Globo a mudar mais uma vez a receita tradicional do Jornal Nacional

Ao manter o combate à corrupção no governo Temer, a Globo descobre que o “quadrilhão do PMDB” é mais forte que a imprensa e ganha novos inimigos, agora na direita

JORNALISMO 689

A peste

A pandemia da Covid-19 aproxima como nunca a Globo dos brasileiros na batalha dramática contra o negacionismo criminoso do governo

JORNALISMO 718

ENTRETENIMENTO 727

JORNALISMO 743

JORNALISMO 753

JORNALISMO 761

JORNALISMO 767

O mito

A velha teimosa

A hora da verdade

Mudança climática

Futuro incerto

Bolsonaro pede apoio aos Marinho, não consegue e elege a Globo como sua maior inimiga na campanha e depois de chegar à presidência POLÍTICA

Sem prestígio e dinheiro dentro da própria Globo, as novelas da emissora vivem um de seus piores momentos em seis décadas

Na ressaca do fiasco da Lava Jato, o golpismo de Bolsonaro testa o compromisso da Globo e do resto da imprensa com a democracia

Nos sessenta anos da emissora, sob ameaça dos algoritmos do streaming e da internet, os Marinho abandonam o sonho de ser mediatech e traçam um novo destino para a Globo

Um memorando preocupante pousa na mesa do diretor-geral

O LIVRO

Inspiração, com todo respeito, é a mãe – nada contra elas.

Foram exatos sete anos e cinco meses, entre o início da pesquisa, em outubro de 2018, e a madrugada de 18 de março de 2026, quando botei o ponto final nas mais de 2.200 páginas desta trilogia, 872 delas contidas neste terceiro volume. Tempo de incontáveis jornadas de um esforço violento e sofrido de hierarquização – acredite, por favor, quem estiver lendo esta página, escandalizado com o tamanho da obra. Uma gigantesca reportagem em que me vi, inúmeras vezes, perdido no meio da construção de um parágrafo, uma espécie de atoleiro de conteúdo, com a tela do computador a iluminar minha angústia, me inquirindo sobre a relevância do que eu estava escrevendo, enquanto ouvia, do além digital, risadinhas cínicas dos algoritmos, esses trombadinhas da inteligência artificial.

Mas foram também madrugadas, tardes e manhãs inesquecíveis de prazer jornalístico e intelectual, após garimpar, lapidar, polir e acondicionar, em episódios que sempre tentei tornar irresistíveis para o leitor, acontecimentos importantes, inéditos ou pouco conhecidos que extraí do testemunho de mais de quinhentos profissionais que fizeram a história da Globo e que nos ajudam a entender o impacto da emissora na vida dos brasileiros, gostemos ou não do incontornável volume de entretenimento, dramaturgia e jornalismo com que ela impregnou a história do Brasil nas últimas seis décadas.

Esta obra não tem nenhuma ligação editorial ou financeira com o Grupo Globo. Embora eu tenha tido permissão expressa dos irmãos Roberto Irineu, João Roberto e José Roberto Marinho para um acesso independente e irrestrito ao acervo de depoimentos do Memória Globo por meio de um contrato, não há, no documento, cláusula alguma que estabeleça qualquer tipo de contrapartida de minha parte, nem supervisão editorial ou poder de veto de quem quer que seja sobre o conteúdo do livro. Em nenhum momento, portanto, os originais foram submetidos a qualquer pessoa ou instância do Grupo Globo,

incluindo os três irmãos Marinho, aos quais agradeço pela confiança e pelo espírito jornalístico.

