Ela nunca diz “meu avô”, mas “o pai do meu pai”. Marine foi vítima de abuso sexual na infância. Sua história está longe de ser uma exceção: no Brasil, a maioria das vítimas registradas tem até 13 anos e, nessa faixa etária, quase seis em cada dez agressores são familiares.*
Marine Courtade é jornalista independente francesa. Seu trabalho aborda com frequência conflitos, violência sexual e suas consequências, com reportagens sobre crianças nascidas de estupros durante o genocídio de Ruanda, vítimas na Espanha, crimes sexuais de guerra na Ucrânia e a unidade francesa dedicada ao combate à ciberpedofilia. Em A gente não fala dessas coisas, parte de sua própria experiência de incesto para realizar uma investigação jornalística sobre os mecanismos familiares e sociais que produzem silêncio em torno do abuso.
Ao seu redor, algumas pessoas desconfiavam do que estava acontecendo. Já adulta e jornalista, Marine decide empreender a investigação mais difícil de sua vida. Seu campo de apuração: a própria família. Seu objetivo: destrinchar os mecanismos do silêncio. Munida de um gravador e de uma pergunta simples – “Por que vocês não disseram nada?” –, ela parte em busca dos depoimentos de seus familiares, entre negação, constrangimento e amnésia. Sem jamais acusar ninguém, tenta compreender, com ternura e coragem, o que existe por trás de um dos mais persistentes tabus familiares. “Comovente, sensível e essencial.” Le Figaro
Alexandra Petit é ilustradora e animadora 2D francesa, interessada particularmente pelo movimento, pela moda e pela observação de gestos e pessoas; na obra, emprega um desenho expressivo e uma paleta contida para representar memória, trauma, entrevistas e relações familiares sem recorrer à exposição gráfica da violência sexual.
ISBN 978-85-8286-687-0
* Fonte: Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026
9 788582 866870
Além da liberdade artística da ilustradora, elementos identificadores da família – como lugares, rostos e nomes próprios – foram modificados para fins de universalidade da história e para focar na natureza sistêmica da produção do silêncio que envolve o incesto.
Tradução: Renata Silveira
“Precisamos reconhecer nossas histórias. Isso não significa que você não tenha mais o direito de existir. O ponto não é dizer: existem monstros. Como é possível que isso aconteça? Qual é a nossa resposta coletiva para garantir que isso nunca mais aconteça? É disso que estamos falando.” Adèle Haenel
Bordeaux, início de março de 2020
5
6
Cá estou eu em meu novo lar.
7
8
Obrigada, pai.
Parabéns, Marine.
Você vai ser feliz aqui!
9
Estou com meu pai, Nicolas, e minha mãe, Gwendoline. Ela prefere ser chamada de Gwen. É mais bonito. Gwendoline é horrível.
O ambiente é leve.
Querem ver a melhor vista da casa?
10
Oooh...
11
Não me enterrem, hein! Eu teria muito medo de acordar...
Lúgubre!
Espalhem minhas cinzas em Belle-Île, isso sim seria bacana!
Minha mãe passou parte da infância em Belle-Île-en-Mer e outra parte no Lubéron. O Lubéron é sinistro quando chove. Tenho muitas lembranças ruins de lá.
12
E você, pai?
Me enterrem em Castelnou, no jazigo da família.
Com meu pai.
13
14
Percebe que eu nunca irei te visitar?
Eu ficaria feliz em ser enterrado com meu pai.
15
16
17
Agradecemos a Thierry, Gudrun e Antoine pelo apoio. Agradeço a Anne-Julie, Marion, Pauline e toda a equipe da La Revue Dessinée e da Casterman pela ajuda e pelos olhares atentos. E, acima de tudo, agradeço a Marine por confiar em mim para contar sua história. Alexandra Agradeço aos meus pais, tios e tias pelo tempo, pelas palavras e pelo apoio durante este processo difícil e desafiador. Um agradecimento especial à minha mãe pela sua sábia perspectiva e pelos conselhos valiosos. Agradeço a Alexandra por seu traço e seu talento. Agradeço a Dedec e Alma pela orientação, incentivo e apoio constante. Agradeço a Fabienne Giuliani, Dorothée Dussy e Muriel Salmona pelo trabalho e pelas ideias. Agradeço a Audrey Darsonville pela revisão jurídica. Agradeço a toda a equipe da Casterman e da La Revue Dessinée, especialmente a Amélie, Sylvain, Camille, Emma e Valentine. Lembranças para T, C e A. Marine
Copyright © Casterman / La Revue Dessinée - 2025 All rights reserved. Publicado originalmente em língua francesa com o seguinte título: On ne parle pas de ces choses-là Todos os direitos reservados à Editora Nemo. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora. direção editorial
revisão
Arnaud Vin
Eduardo Soares
editor responsável
adaptação de capa e miolo
Eduardo Soares
Viviana Mara
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Courtade, Marine A gente não fala dessas coisas / Marine Courtade ; [ilustração] Alexandra Petit ; tradução Renata Silveira. -- 1. ed. -- São Paulo : Nemo, 2026. Título original: On ne parle pas de ces choses-là ISBN 978-85-8286-687-0 1. Courtade, Marine 2. Crianças - Violência sexual 3. Histórias em quadrinhos 4. Incesto 5. Memórias autobiográficas 6. Violência familiar I. Petit, Alexandra. II. Título. 26-398405.1
CDD-741.5 Índices para catálogo sistemático: 1. Histórias em quadrinhos 741.5
Eliete Marques da Silva - Bibliotecária - CRB-8/9380
A NEMO É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA São Paulo Av. Paulista, 2.073 . Conjunto Nacional Horsa I . Salas 404-406 . Bela Vista 01311-940 . São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468 www.editoranemo.com.br SAC: atendimentoleitor@grupoautentica.com.br
Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465 4500
editoranemo.com.br facebook.com/nemoeditora twitter.com/editoranemo