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A Extraordinária Garota Chamada Estrela

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Copyright © 2000 Jerry Spinelli Esta edição foi publicada de acordo com a Random House Children’s Books, uma divisão da Random House LLC. Copyright © 2014 Editora Gutenberg Título original: Stargirl Todos os direitos reservados pela Editora Gutenberg. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos ou em cópia reprográfica, sem a autorização prévia da Editora. GERENTE EDITORIAL

REVISÃO

Alessandra J. Gelman Ruiz

Vero Verbo Serviços de Editoração

EDITOR ASSISTENTE

CAPA

Denis Araki

Diogo Droschi

ASSISTENTES EDITORIAIS

DIAGRAMAÇÃO

Carol Christo Felipe Castilho

Christiane Morais de Oliveira

PREPARAÇÃO DE TEXTO

Bete Abreu Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil

Spinelli, Jerry A extraordinária garota chamada Estrela / Jerry Spinelli ; tradução Eric Novello. -- Belo Horizonte : Editora Gutenberg, 2014. Título original: Stargirl ISBN 978-85-8235-144-4 1. Ficção - Literatura infantojuvenil I. Título. 14-04295

CDD-028.5

Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura infantojuvenil 028.5 2. Ficção : Literatura juvenil 028.5

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Para Eileen, minha Estrela, e para Loren Eiseley, que nos ensinou que mesmo enquanto somos, estamos nos tornando. E para Sonny Liston.


Agradecimentos

Muito obrigado a Nick Uliano, Tony Coia e Mike Oliver por me ajudarem a contar esta história, e à minha editora, Joan Slattery.


Gravata de porco-espinho

Q

uando eu era pequeno, meu tio Pete tinha uma gravata com estampa de porco-espinho. Para mim, essa gravata era a coisa mais legal do mundo. O tio Pete parava pacientemente na minha frente enquanto eu percorria a superfície de seda com os dedos, meio que esperando ser furado por um dos espinhos. Uma vez, ele deixou que eu a vestisse. Continuei procurando uma para mim, mas nunca consegui encontrar. Eu tinha 12 anos quando nos mudamos da Pensilvânia para o Arizona. Quando o tio Pete veio se despedir, ele vestia a gravata. Pensei que tinha feito isso para que eu pudesse dar uma última espiada nela, e fiquei agradecido. Mas então, com um floreio dramático, ele arrancou a gravata e a pendurou no meu pescoço. “É sua”, disse ele. “Um presente de despedida.” Eu amava tanto aquela gravata de porco-espinho que decidi começar uma coleção. Dois anos depois de nos estabelecermos no Arizona, a minha coleção continuava a ter apenas uma gravata. Onde encontrar uma gravata de porco-espinho em Mica, Arizona, ou em qualquer outro lugar, aliás? No meu aniversário de 14 anos, li sobre mim mesmo no jornal da cidade. A seção de cotidiano trazia uma coluna regular sobre crianças em seus aniversários, e minha


mãe tinha passado algumas informações. A última frase dizia: “Como hobby, Leo Borlock coleciona gravatas de porco-espinho”. Alguns dias depois, vindo da escola para casa, encontrei uma sacola plástica no degrau da entrada. Dentro dela, um pacote embrulhado para presente com fitas amarelas. A etiqueta dizia: “Feliz aniversário!”. Abri o pacote. Era uma gravata de porco-espinho. Dois porcos-espinhos jogavam dardos com seus espinhos, enquanto um terceiro palitava os dentes. Inspecionei a caixa, a etiqueta, o papel. Não encontrei em lugar nenhum o nome de quem havia deixado o presente. Perguntei aos meus pais. Perguntei aos meus amigos. Liguei para o tio Pete. Todos negaram saber algo sobre o assunto. Na época, considerei o episódio um mistério. Não havia me ocorrido que eu estava sendo observado. Todos nós estávamos sendo observados.


