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A confraria da oliveira

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Da autora de Uma praça em Antuérpia

A confraria da oliveira Luize Valente

Luize Valente

A confraria da oliveira

Copyright © 2026 Luize Valente

Copyright desta edição © 2026 Editora Vestígio

Todos os direitos reservados pela Editora Vestígio. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

direção editorial

Arnaud Vin

editora responsável

Rejane Dias

preparação de texto

Sonia Junqueira

revisão

Cecília Castro

capa

Diogo Droschi

(sobre ilustração de Vito Quintans)

diagramação

Guilherme Fagundes

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil

Valente, Luize

A confraria da oliveira / Luize Valente. -- São Paulo : Vestígio Editora, 2026.

ISBN 978-65-6002-140-2

1. Romance brasileiro I. Título.

26-329543.0

Índices para catálogo sistemático:

CDD-B869.3

1. Romances : Literatura brasileira B869.3

Eliete Marques da Silva - Bibliotecária - CRB-8/9380

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“Mas o destino que temos é o destino que somos.”

História do cerco de Lisboa, José Saramago

Séculos XVI e XVII

Manuel Botas (1490-1531)

1524

Brites Nunes (1503-1544)

Brianda Botas (1525-1570) 1544

Dom Henrique (1531-1578)

Dinis Paes de Caminha (1561-?)

1560

Dona Eulália (1545-1625)

Diogo Paes de Caminha (1566-1654)

Duarte Botas de Caminha (1596-1610)

1589

Branca Oliva Botas (1570-1605)

Branca Oliva Botas de Caminha (1605-?)

Francisco Gama (1520-1599)

1571

Teles (1540-?)

1597

Pasteleiro (1545-1603)

Violante (1572-?)

Antónia (1573-?)

Afonso (1576-?)

Leonor

Séculos XX e XXI

João da Beira (1890-?)

1925

Manuela Bragança (1895-1939)

Rosa (1926-1990)

Henrique (1946)

Branca Oliva

Botas de Caminha (1915-2017)

1913

1991

Anita (1970) José (1993)

Branca Oliva (2018)

Alexandre (1965)

Helena (1995)

Duarte Botas de Caminha (1887-1923)

Duarte Botas de Caminha (1915-1945)

Belarmino do Amaral (1891-?)

1940

Duarte Botas de Caminha (1941-1945)

Irene do Amaral (1920-1945)

1918

Luiza do Amaral Frates (1943-2012)

1966

Luiza do Amaral (1896-1933)

Angelina do Amaral Frates (1923)

Branca Oliva Botas (1968 )

Domingos Medrado (1933-1983)

1940

Joaquim Frates (1916-2004)

Filha adotiva Meia-irmã

A SEMENTE

Parte I

A história de cada ser humano é como um rio.

As águas nascem na cabeceira, num ponto alto de terreno. Quando não secam, se avolumam e seguem em frente até desaguar na foz. Pode ser mar, lago, ou mesmo outro rio.

Rio de Janeiro

24 de março de 2018

No dia em que completava cinquenta anos, Branca foi surpreendida por um telefonema. Tinha herdado uma oliveira. Uma árvore de azeitonas – uma única árvore – plantada há mais de cinco séculos, na cidade de Santarém, a sessenta quilômetros de Lisboa. De Portugal, Branca nada conhecia além de uma rápida escala no Aeroporto Humberto Delgado, na época ainda Aeroporto da Portela, na sua primeira viagem à Europa, em 1986, presente de aniversário de 18 anos.

Ganhar uma herança de um parente desconhecido era como acertar os seis números da loteria. O primeiro minuto de conversa – o tom formal e as vogais fechadas – deixou claro que não era um trote. Tratava-se mesmo de uma chamada de além-mar, de um tabelião, à procura de Branca Oliva, neta de Duarte Botas de Caminha. Branca ainda não se acostumara (havia poucos dias que descobrira o passado velado da mãe) ao “novo” sobrenome que se juntara ao seu nome, tão singular. Branca Oliva. Não Olívia. Oliva. Como uma azeitona. Rapidamente, o que poderia ser os seis números da loteria milionária se transformou num prêmio de parque de diversões. Um daqueles ursos gigantescos de pelúcia a ser acomodado em uma quitinete. O que ela faria com uma árvore de azeitonas

no outro lado do Atlântico? Um prêmio que viria carregado de insinuações sarcásticas quando ela contasse aos amigos. “Se ‘o bom filho a casa torna’, nada mais natural que a azeitona retorne à oliveira.”