Os 112 episódios deste volume, cada um com começo, meio e fim, apresentando a história da Globo da virada do século até 2025 de forma cronológica – mas perfeitamente inteligíveis e, espero, saboreáveis se forem lidos aleatoriamente ou pela área de interesse indicada no sumário –, deixam claro que, mesmo perdendo audiência a partir do início do século 21, a Globo, para o bem e para o mal, continuou presente na cabeça e na vida do brasileiro, não importando o quanto, por um lado, ela encolheu, ou, por outro, tudo que ela fez nesse período para continuar sendo, de longe, o maior e mais influente veículo de comunicação do país, incluindo nessa conta a internet e o streaming. Depois de reconstituir, no primeiro volume, A Globo: Hegemonia, lançado em novembro de 2024, as origens, o crescimento e a consolidação da liderança e da presença da emissora na vida brasileira no período compreendido entre 1965 e 1984, e de resgatar, no segundo volume, A Globo: Concorrência, lançado em março de 2025, o impacto, na emissora, das grandes transformações ocorridas entre 1985 e 1998 na política, na economia e no perfil social, econômico e cultural dos telespectadores, este terceiro volume, A Globo: Metamorfose procura mostrar como a Globo se viu obrigada a promover mudanças profundas em todas as suas áreas, da tecnologia ao conteúdo, para manter a liderança num cenário de transformações radicais impostas pela internet, pelas redes sociais e pelas novas plataformas de informação e entretenimento.

Não há um parágrafo sequer deste livro em que o texto final tenha sido feito por inteligência artificial. Como nos volumes anteriores, escrevi a partir do cotejo do conteúdo de mais de quatrocentos depoimentos de atores, jornalistas, executivos, diretores, roteiristas, produtores, administradores, publicitários, profissionais de marketing, engenheiros e artistas da emissora com a bibliografia que organizei, baseada em fontes independentes que incluíram os principais jornais e revistas do país, existentes ou extintos; colunistas e pesquisadores especializados em televisão; sites e livros sobre a Globo; biografias de personagens importantes da história da emissora; programas de TV e documentários; teses e ensaios acadêmicos que considerei relevantes; e o conteúdo de mais de uma centena de entrevistas inéditas que fiz com protagonistas e testemunhas importantes da história da Globo.

Este livro não tem notas de rodapé. Em nome do conforto do leitor, as fontes são mencionadas no próprio corpo do texto. Na identificação das fontes dos episódios que reconstituo aqui, o uso de asterisco junto aos nomes dos protagonistas indica que as informações relatadas em seguida são originárias do acervo de depoimentos do Memória Globo. E, qualquer que seja a origem

da informação, as aspas são usadas para transcrições literais de depoimentos gravados, enquanto o travessão indica que os diálogos são uma reconstituição feita a partir das entrevistas.

Além dos agradecimentos já feitos no prefácio do primeiro volume, eu gostaria de reafirmar minha gratidão ao amigo e colega Ricardo Pereira, editor convidado desta trilogia, jornalista responsável por uma parte importante da pesquisa sobre a Globo em fontes independentes e, principalmente, primeiro leitor e crítico fundamental de cada parágrafo. A ele devo inúmeros ajustes que fiz e que deram mais precisão, equilíbrio e sabor ao conteúdo final. A ele não posso atribuir, como já deixei claro no primeiro volume, nenhuma das imperfeições que certamente terei cometido nesta empreitada tão vasta e desafiadora. Gostaria também de renovar minha gratidão a Rejane Dias, diretora-executiva do Grupo Autêntica, e a Rafaela Lamas, editora da trilogia, as melhores mãos com as quais um autor poderia sonhar encontrar para cuidar de sua obra. Esta trilogia e os desafios que ela me apresentou diariamente, página por página, por tratar da história da Globo, fenômeno tão complexo e polêmico quanto onipresente na vida dos brasileiros, só fez aumentar em mim, nesses tempos sombrios e distópicos em que o jornalismo precisa pedir socorro ao adjetivo “profissional”, uma certeza: a de que na minha atividade o que faz diferença não são os ideais ou bandeiras que abracemos, quaisquer que sejam, por mais bem-intencionadas que sejam. O que faz diferença é um compromisso absoluto e radical com a humildade, merecedor de uma placa na entrada de todas as redações, e cuja melhor expressão encontrei em uma pergunta sem resposta de Fernando Pessoa no Livro do desassossego: “Que milagre nos salvará da sinistra mania de ter razão?”

Ernesto Rodrigues Março de 2026

CAPÍTULO 33

Mãos pesadas

“Esse país está doente.”