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“V

ocê a viu?” Essa foi a primeira coisa que Kevin me disse no primeiro dia de escola, no segundo ano do ensino médio. Estávamos esperando tocar o sinal. “Vi quem?”, perguntei. “Rá!” Ele esticou o pescoço, analisando a multidão. Tinha testemunhado algo marcante, seu rosto demonstrava isso. Ele sorriu, ainda procurando. “Você saberá.” Havia centenas de nós, parados de bobeira, gritando nomes, apontando para os rostos bronzeados de verão que não víamos desde antes das férias. Nosso interesse nos outros era sempre mais aguçado durante os quinze minutos antes do primeiro sinal do primeiro dia. Soquei o braço dele. “Quem?” O sinal tocou. Entramos. Ouvi aquilo de novo na sala de aula, uma voz sussurrando atrás de mim enquanto fazíamos o juramento à bandeira: “Está vendo ela?” Ouvi aquilo nos corredores. Nas aulas de Inglês e de Geometria: “Você a viu?” Quem poderia ser? Uma nova aluna? Uma loira espetacular da Califórnia? Ou lá do leste, de onde vinha a maioria de nós? Ou uma dessas transformações de verão, 11


alguém que sai em junho parecendo uma menininha e volta em setembro como uma mulher de corpo feito, um milagre de dez semanas? E então, na aula de Ciências, ouvi um nome: “Estrela”. Virei-me para o aluno do último ano que andava atrás de mim. “Estrela?” Perguntei. “Que tipo de nome é esse?” “É isso mesmo. Estrela Caraway. Ela disse na sala de aula.” “Estrela?” “Sim.” E então eu a vi. No almoço. Usava um vestido cor de gelo tão longo, que cobria seus sapatos. Tinha babados ao redor do pescoço e das mangas e, pela aparência, poderia ter sido o vestido de casamento de sua bisavó. Seu cabelo tinha cor de areia. Ele caía sobre os ombros. Havia algo amarrado às suas costas, mas não era uma mochila. De início, pensei que fosse um violão em miniatura. Descobri mais tarde ser um ukulele. Ela não carregava uma bandeja de almoço. Carregava uma bolsa grande de lona estampada com um girassol em tamanho real. O refeitório ficou totalmente silencioso quando ela entrou. Parou em uma mesa vazia, deixou a bolsa, pendurou a alça do instrumento na cadeira e se sentou. Tirou um sanduíche da bolsa e começou a comer. Metade do refeitório continuou a olhar, metade começou a cochichar. Kevin estava sorrindo. “O que eu te disse?” Concordei. “Ela está no primeiro ano”, disse ele. “Ouvi dizer que estudava em casa até agora.” “Talvez isso explique”, eu disse. Ela estava de costas para nós, então eu não conseguia ver seu rosto. Ninguém se sentou com ela, mas nas mesas próximas, as pessoas se apertavam por um lugar. Ela parecia 12


não notar. Parecia abandonada em um mar de rostos que a encaravam e cochichavam. Kevin estava sorrindo de novo. “Está pensando no mesmo que eu?”, disse ele. Sorri de volta. Concordei novamente. “Cadeira Elétrica.” Cadeira Elétrica era o programa de TV interno de nossa escola. Tínhamos dado início a ele um ano atrás. Eu era o produtor/diretor, Kevin era o apresentador. Todo mês ele entrevistava um aluno. Até agora, a maioria deles tinha sido do tipo alunos de destaque, atletas, cidadãosmodelo. Notáveis da maneira usual, mas não especialmente interessantes. De repente, os olhos de Kevin se arregalaram. A garota estava pegando seu ukulele. E agora ela o dedilhava. E estava cantando! Dedilhando, balançando a cabeça e os ombros, cantando “I’m looking over a four-leaf clover that I overlooked before”. Silêncio sepulcral por toda parte. Em seguida, veio o som de uma única pessoa aplaudindo. Procurei. Era a moça do caixa do refeitório. E agora a garota estava em pé, pendurando a bolsa sobre o ombro e passando entre as mesas, dedilhando e cantando, empertigando-se e girando. Cabeças balançaram, olhos a seguiram, bocas se abriram. Incredulidade. Quando ela veio à nossa mesa, dei pela primeira vez uma boa olhada em seu rosto. Ela não era linda, não era feia. Um pontilhado de sardas cruzava o septo do seu nariz. De modo geral, ela parecia com uma centena de outras garotas na escola, exceto por dois detalhes. Não usava nenhuma maquiagem, e seus olhos eram os maiores que eu já tinha visto, como olhos de um cervo vistos na luz de faróis. Ela girou enquanto passava por nós, e sua saia vistosa roçou a perna da minha calça, e então marchou para fora do refeitório. 13


Três aplausos lentos vieram de uma das mesas. Alguém assobiou. Alguém gritou. Kevin e eu nos olhamos boquiabertos. Ele ergueu as mãos e formou uma moldura no ar. “Cadeira Elétrica. Próxima atração: Estrela!” Dei um tapa na mesa. “Sim!” Batemos forte as mãos.

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