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A filha de Auschwitz

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LI LY G R A H A M

A filha de Auschwitz

TRADUÇÃO:

Elisa Nazarian


Copyright © 2021 Lily Graham Título original: The Child of Auschwitz Todos os direitos reservados pela Editora Gutenberg. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

editora responsável

Flavia Lago revisão

Bia Nunes de Sousa capa

Diogo Droschi diagramação

Waldênia Alvarenga

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil

Graham, Lily A filha de Auschwitz / Lily Graham ; tradução Elisa Nazarian. -- 1. ed. -- São Paulo : Gutenberg, 2021. Título original: The Child of Auschwitz ISBN 978-65-86553-48-2 1. Ficção inglesa 2. Holocausto judeu (1939-1945) - Ficção 3. Segunda Guerra Mundial I. Título.

21-55563

CDD-823

Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura inglesa 823 Maria Alice Ferreira - Bibliotecária - CRB-8/7964

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Inspirado em uma história real.


Nasci em um mundo que proibiu minha existência. Caso alguma das autoridades tivesse tido conhecimento de que eu existia, esse simples fato teria sido o suficiente para acabar com minha vida antes mesmo de ela ter começado. Ainda assim, cheguei aqui. Pequena, quase à míngua, mas determinada a ficar viva, em uma das noites mais frias em um dos lugares mais tenebrosos da história da humanidade. Sem saber, nem entender, que minha luta estava apenas começando. As mulheres que me ajudaram inclinaram suas cabeças raspadas e choraram as lágrimas que eu não consegui, amontoadas com seus corpos fracos para me oferecer proteção. Mal soltei um som, meus pulmões pouco desenvolvidos não me permitiram chorar. Isso dificultou minha vida, foi um preço que paguei ao longo dos anos, mas foi o motivo de eu ter sobrevivido. Veja, crianças nasceram em Auschwitz. E eu fui uma delas.

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PRAGA, HOJE

Era novembro, e o frio era um hóspede indesejável. Os joelhos de Nadĕje estalaram quando ela se levantou para pôr mais lenha no aquecedor. Lá fora, o nevoeiro tinha aumentado, e a luz da rua transformava o horizonte em uma bruma âmbar, algodoada. Era uma noite amortecida e recolhida, feita para reflexões e infindáveis xícaras de café. A cama era um conforto a que ela se negaria até ter aquilo terminado. Olhou para a pilha de cartas à sua frente, e com seus dedos envelhecidos sentiu as marcas profundas onde a pena de sua mãe derramara rios de azul. Adiara aquilo por tempo demais. Esperou o momento certo para contar uma história que havia começado muito antes de ela nascer. Pelas palavras certas. Pela hora certa. Mas a vida não espera até estarmos prontos. Na maioria das vezes, ela nos joga nas profundezas e exige que nademos. Preparados ou não. Houve uma batida de leve na porta, e Kamila, sua neta, apontou a cabeça escura por trás da porta, suspirando ao vê-la à escrivaninha. Seus olhos disseram milhares de palavras, e a boca logo acompanhou, como geralmente acontecia: 9


– Você vai se acabar, Babička, ficando acordada assim, você sabe o que o médico disse. Nadĕje analisou a moça por sobre os óculos, seus olhos azuis penetrantes, como faziam quando ela estava em pé em um tablado, pedindo aos alunos que refletissem sobre as coisas de uma maneira diferente. – O que os médicos de fato sabem sobre o espírito humano, dítè? Eles só confiam no que podem colocar em um vidro, ou explicar em branco e preto. Mas eu vi o que as pessoas podem fazer, o que elas podem conquistar quando sobrevivem. É apenas uma questão de vontade. Kamila não era tola de discutir filosofia com a avó. Então, em vez disso, tentou uma simples e irrefutável verdade: – Mas todos nós precisamos dormir, Babička, até você. Os lábios de Nadĕje curvaram-se numa confirmação, e ela escolheu uma velha mentira como se fosse um velho par de chinelos, confortável e familiar. – Só mais dez minutos. – Depois, levantou os olhos, com um olhar esperançoso. – E talvez mais uma xícara de café? Kamila soltou um som que era um misto de divertimento e resignação. – Tudo bem, mas depois é hora de dormir – disse, com firmeza, pressionando os lábios na têmpora da avó, antes de ir até a cafeteira do outro lado da sala. Nadĕje concordou com a cabeça, mas as duas sabiam que isso não ia acontecer. Ela ficaria ali até terminar, não importava o quanto fosse demorar. Colocou os óculos novamente e virou uma nova folha de papel. Então, tocou na fotografia em sua moldura dourada, sempre na sua escrivaninha, de uma mulher jovem e magra, cabelo escuro muito curto e com um bebê nos braços. Tinha uma última história a contar. A história delas. E começava com o inferno sobre a terra.