A frase, gravada no celular do repórter Eduardo Faustini, do Fantástico, era da socialite Beth Szafir, então com 51 anos, ao comentar a cobertura feita pelo Jornal Nacional da noite de 28 de julho de 1998, uma terça-feira, sobre o nascimento da neta Sasha, filha da apresentadora Xuxa com o então ex-modelo, ator e apresentador Luciano Szafir. Faustini, em entrevista a este autor em julho de 2024, lembrou que tinha sido encarregado de propor a Beth uma reportagem sobre Sasha, mas foi surpreendido pela reação da sogra de Xuxa, que fez questão de dizer que discordava completamente da cobertura, qualificando-a como “um circo”.

A continuação daquela reportagem não chegou nem a ser submetida à direção da Central Globo de Jornalismo (CGJ) pelo comando do Fantástico, naquela semana a cargo deste autor, à época diretor-executivo do programa, a pedido do então diretor da Central Globo de Planejamento e Recursos Humanos (CGPRH), Érico Magalhães, principal gestor dos contratos dos artistas da emissora, e que tinha sido alertado pelo advogado de Xuxa sobre a ligação de Faustini para Beth Szafir. O que ficaria para os arquivos da emissora e para a posteridade foram os controversos nove minutos e meio da cobertura em que o Jornal Nacional, na opinião de muitos profissionais da própria Globo, perdeu completamente a mão, na tentativa de enfrentar o programa Ratinho Livre e outras baixarias da concorrência na guerra do Ibope.

“Foram nove meses de muita ansiedade, lágrimas, sorrisos e aquela imensa expectativa até o finzinho. Hoje o sonho se realizou: nasceu Sasha, a filha de Xuxa.”

Assim Fátima Bernardes apresentou a primeira matéria daquele JN e na qual o repórter Ari Peixoto fez um resgate da história da gravidez de Xuxa, com trechos de seu programa nos quais ela mostrou roupinhas de bebê e teve

a barriga beijada por convidados no palco, e imagens da apresentadora antes do parto, ao ser internada. A segunda matéria, a cargo do repórter Marcelo Canellas, ia na mesma linha: “Uma menina morena e muito cabeluda. Sasha nasceu num ambiente de conto de fadas.”

Canellas mostrava em seguida a decoração do quarto de Xuxa e Sasha na clínica, definido como “o primeiro palácio que Xuxa mandou construir para sua princesa, dentro do hospital”; a participação do pai Luciano; a explicação sobre a necessidade de se antecipar a cesariana devido ao fato de o cordão umbilical ter enrolado no pescoço de Sasha; a presença dos pais da apresentadora; as imagens e a descrição, segundo a segundo, em detalhes, do primeiro banho, incluindo a limpeza do primeiro cocô; o corte das unhas; a colocação de um minúsculo anel num dedo da mão esquerda da menina; o primeiro bocejo, o primeiro espirro e o primeiro encontro com a mãe, descrito como “estreia do Show da Sasha”.

A cobertura continuou com uma entrada ao vivo do repórter Roberto Kovalick na qual ele informou que Sasha tinha parado de mamar e fora levada para “dormir um pouquinho no quarto”. Ainda ao vivo, depois de uma rápida entrevista com Luciano Zafir, Kovalick disse ter percebido até um “arrepio” do pai ao falar da emoção de tocar a filha pela primeira vez. Após a participação de Kovalick, o JN apresentou um momento inédito do programa Planeta Xuxa que a apresentadora tinha deixado pronto, para ser apresentado depois do nascimento da filha.

Não deu outra.

“Leitura de pesquisa é fogo. A gente tinha pesquisas que pediam matérias mais leves. Isso teve uma base. No meu entender, a cobertura da Sasha teve um tempo excessivo realmente. Eu talvez teria aprovado se fosse consultado. Sem ver no ar você não tem muita noção do tempo. Não achei um horror como muitos, mas foi exagerado.”