Branca encerrou a ligação e foi para o quarto. No fundo do armário descansava o baú de couro envelhecido que pertencera à mãe. Levantou a tampa e retirou um pequeno objeto, enrolado num lenço bordado com o nome Branca Oliva. Acariciou a peça: um toco de madeira, retangular, com casca escura e bordas irregulares, como se fosse cavoucado de um tronco. Aproximou as narinas, não havia cheiro. Ela conhecia azeitonas e azeites, mas nunca vira uma oliveira. Não era preciso que tivesse visto para ter a certeza de que aquela lasca pertencia à sua árvore.

Foi tomada pela sensação de existir uma outra vida que deixara de viver, mas que seguira seu rumo sem ela. Agora essa outra vida a encontrava. Era como se a realidade paralela se tornasse um círculo que, aos poucos, ia se fechando.

Branca atribuiu ao acaso o fato de duas árvores virarem, subitamente, protagonistas da sua vida. Uma era herança de um avô cuja existência só descobrira recentemente. A outra, o estopim da sua separação, mesmo que por vias tortas.

Fora morar com Miguel depois de cinco anos entre duas casas e do constante adiamento do que ele, mais do que ela, achava importante oficializar. Alugou, com os móveis, os eletrodomésticos e um nó no peito, o apartamento no Jardim Botânico – bairro que lhe corria nas veias. Sim, ela era totalmente bairrista. A casa, no Cosme Velho, era espaçosa, colada na mata, e tinha uma cozinha externa com forno a lenha e churrasqueira no fundo do quintal. Reforma que Miguel fizera – segundo ele, pensando nela. Branca adorava cozinhar. As cinzas da cachorrinha Bebel estavam espalhadas no jardim e a nova cachorrinha, Canela, já vivia lá há quase um ano.

Morar era diferente de passar temporadas, mesmo que longas. Morar significava também ser responsável pelo espaço que agora ela habitava. Numa manhã, cinco meses após a mudança – e a dez dias do Natal –, Branca acordou sobressaltada com o barulho de uma motosserra. Abriu a janela do quarto e viu dois homens equilibrados numa escada dupla levemente apoiada na cerca viva. Um deles aproximava a serra de um tronco espesso da copa frondosa. O galho largo da figueira tombava sobre o terreno vizinho, fazendo sombra no canto da piscina.

O grito para que parassem ecoou alto e ríspido. Fez os pássaros levantarem voo. Calçou um par de tênis e desceu correndo as escadas, ainda de pijama. Mal atravessou a porta de vidro que se abria para o jardim, a campainha tocou. Era Lila. Única irmã de Miguel, e vizinha.

As duas casas, herança de família, eram separadas por uma cerca viva, não muito alta, que dividia o terreno. A figueira –localizada na parte herdada por Miguel – fora plantada quando o avô dele era ainda criança. A árvore, com seus onze metros de altura, sustentava a copa em forma de chapéu. Por décadas dera frutos, até transformar-se num ombrelone natural que cobria a mesa de madeira, de doze lugares, na parte descoberta da cozinha. Era ali que os almoços viravam jantares e entravam pela madrugada, com rodas de violão e fogueira nas noites frias. Quando Branca conheceu Miguel, na casa de amigos em comum, a primeira conversa girou em torno de comida. Ela, uma cozinheira amadora. Ele, um glutão com uma única especialidade: farofas sem bacon. Descobriram, naquele momento, que ambos adoravam bichos e, apesar de terem pais gaúchos, não comiam carne vermelha. O convite para que ela fosse almoçar na casa dele, no final de semana, surgiu naturalmente. Branca chegou à casa do Cosme Velho no começo da tarde de um sábado ensolarado, levando a vira-lata Bebel. Miguel não havia mencionado a árvore centenária de galhos espessos e folhas abundantes que impediam a passagem dos raios de sol. Muito menos a mesa ao ar livre, com apenas dois dos doze lugares postos. O churrasco vegetariano era farto em legumes na brasa e acompanhamentos – do arroz com brócolis à farofa de banana da terra. Ele havia feito um banquete somente para ela. Miguel surgia na vida de Branca no momento em que ela se sentia mais só. A mãe morrera havia pouco mais de dois meses, de infarto. Durante muito tempo, foram apenas ela e a mãe. A morte violenta do pai – num assalto, quando Branca tinha quinze anos – marcou as duas como uma tatuagem