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UM

Auschwitz, dezembro de 1942 – Ficou maluca, Kritzelei? – sibilou Sofie em seu ouvido, os olhos arregalados de medo, o entrecruzado de cicatrizes em sua cabeça recém-raspada violáceo contra a brancura do crânio. – Quer que eles atirem na gente? Vá andando. Eva Adami caminhava aos tropeços sob um temporal, em seus tamancos desemparceirados e grandes demais, quase perdendo um deles na lama espessa e implacável revirada por milhares de pés antes dela. Ainda estava escuro, talvez passasse um pouco das quatro da manhã, embora a intensa luz dos holofotes fizesse parecer muito mais tarde. Ela se curvou enquanto caminhava, tentando se manter aquecida. Tarefa fútil e ingrata. O aguaceiro parecia se inclinar maldosamente para escorrer por dentro da sua gola. Ela detestava a Appell. A dupla chamada diária, onde se esperava que se arrastassem lá para fora e esperassem, não importando o clima, não importando se estivessem vestidas ou não, enquanto eram contadas e recontadas horas e horas a fio. A desobediência poderia custar sua vida. Mas, naquele lugar, quase tudo poderia custar sua vida. 11


Ela se virou para olhar a amiga, uma expressão esquisita em seu rosto magro, os olhos cor de avelã parecendo ainda maiores por causa do cabelo escuro raspado. – Só estamos aqui há uma semana. Foi o que Helga acabou de dizer. Houve um leve suspiro, seguido por um xingamento em voz baixa. Uma semana. Ali. Uma semana em que tinham sido desprovidas de sua humanidade. Em que foram arrebanhadas feito gado e enfiadas dentro de um trem sujo cheirando a morte e a degradação, mal dando para respirar com a pressão entre os corpos. E então chegar a um profundo caos, barulho e gritos, manuseio grosseiro, depois separadas em grupos e conduzidas a um grande saguão onde foram despidas e enfileiradas nuas, em frente aos olhares maliciosos dos guardas da SS, as cabeças raspadas por mãos rudes. Em seguida, atropelaram-se para se vestir, escolhendo em um sortimento de itens incompatíveis e usados, e foram postas para fora. Eva não sabia que ainda podia ficar chocada depois de tudo que havia passado até então, mas de algum modo as palavras de Helga provocaram isso. – Uma semana no inferno – murmurou Vanda, ecoando seus pensamentos. Seu cabelo ruivo, a pele clara e as sardas contradiziam sua origem tcheco-húngara. – A sensação é de uma eternidade. Estivera com elas no trem. Viajaram em pé por dois dias. Havia um balde para comida e um para os dejetos de cinquenta mulheres. – Você pensa que é preciso mais do que uma semana para acabar com uma vida? – sussurrou Helga, parecendo incrédula. Estava na faixa dos 50 anos, mas parecia muito mais velha. Seu cabelo escuro e grisalho tinha começado a crescer em mechas murchas, e seus olhos tinham aquele olhar vidrado que algumas outras pessoas tinham, como se fosse um fantasma ambulante. 12


Estava ali há vários meses a mais do que elas, e o tempo começava a cobrar seu preço, especialmente em sua paciência para com as recém-chegadas, como Eva. – Depois de tudo, você ainda não sabe que uma vida pode sofrer uma reviravolta dessas? – perguntou, batendo a palma da mão em seu pulso magro, levando todas elas a se encolher com o som parecido com o de uma bala. Ela sacudiu a cabeça, depois se recusou a olhar de volta para elas. Eva realmente sabia. Melhor do que algumas. Mesmo assim, não conseguia deixar de pensar que, apenas uma semana antes, não fazia ideia até mesmo de que existisse tal lugar – destinado unicamente ao extermínio. Um lugar que fazia Terezín, o campo de concentração e gueto judaico fora de Praga, a que tinha chamado de lar no último ano, parecer um sonho. – Não, o inferno teria sido melhor – murmurou Vanda, quando Helga voltou a seguir em frente e elas a acompanharam, seus lábios se retorcendo num sorriso irônico, ao olhar de volta para elas. Todas se viraram e a fitaram, intrigadas, quando um dos pastores-alemães começou a mostrar os dentes e a rosnar, o pelo eriçando-se, pronto para estraçalhá-las e deixar na lama uma trilha sangrenta dos seus restos. Vanda olhou de volta para o cachorro, sem nem ao menos se encolher. – Pelo menos, estaríamos quentes. Eva resfolegou. Era surpreendente o que uma pessoa achava engraçado, agora. Na “refeição” do meio-dia, elas ficaram em fila, esperando sua respectiva porção de sopa. Eva usou a mão como xícara para o líquido aguado, não conseguindo nem perto da quantidade que lhe era devida, porque por mais que tentasse, sem uma caneca, o precioso líquido ainda caía no chão. A comida tinha um cheiro e um gosto peculiares. Algumas se recusaram a comer, assim que 13