Era João Roberto Marinho, em entrevista a este autor em 28 de junho de 2023, ao lembrar os dias polêmicos que se seguiram àquela edição do JN. Fora da Globo, para nenhuma surpresa de ninguém, as reações foram bem menos comedidas, como no caso do jornalista Gilberto Dimenstein, que em sua coluna de 2 de agosto na Folha de S.Paulo, além de criticar os “requintes de mau gosto do início ao fim” da cobertura, referiu-se ao fato de Xuxa, para ele, ter escolhido “não um marido, mas um reprodutor”, e reclamou da omissão, nas reportagens, do contraste entre o tratamento róseo dado pela emissora ao episódio e as hostilidades à beira do barraco que a apresentadora, escoltada por sua diretora Marlene Mattos, vinha trocando publicamente com a mãe e a irmã de Luciano Szafir.

A revista Veja, ao repercutir o episódio em sua edição de 30 de setembro, deu destaque a Sebastião Squirra, professor da USP, para quem o “Brasil real” não estava mais no Jornal Nacional. Citando como fonte um diretor de agência de publicidade do Rio para quem a linha de “popularização” do JN poderia depreciar, a longo prazo, o preço de inserção de um anúncio de trinta segundos nos intervalos do telejornal, à época na faixa dos 110 mil reais, a revista incluiu na matéria um gráfico que mostrava a queda de 60% para 40% na audiência do programa entre 1988 a 1998, e previu:

“Se passar a ser visto como um telejornal atraente mas pouco denso, o programa pode até ganhar pontos no Ibope, mas arrisca-se a perder o público das classes A e B, que é o favorito das agências de publicidade”.

A revista Imprensa, em sua edição de setembro daquele ano, citada no livro A deusa ferida: por que a Rede Globo não é mais a campeã absoluta de audiência, inseriu a cobertura do nascimento de Sasha em um período que já durava três anos, desde 1995, e no qual o JN, “principal noticiário da televisão brasileira, programa obrigatório de quem decide o destino da nação e fonte de informação de quem mora nas regiões mais distantes do país”, vinha deixando em segundo plano “notícias mais relevantes” para privilegiar “reportagens lacrimosas, curiosidades do mundo animal ou intermináveis inventários sobre a vida de celebridades”.

Nos bastidores do JN, embora as opiniões estivessem longe do olhar cataclísmico das revistas, não eram poucos os profissionais que discordavam da linha adotada, com a anuência do diretor Evandro Carlos de Andrade, pelo então diretor editorial Luis Erlanger e pelo editor-chefe do JN, Mario Marona, os três egressos de carreiras exitosas no comando do jornal O Globo e à época tendo em comum pouco mais de dois anos de experiência em telejornalismo. Um dos críticos foi William Bonner*, à época ainda sem o poder do cargo de editor-chefe que seria seu só a partir de 1999, e para quem a cobertura do nascimento de Sasha tinha sido “exageradamente grande”:

“Claro que o nascimento da Sasha é uma notícia em qualquer órgão de imprensa do Brasil, o problema é que foi grande, a direção da CGJ discorda de mim disso, mas eu digo. Acho que foi grande, foi demais, não devia”.

O então diretor de produção da CGJ Carlos Schroder, quinze anos de experiência em televisão, remanescente das gestões de Armando Nogueira e Alberico de Sousa Cruz e à época dividindo com Erlanger o segundo escalão da CGJ, disse em entrevista a este autor em julho de 2022 que também discordou, na época, do tamanho e do enfoque da cobertura, muito mais adequado, segundo ele, ao Fantástico e ao programa Vídeo Show. E repetiu o que disse em uma reunião com Erlanger, Marona e outros integrantes do JN:

– É um assunto que não tem embocadura para o JN. Temos de ter cuidado com o popularesco.

Amauri Soares, antecessor de Marona no cargo de editor-chefe do JN, à época já promovido a diretor de Jornalismo em São Paulo e em franca rota de colisão com Erlanger, contou em 2022 a este autor que fez questão de dizer que não tinha nada a ver com o que estava acontecendo no telejornal quando os jornalistas da Globo paulista entraram em sua sala “perplexos” com a cobertura do nascimento de Sasha:

– Fiquem à vontade para ligar para o Erlanger.