malfeita, ao mesmo tempo que as fez cúmplices silenciosas de uma tragédia compartilhada.

Gabava-se de poder contar tudo à mãe e de contar com ela para tudo, sem as simbioses e neuroses que costumavam marcar certas relações familiares. Branca realmente gostava da companhia de Luiza, de fazer confidências, ir ao cinema ou simplesmente tomar o café da manhã aos domingos, sem pressa, cada uma com um caderno do jornal.

Naquele fim de tarde – ela sentada na cabeceira da mesa farta, Miguel ao lado, a lua nascendo, a vira-lata entretida com os insetos do jardim –, Branca soube que ficaria muito mais do que um dia ali. Não era uma paixão arrebatadora, à primeira vista, mas era o que ela almejava depois de tantos relacionamentos carregados de passionalidade. Alguém por quem fosse se apaixonando – e assim vivesse, em constante gerúndio.

Branca era filha única; Miguel tinha Lila, a irmã dez anos mais velha que praticamente o criara. Ele pouco falava da mãe, que havia deixado o pai, quando Miguel tinha 12 anos, para viver com um argentino em Buenos Aires. Ela bem que tentara levar o filho, mas as questões práticas – distância e dinheiro, principalmente – e os astutos advogados da família paterna fizeram com que o menino ficasse no Cosme Velho. Lila já era casada, na época. O terreno foi dividido e outra casa erguida ao lado. Lila, desde cedo tão atenciosa, cuidava de vários aspectos da vida do pai e do irmão – marcava consultas médicas, fazia as compras de mercado, dava ordens à diarista –, o que era confortável para ambos. Miguel seguiu a própria vida, morou fora, com idas e vindas à casa da infância. Com a morte do pai, herdou a propriedade e passou a viver nela.

Três anos depois, numa quarta feira de maio, Miguel e Branca se conheceram. No sábado, ela chegou à casa dele para o almoço e só saiu na segunda-feira de manhã, de banho tomado, direto para o trabalho. Voltou no fim da tarde para buscar Bebel. Os cinco anos seguintes foram revezados entre o

Cosme Velho e o Jardim Botânico. Tinham um mês de namoro quando Miguel convidou Branca para acompanhá-lo numa conferência em Salvador, durante um feriado prolongado. Lila se ofereceu para cuidar de Bebel. Fez questão absoluta. Por causa da idade, a cadela demandava atenção redobrada. Na volta, a cachorra havia ganhado nova cama, brinquedos e uma sessão de acupuntura.

Lila conquistara Branca. Branca é que deveria ter se empenhado na conquista de Lila. Branca era o elemento externo, anônimo, estranho àquele pequeno núcleo composto pelos irmãos. Foi se acostumando à comodidade daquela cunhada que resolvia os problemas da casa que ela confortavelmente ocupava em estado permanente de hóspede (até que assumisse o morar lá). Era o melhor dos mundos.

Quando Bebel morreu, as cinzas foram espalhadas no jardim. Lila mandou fazer uma placa, que fincou na grama, com a fotografia da cachorrinha e as datas de nascimento e de morte. Deu uma igual, num discreto porta-retratos, para Branca colocar na estante da sala. Pequenas delicadezas são sempre encantadoras. Branca as aceitava. Até Canela, a vira-lata adotada depois da morte de Bebel, cedera aos encantos de Lila. Não voltara para o Jardim Botânico depois da última viagem de Branca, a trabalho. Sim, podiam existir pessoas boas no mundo.

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