chegaram, e até ela, que conhecia bem demais a fome, tendo vindo de Terezín, tinha achado difícil ingeri-la no começo, mas agora todas engoliam aquilo com desespero. Corria um rumor de que os guardas acrescentavam algo para mantê-las calmas e parar a menstruação. No primeiro caso, não funcionou, e o tempo diria quanto ao segundo. Ela desconfiava que, de qualquer modo, as rações de fome acabariam dando um jeito nisso, embora não fosse algo garantido, pois algumas pobres mulheres ainda menstruavam, apesar de tudo. O gosto da sopa era realmente horroroso, mas ela teria dado qualquer coisa para conseguir mais. Em sua mente não havia espaço para o medo do dano que uma comida estragada poderia fazer em seu corpo a longo prazo; agora só conseguia se preocupar em sobreviver mais um dia, e isso significava tentar conseguir mais, de algum modo. À noite, por volta das sete horas, depois de terminado o dia de trabalho e elas terem “tempo livre” – que passavam em seus barracões –, recebiam uma fatia de trezentos gramas de pão preto e uma colherada de geleia ou margarina, cuja metade deveria ser guardada para o café da manhã. Poucas conseguiam esperar e começavam o dia com um substituto granuloso de café, que não tinha muito gosto, até finalmente receberem a sopa. – A primeira coisa que vamos fazer – Eva disse a Sofie depois de terminarem de comer, observando uma das mulheres, que estava ali havia mais tempo, adiantar-se para receber uma porção maior, com a ajuda por uma caneca de metal amassada que tinha nas mãos – é conseguir nossas próprias canecas, ou talvez até tigelas. As que tinham tais luxos conseguiam uma porção maior, além de pedaços maiores de vegetais. Um utensílio tão simples, mas que ali poderia fazer a diferença entre a vida ou a morte. Sofie olhou, depois sacudiu a cabeça, rindo sem querer. O som foi doce e inesperado, como um trinado em uma manhã sombria de inverno. – Uma tigela? Aqui? Kritzelei, sempre almejando as estrelas. E como você sugere que façamos isso? 14


Os lábios de Eva contraíram-se em resposta, seus olhos cor de avelã acesos. Em Terezín, onde as duas se conheceram, Sofie havia lhe dado o apelido de Kritzelei. Significava “ociosidade”, porque Eva tinha tendência a devanear e ver o mundo da maneira que gostaria que fosse. Tinha sido artista e ilustradora, com um futuro promissor, antes que os nazistas tivessem decidido outra coisa. Em Terezín, no entanto, Eva havia se tornado uma artista em outras coisas, pela necessidade. Como “escoar”, redistribuir pertences que haviam sido tirados deles na Schleuse, área aonde os prisioneiros eram levados no campo e espoliados de suas coisas. Escoar não era de fato roubar, era mais como devolver, só que com lucro. – Ainda não sei – ela respondeu, observando uma mulher, tão magra que parecia feita de palitos de fósforos, passar flutuando. – Mas temos que tentar. Não podemos acabar como elas. – Nós as chamamos de muselmann – Helga cochichara, logo depois de se apresentar, na primeira noite que passaram no barracão gelado, onde mais de uma centena de mulheres dormia, oito em cada um dos três níveis dos beliches duros, de madeira, que se estendiam pelo cômodo, parecendo gaiolas. Elza olhou para onde o dedo vermelho e retorcido de Helga apontava, uma mulher com aspecto de uma casca vazia, cuja alma parecia ter se despedido havia um tempo. – Muselmann? – Como homens ajoelhados rezando. Completamente recolhidas em si mesmas. São as que simplesmente desistiram. Eva pestanejou, tentado assimilar aquilo, em meio a tudo mais que havia acontecido naquele dia. Seria aquele seu futuro? Seria o de Sofie? – Você consegue culpá-las? – perguntou Vanda, quando uma jovem, que também estivera com elas no trem, desatou a chorar. De repente, uma Kapo, uma prisioneira antiga, encarregada do barracão delas, adiantou-se e estapeou o rosto da menina que 15