A ideia inicial de fazer uma grande cobertura, segundo contou a este autor a ex-diretora de recursos humanos Heloísa Machado, foi de Marluce Dias, à época já no cargo de diretora-geral da emissora – o que Marluce negava, quando indagada sobre o assunto. De qualquer maneira, os argumentos a favor da linha adotada por Evandro, Erlanger e Marona eram os de que o JN, por ter tido o tempo aumentado naquela noite, não deixou de dar o noticiário normal, e as evidências posteriores de que o nascimento de Sasha também havia sido notícia de grande destaque em todos os veículos de comunicação do país. Um argumento, aliás, levado ao limite do delírio quando a chegada de Sasha foi comparada ao funeral da princesa Diana, cerimônia que se seguiu a uma tragédia ocorrida um ano antes e, ao ser transmitida para 187 países, tinha sido assistida por cerca de dois bilhões e meio de pessoas. Marona* não se arrependeu: “Fiz e faria de novo. Primeiro, a matéria não fez mal a ninguém. Era verdadeira, não tinha mentira nenhuma ali. Era uma matéria sobre celebridade, sobre gente importante. O assunto estava sendo discutido por todo mundo, eu não fazia telejornal só para intelectual, eu fazia para minha mãe, para minha tia, para minha empregada. Pode ter tido, isso é discutível mesmo, espaço demais, mas não teve mentira, não teve manipulação”.

Na mesma edição sobre a cobertura do nascimento de Sasha, a Veja, para dar exemplos da guinada popularesca do JN, citou os 4 minutos e 5 segundos dados pelo telejornal ao assalto ao ator Gerson Brenner, em 17 de agosto, e os 10 minutos e 11 segundos da cobertura do acidente sofrido pelo também ator Danton Mello em 16 de setembro, contrapondo o tempo dado aos dois temas aos 40 segundos dedicados pelo JN à notícia sobre a moratória da Rússia e aos 4 minutos e meio do material sobre o leilão de privatização da Telebras, ocorrido no dia seguinte ao nascimento da filha de Xuxa.

No retrospecto comparativo a coberturas históricas do jornalismo da Globo, Sasha, por exemplo, ganhou um tempo três vezes maior que os 3 minutos e 10 segundos da reportagem feita para o JN pelos correspondentes Silio Boccanera e Paulo Pimentel em 10 de novembro de 1989, o dia da queda do Muro de

Berlim. Também foi quase duas vezes menor que a de Sasha a reportagem do telejornal sobre o comício pelas Diretas Já na Candelária, centro do Rio, em 18 de abril de 1984. As referências explodiriam, no entanto, no século 21: Sasha perderia feio para as edições do JN que acompanharam os votos dos onze ministros do Supremo Tribunal Federal nos julgamentos do Mensalão e da Operação Lava Jato, e cujo tempo médio seria equivalente a duas “Sashas” e meia, ou cinco “quedas do Muro de Berlim” e meia.

Não se pode dizer que o comando do JN não tinha como prever danos de imagem em coberturas como a que foi dada a Sasha: em março de 1998, três meses antes de ter o prestígio esfolado na mídia e junto a consideráveis contingentes das classes A, B e C com a superprodução em torno da filha de Xuxa, Marona, Erlanger e Evandro já tinham envolvido o Jornal Nacional em outra história com potencial de manter ou resgatar os telespectadores das classes C, D e E que o telejornal vinha perdendo regularmente para o programa Ratinho Livre: uma livre interpretação, em coprodução dos editores do JN no Rio com a repórter Zileide Silva em Brasília, para o comportamento incomum de Capitu, Eliseu, Otelo e Tadeuzinho, um quarteto de macacos babuínos do zoológico da capital federal. Havia uma nesga de constrangimento no semblante de William Bonner na noite de 30 de março, quando, ao apresentar a primeira reportagem de Zileide, disse que existiam “provas de infidelidade no zoológico de Brasília”. Na matéria que se seguiu, a repórter contava que Capitu, mãe de Tadeuzinho e “esposa” do macaco Otelo, estaria tendo um “caso amoroso” com Eliseu, outro babuíno, um “viúvo” até então “solitário”, uma “paixão” tão intensa que a macaca atravessava a nado o pequeno lago que os separava para um namoro intenso, acompanhado em desespero impotente por Otelo e Tadeuzinho na margem oposta.

A reportagem, primeira de uma série do JN sobre o “romance”, tinha 2 minutos e 40 segundos, o triplo do tempo médio que o telejornal, antes das ameaças de Ratinho no “reloginho” do Ibope, concedia, de vez em quando mas sem estardalhaço, a crônicas semelhantes, geralmente exibidas no “boa-noite”, antes dos créditos finais.

“Acho que hoje eu não usaria alguns adjetivos, acho que peguei pesado em algumas coisas ali. Mas, enfim, a matéria está aí. E, depois que vai para o ar, não tem jeito, não tem como mexer.”

Ao fazer esse balanço crítico e resignado sobre a série que João Roberto Marinho, na entrevista a este autor, também considerou “exagerada”, Zileide* fez questão de dizer que nem os nomes dos macacos nem o triângulo “amoroso” tinham sido inventados, e que a equipe da Globo Brasília tinha ótimas imagens de Capitu atravessando o pequeno lago do zoológico para cenas de sexo

com Eliseu impossíveis de serem exibidas pelo JN, um jornal também “assistido por crianças”. O problema começou, segundo Zileide, quando, depois da repercussão que ela mesma testemunhou ao encontrar “todo mundo falando da matéria da macaca Capitu”, o comando do JN, entusiasmado com o pico de audiência durante a exibição da história, pediu uma segunda matéria, depois uma terceira e depois uma quarta:

“Na quarta matéria, eu falei: ‘Não, eu não faço mais. Palhaçada! Senão vou virar especialista em macaco, em Capitu’. E Delis Ortiz fez uma matéria, acho que Cristina Serra também. Mas não havia história para tudo isso. Eu até queria esquecer, porque virou uma série. Mas aonde eu vou as pessoas perguntam da macaca Capitu”.

Luiz Cláudio Latgé*, então editor do JN no Rio e um dos que consideraram que a primeira matéria da série sobre os macacos tinha sido “espetacular” e merecedora de espaço “na NBC, na CBS ou em qualquer TV do mundo”, reconheceu que houve “um erro de mão” quando o comando do telejornal transformou a história de Capitu em uma série. Na entrevista que deu em 2001, Bonner*, cumpridor da missão de ancorar a série, também foi contrário a ela, convicto de que a história de Capitu “era totalmente cabível e não tinha nenhuma estranheza” no formato de uma matéria, não de uma série:

“Diferentemente do Marona eu achava que embora o JN, claro, tivesse que ser um produto popular, se a gente apostasse demais no popular em detrimento do não popular nós correríamos o risco de perder o prestígio [...] Não entra isso no JN hoje. E vou parafrasear o Evandro Carlos de Andrade: é nossa obrigação publicar aquilo que é de interesse público, mesmo que num primeiro olhar não seja de interesse do público. O interesse do público é algo de consumo imediato que entretenha, o interesse público é algo muito maior, diz respeito à educação que eu vou dar para os meus filhos e ao Brasil que os nossos netos vão habitar”.

Para o repórter Tonico Ferreira*, um dos veteranos da equipe da CGJ em São Paulo, o período em que Marona comandou o JN com a chancela de Erlanger e Evandro “foi uma das piores épocas do jornal”, e na qual “ficaram também meio perdidos metendo bichinho todo dia e matérias de comportamento”: “Acompanhei à distância e foram muitas dificuldades, um pouco de inexperiência do pessoal que estava chegando na televisão. Você fala isso e eles ficam loucos da vida, mas o jornal estava caindo muito, caindo, perdendo a audiência, ficando um pouco sem graça, e não se sabia direito o que fazer”.