chorava, mandando-a ficar quieta ou chamaria um guarda para calá-la em definitivo. – Ela não é cruel como as outras – disse Helga, referindo-se às outras Kapos, algumas delas tão ruins quanto os guardas, imitando seu sadismo para cair nas suas graças; algumas pareciam ter conservado um lampejo de humanidade. Enquanto Eva e Sofie olhavam fixo, Helga explicou: – A menina que está chorando acabou de descobrir o que aconteceu com a mãe – cochichou. – É melhor ela aprender a se adaptar e não fazer um escarcéu, ou logo será a próxima. Eva sentiu um calafrio correr pela espinha, que não tinha nada a ver com o frio no barracão gelado. – Para onde eles levaram a mãe dela? – perguntou. A idosa estava curvada como um velho corvo. Seu cabelo preto, sujo, que estava se tornando grisalho, recomeçara a crescer, liso e murcho em sua cabeça, como penas comidas por traças. Ela olhou para Eva como se a resposta fosse óbvia, depois indicou o lado de fora, ainda que elas não pudessem de fato ver pelas pequenas frestas. – Para a chaminé. Eva ficou sem fala, agarrando-se a Sofie, enquanto tomava consciência. – Eles as queimaram? Sofie fechou os olhos num horror mudo. Helga assentiu com uma expressão compassiva. Seus olhos grandes e escuros, bordejados com rugas finas e arroxeadas não tinham vida, mesmo quando disse: – Vamos morrer aqui. Quanto antes aceitarmos, melhor. Então virou-se e deitou de frente para o outro lado da parede no beliche, aparentemente cansada de falar e explicar o inevitável para as recém-chegadas. Eva engoliu em seco, ouvindo o som dos soluços abafados da menina, seu coração golpeando dolorosamente dentro do peito. Trocou com Sofie e Vanda um olhar silencioso de horror. 16


Ao cair da noite, elas receberam uma fatia de pão preto de pouco mais de sete centímetros, e só lhes restou tentar dormir. Eva encaixou o corpo ao lado do de Sofie. O beliche era duro, com um cobertor fino e sujo que todas procuravam compartilhar. Apesar do contato entre os corpos, ainda estava gelado. Seus pés estavam nus, já que não conseguira encontrar meias curtas ou compridas depois de ter sido deixada nua para o que simulava um chuveiro, onde haviam simplesmente borrifado água sobre a pele suja e colocado roupas ainda mais sujas sobre o corpo molhado e frio. Levaria algum tempo até que elas começassem a temer chuveiros, mas por enquanto eram abençoadamente ignorantes. Por enquanto, processar isso era o suficiente. Ela vestia um conjunto maltrapilho, consistindo em um velho redingote, um uniforme de mangas compridas, enorme, além de uma jaqueta masculina fina, listada, além de tamancos desemparceirados, que a alertaram para manter nos pés até enquanto dormia, para evitar roubo. Eva virou-se, seus olhos contemplando o estrado de madeira sobre sua cabeça, fazendo as outras resmungarem, pois cada uma delas também teria que virar. As palavras sombrias de Helga reverberavam dentro de seu crânio como uma marreta. – Nós vamos viver – cochichou para Sofie, pegando a mão da amiga na noite escura. – Sobreviveremos a isto, como fizemos em Terezín. – Como? – murmurou Sofie. Sua amiga de fala franca, dura, virou seus olhos escuros e temerosos para ela. Sob eles, havia olheiras fundas. No trem o sono fora escasso, e ela desconfiava que também haveria pouco descanso nos dias à frente. – Tem uma mulher aqui que disse que eles mataram todo mundo em sua aldeia, todos foram levados e fuzilados no primeiro dia. Quase todas aqui perderam pais ou companheiros ou filhos. Eva olhou para ela no escuro, tentando assimilar aquilo. – Isso mesmo – disse Helga entre dentes, sentando-se com uma careta, depois se virando de frente para lhes desferir um olhar 17


enfezado por mantê-la acordada. Seus olhos estavam vidrados, quase febris em sua raiva súbita. Algumas das outras mulheres gemeram com o incômodo. Helga ignorou-as, enquanto repreendia Eva: – Você se acha especial? Que você, entre todas as outras aqui, merece viver? – Não, não acho. – Eva sacudiu a cabeça. – Mas de algum modo você pensa que sairá daqui viva? – sibilou Helga, erguendo uma sobrancelha fina. – Calem a boca! – gritou a Kapo, surgindo, de repente, do seu quarto no final do barracão. – Ou mando atirarem em vocês aqui e agora! Elas se aquietaram rapidamente. Eva tornou a se deitar, encarando a madeira acima da cabeça, e depois cochichou para Sofie: – Nós viveremos e vou reencontrar Michal. Helga fez um som com o fundo da garganta, incrédula: – Seu marido? – adivinhou. – Você é uma idiota absoluta. Ninguém aqui pode se dar ao luxo de pensar assim. Acredite em mim, é melhor esquecer quem você era; agora aquela vida acabou. Eva afastou uma lágrima raivosa, pensando: Muselmann. – Não. É isto que não podemos nos dar ao luxo de pensar, como se não houvesse esperança, porque essa é a única maneira de eles de fato vencerem.

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