Não é que Marona, Erlanger e Evandro não soubessem o que era notícia. Seria, mais do que uma injustiça, uma estupidez absoluta imaginar que os três,

cada um na proporção do respectivo currículo na história do jornal O Globo, não soubessem o que merecia destaque no noticiário do Brasil e do exterior ao fim de cada dia. O que eles ainda não dominavam, na época, era a dosimetria de tempo e espaço para certos assuntos, e a capacidade de montar um script adequado ao calibre do Jornal Nacional, à época ainda um dos telejornais de maior audiência do planeta. E, para azar deles, num momento em que, nas palavras dos autores do livro A deusa ferida, o JN enfrentava “um dilema entre a busca da popularidade ou de prestígio, ambos abalados.”

Marona “aprendeu da pior maneira possível que televisão é diferente de jornal”, de acordo com Bonner, durante um plantão em que, ignorando a opinião unânime da própria equipe e, como “hipocondríaco que adorava doença”, o então editor-chefe do JN botou no ar uma matéria sobre a distrofia de Duchenne, doença no tecido muscular que é genética, degenerativa, progressiva e irreversível. Minutos depois, de acordo com o relato que Bonner disse ter ouvido posteriormente do próprio Marona, o telefone da redação tocou várias vezes. Eram telespectadores protestando contra a matéria, e Marona resolveu atender a uma das ligações.

– O senhor que é responsável pelo jornal?

– Sou.

–

Eu queria que o senhor me dissesse agora, já que o senhor é responsável pelo jornal, o que eu digo para o meu filho que tem o mal de Duchenne. Ele tem 7 anos e acabou de ouvir que quem tem Duchenne na infância não passa dos 11 anos. O que eu digo para ele agora?

O pai do menino caiu no choro antes de desligar. Fazia parte de um grupo relativamente pequeno de famílias atingidas em cheio pela notícia. Mas o canhão do JN, além de fazer chorar, também podia causar pânico generalizado, como no dia 9 de outubro de 1986, dez anos antes de Evandro, Erlanger e Marona estarem no comando do telejornal, e quando a Folha de S.Paulo, para citar um dos principais jornais do país, foi para as bancas com as seguintes manchetes e títulos:

“Usina Angra 1 sofre vazamento”

“Paulistas já bebem leite com radiação”

“Falha em anel de vedação provoca vazamento em Angra I”

“Desde sua instalação, usina apresenta problemas técnicos”

“Acidente em Three Mile Island fechou usina por mais de seis anos”

“Chernobyl, o pior desastre, ainda poderá causar a morte de milhares”

Não foi assim que Cid Moreira e Sérgio Chapelin noticiaram, no JN, o vazamento de água contaminada ocorrido no dia anterior na usina nuclear Angra 1, em Angra dos Reis, a 380 quilômetros da capital paulista e a 160 do Rio.

Sandra Moreyra*, a repórter da Globo enviada para cobrir a história, tinha até conseguido driblar a segurança e gravar dentro da usina, usando um motoqueiro da Globo para mandar a reportagem a tempo de ser exibida no JN, mas, ao chegar na redação, foi informada, para sua contrariedade, de que o telejornal não usaria sua reportagem e de que a matéria seria exibida pelo Jornal da Globo daquela noite, mas com uma alteração que foi comunicada a ela na conversa com um chefe que ela não quis identificar em 2002:

– Essa matéria não entrou por quê?

– Você refaz o texto da matéria agora para o Jornal da Globo. O que você chama o tempo todo de acidente, a gente não vai chamar de acidente, foi um incidente.

– Espera aí, eu não estou conseguindo captar a diferença.

– Não é um acidente, é um incidente.

Foi só no dia seguinte, e de forma discreta, enfatizando a garantia do governo e da empresa Furnas Centrais Elétricas de que o vazamento não representava perigo para a população da área que o JN deu a notícia. Um editor-chefe que na véspera colocasse no ar uma escalada de manchetes assustadora como a da Folha de S.Paulo, dependendo do currículo e do prestígio com a direção, poderia ser removido do cargo ou até demitido. Por quê?

As centenas de milhares de leitores da Folha eram necessariamente alfabetizados e, em sua maioria, detentores de um mínimo de informação e conhecimento para absorver, processar e relativizar aquela edição do jornal, incluindo a notícia encostada na manchete sobre Angra 1 na primeira página sobre os paulistas estarem consumindo leite contaminado importado da Irlanda do Norte, assunto que não tinha nada a ver com o problema na usina nuclear.

Já os milhões de telespectadores do JN, parte considerável deles retida na fronteira do analfabetismo, ficariam muito mais sujeitos ao pânico radioativo, se expostos a uma escalada como a descrita acima, aceitável na primeira página de um jornal impresso, mas puro incêndio em um telejornal com o alcance do JN. Armando Nogueira*, ainda diretor da Central Globo de Jornalismo (CGJ) na época, disse em sua entrevista em 2000 que “a responsabilidade social da televisão impõe a ela certas limitações que o jornal tradicional impresso jamais vai entender”. E explicou:

“O jornal tem em si uma natureza seletiva, elitista, e a televisão tem em si uma característica de massa, ela não é seletiva [...] Ela encerra em si uma carga de emoção que se você não souber lidar com ela, você está permitindo que ela cumpra uma das suas mais inocentes vocações que é a vocação do sensacionalismo. A televisão tem uma irresistível vocação para o sensacionalismo, coitadinha, e ela não tem culpa, é da natureza dela”.

– Aqui não se faz jornalismo. Aqui se faz televisão.

O recado, meio advertência de chefe, meio conselho companheiro, dado a este autor em setembro de 1986 por Leticia Muhana, à época editora-chefe do RJTV Primeira Edição, em seu primeiro dia de trabalho na redação da Globo, depois de oito anos na imprensa escrita, também remetia às características inegociáveis da linguagem de televisão e suas diferenças em relação ao jornalismo impresso.

Geneton Moraes Neto*, falecido em 2016 aos 60 anos, profissional originário da imprensa escrita que exerceu funções executivas nos programas e telejornais da Globo por cerca de trinta anos, disse, em sua entrevista em 2005, que nem gostava muito de imaginar a responsabilidade que assumia diariamente ao escrever, como fez milhares de vezes nos anos 1980 e 1990, o texto de uma escalada com as manchetes de abertura do JN:

“Quando você sabe que há pesquisas confirmando que 90% dos telespectadores do Jornal Nacional têm a TV como única fonte de informação, se você for pensar nisso na hora de fazer um programa de televisão, você não faz, eu acho que eu ficaria bloqueado”.

Geneton não ficava bloqueado porque, além de não pensar muito na responsabilidade, gostava de trabalhar com o “tom febril” das chamadas e escaladas dos telejornais da Globo. E foi no exercício dessa função que testemunhou, em março de 1986, a preocupação do próprio Roberto Marinho com o poder do telejornalismo da emissora, quando o então comentarista e editor de economia Paulo Henrique Amorim avisou a Geneton, na redação do Jornal da Globo: – Eu tenho uma notícia aqui que pode abrir o jornal. Vai sair a inflação do cruzado e me parece que é a maior inflação desde que o Plano Cruzado foi decretado.

– Pô, vamos fazer um carnaval com esse negócio!

Momentos depois, num dos intervalos da novela das oito, bem antes de o JG começar, os âncoras Eliakim Araújo e Leila Cordeiro entraram no ar com uma chamada na qual prometiam antecipar, “logo mais no Jornal da Globo”, os números do que seria “a maior inflação do cruzado”. Mas não passou muito tempo e a editora Beth Ritto transferiu uma ligação telefônica para Geneton: – Aqui é o Roberto Marinho, boa noite. Você trabalha no jornal da noite?

– Sim.

– Que história é essa de maior inflação do cruzado?

– O Paulo Henrique Amorim apurou essa informação. A gente vai antecipar no Jornal da Globo.

– Olha, é melhor não dar esse negócio não porque se a TV Globo diz que a inflação está aumentando, a inflação aumenta mais do que já está. Então, vamos esperar. Quando o governo anunciar oficialmente a TV Globo dá a notícia.

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